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08 de março de 2021

Está tudo muito difícil, sabemos. A pandemia causou mais impactos na vida das mulheres brasileiras, que sofrem ainda mais violência doméstica e sobrecarga de trabalho. O desemprego também afetou mais a elas, e sem o auxílio emergencial, muitas chefes de família estão em situação de vulnerabilidade social.

São as mulheres, também, as principais profissionais na linha de frente do combate ao coronavírus. Há um ano, elas enfrentam jornadas exaustivas, em casa e no trabalho, somadas ao medo de se contaminar e levar o vírus para seus entes queridos.

No meio acadêmico, a produtividade das mulheres despencou, reflexo das desigualdades de gênero e também de raça. Uma pesquisa mostrou que os grupos mais impactados foram os das mulheres negras (com ou sem filhos) e das mulheres brancas (com filhos de até 12 anos).

O dia internacional das mulheres sempre foi uma data de lutas e neste 08 de março de 2021, fazemos coro à Maria Bethânia: queremos vacina, respeito, verdade e misericórdia.

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Nas ruínas da sociedade, a literatura faz humanos: a pesquisa de doutorado de Melissa Sá sobre distopias femininas.

Arte de Renee Nault para a adaptação de The Handmaid’s Tale para graphic novel (2019)

A relação entre literatura e sociedade – tanto a sociedade que a produz como a que a lê, nem sempre coincidentes – é uma questão basilar dos estudos literários e também uma resposta possível para a eterna e incômoda pergunta “para que serve literatura?”. A tese de doutorado “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”[1], defendida pela professora Melissa Cristina Silva de Sá na Universidade Federal de Minas Gerais em 2020, oferece dois caminhos muito interessantes para pensarmos aquela relação a partir de um só gênero literário.

A proposta de Melissa Sá é buscar entender de que forma o ato de narrar uma história está associado com aquilo que nos torna humanos, e como essa questão aparece em romances distópicos escritos por mulheres a partir dos anos 2000. Os três romances selecionados por Sá para traçar características comuns do tema foram The Telling (2000), de Ursula K. Le Guin, ainda não traduzido no Brasil, The Stone Gods (2007 – em português, Deuses de Pedra), de Jeanette Winterson, e MaddAddam (2013 – em português, MaddAdão), de Margaret Atwood, a qual ficou muito conhecida por aqui depois do sucesso do seriado The Handmaids’ Tale (O conto da Aia), baseado em seu romance de mesmo título. Além desses três títulos, Sá traz muitos outros exemplos de romances distópicos escritos por mulheres para embasar suas análises e reforçar seus argumentos, mantendo, porém, um recorte de obras em língua inglesa. Apesar de a maioria das autoras estudadas serem norte-americanas ou canadenses (Winterson é a única britânica) e brancas, há também o multiculturalismo que se reflete, por exemplo, nas obras de Nalo Hopkinson, de origem jamaicana, e Nnedi Okorafor, de família nigeriana. Desta última, vale destacar o romance Who Fears Death (Quem Teme a Morte, 2010), o qual retrata uma sociedade dividida violentamente entre duas etnias, remetendo-se ao massacre de Ruanda de 1994 e o conflito entre as etnias Hutu e Tutsi.  

Ursula K. Le Guin e sua obra The Telling

Para Sá, esses romances selecionados continuam uma tradição da ficção científica feminina, como visto em outras obras de Atwood e Le Guin, ou ainda em Octavia Butler, de questionar e descartar características “tradicionais” desse gênero literário solidificadas nos romances escritos por homens, mas vão além ao direcionarem seu foco para a questão da narração e para o compartilhamento de experiências via narração como características não só humanas mas também humanizantes. Ou seja, ao invés de propor que a narração tem a capacidade de tornar as pessoas mais humanas – algo que o sempre relevante Antonio Candido já propôs em “O Direito à Literatura” (1988) –, essas obras vão humanizar criaturas não-humanas, como aliens, robôs e seres criados geneticamente, exatamente pela sua capacidade de se apropriar do ato de narrar e de compartilhar experiências.

Outro ponto em comum nas obras estudadas por Sá é a forma como a narração tem um grande poder de impactar aquela sociedade que está “perdida”. As distopias normalmente trabalham com um cenário negativo, como pós-apocalíptico, autoritário, violento, de desesperança, etc., mas a narração traz em si a possibilidade de se criar um novo mundo ou de alterar significativamente aquele já existente. Nas palavras de Sá, “esses romances enfatizam de maneira contundente como o ato de narrar cria e molda não só indivíduos mas também sociedades. A linha que divide ficção realista e não-realista é borrada nesses romances selecionados porque, em alguns, histórias literalmente mudam o mundo, assim como personagens, ao reescreverem um livro, também reescrevem a história e a memória de uma sociedade (…). Histórias e suas consequências são uma constante na ficção distópica escrita por mulheres, e elas são os meios para a mudança”[2] (p.33, tradução minha).

Jeanette Winterson e seu romance Deuses de Pedra

E por que isso é importante? Distopias, afirma Sá, são baseadas ou trabalham com medos coletivos específicos da sociedade em que o autor vive – esses medos são colocados em prática nessas obras no pior cenário possível, obrigando os leitores a experimentá-los. Dessa forma, podemos dizer que a literatura tem raízes profundas na sociedade que a produz, mesmo que essa relação não seja sempre óbvia. Como consequência, a ficção científica distópica, para falar desse gênero em específico, também é um lugar privilegiado de reflexão sobre aquela sociedade e, por que não, um instrumento de transformação. Leitores, confrontados com realidades aterrorizantes, são desafiados a se questionarem, a enfrentarem os problemas que aquela obra apresenta, e a tentarem mudar a sua própria realidade. Os romances estudados por Melissa Sá, por tratarem da narração como possibilidade criativa, humanizadora e produtora, são eles próprios, portanto, exemplos de como se dá a relação entre literatura e sociedade. Ainda mais, a pesquisa de Sá tem o valor de levantar as questões propostas por cada uma das obras estudadas, questões atuais e que nos dizem respeito, e nos forçar a pelo menos tentar respondê-las.

Para compreender melhor a pesquisa de Melissa Sá, esse gênero literário tão intenso e também as pesquisas acadêmicas na área de Estudos Literários, realizei uma breve entrevista com a autora, que reproduzo a seguir. Espero que muitos fãs de ficção científica confiram a tese de Sá, disponível no repositório da UFMG, e que muitos outros se tornem fãs desse gênero depois de ver um estudo tão cuidadoso e instigante. Caso a língua inglesa seja uma barreira, ao final há indicações de outras publicações de Sá sobre o assunto. E, obviamente, fica a dica para a leitura dos romances citados nesse artigo e na tese.

Margaret Atwood e a edição brasileira de MaddAdão

Entrevista:

CF: Por que você escolheu fazer um recorte de distopias escritas apenas por mulheres? Haveria uma relação entre a experiência do gênero feminino na atualidade com essa preocupação central com a narração, ou com o ato de narrar/contar?

MS: Escolhi trabalhar distopias escritas por mulheres como uma forma de mapear essas autoras e analisar a visão social apresentada em seus romances. Meu foco é esse desde minha iniciação científica em 2010 e essa pergunta sobre o recorte feminino sempre aparece, de diversas formas. Engraçado porque, muitas vezes, um recorte exclusivamente masculino não provoca nenhuma necessidade de justificativa. Isso diz muito do que socialmente é aceito como uma amostra literária de um gênero.

Distopias estão sempre entrelaçadas com as questões contemporâneas do tempo em que foram escritas e acredito que no século XXI existe uma inquietação narrativa. Em meio a tantas narrativas possíveis, fake news e histórias fabricadas, há uma necessidade de se contar a própria história, de se narrar o que se viveu; uma busca pelo “autêntico”. Para as mulheres, mostrar a validade de suas experiências sempre foi algo central no movimento feminista, mas acredito que nos últimos vinte anos essa necessidade de contar sua própria experiência, narrar a si mesma, tem se tornado mais latente. Temos como exemplos movimentos como o Me Too, que abriu as portas para relatos de abusos na indústria do cinema, algo que sempre foi conhecido, mas até então essas histórias não tinham rostos, não tinham protagonistas. No Brasil, a Lei Maria da Penha de 2006 deu forma e nome à violência contra a mulher. Essas narrativas contribuem para balancear o jogo do poder da narrativa dominante, que, como se sabe, ainda é predominantemente masculina, branca, heterossexual e elitizada. Assim, não é surpreendente que as distopias escritas por mulheres nesse século estejam tão ligadas a essa questão. É uma inquietação do nosso tempo.

CF: Você define distopia como um retrato de uma sociedade que é pior que aquela em que o leitor/autor vive, baseada em medos coletivos. Quais medos você acredita que estão por trás dessa preocupação com a narração?

MS: O medo de ter sua experiência de vida desvalidada, ser silenciada, ter justificado o abuso com seu corpo. Mas acredito que, principalmente, o medo de que as coisas fiquem as mesmas, que as mesmas vozes continuem a ser ouvidas e que não haja mudança social radical.

CF: Você considera possível extrapolar a questão da narração e pensar a arte como um todo na definição do que nos faz humanos? Como essas distopias abordam, se abordam, outras formas de arte que não a literatura?

MS: O Brian Boyd, um dos teóricos que utilizo em minha pesquisa, trabalha com essa premissa: de que a arte nos faz humanos e que a narração é uma forma de arte. Apesar da narrativa ter proeminência nos romances selecionados para minha pesquisa, outras formas de arte também estão presentes. É o caso da trilogia MaddAddam, da Margaret Atwood, em que os seres geneticamente modificados a partir de humanos, os Crakers, começam a desenvolver formas de arte como a representação imagética, a dança e a música. Essa relação com a arte os faz ser considerados humanos não apenas pela leitora, mas também pelos demais personagens do romance.

CF: Pensando na conexão inescapável entre raça, classe e gênero, você encontrou nos romances escolhidos essa inter-relação? Se sim, ela se relaciona com a questão da narração?

MS: Apesar de o foco principal ser o questionamento daquilo que é humano, raça, classe e gênero atravessam os romances. Até mesmo porque o humano tradicionalmente foi associado ao masculino, branco, heterossexual e culto/elitizado durante séculos. O que se desvia dessa norma é frequentemente considerado mais próximo ao animal, à natureza, ao que é selvagem. Os romances selecionados muitas vezes se utilizam dessa crítica à categoria humano justamente para mostrar o quanto ela é construída com base nesses preconceitos e nesse pequeno recorte do que na verdade é a humanidade e em como essa ideia de “humano” desumanizou pessoas ao longo dos séculos para justificar genocídio e escravidão.

