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O laboratório e o dia-a-dia – Parte III: Como cientistas estudam relações entre fenômenos?

Nos artigos anteriores sobre o método científico e os fenômenos do dia-a-dia, discutimos um pouco sobre a diferença de variáveis dependentes e independentes e sobre a importância da estatística para a ciência.

Também vimos que, tipicamente, cientistas estão lidando com muitas variáveis ao mesmo tempo e que estabelecer uma relação entre elas de forma rigorosa não costuma ser uma tarefa fácil.

Muitas vezes, entender as causas e consequências de determinado fenômeno exigem a análise de fatores que interferem tanto com as variáveis dependentes quanto com as independentes. Eles são chamados fatores de confusão.

Quanto mais longe das chamadas “hard sciences” nós estamos, mais complexos os fatores de confusão. Por exemplo, nas ciências sociais, pode-se observar padrões de comportamento em diferentes grupos, mas é impossível isolar todas variáveis ou “criar” uma sociedade independente de outras culturas para realizar observações experimentais. Na verdade, assumir que todas as variáveis são conhecidas já seria cometer um erro metodológico logo no começo.



Determinar fatores de confusão pode levar muitos anos de pesquisa em uma area, e o uso de diferentes abordagens. Imagem adaptada de: Annalise Batista

Na linguística, da mesma forma, para entender o desenvolvimento da fala e suas relações com a cultura, não se pode ensinar uma língua a um bebê de forma a isolá-lo da sociedade – e mesmo que este experimento imaginário não tivesse muitos problemas éticos, ainda assim teríamos um fator cultural proveniente dos próprios experimentadores.

Isso não quer dizer que não é possível estudar o fenômeno da aquisição de linguagem, apenas que a abordagem metodológica requer mais observação e análise do que manipulação experimental, ou ainda que a manipulação experimental é mais localizada e visa analisar como o fenômeno já acontece, no lugar de induzir o acontecimento do fenômeno.

Isso também acontece em algum nível nas ciências exatas. Na astronomia e na cosmologia por exemplo, não se está criando um buraco negro em laboratório para estudar como um buraco negro funciona. Mas observações indiretas sistemáticas levam a modelos capazes de compreender e prever fenômenos de forma reprodutível e confiável.

Cada área do conhecimento terá suas abordagens próprias e seus recortes do que será considerado propriedade e o que será considerado resultado. Áreas multidisciplinares carregam o desafio de cruzar as metodologias de áreas diferentes e encontrar conexões lógicas e que forneçam conclusões coerentes.

A epidemiologia, por exemplo, usa diversos modelos matemáticos e computacionais para estudar ciências da saúde, com o objetivo de compreender doenças do ponto de vista coletivo e promover sua prevenção.

Observar grandes quantidades de casos nos permite fazer perguntas interessantes, que não seriam possíveis se estivéssemos estudando doenças isoladamente ou como as doenças afetam um único organismo.

Por exemplo, ouvimos falar com frequência que exercícios físicos combatem a depressão. Mas como determinar se essa relação é de fato causal, ou seja, como saber se a prática de exercícios previne a depressão ou se pessoas não deprimidas tendem a se exercitar mais?


Exercícios físicos previnem a depressão ou a depressão aumenta o sedentarismo? Imagem: Mabel Amber

Ou ainda: como saber se a prática regular de exercícios associada a menores índices de depressão não é na verdade um indicador econômico de que determinados grupos, que têm acesso facilitado à prática de exercícios, tem também acesso a outras oportunidades de atividades que proporcionam maior bem estar?

Para abordar o problema dos fatores de confusão, e também o problema de determinar se a relação entre dois fatores observados é de causa ou de consequência, um dos métodos usados em epidemiologia chama-se Randomização Mendeliana. Aqui, o nome é inspirado em Mendel porque trata-se do uso de dados mensuráveis de variação genética numa determinada população, de forma a escolher apenas os genes com funções bem conhecidas. Assim, é possível entender melhor quais as relações causais de fato envolvidas entre dois fenômenos que parecem estar relacionados.

Um estudo recente publicado na JAMA Psychiatry estudou centenas de milhares de pessoas e seus respectivos níveis de atividade física – tanto os níveis relatados pelos participantes quanto medidas objetivas calculadas através do uso de acelerômetros – bem como variantes genéticas independentes que foram previamente associadas à prática de exercícios.

Os pesquisadores concluíram que, de fato, a prática regular de exercícios físicos (medida objetivamente) é um fator de proteção contra a depressão clínica. As medidas subjetivas – quantidade de exercícios que os participantes relataram verbalmente – não apresentou a mesma correlação.

Isso não quer dizer que as demais possíveis relações são todas inválidas (por exemplo, ainda é verdade que pessoas deprimidas têm mais dificuldade de encontrar motivação para se exercitarem). Mas é uma forma de atestar uma relação segura de causa-consequência.

Encontrar correlações precisas entre fenômenos não é uma tarefa trivial, e levanta mais perguntas. No caso do estudo acima, por exemplo, ainda resta muito a investigar sobre as relações profundas entre exercício físico e depressão, e sobre as causas da depressão em si, que já são sabidamente muitas.

Mas este trabalho é necessário e cumulativo, e nos traz cada vez mais perto de entender fenômenos complexos e como eles se relacionam ou não. Mais ainda: podemos desenvolver cada vez mais novas áreas interdisciplinares que vão trazer novas perguntas a serem respondidas.

Referências
Choi KW, Chen C, Stein MB, et al. Assessment of Bidirectional Relationships Between Physical Activity and Depression Among Adults: A 2-Sample Mendelian Randomization Study. JAMA Psychiatry. 2019;76(4):399–408. <https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2720689>

Popular Science – “Exercise really does seem to help with depression” <https://www.popsci.com/exercise-depression>

Wikipedia – Mendelian Randomization <https://en.wikipedia.org/wiki/Mendelian_randomization>

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Expedição MOSAiC: seguindo os passos de um dos grandes.

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O navio polar alemão Polarstern. Foto de Stefan Hendricks. 

Aos 28 anos, já não sofro mais de amores platônicos ou daqueles “crushs” sem explicação. Mais ainda há um indivíduo pelo qual nutro uma admiração nada tímida, o que minha mãe chamaria de “ter uma queda por”… Hoje falaremos desse homem: Fridtjof Nansen. E também das mudanças climáticas no Ártico. 

A primeira vez que ouvi falar de Nansen foi relacionado a um tipo de garrafa usada para amostragem de água no oceano, que possui um mecanismo de fechamento automático. Em 1894, Nansen criou um sistema em que um peso de latão chamado “mensageiro” era enviado por um cabo, permitindo que qualquer pessoa fechasse esta garrafa em qualquer profundidade desejada e revolucionando a maneira como investigamos o oceano. Um homem que dominou a arte de se comunicar com profundidade. 

