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O papel da evolução no surgimento e no tratamento do câncer

Os últimos meses foram marcados, em todo o Brasil, por campanhas de prevenção ao câncer de mama, com o outubro rosa, e ao câncer de próstata, com o novembro azul. Agora, por meio do dezembro laranja, as campanhas de saúde pública se voltam para outro vilão, o câncer de pele.

O motivo dessas mobilizações nacionais é bem evidente: o câncer é uma doença com uma alta frequência na população nacional e mundial. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), estima-se que até 2040 serão registrados 29,4 milhões de novos casos de câncer no mundo, uma expansão de 63% nos próximos 20 anos. Além disso, a mortalidade decorrente de câncer deve subir de 9,6 milhões de pessoas em 2018 para 16,3 milhões em 2040.

Cancer cell scientific 3d illustration

Figura 1. Representação de um tumor (Fonte: Mopic/Alamy, BBC, 2016).

Olhando esse cenário, podemos nos perguntar: qual o motivo de tantas pessoas desenvolverem essa patologia ao longo da vida? As explicações mais comuns para esses números alarmantes estão relacionadas ao envelhecimento da população e aos hábitos das pessoas, como má alimentação, tabagismo, obesidade e falta de atividade física. Entretanto, para responder esse questionamento inteiramente, é importante entender que o câncer é um subproduto do processo evolutivo e que nós, seres humanos, fazemos parte desse processo e, dessa forma, somos suscetíveis a essa doença.

Para compreender o câncer nós precisamos lembrar de um processo biológico fundamental: a divisão celular. Esse processo é extremamente regulado nas células do nosso corpo. Entretanto, uma célula cancerígena é capaz de “quebrar” os mecanismos de controle que uma célula comum segue, gerando uma proliferação celular descontrolada [1].

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Figura 2. Representação de uma molécula de DNA sendo quebrada (Fonte:  Paul Wootton/SPL, BBC, 2016).

Durante os anos de evolução da vida em nosso planeta, muitos mecanismos de reparo de danos celulares surgiram, além de mecanismos de destruição das células que apresentem alguma irregularidade. Esses mecanismos evitam que tais células “danificadas” causem prejuízos para todo o organismo. Entretanto, essas correções, apesar de excelentes, não são exatamente perfeitas. Quando um pequeno número de células que possuem alguma alteração não são “consertadas” pelos mecanismos de reparo, essa população celular pode crescer, gerando centenas e milhares de células alteradas, que levam à formação do que conhecemos por um tumor [2].

Recentemente os cientistas olharam para as células cancerígenas sob novas perspectivas, e perceberam que com o crescimento desacelerado e desordenado, cada célula cancerígena possui um material genético diferente da outras células [2], como um organismo independente, e que o conjunto dessas células, o que seria análogo ao que conhecemos como uma população, está suscetível a várias pressões do ambiente externo e aos fatores evolutivos.  

Assim, após a formação de um tumor, constituído inteiramente por células alteradas, novas modificações acontecem dentro dessa mesma população de células cancerígenas, tornando-as cada vez mais diversas geneticamente [1,3]. Assim, sob essa diversidade de células há a atuação da seleção natural, ou seja, as células com maiores taxas de divisão, mais “agressivas” e resistentes sobrevivem, enquanto as outras células não tão adaptadas morrem. Esse processo faz com que as células do tumor se tornem cada vez mais “fortes” e adaptadas, sendo necessária a completa remoção de todas as células de um organismo para a eliminação da doença pois, se apenas algumas sobreviverem, elas podem rapidamente se multiplicar e voltar ao estágio de tumor.

Esse processo evolutivo com constantes modificações é uma das razões de ser tão difícil encontrar um único tratamento para o câncer. Entretanto, entender esse processo nos revela também uma das possibilidades de cura. Cientistas começaram a olhar os cânceres sob a luz da evolução e descobriram que as células de um tumor usualmente compartilham alterações genéticas (mutações) provenientes das primeiras células que sofreram alterações. Em uma analogia, funciona como uma árvore com vários galhos (Figura 3).

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Figura 3. Representação do isolamento de células de diferentes partes de um tumor e reconstrução da ordem de aparecimento de cada modificação (Fonte: Kuo, C.J; Curtis, C. Nature, 2018, com adaptações e tradução para português).

O estudo [4] foi publicado na revista Nature em abril de 2018, e mostra que a partir da separação de diferentes regiões de um tumor é possível identificar a origem e as mutações acumuladas em cada parte. Assim, após entender e mapear essas primeiras alterações celulares é possível criar terapias direcionadas para cada tipo de tumor que eliminem todas as células de uma só vez.

Por fim, a ciência básica e a ciência aplicada caminham mais uma vez de mãos dadas e a cada dia mais unidas para desvendar um dos grandes desafios da humanidade no século atual: a cura do câncer.

Para saber mais sobre a história do câncer e estatísticas brasileiras vale a pena ler o livro gratuito do Instituto Nacional do Câncer (INCA) dos autores Luis A. Teixeira e Cristina O. Fonseca, intitulado “De doença desconhecida a problema de saúde pública: o INCA e o controle do câncer no Brasil”. E, aqui no blog, recentemente nós publicamos um texto sobre um dos últimos avanços da medicina em relação ao tratamento do câncer por meio da imunoterapia. Boa leitura!