As escritoras Nalo Hopkinson, Nnedi Okorafor e N. K. Jemisin

Alguns romances fazem a crítica a raça, classe e gênero de uma forma mais contundente, como é o caso de Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor, em que uma mulher preta e pobre, considerada menos humana pelo povo que subjuga o seu, usa sua própria história e seus poderes mágicos para contestar a cultura dominante. O mesmo acontece com a trilogia A Terra Partida, de N.K. Jemisin, em que a narrativa que literalmente irá moldar o mundo é feita a partir de uma pária social que desafia o discurso dominante e propõe ideias e valores mais igualitários para uma sociedade futura.

CF: Para além da intenção do autor ao escrever o romance, você aponta para a importância do papel do leitor na recepção da obra, em especial no processo de reconhecimento da sociedade distópica como uma extrapolação, ou exagero, de um medo que ele, o leitor, também tem. Nesse sentido, distopias podem ficar “datadas”?

MS: Seguindo essa perspectiva, sim. A distopia como a conhecemos hoje ainda é um gênero recente, fruto do século XX, e muitas questões propostas por obras no início desse século ainda são medos coletivos muito presentes na nossa sociedade como o medo da perda de direitos, do apagamento do indivíduo, do autoritarismo, da desigualdade social e da escassez de recursos naturais. Talvez, num futuro, esses medos não sejam mais uma preocupação presente e leitores das próximas décadas ou séculos possam ter dificuldade de entender a trilogia MaddAddam, de Margaret Atwood, ou mesmo Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Essa é uma visão esperançosa.

CF: Por último, para ajudar aqueles leitores que querem entrar no mundo da pesquisa acadêmica na área de Literatura, você pode explicar um pouco como foi o processo para criar o seu projeto de pesquisa de doutorado, do surgimento da ideia até a concepção de um objetivo e problema de pesquisa?

MS: Minha trajetória com esse tema começou em 2010, ainda na Iniciação Científica, quando pesquisei o romance Oryx e Crake, de Margaret Atwood. A partir daí, continuei os estudos da utopia e da distopia, o que culminou na minha dissertação de mestrado que foi sobre como a narrativa se constitui uma estratégia de sobrevivência nos romances Oryx e Crake e O ano do dilúvio, de Margaret Atwood.

Para o doutorado, foquei em uma questão que me deixou inquieta na conclusão da minha dissertação, que era a ideia de que a narrativa talvez fosse um assunto proeminente em obras distópicas escritas por mulheres no século XXI. Comecei, então, a ler distopias recentes e prestar atenção se a questão da narrativa aparecia de alguma forma e me deparei com cada vez mais e mais livros escritos por mulheres que tinham esse tema como algo central. No entanto, tudo ainda estava em um caráter observacional e não muito consolidado.

Para montar o projeto de doutorado, tive que levantar uma hipótese que poderia ou não estar errada. Simplesmente dizer que a narrativa era uma questão presente nessas obras não era o suficiente para sustentar um argumento acadêmico, então comecei a pensar com o que a narrativa se relacionava, para que fins era usada dentro dessas obras. Foi assim que me deparei com a questão de desafiar aquilo que é humano.

Com essa proposição formulada montei meu projeto e me amparei muito no trabalho de Ildney Cavalcanti, que mapeou as distopias das décadas de 80 e 90 em sua relação com a linguagem. Foi quando decidi que precisava de um volume maior de romances para dar corpo ao meu argumento. Diferente do meu mestrado, onde foquei na análise de duas obras, com esse projeto eu estava tentando definir uma tendência dentro de um gênero e para isso precisava de um corpus mais extenso. Cheguei ao número de trinta e oito romances distópicos publicados em língua inglesa entre os anos 2000 e 2018 selecionados para a tese. Para compor esse corpus, escolhi obras de literatura infanto-juvenil, jovem adulto e adulto que tivessem como tema central a questão da narrativa para questionar o que é humano.

Eu me deparei então com a impossibilidade que é analisar profundamente trinta e oito romances. Então decidi, já no projeto inicial, focar em três livros: The Telling, de Ursula K. Le Guin, Os deuses de pedra, de Jeanette Winterson, e MaddAddamm, de Margaret Atwood. Esses três livros delimitam as três pontas do triângulo dessa tendência de usar a narrativa para questionar o que é humano: histórias fazem os humanos melhores, histórias definem os humanos e histórias são a fundação de uma nova humanidade. A escolha desses romances se deu porque eles mais explicitamente exemplificam essas ideias e os demais livros foram agrupados de acordo com essas categorias e analisados pontualmente.

Ao longo da escrita da tese, novas ideias foram surgindo, bem como novas perspectivas de análises, mas esse foi o alicerce no qual me baseei desde a concepção do projeto inicial.

CF: A sua tese está escrita em língua inglesa. Além das publicações listadas abaixo em língua portuguesa, têm outras indicações para interessados no tema?

MS: Indico o trabalho do grupo Literatura e Utopia, que tem vídeos de seu último evento online no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Uuf7HRep7Ls

Também dá para acompanhar o trabalho do grupo de estudos que faço parte, o Neufic – Núcleo de Estudos de Utopismos e Ficção Científica. Para saber das datas dos encontros, basta assinar a Newsletter:

Referências

CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura” (1988) in Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017, p.169-1941.

SÁ, Melissa Cristina Silva de. “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/34288

SÁ, Melissa C. S.. O duplo como paródia em O Ano do Dilúvio. EM TESE (BELO HORIZONTE. ONLINE), v. 23, p. 275, 2018. Disponível em http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/11764

SÁ, Melissa C. S.. Corpo e violência em Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood. In: Luciana Calado Deplagne; Ildney Cavalcanti. (Org.). Utopias sonhadas / Distopias anunciadas: feminismo, gênero e cultura queer na literatura. 1ed.João Pessoa: UFBP, 2019, v. , p. 131-148.


[1] “Histórias que nos fazem humanos: distopias do século XXI escritas por mulheres” – a tese foi redigida em inglês porque foi desenvolvida na área de concentração de Literaturas de Língua Inglesa no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da FALE/UFMG.

[2] No original: “these novels strongly emphasize how storytelling creates and shapes not only individuals but societies too. The line between realistic and non-realistic fiction is blurred in the selected novels, because in some of them stories literally change the world, as characters, by rewriting a book, also rewrite the history and memory of a society using unexplained magical powers. Stories and their aftermaths seem a trend in women’s dystopian fiction, and they are the means of change”

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A coluna de ciências humanas e sociais em 2021

Nos últimos anos, no Brasil, as ciências humanas e sociais têm sofrido ataques ideológicos e cortes de verbas. Por exemplo, em março de 2020, o governo federal excluiu essas áreas do edital de bolsas de iniciação científica do CNPq para priorizar as “tecnológicas”, consideradas como áreas que dão suposto “retorno imediato”. Tal pensamento, errôneo e simplório, não é capaz de perceber a extrema importância das pesquisas de humanas e sociais para a sociedade brasileira. Mesmo agora, enquanto aguardamos a tão esperada vacinação possibilitada pelos esforços de milhares de cientistas mundo afora, percebemos que as humanas e sociais são sim fundamentais. Por exemplo, muitos procuraram na história respostas para o momento em que vivemos. As pesquisas sobre outras pandemias, em especial a da gripe espanhola em 1918, nos mostram que esta também vai passar e comemoraremos o próximo carnaval de forma ainda mais intensa do que em 1919. Já a sociologia aponta o papel central que o SUS tem, não só no combate à pandemia, mas no sistema de saúde como um todo, principalmente em um país tão desigual quanto o Brasil.

A pandemia de covid-19 nos mostrou, também, que precisamos de arte. As lives de artistas, os livros, os filmes têm nos ajudado a suportar esse período tão difícil com mais leveza. Além disso,as pesquisas sobre esses produtos culturais são essenciais para compreender como as sociedades produzem e consomem esses bens.

Precisamos, mais do que nunca, de saúde mental. Pesquisas têm mostrado como houve aumento e agravamento no número de transtornos mentais durante a pandemia. Mapear e pensar estratégias é imprescindível e as ciências humanas e sociais têm papel central na análise e resolução desses problemas.

Estes foram apenas alguns exemplos de como as ciências humanas e sociais são importantes durante a pandemia, mas essa importância se estende muito além. Nas palavras de Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências: “As ciências humanas e sociais têm um alcance amplo e importante para o futuro do país, muito além de um retorno imediato: ensinam a pensar, condição necessária para a construção de uma sociedade ilustrada, democrática e produtiva.”

Por tudo isso, decidimos que, neste ano de 2021, aqui no blog das Cientistas Feministas, a coluna de ciências humanas e sociais vai privilegiar as pesquisas recentes desenvolvidas no país por jovens pesquisadoras, em universidades públicas. Embora maioria nessas áreas, as mulheres, com bastante frequência, ainda não têm seu trabalho reconhecido e as pesquisas feitas pelos pares masculinos acabam recebendo mais destaque. Assim, durante todo o ano de 2021, as leitoras e leitores do blog poderão descobrir pesquisas recentes feitas por cientistas brasileiras durante seus mestrados e doutorados em instituições de ensino e pesquisa públicas, tão fundamentais para o desenvolvimento de nossa ciência.

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Pandemia de COVID-19: Quando a Saúde precisa encontrar as Ciências Humanas

Créditos: Canva

Nos últimos dias, temos acompanhado o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas, especialmente na capital, Manaus, que sofre com a falta de cilindros de oxigênio nos hospitais. Situação que se agrava diante do recorde de internações por COVID-19 na cidade.¹ Para piorar, muitas pessoas estão infectadas pelo que foi identificado como uma nova cepa do vírus, ou seja, uma nova variante dele, que parece capaz de se espalhar mais depressa dos que as outras cepas até então verificadas no país.² Tudo isso integra um preocupante cenário mais amplo: o Brasil tem, hoje, a maior média diária de casos de COVID-19 desde o início da pandemia. São mil mortes diárias pela doença.³ O número assusta, mas não se pode dizer que surpreende.

