0

Meninas, trabalho doméstico e escola

O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, realizou um levantamento estatístico com 174.468 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ocupados no serviço doméstico no país. Nessa pesquisa mostrou-se que o trabalho infantil dentro de residências é, em geral, reservado às meninas, 94,2% das crianças. Entre elas, 73,4% são negras e 83%, além de trabalharem na casa de terceiros, realizam afazeres domésticos em sua própria casa. [1]

As consequências do trabalho infantil doméstico são tanto físicas quanto emocionais: elas podem desenvolver lesões por esforço repetitivo, severas alergias por exposição a produtos químicos, risco de acidentes e mordidas de animais. Há também o risco de assédio sexual por parte dos patrões ou homens que habitem o local de trabalho. [1]

Os serviços domésticos estão na vida de todas as meninas. É na idade do brincar que ocorre uma separação dos papéis entre homens e mulheres. As meninas tem contato com miniaturas de eletrodomésticos, bonecas, mini vassouras para limpar. Aos meninos, o quintal e as ruas, os joelhos sujos de terra, carrinhos e ferramentas. [1]

Em pesquisa realizada pela Plan em 2013, retratou a divisão de tarefas domésticas em suas casas entre as meninas e meninos, evidenciando a discrepância entre a quantidade de tempo dedicado para tarefas entre os dois gêneros. A figura 1 mostra um pouco dessas diferenças. O tempo gasto para tarefas domésticas é retirado de tempo de estudo e lazer dessas meninas, o que pode prejudicar seu desenvolvimento educacional. [2]

Em um trabalho desenvolvido na USP em 2011, mostrou-se que as meninas que têm essa rotina de trabalho doméstico acaba por ver a escola como um ambiente mais agradável, tratando os estudos como lazer já que o tempo de lazer lhes foi retirado pelas obrigações domésticas. Porém, segundo o FNPETI, trabalhando em jornadas tão longas, as meninas não conseguem dar continuidade aos estudos, começando um histórico de reprovações que culmina no abandono da escola antes mesmo do término do ensino fundamental.[3] [4]

plan

Figura 1: Distribuição de tarefas entre meninos e meninas nas casas brasileiras. Fonte: Plan 2013.

No trabalho realizado pela professora Ana Lúcia Kassouf, do departamento de Economia, Administração e Sociologia, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), e seus alunos do programa de doutorado em Economia Aplicada Marcos Garcias, Ida Bojicic Ono e Camila Rossi, integraram ao projeto PEP (Partnership for Economic Policy), os resultados analisados mostraram que o trabalho infantil, dentro ou fora de casa, atrapalha e diminui o desempenho das crianças na escola. “Nossas conclusões indicam que o trabalho doméstico, que muitas vezes não é contabilizado nas estatísticas sociais e não é considerado perigoso, deve ser incluído nas políticas de governo destinadas a combater o trabalho infantil”, ressaltou Ana. [3]

Na análise, monitorando diversos fatores relacionados às crianças, família e escola, ainda notamos que as crianças que trabalham, seja no domicílio ou no mercado, apresentam menor rendimento escolar, pois estão mais cansadas e sobrecarregadas”, ressaltou a professora. [3]

Nos EUA há um cenário parecido, numa pesquisa realizada pela Universidade de Maryland entre adolescentes de 15 a 19 anos, mostrou-se que os meninos gastam em média 30 minutos ao dia em tarefas domésticas enquanto as meninas cerca de 45 minutos. [6]

No passar dos anos o cenário não melhora para essas meninas, uma vez casadas, a responsabilidade do cuidado da casa será quase que exclusivamente delas. O IBGE em 2016 constatou que as mulheres dedicam, em média, 20,9 horas semanais aos cuidados com o lar, enquanto os homens dedicavam 11,1 horas semanais.[5]

Além das tarefas domésticas o levantamento do IBGE mostrou que cerca de 25% da população em idade de trabalhar cuidou de outras pessoas em 2016. O percentual de mulheres (32,4%) que se dedicavam a cuidar de pessoas foi superior ao dos homens (21%). [5]

A pesquisa mostrou que 49,6% das pessoas que receberam cuidados tinham entre zero e 5 anos de idade e 48,1% tinham entre 6 e 14 anos. O cuidado de idosos correspondeu a apenas 9% dos casos. Ou seja, a responsabilidade pelos cuidados dos filhos ainda é majoritariamente da mulher. [5]