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Esquema da Garrafa de Nansen, equipamento de amostragem oceanográfica. Imagem retirada do material da Universidade de Algarve, Portugal. 

Mais tarde, ainda na graduação, aprendi que Nansen foi o primeiro a notar que o oceano se move cerca de 45° para a direita (Hemisfério Norte) do vento predominante. Ele fez isso observando como seu barco flutuava com o gelo através do Oceano Ártico. Um homem que presta atenção aos detalhes.

Naquela época, mal sabia eu que essa deriva não era um passeio de barco comum pelo Ártico. Inspirado nos restos de um barco que afundou na Sibéria e foi descoberto na costa da Groenlândia três anos depois, Nansen projetou uma embarcação com casco arredondado e outras características para suportar a pressão do gelo na esperança de alcançar o pólo norte, o Fram. Apesar do desânimo de outros exploradores polares, Nansen levou o Fram às Novas Ilhas da Sibéria, no leste do Oceano Ártico, congelou-o em um bloco de gelo e iniciou sua expedição de três anos. Ele não alcançou o pólo, mas o Fram desviou-se para o oeste até emergir no Atlântico Norte e ele foi encontrado em Franz Josef Land após sua tentativa de chegar ao topo do mundo a pé. Todo mundo ama um homem interessado em uma aventura.

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Nansen e o Fram. Imagem de Domínio Público.

A expedição de Nansen inspirou a expedição do MOSAiC, que tem o quebra-gelo alemão Polarstern, preso no gelo na tentativa de replicar o caminho do Fram. Enquanto ele deriva com o gelo, cientistas coletarão dados de pesquisa atmosférica, oceanográfica, biológica e biogeoquímica no caminho, criando um conjunto de dados sem precedentes para entender o sistema Ártico. Tive a chance de fazer parte da primeira etapa desta viagem e trabalhar na configuração inicial dos equipamentos, cruzando meu caminho com o de Nansen mais uma vez. Correndo o risco de ser maquiavélica, devo concordar que “um homem prudente sempre tentará seguir os passos de grandes homens”.

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Passar um ano “preso” no gelo não é fácil. A expedição MOSAiC enfrenta um grande desafio logístico, incluindo pelo menos 3 aeronaves científicas, 4 navios quebra-gelo de apoio e muita colaboração internacional. 

A Expedição está programada para durar 1 ano e no momento se encontra em sua segunda fase. Na primeira, estive abordo do navio russo RV Akademik Fedorov, como parte de um programa de treinamento para doutorandos e mestrandos que ocorreu em conjunto (MOSAiC School). Fomos incluídos na tarefa de instalar uma rede de apoio ao Polarstern em um raio de 20km-40km da onde ele se encontrava fundeado no gelo. Horas de trabalho no gelo marinho, instalando estações meteorológicas, perfiladores e bóias. Tudo isso combinado a vôos de helicóptero para instalações um pouco mais simples, mas mais numerosas.

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Mapa da Rede de Equipamentos. A estrela vermelha no meio representa o Polarstern, no bloco de gelo escolhido. L-sites foram os locais com mais equipamentos instalados, contendo estações meteorológicas, boias de fluxos, boias de massa e perfiladores (quadrados azuis). M-sites são os locais um pouco menores, contendo medidores de salinidade e temperatura em profundidade, boias de neve e perfiladores (Círculos verdes). Os P-sites representam boias-GPS, que ajudam a monitorar a deformação dos blocos de gelo onde os equipamentos estão e dão uma melhor estimativa da deriva, que pode chegar até 3km por dia.    

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O grupo parte da MOSAiC School no Ártico com o RV Akademik Fedorov ao fundo (Set-Out/2019). Credit: Josephine Lenz.

Agora, o Polarstern está fundeado no gelo e derivando, junto com toda a sua rede de equipamentos de apoio. A deriva pode ser acompanhada pelo web app da expedição, junto com a deriva do Fram em 1893. Lá também se encontram diversas informações, fotos e artigos das atividades desenvolvidas e desafios enfrentados pelos cientistas e tripulação a bordo.

Screenshots do web app da expedição, mostrando a comparação entre as duas derivas. Polarstern à esquerda (azul) e o Fram de Nansen à direita (verde). MOSAiC se propõe a investigar o sistema climático do Ártico de forma integrada o ano todo – uma das maiores áreas desconhecidas da pesquisa climática.

Mas pra quê tanto esforço logístico pra passar um ano no meio do gelo? O Ártico é a área onde os efeitos das mudanças climáticas globais são mais visíveis, com taxas de aquecimento excedendo o dobro da média global e aquecimento ainda maior no inverno. Os cientistas já defendem que o oceano Ártico ficará sem gelo no verão ainda durante o século XXI. Essa mudança dramática não afeta somente o Ártico, impactando o clima em todo o hemisfério norte e fomentando um rápido desenvolvimento econômico na região.

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Mudanças próximas da temperatura da superfície de 1970-2017 (Gráfico: NASA GISS, https://data.giss.nasa.gov/gistemp).

Além disso, as projeções futuras de mudanças climáticas para o Ártico são extremamente incertas, com um fator de três incertezas do aquecimento projetado até o final deste século – uma incerteza muito maior do que em qualquer outro lugar do planeta. Muitos processos no sistema climático do Ártico estão mal representados nos modelos climáticos, porque não são suficientemente compreendidos. Enquanto não entendermos esses processos, as projeções do clima no Ártico não serão robustas.

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No Ártico, as incertezas dos modelos climáticos são muito maiores do que em qualquer outra parte do planeta. As projeções do aquecimento até o final do século variam entre 5 e 15 graus Celsius entre os diferentes modelos, para o mesmo cenário (RCP8.5). © Alfred Wegener Institute.

A compreensão dos processos climáticos do Ártico é limitada por falta de observações no Ártico Central, especialmente no inverno e na primavera. Durante essas estações, o gelo do mar é tão espesso que nem mesmo os melhores quebra-gelo de pesquisa conseguem penetrar no Ártico e os pesquisadores sempre ficam trancados. Daí a importância de coletar os dados durante a noite polar! Para melhorar as projeções dos modelos climáticos são preciso dados reais – em todas as épocas do ano. A expedição MOSAiC fornecerá uma base científica mais robusta para decisões políticas sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas e para estabelecer uma estrutura para gerenciar o desenvolvimento do Ártico de maneira sustentável.