Desde a primeira quinzena de agosto de 2020, o infectologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia, alerta para a subida da curva de óbitos na capital amazonense. Em setembro, os números continuaram subindo. A equipe de Orellana, então, recomendou o lockdown ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Secretaria de Saúde do Estado.² Apesar do aumento do número de mortes e casos confirmados de COVID-19 no Amazonas, o governador Wilson Lima cedeu às pressões dos comerciantes e permitiu a reabertura do comércio não essencial: bares, restaurantes, cinemas, casas de show.4 O estímulo à economia serviu de justificativa para a retomada de atividades comerciais que, meses depois, elevariam ainda mais o número de infectados e de mortes.

Manaus não foi a única capital a ignorar pesquisadores e profissionais de saúde. O Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DMIFC-UERJ), em cartas abertas ao público, há meses aponta como o enfrentamento à pandemia tem evoluído de forma equivocada e lenta no país, com negação de sua gravidade ou mesmo de sua existência. Em dezembro de 2020, o DMIFC-UERJ alertou que, enquanto protocolos de saúde estavam sendo flexibilizados e acelerados, com grandes interesses econômicos e políticos envolvidos nessa corrida, não havia movimentação para garantir os recursos necessários à aplicação da(s) futura(s) vacina(s), treinamento de profissionais ou ao estabelecimento da logística de distribuição — problemas que se refletem hoje, no baixo número de vacinas disponíveis até mesmo para um único segmento dos grupos prioritários.5 À época, não havia sequer trabalhos coordenados nas esferas municipal, estadual e federal para garantir uma vacinação segura.

A denúncia se torna mais grave ao considerarmos a existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é responsável pela aplicação de mais de 300 milhões de doses anuais de vacinas, soros e imunoglobulinas por todo o território nacional. Contudo, o desmonte do SUS afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. “A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública”, esclarece Maria Inez Padula Anderson, professora do DMIFC-UERJ, em entrevista concedida também em dezembro ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Ela continua: “Todas as informações — que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde — só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica”. Por fim, sentencia: “O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem — de forma proativa e deliberada — desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”.

Vale lembrar que profissionais de saúde de boa parte dos Estados permanecem sem instruções claras de como funcionará o início do processo de imunização no Brasil. Além disso, muitos profissionais de saúde, entre eles, os médicos da rede pública do Rio de Janeiro, têm atuado em condições precárias, com atraso ou falta de pagamentos, cortes nos direitos trabalhistas e escassez de equipamentos de proteção individual adequados durante a pandemia.6 Até o dia 14 de janeiro de 2021, entre os nove Estados que abrigam a Amazônia brasileira, foram registrados 739 falecimentos de indígenas, pertencentes a 103 povos distintos. Apesar disso, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, o Ministério da Saúde pressionou a distribuição de tratamento precoce contra COVID-19 pela rede pública de saúde estadual e municipal. O chamado kit covid contém remédios com cloroquina, hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina e até do antiparasitário ivermectina, que são administrados como tratamento preventivo para a doença, mesmo sem terem eficácia comprovada.7 Diferentes cidades da região norte do Brasil já decretaram estado de calamidade pública devido à falta de condições para atender aos infectados pela COVID-19. Pessoas estão morrendo em casa, por sufocamento — dos pulmões e dos hospitais.

Nessas horas, o diálogo com as Ciências Humanas seria proveitoso. Os estudos sociais apontam, há décadas, que não existe economia fortalecida com uma população fragilizada. Que comportamentos individuais se inserem dentro de conjunturas mais amplas, que devem ser levadas em consideração. Que todo discurso é dotado de intencionalidade, contribuindo para determinadas agendas. Por isso, devemos nos atentar aos interesses por trás dos discursos proferidos pelos principais responsáveis (Governo Federal, Ministério da Saúde, institutos de pesquisa, laboratórios farmacêuticos etc.) pelo gerenciamento da pandemia. Eles visam o bem maior? Têm embasamento empírico, ou seja, se apoiam no registro de fenômenos e estudos que acontecem durante o cenário pandêmico?

Na área de Comunicação Social, particularmente, existem trabalhos dedicados a mapear redes de informação (ou desinformação), buscando entender como essas comunidades se formam, os agentes que as sustentam, os valores e pautas que nelas circulam, os arranjos (inclusive midiáticos) que permitem sua continuidade.8 Diferentes estudos apontam que as mensagens que alguém assimila e transmite dialogam com aquilo em que já acredita ou que gostaria que se comprovasse. Isso reforça sua visão de mundo, constrói sensação de segura. Para dialogar com essas pessoas, portanto, seria preciso entender de que referenciais elas partem ao ler os acontecimentos e notícias ao seu redor. Assim, é possível pensar estratégias de comunicação adequadas para alcançar diferentes grupos sociais de forma mais eficiente, checando como as mídias (tradicionais ou não) podem ser acionadas nesse processo. Foi esse o esforço empreendido na China para orientar a população sobre os cuidados necessários para conter a circulação do coronavírus, que se deu com apoio da Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Ela abriga um departamento de comunicação científica, cuja função é servir de ponte entre os pesquisadores e o público para promover a compreensão da ciência. Durante a pandemia, a CAST garantiu que as campanhas informacionais alcançassem cada canto do território chinês, por variados meios: mídia impressa, rádio, TV e plataformas online. 9

Por outro lado, existem indivíduos e veículos comunicacionais que deliberadamente disseminam informações distorcidas ou falsas, tendo em vista algum objetivo (político, social, econômico) que os contemple. É necessário mapear esses agentes, aplicando sobre eles penas correspondentes ao dano que tenham causado. Reformulações nas leis vigentes propostas por pesquisadores e profissionais do Direito, da Comunicação, das Ciências Políticas e de áreas afins buscam atualizar o código penal para que abarque crimes como o espalhamento intencional de fake news.10

A junção dessas diferentes análises e pesquisas permite traçar planejamentos mais assertivos por parte dos poderes públicos. Por exemplo, o isolamento social de uma faxineira que ganha salário mínimo e divide um sobrado com outras cinco pessoas é diferente do isolamento social de um engenheiro que recebe salário alto, mora em um apartamento espaçoso e consegue trabalhar de casa. Para evitar que pessoas que se encaixam na primeira categoria se exponham ao vírus para complementarem a renda, um auxílio-emergencial de maior valor deve ser concedido a elas, em tempo hábil. Assim como a comunicação sobre o isolamento social dirigida à faxineira e ao engenheiro precisa ser capaz de dialogar com as vivências de cada um deles.

Conversar com representantes de comunidades ou grupos sociais, entender suas demandas, conhecer seu estilo de vida. Entre outros efeitos, esses métodos, comuns em trabalhos qualitativos nas Ciências Humanas, facilitariam a implementação de hábitos recomendados pelos pesquisadores para reduzir a circulação do coronavírus entre moradores de determinadas regiões de uma cidade ou Estado. A área de Humanidades aponta e registra problemas que, posteriormente, podem ser resolvidos por intervenções de outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, há empresas que adotam o trabalho remoto. Em outras, os funcionários precisam trabalhar presencialmente, seja porque sua atividade só pode ser desempenhada dessa forma, seja por se tratar de uma decisão empresarial que não considera o contexto pandêmico.11 Esses trabalhadores precisam utilizar o transporte público tanto na ida quanto na volta do trabalho. É necessário, portanto, realizar um planejamento para que não haja aglomerações no trajeto que esses trabalhadores costumam fazer. E assim por diante.

Como os pesquisadores da Saúde, os cientistas de Humanas também prezam pela integridade e dignidade do ser humano, entendendo que ele se insere em um corpo social. Corpo este que rege todas as relações e estruturas que atravessam as pessoas e as comunidades às quais pertencem. Se a pandemia ensina algo, é que o bem mais valioso que temos é a vida. Ensinamento que os povos originários sul-americanos há muito já transmitem, e vêm sendo retomado nos trabalhos de diferentes cientistas sociais (muitos deles, também indígenas). No combate à COVID-19, as Ciências Biológicas salvam vidas. A luta das Ciências Humanas é assegurar que as vidas salvas sejam acolhidas, para que pulsem com saúde, respeito, potência, construindo um Brasil mais funcional e justo.

1 G1 AM. Superlotado, maior pronto-socorro do AM recusa novos pacientes. [15/01/2021]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/01/15/superlotado-maior-pronto-socorro-do-am-para-de-receber-novos-pacientes.ghtml

2 Uol Notícias. ‘Explosão de casos em Manaus é de nova cepa’, aponta infecciologista. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2021/01/15/explosao-de-casos-em-manaus-e-de-nova-cepa-aponta-epidemiologista.htm

3 Agência Brasil. Covid-19: Brasil tem 8,39 milhões de casos e 208,1 mil mortes. [15/01/2021]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/covid-19-brasil-tem-839-milhoes-de-casos-e-2081-mil-mortes

4 G1 AM. Publicado decreto que estabelece as regras de reabertura do comércio no Amazonas. [28/12/2020]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/12/28/publicado-decreto-que-estabelece-as-regras-de-reabertura-do-comercio-no-amazonas.ghtml

5 Uol Notícias. Secretário de SP admite início tímido de vacinação e projeta mais doses. [18/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/secretario-de-sp-admite-inicio-timido-de-vacinacao-e-projeta-mais-doses.htm?cmpid=copiaecola

6 Conforme denunciado pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Ver mais em: https://www.facebook.com/SinMedRio/posts/1691484071032730

7 Uol Notícias. MPF investigará prioridade à cloroquina e não ao oxigênio em Manaus. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/mpf-investigara-improbidade-por-prioridade-a-cloroquina-e-nao-ao-oxigenio.htm

8 Thaiane Oliveira tem trabalhado os conceitos de desinformação científica e fake sciences ligadas à saúde. Para mais investigações sobre redes de desinformação, checar os trabalhos de Afonso de Albuquerque, Viktor Chagas e Marcelo Alves. Todos os pesquisadores aqui referidos pertencem ao PPGCOM UFF.