Na figura 2, podemos ver a distribuição atual das tarefas dentro das casas brasileiras divulgada pelo IBGE em 2017. [5]

afazeres-domesticos-v2

Figura 2: Distribuição das tarefas domésticas nos lares brasileiros Fonte: G1

Desde criança as meninas são submetidas a uma carga maior de responsabilidades dentro de casa além de serem estimuladas com brincadeiras dedicadas às tarefas domésticas, por mais que isso possa trazer certo benefício no desenvolvimento da organização, outros fatores do desenvolvimento podem ser afetados. Com uma sobrecarga de tarefas, essas meninas podem não se dedicar tanto às atividades de lazer e escolar quanto deveriam. Durante toda sua vida serão cobradas nos quesitos de eficiência tanto ou mais quantos os homens no mercado de trabalho, mas estão acumulando duplas e triplas jornadas de trabalho. O quanto essa divisão injusta dos trabalhos domésticos pode estar atrapalhando o desenvolvimento intelectual dessas meninas e mulheres ao redor do mundo? Quanto a humanidade não poderia se beneficiar com mentes brilhantes que acabam presas dentro de casa a uma rotina de trabalhos domésticos?

O quadrinho “Era só pedir” (https://www.geledes.org.br/quadrinho-explica-por-que-as-mulheres-se-sentem-tao-cansadas/) traz o agravante de o quanto esses trabalhos domésticos são mais do que o ato, mas todo o esforço emocional que as mulheres carregam para manter um lar funcionando.

Referências:

[1] O perigo do trabalho infantil doméstico dentro e fora de casa. Cecília Garcia. Matéria feita em parceria com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) Atualizada às 10h30 do dia 27/04/2018.

[2] POR SER MENINA NO BRASIL: Crescendo entre Direitos e Violências. Pesquisa com meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do Brasil. Plan. 2013

[3] Trabalho infantil provoca significativas quedas no desempenho escolar . Ana Carolina Brunelli . Universidade de São Paulo. 2016

[4] Trabalho doméstico não prejudica meninas na escola. Ariane Alves. Ano: 46 – Edição No: 94 – Educação – Faculdade de Educação. 2013

[5] https://g1.globo.com/economia/noticia/mulheres-passam-o-dobro-do-tempo-dos-homens-com-tarefas-domesticas-aponta-ibge.ghtml

[6] A ʻGenerationally Perpetuatedʼ Pattern: Daughters Do More Chores. Claire Cain Miller. The New York Times. 2018

Anúncios
0

Quando o segundo sol chegar…

…ou um outro planeta presente no sistema solar

Se você estava vivo no Brasil nos últimos 15 anos, tenho certeza que você já ouviu a música Segundo Sol, composta por Nando Reis e imortalizada na voz da querida Cássia Eller (sempre viva em nossos corações). Esses dias eu estava ouvindo a explicação do próprio Nando sobre a letra dessa música e ele conta que uma amiga espiritualista acreditava na possibilidade de existir um segundo sol (que não seria necessariamente um sol, mas um astro) que teria uma influência na vida das pessoas quando estivesse próximo a orbita da Terra.

Para os mais céticos parece uma loucura. Mas essa teoria está totalmente incorreta? Nesse texto trato dos relatos históricos e aspectos científicos da descoberta de um outro planeta presente no sistema solar.

Nibiru

Nancy Lieder é uma moradora do estado de Wisconsin nos EUA que afirma que na sua infância foi contatada por entidades extraterrestres cinzentas chamadas Zetas, que implantaram um dispositivo de comunicação em seu cérebro e a informaram que um planeta chamado Nibiru, ou o “Planeta X”.

Nancy_Lieder_2

Nancy e seus amigos Zetas lá no painel do fundo

Segundo a descrição de Lieder, feita em 1995, o Planeta X teria cerca de quatro vezes o tamanho da Terra e estaria muito próximo da Terra no dia 27 de maio de 2003. Esse rolê todo faria com que a rotação terrestre ficasse completamente parada por cerca de 6 dias. Além disso, a aproximação de Nibiru iria desestabilizar os do pólos da Terra e gerar uma mudança de pólos, causada pela atração magnética entre o núcleo da Terra e do magnetismo que passa pelo planeta.

Eu, particularmente, acho essa história digna do Cabo Daciolo, não é mesmo? Com certeza a mudança dos polos da Terra é o que iria mudar eixo de tudo, virar o planeta de cabeça pra baixo (como se no universo tivesse parte de cima e parte de baixo) pra finalmente rolar a instalação da Ursal.

12218620

Olha aí o mapa de ponta cabeça claramente depois da inversão de polos de Nibiru

Mas Nancy não foi a única a acreditar na chegada de um planeta externo não, ouviu?