Trabalho operacional, auroras, noite polar, -30 graus e ursos polares.  MOSAiC é uma forma ousada e inovadora de buscar entender o sistema climático do Ártico e sua representação nos modelos climáticos globais. Uma experiência sensacional, cujos dados estarão disponíveis para todos a partir de 2023.

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Trabalhando no gelo. Cientistas enfrentam diversas dificuldades, incluindo utilizar ferramentas finas com luvas grossas. Retirar as luvas com -30°C é arriscado e a exposição precisa ser mínima. Foto Thea Schneider.

Nansen também estava à frente de seu tempo de outras maneiras. De volta do Ártico e com acesso à internet (infelizmente) restabelecido, fui confrontada com meu primeiro “nude masculino” não solicitado de todos os tempos: um nu frontal de Fridtjof Nansen. Ele parece sereno e seguro de si em uma pose destemida, ousada e desafiadora. Assim como sua vida e sua contribuição para a ciência.

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Nude frontal de Nansen. Foto Dominio Público. 

Que homem! 😉

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O cérebro e suas redes (bem) complexas

No século XVIII a cidade de Königsberg (na atual Rússia) possuía 7 pontes conectando suas duas ilhas e duas outras porções de terra principais (veja mapa na figura 1). Diz a lenda que as pessoas costumavam se perguntar se seria possível fazer um passeio pelas ilhas atravessando todas as pontes sem repetir nenhuma delas. Até que em 1736, o matemático e físico Leonhard Euler resolveu essa questão considerando que cada pedaço de terra funcionaria como um nó e cada ponte como um link (ou uma conexão) entre os diferentes nós (veja o lado direito da figura 1) [1]. Ele percebeu que uma condição necessária para que todos os links (ou pontes) fossem percorridos uma única vez era que a rede tivesse zero ou apenas dois nós com um número ímpar de links. No primeiro caso qualquer nó poderia ser escolhido como ponto inicial do passeio. No segundo caso, o caminho (que ficou conhecido posteriormente como caminho de Euler) deveria começar e terminar exatamente nos nós com números ímpares de conexões. Note que essa solução se aplica a qualquer rede e não apenas a das pontes de Königsberg. Mas como a rede em questão possuía 4 nós, cada um com um número ímpar de links, Euler garantiu que não seria possível realizar um passeio por esta cidade cruzando cada ponte uma única vez.

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Fig.01: Mapa da cidade de Königsberg em 1736 e sua simplificação para um  estudo de redes. Figura retirada da Ref. [1].

Esta história ficou conhecida como o primeiro problema resolvido do que veio a ser a área do conhecimento que estuda as propriedades das redes complexas e que recebeu o nome de ciência das redes (network science). Desde então, a ciência das redes vem sendo utilizada para resolver problemas em diversas áreas como engenharia de transportes, finanças, genética, ecologia… Recentemente sua aplicação em neurociência ganhou o nome especial de network neuroscience [2] (ainda sem um nome oficial em português podemos chamar a neurociência das redes ou redes cerebrais). A ideia básica continua parecida com o problema das pontes, mas a quantidade de nós e links que podemos estudar é gigantesca. E, portanto, exige o desenvolvimento de novas técnicas de análise de redes e de obtenção de dados reais das redes específicas de interesse. Além disso, a quantidade de perguntas que podemos fazer sobre caminhos e propriedades dessas redes tem aumentado bastante.

Diversos grupos de pesquisa têm se dedicado a descrever da maneira mais detalhada  possível a rede formada por neurônios e sinapses de determinadas regiões do cérebro de diferentes espécies. Em julho deste ano foi publicada a matriz de conectividade completa do sistema nervoso do nematódeo C. Elegans (provavelmente o vermezinho mais querido da ciência) [3]. Em outras palavras, os cientistas descreveram todas as conexões entre os 302 neurônios do animal. Para diversas outras espécies, o que já conhecemos é a matriz de conectividade entre certas regiões do cérebro. Afinal, encontrar a matriz de conexão entre os 85 bilhões de neurônios do cérebro humano [4] parece uma tarefa exageradamente árdua.

Claramente as redes de conectividade dos diferentes animais são algo intermediário entre a total regularidade e a bagunça generalizada. Ou seja, os 302 neurônios do C. Elegans não estão organizados em uma rede regular, como em um cristal, onde cada nó tem a mesma quantidade de vizinhos (exemplo da esquerda na figura 2), nem estão conectados de maneira totalmente aleatória (direita da figura 2). E o que os cientistas têm buscado são propriedades topológicas mais gerais das diferentes redes cerebrais. Assim, seguimos procurando um ponto ótimo entre tentar conhecer o melhor possível a estrutura das redes que nos interessam e tentar extrair propriedades mais gerais dessas redes.

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Fig. 02 Modificada da Ref. [5].  Uma rede inicialmente regular onde cada nó possui dois vizinhos vai sendo transformada em uma rede aleatória seguindo uma regra em que sucessivamente escolhemos um nó que pode ter um de seus links removidos com probabilidade p e sorteamos aleatoriamente um outro nó para se conectar com este primeiro. Para valores intermediários de p esta rede é conhecida como mundo pequeno (small word).

No início desse ano, Danielle Basset uma física bastante ativa na área de neurociência das redes e buscando aplicações em medicina, publicou um artigo de revisão sobre a física das redes cerebrais [6]. O artigo é um compilado de como diversas áreas da física podem contribuir para neurociência e em particular para o estudo da topologia dessas redes a partir da análise dos diferentes tipos de dados. Ela salienta que a arquitetura das conexões entre os neurônios ou regiões cerebrais está sempre restrita a necessidade de minimização de energia e eficiência na transferência de informação. Se por um lado precisamos de técnicas para determinar o melhor possível a conectividade anatômica entre as regiões, por outro precisamos ser capazes de determinar a conectividade funcional levando em conta a atividade dinâmica do cérebro durante diferentes tarefas. Nos dois casos podemos determinar a matriz de conectividade das redes e suas propriedades topológicas (ver figura 03).

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Fig. 03 Modificada da Ref. [6]. Na primeira linha medimos as conexões anatômicas entre as regiões do cérebro e determinamos quais regiões estão conectadas entre si através da matriz de adjacência. Depois estudamos as propriedades da rede formada. Na segunda linha utilizamos a atividade elétrica ou sanguínea das diversas regiões cerebrais e determinamos uma matriz de similaridade dependendo do quanto esses sinais estão correlacionados. Esta é a chamada rede funcional pois pode variar durante a realização de diferentes tarefas cognitivas.

