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Identificada nova bactéria intestinal e sua possível relação com a depressão

bacteria intestinalImagem: https://www.rheumatologyadvisor.com/home/topics/scleroderma/little-data-available-for-small-intestinal-bacterial-overgrowth-treatment-in-systemic-sclerosis/

Não é de hoje que as bactérias intestinais vêm revirando as informações no mundo da ciência e por consequência causando grande impacto em nossas vidas. Em outros posts aqui do blog falamos sobre a relação da microbiota com antibióticos, parasitas intestinais, cérebro, obesidade, fadiga crônica e até mesmo sobre depressão.  

No post passado sobre a depressão, relembramos que 95% da serotonina, um neurotransmissor responsável pelo bem-estar, é produzido no intestino e sua relação com a microbiota. O que é novidade é que uma pesquisa publicada na revista Nature Microbiology conseguiu isolar e identificar uma espécie de bactéria intestinal e relacioná-la com depressão.

A ideia do projeto começou com uma lista de potenciais alvos bacterianos que o NIH (National Institutes of Health – USA) publicou sugerindo que fossem isoladas do intestino humano por sua potencial importância no desenvolvimento de doenças.  

Muitas espécies de microorganismos da microbiota intestinal permanecem desconhecidas por existirem em baixa quantidade ou por sua incapacidade de sobreviver fora do corpo humano.

A bactéria KLE1738 está nesta lista por ter sido identificada em quase 20% do microbioma intestinal humano nos bancos de dados de sequenciamento microbiano, porém nunca havia sido cultivada.

O cultivo de espécies de bactérias e fungos fora do corpo humano é muito difícil, pois em laboratório não conseguimos reproduzir as mesmas condições ambientais para promover seu crescimento, porém após um extenso processo de triagem, os pesquisadores descobriram que o KLE1738 só crescia em condições laboratoriais na presença de Bacteroides fragilis, uma bactéria intestinal comum no microbioma humano.

Somente este dado nos mostra um novo parâmetro a ser pensado, que muitos microorganismos possuem seu papel biológico desconhecido porque não conseguimos mimetizar em laboratório as influências que outras bactérias vizinhas exercem para promover o crescimento ou redução de espécies que identificamos no microbioma humano.

Outros testes biológicos e purificações levaram ao isolamento de GABA (Ácido gama-aminobutírico) como um fator de crescimento produzido pela bactéria Bacteroides fragilis. Descobriram que o GABA produzido serviu como nutriente para o crescimento da KLE1738.

A capacidade da microbiota de produzir e/ou consumir GABA não havia sido amplamente descrita antes, e uma bactéria dependente do GABA nunca havia sido relatada.

Mas afinal o que é o GABA?

sinapseImagem:https://psicoativo.com/2017/01/sinapses-partes-funcoes-e-tipos-de-sinapses.html

O GABA é um neurotransmissor que atua inibindo o sistema nervoso central (SNC) e está diretamente relacionada com comportamento agressivo e impulsividade. Este neurotransmissor inibe ou reduz impulsos nervosos nos neurônios, levando o indivíduo a um estado de menor agitação cerebral, ou seja, a um estado de relaxamento tanto mental quanto muscular. Quando seus níveis estão baixos, estamos muito mais suscetíveis a ansiedade, angústia e estresse.

Logo, se as bactérias intestinais produzem esse neurotransmissor, um desequilíbrio na microbiota pode levar a baixa produção de GABA.

Pensando no papel do GABA e seus efeitos no SNC, os cientistas testaram a possível conexão entre Bacteroides sp. e depressão. Para isso, coletaram amostras de fezes e mediram a atividade cerebral por ressonância magnética de 23 indivíduos clinicamente diagnosticados com depressão. Os resultados mostraram que a baixa abundância de Bacteroides sp. estava associada à alta atividade de uma parte do cérebro que está ligada a depressão.

O próximo passo será fazer mais testes com humanos para explorar se o GABA microbiano pode atuar como um sinal do intestino para o cérebro.

Saiba mais sobre microbiota e cérebro nesse post: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/06/06/cerebro-e-intestino-parceria-inseparavel/

Referência

Philip Strandwitz et al, GABA-modulating bacteria of the human gut microbiota, Nature Microbiology (2018). DOI: 10.1038/s41564-018-0307-3

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Usando o cérebro para entender o próprio cérebro: um novo tipo de modelo teórico para descrever nossa atividade cerebral

Em 1952 os pesquisadores Alan Lloyd Hodgkin e Andrew Huxley (foto na Fig. 1) desenvolveram um modelo matemático baseado em circuitos elétricos com capacitores e resistores para  descrever os sinais elétricos medidos em um experimento eletrofisiológico no neurônio da lula. O objetivo do estudo era encontrar uma equação matemática que descrevesse da melhor maneira possível o comportamento do potencial elétrico dentro da célula nervosa ao longo do tempo. Na Fig. 1 podemos comparar um gráfico com a curva do potencial em função do tempo medida experimentalmente em um neurônio real e a curva obtida através das equações propostas por Hodgkin e Huxley. A semelhança entre as curvas teóricas e experimental permitem que usemos o modelo de Hodgkin e Huxley como um bom modelo para descrever o neurônio e garantiu que em 1963 eles recebessem o prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina por este trabalho.

