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A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da Covid-19.

Imagem 1: http://anamontenegro.org/cfcam/2020/03/30/mulheres-e-a-pandemia-de-covid-19/. Acesso em: 23/06/2020.

Julho, 10, 2020|IANYCOSTA

Não é de hoje que as mulheres têm se organizado coletivamente para enfrentar as estruturas em busca de melhores condições de vida, bem como pela conquista de direitos sociais e a viabilidade de políticas públicas que tem o gênero como prisma identitário. Em uma arqueologia da construção social da figura da mulher na sociedade ocidental, a emergência do Movimento Feminista na segunda metade do século XIX, primeiro na Europa, depois em outros lugares do mundo, teve um impacto decisivo na mudança da figura da mulher como sujeito do lar para a mulher que ocupa diferentes esferas sociais. Vale lembrar que na cerne do feminismo clássico estas mulheres eram majoritariamente brancas, heterossexuais e de classe média, e suas demandas e reivindicações passavam longe das lutas das mulheres de cor [1] que passaram a vivenciar uma zona do não-ser dentro deste movimento, legando-as à necessidade urgente da construção de outros lugares de fala que visibilizassem suas pautas.

Por isso, em meio às sucessivas ondas do Movimento Feminista enquanto coletivo, mas também como epistemologia [2], o feminismo negro, seguido do feminismo indígena e do feminismo decolonial [3] durante o século XX e nas primeiras décadas do século XXI, nas Américas e no Caribe, vem construindo um lugar de resistência, ou melhor, r-existência que perpassa a negação do “torna-se mulher” a partir do pensamento de Simone de Beauvoir, visto que nem todas as mulheres tem historicamente sua condição de sujeito reconhecida, que dirá terem direitos. Portanto, ao pautarem suas falas na denúncia da invisibilidade, do abandono e da negação de direitos sociais que violam diretamente os direitos humanos e tem na lógica da política neoliberal orquestrada por um Estado do qual a necropolítica [4] é palavra de ordem, encontram um lugar comum [5] de enfrentamento às diversas formas de violência que grafam seus corpos em um feixe interseccional [6] de gênero, classe e raça.

Enquanto mulheres que compartilham uma cidadania insurgente [7] no Brasil, principalmente, no pós-88, diferentes coletivos de mulheres feministas ligados às universidades e ao movimento social se estruturam para construir lugares de apoio, de fala e de produção de conhecimento no intuito de acolher, empoderar e contribuir para a asseguração de direitos e a transformação das vidas de outras mulheres em situação de vulnerabilidade social. Por isso, em tempos da pandemia da Covid-19 que tem grafado a monstruosa desigualdade social no Brasil [8], estes coletivos tem assumido um lugar vazio da política de assistência social que tem sido desestruturada desde o golpe de 2016 e se evidencia com o recorte interseccional do avanço da doença e suas mazelas.

Com isso, buscando trazer as experiências destes coletivos, sem ter a intenção de resumir suas ações devido às limitações deste texto, citamos exemplos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil, como no estado da Paraíba o Coletivo de mães Pachamamá [9] que tem através de campanhas solidárias distribuindo cestas básicas, kits de higiene e enxovais para mães de diferentes comunidades periféricas de João Pessoa, o Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba [10] em parceria com o fundo Baobá tem oferecido cursos online no intuito de articular mulheres lideranças comunitárias para o fortalecimento de seus territórios. No estado de Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, o Coletivo Mulher eu sou [11] formado por mulheres capoeristas da nação Angola, tem usado da medicina popular para a produção de remédios naturais para aumentar a imunidade e fortalecer o sistema respiratório das mulheres vulneráveis na cidade. No estado do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, o GT “mulheres na ciência” da Universidade Federal Fluminense [12], vem organizado uma campanha coletiva para o apoio a mães estudantes da graduação e da pós-graduação desta universidade com o intuito de garantir segurança alimentar e ajuda financia em tempos de pandemia.

De diferentes modos os coletivos de mulheres feministas vêm atuando em seus territórios no intuito de apoiar outras mulheres vulneráveis. Embora com limitações econômicas e geográficas, suas ações tem impactado diretamente na vida de outras mulheres, para além do apoio alimentar, financeiro, intelectual, etc. A articulação desses coletivos trazem a sonoridade e o conforto de não estar sozinha no enfrentamento ao Covid – 19. Com isso, a importância destes coletivos perpassa a discussão de outras questões estruturantes como o racismo, o machismo e o sexismo e seus efeitos na violação dos direitos das mulheres. Sendo estes coletivos um elo entre a militância, a episteme e a vida prática, pois, ao saírem de suas casas, deixando suas famílias em meio à pandemia para buscar ajudar outras famílias, estas mulheres em marcha nos demonstram que sonoridade e solidariedade são sinônimos, a partir, do momento que o flagelo do outro passa a importar para você. Se “a revolução será feminista ou não será” [13], então, que sejamos nós mulheres que em tempos de ameaças aos direitos e de pandemia, mais uma vez sustentemos a pisada [14] no apoio mútuo a outras mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil.

Se puder fique em casa, se puder ajude a ajudar outras mulheres, cuide de si e da próxima.

Referências.      

[1] Para Lugones (2014) “mulheres de cor” são mulheres latinas dos Estados Unidos, asiáticas, chicanas, afro-americanas ou indígenas norte-americanas que vivenciam a violência e exploração do Estado pós-colonial e tem seus corpos oprimidos pela colonialidade de gênero que as condiciona a categoria de não sujeitos. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[2] ALCOFF, L. M. Uma epistemologia pra a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, UNB, v. 1, Jan/Abr, 2016, pp. 129-143.

[3] CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: ASHOKA Emprendimentos Sociais: Takano Cidadania (orgs). Racismos Contemporâneos. RJ: TAKANO, 2003, pp. 49-58. GELEDES, Portal, Conheça um pouco sobre o feminismo indígena no Brasil e sua importância. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/conheca-um-pouco-sobre-feminismo-indigena-no-brasil-e-sua-importancia/>. Acesso em: 20/06/2020. KAXUYANA, ValériaPaye Pereira; SILVA, Suzy Evelyn de Souza. A Lei Maria da Penha e as mulheres indígenas. In: VERDUM, Ricardo (Org.). Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas. Brasília: Inesc, 2008. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[4] MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>. Acesso em: 12/06/2020.

[5] DARDOT, P; LAVAL. C. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Trad. ECHALAR, N. 1ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

[6] CRENSHAW, K. W. Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas. 2017 [1993] Trad. Carol Correia. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/mapeando-as-margens-interseccionalidade-politicas-de-identidade-e-violencia-contra-mulheres-nao-brancas-de-kimberle-crenshaw%E2%80%8A-%E2%80%8Aparte-1-4/>. Acesso em: 10/06/2020.

[7] Segundo Holston (2013, p. 22): possuímos: “uma cidadania que administra as diferenças sociais legalizando-as de maneira que legilitimam e reproduzem as desigualdades”, sendo a articulação dos movimentos sociais frente a uma cidadania desigual caracterizada como uma cidadania insurgente que visa a conquista de direitos negados e a desestabilização desse sistema excludente. HOLSTON, J. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. 1 ed. São Paulo Companhia das Letras, 2013.

[8] Instituto Socioambiental, Desigualdade racial é evidenciada na pandemia da Covid – 19 (08/05/2020). Disponível em: < https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-monitoramento/desigualdade-racial-e-evidenciada-na-pandemia-da-covid-19>. Acesso em: 08/06/2020. GOES, E. F; RAMOS, D. de O; FERREIRA, A. J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde. (versão On-line), vol. 18, no. 3, Rio de Janeiro 2020, (29/05/2020). Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462020000300301>. Acesso em: 16/06/2020.

[9] Página em redes sociais do Coletivo de mães Pachamamá Disponível em: <ttps://www.instagram.com/coletivo_pachamama/>. Acesso em: 18/06/2020.

[10] Página em redes sociais do Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba Disponível em: < https://www.facebook.com/abayomi.pb/>. Acesso em: 19/06/2020.

[11] Informação sobre a atuação do Coletivo Mulher eu sou. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2020/03/22/coronavirus-mulheres-capoeiristas-distribuem-remedios-naturais-nas-periferias-de-bh>. Acesso em: 10/05/2020.

[12] Página em redes sociais do Núcleo Interseccional de Estudos da Maternidade do qual faz menção a uma atividade do GT “Mulheres na Ciência” da Universidade Federal Fluminense – UFF. Disponível em:<https://www.facebook.com/nucleoniem/posts/455142188623367>. Acesso em: 15/06/2020.

[13] VILELA, E. A revolução será feminista ou não será. In: Página da Web – O Jornal de Todos os Brasis.  Disponível em: <https://jornalggn.com.br/artigos/a-revolucao-sera-feminista-ou-nao-sera-por-elenira-vilela/>. Acesso em: 16/06/2020.

[14] Usando da licença poética parafraseamos a música de Jacinto Silva “Pisa Madeiro” muito usada em protestos de diversos movimentos sociais na cidade de João Pessoa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/jacinto-silva/1841563/. Acesso em: 04/07/2020.