Por exemplo, em um outro artigo Danielle estudou a matriz de conectividade entre regiões do cérebro de quatro animais diferentes: rato, mosca, macaco e humanos [7]. A maioria das conexões nessas redes são de curto alcance, ou seja, conectam regiões próximas, o que reflete as restrições anatômicas e energéticas do sistema. No entanto algumas conexões entre regiões bastante afastadas são (inesperadamente) encontradas. Dado o custo energético dessas conexões longas, espera-se que elas desempenhem um papel importante para o funcionamento do cérebro. No artigo, a cientista mostrou que, diferente do que se acreditava, conexões de longas distâncias no cérebro têm um papel minoritário em reduzir as distâncias topológicas entre os nós da rede. Por outro lado, essas conexões de longo alcance aumentam a complexidade da dinâmica da rede. Graças à análise de mais dados e a combinação dessas análises com modelos teóricos (comparando conectividade estrutural e funcional) foi possível prever uma nova funcionalidade para essas conexões entre regiões distante que seria garantir a diversidade da atividade cerebral.

No começo desse mês, mais uma contribuição para essa área foi publicada dando mais um passo na caracterização da complexidade das redes. Dessa vez, um estudo realizado aqui no Brasil desenvolveu uma nova ferramenta matemática para classificar redes complexas de maneira geral, bem como redes associadas ao cérebro [8]. Utilizando algumas ideias bem estabelecidas de análise de séries temporais os pesquisadores propuseram uma maneira de calcular a entropia de uma rede complexa, baseado na probabilidade de um caminhante aleatório passear pelos diversos nós da rede. (Na analogia das pontes, considerando qual a probabilidade de você atravessar uma certa ponte durante um passeio aleatório pela cidade sem querer chegar em nenhum outro ponto específico.)

Calculando duas medidas específicas baseadas na quantidade de links de cada nó: a entropia de Shannon e a informação de Fisher para redes do tipo regular (vermelho) e do tipo aleatória (azul) eles puderam comparar onde outras redes reais estariam nesse plano.  Em particular, eles mostraram que a rede que descreve a medula da mosca e a retina do rato (respectivamente representadas pelos números #13 e #14 na figura 4) estão em uma região intermediária do plano de entropia podendo ser caracterizada por redes tipo mundo pequeno. Além disso, uma possível extensão dessa ferramenta seria calcular não apenas a entropia mas a complexidade (ou o desequilíbrio) dessas redes. Esperamos que, em breve, essa nova ferramenta possa ser utilizada em dados de outros sistemas nervosos como por exemplos os dados estudados na Ref. [7].

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Fig.04 Modificada da Ref. [8]. Compara as propriedades de redes reais (laranja) com redes simuladas computacionalmente com diferentes valores de densidade de links por nó. Calculando duas medidas estatísticas específicas : a entropia de Shannon e a informação de Fisher para redes do tipo regular (vermelho) e do tipo aleatória (azul) os autores deste trabalho puderam delimitar uma região do plano em que as redes reais se comportariam como rede tipo mundo pequeno.

Referências

[1]  Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Seven_Bridges_of_K%C3%B6nigsberg

[2]  Danielle S. Basset e Olaf Sporns. “Network neuroscience.” Nature neuroscience 20.3 (2017): 353.

[3] Steven J. Cook, et al. “Whole-animal connectomes of both Caenorhabditis elegans sexes.” Nature 571.7763 (2019): 63-71.

[4]  Frederico AC Azevedo, et al. “Equal numbers of neuronal and nonneuronal cells make the human brain an isometrically scaled‐up primate brain.” Journal of Comparative Neurology 513.5 (2009): 532-541.

[5] Duncan J. Watts e Steven H. Strogatz. “Collective dynamics of ‘small-world’networks.” nature 393.6684 (1998): 440.

[6] Christopher W. Lynn e Danielle S. Bassett. “The physics of brain network structure, function and control.” Nature Reviews Physics (2019): 1.

[7] Richard F. Betzel e Danielle S. Bassett. “Specificity and robustness of long-distance connections in weighted, interareal connectomes.” Proceedings of the National Academy of Sciences 115.21 (2018): E4880-E4889.

[8] Cristopher GS Freitas, et al. “A detailed characterization of complex networks using Information Theory.” Scientific reports 9.1 (2019): 1-12.

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A moeda do momento: suas informações

O mundo gira pela roda do capitalismo, o consumo é a base da sociedade atual, ela que molda seu trabalho e até suas relações pessoais e é claro que as empresas sabem disso.

Já algum tempo as empresas utilizam dos seus desejos mais secretos para fazê-lo consumir mais. Antigamente você ia até uma loja e lá um funcionário lhe ajudaria a achar o que mais lhe agradasse, hoje o tempo que você passa vendo uma propaganda na internet, um like em um artista, uma pesquisa num buscador é muito mais do que o suficiente para traçar o seu perfil e enviar marketing personalizado para você. Por um lado pode até facilitar a sua vida quando necessário mas e quando isso extrapola a necessidade? Milhões de pessoas se endividam devido a um consumo exagerado e essas propagandas direcionadas tem colaborado fortemente para isso.

O Customer Relationship Management (CRM) é um termo em inglês que pode ser traduzido para a língua portuguesa como Gestão de Relacionamento com o Cliente. Foi criado para definir toda uma classe de sistemas de informações ou ferramentas que automatizam as funções de contato de empresas com os clientes.

Por um tempo essa relação entre os clientes e as empresas eram feitas de outras formas, muitas vezes também não muito honestas como em caso de compras de dados telefônicos e cpf ou a famosa abordagem aos aposentados pelas empresas de empréstimos. Agora a coleta de dados é automatizada e quem está disponibilizando as nossas informações somos nós mesmo.

As ferramentas que utilizam o CRM ajudam a montar campanhas específicas para certos públicos e manter um bom relacionamento com seus clientes armazenando e inter-relacionando de forma inteligente, informações sobre suas atividades e interações com a empresa.

Os dados são a nova força vital do capitalismo.O fluxo de dados agora contribui mais para o PIB mundial do que o fluxo de bens físicos.

Em outras palavras, há mais dinheiro na movimentação de informações entre fronteiras do que movendo soja e refrigeradores.

A circulação global de dados é realmente sobre a circulação global de capital. E tem enormes consequências para a organização global da riqueza e do trabalho.

Os fluxos de dados permitem que os empregadores em países com salários mais altos terceirizem mais tarefas para trabalhadores em países com baixos salários. Eles ajudam as empresas a coordenar cadeias de fornecimento complexas que empurram empregos de manufatura para os lugares com os custos de mão de obra mais baratos.