Referências:

[1] Mel Greaves & Carlo C. Maley. Clonal evolution in cancer. Nature, v. 481, p. 306–313, 2012. (https://www.nature.com/articles/nature10762)

[2] Melissa Hogenboom. How cancer was created by evolution. BBC Earth, 2016. (http://www.bbc.com/earth/story/20160601-is-cancer-inevitable)

[3] Calvin J. Kuo & Christina Curtis. Organoids reveal cancer dynamics. Nature News &  Views, p. 441, 2018. (https://www.nature.com/articles/d41586-018-03841-x)

[4] Roerink, S et al. Intra-tumour diversification in colorectal cancer at the single-cell level. Nature, n. 556, p. 457–462, 2018. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29643510)

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O solo como estoque de carbono e gestão de resíduos. Na busca por soluções para o avanço do aquecimento global.

Surgem cada vez mais estudos no mundo sobre sequestro de carbono (C) no solo, com práticas agropecuárias diversas. De modo geral, essas taxas variam entre 0,1 e 0,5 tonelada de C por hectare por ano, dependendo do tipo de prática, da composição e estrutura do solo, e da região do estudo.

A questão é, até que ponto a forma como o solo é manejado pode interferir no aquecimento global?  Bom, segundo as pesquisas, interfere e muito!

Medidas calculadas a partir de uma meta-análise global por West e Post (2002) do Departamento de Energia dos EUA sugerem uma taxa de sequestro de C média de 0,48 ± 0,13 t C / ha / ano, no caso de conversão de sistema de plantio convencional (práticas intensivas de manejo) para o plantio direto (plantio sobre a palha da colheita anterior – menos intensivo). Rotações de culturas têm uma taxa de sequestro de C média de 0,15 ± 0,04 t C /ha /ano.

Outra análise, dessa vez do estudo de Lam et al. (2013) mostrou estimativas maiores de sequestro de C na Austrália, após a adoção da chamada lavoura de conservação, com manejo de resíduos de plantas e conversão para pastagem.

A figura abaixo ilustra a diferença entre o plantio convencional e direto, na manutenção do estoque de carbono no solo. No desenho, as setas em vermelho e rosa indicam a liberação de gases do efeito estufa para a atmosfera. As setas verdes indicam a absorção desses gases no solo, como estoque de carbono, dependendo da atividade de uso do solo. Como é possível observar, a floresta possui um sistema equilibrado de entradas e saídas, considerando o ecossistema como um todo. O sistema de plantio convencional tem um balanço negativo na emissão de gases, enquanto que no sistema de plantio direto, a conservação da matéria orgânica promove a elevação da absorção de gases, aumentando a capacidade do solo em reter carbono da atmosfera.

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Fonte: Carlos C. Cerri, 2009.

Normalmente, solos arados ​​contém 1-3% de carbono orgânico (Stockmann et al., 2013). Essa média é relativamente baixa, pelo processo de mineralização da matéria orgânica, causada pelo uso de técnicas agrícolas intensivas.

Por enquanto, só falamos da agricultura que, mesmo com taxas baixas, dependendo do manejo, sequestra certa quantidade de C. No caso da pecuária, o cenário apresentado é oposto, uma vez que o rebanho de gado é, junto com a queima de combustíveis fósseis, uma das principais causas do aumento do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global. Além disso, a pecuária é responsável por grande parte do desmatamento da Floresta Amazônica, fato ainda mais prejudicial, já que a Floresta representa um grande estoque de carbono ativo.

Apesar da realidade pouco otimista dos dados, ainda há o que fazer para reverter esse quadro.

A modificação das práticas agrícolas convencionais pelo manejo de base ecológica pode auxiliar na melhoria da qualidade e estrutura do solo e, consequentemente, aumentar o estoque de C armazenado. Localizar os recursos e alocá-los de maneira a facilitar processos naturais pode ser uma importante alternativa também. Um exemplo disso é a questão dos resíduos sólidos na cidade.

No Brasil, a taxa de geração de resíduos orgânicos é, em média, 50% da composição do resíduo domiciliar, cerca de 94.309,5 t/dia, de acordo com o IPEA (2012). Entretanto, apenas 1,6% dos resíduos orgânicos (aprox. 1.510 ton/dia) são destinados para unidades de compostagem, sendo o restante (92.800 ton/dia), encaminhado para outros destinos finais (lixões, aterros controlados e aterros sanitários).

Abaixo, segue a tabela com a composição dos resíduos no Brasil por tipo e sua geração em toneladas por dia, bem como a evolução da produção de resíduos entre os anos de 2000 e 2008.

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Fonte: IPEA (2012)

Caso esse recurso fosse utilizado, muitos dos problemas que enfrentamos seriam solucionados, uma vez que:

  • O volume de resíduos diminuiria, o que faria aumentar a vida útil de aterros sanitários;
  • Contaminações de solo e água poderiam ser evitadas/menos frequentes;
  • Haveria mais recursos para adubação natural do solo, melhorando sua qualidade e estrutura e evitando a utilização de insumos sintéticos;
  • No final desse ciclo virtuoso, a taxa de sequestro de carbono aumentaria notavelmente.

Portanto, o potencial de aumento no estoque de carbono é possível, com gestão in situ estratégica, desenvolvimento de práticas de manejo adequadas, implementação de políticas públicas, envolvimento de todas as cadeias de produção e, principalmente, da sociedade civil.

Além disso, ações individuais são sempre válidas, agir no micro para modificar o macro é uma medida efetiva, principalmente, porque age na transformação de consciência da sociedade.