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Ebola: o inimigo volta a ameaçar

O Ebola é uma doença causada por vírus que tem como hospedeiros naturais espécies de morcegos frugívoros, e é nomeado devido ao rio da região na qual seu primeiro surto ocorreu, em 1976, no continente africano [1].

Se comparado ao coronavírus, que apresenta letalidade de cerca de 3% dos infectados, o Ebola é uma ameaça muito mais grave, podendo levar a óbito de 25 a 90% dos pacientes [2]. 

O Ebola vírus (Figura 1), assim como o HIV e o coronavírus (Sars-CoV-2), era transmitido inicialmente entre animais. Porém, através de um processo conhecido como spillover essas zoonoses virais passaram a infectar também seres humanos [3].

Figure 1 Ebola

Figura 1: Ebola vírus [4].

Essa transmissão de animais contaminados para seres humanos se dá via sangue e fluidos corporais. Posteriormente, os humanos infectados podem infectar outras pessoas via sangue, saliva, sêmen, e contato direto mesmo após a morte (os cadáveres são contagiosos [5]).

Após a infecção, o indivíduo pode demorar de 2 a 21 dias para manifestar sintomas da febre hemorrágica como: dor de cabeça e/ou garganta e/ou nas articulações, febre, fraqueza muscular, calafrios, diarreia com sangue, erupções cutâneas e olhos vermelhos. O mais grave desfecho conduz à hemorragia interna, com sangue extravasando até mesmo por reto, olhos, nariz e ouvidos [6].

De 2014 a 2016, o pior surto da história afetou 22 mil pessoas na África Ocidental (principalmente Guiné, Serra Leoa e Libéria – Figura 2) provocando a morte de 11 mil delas [7]. Mais recentemente a décima epidemia de Ebola em território congolês, que se iniciou em 2018 e foi considerada encerrada com a alta da última paciente internada em fevereiro de 2020, afetou mais de 3,4 mil pessoas das quais cerca de 66% faleceram [8].

Figura 2 Mapa

Figura 2: Mapa da África Ocidental, com destaque para a região mais atingida pelo surto de 2014 a 2016; modificado de [9].

O vírus possui capacidade de transmissão inferior ao Sars-CoV-2 e, apesar de não haver tratamento específico, já existe vacina contra o Ebola. A vacina rVSV-EBOV, conhecida comercialmente como Ervebo, foi desenvolvida contra a forma mais letal do vírus (a Zaire) [10] e já contribuiu para conter o avanço de contaminações na República Democrática do Congo e em Uganda [11]. Recebeu no final de 2019 a aprovação de agências como a americana e a europeia, e já foi aplicada em mais de 280 mil pessoas em área de risco [12].

No dia 01 de junho deste ano de 2020, no entanto, foi declarada nova onda de contaminações na República Democrática do Congo; dos 6 pacientes inicialmente diagnosticados, 4 morreram [13]. A Organização Mundial da Saúde considera um grande desafio lidar conjuntamente com o Ebola e o coronavírus, mas se prontificou a tentar [14]. 

Esse fato conduz a uma reflexão sobre os motivos de, mesmo com a existência de vacina, novas epidemias surgirem em regiões em que já aconteceram no passado. O que ocorre é que as regiões mais atingidas pelo vírus são áreas com conflitos armados e grande índice de violência, dificultando tanto a vacinação da população como o isolamento precoce dos doentes para tratamento dos sintomas. Soma-se a isso o fato de o grau de instrução baixo dos cidadãos conduzir a medo e relutância na vacinação. Uma situação delicada que ameaça seres humanos já em situação de grande vulnerabilidade no continente que historicamente é marcado por sofrimento e exclusão.

 

Referências

[1] – Médicos sem Fronteiras (2018) Ebola. Disponível através do link <https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola>. Acesso em 18/06/2020.

[2] – Cajé M, Fernandez A (2020) Na África Subsaariana, ebola ainda preocupa mais que novo coronavírus. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/10/na-africa-subsaariana-ebola-ainda-preocupa-mais-que-novo-coronavirus.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[3] – Multini L (2017) Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/07/05/cientistas-preveem-spillover-de-virus-de-mamiferos-selvagens-para-seres-humanos/>. Acesso em 18/06/2020.

[4] – Monteiro L (2014) Ebola: 7 perguntas e respostas essenciais sobre esse vírus. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/bem-estar/ebola-7-perguntas-e-respostas-essenciais-sobre-esse-virus/>. Acesso em 18/06/2020.

[5] – Louise J (2018) Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/08/08/microrganismos-da-pesada-e-o-bioterrorismo/>. Acesso em 18/06/2020.

[6] – Varella Bruna, MH (2020) Ebola. Disponível através do link < https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/>. Acesso em 18/06/2020.

[7] – Weller C (2018) Por que o ebola voltou – e dificilmente será erradicado. Disponível através do link < https://www.bbc.com/portuguese/geral-44062701 >. Acesso em 18/06/2020.

[8] – G1 (2020) Última paciente que tinha ebola na República Democrática do Congo recebe alta. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/05/ultima-paciente-que-tinha-ebola-na-republica-democratica-do-congo-recebe-alta.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[9] – Blog da Cajucultura (2020) África ocidental impulsiona produção de castanha. Disponível através do link <https://www.blogdacajucultura.com/2018/10/africa-ocidental-impulsiona-producao-de.html>. Acesso em 29/06/2020.

[10] – Suder E, Furuyama W, Feldmann H, Marzi A, de Wit E (2018) The vesicular stomatitis virus-based Ebola virus vaccine: From concept to clinical trials. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6183239/>. Acesso em 18/06/2020.

[11] – Pucu E (2019) Disponível através do link < https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/09/23/vacina-contra-o-ebola-perspectivas-para-populacoes-africanas/>. Acesso em 18/06/2020.

[12] – Saphire E O (2020) A Vaccine against Ebola Virus. Disponível através do link < https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302737>. Acesso em 18/06/2020.

[13] – WHO (2020) New Ebola outbreak detected in northwest Democratic Republic of the Congo; WHO surge team supporting the response. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/detail/01-06-2020-new-ebola-outbreak-detected-in-northwest-democratic-republic-of-the-congo-who-surge-team-supporting-the-response>. Acesso em 18/06/2020.

[14] – Jornal Estado de Minas (2020) Congo tem surto de ebola durante pandemia do coronavírus. Disponível através do link <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/06/01/interna_internacional,1152799/congo-tem-surto-de-ebola-durante-pandemia-do-coronavirus.shtml>. Acesso em 29/06/2020.

 

 

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Em debate: Performatividades de género na democracia ameaçada

Performatividades de género na democracia ameaçada é o tema do VII Congresso Internacional em Estudos Culturais organizado pelo Grupo de Género e Performance da Universidade de Aveiro, que se realiza nos dias 21, 22 e 23 de Outubro de 2020 [1]. Este tema não poderia ser mais pertinente e atual, considerando que a velha crença que o mundo iria, democraticamente, viver em paz e atingir a igualdade após o fim da guerra fria caiu por terra nos últimos anos, como o comprovam o relatório de Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit referente a 2019, que obteve a pontuação média global mais baixa desde 2006, ano em que a empresa produziu este relatório pela primeira vez [2], e o relatório “Democracy in Retreat”, da Freedom House, Freedom in the World, também de 2019, que como o próprio título indica, mostra que existe um grande retrocesso em países dos vários cantos do globo, inclusive em democracias de longa data como os Estados Unidos [3]. Para nos esclarecer melhor sobre a relevância do tema, conversamos com a Professora Maria Manuel Baptista [4] e com o Alexandre Almeida [5], respetivamente Presidente da Comissão Organizadora e Coordenador do Secretariado Executivo do VII Congresso Internacional em Estudos Culturais.

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Colagem da artista Monique Malcher para o cartaz do congresso

Helena Ferreira (HF): Professora Maria Manuel, é inevitável que comece por lhe perguntar: porque é que escolheram este tema para o Congresso?

Professora Maria Manuel (Prof. MM): Só a liberdade, defendida pelos sistemas democráticos, por muito imperfeita que seja ainda, pode ser o campo a partir do qual todos os seres humanos se podem realizar e expressar de forma mais plena, tolerante e feliz em todas as suas dimensões. Um ataque à democracia arrasta consigo um ataque à pluralidade e à liberdade das diferentes expressões de género, de corpos diferentes, de formas diferentes de viver e expressar a sua sexualidade. Por isso escolhemos esta temática como central para o nosso VII Congresso Internacional em Estudos Culturais.

HF: Brincando um pouco com o título do seu texto de apresentação do congresso [6], permita-me que lhe pergunte: “Quem tem medo da ‘ideologia de género’?”

