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Todo o ouro do Universo: colisão de estrelas de nêutrons

A meta hoje é impressionar. É fazer teu queixo cair. Você já deve ter ouvido falar sobre a colisão de estrelas de nêutrons que foi divulgada no mês passado. Nós reunimos a seguir os números mais interessantes dessa empreitada cósmica. #VamoBora!

Ilustração artística da colisão de estrelas de nêutrons.
Créditos: NSF/LIGO/Sonoma State University/A. Simonnet

1 evento inédito: nós vimos e “ouvimos” a colisão entre 2 estrelas de nêutrons!

20 Km é o raio médio de cada uma dessas estrelas.

1.000.000.000.000 Kg é aproximadamente quanto pesa 1 colher de chá de estrela de nêutrons. Sim! Se fosse possível medir uma colherinha de chá desses objetos, ela pesaria o mesmo que o Monte Everest!

1min e 40 segundos foi o tempo de duração do impacto entre as 2 estrelas.

50 vezes a massa da Terra foi a quantidade de prata produzida durante a colisão,

100 vezes a massa da Terra em ouro e

500 vezes a massa da Terra em platina!

70 observatórios no chão e no espaço observaram o fenômeno.

3.500 cientistas de 910 instituições ao redor do mundo escreveram o artigo sobre a

observação.

R$ 3.200.000.000 é o investimento aproximado da Fundação Nacional de Ciência (NSF/EUA) desde construção em 1990 até 2016 do observatório LIGO, o primeiro a medir ondas gravitacionais.

Isso é ciência que faz os pelinhos do braço arrepiarem, não é mesmo? (Fora quando a gente lembra que o orçamento proposto para toda a pasta do MCTIC em 2018 é R$ 1.680.000.000… Essa dá arrepio… ruim… na espinha…)


Mais ondas gravitacionais!

Ano passado foi divulgada a primeira observação de ondas gravitacionais durante uma colisão de buracos negros pelos cientistas do observatório LIGO. De lá pra cá, a detecção já recebeu prêmio Nobel de Física e mais 4 colisões de buracos negros foram divulgadas (a última em 15/11/17). A coisa já está tão rotina que ninguém se comove mais. Na verdade, tudo está acontecendo conforme o previsto: as observações passam a ser corriqueiras e os dados são coletados sem muito alarde quando os fenômenos e os processos passam a ser conhecidos. As novidades virão quando a análise dos dados trouxer à luz o desconhecido…

E tchan tchan tchan!!! Novidades vieram bonitas e cintilantes no último 16 de outubro com a divulgação da primeira observação da colisão de duas estrelas de nêutrons!

Simulação do giro fatal de duas estrelas de nêutrons.
Crédito: Goddard Space Flight Center da NASA / CI Lab

Na animação acima “as estrelas de nêutrons condenadas giram em direção a sua morte. As ondas gravitacionais (arcos pálidos) sangram a energia orbital, fazendo com que as estrelas se aproximassem e fundissem. À medida que as estrelas colidem, alguns detritos se afastam em jatos de partículas movendo-se a quase a velocidade da luz, produzindo uma breve explosão de raios gama (magenta). Além dos jatos ultra rápidos que alimentam os raios gama, a fusão também gera detritos móveis mais lentos. Um fluxo gerado pela acreção do remanescente da colisão emite luz ultravioleta que se desvanece rapidamente (violeta). Uma nuvem densa de detritos quentes são arremessados das estrelas de nêutrons logo antes da colisão produzir luz visível e infravermelha (azul-branco através de vermelho). O brilho UV, óptico e infravermelho próximo é designado coletivamente como um kilonova. Mais tarde, uma vez que os restos do jato dirigido para nós se expandiram para a nossa linha de visão, os raios X (azul) foram detectadas. Esta animação representa fenômenos observados até nove dias após o GW170817.” (Citação traduzida da descrição do vídeo da animação.)

Nesse caso dois foram os observatórios que detectaram as ondas gravitacionais: o primeiro o VIRGO, na Itália, e depois o LIGO, nos EUA. Nós já discutimos aqui no blog das Cientistas Feministas o que são ondas gravitacionais, porquê elas são bacanas e como esses interferômetros funcionam. Então, vamos partir para alguns detalhes da colisão das estrelas de nêutrons.

 

Diário de pesquisa de 2 estrelas morrendo e 70 observatórios

Há mais de 130 milhões de anos atrás, 2 estrelas de nêutrons, com aproximadamente 20 Km de diâmetro cada, e orbitando uma entorno da outra a 300 Km de distância, começaram a ganhar velocidade (aproximadamente ⅓ da velocidade da luz) enquanto se aproximavam cada vez mais nos momentos que se seguiram a sua colisão.

Muito tempo depois, no dia 17 de agosto de 2017 do calendário terráqueo, o observatório VIRGO detectou o sinal de ondas gravitacionais compatível com o esperado de colisões entre 2 estrelas de nêutrons. E 22 milisegundos depois, o observatório LIGO detectou o mesmo sinal.

“Ouvindo” a colisão de 2 estrelas de nêutrons: reconstrução do sinal de GW170817.
Presta atenção depois dos 50s!
Créditos: LIGO/University of Oregon/Ben Farr

 

Em menos de 1,7 segundos depois (de VIRGO), o telescópio espacial Fermi (NASA/EUA) detectou um pico fraco de luz altamente energética (raios gama do espectro electromagnético).

 

Comparando sinais: Observe que o pico no sinal de raios gama detectado pelo telescópio Fermi/NASA ocorre aproximadamente 2 segundos depois que ondas gravitacionais atingem os detectores do observatório LIGO.
Créditos: NASA’s Goddard Space Flight Center, Caltech/MIT/LIGO Lab

A partir das  informações dos três observatórios foi possível triangular a região no espaço aonde estaria a fonte e, sabendo-se que uma coincidência desse tipo tem 0,2% de chance de acontecer, mais de 70 observatórios na Terra e no espaço receberam as coordenadas para observar o evento. Nas duas semanas que sucederam, o fenômeno foi observado em várias frequências do espectro eletromagnético, além dos raios gama: raios X, ultravioleta, luz visível, infravermelho e rádio. É a primeira vez que vemos (espectro eletromagnético, inclusive visível) e “ouvimos” (ondas gravitacionais) um evento desse tipo. E por isso, o evento de detecção de ondas gravitacionais GW170817 será o marco que deu início a astronomia de multi-mensageiros.  Dá uma olhada na animação anterior simulando os dados obtidos nos 9 primeiros dias.