Então, podemos aprender por nós mesmos como realizar o tratamento dos resíduos orgânicos em casa, acessando links interessantes, como esses:

 

Referências

  • IPEA- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Diagnóstico dos Resíduos Sólidos Urbanos. Relatório de Pesquisa. Brasília/DF, 2012.
  • Lam, S.K., Chen, D., Mosier, A.R., Roush, R.. The potential for carbon sequestration in Australian agricultural soils is technically and economically limited. Sci. Rep. v.3, n. 2179, 2013.
  • Stockmann, U., Adams, M. A., Crawford, J. W., Field, D. J., Henakaarchchi, N., Jenkins, M., Zimmermann, M., et al. The knowns, known unknowns and unknowns of sequestration of soil organic carbon. Agric. Ecosyst. Environ. 164, 80–99. 2013.
  • West, T. O., Post, W. M., Soil organic carbon sequestration rates by tillage and crop rotation. Soil Sci. Soc. Am. J. 66, p.1930–1946. 2002.
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Poder no feminino não é igual a feminismo ou Por que é que não festejamos quando algumas mulheres chegam ao poder?

Nos últimos tempos temo-nos deparado, nas redes sociais, com imensas acusações, diria mesmo “queixinhas” do tipo: “Uma mulher no comando de…(um cargo político, um serviço público, uma empresa privada, seja o que for…) e as feministas não comemoram!”

E, é verdade. Muitas vezes não comemoramos, porque não há nada para comemorar. Assim mesmo. Sem culpas! E isto é fácil de entender: se perdermos algum tempo para analisar os motivos que nos podem levar a celebrar quando uma mulher consegue um cargo de poder, chegamos à conclusão que são os que a seguir se enumeram, sem seguir uma ordem de importância:

  1. – progressos nas questões da igualdade de género, o que conduz a resultados mais justos para as mulheres e para a sociedade em geral;
  2. – uma questão de representatividade: ver muitas mulheres no poder faz-nos acreditar a todas que é possível chegar ao poder e as meninas passam a ter cada vez mais exemplos/modelos a seguir;
  3. – contribuição para a mudança de mentalidades do patriarcado: quantas mais mulheres ocuparem cargos de poder, mais influenciam a forma como a população observa e analisa o papel das mulheres na sociedade, aumentando desta forma o seu respeito e reconhecimento em cargos importantes no espaço público;
  4. – por sororidade: aquela união que deveria existir entre as mulheres, baseada no companheirismo que luta por alcançar objectivos em comum;
  5. – por confiança: reconhecimento que é mais fácil que mulheres produzam e influenciem medidas que beneficiam todas as mulheres e que defendam a igualdade de direitos;
  6. – Acreditar plenamente que a vitória de uma única mulher é importante para a vitória de todas as mulheres e que somos porque ela é, tal como ela é porque nós somos…;

 

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Margaret Thatcher Foto: GettyImages

E poderia talvez enumerar mais alguns motivos, mas todos levariam a um único ponto: celebramos a vitória de uma mulher, os seus avanços, as suas conquistas, porque ela é feminista e nem todas as mulheres que chegam ao poder o são. Tão simples assim!

No artigo “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” (Ferreira & Ferreira, 2018) [1], que se baseia numa leitura do romance histórico “A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa abordo e esclareço este assunto. A certa altura questiona-se: é a rainha Ginga feminista? Esta questão fazia todo o sentido, porque esta personagem era considerada um exemplo por muitos movimentos feministas. Quando esta questão foi colocada ao próprio Agualusa, ele respondeu algo extremamente interessante: “Não sei. Ela governava como um homem entre homens, como, por exemplo, a Margaret Thatcher. A Margaret Thatcher era feminista? Não me parece. Eu estou mais interessado num poder no feminino” (Agualusa 2015) [2]. E, com isto, o autor estabelece, de imediato, uma diferença entre feminismo e poder no feminino. Mas, para que se possa fazer esta distinção ou para se poder afirmar que alguém é ou não feminista, é importante definir o conceito, mesmo sabendo que “feminismo” é uma palavra que não tem sinónimo, nem um substituto adequado (Offen 2008) [3] e que é uma expressão que “esconde um mosaico de situações diferentes, muito afastadas de um conjunto homogéneo, sendo que a aparente comunhão de ideologias sob a bandeira do feminismo esconde a variedade de feminismos” (Tavares 2011:33) [4].

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Hillary Clinton Foto: FLICKR

Para Karen Offen, o feminismo é “um projecto político que desafia a dominação masculina e a subordinação feminina e que insiste em restabelecer um equilíbrio de poder entre os sexos” (Offen, 2008: 36) [3]. Sendo assim, existem mulheres que desafiam sempre a dominação masculina a título individual, mas nunca mostram preocupação com as mulheres como colectivo e com o “equilíbrio de poder entre os sexos”. Não lutam contra as opressões sofridas pelas outras mulheres e, por vezes, até pelo contrário: no seu lugar de privilegiadas oprimem-nas e humilham-nas. Isso faz delas mulheres poderosas, que no seu momento produzem transformações para si próprias enquanto mulheres que têm acesso ao espaço reservado aos homens, e que talvez só por isso possam efectuar mudanças na vida de outras mulheres. Silvermint (2018) [5], no seu artigo Resisting for other reasons explica tudo isto muito bem, dando como exemplo duas mulheres: a Champion e a Trailblazer. Às duas mulheres é negada uma promoção no trabalho, devido a padrões despudoradamente sexistas. Enquanto Champion chama de imediato a atenção para as práticas discriminatórias, com a finalidade de promover a igualdade para todas as mulheres, isto é, resiste à opressão sexista com a única intenção de acabar com o sexismo, Trailblazer aponta o dedo às práticas discriminatórias para prosseguir no seu local de trabalho sexista, mas por outro lado gratificante. Ela pretende viver uma vida boa, construir uma grande carreira e por isso é necessário ultrapassar as barreiras opressivas que encontra no caminho. A Trailblazer não pretende resistir à opressão, ela resiste apenas com o objectivo de subir na vida. Ora, segundo o autor, isto não significa que ela não obtenha exactamente os mesmos resultados que a Champion neste caso específico, acabar com o sexismo e conseguir a igualdade para todas as mulheres no local de trabalho e também não indica que, lá porque não tinha intenções de resistir, não corra os mesmos riscos que a outra mulher, por ser uma resistente consciente à opressão e com intenções de lhe colocar um termo definitivo.