Prof. MM: Aqueles que vivem ansiosamente as possibilidades abertas pelas diversas performatividades de género, compreendendo, pelo lado do avesso, o quanto os corpos na sua liberdade criativa e expressiva podem desafiar processos de naturalização política e cultural cada vez mais fragilizados no que ao género diz respeito. O medo de uma tal liberdade e criatividade corporal, sexual e política sinaliza fantasmas vários na nossa cultura, que encontram respostas menos ansiogénicas em discursos e práticas moralmente conservadoras, que se articulam com um quadro de valores neoliberais do capitalismo avançado, em algumas zonas do globo levadas até ao mais recôndito de cada um de nós através de um discurso religioso hiperconservador e alienante, quando não através do arregimentar das consciências por parte de organizações políticas e partidárias fascistas.

HF: Segundo percebi neste seu texto, os grupos antigénero são, per si, uma enorme ameaça à democracia. Pode aprofundar, por favor?

Prof.MM: Os grupos antigénero, em doses diferentes e com expressões e estratégias comunicativas contextualmente diferentes, têm articulado (e sido articulados por) estas duas dimensões: a religiosa e a política, no que elas têm de pior, pois que estamos a falar de práticas fascistas, quer elas se declinem em populismos autoritários ou em fanatismos religiosos. A maior parte das vezes tudo isto está perigosamente amalgamado, resultando que grupos politicamente fascistas, religiosamente fanáticos, se tornam violentamente antigénero. E é por isso que estes grupos antigénero, hoje internacionalmente organizados e poderosamente financiados, com uma política de comunicação muito bem orquestrada, com uma imagem até ‘jovem’ e ‘cool’, são efetivamente uma ameaça aos regimes políticos democráticos.

HF: Alexandre, calculo que os conferencistas foram convidados de acordo com os tópicos temáticos que pretendem abordar no Congresso. Pode falar um pouco sobre estas escolhas, por favor?

Alexandre Almeida (AA): Compor as mesas temáticas talvez seja um dos nossos maiores desafios. Partimos da Universidade, mas nosso grupo tem como política valorizar e respeitar todas as formas de produção de conhecimento, o conhecimento académico é apenas mais um, e precisamos destacar isso em nosso programa. Também temos um forte compromisso com a multiplicidade de vozes. Buscamos ativamente indivíduos diversos. Em nossas mesas teremos conferencistas da América do Sul e da África, para além dos já tão presentes Europeus.

HF: E, relativamente ao programa, pode adiantar alguma coisa? É curioso pensar, por exemplo, que as sessões juntam investigadores, ativistas e artistas apresentando trabalhos e performances sobre um mesmo tema e debatendo as diferentes perspetivas de abordagem. O que pretendem com isso?

AA: Temos divulgado semanalmente em nosso site e Facebook [7] novos conferencistas convidados. Ainda temos alguns nomes por anunciar, além do programa de workshops, da apresentação de investigações, mostra de arte e as performances. Até fim de julho já devemos ter um pré-programa desenhado e divulgado. Os autores que responderam nossa chamada de trabalho enviaram propostas de textos e de performance, e não planejamos apresentá-los em momentos separados. Queremos todos os que pensam o género com esse forte cruzamento político compartilhem sessões e experiências a partir de diversas vivências e pontos de vista. Pretendemos com isso estimular a construção de pontes entre esses grupos. Afinal estamos todos caminhando em direções similares, apenas com ferramentas distintas.

HF: Por último, terei que lhe perguntar: nas atuais circunstâncias, com a pandemia da Covid-19 ainda em curso e sem se saber como poderá evoluir, é previsível que o evento seja afetado. Já possuem um plano B ou, até, um plano C?

AA: Estamos na sétima edição de nosso congresso, já temos bastante experiência acumulada para organização de eventos desta natureza, mas nada nos preparou para a atual situação. As incertezas quanto a evolução do Covid-19 em Portugal e no mundo nos obrigou a pensar mudanças no nosso modo de fazer. Consideramos alguns cenários possíveis e calculamos como melhor atitude manter nossas datas, mas flexibilizar nossos prazos e formato. Após alguma investigação quanto ao que outros equipas organizadoras de eventos científico têm feito, tentamos desenhar um formato que faça sentido em nosso contexto e garanta um debate aprofundado da temática proposta. O que temos planejado no momento é a combinação de participações online e presenciais. Nossa proposta para os autores e participantes será focar nas trocas e no debate mais do que na simples apresentação de slides. Queremos integrar o melhor possíveis todos os participantes, evitando criar divisões entre a experiência presencial e online. Temos reavaliado a situação em reuniões semanais e estamos prontos a repensar sempre. Para nós o mais importante é garantir que esse tema tão importante seja debatido com a qualidade e a profundidade necessárias.

[1] https://viicongresso.estudosculturais.com/

[2] https://www.eiu.com/topic/democracy-index

[3]https://freedomhouse.org/sites/default/files/Feb2019_FH_FITW_2019_Report_ForWeb-compressed.pdf

[4] http://mariamanuelbaptista.com/index.html

[5] https://www.ua.pt/cllc/page/23968

[6] https://viicongresso.estudosculturais.com/apresentacao/

[7] https://www.facebook.com/riecult/

 

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Uma mesa para dois, por favor

Ci∙ên∙ci∙a. Substantivo feminino. “Corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente”. É assim que está lá no dicionário. Na prática, significa que um novo conhecimento (ou um grupo deles) será construído com base em um método, algo que possa ser reproduzido por outras cientistas. Não precisamos gastar muitos caracteres para explicar que cientistas são pessoas, certo? E como tais, estão sujeitas a todas as interferências (que costumo chamar de atravessamentos) relativas à sua humanidade.

Alguém que me lê acredita ser possível destacar a parte humana de uma pessoa e deixá-la só com características que a confeririam técnica, imparcialidade e invulnerabilidade? Assim, temporariamente, em horário comercial, só para desempenhar seu trabalho de forma mais eficiente? Se a resposta é não, como esperar que cientistas não sejam atravessadas por questões que afetam sua existência e subjetividade como a sexualidade, por exemplo?

Há vários estudos que fornecem detalhes sobre as dificuldades diárias, assédio, intimidação, medos, exclusão e discriminação vividas por cientistas LGBTQIA+ [1]. Também documentam algumas das conseqüências negativas percebidas na carreira do professor LGBTQIA+, incluindo discriminação na contratação, permanência e promoção, exclusão de redes acadêmicas e profissionais e desvalorização do trabalho acadêmico em temas heterodissidentes [2].

É de se esperar que cientistas (especialmente de exatas) considerem a identidade sexual de um indivíduo como irrelevante no ambiente de trabalho científico. De acordo com esta perspectiva, as características individuais geralmente não devem ter nenhum papel em trabalho científico, pois o método científico oferece uma garantia de objetividade; assim, indiferença à vida pessoal dos indivíduos, e uma crença na sua irrelevância para a pesquisa científica, é particularmente comum entre acadêmicos. Ademais, como poucos pesquisadores das ciências exatas examinam fenômenos sociais em suas próprias pesquisas, eles e elas podem ser menos influenciados por desenvolvimentos teóricos que têm uma compreensão avançada da construção social e implicações da sexualidade, raça e etnia, classe e gênero [3,4]. Esta falta de entendimento torna o clima no ambiente de trabalho desfavorável aos cientistas LGBTQIA+ (e outras inseridos em recortes não hegemônicos).

As organizações Institute of Physics, Royal Astronomical Society and Royal Society of Chemistry publicaram um relatório sobre o clima de trabalho para cientistas LGBTQIA+ da física. Entre os achados da pesquisa há que locais de trabalho com cientistas abertamente LGBTQIA+ são mais acolhedores e que fazer o melhor pela ciência significa reter cientistas LGBTQIA+. Concluíram que 28% dos LGBTQIA+ entrevistados afirmaram que tinham, em algum momento, considerado sair de seu local de trabalho por causa do clima ou da discriminação em relação a sua sexualidade e que quase metade de todos aqueles que se declararam pessoas trans havia considerado deixar seu local de trabalho por causa do clima, sendo que quase 20% deles consideram isso com frequência.

Fonte: INSTITUTE OF PHYSICS; ROYAL ASTRONOMICAL SOCIETY; ROYAL SOCIETY OF CHEMISTRY. Exploring the workplace for LGBT physical scientists. Reino Unido: 2019.

Foi Thomas McIntyre Cooley (1824-1898), jurista norte-americano e presidente da suprema corte de Michigan, quem cunhou, em 1888, a expressão o direito de estar só (the right to be let alone) que evoluiu para o conceito do direito de privacidade. Tal direito é uma manifestação, no âmbito das relações interpessoais, do próprio direito de liberdade. Diante da importância particular que a sexualidade assume na construção da subjetividade e no estabelecimento de relações pes­soais e sociais, o direito à livre expressão sexual, é concretização mais que necessária do direito humano à liberdade [8].

Vemos aqui então, que a livre expressão das subjetividades que formam os seres enquanto indivíduos, entre elas a sexualidade, é fundamental e deveria ser garantida. Se essa garantia não vier sob o conceito de empatia que venha sob a justificativa produtivista, uma vez que cientistas mais confiantes, com o sentimento de pertencimento àquele grupo ou laboratório são mais eficientes e a ciência não pode abrir mão de suas ‘operárias’.