O quanto é irresponsável para o planeta esse consumo desenfreado com o modelo capitalista que virá a causar uma catástrofe ambiental em nome do lucro. Mas a coleta de dados não são apenas para o consumo, suas informações podem ser usadas para definir governos.

Recentemente o Facebook aceitou pagar multa de 500 mil libras pelo caso Cambridge Analytica, uma grande empresa de mineração de dados nas redes.

A empresa britânica Cambridge Analytica foi acusada de coletar e explorar sem consentimento os dados pessoais de milhões de usuários, que foram disponibilizados pelo Facebook, com uma finalidade política, sobretudo para fazer o Brexit ganhar no Reino Unido e Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016.

O documentário “Privacidade Hackeada” mostra os bastidores desse escândalo. A empresa britânica utilizava dados pessoais de usuários do Facebook para traçar perfis da população americana e criar anúncios segmentados para grupos de indecisos. Essa prática teria exercido uma influência decisiva na corrida eleitoral do EUA, mas não somente lá.

Em Trindad e Tobago a estratégia foi outra, minimizar a atuação política dos jovens, em especial dos jovens caribenhos de forma que o partido de maioria afro-caribenha, Movimento Nacional do Povo (PNM), cedesse o lugar ao partido indiano UNC.

A campanha teve traços perversos, um slogan “Do So” (Não Vote) e impulsionou os jovens nas redes e nas ruas de maneira que parecia um movimento genuíno da juventude mas que foi justamente programado para tal.

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Pôster da campanha “Do so”, promovida pelo UNC. Foto: Kierron Yip Ngow/ Facebook

Vimos recentemente o grande efeito das fake news, divulgadas nas redes sociais, nas questões políticas no Brasil mostrando que também estamos suscetíveis a esse tipo de interferência cibernética. Tudo que compartilhamos e recebemos nas redes tem impactado cada vez mais em questões que extrapolam a internet, economia e governo. Não existe mais uma separação entre vida real e virtual, tudo está conectado.

Referências

1)Documentário “Privacidade Hackeada”, Karim Amer e Jehane Noujaim, 2019.

2)https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/03/harvard-professor-says-surveillance-capitalism-is-undermining-democracy/

3)https://exame.abril.com.br/negocios/facebook-aceita-pagar-multa-de-500-mil-libras-por-caso-cambridge-analytica/

4)https://www.theguardian.com/technology/2018/jan/31/data-laws-corporate-america-capitalism

5)https://www.smartdatacollective.com/ways-big-data-changing-capitalism-centuries-come/

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Será que os apps de saúde chegaram pra revolucionar nossas vidas?

marathon-2346948_1920Créditos: Composita/Pixabay

Em 2015, uma pesquisa mostrou que mais da metade da população norte-americana que tem um smartphone tem pelo menos um app de saúde instalado no dispositivo. A maior parte desses apps se propõe a incentivar o usuário a praticar mais atividades físicas, ou a melhorar a dieta, ou também pra ajudar na auto-gestão de doenças crônicas como o diabetes ou a hipertensão arterial. Esse artigo de 2012, de uma pesquisa realizada também nos Estados Unidos, mostra que os apps têm potencial de melhorar a aderência ao tratamento dessas doenças, mas mostra também que ainda existem barreiras pro seu uso e ainda é difícil mostrar categoricamente se eles são eficazes ou não.

Pra tentar identificar essas barreiras e avaliar o potencial de mudança de comportamento dessas ferramentas, algumas pesquisas avaliaram a presença das chamadas Técnicas de Mudança de Comportamento (Behaviour Change Techniques, BCT, em inglês), que são as menores partes de uma intervenção em saúde com o objetivo de mudar ou adaptar comportamentos – como sessões de educação terapêutica, por exemplo. Uma taxonomia foi criada em 2013, no Reino Unido, pra propor uma estrutura com nomes e categorizar 93 dessas técnicas em 16 grupos. Exemplos: no primeiro grupo, chamado “Objetivos e planejamento” (Goals and planning, em inglês), tem técnicas como “Definição de objetivo” (Goal setting), “Resolução de problemas” (Problem solving), “Planejamento de ação” (Action planning), entre outras.

Em 2014, um estudo feito também nos Estados Unidos avaliou os apps de atividade física considerados como “TOP”, e os resultados mostraram que um total de apenas 26 BCTs estava presente na amostra de apps, e a mais comum era relacionada a prover instruções sobre como realizar determinados exercícios. Esse outro, da Nova Zelândia, avaliou apps de dieta e de atividade física, mostrando de maneira muito similar que poucas BCTs são implementadas. Esse estudo feito na França e publicado em 2019 mostrou que, em 46 apps de auto-gestão de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, câncer e diabetes) disponíveis na Google Play store e selecionados a partir de 704 apps “TOP” na categoria “Medicina”, mais 5 apps encontrados em uma pesquisa na literatura científica disponível, apenas 20 BCTs foram utilizadas, no total. Pior ainda, numa avaliação de nível de compreensibilidade a média foi de 42% e mais da metade dos apps não tinha nenhuma sugestão de ação em relação a estados de saúde do usuário (indicar a necessidade de procurar serviços de urgência, por exemplo). As duas últimas análises foram feitas usando a Ferramenta de Avaliação de Material de Educação do Paciente para materiais audiovisuais (Patient Education Material Assessment Tool, PEMAT-A/V, em inglês) e os itens avaliados incluem legibilidade, uso de voz ativa, explicação de termos médicos usados, uso de gráficos e tabelas visualmente claros, presença de ações sugeridas ao usuário, etc. Tudo isso significa que não somente poucas técnicas comprovadamente eficazes são implementadas nesses apps, mas também que o conteúdo deles não é compreensível pra maior parte das pessoas.

Fica claro a partir do resultado desses estudos que o cenário é um pouco preocupante. A maior parte dos estudos é feito em países anglófonos e com apps em inglês, mas não há razões pra pensar que os apps em português sejam muito melhores. Os desenvolvedores precisam urgentemente usar teorias existentes e também se concentrar em melhorar a acessibilidade do conteúdo. Os profissionais de saúde também precisam ter cuidado ao indicar o uso de apps aos pacientes, e talvez o poder público precise se responsabilizar por avaliar periodicamente as ferramentas existentes… Um dado super alarmante que essa pesquisa mostra é que pouco mais de 3% dos apps que eles avaliaram, extraídos dos apps “TOP” na categoria “Medicina” na Google Play store, eram falsos testes de glicemia, de gravidez, de HIV e de pressão arterial. Que horror, não?!

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Fósseis brasileiros que vão afetar seu entendimento sobre o Brasil!