Há muitas mulheres que se encontram na mesma situação que Trailblazer, as suas intenções são única e simplesmente ultrapassar os obstáculos que se colocam no seu caminho, para atingir as metas a que se propuseram. Podem até, por arrastamento, conseguir melhorar a situação de outras mulheres, nas situações específicas em que elas beneficiariam das suas lutas de resistência que tinham como único objectivo satisfazer os seus interesses pessoais. Mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. Além do mais, os maiores problemas surgem quando este tipo de pessoas que apenas resiste por motivações pessoais, não se levanta pelas bandeiras das lutas colectivas, como é o caso do feminismo interseccional, porque não lhes trazem dividendos. Voltando ao exemplo de Trailblazer, que tem como única motivação subir na carreira, nunca lutará contra o machismo que as mulheres sofrem na vida pessoal, como por exemplo, nos casos de violência doméstica, porque esse tipo de opressão não interfere com as suas ambições (Silvermint 2018) [5]. Assim são muitas mulheres que ocupam a cadeira do poder. Por isso, não se pode afirmar que são feministas. Tendo ainda em conta que, segundo Karen Offen:

“As feministas podem ser identificadas como quaisquer pessoas, mulher ou homem, cujas ideias e acções (…) respondam a três critérios: 1) que reconheçam a validade das interpretações das próprias mulheres sobre a sua experiência vivida e necessidades, e que reconheçam os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus (…) na apreciação do seu estatuto na sociedade face aos homens; 2) que exibam a sua consciência, desconforto ou até revolta face à injustiça institucionalizada (ou desigualdade) em relação às mulheres, enquanto grupo, pelos homens, enquanto grupo, em determinada sociedade; 3) que advoguem a eliminação dessa injustiça desafiando, mediante esforços para alterar as ideias prevalecentes, e/ou as instituições e práticas sociais, o poder coercivo, a força, ou autoridade que defenda as prerrogativas masculinas nessa cultura particular. Assim ser feminista é necessariamente ser contrário à dominação masculina na cultura e na sociedade, qualquer que seja o local geográfico ou situação histórica” (Offen 2008: 36) [3].

Segundo estes parâmetros, é fácil identificar mulheres que não são feministas porque estas não reconhecem “os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus”, não mostram desconforto nem revolta com a injustiça institucionalizada em relação às mulheres como grupo e não advogam a eliminação dessa injustiça.

Depois disto, é fácil perceber que as feministas não têm que apoiar, defender e muito menos celebrar todas as mulheres que conseguem um cargo no poder. Vamos lá a retirar dessas cabecinhas a ideia peregrina de que as feministas dão pulinhos de alegria, quando mulheres atingem o poder, só porque são mulheres. Isso não basta! Primordial é colocar em lugares de poder mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres, de forma a acabar com todas as opressões. Ou seja, feministas!

[1] Ferreira, Helena & Ferreira, Aline (2018). “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” in Moderna språk 2018:1, pp. 153-164

[2] Agualusa, José Eduardo (2015), “Obras” in José Eduardo Agualusa http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=28&idbook=107&interviews

[3 Offen, Karen (2008), “Erupções e fluxos: reflexões sobre a escrita de uma história comparada dos feminismos europeus, 1700-1950”, in Cova, Anne (Dir.), História Comparada das Mulheres, Lisboa: Livros Horizonte, 29-45.

[4] Tavares, Manuela (2011), Feminismos, Percursos e Desafios (1947-2007). Alfragide: Texto Editores, Lda.

[5] Silvermint, Daniel (2018), “Resisting for other reasons”, Canadian Journal of Philosophy, 48 (1): 18-42.

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“A notável física brasileira de 25 anos”

O estímulo e o exemplo podem ser armas poderosas para o futuro de uma menina. Uma menina pode se tornar uma física excepcional aos 25 anos quando apoiada pela família e nós podemos nos inspirar com o seu grande exemplo.

Sonja Ashauer nasceu em São Paulo em 1923, filha de pais alemães e de mente bem aberta para época, ajudaram a fortalecer o espírito científico dessa jovem. Na adolescência, Sonja contava com um mini-laboratório montado pelo seu pai, onde ela detinha toda a liberdade de realizar experiências. Todo esse apoio a levou a entrar no curso de física da USP e graduar-se bacharel em 1942, tendo sido juntamente com Elisa Frota-Pessoa, que se graduou em física no mesmo ano na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, a segunda mulher a se graduar em Física no Brasil.