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Figura 1: Esquerda: Os pesquisadores Hodgkin e Huxley medindo a atividade elétrica de neurônios no laboratório (imagem modificada deste site). Direita no topo: potencial de membrana da célula nervosa em função do tempo obtido através do experimento e abaixo curva similar obtida com o modelo teórico proposto por eles.

Diversos modelos em física biológica foram desenvolvidos seguindo uma receita parecida. Temos algumas medidas experimentais, gráficos que representam como certas grandezas variam no tempo, e procuramos uma equação matemática que descreva bem aquela curva. Em especial tentamos comparar cada parâmetro da equação com algum componente do mundo real. E com isso, é possível fazer predições teóricas que possam ser testadas experimentalmente. Por exemplo, na equação que descreve o modelo de Hodgkin e Huxley o potencial de membrana do neurônio depende de um somatório de correntes iônicas de sódio e potássio que atravessam a membrana celular. Então, podemos usar o modelo para fazer uma predição. Por exemplo, o que acontece se bloquearmos a entrada de sódio na célula? Se anularmos o termo da corrente de sódio na equação do modelo obteremos uma nova curva do potencial em função do tempo. Se agora refizermos o experimento, bloqueando a corrente sódio através do neurônio, podemos comparar se a curva experimental ainda se parece com a curva teórica. Em caso afirmativo, nosso modelo continua sendo considerado um bom modelo mesmo nessa nova condição (sem sódio) e podemos seguir fazendo novas previsões.
Desde os anos 50, diversos modelos biológicos foram desenvolvidos para descrever a atividade elétrica de neurônios de diversos tipos, sinapses, grupos de  neurônios, regiões corticais, tálamo, hipocampo, etc. Em particular, um tipo de modelo chamado neural mass (massa neural em tradução livre) usa poucas equações diferenciais para descrever a atividade oscilatória de regiões corticais formada por milhares de neurônios. Conectando várias dessas regiões é possível representar a atividade elétrica do cérebro como um todo. Na Fig. 2 podemos ver um exemplo de cérebro em que cada região está sendo representada por um nó da rede e está conectada a várias outras regiões.

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Figura 2: Representação do cérebro como uma rede complexa. Cada bolinha representa umaregiao e os links as conexões sinápticas entre estas regiões. Modificada das referências [1] e [2].

Recentemente, um estudo liderado pela pesquisadora alemã Petra Ritter* [1] deu um passo importante no desenvolvimento de um modelo matemático que busca descrever a atividade  cerebral como um todo. A grande novidade deste trabalho foi a inclusão de medidas experimentais como parte do modelo teórico (ver Fig. 3A). Pessoas saudáveis que se voluntariaram para participar nas pesquisas tiveram a atividade do seu cérebro gravada simultaneamente através de dois métodos bastante utilizado em neurociência: eletroencefalograma (EEG) e ressonância magnética funcional (fMRI). As curvas azuis e pretas na Fig. 3B mostram o sinal obtido com EEG (filtrado para uma certa componente de frequência) e com fMRI. Assim como no exemplo do neurônio, em que queríamos um modelo que reproduzisse a curva do potencial elétrico no tempo (ver Fig. 1), aqui queremos um modelo que reproduza a curva experimental preta. E de fato, o grupo mostrou que incluindo o dados de EEG como um dos termos do modelo chamado neural mass eles conseguem obter a curva vermelha: bastante similar a curva preta! Na Fig. 3C podemos ver que outros modelos (que não levam em conta o EEG) não reproduzem tão bem a curva experimental.

Esta nova abordagem abre inúmeras possibilidades para combinar dados experimentais com modelos teóricos na busca de entender melhor a atividade cerebral. No futuro, este tipo de modelo híbrido poderá ser útil, por exemplo, para predizer certas atividades que só poderiam ser medidas de maneira invasiva (através de cirurgias e implante de eletrodos intracranianos) utilizando apenas o EEG dos pacientes. Além disso, será possível fazer novas predições e testes sobre os mecanismos responsáveis por determinados tipos de atividades cerebrais. Com este método, também poderá ser possível caracterizar particularidades de cada indivíduo, o que pode vir a ser útil no tratamento de doenças em pacientes que são mais vulneráveis que a média.