 

Resultado: Kilonovas trazem ouro, muito ouro! E mais da metade dos elementos da tabela periódica!

É basicamente isso: 54 elementos da tabela periódica ainda não tinham sua origem e/ou abundância confirmada pelos cientistas. Suspeitava-se que fossem formados em eventos tais como colisões de estrelas de nêutrons, mas só agora fomos capazes de ter certeza.

A origem dos elementos do Sistema Solar.
Créditos: Jennifer A. Johnson/The Ohio State University/NASA/ESA

 

Na tabela periódica acima temos indicadas as origens dos elementos: em azul os que foram produzidos durante o Big Bang; em violeta os gerados durante fissão de raios cósmicos; em verde, durante explosão de estrelas massivas; em azul claro, durante explosão de anãs brancas; em amarelo, durante a morte de estrelas de baixa massa; e, finalmente, 54 elementos (todos mais pesados que o zircônio) são produzido em explosões causadas pela colisão de estrelas de nêutrons (kilonovas).

Lembra dos números do início do artigo? Só para se ter uma ideia, foram produzidos em aproximados 1,5 minuto mais 50 vezes a massa da Terra em prata, 100 vezes a massa da Terra em ouro, 500 vezes a massa da Terra em platina, e mais as respectivas proporções dos outros 51 elementos. É estimado que esse único evento de kilonova espalhou mais de R$ 320 octilhões de reais só em ouro pelo Universo, ou seja,

R$320.000.000.000.000.000.000.000.000 !

Com esse dinheiro dava para pagar uns 10 quatrilhões de LIGOs! É orçamento para cada país no mundo ter mais de 50 trilhões de LIGOs! o.O

Ok… Parei aqui com os delírios de grandeza. Na próxima a gente se encontra e conversa mais sobre como os elementos químicos são formados.

—–

Nota: Todas as estimativas feitas no presente artigo usaram as estimativas em dólar oferecidas neste e neste artigos. E, em reais, segundo este. A cotação entre dólar em reais foi estimada em US$1,00 por R$3,20 só a título de ilustração. As fontes já foram também citadas ao longo do texto.

 

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Animais doentes se isolam dos membros do grupo

O que fazemos quando ficamos extremamente doentes? Apesar da frequente vontade de nos isolar do mundo, sempre há uma demanda maior pelo cuidado e atenção das pessoas próximas. Nesse caso, quantas vezes essas pessoas também não ficaram doentes junto com a gente?

Apesar das muitas vantagens de se viver em sociedade – como a divisão do trabalho, por exemplo – uma das desvantagens mais proeminentes é a maior possibilidade de transmissão de doenças entre os membros do grupo [1]. E quem pula carnaval sabe muito bem disso. Não dá pra acordar na quarta-feira de cinzas e dizer que você está completamente sadio depois de todo aquele contato social.

louva

Louva-Deus se limpando. Um comportamento importante para evitar a dispersão de parasitas.

Os animais se utilizam de diversos mecanismos para evitar que uma doença se espalhe entre os membros do grupo. Algumas possibilidades são o tratamento através de automedicação (saiba mais nesse texto); comportamentos como o de limpeza corporal (ou grooming), que observamos em vertebrados [2] e invertebrados [3]; e o isolamento do grupo.

Quando ficam doentes, indivíduos de algumas espécies simplesmente se afastam do grupo, reduzem sua interação com outros e morrem sozinhos [4]. Apesar dessa história parecer extremamente triste e solitária, os efeitos podem ser bastante benéficos para o grupo social.

Um estudo realizado por Patrícia Lopes e colaboradores na Universidade de Zurich, Suíça [5], mostrou que ratos da espécie Mus musculus domesticus injetados com um produto bacteriano (lipopolissacarídeos de Escherichia coli) deixam de interagir com os seus colegas de grupo. Apesar de existirem mecanismos de reconhecimento do colega doente pelos outros indivíduos, eles não parecem evitar a presença do indivíduo infectado. Este isolamento é provocado pelo comportamento do próprio rato adoentado. É como se ele ativamente se removesse do grupo. Além disso, os pesquisadores puderam perceber que esse comportamento diminuiu a disseminação da infecção entre os outros membros do grupo, tornando o comportamento benéfico em longo prazo.

rato

Mus musculus domesticus

Os autores do estudo [5] ainda discutem sobre a importância dos seus resultados para os modelos de transmissão de doenças, que são como previsões de que modo uma doença vai se disseminar em uma população. Esses modelos são essenciais para as ações de controle e prevenção de doenças em populações humanas. Segundo eles, os modelos tradicionais não levam em consideração os efeitos das doenças no comportamento dos indivíduos infectados, como pudemos observar no exemplo dos ratinhos. A inclusão desse efeito comportamental seria um ponto essencial para aumentar o poder de previsão dos modelos quanto à velocidade e a magnitude da disseminação de doenças.

Links:

Macaquinhos fazendo gromming

Referências:

[1] Alcock, J., 2016. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. Artmed Editora.

[2] Mooring, M.S., Blumstein, D.T. and Stoner, C.J., 2004. The evolution of parasite-defence grooming in ungulates. Biological Journal of the Linnean Society, 81(1), pp.17-37.

[3] Zhukovskaya, M., Yanagawa, A. and Forschler, B.T., 2013. Grooming behavior as a mechanism of insect disease defense. Insects, 4(4), pp.609-630.

[4] Formigas doente se isolam para morrer

[5] Lopes, P.C., Block, P. and König, B., 2016. Infection-induced behavioural changes reduce connectivity and the potential for disease spread in wild mice contact networks. Scientific reports, 6.  

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Será que o pâncreas artificial já está entre nós?

A médica que começou meu tratamento quando eu recebi o diagnóstico de diabetes tipo 1, em 2006, me disse “A cura está pra ser descoberta nos próximos cinco anos desde que eu me formei em medicina, nos anos 70… eu acho que a cura pela tecnologia vai vir antes da cura pela medicina!”. Parece que ela tinha razão: desde então foram lançadas insulinas novas mais rápidas e mais lentas, bombas de insulina mais fáceis de usar e até que recebem continuamente via Bluetooth os valores lidos por monitores contínuos de glicemia, mas, como esperado, nada de cura. E nem de pâncreas artificial, mas a coisa está melhorando.