9 Na província chinesa de Zhejiang, por exemplo, medidas de comunicação científica multinível foram adotadas para prevenção e controle de doenças, o que inclui a COVID-19. Ver mais em: https://go.nature.com/3p4mwYT

10 ConJur. Especialistas afirmam: ‘Lei das Fake News’ é fundamental para o Brasil. [10/07/2020]. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/especialistas-afirmam-lei-fake-news-fundamental-brasil

11 A precarização do trabalho durante a pandemia tem sido tema de discussão em diferentes áreas e trabalhos das Ciências Humanas. Checar, por exemplo, a entrevista concedida ao Jornal da USP por Wilson Amorim, professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-da-covid-19-acentuou-precarizacao-das-relacoes-de-trabalho/

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Receita Molecular de Arroz Soltinho

Apesar das dificuldades profundas em diversos setores, inclusive o econômico, o Brasil ainda está entre as 10 maiores economias do mundo. O setor do agronegócio, referente à agricultura e pecuária, contribui com cerca de 21% do PIB. A Embrapa é fundamental para esse sucesso, tendo quadruplicado a oferta de carne bovina e suína e aumentado em 22 vezes a oferta de frango. Isso impulsionou o país a ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais. 

A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, é uma empresa pública criada em 1973 e vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ela é uma das mais importantes instituições de pesquisa brasileiras e foca na produção de alimentos, fibras e energia. A Embrapa emprega grandes pesquisadores, possui excelente infraestrutura e utiliza tecnologia de ponta, como a CRISPR/CAS9. Essa tecnologia de edição gênica se destaca no cenário mundial por ser relativamente simples, versátil, barata e extremamente específica. Além da pesquisa, majoritariamente aberta, são produzidos também na Embrapa materiais voltados para a comunidade científica e também para o público em geral. Um desses materiais foi disponibilizado recentemente, e é um livro teórico e prático sobre a tecnologia CRISPR aplicada a plantas (pdf).

Descrição da imagem: capa do livro técnico “Tecnologia CRISPR na edição genômica de plantas”. Créditos: Embrapa Agroenergia.

Esse livro é produto do novo projeto da instituição CRISPRevolution, que visa a “melhoria da qualidade nutricional, industrial e da tolerância ao déficit hídrico de espécies de interesse agronômico”. Na apresentação do livro, o Chefe-Geral da Embrapa Agroenergia, Alexandre Alonso Alves, escreve que o intuito do livro é “promover ciência de ponta e desenvolver produtos e processos inovadores [e também] atuar numa estratégia de disseminação do conhecimento científico.”

Existem enormes desafios na agricultura atual, incluindo o abastecimento de alimentos para a população, a obtenção de bioenergia e a sustentabilidade da produção. Cientistas contribuem para isso com o desenvolvimento de variedades vegetais com maior teor e qualidade nutricional, assim como com maior resistência a pragas e a estresses ambientais como seca e salinidade. 

Como exemplos de melhorias, o livro menciona pesquisas com o arroz. Esse grão, tão importante na nossa alimentação diária, é composto pelo carboidrato amido, o qual é formado por dois polissacarídeos, amilose e amilopectina. A proporção deles  é refletida nas propriedades do arroz. Variedades com alto teor de amilose produzem grãos firmes que se separam melhor após o cozimento (o nosso conhecido “arroz soltinho”). Um teor menor de amilose, por sua vez, produz grãos mais macios que se aglutinam mais. Dois grupos independentes de pesquisa conseguiram reduzir o teor de amido em três variedades diferentes de arroz de cerca de 17% para 2.5% usando a tecnologia CRISPR. O efeito inverso também foi obtido por outro grupo de pesquisa, que aumentou o teor de amilose, gerando um grão que ajuda a reduzir riscos de doenças crônicas. Todas essas pesquisas  foram feitas por meio de silenciamento de genes do arroz com a CRISPR.

Descrição das imagens: variedades de arroz: mais soltinho (à esquerda) e japonês, mais aglutinado (à direita). Créditos: Site Panelinha e Amapola in Amino.

A CRISPR também é utilizada para diminuir características indesejáveis em plantas de interesse comercial. A proteína do glúten, por exemplo, desencadeia a doença celíaca, que afeta entre 0.7%–2% da população mundial. Essas pessoas têm uma reação inflamatória grave a essa proteína, encontrada no trigo e produzida por 100 genes diferentes. Essa enorme quantidade de genes envolvidos é um grande problema para tecnologias convencionais de edição gênica, que não são capazes de gerar variedades de trigo com baixo nível de glúten ou baixa reação inflamatória. Usando apenas dois RNA-guias associados à CRISPR, um grupo de pesquisa já conseguiu produzir linhagens de trigo com baixo teor de glúten, e redução de 85% da inflamação.

Para ilustrar o quanto os processos mencionados são complexos, veja a figura abaixo, que resume as etapas de um tipo de edição gênica via CRISPR. Primeiro, os pesquisadores devem selecionar os genes ou vias metabólicas de interesse. Depois, eles devem desenhar o RNA-guia (um composto do sistema CRISPR) e validar o desenho no laboratório. Posteriormente, o sistema deve ser inserido na planta (passo número 5) por meio de um vetor molecular. Finalmente, deve-se avaliar as plantas editadas (passo número 6) para verificar os efeitos da edição.

Descrição da imagem. Etapas de edição gênica via CRISPR e recombinação homóloga de DNA. Créditos: Embrapa Agroenergia (livro técnico sobre a tecnologia CRISPR)

Os resultados apresentados nesse artigo são extremamente promissores. Entretanto, é importante lembrar que existem diversos outros passos requeridos até que essas plantas melhoradas possam chegar às prateleiras dos mercados. Esses passos envolvem pesquisa, validação, avaliação de riscos à saúde, regulamentação e legislação. O primeiro produto comercializado com genoma editado por CRISPR foi o óleo de soja com alto teor oleico. Isso ocorreu nos Estados Unidos em fevereiro de 2019. Tudo indica que no futuro existirão mais produtos melhorados disponíveis para a população. 

Referências

Molinari HBC, Vieira LR, Volpi e Silva N, Prado GS, Lopes Filho JH. “Tecnologia CRISPR na edição genômica de plantas”. Livro de publicação digital, Embrapa Agroenergia. 2020

CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). “Panorama do Agro“. Artigo digital. 2020

Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). “Quem somos”. Portal digital. Acessado em 2020

Atualização (14/12/2020):

Na versão anterior desse artigo (do dia 10/12/2020), constava que os trabalhos feitos na Embrapa são majoritariamente confidenciais, o que é incorreto. A maioria das tecnologias produzidas na Embrapa é livre e pública. Isso foi corrigido na versão atual. Em adição, “tolerância a pragas” foi substituído por “resistência a pragas”, seguindo a terminologia correta de biologia vegetal.

 

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Para melhores dias, mude a sua energia!

Energia é o combustível do universo, sabe-se que é através dela que tudo se transforma, de forma física aos materialistas e de forma espiritual para os mais esotéricos. Ela se faz tão presente a todos os instantes que poucos param para pensar se as energias que nos rodeiam são transformadas de forma mais sustentável, ou não. Muitos focam bastante em como é administrado o dia a dia e “gasta-se” essa energia: ter uma alimentação saudável, beber bastante água, praticar exercícios, enfim, manter mente e corpo saudável. Já a energia que chega nas tomadas é simplesmente aceita. Todo mês vem a conta e as pessoas se limitam a questionar o quanto foi gasto, e não como está sendo produzido. O Brasil, por ser um país continental, possui uma malha energética complexa composta de energias renováveis e não renováveis. Considera-se energia renovável aquela que não produz resíduos na sua geração, e não o impacto de instalação considerado. Assim o país computa uma malha onde mais de 85% de energia é renovável por conta de uma característica muito particular que é a presença da hidrelétricas, conforme observada na figura 1.

Figura 1- Distribuição da Energia Interna do Brasil em 2019. Créditos: EPE (2019).

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética – EPE (BRASIL, 2019), o país produziu nesse ano 651,3 TWh de energia no total. As fontes limpas que comp~eo 85% desse valor são eólica, biomassa, solar, nuclear e hidrelétrica. Um comparativo feito pela Empresa de Pesquisa Energética para o ano de 2016 compara a geração renovável da Matriz Energética Elétrica do Brasil  com todo o mundo.

Figura 2 – Comparação de energia elétrica renovável e não renovável. Crédito: EPE, 2016.

Esses dados podem gerar uma certa comodidade na população vendo o quão superior na produção limpa o país é. Então por que devemos nos preocupar? E a resposta desta pergunta é simples.

Por uma característica geológica, nossa principal fonte de energia limpa vem das usinas hidrelétricas. Em comparação com outras fontes, essa era a forma menos custosa e prática para geração de energia. A ideia de preservação do meio ambiente e a não-geração de resíduos não citam o passivo das suas construções. Inclusive há controvérsias de informações, pois enquanto alguns dizem que ela é totalmente limpa, há um enorme passivo ambiental nas construções das barragens e o impacto irreversível no deslocamento das populações ribeirinhas, além de alagamentos de imensas florestas, processo de eutrofização das represas e seus efeitos sobre a qualidade da água e a emissão de carbono. (Bursztyn, 2020).

A energia hidrelétrica é limpa, porém não é infinita; dependemos dos rios e seus potenciais para que haja luz nas residências, indústrias, cidades. E nos últimos anos o país tem sofrido muito com a falta de chuva: seca de quase sete anos no Nordeste, escassez de água em São Paulo, e neste ano no estado do Paraná, local da 2ª maior usina hidrelétrica do mundo, a quantidade de chuvas foi muito abaixo do nível normal. Sem chuva não há reabastecimento nas represas que foram planejadas por séries históricas (calcula-se o período de maior seca e planeja a barragem para suprir essa deficiência). Mas se a crise hídrica atual é maior do que a para qual a usina foi calculada, ela não terá água para gerar energia. É também por isso que precisamos pensar se a energia escolhida no século passado é suficiente para suprir as demandas atual e futura.

Pensando dessa maneira devemos avaliar entre outras formas de produzir energia renovável  quais têm mais potencial para serem desenvolvidas hoje com as novas tecnologias.  Uma das respostas está, literalmente, em cima das nossas cabeças: o Sol.

Como foi visto na figura 1, o Brasil explora pouco a energia solar se comparada às demais energias instaladas e a razão é porque ela depende mais do interesse de cada consumidor do que do governo em si. Usinas solares têm valores de instalações muito elevados em comparação à eólica, por exemplo, e acaba não sendo viável para investir neste tipo de negócio a curto prazo. Mas ela pode transformar uma residência em sua própria usina, não gastando mais para ter luz. É desta maneira que 75% da geração distribuída de energia solar no país é produzida em residências (Moreira Jr. e Souza, 2018).