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Sonja Ashauer. Fonte: wikipedia

 

Logo em seguida iniciou o curso de licenciatura que finalizou em 1944 e sendo imediatamente contratada como a primeira assistente da Cadeira de Física Teórica e Física Matemática de Gleb Wataghin. Neste emprego pôde participar de pesquisas sobre mecânica quântica, em especial, em estatística de núcleos e partículas elementares em temperaturas extremamente altas. Segundo o professor Silvio Salinas, em um trabalho publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, Sonja calculou o coeficiente de absorção de radiação para o efeito fotoelétrico.

Com uma bolsa do British Council, Sonja Ashauer iniciou seu doutorado em Cambridge em 1945 sob orientação do Prêmio Nobel de Física de 1933, Paul Dirac.

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Paul Dirac. Fonte: Wikipedia

Mulheres não eram aceitas em Cambridge até meados do século XIX e na época de Sonja só era permitido cursar o bacharelado, portanto o seu doutoramento foi um dos primeiros concedidos pela universidade para uma mulher.

Dirac não era uma pessoa muito fácil de lidar, vários orientados o abandonaram e até Sonja teve problemas, principalmente pela ausência de supervisão de Dirac, que viajava constantemente. Em troca de cartas com Wataghin ela relata problemas com o tema de sua pesquisa, e ele a tranquiliza e diz que seu cargo continua disponível e que o mais importante era a pesquisa e não o título. Apesar dos problemas ela conseguiu concluir seus estudos em fevereiro de 1948 com a tese “Problems on electrons and electromagnetic radiation”. Infelizmente este trabalho não é de fácil acesso, tendo sua única cópia em Cambridge.

Além do PhD, Sonja se tornou membro da Cambridge Philosophical Society, processo no qual dependia de indicação feita por membro eleito há mais de três anos e a eleição dentro do conselho.

Além de ser uma física extraordinária, ela foi relatada por Sérgio Leite Lopes (um dos maiores físicos brasileiros de todos os tempos) como uma pessoa muito querida que o ajudou muito.

Infelizmente sua trajetória foi interrompida logo no início. No mesmo ano de conclusão do doutorado e volta ao Brasil, Sonja veio a falecer. Em agosto de 1948 Sonja apanhou chuva num dia frio, resfriou-se e não deu muita atenção. Esse resfriado a levou a uma “broncopneumonia, miocardite e colapso cardíaco” que a levou a óbito. No mesmo ano o caderno “Ciência para Todos” fez um artigo sobre a trajetória da “notável física brasileira de 25 anos”, contendo relatos de vários cientistas famosos da época.

As cientistas feministas já fizeram uma linda homenagem pra essa mulher inspiradora, segue essa ilustra maravilhosa que merece ser vista periodicamente.

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Ilustração feita pelas Cientistas Feministas em homenagem a Sonja Ashauer.

 

Boa parte do conteúdo deste artigo foi retirado do livro Mulheres na física: Casos históricos, panorama e perspectiva, montado por pesquisadores do Brasil e que apresenta este e outros casos de maneira mais detalhada. Outros documentos fundamentais para a composição da biografia de Sonja foram suas cartas com Wataghin, que podem ser encontrados no acervo da USP (http://acervo.if.usp.br/index.php/declaracao-de-marcello-damy-de-souza-santos-sobre-sonja-ashauer).

Referências

[1]http://memoria.cnpq.br/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902653;jsessionid=C9A8A8C4B643C3848E9A546B6DF95D2B?p_p_state=pop_up&_56_INSTANCE_a6MO_viewMode=print

[2] Mulheres na Física: Casos históricos, panorama e perspectiva. Elisa M.B. Saitovitch, Renata Z. Funchal, Marcia C. B. Barbosa, Suani T.R. de Pinho e Ademir E. de Santana. Livraria da Física, 2015.

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As mulheres livres, ontem e hoje

Entre 1936 e 1939 ocorreu um evento na Europa que é constantemente esquecido por conta do impacto da Segunda Guerra Mundial: a Guerra Civil Espanhola. De um lado, os militares liderados pelo General Francisco Franco, que depois iria assumir o governo do país de forma ditatorial até 1975. Do outro, republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas lutando contra o fascismo pela liberdade. Estes últimos, especialmente na região da Catalunha industrializada, transformaram a luta contra Franco também na construção de uma nova sociedade. Em pouquíssimo tempo, os trabalhadores coletivizaram e assumiram a administração de fábricas, terras, serviços públicos, etc. Era o início da Revolução Espanhola, da qual poucos ouviram falar até hoje.

Foi nesse contexto, na cidade de Barcelona, que nasceu o grupo anarquista Mujeres Libres. Fundado pela advogada Mercedes Comaposada, pela jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil e pela médica Amparo Poch y Gascón, seu objetivo era lutar por questões relativas ao universo das mulheres, como aborto e prostituição, que não recebiam espaço para debate e ação nos sindicatos. No seu auge, o Mujeres Libres contou com mais de 20 mil afiliadas, e oferecia palestras, cursos, creches e até casas de apoio para receber, educar, capacitar e promover a libertação das mulheres da cultura patriarcal que também existia de maneira muito forte entre os trabalhadores e operários. Suas atividades e o posterior envolvimento com a guerra contra o franquismo eram divulgados através da revista de mesmo nome, até hoje um documento muito importante para registrar não só a experiência da Revolução Espanhola, mas a participação ativa das mulheres nesse período, que acabam sendo deixadas de lado pelo viés mais tradicionalista da História.