O diabetes tipo 1 é, digamos, o irmão meio negligenciado do diabetes tipo 2. Na minha vida depois do diagnóstico já me perguntaram se é o diabetes de criança, se é daquele mais grave, se eu nasci assim… Como atinge, em geral, apenas de 5 a 10% do total de pacientes com a doença, nem todo mundo sabe o que é ou como se desenvolve. Explico: em 95% dos casos, é uma doença autoimune que destrói as células beta no pâncreas, as que produzem insulina; nos outros 5% a causa é desconhecida, mas o resultado é o mesmo. Isso significa que o paciente vai precisar tomar insulina pro resto da vida (desde o diagnóstico e pra sempre!) – um tipo basal, que dura várias horas, e um tipo rápido, tomado em função da quantidade de carboidrato ingerida nas refeições, ou usar uma bomba de insulina 24h por dia só com esse último tipo. Não tem relação com a dieta ou massa corporal e, na maior parte das vezes, se desenvolve em crianças, adolescentes e adultos jovens. E não, a gente não nasceu diabético. 

Se você não é diabético, generalizando bastante, sua vida é mais ou menos assim:

Não diabético

Adaptada e traduzida daqui

Já se você é um diabético que tem a sorte de ter um sensor que detecta continuamente a glicemia (ou CGM, continuous glucose monitoring, em inglês), sua vida é mais ou menos assim:

Diabético

Os sistemas atuais de infusão contínua de insulina (mais conhecidos como bombas de insulina) mais comuns não são automatizados e, para explicar de maneira simples, apenas inserem insulina no paciente (sim, é só isso mesmo!), de acordo com uma programação feita pelo paciente em conjunto com profissionais de saúde, que pode ser alterada com base nos resultados de glicemia medidos, em geral, com um glicosímetro e uma gota de sangue de 6 a 8 vezes por dia (e/ou, quando possível, por sensores contínuos ou por esse sensor flash aqui), e também com a ingestão de carboidratos, quando o próprio usuário da bomba aciona a infusão de insulina de acordo com relações individuais de sensibilidade insulina/carboidrato. A ideia do pâncreas artificial é simplificar a vida do paciente, fazer um dispositivo capaz de se adaptar às mudanças de alimentação e/ou atividade física e inserir insulina de acordo com a glicemia, que seria medida por um sensor contínuo muito preciso. Pode parecer simples, mas não é.

O pâncreas é um órgão-glândula que a gente só lembra que tem quando dá problema. Quando ele funciona normalmente, produz, entre outras coisas, insulina e glucagon, que é um hormônio com ação antagônica à da insulina. É esse hormônio que ativa a reação de liberar o estoque de glicogênio – que será reconvertido em glicose – do fígado quando a concentração de glicose no sangue está muito baixa. Pra ser considerado um pâncreas artificial, o dispositivo precisaria responder quase que instantaneamente à glicemia do paciente enquanto ele leva uma vida normal, e ainda é muito difícil detectar a glicemia automaticamente de forma suficientemente precisa. Além disso, as insulinas análogas mais rápidas demoram em média pelo menos 15 minutos pra começar a agir e só atingem o pico de ação depois da primeira hora, o que significa que, mesmo que glicemia fosse detectada com precisão, o atraso da ação não instantânea da insulina inserida externamente no tecido subcutâneo vai interferir no resultado da glicemia do paciente. E, também, não ter infusão de glucagon em caso de hipoglicemia impede que a ação do fígado seja rápida no sentido de aumentar a concentração de glicose no sangue em caso de hipoglicemia.

Na França, desde 2011, uma empresa  está desenvolvendo um sistema fechado de infusão de insulina em parceria com diversas universidades. Já foram realizados testes com pacientes e o lançamento é esperado para a partir de 2018. Esse ano o projeto recebeu um investimento de 13,5 milhões de euros. Na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, um protótipo foi desenvolvido também em 2011 e atualmente está fase de testes. Ano passado sua eficiência foi demonstrada também para mulheres grávidas com diabetes tipo 1. Recentemente, uma empresa norte americana lançou um sistema híbrido com retroalimentação, ou loop fechado (nesse caso significa que o dispositivo responde e ajusta sozinho as doses basais de insulina de acordo com os dados de glicemia do paciente, medidos por um sensor de glicemia já bastante preciso), que já foi aprovado pela FDA, instituição reguladora de medicamentos e tecnologias médicas dos EUA, para pacientes acima de 14 anos. De acordo com os estudos da empresa, esse sistema diminui o tempo que o paciente passa em hiper e hipoglicemia, reduz a variabilidade da glicemia, aumenta a segurança durante a noite e melhora as glicemias de jejum, reduzindo o fardo da doença.  Esse sistema não é completamente automatizado – ele não insere insulina automaticamente para refeições, por exemplo – por isso a designação híbrido. E não posso esquecer também do incrível projeto #openAPS (the Open Artificial Pancreas System project), resultado do movimento #WeAreNotWaiting, iniciado por pessoas com diabetes tipo 1 nos EUA, que, cansados da lentidão do processo de inovação das empresas tradicionais e do pouco acesso que os pacientes têm à tecnologia, decidiram fazer elas mesmas um sistema de infusão de insulina em loop fechado. Esse movimento hoje já conta com 400 pacientes usuários do sistema, eles próprios fazem toda a programação, e foi encabeçado pela norte-americana Dana Lewis.

Apesar desses avanços e do grande número de empresas envolvidas em fazer esses sistemas, ainda há muitos desafios para o funcionamento ideal desses dispositivos. E, pra piorar, por enquanto não há sequer previsão de chegada desses sistemas ao Brasil, e nem estimativa de preço ou de entrada dessas tecnologias no nosso SUS. Para dar um exemplo, a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS) só emitiu parecer favorável à inclusão das insulinas análogas ao SUS em fevereiro de 2017, enquanto no Reino Unido, por exemplo, essas insulinas estão disponíveis aos pacientes desde meados da década de 90. E as bombas de insulina, mesmo quando bem indicadas, só são adquiridas por meio de judicialização… Por falar nisso, a incorporação de tecnologias ao SUS é um excelente tema para um próximo texto.

De todo jeito, mesmo que para os brasileiros o futuro ainda esteja incerto, os próximos anos parecem prometer uma versão de quase-cura, para os que, como eu, não têm descanso com essa história de glicemia. Ou, no mínimo, novos gadgets para se divertir, afinal ter diabetes também pode ser cool.