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Figura 3: A) Sinal de EEG(esquerda) utilizado no modelo híbrido (centro) para predizer o sinal obtido com a ressonância magnética (direita). B) Série temporal com um exemplo do sinal de EEG (azul), sinal obtido com o fMRI (preto)  medido simultaneamente ao EEG e resultado obtido utilizando o modelos híbrido (vermelho) de neural mass e EEG. C) Comparando o fMRI experimental com o modelo híbrido e outros modelos.  Modificada da referência [1].

Referências

[1] Schirner, M., McIntosh, A. R., Jirsa, V., Deco, G., & Ritter, P. (2018). Inferring multi-scale neural mechanisms with brain network modelling. Elife, 7, e28927.

Nota da autora: essa revista (Elife) torna público o comentário dos revisores que recomendaram a publicação do artigo e a resposta dos autores. Vale a pena dar uma lida nos pontos levantados pelos especialistas da área e nas respostas dos autores!

[2] Deco, G., Kringelbach, M. L., Jirsa, V. K., & Ritter, P. (2017). The dynamics of resting fluctuations in the brain: metastability and its dynamical cortical core. Scientific reports, 7(1), 3095.

*Petra Ritter é médica, terminou o doutorado em 2004, é a pesquisadora chefe do grupo Berlin Neuroimaging Center e em 2007 recebeu o prêmio Unesco-L’Óreal para jovens cientistas e mães. Saiba mais sobre ela aqui ou aqui.

Para ler mais sobre o modelo de Hodgkin e Huxley, sobre EEG e fMRI é só clicar.

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Smart Cities: sobre o que precisamos refletir

Fonte: UNICAMP

Nos últimos tempos, assistimos a um aumento de notícias, palestra e trabalhos acadêmicos sobre o tema das “smart cities” que, acionadas em sua concepção mais básica – da utilização de tecnologias em prol de uma governança melhor para as cidades – parece desejável e mesmo necessária no que nos é vendido diariamente como um completo descontrole urbano nas cidades brasileiras.

No entanto, pensar sobre o tema exige ir um pouco mais a fundo na sua definição e nas suas possíveis implicações em nossas cidades.

Uma simples busca na wikipedia vai retornar o seguinte conceito para smart cities: são “projetos nos quais um determinado espaço urbano é palco de experiências de uso intensivo de tecnologias de comunicação e informações sensíveis ao contexto, de gestão urbana e ação social dirigidos por dados (Data-Driven Urbanism). Esses projetos agregam, portanto, três áreas principais: Internet das Coisas (objetos com capacidades infocomunicacionais avançadas), Big Data (processamento e análise de grandes quantidades de informação) e Governança Algorítmica (gestão e planejamento com base em ações construídas por algoritmos aplicados à vida urbana).

Ao mesmo tempo, instituições como a Fundação Getúlio Vargas – FGV – tratam do tema sob as seguintes bases: “o conceito de Smart City já se consolidou como assunto fundamental na discussão global sobre  o desenvolvimento sustentável e movimenta um mercado global de soluções tecnológicas, que é estimado a chegar em US$ 408 bilhões até 2020. Atualmente, cidades de países emergentes estão investindo bilhões de dólares em produtos e serviços inteligentes para sustentar o crescimento econômico e as demandas materiais da nova classe média.  Ao mesmo tempo, países desenvolvidos precisam aprimorar a infraestrutura urbana existente para permanecer competitivos.”

O texto da mencionada fundação nos leva ao que parece ser o ponto de reflexão mais importante sobre o tema no Brasil: de que forma o investimento de recursos, sabidamente escassos, em tecnologia que serve aos interesses das classes média e alta, bem como da competitividade interurbana, pode ajudar na redução do drástico cenário de desigualdade socioespacial que domina nossas cidades?

O planejamento urbano no Brasil passa por uma visão mercantilizada na qual os investimentos feitos em determinada área devem trazer lucro. Com isso, acabam se concentrando em áreas mais valorizadas, com maior potencial de exploração econômica, em um ciclo infinito de privilégio de certas áreas da cidade em detrimento de outras. O empresariamento da cidade, que se tornou princípio fundamental da administração pública urbana, se mostra como uma máquina de reprodução de privilégios e exclusões, aprofundando os abismos estruturais e simbólicos existentes entre as partes da cidade ocupadas pelas classes média e alta e aquelas ocupadas pelos pobres. O recorte não é apenas econômico, envolvendo verdadeiras fronteiras raciais e jurídicas, evidentes na atualidade a partir dos extermínios institucionalizados, verificados em áreas pobres em nome de um pretenso combate à criminalidade (assunto para outro texto!).