Uma instalação residencial traz independência da Matriz Energética, ou seja, em casos como o que ocorreu recentemente no Amapá onde o estado ficou 22 dias sem energia elétrica, quem tinha instalação de painéis fotovoltaicos não ficou sem energia.

Algumas pessoas têm dúvida com relação a capacidade de produção, pois a eficiência dos painéis raramente chega a mais de 20%. i Parece pouco, mas a energia solar é abundante e gratuita, além de não prejudicar o meio ambiente, não faltar em outro sistema, e continuar presente, se não for utilizada.

Outra dúvida frequente é a questão de instalação em locais que tem inverno mais rigoroso, com baixas temperaturas por três, quatro meses no ano. A geração de energia fotovoltaica não depende do quanto o Sol pode esquentar uma placa, e sim do uso da incidência do raio eletromagnético que transformará essa onda em energia elétrica. Um exemplo é a Alemanha que segundo Moreira Jr. e Souza (2018) recebe 40% menos incidência solar média que o lugar com incidência mais baixa no Brasil. E mesmo assim lá o investimento em geração fotovoltaica é tão estimulado que eles já detêm mais de 13% de todas as placas solares fotovoltaicas do mundo (figura 3).

Figura 3 – Painéis solares na Alemanha. Crédito: Portal solar (2017).

Usando como base a capital considerada mais fria do país durante o inverno, que é Curitiba, a radiação de plano inclinado, que é o valor usado para cálculo de capacidade de geração, é mostrada na figura 4.

Figura 4 – Incidência solar no plano inclinado em Curitiba 2019. Crédito: Atlas Solar Paraná.

            Já em Fortaleza, conhecida como a Capital da Luz, a incidência é a demonstrada na figura 5.

Figura 5 – Incidência solar no plano inclinado em Fortaleza 2019. Crédito: Cresesb.

 Apesar de haver nitidamente uma irradiação muito maior no verão na cidade nordestina do que em Curitiba, o importante é que a irradiação mínima nos dois casos não é muito diferente, indicando que, apesar do frio, a incidência solar em Curitiba continua viável para a instalação de painéis fotovoltaicos.

Aotimização das placas fotovoltaicas também depende da instalação na residência. A posição e inclinação das placas é fundamental, e para isso o local é fundamental para que o projeto seja eficiente. Posicioná-las voltadas ao Norte e na ausência de sombras são condições ideais, como mostrado na figura 6. Desta maneira a captação ocorrerá da forma mais eficiente, ou seja, aproximando daqueles 20%, falados anteriormente.

Figura 6 – Posição ideal da placa fotovoltaica. Crédito: eletronica-pt.com

       A quantidade de placas instaladas determinará o quanto de energia elétrica será produzida, se o suficiente ou maior do que a casa necessita. Para isso é interessante levantar um histórico de consumo de energia elétrica e observar qual a demanda necessária para a residência. Tendo este valor, e a área do espaço que há possibilidade de instalação, a incidência de plano inclinado e a capacidade de produção da placa por metro quadrado, conseguimos calcular quantas placas são possíveis de instalar e quanto irão produzir.

 Outra decisão importante é a escolha do sistema: on grid ou off grid (figura 7).

Figura 7- Sistema on grid e off grid. Crédito: Diamont Renewables.

       No sistema off grid a instalação é autônoma, independente da rede. A produção, consumo e armazenamento ocorre em um sistema fechado. Sistema ideal para locais remotos de difícil acesso à rede elétrica. O sistema on grid  é ligado à rede elétrica que fica com a sua produção excedente, que pode ser “devolvida” quando o seu sistema produz pouco. Essa “devolução” não envolve dinheiro, mas  funciona com um crédito energético válido por 60 meses que, dependendo do tipo de instalação, o proprietário pode consumir ou transferir para outros consumidores. Muitos usuários utilizam esse crédito para momentos em que a placa não produz, como nos períodos noturnos, geralmente momentos em que o consumo da casa é maior.

       Os custos de compra e instalação dos painéis solares fotovoltaicos estão barateando ao longo dos anos por conta do aumento da demanda. Assim o payback do investimento, ou seja, a compensação entre custo e economia que será feita, que já foi de 10 anos está atualmente em torno de 3 a 4 anos. Depois desse período o sistema gerará energia sem gerar gastos até finalizar a vida útil do equipamento que gira em torno de 25 anos, considerando que a manutenção seja realizada de forma adequada.

       A energia solar fotovoltaica além de se mostrar bastante viável no Brasil é uma forma realmente sustentável de produção: desafoga as linhas hidrelétricas e evita o uso das termelétricas, que são mais poluentes. É uma medida que não traz benefícios somente para o proprietário, mas uma ação humanitária considerando que o planeta é responsabilidade de todos nós.

       Então, quem puder, aproveite, porque o Sol é de todos.

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Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Resolução Normativa n. 687, de 24 de novembro
de 2015. Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2015687.pdf. Acesso em: 26 nov 2020.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Resolução Normativa n. 482, de 17 de abril de 2012.
Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2012482.pdf. Acesso em: 26 nov 2020.

BRASIL. Empresa de pesquisa energética. Balanço Covid-19 – Impactos nos mercados de energia no Brasil: 1º semestre de 2020. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-covid-19-impactos-nos-mercados-de-energia-no-brasil-1-semestre-de-2020. Acesso em: 26 nov 2020.

BURSZTYN, M. Energia solar e desenvolvimento sustentável no Semiárido: o desafio da integração de políticas públicas. Estudos Avançados. [online], vol.34, n.98, pp.167-186, 2020.

MOREIRA JR, O.; SOUZA, C.C. Aproveitamento fotovoltaico, análise comparativa entre Brasil e Alemanha. Revista INTERAÇÕES, Campo Grande, MS, v. 21, n. 2, p. 379-387, abr./jun. 2020.

LIRA, M.A.T.; MELO, M.L.S.; RODRIGUES, L.M.; SOUZA, T.R.M. Contribuição dos Sistemas Fotovoltaicos Conectados à Rede Elétrica para a Redução de CO2 no Estado do Ceará. Revista Brasileira de Meteorologia, v. 34, n. 3, 389 397, jun. 2019


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A ciência enviesada na Nature ou quem tem saudade da Amélia?

No dia 17 de novembro de 2020 foi publicado na Nature Communications um artigo intitulado The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance [1] (que em português seria algo como A associação entre o mentor informal no início da carreira em colaborações acadêmicas e o desempenho de jovens autores). Tal artigo gerou uma grande movimentação no meio acadêmico, especialmente dentre as mulheres. E não é pra menos!

Basicamente o artigo diz que ser orientado por uma mulher é prejudicial para o avanço da carreira de um jovem cientista. É isso: em pleno 2020, preciso ocupar um espaço nessa coluna, que poderia estar sendo preenchido por palavras inspiradoras e ideias sagazes, para re-explicar o óbvio.

Descrição da imagem: mulher muçulmana de costas, escrito ‘treinadora’ em inglês nas costas de sua camisa, segurando uma bola de futebol, com um campo de futebol ao fundo. Criador: Lorado | Crédito: Getty Images


A ciência moderna é feita seguindo o rigor do método científico, mas esse pode ser um caminho com muitas possibilidades a serem percorridas. O que é comum a todos os caminhos é que todo o processo deve ser publicado em um periódico científico no formato de um artigo e esse será revisado por outros cientistas da mesma área de conhecimento, a quem chamamos de pares. Os revisores e revisoras escrevem seus pareceres e recomendam a publicação ou não. Não é incomum que a publicação seja referendada, porém somente após correções no manuscrito original. E isso foi o que aconteceu com esse artigo. Quatro revisores apontaram dúvidas e sugestões no texto original e o artigo foi publicado a despeito de nenhuma mudança ter sido feita (o que não é totalmente impossível de acontecer, mas bastante raro).

Outra observação importante é que os autores (duas dos três são mulheres) assumiram que co-autoria e mentoria são a mesma coisa e não são. A ordem dos autores e autoras de um artigo varia dependendo de cada área do conhecimento, mas não é incomum que pessoas sejam elencadas nesse grupo por serem chefes de laboratório, líderes do grupo de pesquisa, empregadores, criadores de códigos de programação sem sequer terem participado de nenhum processo de orientação ou mentoria.

Sendo um artigo que chega a conclusões atreladas a questões de gênero, é insuficiente que haja apenas um parágrafo falando sobre efeitos de gênero e as teorias envolvidas, que são muitas e nem todas concordam entre si. Sendo assim, não se consegue nem traçar uma linha teórica supostamente eleita pelos autores, deixando a análise com a profundidade de um pires. Ainda nesta linha, percebe-se uma adesão a binariedade de gênero (já altamente contestada na academia e sociedade) tornando a discussão, além de equivocada, excludente para pessoas trans e não binárias.

É inequívoca a inequidade de gênero na academia, já está documentado que mulheres têm menos probabilidade de serem reconhecidas em publicações [2,3], são menos citadas [4-7] e são somadas a isso todas as responsabilidades de cuidadoria familiar que lhes são atribuídas [8,9]. Então, mesmo que não hovessem falhas metodológicas, não causaria estranhamento se os resultados apontassem para esse desigualdade. O que causa preocupação é que eles sugerem a redução de ações institucionais de promoção de mulheres na ciência criadas justamente para reduzir as desigualdades. Não faz muito sentido, faz?

Quando li o artigo, senti-me ouvindo Ataulfo Alves tocando no disco velho da minha avó. Parece que tem gente com muita saudade da Amélia por aí, gente que acha que fazemos exigências demais e que não sabemos o que é consciência [10] só porque não chamamos mais os companheiros de ‘filho’ (como na música) ou porque sabemos exatamente como se faz uma pesquisa científica e não aceitaremos conclusões enviesadas como verdades pétreas.

Felizmente, para além de Ataulfo Alves e Mário Lago, temos a Pitty que desconstrói Amélia quando se pergunta “a despeito de tanto mestrado, ganha menos que o namorado e não entende o por quê” [11]. Encerro com um trecho desta mesma música, em que Pitty diz que não queremos mais ser um outro, queremos ser também. Vida longa às mulheres cientistas, sigamos na luta!