Em 2012, Rodney Gomes, um cientista do Observatório Nacional do Brasil, modelou as órbitas de 92 objetos do cinturão de Kuiper e descobriu que seis delas eram mais alongadas do que o esperado. Rodney concluiu que a explicação mais simples era a atração gravitacional de um planeta distante. Dois anos depois, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown também se depararam com a possibilidade de existência de outro planeta que faria parte do sistema solar (não é Plutão, ok?). Em 2016 eles publicaram o artigo “Evidence for a distant giant planet in the solar system” mostrando os cálculos que evidenciavam a existência do planeta, que seria realmente gigantesco.

Os cálculos orbitais sugeriram que, se existir, este planeta tem a massa cerca de nove vezes maior que a massa da Terra e sua órbita seria um caminho elíptico ao redor do Sol que dura cerca de 20 mil anos. A sua menor distância da Terra seria o equivalente a 200 vezes a distância Terra-Sol, ou 200 unidades astronômicas. Essa distância o colocaria muito além de Plutão, no reino dos corpos gelados conhecidos como o cinturão de Kuiper.

orbita

Em laranja, a órbita do Planeta 9

 Apesar das evidências a respeito da sua massa e da sua órbita, a localização do Planeta 9 ainda é desconhecida pois ele poderia estar em qualquer lugar de sua imensa orbita. No final do artigo os cientistas deixam claro que o propósito não era, de forma alguma, “perturbar” a ciência e sim mostrar as evidências encontradas em seus cálculos. Brown declarou: “Adoraria encontrá-lo, mas também ficaria feliz se outra pessoa o encontrasse. É por isso que estamos publicando este estudo. Esperamos que pessoas se inspirem e comecem a buscá-lo”.

                Na minha humilde opinião, se esse planeta vier, que venha logo.

o-padre-fabio-de-melo-esta-mais-cansado-que-a-luc-2-11515-1478717040-1_dblbig

Referências

  1. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Early dynamical evolution of the Solar System: Pinning down the initial conditions of the Nice model. The Astrophysical Journal, v. 716, n. 2, p. 1323, 2010.
  2. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Evidence for a distant giant planet in the solar system. The Astronomical Journal, v. 151, n. 2, p. 22, 2016.
  3. BRASSER, R. et al. An Oort cloud origin for the high-inclination, high-perihelion Centaurs. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, v. 420, n. 4, p. 3396-3402, 2012.
0

Vamos falar de política: por que somos #elenão?

43103402_1965589976840185_2460453641367060480_nO primeiro nome deste site já diz: somos cientistas (ou divulgadoras científicas). Somos muitas e somos plurais. Estamos pelo Brasil todo e até mesmo fora do Brasil, estudando ou trabalhando. O segundo nome diz respeito a um valor muito claro: somos feministas. Ser feminista, acima de tudo, como bem já disse a escritora e intelectual negra Chimamanda Ngozie Adichie, é acreditar na igualdade social e econômica entre homens e mulheres na sociedade. É também lutar por esses valores, estudá-los, escrever sobre eles, encorajá-los e praticá-los.

Se não tivéssemos que prestar atenção nas questões de gênero e de raça, no mundo e no Brasil, não veríamos que os premiados do Nobel são em sua maioria homens – 97% desde 1901 – e brancos. A diversidade e a representatividade não são a regra no universo acadêmico. Mas há pessoas lutando para que esses valores sejam.

Vamos retroceder alguns dias para cutucar uma ferida: em 30 de julho de 2018, o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro disse em entrevista no programa Roda Viva que não existe pesquisa científica no Brasil. No início de agosto, a hashtag #existepesquisanobr invadiu o Twitter e outras redes sociais, levando milhares de cientistas brasileiros a falar sobre seus projetos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Gente que trabalha e tenta contribuir para que a ciência brasileira avance em nosso país e a nível internacional. O que Bolsonaro disse simplesmente joga o trabalho de muitos profissionais no lixo e demonstra profundo desconhecimento sobre o que o Brasil produz, investe e estuda.

Em um apanhado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que consolidou as propostas de governo de cada candidato para ciência, tecnologia e inovação, vemos que Bolsonaro é o candidato do empreendedorismo, de simpatia pela iniciativa privada em conjunto com universidades, do investimento no ensino básico e na visão de ciência como sinônimo de “produto, negócios, riqueza e oportunidades”. Nada contra o empreendedorismo, a iniciativa privada e o investimento em educação básica. Mas ao focar de forma pesada no espírito empreendedor que as universidades deveriam ter e no produto que a ciência deveria gerar, ele não contempla o contexto social brasileiro.