Em um cenário como o nosso, que se reproduz de diferentes formas nas cidades dos países  em desenvolvimento, cabe refletir sobre quem se beneficiaria dos artifícios tecnológicos das smart cities e em que medida eles de fato poderiam ser utilizados para um desenvolvimento integrativo da cidade, realizando o objetivo do alcance de cidades mais justas e solidárias, trazido pela Constituição Federal.

Não podemos esquecer que as cidades abrigam cada vez um percentual maior da humanidade, sendo o espaço por excelência para limitar ou empoderar os indivíduos na busca por seus direitos. Refletir sobre as propostas de políticas e modelos urbanos é condição essencial para nossa individualidade, mas também para o desenvolvimento de nossa sociedade como um todo. A partir dos cenários expostos acima, precisamos nos posicionar sobre que cidades queremos e sobre quais são os melhores meios de se chegar a elas.

As experiências realizadas até então parecem indicar que, antes de pensarmos em tornar nossas cidades mais inteligentes, temos que torná-las minimamente racionas e equilibradas, sob pena de criarmos um extraordinário robô com pés de barro, que não vai a lugar nenhum.

Referências

FGV. O que é uma cidade inteligente? Disponível em: https://fgvprojetos.fgv.br/noticias/o-que-e-uma-cidade-inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

WIKIPEDIA. Cidades inteligentes. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

VAINER, Carlos B. (2000), “Pátria, empresa e mercadoria: notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano”, In: Otília Arantes; Carlos Vainer & Ermínia Maricato, A cidade do pensamento único, Petrópolis, Vozes.

ARCHDAILY. Cidades fabricadas: o caso da primeira smart city do Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/888323/cidades-fabricadas-o-caso-da-primeira-smart-city-do-brasil. Acesso em 06 de abril de 2019.

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Tal pai, tal filho: como a ciência pode auxiliar na formação de hábitos alimentares

Ter e manter hábitos alimentares saudáveis constituem um dos principais desafios atuais em meio às facilidades do mundo moderno. Os comportamentos e as preferências alimentares individuais são determinadas na infância e têm implicações para o ganho de peso e a saúde ao longo da vida. O que as crianças comem é de grande importância; no entanto, o modo como os pais alimentam seus filhos influencia muito os tipos de alimentos que eles consomem e a quantidade de alimentos que comem na hora das refeições. A literatura científica sobre o assunto apoia a influência dos pais sobre a socialização e o desenvolvimento de comportamentos alimentares infantis, mas a ligação entre a comportamento/alimentação dos pais e das crianças com o ganho de peso na infância, bem como a melhor abordagem a ser utilizada não é clara.

Crianças brincam em escola na cidade de Nookat, no Quirguistão. Foto: OCHA/Eurasia Foundation of Central Asia, T. Jeanneret
A obesidade infantil é considerada uma epidemia mundial pela Organização das Nações Unidas (2).

Uma revisão publicada na revista Current Nutrition Reports em 2018 pelos pesquisadores Hughes & Papaioannou objetivou responder a essas questões e traçar recomendações para os profissionais de saúde e cuidadores, e assim promover um ambiente protetor contra a obesidade infantil (1), considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (2). Os autores reuniram vários estudos publicados a respeito dos hábitos alimentares das famílias e sua relação com o peso e identificaram diferentes tipos de relação pais/alimentação na literatura científica: 1) práticas de alimentação destinadas a fazer com que as crianças façam algo específico, como comer seus vegetais, 2) estilos de alimentação caracterizados por uma atitude mais geral dos pais sobre seus filhos quando socializam os comportamentos alimentares da família, e 3) estilos parentais gerais que englobam comportamentos parentais que influenciam o desenvolvimento geral das crianças. A partir daí, os autores estratificaram os tipos de abordagem e sintetizaram os resultados em três grupos:

1) Práticas de alimentação parental: referem-se às estratégias específicas adotadas para controlar o que as crianças consomem. Incluem restrições, pressão para comer certos tipos de alimentos e a monitorização (os pais estão cientes de quantos lanches e alimentos ricos em gordura são comidos pelas crianças). Os estudos analisados pelos autores mostraram que a restrição foi relacionada ao aumento da preferência da criança pelos alimentos “proibidos”, maior peso corporal, maior consumo na ausência de fome e maior desinibição emocional (comer em resposta a sugestões externas). Por outro lado, a prática de pressionar a criança a comer foi associada a menor peso em diversos estudos transversais. Desta forma, o impacto de como as práticas restritivas afetam o estado nutricional da criança ao longo do tempo permanece a ser esclarecida. Para iluminar essa questão, os autores concluem que a resposta à restrição parece ser diferente de acordo com o contexto, sendo importante considerar os fatores específicos da criança. Por exemplo, os pais que têm filhos com menores índices de massa corporal ou que são mais exigentes na hora de comer podem ter maior probabilidade de usar comportamentos de pressão na tentativa de garantir que a criança consuma alimentos suficientes. Sobre a monitorização, os resultados são inconsistentes, não ficando claro seu benefício. Os autores concluem que práticas parentais restritivas, tipicamente usadas mais cedo na vida de uma criança, podem evoluir para o uso de mais autonomia à medida que as crianças crescem e exercem mais controle sobre suas próprias escolhas alimentares.