 

Para saber um pouco mais sobre diabetes e as diretrizes do tratamento no Brasil:

http://www.diabetes.org.br/sbdonline/images/docs/DIRETRIZES-SBD-2015-2016.pdf

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A atividade do cérebro de pessoas quando suas opiniões são desafiadas

Você provavelmente já deve ter entrado em uma discussão com outras pessoas sobre alguma questão política. Principalmente nos últimos anos esses debates têm ocorrido cada vez com maior frequência. Pelo lado positivo isso demonstra que vivemos em uma sociedade livre onde podemos colocar e defender nossas opiniões, também isso beneficia a formação de uma sociedade mais crítica e independente. Porém, esses debates geram conflitos e tensões entre pessoas, as quais, no final das contas, só estão tentando defender uma ideia que elas acreditam ser melhor, mais razoável ou mais lógica. Foi pensando nesse nosso contexto atual que esse artigo Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence me chamou a atenção. Confesso que passei por diferentes fases lendo e relendo essa pesquisa. Primeiro achei muito interessante, depois comecei a me incomodar com algumas ideias, métodos utilizados e análise de resultados, por fim, decidi que o estudo tinha que ser divulgado e, assim, mais pessoas poderiam julgar e criticar por si mesmas seus méritos e problemas. Mas gostaria de colocar que esse tipo de estudo é complexo não somente na pergunta inicial e delineamento da metodologia por se tratar de um estudo social relacionado com identificação de correlatos neurais, mas também na interpretação dos resultados. Por isso, espero que leiam com uma atitude crítica, porém, não rígida. Ah, e não esperem encontrar uma descrição de como o cérebro de pessoas intolerantes funciona.

Os autores realizaram esse estudo com o objetivo de investigar regiões neurais que estariam envolvidas com a manutenção de crenças em pessoas com opiniões políticas fortes. Suas predições eram de que circuitos neurais relacionados com a formação de modelos internos da própria pessoa (o “self”)  e aqueles envolvidos com emoções negativas seriam mais ativados quando essas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra suas crenças políticas, mas menos ativados quando essas mesmas pessoas fossem apresentadas a argumentos contra crenças não políticas. Para isso, 40 participantes foram selecionados a partir de um questionário com uma escala numérica para saber o quanto eles se consideravam politicamente liberais ou conservadores sendo 1 ‘extremamente liberal’ até 7 ‘extremamente conservador, e o quanto concordavam com algumas afirmações que envolviam questões políticas e outras não-políticas em uma escala de 0 a 7, sendo 0 ‘não concordo’ e 7 ‘concordo muito’. Essas pessoas foram selecionadas por responderem que eram muito liberais (entre 1 e 2 na escala) e por responderem que concordavam muito com pelo menos 8 afirmações políticas e 8 não políticas (entre 6 e 7 na escala).

Esses participantes, então, foram colocados em uma máquina de ressonância magnética enquanto eram apresentado, uma de cada vez em uma tela, a essas mesmas 8 afirmações políticas e 8 não políticas, as quais haviam indicado concordar muito anteriormente. A cada afirmação apresentada eram colocados em seguida 5 argumentos desafiando a sua validade. Os argumentos eram exagerados ou distorciam a verdade na maior parte das vezes. Após a apresentação desses argumentos, a afirmação era apresentada novamente e perguntado o quanto eles concordavam com ela na mesma escala numérica anterior (de 0 a 7). Cada pessoa realizou essas etapas do procedimento para cada 16 afirmações individualmente enquanto sua atividade cerebral era registrada pelo método de ressonância magnética funcional. Esse método permite medir o consumo de oxigênio em regiões do cérebro e, assim, acessar indiretamente a atividade cerebral de uma pessoa enquanto esta realiza uma tarefa. Deste modo é possível analisar a atividade neural da pessoa em diferentes momentos e comparar essa atividade quando a pessoa é confrontada com argumentos contra sua crença política ou não política. Da mesma forma é possível avaliar suas respostas na escala numérica e observar se as pessoas mudaram seu grau de concordância sobre a afirmação após terem sido confrontadas com os argumentos. Assim, a atividade neural de pessoas que demonstram mais flexibilidade com suas crenças pode ser comparada com a  de pessoas não tão flexíveis.

A partir das respostas sobre o grau de concordância com as afirmações após os 5 contra argumentos, foi observado que os participantes mudaram suas repostas e diminuíram o grau de concordância em relação às afirmações. Porém, essa mudança foi mais proeminente com afirmações não políticas. Eles observaram, em média, uma diminuição da escala de 0.31 para afirmações políticas e diminuição de 1.28 para não políticas. A comparação da atividade neural enquanto participantes liam os contra argumentos políticos em relação quando liam os contra argumentos não políticos, mostrou um aumento de atividade em  regiões (figura 1) como o córtex pré frontal medial, lobo parietal inferior e lobo temporal anterior, regiões relacionadas a Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) apontando a existência de uma relação entre a manutenção de crenças muito fortes (neste caso políticas) com a ativação dessa rede neural. Os pesquisadores defendem que essa rede, por estar relacionada com funções auto-referenciais, se ativa enquanto pessoas são confrontadas com argumentos contrários a suas crenças mais fortes, pois elas estariam realizando uma auto-análise, integrando informações internas a fim de obter um significado coerente daquilo ao qual foram expostas.     fig1-blogFigura 1. Regiões mais ativadas quando comparada a atividade cerebral dos participantes quando eram apresentados argumentos contrários a suas crenças políticas comparada com a atividade para os argumentos contrários às crenças não políticas.

Outro resultado demonstrado por esse estudo foi de que há uma correlação negativa entre ativação do córtex insular dorsal anterior e a amígdala, regiões (figura 2) relacionadas ao processamento de emoções negativas, ameaças e incertezas, e o grau de mudança na concordância de afirmações não políticas após os contra argumentos por sujeito. Isto é, pessoas com maior resistência a mudar sua concordância (menor grau de mudança) às afirmações não políticas tiveram uma maior ativação dessas estruturas quando comparadas com a atividade dessas regiões em pessoas com menor resistência a mudar sua concordância. Note que essa diferença foi observada entre diferentes indivíduos (em contraste com diferente condições mencionado anteriormente) e utilizando as afirmações não políticas. Isso porque houve maior variabilidade de respostas em relação a esse tipo de afirmação e, assim, foi possível realizar essa comparação. A teoria por trás desse resultado é de que pessoas com menos flexibilidade para mudar sua opinião após contra argumentos demonstram maior ativação de regiões envolvidas no processamento de ameaças e emoções negativas e, assim, lidariam com informações contrárias a suas crenças de modo mais rígido e cauteloso.

fig2-blogFigura 2. Áreas mais ativadas nos participantes que mudaram menos sua concordância com afirmações não políticas após os desafios.  