Já imaginou a ciência sem Sir Francis Bacon (pai do método científico), Florence Nightingale (enfermeira pioneira e excelente estatística), Alan Hart (médico trans, especialista em saúde pública com excelentes contribuições no manejo da tuberculose) ou Alan Turing (matemático conhecido como o pai da computação)? Todos eles e ela faziam parte da comunidade LGBTQIA+. Nesse mês do orgulho LGBTQIA+, fica o convite para que todas as cientistas possam sentar-se à mesa da ciência e que nesta, sempre tenha espaço para mais uma de nós.

Imagem de Steve Halama para o Unsplash

Referências

1. BILIMORIA, Diana; STEWART, Abigail J., “Don’t Ask, Don’t Tell”: The Academic Climate for Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Faculty in Science and Engineering, NWSA Journal, v. 21, n. 2, p. 85–103, 2009.

2. TAYLOR, Verta; RAEBURN, Nicole C. “Identity Politics as High-Risk Activism: Career Consequences for Lesbian, Gay, and Bisexual Sociologists.” Social Problems 42(2): 252–73. The National Academies.1995.

3. SHIELDS, Stephanie A. “Gender: An Intersectional Perspective.” Sex Roles 59: 301–11. 2008.

4. WEBER, Lynn. “A Conceptual Framework for Understanding Race, Class, Gender, and Sexuality.” Psychology of Women Quarterly 22: 13–32. 1998.

5. SCHEIN, Edgar H. Organizational Culture and Leadership. 2nd ed. San Francisco: Jossey-Bass. 1992.

6. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Janet E. Malley, and Abigail J. Stewart. 2006. “The Climate for Women in Academic Science: The Good, the Bad, and the Changeable.” Psychology of Women Quarterly 30: 47–58.

7. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Abigail J. Stewart, and Janet E. Malley. 2007. “Voice Matters: Buffering the Impact of a Negative Climate for Women in Science.” Psychology of Women Quarterly 31: 270–81.

8. RIOS, Roger Raupp. Direitos humanos, direitos sexuais e homossexualidade. Amazônica, v. 3, n. 2, p. 288–298, 2011.

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A relação entre mulheres, economia e a pandemia de Covid-19.

Mulher com cartaz com um ponto de interrogação na frente do rosto. Crédito: Getty images.

O Brasil começou o ano de 2020 com indícios e fatos reverberantes sobre uma crise econômica crescente, marcada, entre outros fatores, por uma grande quantidade de pessoas desempregadas, mais de 12,9 milhões de pessoas, destas, quase 65% são mulheres (IBGE, 2020). A pandemia de covid-19 apenas expôs de forma mais nítida a carência social presente no país, bem como a importante participação das mulheres no enfrentamento dessa doença.

Não diferente do já observado no decorrer da trajetória social, o ser feminino carrega consigo uma “obrigação” em realizar inúmeras atividades para atender as demandas que este novo cenário requer. Diante de diversas ações a serem analisadas, que perpassam desde a vulnerabilidade econômica, a sobrecarga de trabalho doméstico e a exposição à violência, as mulheres estão no centro das atividades motriz de uma família.

As mulheres estão à frente da maior parte do trabalho doméstico, por vezes não remunerado; quando em home office devem conciliar o trabalho remunerado com as atividades de cuidado com a casa e família. Ademais, representam a maioria em algumas categorias profissionais informais (faxineiras e diaristas) e nos cuidados sanitários (áreas da saúde e assistência social), estando econômico e socialmente mais vulneráveis aos efeitos da pandemia. Devido essas especificidades que circundam o ser feminino, a Organização das Nações Unidas – ONU – Mulheres apontou a necessidade de políticas públicas com atenção às mulheres (ONU, 2020).

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – nas últimas 07 décadas a participação das mulheres em idade ativa na força de trabalho passou de 13%, em 1950, para cerca 45%, em 2000, sendo crescente a participação feminina nas atividades economicamente remuneráveis nos últimos anos (IBGE, 2020). Ao observar esses dados, a participação masculina ainda é maior que a feminina, o que pode indicar uma dependência econômica das mulheres, principalmente nas populações mais pobres e, sobretudo quando se consideram as mulheres pretas e pardas.

Mãe e filha usam máscaras para se proteger contra o coronavírus em um centro de saúde em Adidjan, Costa do Marfim. Crédito: UNICEF/Frank Dejongh.

Quando se relaciona à covid-19 mais de 60% dos empregos considerados de grande risco são ocupados por mulheres (IBGE, 2020). Conforme a Organização Mundial de Saúde – OMS –, no mundo 70% dos trabalhadores da área da saúde e do terceiro setor (Associações e Entidades sem fins lucrativos) são mulheres (OMS, 2020). No Brasil, 85% dos empregos na enfermagem são ocupados por mulheres. Os profissionais e profissionais da saúde enfrentam além do risco de contaminação, um elevado grau de estresse acometido por esse novo vírus, que pode interferir em todas as suas relações sociais.

Profissional da saúde com semblante de esgotamento físico. Crédito: Wachter health care solutions.

A crise econômica do país tem atenuado a transição entre trabalho formal para informal, mais de 82% destes postos de trabalho foram ocupados por mulheres negras, principalmente no emprego doméstico, deste, cerca de 70% são trabalhadoras informais. Outro ponto que merece destaque é que mais de 45% dessas mulheres são responsáveis pelo sustento da família. A perda de rendimentos afetam filhos e dependentes, podendo levar famílias inteiras à miséria.

Há uma preocupação global com a violência doméstica no período de quarentena. A estimativa da OMS é que a cada três mulheres no mundo, uma sofre violência física ou sexual, e na maior parte dos casos, essa violência é cometida por alguém do seio familiar. Na pandemia, as mulheres estão mais sujeitas a violência e a decisão de ficar em casa para não se contaminar significa ficar a mercê do agressor (OMS, 2020).

Violência contra mulher. Crédito: Getty images.

Por outro lado, as mulheres que buscam empreender também sentem os efeitos da crise econômica. Segundo pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – as empresárias possuem mais dificuldades em obter acesso a crédito que os empresários. A pesquisa apontou que as mulheres empresárias possuem média de escolaridade 16% superior que à dos homens, são mais modernas, ágeis e recorrem em menor proporção a financiamentos para prosseguir com as atividades empreendedoras, entretanto, são as mais afetadas pela pandemia, cerca de 50% dos negócios foram afetados temporariamente ou definitivamente (SEBRAE, 2020).

Mulher com máscara: coronavírus, Covid-19. Crédito: Goffkein.pro/Shutterstock.

Com a recomendação da OMS em manter o isolamento social, se faz necessário políticas públicas federais destinadas a essa população. Contudo, o que se verifica na realidade, são medidas que não conseguem alcançar toda a população que carece de ajuda financeira para conseguir passar por esse delicado período. Momentos como o atual, são mais difíceis para o gênero feminino, uma vez que mesmo quando as mulheres não fazem parte do grupo de risco, elas são do grupo que cuidam de pessoas.

Assim, a pandemia de covid-19 tem impactos diretos na saúde, na renda, nas relações familiares, na educação e nos serviços públicos. Essas áreas são mais ou menos sentidas conforme a renda, localização, sexo, raça e idade dos indivíduos. Sendo assim, se faz interessante que os governos pensem em respostas coerentes e responsáveis com as diversas situações e que ajam com veemência para reduzir o tamanho dos danos que podem ocorrer. Enquanto o novo normal não ocorre, o ser feminino continuará a ser resistência na manutenção de sua família e de sua renda.

Referências:

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

OMS. Organização Mundial de Saúde. Disponível em: <https://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

ONU. Organização das Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae>. Acesso: 28 de maio de 2020.

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Solstício de Inverno: A Física das estações do ano, e como ela afeta nossa vida

O próximo solstício acontecerá neste domingo (21/06). O solstício marca o início do inverno no hemisfério sul, em que 93% do território brasileiro está localizado, e do verão no hemisfério norte, onde parte dos estados de Roraima, Amapá, Amazonas e Pará está localizada (mas apesar de estarem no hemisfério norte, essas regiões apresentam clima quente e úmido mesmo durante o inverno por estarem próximas à linha do Equador).

Figura 1 – Partes de Roraima, Amazonas, Amapá e Pará, estados da região Norte do país, encontram-se acima da Linha do Equador. Créditos: IBGE

A alternância entre dia e noite e a existência das estações do ano são intimamente ligadas com o formato e a movimentação da Terra no espaço. A rotação da Terra, que tem aproximadamente 24 horas, determina quais regiões do planeta recebem luz solar a cada instante, e portanto a alternância entre dia e noite.

Essa alternância foi captada em imagens na Namíbia pelo fotógrafo de astronomia polonês Bartosz Wojczyński (vídeo abaixo), que programou a base de sua câmera para rotacionar ao longo de um dia de forma a compensar a rotação do planeta, usando como referência o pólo sul celeste (por isso as estrelas aparecem paradas no vídeo). Já a translação ao redor do Sol, que leva aproximadamente 365 dias, determina as estações do ano em cada hemisfério.