2) Estilos de alimentação: referem-se à atitude geral e emocional que pais criam com o filho durante a refeição. Incluem a quantidade de controle que os pais exercem durante as refeições, e a sensibilidade, calor humano, e aceitação que os pais mostram em resposta às necessidades individuais da criança no contexto alimentar. Os estudos mostraram que o estilo de alimentação autoritário (caracterizado pelo controle dos pais mas centrado na criança por meio de demandas nutricionais razoáveis, bem como sensibilidade em relação às necessidades da criança) tem sido associado aos melhores resultados na saúde infantil. Os caminhos pelos quais essa associação surge podem ser a melhor qualidade dos alimentos servidos e consumidos, menor consumo de lanches energéticos e disponibilidade domiciliar de frutas e legumes. Por outro lado, as crianças de pais indulgentes (com falta de regras e limites – criança determina a ingestão alimentar) consomem alimentos com pior qualidade alimentar e exibem comportamentos alimentares problemáticos, além de apresentarem maior peso. Assim, tanto o alto quanto o baixo controle na alimentação é um fator de risco para a obesidade infantil.

3) Estilos parentais gerais: referem-se à atitude e abordagem que os pais empregam para criar seus filhos dentro da família e da sociedade. Os estilos parentais são medidos ao longo de duas dimensões: exigência e responsividade. Exigência na literatura parental geral é definida como a expectativa dos pais, a supervisão e os esforços disciplinares para promover o comportamento adequado ao desenvolvimento em crianças. A receptividade é definida como o grau em que os pais estimulam a individualidade, a autorregulação e a auto-afirmação por serem familiares, apoiadores e aceitarem as necessidades e demandas das crianças. Os pais são categorizados em um dos quatro estilos parentais gerais: 1) aqueles com estilo parental geral autoritário (alta exigência / alta responsividade) se envolvem com seus filhos, fazem demandas maduras, promovem autonomia apropriada e respeitam as diferenças individuais; 2) aqueles com estilo de parentalidade geral autoritário (alta exigência / baixa responsividade) usam comportamentos de poder assertivo com seus filhos e se envolvem em controles e demandas estritos; 3) aqueles com estilo parental geral indulgente (baixa exigência / alta capacidade de resposta) demonstram cordialidade e aceitação, no entanto, carecem de comportamentos adequados de monitoramento necessários para o desenvolvimento infantil; 4) aqueles com estilo parental geral não envolvido (baixa exigência / baixa responsividade) fazem poucas exigências aos seus filhos e mostram pouco envolvimento. A revisão apontou que a parentalidade autoritária está associada a resultados mais positivos para as crianças nos campos acadêmicos, socioemocional e de saúde. Pais com estilo mais autoritário têm crianças que consomem mais frutas e vegetais, menos gorduras e açúcares.

Com isso, os autores concluíram que os pais devem ser sensíveis às necessidades individuais de seu filho ao estabelecer limites no ambiente de alimentação, evitar restringir abertamente os alimentos ou pressionar as crianças a comer. Práticas que são proativas (que antecipem o comportamento da criança), e não reativas (em resposta ao comportamento da criança), maximizam os resultados positivos. Essas práticas benéficas podem ser adotadas por todas as pessoas em contato com as crianças, gerando assim um ambiente propício à alimentação saudável, ao peso saudável e aos comportamentos a serem estimulados durante toda a vida da criança.

Referências do texto e imagem:

  1. Hughes SO & Papaioannou MA. Maternal Predictors of Child Dietary Behaviors and Weight Status. Current Nutrition Reports, 2018.
  2. https://nacoesunidas.org/oms-lanca-novas-diretrizes-de-combate-a-obesidade-infantil-no-mundo/, acesso em 3 de abril de 2019.


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Você já ouviu falar sobre uma forma de violência conhecida como Psychological Gaslighting?

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/handcuffs-trouble-police-arrest-2102488/

Embora seja um termo de difícil tradução, ele se refere a um tipo de manipulação psicológica que faz com que a vítima questione suas percepções, levando até ao questionamento da própria sanidade, em casos mais graves. Esse termo é baseado no filme Gaslight (1994), no qual o personagem Gregory manipula sua esposa Paula, com o objetivo de hospitalizá-la e assim obter riqueza por meio da obtenção das joias da esposa. Sempre que Gregory vai ao sótão procurar as joias, as luzes (gaslight) dos outros cômodos da cama escurecem. Quando a esposa começa a perceber a mudança das luzes e conta para Gregory, ele desmente e diz que são coisas de sua imaginação. Isso vai se repetindo e Gregory leva a esposa a pensar que essa “falsa percepção” é um indicio de que ela está enlouquecendo.