Referências

  1. ALSHEBLI, B.; MAKOVI, K.; RAHWAN, T. The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance. Nature Communications, v. 11, n. 5855, 17 nov. 2020. DOI https://doi.org/10.1038/s41467-020-19723-8. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-020-19723-8#MOESM1. Acesso em: 24 nov. 2020.
  2. BRODERICK, N. A.; CASADEVALL, A. Gender inequalities among authors who contributed equally. eLife, v. 8, 2019. DOI 10.7554/eLife.36399. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6353592/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  3. BUDRIKIS, Z. Growing citation gender gap. Nature Reviews Physics, v. 2, n. 7, p. 346–346, jul. 2020. DOI 10.1038/s42254-020-0207-3. Disponível em: http://www.nature.com/articles/s42254-020-0207-3. Acesso em: 25 nov. 2020.
  4. EAGLY, A. H. Do the social roles that women and men occupy in science allow equal access to publication? Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 11, seç. Commentary, p. 5553–5555, 17 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.2001684117. Disponível em: https://www.pnas.org/content/117/11/5553. Acesso em: 25 nov. 2020.
  5. HUANG, J.; GATES, A. J.; SINATRA, R.; BARABÁSI, A.-L. Historical comparison of gender inequality in scientific careers across countries and disciplines. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 9, p. 4609–4616, 3 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.1914221117. Disponível em: http://www.pnas.org/lookup/doi/10.1073/pnas.1914221117. Acesso em: 25 nov. 2020.
  6. KUO, M. Women miss out on authorship opportunities early on. 16 fev. 2017. Science. Disponível em: https://www.sciencemag.org/careers/2017/02/women-miss-out-authorship-opportunities-early. Acesso em: 25 nov. 2020.
  7. PELLS, R. Understanding the Extent of Gender Gap in Citations. 16 ago. 2018. Inside Higher Ed. Disponível em: https://www.insidehighered.com/news/2018/08/16/new-research-shows-extent-gender-gap-citations. Acesso em: 25 nov. 2020.
  8. SCIENCES (US), N. A. of; ENGINEERING (US), N. A. of; ENGINEERING, and I. of M. (US) C. on M. the P. of W. in A. S. and. Fulfilling the Potential of Women in Academic Science and Engineering. [S. l.]: National Academies Press (US), 2007. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK9815/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  9. STANISCUASKI, F.; KMETZSCH, L.; ZANDONÀ, E.; REICHERT, F.; SOLETTI, R. C.; LUDWIG, Z. M. C.; LIMA, E. F.; NEUMANN, A.; SCHWARTZ, I. V. D.; MELLO-CARPES, P. B.; TAMAJUSUKU, A. S. K.; WERNECK, F. P.; RICACHENEVSKY, F. K.; INFANGER, C.; SEIXAS, A.; STAATS, C. C.; DE OLIVEIRA, L. Gender, race and parenthood impact academic productivity during the COVID-19 pandemic: from survey to action. 4 jul. 2020. DOI 10.1101/2020.07.04.187583. Disponível em: http://biorxiv.org/lookup/doi/10.1101/2020.07.04.187583. Acesso em: 25 nov. 2020.
  10. ALVES, A.; LAGO, M.. Ai que saudade da Amélia. 1942
  11. PITTY; MARTIN. Desconstruindo Amélia. 2009
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Nobel de Química 2020: a Revolução da CRISPR/CAS9 e suas Criadoras

Em meio a um turbilhão de desafios pessoais, econômicos e profissionais neste ano de 2020, enfim recebemos uma excelente notícia: o prêmio Nobel de química. É a primeira vez que duas cientistas mulheres foram laureadas juntas nesse prêmio. O trabalho de Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna no desenvolvimento de uma nova tecnologia de edição gênica revolucionou a ciência nos últimos anos e sem dúvida será um marco na história da humanidade. 

A tecnologia CRISPR/CAS9 consiste em moléculas biológicas que são injetadas dentro de uma célula e irão modificar o seu material genético de maneira muito específica. Outras tecnologias com o mesmo propósito já foram criadas e melhoradas desde os anos 1970 e são rotineiramente usadas nos laboratórios de biologia molecular e genética em todo o mundo. A diferença da CRISPR/CAS9 e das tecnologias anteriores é a sua precisão. A CRISPR/CAS9 consegue identificar exatamente a sequência alvo de DNA por meio de um RNA-guia.

A tecnologia CRISPR/CAS9 consiste em uma proteína de clivagem (corte) de DNA, a CAS9, representada em branco na figura e um RNA-guia representado em vermelho. Após o reconhecimento do DNA-alvo (em amarelo) pelo RNA-guia, a CAS9 cliva o DNA realizando a edição genética. Créditos: Thomas Splettstoesser, Wikimedia.

As origens da CRISPR/CAS9 vêm de pesquisas em ciência básica, aquele tipo de ciência que não tem um objetivo prático ou direcionado, como a cura de uma determinada doença. A ciência básica tem como objetivo a simples compreensão de um sistema natural. Inicialmente, as pesquisadoras focaram em compreender como as bactérias se defendem de vírus invasores. Posteriormente, elas usaram esses conhecimentos para desenvolver o sistema CRISPR/CAS9 de edição gênica.

CRISPR é um acrônimo para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, que pode ser traduzido como Repetições Clusterizadas Palindrômicas Curtas e Regularmente Espaçadas. Em outras palavras, CRISPR são grupos de sequências bacterianas repetitivas separadas por pedaços de sequências de vírus. Tudo isso está contido no material genético, ou DNA, das bactérias e compõe um tipo de sistema imune contra vírus invasores. Emmanuelle Charpentier imaginou que essas sequências de vírus eram transcritas em pequenos RNAs que guiavam a proteína CAS9 da bactéria até os vírus invasores, os quais eram atacados pela CAS9. Ela e seus colegas mostraram evidências físicas corroborando sua hipótese num artigo científico publicado na revista Nature em 2011.

Logo depois, Charpentier conheceu Jennifer Doudna numa conferência e elas começaram uma colaboração extremamente bem sucedida, que culminou em um outro artigo na revista Science em 2012 e no prêmio Nobel de química em 2020. O artigo de 2012 sedimentou a teoria de Charpentier e mostrou também que podemos usar esse sistema bacteriano em edição gênica. Basta que saibamos a sequência-alvo do RNA guia. Este será acoplado à proteína CAS9 e os dois serão injetados dentro da célula de interesse. Dessa forma, pedaços indesejados de DNA podem ser removidos, e até mesmo sequências novas podem ser inseridas, criando um sistema eficiente e poderoso de edição gênica.

Emmanuelle Charpentier (esquerda) e Jennifer Doudna (direita), laureadas do prêmio Nobel de química de 2020. Na ocasião da foto, as cientistas receberam o prêmio Princesa de Astúrias 2015 por pesquisa técnica e científica. Créditos: Miguel Riopa, AFP via Getty Images.

A CRISPR/CAS9 é bastante utilizada nos laboratórios de todo o mundo. Diversos tipos de edições gênicas são feitas em células biológicas, incluindo bactérias, leveduras, e até mesmo células mamíferas de camundongos, humanos e outros primatas. Apesar do imenso potencial terapêutico, ainda não é fácil usá-la para tratar doenças devido à dificuldade de inserir as moléculas dentro de organismos complexos. Atualmente tais estudos são feitos de maneira local, em sangue e medula óssea, que são mais fáceis de trabalhar. É importante ressaltar que ainda não conhecemos plenamente os efeitos da técnica e também que ela tem uma pequena taxa de erro, que deve ser minimizada ainda mais num tratamento clínico. Em um TED talk importantíssimo em 2015, Jennifer Doudna reforçou a necessidade e responsabilidade da comunidade científica de discutir as implicações futuras do uso da CRISPR/CAS9. 

A patente da técnica está em disputa entre a Universidade da Califórnia (EUA)/Universidade de Viena (Áustria), representadas pelas duas pesquisadoras, e o Instituto Broad (EUA), representado pelo pesquisador Feng Zhang, que também gerou conhecimentos importantes acerca do sistema CRISPR/CAS9. A patente irá gerar milhões de dólares e reconhecimento, mas não deve ser decidida tão cedo.

Emmanuelle Charpentier é especialista em bioquímica e microbiologia, nasceu na França e  trabalha atualmente no Instituto Max Planck para Ciência de Patógenos em Berlim. A bioquímica Jennifer Doudna nasceu nos Estados Unidos e trabalha na Universidade da  Califórnia, Berkeley. Ela também se dedica a mobilizar a comunidade científica a discutir as responsabilidades no uso futuro da tecnologia CRISPR/CAS9. 

O potencial feminino para pesquisa e inovação é enorme e traz diversos benefícios para a sociedade. Por isso, todas as meninas que quiserem devem ser incentivadas e apoiadas em suas carreiras científicas. O trabalho de Charpentier e Doudna é um belíssimo e inspirador exemplo do poder da produção científica e da colaboração feminina.

Referências

Jinek M, Chylinski K, Fonfara I, Hauer M, Doudna JA and Charpentier E. “A programmable dual-RNA-guided DNA endonuclease in adaptive bacterial immunity”. Science. 2012 https://science.sciencemag.org/content/337/6096/816 

Deltcheva E, Chylinski K, Sharma CM, Gonzales K, Chao Y, Pirzada ZA, Eckert MR, Vogel J, Charpentier E. “CRISPR RNA maturation by trans-encoded small RNA and host factor RNase III”. Nature. 2011 https://www.nature.com/articles/nature09886 

Jennifer Doudna. “How CRISPR let us edit our DNA” TED Talk, TEDGlobal London. 2015 https://www.ted.com/talks/jennifer_doudna_how_crispr_lets_us_edit_our_dna 

Ellen Jorgensen. “What you need to know about CRISPR“. TED Talk, TEDSummit. 2016 https://www.ted.com/talks/ellen_jorgensen_what_you_need_to_know_about_crispr 

John Rennie. “Dr. Paul Janssen Award: Emmanuelle Charpentier, Ph.D and Jennifer Doudna, Ph.D.” Scientific American. 2014 http://www.pauljanssenaward.com/blogs/emmanuelle-charpentier-phd-and-jennifer-doudna-phd

Jon Cohen. “The Latest round in the CRISPR patent battle has an apparent victor, but the fight continues”. Science. 2020  https://www.sciencemag.org/news/2020/09/latest-round-crispr-patent-battle-has-apparent-victor-fight-continues 

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Vida em Vênus? O que representa a descoberta de fosfina no planeta vizinho?