Esses resultados parecem concordar com outros resultados encontrados em outro estudo que também observou diferente atividade em algumas dessas regiões quando comparadas crenças religiosas e não religiosas em pessoas muito religiosas. Porém, os pesquisadores seguem ao final do artigo apontando alguns problemas ou limitações do estudo que colocam seus resultados em cheque (e isso para mim é um mérito e dever de todo estudo). A primeira limitação é a de que há diferenças entre crenças políticas e não políticas além de somente o grau de concordância da pessoa. Seria possível que as pessoas sendo utilizadas no estudo, por terem sido selecionadas por se considerarem muito interessadas por política, tivessem muito conhecimento sobre as afirmações sendo colocadas no teste ou até mesmo fossem expostas muitas vezes a argumentos contrários a suas crenças, o que poderia ter um efeito de hábito ou controle sobre como elas reagiriam a esse teste. Também é apontado o fato de que crenças políticas são mais prescritivas, normativas em comparação com crenças não políticas que podem ser mais diretas e factuais. Outro ponto interessante a ser colocado é a limitação do estudo por se tratar somente de pessoas liberais, mas não de conservadores. Os autores citam outros estudos que apontam haver diferenças de atividade e até de volume de estruturas neurais entre conservadores e liberais (para saber mais, ver Kanai, R., Feilden, T., Firth, C. & Rees, G. Political orientations are correlated with brain structure in young adults. Curr Biol 21, 677–680, doi: 10.1016/j.cub.2011.03.017 (2011)).      

E aí? O que achou do estudo? Espero que eu tenha conseguido passar a ideia geral e principais resultados encontrados de forma coerente. Se ficou alguma dúvida pode me perguntar. E eu gostaria de fazer um pedido também, quase que como uma pesquisa. Se você achou que esse texto ou o próprio artigo te ajudaram a compreender um pouco mais sobre o nosso comportamento e que te adicionou na forma de você se relacionar com essas questões, por favor, comente algo (qualquer coisa, um sinal) lá embaixo na área de comentário! Obrigada!

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Entrevista: Natalia Oliveira (Dance Your PhD)

Uma das maiores dificuldades das(os) cientistas é ir além dos seus pares e explicar o conteúdo e resultados de sua pesquisa para o grande público. Essa preocupação em particular não parece ser um problema para a Dra. Natália Oliveira, vencedora da categoria de Química e do Voto Popular do concurso mundial “Dance Your PhD 2017” promovido pela revista Science. Em parceria com a cia de dança Vogue 4 Recife, Natalia transformou sua tese intitulada “Desenvolvimento de Biossensores para as Ciências Forenses” em um vídeo explicativo, em que o tema e resultados do estudo dela são explicados de forma lúdica (e dançante!) ao público geral. O trabalho apresentado no clipe também já está publicado em periódico científico e pode ser conferido aqui. Vem conhecer um pouco mais dessa mulher, artista, cientista e feminista e única finalista brasileira do concurso na entrevista de hoje:

CF – Oi, Natália! Você poderia descrever sua pesquisa?

Minha pesquisa é baseada no aparelho que detecta glicose no sangue que pode ser usado em casa pelos diabéticos. No meu caso, o aparelho desenvolvido é uma adaptação desse modelo, em que avalia com mais especificidade amostras biológicas, como sangue, sêmen e saliva nas cenas de crime. A vantagem desse sistema é que ele consegue detectar as amostras mesmo que a cena do crime tenha sido lavada, que é o que geralmente os criminosos fazem pra tentar escapar.

CF – O que te motivou a estudar ciência? Em especial, ciência forense?

É engraçado, eu sempre quis fazer artes, mas quando fui estudar biologia sempre quis estudar Genética. Quando eu entrei na graduação (Ciências Biológicas), veio a possibilidade de estudar Genética e ciência forense, e vislumbrei trabalhar com investigação criminal, como perita, aí eu vi que era isso que eu queria pra mim.  Eu conheci uma perita criminal, que foi minha orientadora da graduação, e depois que a conheci, eu soube que era com isso que eu queria trabalhar. Quando fui pro mestrado, tive que procurar um outro orientador, que me introduziu a ideia dos biossensores. Mesmo trabalhando com um assunto não relacionado com a ciência forense, eu já tinha a vontade de desenvolver algo nessa área da biotecnologia, porque eu vi que tinha carência em alguns aspectos técnicos de métodos usados na investigação de crimes, que estavam precisando de coisas novas, dar uma atualizada… Então eu fiquei com esse embriãozinho e no meu doutorado consegui trabalhar com isso.

CF – Como surgiu a ideia de video clipe?

A ideia surgiu por um pesquisador do meu laboratório aonde fazia o meu doutorado. Ele sabia que eu já fazia teatro há um tempinho e que eu tinha entrado recentemente numa companhia de dança (Vogue 4 Recife). Estávamos discutindo em um grupo do trabalho no Whatsapp,que contem alunos, professores e outros pesquisadores quando ele sugeriu: “Por que tu não participas desse concurso?”. Aí mandou o link. No começo eu não queria fazer [risos]. Mas ele insistiu, disse: “Faça! É a sua cara!”. Acabei comprando a ideia, comecei a ver os vídeos das competições passadas e me empolguei. Levei a ideia para os meus colegas da Vogue 4 e decidi tentar.

CF –  E quanto tempo levou o processo de transformar a tua tese em uma coreografia?

O concurso abriu em março deste ano, só que eu só tive coragem para começar a fazer todo o planejamento em julho – e a deadline era em setembro! Daí, eu cheguei com a ideia pros meninos da Vogue 4 Recife no comecinho de julho com uma ideia e depois disso, desenvolvemos juntos o roteiro geral do clipe. Em agosto, a gente acertou as coreografias e em setembro, a gente fez a gravação em duas tardes: uma tarde no laboratório e uma  no Recife Antigo. Resumindo, foram mais ou menos uns três meses de preparação. Mandamos no último dia da competição, deadline, oito horas da noite, acabava meia noite… “Minha gente, pelo amor de Deus!” [risos]. Mas deu certo. Com muita emoção! [risos].

CF – O video clipe integrou arte e ciências, há outros tipos de trabalhos que você faz que conectam estas áreas?

Eu nunca tinha feito nada que integrasse ciência e arte, mas eu já tinha uma vibe de querer dar uma misturada nas coisas, sabe? É que eu tenho uma coisa muito de criança, de querer misturar tudo e brincar… Mas nunca fiz nada na prática que não fossem atividades da época de escola mesmo. O vídeo foi a primeira vez que misturei as duas coisas.

CF –  Para você, quanto a criatividade é importante para ser cientista?