Talvez vocês tenham visto esse termo ser utilizado em casos de violência contra a mulher, como quando o homem diz para a mulher que suas impressões (sempre ou quase sempre) estão incorretas, que ele tem boas intenções em tudo que faz, apesar de os resultados, muitas vezes, serem negativos para a esposa/parceira. E esse ciclo ir se repetindo até que a parceira se sente totalmente invalidada e pode até passar a duvidar de suas próprias percepções, sempre acreditando nas justificativas do parceiro. Entretanto, essa forma de violência pode ser vista em outros contextos. Isso foi o que os pesquisadores Heston Tobias e Ameil Joseph, da província de Ontário, no Canadá, descobriram.

Esses pesquisadores analisaram 27 notícias midiáticas publicadas em 2015 e 2016 sobre uma prática policial controversa, o “carding”. Outra palavra de difícil tradução, carding é o termo utilizado para descrever a prática de abordar pessoas nas ruas sem ter mandato ou denúncia e anotar informações dela em um cartão (card), como a raça, o gênero, idade, altura, e quaisquer outras informações pessoais que o policial achar relevante. Essas informações são depois transferidas para o banco de dados da polícia e ficam permanentemente armazenadas. Apesar de ser uma prática cujo objetivo declarado é proteger a comunidade, dados estatísticos mostram que em Hamilton, uma cidade de Ontário com altos índices de crimes de ódio contra pessoas negras, negros são desproporcionalmente mais abordados pela polícia do que cidadãos brancos (12% das pessoas abordadas são negras), embora sejam apenas 3,2% da população.

Esses pesquisadores estavam interessados em saber qual era o discurso da mídia local sobre a prática de “carding”, além de investigar a relação já estabelecida entre o carding e o chamado perfil racial (racial profiling), uma prática considerada racista, por se basear em comportamentos ou características observadas ou assumidas de um grupo racial/étnico. Os pesquisadores perceberam, ao analisar os dados, que os discursos midiáticos sobre o carding se assemelhavam à prática de psychological gaslighting.

Em primeiro lugar, essas notícias não definiam claramente o que é racismo, omitindo informações importantes que fazem parte dos argumentos de vários grupos que são contra a prática. Os autores afirmam que essa omissão pode ser vista como um apagamento do racismo institucional contra negros, indígenas e outros grupos marginalizados presente na polícia de Hamilton. Uma vez que parte dos argumentos contra a prática é baseado na existência do racismo institucional, histórico e atual, tais argumentos podem ser menos efetivos ou até questionados diante de leitores que estão alheios ao conhecimento sócio histórico das relações raciais no local.

Em segundo lugar, a definição dada pela polícia do que é a prática de carding não é clara e têm constantemente mudado: por exemplo, street checks (abordar pessoas nas ruas, porém sem armazenas dados sobre elas) e carding são vistos como coisas distintas, porém relacionadas. Há denúncias que ambas as práticas são, na verdade, violações da carta de direitos humanos (onde proíbe-se abordar pessoas ou deter pessoas sem razão, e discriminação baseada na raça), mas a falta de uma definição precisa impede que a polícia seja acusada de racismo institucional. Quando se pede por uma definição clara, há relatos de policiais dizendo abertamente que há múltiplas definições e que isso “vai depender de quem fizer a declaração”.

Quando a população descobriu que a raça era uma das características armazenadas nos cartões e começou a questionar a prática, o governo anunciou uma reunião para revisar os critérios, e foi estabelecido que a prática seria baseada em uma série de princípios (e.g., minimizar efeitos negativos para as pessoas abordadas, garantir que as abordagens tenham, como objetivo, um policiamento efetivo, garantir conformidade com a carta de direitos humanos, especialmente com relação a proteção contra detenções arbitrárias e a liberdade de discriminação baseada na raça e em outros marcadores sociais, e garantir conformidade com o Ato de Proteção da Privacidade). Entretanto, isso não modificou a prática, ou seja, pessoas marginalizadas continuaram a reclamar pelas abordagens indevidas, e o número de pessoas negras e indígenas abordadas continuou desproporcional, em comparação ao número de pessoas brancas abordadas.

Os argumentos a favor da prática de carding envolvem afirmar que essa prática é essencial para o trabalho da polícia, negando que qualquer pessoa inocente será afetada pela prática (ou seja, ignorou-se reclamações de diversas pessoas inocentes que são abordadas pela polícia diariamente, ao ponto de ficarem traumatizadas, e também se colocou a prática como algo acima da carta de direitos humanos). Além disso, a polícia nega a existência de racismo institucional, apesar dos dados mostrarem que os alvos da prática são desproporcionalmente pessoas negras, indígenas e pobres. Em outros momentos, a evidência de racismo institucional é colocada como um problema individual, de alguns poucos policiais e não uma questão estrutural, ao afirmar que a prática de carding nunca foi oficialmente implementada em um documento da organização.