Algumas hipóteses científicas apontam que há bilhões de anos, Vênus tinha clima e atmosfera semelhantes aos encontrados hoje na Terra, e é muito possível que tenha abrigado vida. Mas de lá pra cá, muita coisa aconteceu no nosso Sistema Solar e o planeta se tornou inóspito. Gases de efeito estufa subiram a temperatura média da superfície para mais de 400ºC destruindo qualquer forma de vida que lá pudessem ser encontradas. Desde a formulação dessas hipóteses, cientistas continuaram a investigar a superfície e a atmosfera de Vênus, porém, o planeta deixou de ser o foco na procura de vida extraterrestre. Porém, este cenário está prestes a mudar.

Representação artística de como Vênus foi no passado. Imagem: NASA.

Há pouco menos de um mês, cientistas da Sociedade Astronômica Real do Reino Unido anunciaram a descoberta de moléculas de fosfina na atmosfera de Vênus. O estudo, publicado na revista científica Nature, logo virou manchete no mundo todo pois essa molécula poderia indicar um sinal de vida no planeta vizinho. Embora o estudo seja muito importante e revolucionário, é impossível afirmar com precisão se existe ou não vida em Vênus. Então, no texto de hoje vamos falar um pouco sobre essa descoberta e entender porque ela pode ou não significar a presença de vida em Vênus.

Representação artística da fosfina na atmosfera de Vênus. Imagem: ESO / M. Kornmesser / L. Calçada & NASA / JPL / Caltech.

O que é a fosfina?

Representação artística da molécula de fosfina composta por um átomo de fósforo e três átomos de hidrogênio. Imagem: ESO / M. Kornmesser / L. Calçada & NASA / JPL / Caltech.

A fosfina (PH3) é uma molécula composta por um átomo de fósforo e três átomos de hidrogênio. É um gás altamente tóxico, incolor e com cheiro de alho ou peixe podre. Ela também é extremamente inflamável e explosiva, podendo apresentar ignição espontânea em contato com o ar. Quando inalada (maior via de contaminação para a fosfina), a ela afeta principalmente os sistemas cardiovascular e respiratório, causando desde a irritação da mucosa do nariz até alterações cardíacas graves e edema pulmonar.

E qual a relação da fosfina com a vida?

No planeta Terra, a fosfina é frequentemente associada à vida porque é encontrada em bactérias anaeróbias (que vivem em ambientes onde não há oxigênio) como no intestino de humanos e outros animais, no fundo de alguns lagos, e em esgotos e pântanos.

A fosfina também pode ser produzida a partir da atividade geológica, como o vulcanismo. Outra fonte dessa molécula é a produção industrial. O gás é amplamente utilizado no controle de pragas e na indústria eletrônica. A fumigação (um tipo de controle de pragas através do tratamento químico realizado com compostos químicos ou formulações pesticidas) com fosfina é uma técnica comum usada para combater pragas em sementes e grãos armazenados. Outro uso comum dessa molécula é na fabricação de semicondutores.

Como a fosfina foi identificada?

Em uma coletiva de imprensa transmitida pela internet, a astrobióloga da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, Jane Greaves, principal autora do estudo, contou que começou este projeto de pesquisa em 2016. Ela queria investigar bioassinaturas (traços de vida, definidos por substâncias na atmosfera, lagos ou oceanos) de fosfina na atmosfera de Vênus, em nuvens que ficam 50km acima da superfície. A autora comentou que embora sejam muito ácidas, essas nuvens altas possuem temperaturas mais amenas, cerca de 20ºC, e poderiam constituir em um possível abrigo para vida extraterrestre.
Para confirmar sua hipótese, Greaves obteve primeiro indício da presença de fosfina na atmosfera em Vênus em 2018 com o telescópio James Clerk Maxwell, localizado a mais de 4 mil metros de altura sobre um vulcão no Havaí. Esse telescópio é um radiotelescópio, instrumento capaz de captar as ondas emitidas por compostos químicos em outras atmosferas à medida que giram ao redor de um planeta. O tamanho da onda captada permite identificar os compostos observados. Em 2018, porém, a detecção da fosfina não foi conclusiva.

Telescópio James Clerk Maxwell no Havaí. Imagem: William Montgomerie.

Empolgada, porém cautelosa, Greaves quis checar a descoberta e entrou em contato com a colega Clara Sousa-Silva, pesquisadora do Instituto Tecnológico de Massachusetts, nos EUA, cuja carreira é focada na caracterização da fosfina. Dessa vez, os testes foram realizados em um radiotelescópio muito mais potente, o ALMA, localizado no deserto do Atacama, no Chile. O sinal obtido foi muito mais claro e o telescópio mostrou que de fato o padrão observado pelo James Clerk Maxwell em 2018 indicava a presença da molécula vindo das nuvens de Vênus.

Antenas do telescópio ALMA no deserto do Atacama, no Chile. Imagem: ESO.

Os pesquisadores não pararam por aí. Para interpretar os dados coletados, eles utilizaram um modelo da atmosfera venusiana, desenvolvido por Hideo Sagawa, da Universidade Kyoto Sangyo. A partir desse modelo, eles puderam concluir que a fosfina está presente na atmosfera de Vênus de maneira pouco concentrada. Porém, embora a concentração seja baixa, ela ainda é muito maior do que a produzida pela vida na Terra.

A equipe ainda foi além e decidiu modelar como a fosfina produzida por meio de atividades geológicas, como o vulcanismo, poderia se acumular nas nuvens do planeta. Em todos os cenários obtidos, a quantidade da molécula equivaleria a apenas uma pequena porcentagem do total observado pelo ALMA.

Na tentativa de entender como a fosfina poderia ter ido parar nas nuvens de Vênus, a pesquisadora Clara Souza-Silva fez um apelo à comunidade científica “Agora, astrônomos pensarão em todas as maneiras para justificar a produção não biológica da fosfina. Por favor, façam isso, porque estamos no fim de nossas possibilidades de mostrar processos abióticos que podem produzi-la”.

Os autores do estudo publicado na revista Nature em setembro foram cautelosos e insistiram que não podem afirmar com certeza que atmosfera de Vênus abriga vida, e pediram que outras equipes investiguem a descoberta para que encontrem novas explicações, ou acabem confirmando a hipótese. Uma forma rápida de confirmar a presença de vida no planeta seria enviando sondas à Vênus, coletando material e retornando-o para Terra, porém isso é algo que ainda não está no calendário das agências espaciais, ao menos por enquanto.

Representação artística de Vênus com moléculas de fosfina em sua atmosfera. Imagem: Danielle Futselaar.

Outros estudos estão sendo feitos e apontam que não há fosfina em Vênus. Isso é verdade?

A ciência tem alguns mecanismos muito interessantes que buscam constantemente aprimorar os conhecimentos científicos produzidos. Um deles é a existência de uma comunidade científica. Isso acontece porque vários grupos pesquisam coisas similares separadamente. Então um grupo pode sempre contestar os resultados de outro grupo, realizar mais observações e experimentações e chegar a uma conclusão diferente. Essa constante investigação de temas similares por diferentes grupos faz que, com o tempo, os conhecimentos científicos sejam aperfeiçoados, a fim de melhor representarem a realidade. Essas mudanças no conhecimento científico podem ser feita ao longo de séculos, ou em questão de semanas. Tudo depende do conhecimento que está em debate. 

Com a descoberta da fosfina em Vênus a situação não foi diferente. Após da divulgação do estudo de Greaves em setembro deste ano, pelo menos 4 outros estudos já foram divulgados afirmando a não existência da molécula na atmosfera venusiana. Um deles utilizou dados antigos sobre a atmosfera do planeta e não encontrou fosfina. Dois se basearam nos mesmos dados obtidos por Greaves e colaboradores e também não encontraram a molécula. Um último estudo publicado há algumas semanas indica falhas na coleta e análise de dados pelo grupo de Greaves.

Então existe ou não fosfina em Vênus? As evidências apresentadas por esses estudos são bastante convincentes, porém é preciso um pouco de cautela na hora de bater o martelo e afirmar se existe ou não fosfina na atmosfera de Vênus. O desejável agora, é que mais grupos se envolvam na busca pela molécula e publiquem seus resultados para confirmar ou não a presença do gás no planeta vizinho. E quando isso acontecer, voltaremos aqui e debateremos o tema.

Se o estudo inicial estiver correto, a descoberta de fosfina significa vida em Vênus ou não?

A resposta mais simples é: não! A descoberta da fosfina não significa necessariamente que exista vida em Vênus. Alguns dos cientistas que participaram deste estudo publicaram um trabalho anterior, no qual afirmavam que a presença de fosfina em um planeta rochoso como Vênus só poderia ser atribuída à presença de vida no planeta. No estudo mais recente, porém, os autores avisam com cautela que essa detecção de fosfina “não é uma prova sólida de vida, só de química anômala que não podemos explicar”.

O que isso significa? A explicação mais plausível é que possam existir outros processos geológicos em Vênus que expliquem a existência da fosfina e que os cientistas até o presente momento não consideraram.

De qualquer forma, essa descoberta é revolucionária e merece ser investigada mais a fundo. Próximas pesquisas podem envolver estudos mais aprofundados de processos abióticos que possam geral fosfina e também possíveis missões de retorno de amostras. E, se algum dia a hipótese de vida for confirmada, uma nova série de perguntas tentando entender de onde e como essa vida teria se originado certamente serão necessárias.

Fontes:

https://www.nature.com/articles/s41550-020-1174-4

https://ras.ac.uk/news-and-press/news/hints-life-venus

https://astronomy.com/news/2020/09/astronomers-spy-phosphine-on-venus-a-potential-sign-of-life

https://www.abc.net.au/news/2020-09-15/is-there-life-on-venus-what-the-discovery-of-phosphine-means/12664504

http://astrobiology.com/2020/09/phosphine-detected-in-the-atmosphere-of-venus—an-indicator-of-possible-life.html

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-09-14/cientistas-encontram-possiveis-indicios-de-vida-em-venus.html

https://www.em.com.br/app/noticia/ciencia/2020/09/15/interna_ciencia,1185546/o-que-representa-a-descoberta-de-fosfina-em-venus.shtml

https://www.bbc.com/portuguese/geral-54159996

https://canaltech.com.br/espaco/vida-em-venus-pesquisadores-encontram-bioassinatura-na-atmosfera-do-planeta-171494/

https://canaltech.com.br/espaco/vulcoes-em-venus-podem-explicar-origem-da-fosfina-cientistas-acreditam-que-sim-172488/

http://www.bameq.portalcoficssma.com.br/Pdf/CFCProdutos/485

https://www.bbc.com/portuguese/geral-54185816

https://canaltech.com.br/espaco/astronomos-refutam-descoberta-de-fosfina-em-venus-sem-evidencias-estatisticas-173934/

https://arxiv.org/abs/2010.07817

https://arxiv.org/abs/2010.09761

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Doença de Alzheimer: Inovação em diagnóstico a caminho

A Doença de Alzheimer (DA), também popularmente conhecida como Mal de Alzheimer ou simplesmente Alzheimer, é degenerativa ocasionando perda de memória e outras funções cognitivas (como orientação e linguagem) no paciente. É ainda incurável, porém tratável em estágios mais iniciais1.