O ano de 2019 tem sido um bom ano para a paleontologia de vertebrados no país. Neste ano, uma série de novos fósseis foram encontrados, nos clarificando sobre regiões ainda pouco conhecidas em termos de conteúdo fossilífero. Uma dessas regiões é o centro-oeste brasileiro. No estado de Goiás, por exemplo, recentemente foram descritos diversos elementos ósseos de  dinossauros, tartarugas e crocodiliformes pela equipe do Laboratório de Paleontologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ainda que bastante incompletos, os fósseis foram descobertos nas cidades de Quirinópolis e de Rio Verde, em afloramentos com cerca de 80 milhões de anos, sendo os primeiros registros de vertebrados fósseis para o estado. Entre os fósseis encontrados pelo grupo estão um dente (figura 1), fragmentos de costela e um rádio incompleto atribuídos a um titanossauro, um tipo de dinossauro muito comum no país (veja aqui). 

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Fig. 1. Dente de um titanossauro encontrado em Goiás. Imagem modificada de Hechenleitner et al. (2015) e Candeiro et al., 2018. 

Falando em titanossauros, no estado de Mato Grosso existem registros destes animais desde o século passado. O registro mais antigo foi feito pelo naturalista alemão Friedrich von Huene, em 1931. Esses fósseis foram coletados na região de Pedra Grande, próximo ao município de Chapada dos Guimarães, mas nunca foram revisados devido a natureza fragmentária dos mesmos. Passou-se quase meio século para que outros fragmentos ósseos vindos do Mato Grosso fossem taxonomicamente identificados por Franco-Rosas e pesquisadores (2004), que descreveram cinco ossos isolados (quatro vértebras fragmentadas e uma tíbia incompleta) coletados em uma região conhecida como Morro do Cambambe (Figura 2). Esse afloramento é o mais conhecido do estado de Mato Grosso, e os espécimes coletados por Franco-Rosas e colegas (2004) foram os primeiros ossos a serem atribuídos a uma categoria taxonômica mais refinada (na época, foram atribuídos a Gondwanatitan, um gênero antes conhecido apenas no estado de São Paulo). Além disso, o trabalho de Franco-Rosas e colaboradores foi importante pois graças a esses elementos foi possível detectar um novo clado, chamado Aeolosaurini. Diversos outros elementos ósseos de dinossauros foram coletados no Morro do Cambambe anos mais tarde, porém, todos bastante fragmentados e com afinidades taxonômicas incertas. 

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Fig. 2. Mapa mostrando as localidades (representadas pelas estrelas) onde foram descobertos os fósseis dessa coluna. A estrela em amarelo mostra a região conhecida como “Morro do Cambambe”, a estrela azul, os municípios de Quirinópolis e de Rio Verde. Por último, a estrela vermelha representa o município de Cruzeiro do Oeste. 

 

O último trabalho envolvendo descobertas no Morro do Cambambe foi recentemente descrito por Bandeira et al. (2019), onde cerca de catorze ossos – entre costelas, vértebras do pescoço (Figura 3) dorso e cauda, arcos hemais, e até mesmo um fêmur! – foram descritos. Estes últimos foram coletados em diferentes pontos no Morro do Cambambe, o que indica que pertencem a mais de um indivíduo, além de apresentarem pelo menos dois tamanhos corporais distintos. Apesar de não poderem ter sido identificados em nível de gênero ou espécie, são os espécimes mais bem preservados para o Mato Grosso até então, além de apresentar grande similaridade morfológica com titanossauros achados em Minas Gerais e São Paulo – sugerindo que esses dinossauros se distribuíam por uma grande área do Brasil. Estas recentes contribuições científicas estimulam a prospecção por exemplares mais completos no futuro. O aumento das descobertas de ossos de dinossauros mostra o potencial fossilífero do Centro-Oeste no Brasil, assim como o Grupo Bauru é hoje considerado uma das mais importantes unidades geológicas cretácicas do Brasil.

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Fig. 3. Alguns dos fósseis encontrados na região do Morro do Cambambe, Mato Grosso. O achado corresponde a vários elementos distintos do corpo de um titanossauro, e são os mais bem preservados encontrados para a região. Os achados indicam um grande potencial para a descrição de novas espécies futuramente. Aparência em vida de um titanossauro por Raúl Martín, imagens dos fósseis retiradas de Bandeira et al., 2019. 

  No sul do País, o município de Cruzeiro do Oeste era, há cerca de 90 milhões de anos, um deserto com algumas lagunas. Essa região trouxe recentemente duas surpresas para a ciência: uma nova espécie de dinossauro chamado Vespersaurus paranaensis e uma nova espécie de pterossauro, o Keresdrakon vilsoni. A região já era conhecida antes pela descoberta do lagarto Gueragama sulamericana e de inúmeros indivíduos do pterossauro Caiuajara debruskii. Os indivíduos do Caiuajara eram tão abundantes (chegando a centenas) e tão bem preservados que o local foi considerado um verdadeiro ‘cemitério dos pterossauros’, pelos pesquisadores.

O Vespersaurus é um gênero de dinossauro terópode do grupo dos Noasauridae (um grupo de pequenos animais carnívoros, com pescoço alongado e corpo esguio). Trata-se do primeiro dinossauro a ser descoberto na região e se caracteriza por sua anatomia distinta, especialmente do pé. Ao contrário de todos os demais dinossauros, funcionalmente o pé era monodáctilo, ou seja, o singular terceiro dígito teria suportado a maior parte do peso do animal enquanto caminhava! Já o Keresdrakon se diferencia dos demais pterossauros por uma crista na extremidade posterior do dentário. Além disso, o Keresdrakon foi submetido a análises histológicas, e todos os indivíduos encontrados dessa espécie representam sub-adultos. Interessantemente, a presença do Keresdrakon e do Caiuajara encontrados associados nas mesmas camadas de rocha indicam ser a primeira evidência direta de simpatria entre os pterossauros. Essas descobertas proporcionam um raro vislumbre de uma comunidade paleobiológica durante o Cretáceo no Paraná (Figura 4), além dos novos achados deve catapultar as pesquisas paleontológicas na região, que possui comprovado potencial para coleta de fósseis.

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Figura 4. A comunidade paleobiológica de Cruzeiro do Oeste: em primeiro plano, um Keresdrakon (maior) voa enquanto um bando de Caiuajara ataca o possível predadador. Ao fundo, um Keresdrakon filhote acaba de abater um desavisado Gueraguama enquanto um Keresdrakon adulto se alimenta da carcaça de um Vespersaurus. Ao fundo, um grupo de Vespersaurus caça alguns Caiuajara desavisados. (imagem: Maurílio Oliveira). 