A polícia também leva a entender que a prática é essencial e alega que, se descontinuada, pode afetar a segurança da comunidade. Ou seja, afirma-se que o desconforto de um grupo de pessoas é um preço justo a se pagar pela segurança da comunidade. Contudo, não há evidências de que a prática de carding é efetiva.

Por fim, a prática ocorre mais na região central da cidade, que é onde o número de pessoas negras, indígenas e LGBTs é superior ao da média da população. A polícia justifica a prática nestes locais dizendo que esta é uma das áreas de foco e reiterando que a prática é benéfica para a comunidade. Portanto, há uma tentativa de naturalizar os locais-alvo para a prática, que são justamente os locais onde grupos marginalizados vivem.

De acordo com Roberts e Andrews (2013, citado por Tobias e Joseph, 2018), o processo de gaslighint possui 5 componentes:

  • Perpetrador da violência;
  • Vítima;
  • Objeto da manipulação;
  • Consequências experienciadas pela vítima, como a invalidação
  • Recompensa para o perpetrador.

Nesse sentido, os perpetradores da violência seriam o serviço policial de Hamilton. As vítimas, pessoas negras e outros grupos marginalizados da cidade. O objeto da manipulação seria a prática de carding. As consequências negativas para as vítimas seriam abordagens injustificadas, possíveis abordagens com abuso de poder por parte dos policiais, possíveis sentimentos de ansiedade e medo diante de policiais, invalidação dos sentimentos negativos e das experiências traumáticas por quem foi abordado, possíveis detenções injustas, entre outros. A recompensa para os perpetradores seria a execução de uma prática nitidamente racista e que não tem evidência que é efetiva, o que possibilita manter tanto o racismo institucional, quando uma imagem positiva da polícia, que justifica a prática dizendo que é para o bem da população.

Por fim, é importante salientar que, apesar do gaslighting ser uma manipulação, os autores afirmam que nem sempre essa manipulação é algo planejado; muitas vezes o perpetrador não está conscientemente tentando fazer com que a vítima se sinta invalidada ou louca. Ou seja, esse ciclo pode começar como algo não-intencional, com o intuito de fugir da responsabilização por algo. Não é possível afirmar se a polícia de Hamilton usa estratégias como o uso de ambiguidade e da negação plausível (afirmar desconhecimento por abuso de poder por parte de policiais ou outra prática considerada criminosa ou indesejada) de maneira intencional ou não, mas independentemente da intencionalidade, as consequências negativas para a população afetada pela prática são sérias e debilitantes, o que seria motivo suficiente para revisar as técnicas utilizadas.

Quer saber mais?

Tobias, H., & Joseph, A. (2018). Sustaining systemic racism through psychological gaslighting: Denials of racial profiling and justifications of carding by police utilizing local news media. Race and Justice, 1-32. Online First Publication. doi: 10.1177/2153368718760969

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Será que estamos de fato sozinhos? Parasitos e os efeitos da microbiota intestinal no corpo humano

O termo microbiota descreve um conjunto de microrganismos que habitam um determinado ecossistema, e a microbiota intestinal é composta por todos aqueles microrganismos que ocorrem no sistema gastrointestinal que coevoluíram com a espécie humana, sendo essencial para a sua saúde. A microbiota é adquirida através da mãe, durante o parto, amamentação, e também após este período durante a introdução a alimentos diversos.

A microbiota intestinal possui diversos papéis que determinam a fisiologia do hospedeiro. Por exemplo são responsáveis pela maturação do sistema imunológico, resposta intestinal a lesões no epitélio celular, e também pelo metabolismo energético. Múltiplos fatores afetam a sua diversidade, como o sexo, idade, fatores genéticos, dieta e histórico de infecções (quem diria que esses seres microscópicos teriam um papel tão importante?).

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Imagem retirada de CC0 Public Domain

Os mamíferos possuem um genoma extenso relacionado aos microrganismos que se localizam no intestino. O metabolismo da microbiota intestinal já foi diretamente  relacionado a patogêneses como obesidade, doenças circulatórias e          inflamações no sistema gastrointestinal. E quais são os principais microrganismos que habitam nossa flora intestinal? Existem 4 filos principais de bactérias no intestino dos mamíferos: Firmicutes; Bacteroidetes; Actinobacterias; Proteobacterias.