Foi inicialmente descrita em 1906 pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer (cujo sobrenome foi atribuído anos mais tarde por Emil Kraepelin para se referir à doença)2.

Dentre as demências que acometem a população idosa o Alzheimer é a principal em número de pacientes acometidos3, sendo responsável por 60% a 70% destes casos no mundo4. O envelhecimento da população mundial preocupa especialistas e, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pacientes acometidos deve triplicar até 2050. O Brasil deve atingir 6 milhões de pacientes com demência em 20505.

Apesar de as causas da doença de Alzheimer não serem completamente conhecidas, hipóteses foram levantadas para tentar explicar o surgimento da doença. Dentre estas a chamada hipótese amiloide possui ampla aceitação perante a comunidade científica devido aos resultados de análise no cérebro de pacientes6. Ao se analisar o tecido cerebral de pessoas saudáveis e pacientes com Alzheimer, diferenças são encontradas. O cérebro do paciente com Doença de Alzheimer apresenta duas principais alterações, uma nos neurônios (células responsáveis por transmitir impulsos nervosos) e outra na região entre estas células. No interior dos neurônios dos pacientes, no citoplasma, encontram-se fibras emaranhadas (conhecidas como emaranhados neurofibrilares) contendo proteínas chamadas Tau associadas a elas, e no exterior das células encontram-se agregados formados pelos peptídeos (breves sequências de aminoácidos) Aβ, conhecidos como agregados amiloides7 (Figura 1).

Figura 1: Representação de neurônios – A. de indivíduo saudável – B. de paciente com Alzheimer. Fonte: Extraída de de Falco et al., 20167.

As proteínas Tau desempenham importantes funções para o correto funcionamento dos neurônios; por exemplo, protegem o DNA das células neuronais e estabilizam o esqueleto destas8. Normalmente as proteínas Tau não se aglomeram a filamentos a fim de ficarem lá depositadas. Porém, se forem modificadas para conter grupos fosfato (ou seja, se sofrerem fosforilações), tornam-se insolúveis no citoplasma dos neurônios se destinando aos filamentos. Isso prejudica o funcionamento das células neuronais. Logo, pacientes com Doença de Alzheimer tem níveis elevados da proteína Tau fosforilada (fosfo-Tau). Existe até mesmo a hipótese de que é o acúmulo de agregados amilóides o responsável por promover esta modificação na proteína Tau9.

Os peptídeos amilóides também não são prejudiciais de maneira isolada (não agregados); são seus agregados que causam danos. Os peptídeos amilóides não agregados contribuem para o desenvolvimento do cérebro e seu correto funcionamento8. Os agregados amilóides, por sua vez, prejudicam a comunicação entre células nervosas e podem ocasionar a morte destas, causando os prejuízos já descritos ao paciente10. Pacientes com Doença de Alzheimer possuem muitos agregados amilóides sendo gerados no cérebro, além de muita proteína Tau na forma insolúvel depositada nos emaranhados neurofibrilares (Figura 2).

Figura 2: Nas tomografias por emissão de pósitrons a coluna de imagens do cérebro apresentada à esquerda são oriundas de idoso saudável e as da coluna da direita, de paciente com Alzheimer. Para ambos os pacientes a imagem mais acima foi realizada para se determinar a presença da proteína Tau e as imagens mais abaixo, para a presença de agregados amilóides. Conforme exibido na legenda, na porção extrema direita da imagem, quanto mais vermelha for a região colorida nas imagens de cérebro, maior a presença daquilo que se está investigando (proteína Tau ou agregados amilóides). Observa-se altas concentrações dos agregados amilóide e de Tau (fosforilada como já discutido neste texto) no cérebro dos doentes. Fonte: Yang, 2016 – imagem de Schöll, M.11

Para o diagnóstico são utilizados comumente tomografias do cérebro além da avaliação clínica do paciente por meio de testes cognitivos e os relatos de familiares acerca do comportamento atípico do paciente12.

Em Agosto deste ano de 2020, no entanto, um grupo de pesquisadores liderados por Sebastian Palmqvist e Oskar Hansson da Universidade de Lund, na Suécia, publicaram resultados promissores de seus estudos que tornaria possível o diagnóstico do Alzheimer através de exame de sangue13.

O exame se baseará na dosagem da proteína fosfo-Tau217 (Figura 3) no plasma dos pacientes, visto que os cientistas perceberam esta se encontra em altos níveis nos pacientes com Alzheimer (até mesmo antes do aparecimento dos sintomas). A proteína se mostrou um biomarcador seguro, possibilitando aos pesquisadores distinguir, por meio do exame, os pacientes com Alzheimer daqueles com outras doenças neurodegenerativas14.

Figura 3: Simulação computacional de anticorpo (em rosa e azul) e fosfo-tau217 (destacada em amarelo). Fonte: Van Kolen et al. (2020) – NCBI – Estrutura 6XLI.15 

Esta inovação no diagnóstico seria de grande impacto uma vez que o diagnóstico precoce é raramente realizado. No geral, quando as famílias notam os lapsos de memória e mudança de comportamento e levam o paciente ao médico a degeneração já se encontra avançada. O novo exame seria, portanto, uma grande conquista para pacientes e familiares. O diagnóstico precoce permitiria a adoção de tratamentos que devem ser iniciados na etapa inicial de progressão da doença e que possuem efetivo potencial de melhoria significativa da qualidade de vida não só do paciente, mas também daqueles que dele cuidam.

Referências: 

1 Hospital Israelita Albert Einstein – Alzheimer. Disponível através do link <https://www.einstein.br/doencas-sintomas/alzheimer>. Acesso em 27/10/2020.

2 AlzheimerMed – A Primeira Paciente August D. Disponível através do link <http://www.alzheimermed.com.br/biografia-alois-alzheimer/a-primeira-paciente-august-d> Acesso em 27/10/2020.

3 Vidor R de C et al. (2019) MORTALIDADE POR DOENÇA DE ALZHEIMER E DESENVOLVIMENTO HUMANO NO SÉCULO XXI: UM ESTUDO ECOLÓGICO NAS GRANDES REGIÕES BRASILEIRAS. Arquivos Catarinenses de Medicina 48(1). Disponível através do link <http://www.acm.org.br/acm/seer/index.php/arquivos/article/view/394>. Acesso em 27/10/2020.

4 WHO WOrld Health Organization – Dementia. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia>. Acesso em 27/10/2020.

5 RFI – Casos de demência vão triplicar e chegar a 152 milhões de pessoas até 2050, diz OMS.. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/05/14/casos-de-demencia-vao-triplicar-e-chegar-a-152-milhoes-de-pessoas-ate-2050-diz-oms.ghtml>. Acesso em 27/10/2020.

6 Fiocruz (2014) Novos caminhos para tratamento de Alzheimer, Parkinson e depressão. Disponível através do link <http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2084&sid=32&tpl=printerview#:~:text=A%20hip%C3%B3tese%20da%20cascata%20amil%C3%B3ide,de%20prote%C3%ADna%20est%C3%A3o%20ligadas%20ao>. Acesso em 27/10/2020.

7 de Falco A. et al., (2016). DOENÇA DE ALZHEIMER: HIPÓTESES ETIOLÓGICAS E PERSPECTIVAS DE TRATAMENTO. Química Nova 39(1). Disponível através do link <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422016000100063>. Acesso em 27/10/2020.

8 Penke B. et al. (2020) Oligomerization and Conformational Change Turn Monomeric β-Amyloid and Tau Proteins Toxic: Their Role in Alzheimer’s Pathogenesis. Molecules 25(7). Disponível através do link <https://www.mdpi.com/1420-3049/25/7/1659>. Acesso em 27/10/2020.

9 de Felice F.G. et al. (2008) Alzheimer’s disease-type neuronal tau hyperphosphorylation induced by Aβ oligomers. Neurobiology of Aging 29(9). Disponível através do link <https://doi.org/10.1016/j.neurobiolaging.2007.02.029>. Acesso em 27/10/2020.

10 Salazar S.V., Strittmatter S.M. (2017) Cellular prion protein as a receptor for amyloid-β oligomers in Alzheimer’s disease. Biochem Biophys Res Commun 483(4). Disponível através do link <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27639648/>. Acesso em 27/10/2020.

11 Yang S (2016) PET scans reveal key details of Alzheimer’s protein growth in aging brains. Berkeley News. Disponível através do link <https://news.berkeley.edu/2016/03/02/pet-scans-alzheimers-tau-amyloid/>. Acesso em 27/10/2020.

12 HCor – Alzheimer: fique atento aos sinais. Disponível através do link <https://www.hcor.com.br/hcor-explica/neurologia/alzheimer-fique-atento-aos-sinais/>. Acesso em 27/10/2020.

13 Palmqvist S. et al. (2020) Discriminative Accuracy of Plasma Phospho-tau217 for Alzheimer Disease vs Other Neurodegenerative Disorders. JAMA 324(8). Disponível através do link <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32722745/>. Acesso em 27/10/2020.

14 G1 – Estudo sugere que Alzheimer pode ser detectado em novo tipo de exame de sangue. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/07/28/estudo-sugere-que-alzheimer-pode-ser-detectado-em-novo-tipo-de-exame-de-sangue.ghtml>. Acesso em 27/10/2020.

15 Van Kolen et al. (2020) Discovery and Functional Characterization of hPT3, a Humanized Anti-Phospho Tau Selective Monoclonal Antibody. J Alzheimers Dis 77. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/Structure/pdb/6XLI>. Acesso em 27/10/2020.