Eu acho bem importante a gente ter arte para ser cientista, justamente por conta da criatividade. Lembro que eu estava em um evento sobre parques tecnológicos em 2013 e ouvi de um pesquisador que falava para seus alunos que eles tinham que buscar arte: “não fiquem só no laboratório, não se limitem. Vão buscar criatividade em locais que vocês nunca imaginaram”. Ele dizia que a arte era um meio condutor. Se a gente for pensar na questão da academia, acaba reproduzindo o que já existe. Então se a gente tem uma novidade, isso é possibilitado pelas artes. Então, além de nos humanizar, a arte expande nossa cabeça para pensar em métodos e situações que nunca pensamos na nossa vida acadêmica. Mas não só para cientistas: a arte ganha bastante com a ciência, porque só a criatividade, sem um jeito de reproduzi-la, faz com que muita coisa se perca. Uma certa “metodologia” é válida para as artes, também.

CF – O que você pretende fazer no futuro?

Tenho planos não só na parte científica, mas também na parte artística. Terminei o doutorado em fevereiro e comecei meu pós-doutorado na mesma linha de pesquisa também na UFPE. Já tem uma equipe boa aqui no laboratório para a gente continuar investigando essa área de cenas de crime, mas também expandir para a detecção de drogas ilícitas. Não pretendo ser professora e trabalhar na academia. Gosto de pesquisa científica e sempre quis ser perita. Isso me possibilita fazer pesquisa e seguir a carreira de polícia. Sempre fui meio Sherlock Holmes e CSI [risos].

Com o pessoal da companhia de dança, estamos tentando expandir mais essa ideia que deu uma visibilidade boa pro nosso grupo. O vídeo foi exibido na abertura do X Janela Internacional de Cinema, aqui no Recife!  Foi muito emocionante ver o nosso vídeo projetado naquela tela de cinema enorme, que quando eu era criança assisti O Rei Leão. Pretendemos investir em projetos audiovisuais e também fazer o Making off do nosso video clipe. Por enquanto estamos focando nos derivados do clipe, mas depois vamos pensar em nos planos para 2018.. Estávamos tentando fazer um espetáculo, mas como todos tem seus compromissos, ainda não conseguimos conciliar o tempo de todos. Quem sabe?

CF – Como você vê a questão das minorias na vitória por voto popular do videoclipe?

No começo eu pensei “como é que a academia vai receber isso?”. Não rola um preconceito direto, mas sempre rola um ou outro comentário preconceituoso.  A comunidade ALGBTTQI me acolheu quando eu comecei a estudar teatro e foi graças a eles que hoje eu sou quem eu sou. Então, eu não quis coibir a criatividade de ninguém da companhia. Quem quiser aceitar que nos aceite, porque é isso que a gente é. A gente é uma minoria, mas quer se sentir representado. Então foi por isso que eu disse “gente, vamos gravar isso e aquilo e cada um se veste do jeito que quer. Quem quiser vir de drag vem, quem quiser vir de salto vem. A gente tem que mostrar a nossa luta, que é inerente à história do Vogue”. Seria incoerente colocar todo mundo num padrão hetero-normativo e falar de Vogue. Recebemos críticas falando que somos vagabundos e que estamos gastando dinheiro público, quando na verdade nós usamos nosso dinheiro para produzir o videoclipe. O meu (videoclipe) é uma dança de rua, uma dança de periferia, então pode ter sido por isso que não tenha ganhado, segundo o comentário de alguns. Mas eu não penso muito nisso, eu já me sinto vitoriosa pelo voto popular. O fato de ter uma universidade que não está entre as cem melhores do mundo e ser a única representante da América Latina concorrendo, isso sim pra mim já foi uma vitória.

CF – Quais são as medidas necessárias para manter as mulheres na ciência e qual conselho você daria para as mulheres na ciência?

Eu acho que para manter as mulheres na ciência, a gente precisa de inspiração desde a infância, seja com modelos, com brinquedos e sobretudo sem o estereótipo de que “isso é coisa de menina e isso é coisa de menino. Menina só pode ter profissões determinadas no mercado, enquanto que homens podem fazer o que querem”. Resumindo: mudar o pensamento e nutrir a ideia de profissão gender free, já que todos os seres humanos são capazes de realizar qualquer atividade. E sobre as mulheres na ciências: manas, vocês são maravilhosas! Continuem conquistando seus espaços bravamente, com as pesquisas de ponta, sem esmorecer frente a possíveis episódios machistas que venhamos a enfrentar no nosso cotidiano. O mundo científico é feito por mentes abertas e por pessoas e nós é quem devemos mudar os paradigmas conservadores que existem atualmente.

Obrigada, Natália! Parabéns e sucesso nos novos rumos! 🙂

Entrevista feita por @ribeirosantosn@carmensandiego e @diehistorikerin

 

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Machismo não é justiça, é crime!

Domingo, dia 22 de Outubro, fomos todas e todos surpreendidos em Portugal, com uma notícia, no Jornal de Notícias que avançava, no título, que um “Juiz desculpa violência doméstica com adultério de mulher”. Na manhã desse mesmo dia, já circulava nas redes sociais, um excerto de um acórdão, com a identificação do Tribunal da Relação do Porto, assinado pelo juiz Neto de Moura e pela juíza Maria Luísa Arantes, onde se lia o seguinte: “Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse ato a matasse.” E termina, reiterando que “O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.” Esta mulher, que assim tão levianamente foi julgada, foi sequestrada pelo ex-amante, que a levou ao ex-marido para que este a agredisse com uma moca com pregos, enquanto ele a segurava, porque ela tinha terminado a relação que mantinha com ambos. É a vítima! E este juiz transformou-a na ré, tal como já o tinha feito em 2016, noutro caso de violência doméstica que envolve uma suposta infidelidade, afirmando que “uma mulher que comete adultério é uma pessoa falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral. Enfim, carece de probidade moral”. E, portanto “não surpreende que recorra ao embuste, à farsa, à mentira para esconder a sua deslealdade e isso pode passar pela imputação ao marido ou ao companheiro de maus tratos”.