Vídeo – A rotação da Terra estabilizada no céu noturno. Créditos: Bartosz Wojczyński / Youtube

Solstícios são eventos astronômicos observados há dezenas de milhares de anos por humanos, mesmo antes que se conhecesse tudo o que sabemos hoje sobre as movimentações dos astros, e são uma oportunidade para refletirmos como a física faz parte de nossa vida de formas que muitas vezes não paramos para pensar.

Há milênios, diversas culturas ao redor do mundo observam as mudanças das estações do ano, como elas afetam o tempo, o comportamento dos animais, as cores das folhagens das árvores, as melhores épocas para plantar legumes, grãos e frutas. Essas mudanças afetam o nosso próprio comportamento, já que para garantir comida ao longo do ano, precisamos planejar o cultivo e armazenamento de alimentos de forma a usar as estações do ano ao nosso favor.

As estações também afetaram a nossa história – as derrotas de Napoleão e Hitler na Rússia se devem em grande parte ao inverno rigoroso enfrentado pelos soldados franceses e alemães – assim como nossas culturas e religiões já que, para se relacionar com os fenômenos naturais, cada povo significou as estações de forma diferente. As mudanças cíclicas do tempo foram associadas por diversas religiões a deuses e deusas – como é o caso de Perséfone , deusa grega da associada às estações – bem como a celebrações anuais, como foi o caso do Festival do Sol Invicto , associado ao deus romano Mitra, que acontecia próximo ao solstício de inverno no hemisfério norte e é uma das origens mais prováveis do atual Natal cristão.

Nem todas as culturas classificam apenas quatro estações como estamos acostumados no Ocidente. O calendário Hindu determina seis estações diferentes: Grisma (correspondente ao verão), Varsa (transição entre nossos verão e outono), Sarad (correspondente ao início do outono), Hemanta (final do outono), Sisira (inverno) e Vasanta (primavera). No calendário usado no Egito Antigo, que deu origem ao atual calendário Copta (religião cristã egípcia), há apenas três estações: a de inundação (do Nilo), a do crescimento (das plantações) e a de colheita. A forma de diferenciar uma estação da outra está relacionada com os eventos naturais que são determinantes em cada uma das regiões que foram e são habitadas por estes povos.

Em todos os sistemas de classificação concebidos por humanos, essas mudanças acontecem periodicamente a cada ano. Essa periodicidade se deve a dois fatores físicos principais. Primeiramente, o eixo de rotação do planeta (o eixo em volta do qual o globo terrestre rotaciona) tem uma diferença de um pouco mais de 23 graus com relação ao eixo orbital (que é o eixo perpendicular ao plano determinado pela translação da Terra ao redor do Sol). Isso faz com que a radiação solar recebida pelos dois hemisférios seja diferente conforme a época do ano. Ou seja, no inverno do hemisfério sul, o hemisfério norte está mais “apontado” para o sol, de forma a receber mais radiação solar.

Figura 2 – O eixo orbital da Terra (perpendicular à órbita) e o eixo de rotação têm uma diferença de aproximadamente 23.4°. A direção da órbita indica a direção em que o Sol está com relação à Terra. Dependendo da época do ano, ou o hemisfério sul ou o hemisfério norte recebem mais radiação solar. Crédito: Wikimedia Commons

Além disso, a órbita da Terra ao redor do Sol não é um círculo, mas sim uma elipse. O formato “achatado” da órbita elíptica impõe uma variação na distância entre a Terra e o Sol. Essa distância também causa flutuação na quantidade de radiação solar que recebemos na Terra e no ângulo de incidência dos raios solares em cada parte da superfície terrestre, de forma que diferentes posições do planeta tenham “dias” (períodos com luz solar) mais curtos ou mais longos.

Durante os solstícios de verão e inverno, os dias são mais longos e curtos, respectivamente. Nos equinócios de primavera e outono, os dias tem aproximadamente a mesma duração que as noites nos trópicos de Câncer e Capricórnio – que não por acaso foram traçados também a aproximadamente 23 graus da linha do Equador.

Figura 3 – Ilustração explicativa da posição da Terra com relação ao Sol ao longo do ano, destacando os equinócios e solstícios. Créditos: Kepler de Souza Oliveira Filho & Maria de Fátima Oliveira Saraiva – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (link)

Somada à diferença entre os eixos orbital e de rotação, e a outros fatores como ventos e correntes marítimas, a órbita da Terra determina o clima em cada região do globo, o que influencia nas formas de vida que se desenvolveram em cada um desses lugares e também a forma como humanos se relacionam com a natureza, afetando de forma indireta como culturas e mitologias se desenvolvem e mesmo a nossa história. Nas ciências, todas as coisas se conectam de forma complexa e fascinante.

Referências adicionais

Wikipedia – Season

Geometry and the physics of seasons

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Drogas Antivirais: O que são e como são descobertas? O que podemos esperar para o tratamento da COVID-19?

Quem diria que 2020 seria um ano de fortes emoções, não é mesmo? Nem nos recuperamos completamente do ano novo e em fevereiro as mídias de informação começaram a falar sobre uma doença causada por um vírus novo que estava se disseminando na China (veja mais sobre o assunto aqui). Ao longo dos meses, essa virose foi tomando proporções imensas, até que no dia 11 de março, a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia. Diante desse cenário, onde aparentemente estávamos sem saída, foi reunida uma força tarefa entre pesquisadores de vários países a fim de encontrar a saída mais rápida, visando então a menor perda de vidas que fosse possível.

A comunidade científica ficou nos holofotes, os pesquisadores passaram a ter mais espaço na mídia. Pode-se notar que os noticiários mudaram e começaram a reportar em massa sobre as pesquisas que estavam sendo feitas nesse sentido. Isso ocorreu porque a Wellcome Trust (instituição de caridade que concede verba para pesquisas médicas) fez um apelo aos pesquisadores e às revistas científicas para que todos os dados ficassem disponíveis o mais rápido possível (1). Diante dessa situação, várias pesquisas focaram em testar a eficiência de medicamentos que já são usados para tratar outras infecções e sendo reportadas através dos chamados “Preprints”, que basicamente é um artigo, mas que ainda não passou por revisão dos periódicos científicos.

Imagem 1: Ilustração do vírus SARS- COv 2, agente etiológico da Covid-19. Fonte: CDC https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html

Esses artigos falam sobre diferentes aspectos sobre o SARS- COv 2 e/ou COVID-19: biologia do vírus – trata-se de uma zoonose oriunda da recombinação dos coronavírus de morcegos e pangolins (2) , além disso ao sequenciar o genoma, os pesquisadores têm provas concretas de que não é uma arma biológica (caso queira saber mais sobre o sequenciamento, clique aqui); fisiopatologia – as alterações promovidas principalmente nos pulmões e muitas outras que ainda estão sendo estudadas; infecção – já se sabe o que vírus usa a proteína ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2) para entrada na célula; e por último mas não menos importante, que será o foco a partir de agora, os tratamentos que estão sendo desenvolvidos (3).

Como são descobertas as drogas antivirais?

Durante essa crise de saúde pública, existem algumas formas mais rápidas para que antivirais cheguem até o paciente evitando assim a piora do quadro ou até a sua morte precoce. Essa abordagem mais rápida pode ser feita de diversas formas. Uma delas é testar a ação de drogas já utilizadas para outras viroses ou com potencial antiviral (chamado uso off-label, quer saber mais sobre? Clique aqui). São drogas que já se sabe quais os efeitos colaterais, qual a dosagem que pode ser administrada, entre outros aspectos. Então uma vez que seja comprovada a eficácia será “mais fácil e rápida” a sua liberação para uso na clínica, exemplos como hidroxicloroquina, azitromicina, entre muitos outros, estão sendo estudados para esse uso. (4)

Imagem 2: Ilustração  representativa dos medicamentos que estão sendo testados para combater o vírus SARS- COv 2.  Fonte:https://covid19.tabipacademy.com/2020/03/31/coronavirus-treatment-vaccines-drugs-in-the-pipeline-for-covid-19/   

Outra alternativa são as drogas de uso compassivo, essas são drogas que já eram estudadas para outras viroses e que apresentaram resultados positivos em ensaios in vitro (em cultura de células) com SARS-Cov2, mas que precisam de ensaios clínicos para serem utilizadas na clínica, um exemplo é o remdesivir (5). Nessa situação foi testado também o uso de plasma convalescente (mas isso você pode conferir aqui pra saber mais). Uma busca no site Clinical Trials (plataforma que mostra trabalhos científicos que utilizam testes clínicos), mostra que existem mais de 30 trabalhos ativos em vários lugares do mundo, testando essas terapêuticas para o tratamento da COVID-19 (5).

Ufa! Muita coisa, não? Exatamente, isso tudo para tentar salvar o máximo de vidas possível, mas vocês devem estar se perguntando sobre as vacinas. Bom, a vacina seria o nosso sonho nesse momento, porém a triagem para uma vacina segura com os testes necessários e sua produção pode levar de 10 a 15 anos. Novamente, a força tarefa de pesquisadores com investimentos públicos e privados, de vários países, estão testando várias formulações para a vacina e a previsão é que em 2021 ela esteja pronta.