A microbiota extrai a energia necessária através da comida ingerida, acumulação de lipídios, e síntese de vitaminas, assim como outras atividades metabólicas. A desregulação destes processos pode resultar em doenças de nível metabólico, já que estes microrganismos têm a habilidade de quebrar componentes que não capazes de serem digeridos, aumentando a absorção de energia. Estas doenças, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares são um problema de saúde pública, e o entendimento sobre a ligação entre estas doenças e a microbiota é absolutamente necessário. Porém, não são só os componentes de dieta, o sistema imunológico e genético que podem vir a alterar a microbiota intestinal. Diversos estudos têm demonstrado que parasitos podem alterar a microbiota do nicho em que eles habitam, levando a inflamação e alterações metabólicas.

 

Os vermes e a microbiota

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Necator americanus. Fonte: David Scharf / Science Source

 

Mais ou menos um quarto da população humana está infectada por helmintos (sabe a lombriga? Pois é, ela mesma e outras espécies também). Os parasitos de humanos mais comuns são os geohelmintos (que passam parte do ciclo de vida no solo), como a lombriga (Ascaris lumbricoides), Necator americanus, verme que causa a ancilostomíase, e Trichuris trichiura  que causa a tricuríase. Estes endoparasitos comumente residem no aparelho intestinal.

É sabido que os helmintos secretam (cruzes!) uma variedade de produtos que podem alterar o nicho ambiental que eles dividem com os outros microrganismos. A microbiota, em contrapartida, providencia uma barreira robusta contra a colonização destes parasitos. Outros estudos também mostram que a imunidade é induzida e regulada através da microbiota intestinal e células do sistema imune do epitélio intestinal (clique aqui e aqui para ver outros textos sobre o assunto no blog!) . Estes estudos mostram experimentalmente a capacidade de um parasito do camundongo, Trichuris muris, de alterar a colonização bacteriana e eventualmente proteger o intestino de camundongos de uma possível patologia causada por estas bactérias no intestino.

A infecção por helmintos pode afetar a microbiota, porém se estas alterações são benéficas ou não, aí depende dos fatores que estão relacionados a infecção: por exemplo a condição do hospedeiro e sua suscetibilidade, além da coinfecção com outros parasitos. Além disso, uma quantidade grande de vermes no intestino pode também alterar a suscetibilidade do hospedeiro a infecções secundárias.

Porém, estudos experimentais demonstraram que helmintos também podem impactar no metabolismo indiretamente, devido a alteração da microbiota por um longo período de tempo de infecção. Por exemplo, estudos epidemiológicos sugeriram que uma baixa diversidade bacteriana está diretamente relacionada à deposição de gordura e a inflamação à obesidade. A infecção por helmintos pode estar associada a diversidade bacteriana e, portanto, ter um efeito positivo e diminuir a obesidade.

Outras pesquisas conseguiram estabelecer um link entre aterosclerose, microbiota e helmintos. As bactérias comumente encontradas na cavidade oral têm sido encontradas nas placas ateroscleróticas e sua presença é relacionada a aumento da infiltração de leucócitos. Por sua vez, a infecção por helmintos tem uma correlação positiva com a proteção de doenças cardiovasculares, já que a ocorrência de helmintos pode diminuir os níveis de colesterol e a possibilidade de aterosclerose e consequentemente, doenças cardiovasculares. Os estudos mostram que a resposta do sistema imunológico também tem um papel importante assim como os antígenos secretados pelos helmintos.

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Créditos da imagem: http://saude.culturamix.com

Entretanto, ainda assim são necessários mais estudos já que outras pesquisas relacionadas a microbiota e obesidade em camundongos demonstraram que a dieta também tem um papel importante. Nestes estudos camundongos magros colonizados por uma microbiota de indivíduos obesos começaram a apresentar um aumento no tecido adiposo e na gordura total do corpo.  

As doenças metabólicas têm sido um problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Muitas variáveis afetam as interações e associações entre a microbiota, o hospedeiro e os parasitos. Ainda, nem todos os parasitos atuam da mesma forma, e pouco se sabe sobre as secreções e sua influência na microbiota. Investigações ainda estão em andamento relacionados a doenças metabólicas e suscetibilidade genética, status imunológico e dieta. Porém, não podemos descartar o entendimento sobre mudanças na microbiota causadas por parasitos.                     

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Créditos: facebook.com/ minhalombriga

 

Será que é tão ruim ter uma lombriguinha na barriga?

 

 

 

 

Referências:

  1. Bhattacharjee, S., Kalbfuss, N., & Prazeres da Costa, C. (2017). Parasites, microbiota and metabolic disease. Parasite immunology, 39(5), e12390.
  2. Kinross, J. M., Darzi, A. W., & Nicholson, J. K. (2011). Gut microbiome-host interactions in health and disease. Genome medicine, 3(3), 14.
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Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

foto blog

Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).