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                 Reunião da Federação Mujeres Libres  na cidade de Valência           (in RAGO e BIAJOLI, 2017, p.89)

 

Em 2017, porém, Margareth Rago (Unicamp) e Maria Clara Biajoli, duas historiadoras brasileiras, reeditaram o livro Mujeres Libres da Espanha, uma coletânea de artigos traduzidos da Revista Mujeres Libres, deixando essa documentação e a história dessas mulheres mais acessíveis para outros pesquisadores e o público em geral do Brasil. O livro é resultado de uma pesquisa conjunta desenvolvida entre os anos de 2002 e 2007 com financiamento CNPq e FAPESP, divulgada em diversos artigos e na dissertação de mestrado de Biajoli, e traz documentos coletados em arquivos na Espanha e em acervos pessoais de mulheres que participaram do ML tanto durante a Guerra Civil quanto depois, no exílio na França (a grande maioria das Mujeres Libres, assim como milhares de outras pessoas, fugiram da Espanha após a vitória de Franco). Os assuntos abordados incluem política e guerra, anarquismo, reflexões sobre o próprio grupo, feminismo, moral sexual e amor livre, etc., e indicam a qualidade progressista e libertária dessas mulheres em meio à opressão de classe, gênero e, também, religião – não podemos esquecer o peso da Igreja Católica na Espanha naquela época.

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Capa da coletânea organizada por Rago e Biajoli (2017)

 

Além desses documentos do período, a coletânea também traz algo inédito, relatos de memória de algumas dessas mulheres coletados em entrevistas e cartas. Essa seção em especial é muito interessante porque há uma tendência em estudos sobre guerras de ignorar ou diminuir autobiografias e memórias de mulheres sobre esses conflitos, já que são vistos sempre como algo eminentemente masculino. Contudo, abrir espaço para a experiência da mulher pode mudar toda a nossa percepção sobre esses eventos. A historiadora Patricia Greene, por exemplo, argumenta que “autobiografias de mulheres ativistas da esquerda espanhola frequentemente apresentam uma narrativa com uma voz dupla que integra, textualmente, a complexa relação entre a pessoa pública e a mulher privada, entre a história oficial e a história pessoal, enquanto, simultaneamente, constrói uma contra-narrativa que desafia a versão franquista fraturada da história” (334).

A experiência das Mujeres Libres, no final da década de 1930, foi de resistência, luta e solidariedade e mostrou como as mulheres, unidas, conseguem atingir objetivos antes considerados impossíveis. A divulgação da sua história e de suas memórias também é um ato de resistência à História masculina tradicional dos vencedores, que apagou a Revolução Espanhola e o Mujeres Libres. Mas é também um incentivo para nós, mulheres, para procurarmos as nossas próprias formas de união e de resistência hoje aos novos fascismos que se aproximam.

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                    Alguns exemplares da Revista Mujeres Libres                (in BIAJOLI, 2007, p.157)

Referências:

RAGO, Margareth e BIAJOLI, Maria Clara P. Mujeres Libres da Espanha. Documentos da Revolução Espanhola. São Paulo: Biblioteca Terra Livre, 2017.

BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Narrar Utopias Vividas: Memória e Construção de Si nas Mujeres Libres da Espanha. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, 2007.

GREENE, Patricia V. “Federica Montseny: Chronicler of an anarcho-feminist genealogy” in Letras Peninsulares, Outono de 1997.

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Programa Mais Médicos

Com as mudanças populacionais, epidemiológicas e econômicas, os sistemas de saúde em diversos países do mundo têm passado por mudanças. No Brasil, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma estratégia de desenvolvimento social, possibilitando importante melhoria na qualidade de vida da população brasileira. A porta de entrada preferencial do sistema é a Atenção Básica à Saúde, onde atuam os trabalhadores mais próximos às residências e cotidiano das pessoas. O acesso aos cuidados em saúde vem melhorando, mas o princípio constitucional de integralidade no SUS ainda é um grande desafio.

A integralidade, como já foi colocado nesta coluna, compreende e reforça a importância do olhar singular a cada pessoa e sua inserção com qualidade no SUS, em uso da Rede de Atenção à Saúde. Essa aplicação exige uma série de ações estruturantes para se consolidar e uma dessas ações é a distribuição de profissionais da área da saúde em território nacional.

A desigualdade geográfica na distribuição de médicos é uma realidade ao redor do mundo. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 50% da população mundial vive em áreas remotas, tendo acesso a 25% de cobertura médica. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde (MS), 81% dos estados tinham uma densidade de distribuição de médicos por habitante abaixo da média nacional antes de 2013. A tabela do MS divulgada em 2014 é pautada na variável de médicos a cada 1000 habitantes e o Brasil conta com uma proporção de 1,8 médicos/1000 habitantes. Cinco desses estados possuíam um médico  a cada 100 mil habitantes. Abaixo, segue a tabela do MS com dados sobre a distribuição de médicos em diversos países latino-americanos à esquerda e americanos e europeus à direita, finalizando com os dados de Cuba.

tabela mais medicos

Diversos países têm buscado estratégias para ampliar a cobertura da atenção básica em áreas vulneráveis, atraindo profissionais de saúde para estas regiões, como:

  • Políticas de regulação, tais como serviço obrigatório;
  • Incentivos monetários, tais como bolsas de estudo;
  • Incentivos não monetários, como extensão de visto de permanência para estrangeiros ²

    No Brasil, iniciativas foram tomadas para suprir a falta de médicos nos territórios de maior vulnerabilidade. Algumas dessas iniciativas foram os programas de interiorização, visando levar atendimento médico ao interior, (foram três programas de interiorização desenvolvidos, de 1976 a 2011) e o Programa de Valorização dos Profissionais da Atenção Básica (PROVAB). Com a experiência de cada programa, foi-se desenhando a complexidade da questão da redistribuição profissional no país. Assim, foi observado que as medidas deveriam expandir a questão do contrato de médicos e considerar aspectos como formação profissional e processo de trabalho. Ainda dentro do PROVAB, em 2013, a contratação dos médicos passou a ser feita pela esfera federal, o valor da bolsa aumentou e foi ofertado um percentual adicional na nota da prova de residência médica aos participantes do programa.