O que podemos notar nesse momento é que estão sendo feitos muitos esforços para nos tirar dessa situação atípica, vamos ter esperança e aguardar que o dia de amanhã seja melhor!

(1)  CARR, D. Sharing research data and findings relevant to the novel coronavirus (COVID-19) outbreak. Wellcome Trust 2020. Disponível em: https://wellcome.ac.uk/press-release/sharing-research-data-and-findings-relevant-novel-coronavirus-covid-19-outbreak

(2)  LI, X. et al. Emergence of SARS-CoV-2 through recombination and strong purifying selection. Science Advances. Maio/2020. Doi: 10.1126/sciadv.abb9153. Disponível em: https://advances.sciencemag.org/content/early/2020/05/28/sciadv.abb9153

(3) DHAMA, K. et al. COVID-19, an emerging coronavirus infection: advances and prospects in designing and developing vaccines, immunotherapeutics, and therapeutics. Hum Vaccin Immunother. Março/2020. Doi: 10.1080/21645515.2020.1735227. Disponível em:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7103671/.

(4) KALIL, A.C. Treating COVID-19—Off-Label Drug Use, Compassionate Use, and Randomized Clinical Trials During Pandemics. JAMA. Março /2020. Disponível em : https://www.sbn.org.br/fileadmin/diversos/COVID_evidence_Kalil.pdf.

(5) Clinical Trials, pesquisa testes clínicos para COVID 19. Disponível em: https://clinicaltrials.gov/ct2/results?cond=COVID19&recrs=d&age_v=&gndr=&type=Intr&rslt=&Search=Aplicar+

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Como crianças brancas e não-brancas associam o estereótipo de “excepcionalidade” com relação a inteligência a pessoas brancas e negras?

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Pesquisa mostra que estereótipo de “inteligência excepcional” é mais associado a homens brancos que mulheres brancas, e que homens negros não são associados a este estereótipo

Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/people-group-children-boy-3137670/

 

Você sabia que a aquisição de estereótipos de gênero ocorre bem cedo no desenvolvimento? Existem evidências de que, a partir dos dois anos de idade, crianças já tem alguma noção sobre estereótipos de gênero, como cores consideradas apropriadas para cada sexo (e.g., Liben & Bigler, 2002). Com o tempo, essa habilidade se expande para coisas mais abstratas, de modo que, na segunda série, crianças já tem uma maior probabilidade de associar habilidades matemáticas com meninos do que com meninas (Cvencek et al., 2011).

Dentre estes muitos estereótipos, a noção de talento intelectual inato – de acreditar que certas pessoas são brilhantes ou gênios – é mais relacionada aos homens que às mulheres. Já foi evidenciado, por exemplo, que esse estereótipo de “excepcionalidade” (brilliance, em inglês) com relação a inteligência já é endossado diferencialmente em crianças de apenas seis anos de idade, as quais passam a acreditar que meninos sejam mais brilhantes que meninas, embora aos cinco anos as crianças, independentemente do gênero, tendam a escolher a pessoa do mesmo gênero que ela como mais excepcional (Bian et al., 2017).

A maioria dos estudos, no entanto, se foca na análise de participantes e/ou de alvos brancos, o que impede verificar efeitos conjuntos de raça e gênero, por exemplo. Pensando nisso, Jilana Jaxon, Ryan Lei, Reut Shachnai, Eleanor Chestnut e Andrei Cimpian conduziram um estudo avaliando como crianças americanas de uma maioria racial (brancas) e de minorias raciais (negras, latinas e asiáticas) associavam imagens de homens e mulheres brancos e negros com o estereótipo da inteligência excepcional.

Para o experimento, 203 crianças (105 garotas e 98 garotos), com idades entre 5 e 6 anos foram recrutadas em duas escolas públicas da cidade de Nova Iorque. Dentre as informações demográficas dadas pelos pais e/ou cuidadores de 80% da amostra, 37% delas era branca, 30% latina, 6% asiática, 5% negra, e 22% foram classificadas como multirraciais. A tarefa consistia de duas etapas. A primeira serviu para garantir que as crianças sabiam o que “muito, muito inteligente” significava. Na segunda tarefa, as crianças viam uma foto com dois adultos em ambientes naturais, como em uma casa ou no trabalho. Em cada foto, aparecia sempre um homem e uma mulher da mesma raça. No total, oito fotografias eram mostradas, e a cada foto, os experimentadores diziam que uma das pessoas na foto era “muito, muito inteligente”, e então pediam para a criança dizer qual ela achava que era. Raça e gênero não eram salientados. Além disso, outras tentativas com distratores foram utilizadas para diminuir as chances de as crianças perceberem o objetivo da tarefa (dizer, diante de outras quatro fotografias, qual pessoa era “muito, muito legal”).

O experimento buscou responder duas perguntas. Em primeiro lugar, as associações de excepcionalidade variam de acordo com a raça do alvo? Em segundo lugar, crianças brancas e não-brancas avaliam essas fotos de pessoas da mesma maneira? Os resultados mostraram que crianças brancas tenderam a associar a excepcionalidade com seus próprios gêneros de modo similar, independentemente do gênero, aos cinco anos de idade. Entretanto, aos seis anos de idade, ouve uma redução nesse escore de excepcionalidade atribuída ao próprio gênero para as meninas, mas não para os meninos. Nas crianças não-brancas de cinco e seis anos não houve mudança no número de associações entre a excepcionalidade e alvos de seus próprios gêneros. De acordo com os autores, esse dado sugere que esse estereótipo de gênero possui um caráter de intersecionalidade desde quando é adquirido, ou seja, leva em consideração gênero e raça dentre as primeiras aprendizagens.

Outra análise que foi feita é sobre o número de vezes que homens brancos seriam associados com excepcionalidade nas crianças brancas e não-brancas de seis anos de idade, em comparação com mulheres brancas. Como esperado, os homens brancos foram mais associados com essa característica, independentemente de gênero e raça das crianças. Além disso, os homens negros, apesar de serem homens, não foram associados a excepcionalidade, embora esse seja um estereótipo de gênero considerado masculino.

Esses resultados mostram a importância de se utilizar uma abordagem interseccional quando analisamos fenômenos sociais; nesse caso, estereótipos de gênero. Uma pergunta que o estudo suscita é: é possível chamar essa e outras características de estereótipos de gênero, uma vez que, de acordo com esse e outros estudos, não é só o gênero que determina as associações feitas? Eu, particularmente, não tenho resposta para essa questão, mas sugiro uma leitura que analisa como o homem negro (entre outros de raça não–branca) não é considerado homem em uma sociedade racista como a que vivemos (Franz Fannon – Pele negra, máscaras brancas).

Ficou curioso? Quer saber mais?

O artigo:

Jaxon, J., Lei, R. F., Shachnai, R., Chestnut, E. K., & Cimpian, A. (2019). The acquisition of gender stereotypes about intellectual ability: Intersections with race. Journal of Social Issues, 75,(4), 1192—1215. https://doi.org/10.1111/josi.12352

Referências:

Bian, L., Leslie, S. J., & Cimpian, A. (2017). Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science, 355, 389–391. https://doi.org/10.1126/science.aah6524

Cvencek, D., Meltzoff, A. N., & Greenwald, A. G. (2011). Math–gender stereotypes in elementary school children. Child Development, 82, 766–779. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01529.x

Liben, L. S., & Bigler, R. S. (2002). The developmental course of gender differentiation: Conceptualizing, measuring, and evaluating constructs and pathways. Monographs of the Society for Research in Child Development, 67, 1–147. https://doi.org/10.1111/1540-5834.t01-1-00187

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Aerossóis e detergência: o que o estudo coloides pode contribuir para o combate da covid-19? – Parte II

Uma das discussões em alta em quase 3 meses de pandemia no Brasil é sobre quais são as formas que uma pessoa pode ser infectada pelo novo coronavírus. Como vimos na parte I, uma das maneiras de ser infectado pelo coronavírus é tocar os olhos, nariz e boca após tocar em superfícies contaminadas – por isso a recomendação de lavar bem as mãos com água e sabão e evitar tocar o rosto com as mãos sujas. Outra maneira possível de se infectar é se expor a aerossóis contendo o coronavírus. Mas o que é um aerossol? Como podemos evitar que aerossóis nos contaminem?

Aerossol também é coloide

Assim como a detergência, os aerossóis também são estudados na ciência dos coloides . Mas o que é um aerossol? Aerossol consiste na mistura de micropartículas de sólido em gás, como, por exemplo, um desodorante, ou uma mistura de microgotículas de líquido em gás, como a neblina, por exemplo [1]. Quando respiramos, falamos, cantamos, espirramos e tossimos, liberamos para o meio externo aerossóis compostos por microgotículas de secreções do trato respiratório (muco e saliva, por exemplo) dispersas no ar que expiramos durante a respiração. O processo é similar aquele do frasco de perfume: cada vez que você aperta a válvula, gotículas do perfume líquido são misturadas ao ar contido na cânula, e um aerossol de perfume é formado. Por isso conseguimos aplicar o perfume que está disperso como se fosse uma fina nuvem perfumada.