 

Referências

Candeiro, C. R. A., Brusatte, S. L., Simbras, F. M., Pereira, C., Sousa-Júnior, A. L., Cavalcanti, R., … Oliveira, G. R. (2018). New reports of Late Cretaceous reptiles from the Bauru Group of southern Goiás State, Brazil. Journal of South American Earth Sciences, 85, 229–235. doi:10.1016/j.jsames.2018.04.019

Bandeira, K.L.N., Machado, E.B., Campos, D.A., Kellner, A.W.A. 2019. New Titanosaur (Sauropoda, Dinosauria) records from the Morro do Cambambe Unit (Upper Cretaceous), Mato Grosso State, Brazil, Cretaceous Research, https://doi.org/10.1016/j.cretres.2019.06.001.

Post no instagram sobre os achados no Morro do Cambambe, no Mato Grosso: https://www.picdeer.co/media/2065319774581427302_6830189543

Langer, M.C., Martins, N.O., Manzig, P.C., Ferreira. G.S., Marsola, J.C.A., Fortes, E., Lima, R., Sant’ana, L.C.S., Vidal, L.S., Lorençato, R.H.S., & Ezcurra, M.D. (2019) A new desert-dwelling dinosaur (Theropoda, Noasaurinae) from the Cretaceous of south Brazil. Scientific Reports 9, Article number: 9379. doi: https://doi.org/10.1038/s41598-019-45306-9

 

Mais sobre o Vespersaurus: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2019/06/dinossauro-descoberto-no-parana-era-carnivoro-e-tinha-pe-em-forma-de-lamina.html

Alexander W.A. Kellner, Luiz C. Weinschütz, Borja Holgado, Renan A.M. Bantim & Juliana M. Sayão (2019). A new toothless pterosaur (Pterodactyloidea) from Southern Brazil with insights into the paleoecology of a Cretaceous desert. Anais da Academia Brasileira de Ciências 91, suppl.2: e20190768 doi: http://dx.doi.org/10.1590/0001-3765201920190768.

Mais sobre o Keresdrakon: http://cienciahoje.org.br/artigo/um-novo-dragao-alado-do-brasil/

 

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Carro elétrico – entre idas e vindas agora veio para ficar.

Quando falamos sobre carro elétrico logo pensamos em meio ambiente, sustentabilidade, emissão zero e preços altos. Hoje muitas pessoas engajadas na pegada ambiental já têm modificado muitas atitudes de consumo e comportamento, mas o carro elétrico sempre é uma dúvida, uma incógnita sobre a sua real contribuição para tudo isso.

Mas antes de qualquer coisa, parafraseando o querido professor Tibúrcio…

… SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!!!

Você sabia que o carro elétrico existe há muito tempo? Antes mesmo do carro à combustão interna, os que usamos atualmente, surgirem?

A primeira tentativa de um carro vem da época de Isaac Newton, mas foi efetivado mesmo em meados de 1770, o carro à vapor. Criado por Nicolas-Joseph Cugnot, inventor francês e sua carroça a vapor.

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Figura: Modelo de carro à vapor. Créditos: Boxonline

Agora imaginem o “conforto” de estar em um carro construído com uma caldeira que necessitava ser abastecida constantemente por lenha ou carvão, e ainda suportar a temperatura de vapor superaquecido da água, algo em torno de 200˚C. Dava para passear e fazer um churrasquinho ao mesmo tempo.

Dado a  inconveniência do calor notou-se que esse método não era o mais eficaz.

Então entre 1832 e 1839, aproveitando já a invenção do motor elétrico, o escocês Robert Anderson e o americano Thomas Davenport construíram as primeiras carroças com propulsão elétrica utilizando pilhas não recarregáveis. Esses equipamentos eram muito caros e tornaram-se objeto de desejo de alta classe da época. Assim devido ao grande sucesso eles começaram a ser construídos em maior escala, e em 1898 a Baker Motor Vehicle Company começou a produzir ao custo de 2 mil dólares, hoje o equivalente custaria 60 mil dólares, ou incríveis 200 mil reais.

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Figura: Baker Car – primeiro carro a ser produzido industrialmente. Créditos: Tricurioso

O primeiro carro também a chegar aos 100 km/h foi um carro elétrico, em 1899.

Então com toda essa tecnologia o que aconteceu para mudar toda história automobilística e hoje sermos tão dependentes do petróleo?

Ao mesmo tempo em que os elétricos estavam sendo desenvolvidos o casal alemão, Bertha e Karl, criavam o primeiro carro à combustão interna. No entanto foram muito desacreditados, pois os carros elétricos se mostravam mais seguros e a invenção deles, que usava um motor com explosões controladas parecia muito perigoso. Karl já não saía mais da cama, em uma depressão grave por conta da falta de sucesso. Mas Berta, a grande mulher da história do automobilismo, não conformada com a frustração do marido pegou seus dois filhos Richard (13 anos) e Eugen (15 anos), em 5 de agosto de 1888, e fez a primeira viagem longa da história, sem autorização do marido, o que para a época é um absurdo. A viagem durou 3 dias, e a própria Bertha resolveu os problemas que foram surgindo,como o entupimento do cano de combustível, e desgaste dos freios.

Isso chamou muito a atenção das pessoas. E ainda havia uma grande diferença de eficiência entre os dois tipos de carros. A autonomia do carro elétrico era de apenas 60 km, o que significava que ele teria que parar e demorar horas para voltar a funcionar, enquanto o carro à combustível líquido só necessitava de reabastecimento para funcionar imediatamente.

Alguns anos se passaram, e Bertha e Karl Benz ganharam essa briga. Logo em seguida Henry Ford surge e modifica toda a História.

Assim, o carro elétrico foi caindo no esquecimento, apesar de ser mais leve e mais silencioso que os à gasolina. E assim a indústria do petróleo veio para ficar, e arcamos com suas consequências ambientais até hoje.

O carro deu liberdade para sociedade, as pessoas foram cada vez mais longe, e as cidades foram crescendo e se desenvolvendo cada vez mais.

E os carros de combustão dominaram o mercado por mais de um século, até agora.

Mas algo mudou. A consequência do conforto do mundo moderno é grave, carros produzem gases, que em excesso, são extremamente nocivos ao meio ambiente e a nós mesmos. E a existência do carro à combustão vem sendo questionada ano a ano.