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Manifestação no Porto 

Sim, estou a citar, é mesmo isto que está escrito em acórdãos de 2016/2017. E, talvez estes não sejam casos únicos. De facto, num estudo solicitado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, em que foram analisadas 500 decisões judiciais relacionadas com o crime de violência doméstica, ficou demonstrado que existe uma desvalorização da culpa dos agressores, tendo havido sentença somente em 20% dos processos e que das 70 condenações, apenas sete corresponderam a prisão efectiva [1]. Seja como for, foram estes casos do juiz Neto de Moura, que chamaram a atenção para o machismo do sistema judicial português e para as decisões que desrespeitam a Constituição, para satisfazer os preconceitos de alguns magistrados. Foram estes casos que indignaram toda a sociedade civil, todas as Organizações Não Governamentais defensoras dos direitos humanos e até as Instituições Públicas e Governamentais [ 2, 3, 4, 5, 6]. Foi esta indignação que fez com que este caso fosse mediático, a nível nacional e internacional [7, 8, 9, 10, 11, 12, 13], que fossem criadas duas petições públicas para manifestar o repúdio contra estas decisões [14, 15] e que fossem marcadas manifestações em vários locais do país: Porto, Lisboa, Coimbra e Évora [16, 17, 18, 19], para o dia 27 de Outubro, às 18 horas.

E, no dia marcado, lá estavam centenas de pessoas nas ruas. Em Lisboa determinava-se que : “No século XXI não queremos juízes do século XIX” e no Porto, as palavras de ordem eram “Juízes machistas, ide ver se chove! Não queremos voltar ao século XIX!” Claro que isto não tem nada a ver com as condições climáticas das duas cidades (no Porto chove muito mais que em Lisboa), está, de todo, relacionado com o facto de este acórdão ser do Tribunal da Relação do Porto, edifício que se encontrava à vista no local da manifestação, o que aumentava a revolta das centenas de pessoas ali reunidas.

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Manifestação no Porto

Patrícia Martins, da rede de activistas feministas Parar o Machismo, construir a igualdade, refere que a ideia das manifestações surgiu “quando fomos confrontadas com a notícia do Jornal de Notícias. Ficámos incrédulas e decidimos, imediatamente, que era necessário responder a esta agressão institucional.” E, fizeram o que fazem sempre: “Falámos com alguns colectivos e associações feministas da cidade, no sentido de percebermos se o entendimento que tínhamos da gravidade do que vinha explicitado pela notícia era o mesmo (e era), e marcámos um protesto em espaço público. Outras pessoas organizaram-se em torno de uma resposta de cariz mais institucional, muito importante e urgente também. Aplaudimos e associamo-nos a todas essas iniciativas. O que queremos é somar razões e acções, porque é assim que entendemos que se constrói o movimento feminista”.

Segundo esta activista, “o protesto construiu-se com todas as pessoas que nele quiseram participar. Gerou-se um movimento de reacção espontânea. Diferentes colectivos e associações feministas, pelos direitos humanos ou outras associações culturais enviaram-nos as suas tomadas de posições e notas de apoio. Pessoas da agenda pública, por  iniciativa própria partilharam mensagens de repúdio e a informação relativa às concentrações.” Isto é, segundo a Patrícia, a rede Parar o Machismo, construir a igualdade, tomou a iniciativa, mas foi “todo um movimento de mulheres e homens (sobretudo de mulheres)  que se fizeram ouvir, reclamando uma democracia exigente, igualitária e pelo respeito dos direitos das mulheres.” Quanto aos objectivos desta manifestação, a mesma activista refere categoricamente que “ em primeiro lugar, pretendemos afirmar que nunca aceitaremos que um órgão de soberania veicule ideias ultrapassadas e ultrajantes e que, imbuído nessa cultura de antanho, cause prejuízo às mulheres. Ou seja, nunca aceitaremos que os avanços civilizacionais dados pelo país em matéria de igualdade de género fiquem à porta dos tribunais.” E, continua: “Queremos que o Conselho Superior de Magistratura instaure um processo disciplinar a este colectivo de juízes e que os iniba de julgar casos de violência de género. Queremos que ordene um estudo – ou que se detenha a estudar os estudos já feitos por outros organismos – sobre a forma como são julgados os casos de violência de género e que aja em conformidade com as conclusões que vierem a surgir. É importante, ainda, exigir que o currículo da formação de juízes e de magistrados do Ministério Público inclua temas como a violência de género e que os juízes e os magistrados do Ministério Público, no activo, frequentem espaços de formação nesta matéria. Mas, fundamentalmente, aquilo que verdadeiramente queremos é que todas as mulheres vítimas de violência saiam capacitadas deste processo, isto é, que percebam que, mesmo quando chocam com colectivos de juízes de antanho, vale a pena denunciar e não calar a violência de que são vítimas.”

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Manifestação no Porto

Questionada sobre os resultados da manifestação, Patrícia Martins revela que “superou as expectativas, uma vez que não éramos só nós e as nossas redes de contactos. Apareceram mulheres de diferentes idades, que talvez nunca tivessem participado em nenhuma concentração”. Revela, no entanto, um aspecto negativo: “Mais uma vez, alguns órgãos da comunicação social centraram a sua mensagem na mediatização da vítima, fazendo diversas investidas no sentido de trazer a público aspectos da vida privada da pessoa em causa. Não foi publicada uma única notícia sobre os agressores. Onde vivem, o que fazem, como estão a lidar com a mediatização do acórdão do Tribunal da Relação do Porto!” E, apela: “Mediatizemos os estudos sobre violência doméstica e tudo o que falta fazer, mediatizemos a educação para a igualdade de género, mediatizemos a violência machista, mas não mediatizemos as vítimas das agressões.”

[1] https://www.dn.pt/sociedade/interior/amp/e-um-acordao-de-um-coletivo-houve-discussao-8881519.html?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

[2] https://www.publico.pt/2017/10/24/sociedade/noticia/amnistia-entende-que-acordao-da-relacao-do-porto-viola-obrigacoes-internacionais-1790112

[3] https://www.publico.pt/2017/10/24/sociedade/noticia/bispos-condenam-polemico-acordao-sobre-violencia-domestica-1790100

[4] https://www.publico.pt/2017/10/25/sociedade/noticia/associacao-de-psicologos-diz-que-juiz-se-equivocou-no-seculo-em-que-trabalha-1790188/amp#

[5] https://www.publico.pt/2017/10/25/sociedade/noticia/todos-os-orgaos-devem-cumprir-a-constituicao-de-1976-diz-marcelo-1790250

[6] https://www.cig.gov.pt/2017/10/comunicado-acordao-do-tribunal-da-relacao-do-porto-num-processo-violencia-domestica/

[7] http://edition.cnn.com/2017/10/26/europe/portugal-honor-beating-trnd/index.html

[8] https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2017/10/25/no-jail-for-portuguese-man-who-beat-ex-wife-because-her-adultery-assaulted-his-honor/?utm_term=.9dc38a952f42