Agora vamos relembrar por um momento o ato de respirar: primeiro inspiramos o ar atmosférico; o ar, agora dentro dos pulmões infla os alvéolos, pequenos balõezinhos localizados nos pulmões. Esses alvéolos permitem as trocas gasosas necessárias para a nossa sobrevivência: o sangue venoso, sangue que já circulou pelo corpo, é rico em gás carbônico (CO2); ao chegar aos alvéolos, o CO2 ligado à hemoglobina é liberado para o ar dentro do alvéolo. Ao mesmo tempo, o O2 contido no ar se liga à hemoglobina, e esse sangue agora definido como sangue arterial, é enviado para todas as partes do seu corpo, e vai oxigenar as células e permitir que elas realizem as reações químicas necessárias para manter você vivx.

Após essas trocas gasosas que ocorreram nos alvéolos, o ar é expirado, passando pela traqueia, laringe, faringe e boca e nariz até sair para fora do seu corpo. Acontece que na expiração do ar nosso trato respiratório também produz aerossóis, pois temos água e secreções, como muco, em todo o caminho que o ar passa. Ou seja, a cada expiração que damos estamos expelindo aerossóis, que podem atingir diferentes distâncias em função da velocidade com que são expelidas. A figura 1 mostra resumidamente este processo: 

Figura 1 – Distâncias atingidas por aerossóis emitidos por uma pessoa*: as gotículas maiores, por serem pesadas, atingem até 1,5 m (curva em vermelho). Por exemplo, quando uma pessoa fala, o aerossol que ela expele pode atingir distância da ordem de 1,5 m. Se uma pessoa tosse, o aerossol sai com velocidade de 10 m/s (ou 36 km/h), podendo atingir distâncias maiores que 2 m (seta em laranja). Já quando uma pessoa espirra, a velocidade com que um aerossol é expelido pode chegar a 50 m/s (ou 180 km/h) e este pode atingir distâncias maiores que 6,0 m. *Essas distâncias podem variar em função da altura de cada pessoa, da velocidade do vento e densidade do ar no local. Créditos: MIT/FT Research.

E aí é que pode estar o problema: pessoas infectadas com o novo coronavírus secretam muco cheio de vírus – assim, os aerossóis que elas produzem a cada expirada contém milhares de vírus que podem infectar outra pessoa. Um problema adicional relacionado à covid-19 é que pessoas assintomáticas, ou seja, pessoas que estão infectadas com o coronavírus mas que não apresentam nenhum sintoma relacionado à covid-19, podem transmitir o vírus. Lembrando que os sintomas relacionados à covid-19 são: febre, gotejamento nasal, tosse seca, dor no corpo, perda do olfato e/ou do paladar, conjuntivite, diarreia, descoloração dos pés e mãos, e os sintomas mais graves são: falta de ar e dor ou pressão no peito.

Infecção pelo novo coronavírus: carga viral do aerossol x tempo de exposição

Agora que já sabemos que todos expelem aerossóis durante a respiração, fica a pergunta: quais são as condições para que um contato com aerossol contendo coronavírus se torne uma infecção bem-sucedida? De acordo com estudos [3-5], dois fatores podem estar fortemente relacionados às infecções – a carga viral contida no aerossol e o tempo de exposição a esse aerossol contaminado.

A carga viral contida no aerossol nada mais é que a quantidade de vírus contidos no aerossol. Um estudo em amostras de secreções coletadas em pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 contém em média da ordem de 1 milhão de coronavírus por mL (!), e essa quantidade não difere significativamente por faixa etária, ou seja, essa carga viral é encontrada em crianças, adultos e idosos infectados. Cada vírus tem uma dose mínima necessária para que uma infecção ocorra: essa dose é definida como sendo o número mínimo de vírus (carga viral) que pode causar infecção em 50% da população, e quanto maior a carga viral que uma pessoa entra em contato, maior a chance de ser infectada.

Outro fator importante é o tempo de exposição ao aerossol contendo o novo coronavírus. Neste sentido, os estudos sobre como o aerossol se comporta em ambientes fechados podem dar boas pistas sobre como as pessoas ficam doentes por covid-19 [6]. Uma pessoa emite aerossóis cujas gotículas podem ter dimensões da ordem de 5 µm [3]. As gotículas maiores, cujo tamanho é de 5 µm ou mais, pousam rapidamente em superfícies a até 1,5 m do emissor devido a seu peso [6]. Entretanto, as gotículas cujo tamanho é inferior a 5 µm são muito leves e podem flutuar em um ambiente por horas [7]. Abaixo temos 3 vídeos que mostram os resultados de estudos de aerossóis: o vídeo 1 mostra a pesquisa de cientistas japoneses em conjunto com a emissora NHK, que mostram que emitimos aerossóis quando falamos, conversamos, espirramos e tossimos. O vídeo 2 mostra os resultados da cientista Lydia Bourouiba, que relacionam a distância atingida pelos aerossóis quando falamos, espirramos e tossimos. Por fim, o vídeo 3 mostra uma simulação feita por pesquisadores finlandeses, que mostram como o aerossol emitido por uma pessoa que espirre em um local fechado como um supermercado por chegar até outra pessoa localizada em outro corredor.

Vídeo 1: pesquisa de cientistas japoneses em conjunto com a emissora NHK mostra  emissão de aerossóis quando falamos, conversamos, espirramos e tossimos. Créditos do vídeo: NHK. Créditos da legenda: Dr. Alexandre Cercal.

Vídeo 2: resultados da cientista Lydia Bourouiba relaciona a distância atingida pelos aerossóis ao falarmos, espirrarmos e tossirmos . Créditos: Lydia Bourouiba/MIT.

Vídeo 3: Simulação realizada por pesquisadores finlandeses mostra como o comportamento do aerossol emitido por uma pessoa que espirra em um ambiente fechado. Créditos: Finnish Meteorological Institute/Aalto University/ VTT/University of Helsinki/IT Center for Science CSC. Animation: Mikko Auvinen and Antti Hellsten.

Os resultados obtidos nas diversas pesquisas sobre aerossóis e covid-19 mostram que:

▪ As gotículas maiores caem no solo por conta do seu peso, e atingem no máximo 2 metros a partir da pessoa que o emitiu. Assim, como essas gotículas podem conter o coronavírus, é fundamental lavar as mãos sempre que tocar uma superfície que esteja em lugar com trânsito de pessoas, como corrimãos, botões de elevador, produtos comprados em supermercados e lojas, por exemplo. Idealmente o melhor é praticar o isolamento social. Porém, para aqueles que necessitam sair de casa, praticar o distanciamento social, ou seja, manter distância mínima de 2 metros de outras pessoas, faz todo sentido.

▪ As gotículas menores podem ficar suspensas no ar, formando uma espécie de “pluma” ou nuvem, que pode ser inalada. Assim, o uso de máscaras é recomendado por dois motivos: o primeiro para evitar que uma pessoa inale aerossóis contendo o vírus e se infecte; o segundo  para evitar que uma pessoa assintomática que não sabe que está infectada libere aerossóis carregados de vírus. Ainda no quesito plumas, outro ponto importante é baixar a tampa do vaso sanitário quando for acionar a descarga. Como há evidências de traços do vírus em fezes, é importante evitar a pluma que pode ser originada a partir da descarga no vaso sanitário com a tampa aberta – que pode disseminar pelo seu banheiro também coliformes fecais, por exemplo.   

O que podemos fazer para diminuir a chance de contágio pelo coronavírus?

Em primeiro lugar: se puder, fique em casa!

Em segundo lugar: se precisar sair, use máscaras!

Cada vez que saímos de casa, não sabemos quais superfícies podem ter sido contaminadas pelo coronavírus. Ainda, não temos a informação de que as pessoas que passaram por corredores, elevadores, salas e ambientes fechados em geral estão infectadas pelo coronavírus e, portanto, expeliram aerossóis que contaminaram o ambiente. Como um exemplo drástico, no Distrito Federal houve o caso recente de uma denúncia sobre uma senhora que cuspiu na própria mão e passou em produtos de uma loja em um dos shoppings centers do DF. O caso se encontra sob investigação, mas caso ela esteja infectada, ela pode ter contaminado os objetos que ela tocou com saliva contendo carga viral. Se um cliente toca um desses produtos desavisado, corre o risco de ser infectado também. Vale enfatizar que o fato de você, leitorx, mesmo se não apresentar sintomas, também pode estar infectado com o coronavírus e infectar outras pessoas.