Não é de hoje que vários cientistas tentam encontrar formas alternativas de energia para os motores automotivos. Muitas invenções incríveis como o Diesel, que era para aproveitar óleo de cozinha, foram desvirtuadas para o uso novamente do petróleo. Seu inventor, Rudolf Diesel, quando estava indo apresentar a novidade nos EUA, fatalmente “caiu” do navio e morreu afogado. E assim outros inventores tiveram destinos semelhantes quando tentaram defender suas ideias, incluindo Nicola Tesla.Essas histórias podem ser vistas no documentário “Power- o poder por trás da energia” exibido pelo History Channel.

O domínio da indústria do petróleo perdurou muito, mas a necessidade de mudar de atitude surgiu nos últimos tempos de forma muito intensa. Pessoas muito ricas decidiram dar um basta e retomar antigos projetos sustentáveis. E assim os carros elétricos voltaram, e junto com eles as pesquisas para solucionar os mesmos problemas que assombraram no século XIX.

Autonomia. Baterias duráveis. Formas de abastecimento. O mundo, ainda, não está pronto. Mas muita coisa mudou.

No Brasil, João Gurgel, nosso engenheiro pioneiro que criou o carro 100% brasileiro, também criou uma alternativa elétrica. E assim surgiu o Gurgel Itaipu Elétrico, que tinha um motor de 11 cv, tinha autonomia de 127 km e chegava a 80 km/h, isso em 1974, em plena crise mundial do petróleo e surgimento do Proálcool.

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Figura: Gurgel Itaipu Elétrico 100% brasileiro. Créditos: Motorshow

No entanto um grande problema atormentou essa criação: ele precisava de tomadas especiais e levava de 6 a 8 horas para carregar suas baterias de chumbo-ácido. E isso foi um imenso inconveniente.

Em 1974, Erlon Musk, o grande milionário e visionário dono da Tesla, tinha somente 3 anos. E hoje ele modificou a história dos veículos elétricos.

Em 2018, após superar os problemas de abastecimento e autonomia, foram vendidos 1 milhão de Teslas em apenas 6 meses! No entanto o preço ainda é salgado para os bolsos brasileiro: um Model 3 custa em torno de 300 mil reais. E ainda temos pouco acesso a postos de abastecimento específico.

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Figura: Tesla Model 3 vendeu 1 milhão de unidades em 6 meses de 2018. Créditos: Olhardigital

Em uma tomada comum, de 220 V, ele ainda leva 8 horas para carregar. Mas há as opções Supercharger, da própria montadora, que leva em torno de 1 hora. Ou seja, ainda é um problema. Uma opção é instalar um ponto de carregamento em casa que custa em torno de 4 mil reais, mas ainda precisando de horas na tomada para carregar. Um ponto positivo é que você economizaria em torno de 3 mil reais em combustível por ano.

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Figura: Estação de abastecimento Supercharger Tesla. Créditos: Olhardigital

Outro inconveniente, a manutenção das baterias pode ser uma dor de cabeça. Baterias, também chamada de células combustíveis para os mais especialistas, podem variar de 10 mil reais em um Prius até 200 mil reais em um BMW, geralmente nos carros híbridos (que funcionam tanto à eletricidade quanto à combustão). Essas baterias duram aproximadamente 8 anos, dependendo da frequência de uso do veículo pode durar menos, já a de carros convencionais duram em torno de 3 anos e seu custo varia de 200 a 500 reais.

E afinal: como funciona o carro elétrico?

O motor que movimenta o eixo é o elétrico, utilizando a energia de um conjunto de baterias armazenadas através de carregamento por tomadas. O sistema é simples, necessita somente de um regulador de alta tensão e regulador de potência. É como um rádio a pilha gigante: a bateria alimenta o motor e necessita ser trocada (recarregada) de tempos em tempos.

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Figura: Estrutura de carro elétrico. Créditos: Pontoscardeais

Nessa imagem o painel de captação solar auxilia, mas não supre toda a necessidade do carro.

As maiores qualidades são que esses carros são silenciosos, tanto que algumas pessoas estranham bastante, e alguns esportivos têm geração de ruído para criar a sensação de “potência” de motor através do som. E são de emissão zero, não geram poluentes, pois não queimam combustíveis. No entanto há uma discussão sobre a emissão indireta, pois se a energia for gerada por energias limpas como hidrelétricas, solares ou eólicas, caracteriza-se que o carro realmente não gere resíduos. No entanto, se a eletricidade que o abastece for proveniente de Usinas Térmicas haverá emissão de gases poluente, e assim a função sustentável entra em questionamento.

O carro elétrico veio para ficar, e muitas montadoras agora estão assumindo seus projetos inovadores e lançando no mercado, mesmo que ainda com alto custo, seus veículos elétricos. A Noruega já anunciou que não permitirá mais a compra de carro à combustão e está mudando toda a sua malha energética para auxiliar no abastecimento. A Alemanha está incentivando suas montadoras e a Mercedez Benz e a VW só investirão em projetos de carros elétricos, assim como a Volvo e a Daimler.

Ainda há os carros híbridos, que funcionam à eletricidade e também à combustível, que prometem diminuir o tempo de recarga, mas ainda geram emissão. E deixaremos essa história para um outro post, dedicando atenção especial.

A tecnologia tem suas idas e vindas, graças às novas invenções que vão melhorando e solucionando os problemas que seriam impossíveis de serem resolvidos em outras épocas.  


Referências

https://boxonline.wordpress.com/2011/09/26/carro-movido-a-vapor/

https://www.tricurioso.com/2017/08/01/qual-foi-o-primeiro-carro-eletrico-do-mundo/

https://dana.com.br/canaldana/2019/01/10/veiculos-eletricos-uma-novidade-que-completou-190-anos/

http://www.in2013dollars.com/1900-dollars-in-2016?amount=1

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Benz

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/galeria/bertha-benz-primeira-viagem-automovel-historia-carro.phtml

https://motorshow.com.br/gurgel-itaipu-e-400-o-primeiro-carro-eletrico-produzido-em-serie-no-brasil/

https://olhardigital.com.br/carros-e-tecnologia/noticia/carro-mais-barato-da-tesla-model-3-pode-custar-mais-de-r-300-mil-no-brasil/77251

https://olhardigital.com.br/carros-e-tecnologia/noticia/carro-mais-barato-da-tesla-model-3-pode-custar-mais-de-r-300-mil-no-brasil/77251

https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2018/09/12/saiba-agora-quanto-custam-baterias-de-carros-eletricos-e-quem-recicla.htm

https://pontoscardeais.com/carro-eletrico-entenda-como-funciona/

https://www.noticiasautomotivas.com.br/mercedes-benz-confirma-o-fim-do-desenvolvimento-de-motor-a-combustao/

Power – o poder por trás da energia. History Channel. Documentário. 2014.