    Em outubro do mesmo ano, foi instituída a Lei 12.871/2013, do Programa Mais Médicos. O mesmo possui três eixos de ação:

  • Infraestrutura: investimento nas redes de atenção à saúde, prioritariamente na atenção básica à saúde;
  • Educação: ampliação e reformas educacionais dos cursos de graduação em medicina e residência médica;
  • Projeto Mais Médicos para o Brasil: fornecimento de médicos em áreas vulneráveis. ²

O processo de instituir os profissionais no Brasil passou por uma série de questões técnicas. O médico deveria passar por quatro semanas de treinamento intensivo realizado pelas universidades brasileiras (linguagem clínica, protocolos assistenciais e SUS). Após isso, o médico recebe o Registro Único do Ministério da Saúde para atuar por um período restrito de tempo, por contrato, de no máximo três anos. Com possibilidade de prorrogação por até mais 3 anos. A prioridade de adesão foi dada aos médicos brasileiros, que preencheram 45% das vagas.Em relação à parceria com a Educação, as Universidades Brasileiras garantiam a supervisão dos participantes e o processos de educação permanente dentro do Programa, fazendo muita diferença na organização do cotidiano de trabalho.

Cabe ressaltar que o chamamento internacional alinhado aos aspectos educacionais proporcionam uma construção de processo de trabalho que valoriza a atenção básica. Isto é, tanto a entrada de profissionais de outros países, com uma formação anterior voltada para saúde pública, quanto a proposta do Programa Mais Médicos de fortalecer a educação médica no Brasil são marcadores de propostas de enfrentamento à iniquidade e fortalecimento da integralidade e princípios e diretrizes do SUS.

Os objetivos de implementar e viabilizar esse Programa são, além de ampliar o acesso, montar um acompanhamento com qualidade. Nesse sentido, a medicina cubana é favorável, pois é especialista em saúde pública e atenção básica.

O processo de formação em Medicina de Cuba é pautado na valorização da saúde pública. A taxa de mortalidade no país é de 4,6 a cada mil crianças nascidas, e a expectativa de vida é de 77,9 anos (dados de janeiro de 2013). No Brasil, a taxa de mortalidade é de 15,6 para mil bebês nascidos, de acordo com o IBGE/2010. Esse dado é representativo para um diagnóstico de saúde local.

Em 2014, estimava-se que Cuba dispunha de cerca de 38 mil profissionais de saúde ligados à política de acordos de cooperação internacional com mais de 60 países (em casos humanitários ou de desastres, o envio é voluntário). Para Cuba, a Medicina não é curativa necessariamente, ela faz uma escuta à demanda do paciente e traça junto com ele os caminhos possíveis.

Em um estudo realizado pela Universidade de Brasília, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal, ³ que analisou os resultados da implementação do Programa, foi observado que:

  • houve redução de internações hospitalares em mais de 50% de municípios com escassez de profissional;
  • 91,2% dos municípios na região Norte foram atendidos ( média de 4,9 médicos por município);
  • aumento de 33% no número de consultas realizadas nas cidades atendidas;
  • aumento de 32% de visitas domiciliares realizadas nas cidades atendidas;
  • 57% dos pacientes não tiveram dificuldade em compreender os médicos estrangeiros;
  • 521 mil internações foram evitadas, economizando um terço do planejamento financeiro anual em 2015.

Nas análises qualitativas³, constatou-se que houve alto grau de satisfação nas dimensões “tempo de espera para agendar a consulta” e “atendimento durante a consulta”. Os pacientes relataram que foram ouvidos, as informações foram trocadas de modo simples e que foram compreendidas e que a privacidade foi respeitada. Em relação aos gestores, foi apontado no estudo que eles observaram melhora na integração do médico com as equipes, ampliação da capacidade de diagnóstico de território e maior rapidez para acontecer o atendimento, além do acompanhamento contínuo.

Considerando os resultados apresentados, é possível identificar que o Programa Mais Médicos cumpriu com boa parte de seus objetivos nos anos apresentados.  O diferencial estratégico do Programa, que possibilitou esse tipo de resultado apresentado, além da articulação intrínseca com a Educação, foi a realização de chamamento internacional de profissionais. Em um período menor do que um ano de Programa, 3.785 municípios foram contemplados com 14.462 médicos e 49 países participaram do programa. Das 18.240 vagas, 8.332 são cubanos, 4.525 brasileiros formados no Brasil, outros 2.824 brasileiros que estudaram no exterior e 451 médicos intercambistas de outras nacionalidades. Cerca de 2 mil postos não foram preenchidos. Com Cuba, foi firmado um acordo de cooperação, com participação e validação da Organização Pan-Americana de Saúde.

A recente saída dos médicos cubanos do Programa Mais Médicos pode colocar em risco os resultados positivos apresentados. Das vagas disponibilizadas a brasileiros, poucas foram preenchidas. É necessário refletir sobre o papel da saúde pública no Brasil e os caminhos possíveis para que todas e todos possam ter acesso de qualidade ao cuidado em saúde.