Os estudos sobre a aerodinâmica dos aerossóis mostram como as gotículas que expelimos na respiração se comportam em ambientes abertos e fechados. Em ambientes fechados, como academias, lojas, supermercados, shoppings centers, corredores, e salas em geral o risco de infecção pode ser alto. Em ambientes abertos, ainda que os ventos possam dispersar aerossóis, ainda assim representam risco,  inferior ao em ambientes fechados. Finalmente, não sabemos ainda qual a carga viral mínima para que a infecção ocorra, mas os estudos que traçam por onde pessoas infectadas estiveram e quem foi contaminado nestes mesmos lugares e datas indicam que talvez apenas algumas centenas ou milhares de coronavírus sejam suficientes para infectar uma pessoa. Assim, o mais prudente no momento para evitar a disseminação descontrolada da covid-19 é que todos previnam-se e ajam como se estivessem contaminados, praticando o isolamento/distanciamento social e utilizando máscaras se precisar sair de casa.

Como todas as pessoas, sem exceção, expelem aerossóis quando respiram, falam, cantam, gritam, tossem ou espirram, e como não temos como saber se uma pessoa aparentemente saudável está infectada e quais são as condições ideais para infectar outra pessoa, a melhor dica-tendência do momento é: fique em casa se puder! E se precisar sair, usem máscaras! Prevenir a disseminação da covid-19 é um ato de amor ao próximo!

Para saber mais:

[1] R. J. Hunter, Introduction to modern colloid science. Oxford Science Publications, Oxford, 1998.

[3] S. Asadi, N. Bouvier, A. Wexler, W. D. Ristenpart, Aerosol Sci Tech 54, 635 – 638, 2020.

[4] X. He, E. H. Y. Lau et al, Nature Medicine 26, 676-675, 2020.

[5] L. Bourouiba, JAMA 323, 1837-1838, 2020.

[6] D. Contini e F. Constabile, Atmosfere 11, 377, 2020.

[7] Van Doremalen, N.; Bushmaker, T.; Morris, D.H.; Holbrook, M.G.; Gamble, A.; Williamson, B.N.; Tamin, A.; Harcourt, J.L.; Thornburg, N.J.; Gerber, S.I.; et al.. N Engl J Med, 1–3, 2020.

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Arquivos e História da África

Hoje, dia 9 de junho, é o Dia Internacional dos Arquivos. Essa data foi escolhida, porque, há 72 anos, foi criado o ICA (International Council on Archives), sob os auspícios da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O ICA tem como objetivo “promover a preservação e o uso dos arquivos ao redor do mundo”. Ele também é responsável por diversas iniciativas que vão desde o treinamento de arquivistas ao redor do mundo até a publicação de guias e manuais de terminologia arquivística, como, por exemplo, a base de dados Multilingual Archival Terminology. Nesta semana, diversos eventos online sobre temas relacionados à preservação e importância dos arquivos serão transmitidos pelo site da instituição. Essa é, portanto, uma ótima oportunidade para refletir sobre o potencial de arquivos situados fora dos “grandes” centros acadêmicos e sobre a preservação adequada dessas coleções.

Há muito, a comunidade acadêmica vem levantando a questão da negligência e da falta de recursos disponíveis aos arquivos. O Brasil mesmo viveu a tragédia do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018. A coleção do Museu era vastíssima: o trono do Rei do Daomé, acervos linguísticos, o fóssil humano mais antigo do Brasil, dentre inúmeros outros objetos de valor científico inestimável. Grande parte do acervo se perdeu no incêndio.

43537246085_56101db67e_cFoto: Tânia Rego/Agência Brasil

Mais recentemente, a comunidade acadêmica presenciou outra destruição trágica. No dia 13 de maio deste ano, a cidade de Kayes, no Mali, foi tomada por manifestações decorrentes das tensões políticas que já perduram há muitos anos no país e foram agravadas pela crise da Covid-19. Essas manifestações foram deflagradas pela morte de três jovens, sendo um deles assassinado por um policial na madrugada de 11 para 12 de maio. Durante as manifestações, o prédio da prefeitura foi incendiado. Nesse incêndio, foi também afetado o arquivo do Cercle de Kayes, uma das coleções documentais mais ricas do país. Organizada e inventariada em 2008 e 2009, a coleção foi totalmente destruída pelo incêndio. Agora, pesquisadores e arquivistas tentam chamar a atenção do governo e da comunidade internacional para evitar que outras coleções igualmente importantes sejam destruídas ou deterioradas.

au-mali-la-mort-de-trois-jeunes-embrase-la-population-de-kayes-et-ses-precieuses-archivesArquivo do Cercle de Kayes após o incêndio. Foto: Mamadou Cissé

Assim como o arquivo do Cercle de Kayes, existem inúmeros outros na África que guardam documentação primordial para o estudo da história do continente. Ainda que muita dessa documentação tenha sido produzida pela burocracia colonial europeia, análises “a contrapelo” podem evidenciar tanto os mecanismos de resistência das populações colonizadas, como os mais variados aspectos da vida cotidiana desses grupos. Pegando o exemplo do Mali, é bastante extensa a produção historiográfica que, utilizando documentação dos tribunais coloniais, deu novos contornos à história social da região. O já clássico livro de Richard Roberts, Litigants and Households, por exemplo, analisa o uso dos tribunais coloniais pelas populações colonizadas, em especial as mulheres, que viam nessas instituições uma arena onde poderiam avançar demandas por direitos e reconhecimento. Também Emily Burrill deu especial atenção às mulheres, em suas pesquisas sobre a região. Tendo como foco principal as disputas em torno de divórcios e violência doméstica, a historiadora mostra como as autoridades coloniais cederam à resistência patriarcal ao avanço institucional das demandas das mulheres.

Por todo o continente, estão espalhados arquivos tão importantes quanto os malianos, que nos permitem reescrever a história das populações colonizadas. A Guiné-Bissau, por exemplo, possui uma coleção riquíssima, parcialmente digitalizada e disponível gratuitamente. No site “Casa Comum”, da Fundação Mário Soares, estão disponíveis vários documentos sobre o período colonial e as lutas de libertação. No fundo INEP-Bissau, os pesquisadores podem encontrar documentação administrativa e judicial, produzida pelas autoridades coloniais, que permitem escrever a história social dos trabalhadores guineenses, bem como da repressão política e policial que eles sofreram. Além de todos esses documentos online, o Arquivo, sob a guarda do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa), na cidade de Bissau, possui uma coleção ainda mais extensa, que permitiria o desenvolvimento de pesquisas sobre colonialismo, trabalho forçado, relações de família, polícia e controle social, organização administrativa do Estado colonial, etc.

Vale lembrar, também, o Arquivo Nacional de Cabo Verde. Com documentação que remonta ao século XVIII, os principais fundos do acervo são “Secretaria Geral de Governo”, “Tribunal da Praia” e “Tribunal da Ribeira Grande”. Composto por processos judiciais, inventários, censos populacionais, correspondências e documentação administrativa colonial, esse acervo permite pesquisas sobre relações familiares, escravidão e trabalho compulsório, terras e questão agrária, polícia e controle social, estrutura administrativa colonial, dentre outros. A documentação do Arquivo possibilita, inclusive, pesquisas sobre as mais diversas epidemias que assolaram o arquipélago cabo-verdiano ao longo dos séculos, como indica o historiador José Évora.

Também Moçambique possui acervos documentais valiosos. A pesquisadora brasileira Fernanda Thomaz utilizou muitos deles em sua tese de doutorado. No Arquivo Histórico de Moçambique, ela analisou, principalmente, a documentação do fundo “Juízo de Direito da Comarca de Cabo Delgado” e processos criminais do Tribunal Privativo dos Indígenas do fundo “Porto Amélia”. Na linha dos trabalhos de história social da justiça, a historiadora mostrou as inúmeras tensões e contradições que perpassaram os tribunais coloniais, possibilitando uma redefinição dos conflitos e das relações sociais. A pesquisa de Thomaz, porém, não se restringiu à documentação arquivística. A análise dessas fontes foi cotejada com entrevistas com pessoas da região, o que foi fundamental para evidenciar novos aspectos da documentação escrita.

A lista de exemplos de acervos no continente africano e de pesquisas feitas com essa documentação é muito extensa. O propósito deste post foi aproveitar o Dia Internacional dos Arquivos para trazer alguns desses exemplos. É importante frisar que a história da África só é possível a partir da consulta a essa documentação local. Os arquivos que, hoje, estão nos países das antigas metrópoles não são suficientes para elucidar aspectos fundamentais da vida cotidiana e das práticas de resistência das populações colonizadas. Assim, é necessário o engajamento cada vez maior na preservação e valorização dessas coleções.

Referências bibliográficas

BURRIL, Emily. “Disputing Wife Abuse: Tribunal Narratives of the Corporal Punishment of Wives in Colonial Sikasso, 1930s“. Cahiers d’Études Africaines, v. 47, cahier 187/188, 2007, pp. 603-622.

ROBERTS, Richard. Litigants and Households: African Disputes and Colonial Courts in the French Soudan, 1895-1912. Portsmouth: Heinemann, 2005.

THOMAZ, Fernanda do Nascimento. Casaco que se despe pelas costas: a formação da justiça colonial e a (re)ação dos africanos no norte de Moçambique, 1894 – c. 1940. Tese de doutorado. Universidade Federal Fluminense, 2012.