[9] https://blogs.mediapart.fr/arthur-porto/blog/251017/portugal-quand-ladultere-justifie-la-violence

[10] https://elpais.com/internacional/2017/10/23/actualidad/1508762944_523916.html

[11] http://www.elmundo.es/sociedad/2017/10/23/59edf4f6468aeb293b8b45ab.html

[12] https://www.theguardian.com/world/2017/oct/24/portugal-protest-judges-adultery-mitigated-woman-attack?CMP=share_btn_fb

[13] http://www.euronews.com/2017/10/23/portuguese-judge-sparks-row-with-use-of-bible-to-defend-domestic-violence?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1508832128

[14] http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT87222

[15] http://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT87258

[16] https://www.facebook.com/events/2020928621485763/

[17]https://www.facebook.com/events/272951729893160/?acontext=%7B%22ref%22%3A%221%22%2C%22feed_story_type%22%3A%22308%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[18]https://www.facebook.com/events/783857498468427/?acontext=%7B%22ref%22%3A%221%22%2C%22feed_story_type%22%3A%22308%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D

[19]https://www.facebook.com/events/137581243555078/?acontext=%7B%22ref%22%3A%221%22%2C%22feed_story_type%22%3A%22308%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D

 

 

 

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Put a Ring on it: Os novos anéis do Sistema Solar

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Beyoncé e suas amigas que gostam de anéis

Saturno, o segundo maior planeta do Sistema Solar, sempre chamou grande atenção por seus lindos anéis. Os aneis de Saturno foram detectados pela primeira vez em 1610 por Galileu Galilei. Os anéis de Saturno são feitos de gelo e rocha de diversos tamanhos. Alguns são tão pequenos como um grão de areia e outros são tão grandes como uma casa. Por muito tempo pensou-se que Saturno era o único objeto com tal característica, mas tempos depois descobriu-se que os anéis não eram um privilégio de Saturno mas todos os planetas gigantes do Sistema Solar apresentam anéis, mesmo que não tão majestosos como o de Saturno. Apesar de ser uma descoberta de longa data, os cientistas não sabem quando e como os anéis se formaram.

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Saturno com seus majestosos anéis. Fonte: Istock/Getty Images

Parecia que este tipo de estrutura era formada em apenas planetas gigantes mas uma descoberta brasileira de 2014 revelou que era possível anéis em asteróides. Os pesquisadores do Observatório Nacional detectaram a presença de não apenas um, mas de dois anéis no objeto (10199) Chariklo, o que foi uma grande surpresa. Chariklo é pertencente aos Centauros, uma classe de pequenos objetos que se encontram entre Júpiter e Netuno. Chariklo tem um raio de cerca de 124 km. Os dois densos anéis tem 7 e 3 km de largura e foram batizados de Oiapoque e Chuí, uma referência aos extremos do Brasil. A maior parte da composição dos anéis é de água congelada. [1]

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Chariklo e os anéis Oiapoque e Chuí. Fonte: The Space Reporter.

No dia 3 de junho de 2013, Chariklo passaria em frente à estrela UCAC4 248-108672, uma estrela distante. As observações foram feitas em diversos sítios de localizados no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. Durante o eclipse, os astrônomos puderam observar a silhueta do asteroide com mais cuidado. Os resultados de Chariklo, no entanto, surpreenderam. O brilho da estrela foi bloqueado em dois momentos inesperados, instantes antes e instantes depois da passagem do asteroide, como podemos observar no vídeo. Era um sinal de que Chariklo não estava sozinho. “Nós não estávamos procurando por anéis, e não achávamos que corpos tão pequenos quanto Chariklo tivessem anéis. Por isso essa descoberta – e a imensa quantidade de detalhes que conseguimos observar no sistema – foram uma grande surpresa”, declarou Felipe Braga Ribas, o principal pesquisador envolvido na descoberta. [3]

Os anéis ainda explicam um fenômeno observado quando da descoberta do asteroide em 1997. Quando avistado pela primeira vez, ele era um corpo brilhante, cuja luminosidade diminuiu até ressurgir em 2008. Isso aconteceu porque seus anéis, formados em grande parte por água congelada, refletem a luz como grandes espelhos. Entre 1997 e 2008, no entanto, a superfície refletora ficou voltada na direção oposta à Terra.

A ciência não para e um time composto por diversos brasileiros, inclusive muitos dos que estiveram envolvidos na descoberta dos anéis de Chariklo, anunciaram em meados de Outubro uma nova descoberta: um anel em um planeta anão!

O planeta anão Haumea é um objeto interessante, gira em torno do Sol em uma órbita elíptica que leva 284 anos, e leva apenas 3,9 horas para girar em torno de seu próprio eixo, muito menos que qualquer outro corpo que mede mais de cem quilômetros de comprimento em todo o Sistema Solar. Esta velocidade de rotação faz com que ele tenha uma forma elipsoidal semelhante a uma bola de rugby. Os dados recentemente publicados revelam que Haumea mede 2.320 km no seu maior eixo, quase o mesmo que Plutão. [2]

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Haumea (esquerda) e Plutão (direita). Fonte: Sylvain Cnudde – SIGAL – LESIA, Observatoire de Paris

De acordo com os dados obtidos a partir da ocultação estelar, o anel fica no plano equatorial do planeta anão, assim como o seu maior satélite, Hi’iaka, e exibe uma ressonância 3:1 em relação à rotação de Haumea, o que significa que as partículas congeladas que compõem o anel rodam três vezes mais lentamente ao redor do planeta do que gira em torno de seu próprio eixo.[4]

A origem destes anéis não foi esclarecida ainda. Uma hipótese é que a composição dos anéis podem ser remanescentes do disco de poeira primordial que ficou confinado. Outras possibilidades seriam colisão com outro objeto, ou na dispersão do material de superfície devido à alta velocidade de rotação do planeta no caso de Haumea.

Referências:

[1] Braga-Ribas, F. et al., A ring system detected around the Centaur (10199) Chariklo, ature. Nature, Volume 508, Issue 7494, pp. 72-75 (2014). https://arxiv.org/abs/1409.7259

[2] Ortiz, J.L., et al. The size, shape, density and ring of the dwarf planet Haumea from a stellar occultation. Nature, Volume 550, Issue 7675, pp. 219-223 (2017). http://www.nature.com/nature/journal/v550/n7675/full/nature24051.html?foxtrotcallback=true

[3] http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/brasileiros-descobrem-bsistema-de-aneisb-em-torno-de-asteroide.html

[4] http://www.iaa.es/en/news/haumea-most-peculiar-pluto-companions-has-ring-around-it