Referências:

1- Princípios do SUS: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/08/24/o-sus-as-redes-de-atencao-e-o-direito-a-saude/

2- Oliveira, FP. et al. Mais médicos: um programa brasileiro em uma perspectiva internacional.  Interface 19 (54) Jul-Sep 2015 https://doi.org/10.1590/1807-57622014.1142

3- Santos. LMP. et al. Programa Mais Médicos: uma ação efetiva para reduzir iniquidades em saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 20(11):3547-3552, 2015.

4- Collar, JM. et al. Formulação e impacto do Programa Mais Médicos na atenção e cuidado em saúde: contribuições iniciais e análise comparativa. Saúde em Redes. 2015; 1 (2): 43-56.

5- BRASIL. Lei 12871. Ministério da Saúde. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12871.htm.

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Eu vou de Taxi… Aéreo (?!)

Nos últimos tempos ouvimos falar sobre carros autônomos com mais e mais frequência. Inclusive, temos uma publicação aqui no blog sobre eles. A principal proposta dos veículos autônomos é oferecer conforto e segurança aos passageiros, que podem aproveitar para trabalhar, descansar e relaxar enquanto atravessam cidades e seus engarrafamentos. Essa tecnologia, porém, não tem previsão de diminuir a quantidade de carros nas ruas ou o tempo de viagem. Para isso é necessário ir um passo além. E assim surgiram os “air taxis” (ou taxis aéreos), prometendo não só conforto para os passageiros, mas também a possibilidade de viajar maiores distâncias em um menor tempo.

O termo “taxi aéreo” já é utilizado há anos para descrever pequenas aeronaves que transportam poucos passageiros a destinos próximos (normalmente por valores altos, inacessíveis à maior parte da população). Neste texto vamos falar sobre os novos taxis aéreos, que são conceitos de aeronaves individuais, ou com capacidade para até cerca de 6 passageiros, e possam trafegar acima dos engarrafamentos das grandes cidades, mais ou menos como helicópteros. A proposta das empresas do ramo é simples: direto do seu celular você terá acesso a aplicativos como o do Uber, mas ao invés de solicitar um carro, você solicitará um taxi aéreo do ponto de partida mais próximo da sua localização. Estas empresas prometem preços acessíveis e comparáveis ao preço atual do Uber, e dizem que isto está bem próximo de ser realidade, com algumas planejando sistemas completamente operacionais até o ano de 2025 [1].

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Conceito de taxi aéreo apresentado pela empresa alemã Volocopter. Fonte

Alguns dos conceitos de aeronaves desenvolvidos recentemente até lembram helicópteros, mas a maioria parece mais com drones gigantes. O princípio de funcionamento destas aeronaves também se assemelha mais ao de drones, sendo quase ou totalmente elétrico. Também conhecidas como “eVTOL” (electric Vertical Take Off and Landing, decolagem e pouso vertical elétrico), estas aeronaves normalmente dependem de baterias para funcionar, e de tecnologias que viabilizem a decolagem e o pouso de maneira vertical, fazendo com que elas possam ser operadas de heliportos existentes ou de novos pontos a serem construídos, mas sem ocupar grandes áreas, não sendo necessários grandes investimentos em infraestrutura para futura operação. O plano atual da maioria destas empresas é começar com aeronaves com pilotos, mas para o futuro é previsto que elas sejam autônomas, não sendo necessário um piloto, e aumentando a capacidade de transporte em 1 pessoa.

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Taxi aéreo da empresa alemã Lilium durante o seu primeiro vôo. Assista ao vídeo aquiFonte

Assim como em veículos elétricos, um dos grandes desafios no desenvolvimento desta tecnologia é a capacidade das baterias que existem atualmente, que limitam bastante a distância que estas aeronaves podem percorrer com uma carga. Alguns dos conceitos que já foram desenvolvidos até o momento possuem autonomia de apenas cerca de 80 km [2], enquantos outros já prometem serem capazes de percorrer até 300 km por carga [1]. Cientistas da NASA recentemente realizaram um estudo comparando diversos conceitos de aeronaves para taxi aéreo, chegando a 3 conceitos iniciais: um de uso individual com propulsão elétrica, um para 6 passageiros com propulsão híbrida, e um para até 30 passageiros com propulsão turbo-elétrica. [3]

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Conceito de área de decolagem e pouso feito pela empresa alemã Lilium. Fonte

 

Apesar da maioria das empresas desenvolvendo estas tecnologias atualmente ter surgido nos últimos 5 anos, é bem possível que esse já seja um meio de transporte disponível nos próximos 5 a 10 anos. Entre as vantagens de utilizar este meio de transporte, além da facilidade e agilidade em viagens de curtas distâncias, existe a possibilidade de diminuir engarrafamentos em grandes cidades, e diminuir a emissão de gases poluentes, já que estes funcionam com energia elétrica. Você gostaria de poder se transportar em um taxi aéreo desses? Conte pra gente nos comentários!

Referências

[1] https://lilium.com/mission/

[2] https://www.dezeen.com/2018/02/02/airbus-self-piloted-vahana-air-taxi-takes-completes-first-test-flight/

[3] Johnson W, Silva C, Solis E, “Concept Vehicles for VTOL Air Taxi Operations,” presented at the AHS Technical Conference on Aeromechanics Design for Transformative Vertical Flight, San Francisco, CA, January 16-19, 2018. Disponível em: https://rotorcraft.arc.nasa.gov/Publications/files/Johnson_2018_TechMx.pdf