Hoje, no Brasil, segundo o Censo IBGE de 2010, pouco mais de 12,6 milhões de brasileiros concluíram alguma graduação. Para aumentar esse número, as oportunidades precisam ser apresentadas, inclusive estímulos sociais, a exemplo das cotas para entrada em instituições públicas. Outro ponto: a ciência não é só pesquisa aplicada e produtos que geram riquezas. Há muita gente fazendo pesquisa básica e, no projeto de governo de Bolsonaro, esse item passa batido. Ele também propõe reduzir a quantidade de ministérios, mas não diz, por exemplo, onde encaixará ciência e educação. Bolsonaro, de fato, é uma incógnita.

Mas há pontos em que ele é claro e cristalino. Bolsonaro é abertamente a favor da tortura, da família tradicional que envolve apenas homem e mulher, já foi racista e sexista em muitos discursos e é admirador escancarado de uma das pessoas mais horripilantes da história da Ditadura no Brasil: o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Não adianta colar links para comprovar cada uma dessas coisas porque a verdade é que quem o defende sabe de seus valores e o apoia. Ele não tem vergonha de falar essas coisas. Ele é o que é. Mas nós não somos o que ele é. Quem é feminista nunca vai defender o que Bolsonaro defende.

Por isso, deixando bem claro os valores humanos que a gente quer ver em nosso país. Queremos candidatas e candidatos que apoiem a participação feminina em todos os setores da sociedade. Queremos ver nossas mulheres livres, sendo e exercendo o que elas desejam. Queremos respeito à população gay e trans e que essas pessoas possam andar nas ruas sem medo de serem agredidas. Queremos participação da sociedade na dívida histórica que temos com a população negra e indígena. Queremos entendimento sobre o que são os direitos humanos, além de candidatos que os apoiem. Queremos respeito à individualidade e diferença de cada ser humano. Esse mundo da tortura, do homem e da mulher branca acima de tudo, detentores do conhecimento e das boas educações, já marcou durante muito tempo a nossa história.

A história que queremos é bem diferente e não inclui retrocessos nos direitos humanos e sociais, tão pouco a apologia aberta pra que se cometa ainda mais violência no interior de nossa sociedade, tão débil de perspectiva de futuro. Nos colocamos contra qualquer forma de retrocesso, com avanço de uma ideologia neofascista encabeçada por Bolsonaro. As mulheres sempre estiveram à frente das lutas democráticas e da busca pelo bem comum; seguiremos firmes em nossos objetivos, até a vitória.

0

O que são lipossomas e como eles podem auxiliar no combate de doenças

Lipossomas são vesículas nanométricas (cerca de 100 nanômetros) constituídas de uma ou mais bicamadas fosfolipídicas (lipídios com uma cabeça polar- que tem afinidade com compostos aquosos e uma cauda apolar- Possuem afinidades com compostos lipídicos) orientadas concentricamente em torno de um compartimento aquoso.  Por possuírem características muito parecidas com a membrana celular são comumente utilizados como carreadores de fármacos, biomoléculas ou material genético (RNA e DNA).

Apesar de a indústria farmacêutica ter obtido ao longo dos anos sucesso na descoberta de novos fármacos e suas aplicações, principalmente fármacos que combate o câncer, muito dos medicamentos utilizados na terapia antitumoral podem possuir efeitos tóxicos, resultando na citotoxidade para as células normais. Isso se deve que parte das células cancerígenas têm características muito comuns com as células normais, das quais foram originadas. Deste modo, torna-se difícil encontrar um alvo único contra o qual os fármacos possam ser direcionados.

Uma estratégia é o uso de lipossomas como carreadores de fármacos. Os carreadores lipossômicos têm sido aceitos clinicamente no tratamento do câncer, visto que eles alteram a farmacocinética e biodistribuição do fármaco no organismo. Os lipossomas ainda podem ser modificados para atacar somente as células tumorais, uma estratégia é a da inserção de folatos. As células tumorais possuem mais receptores de folatos que as células “normais”, isso auxilia a direcionar os lipossomas apenas para as células de câncer. Tornando o tratamento mais efetivo e diminuindo o dano ao organismo.

 

Além disso, os lipossomas podem ser utilizados na indústria de alimentos, como carreadores de antioxidantes, um exemplo é o beta caroteno. O beta caroteno é um carotenoide rico em vitamina A, seu uso em alimentos é extremamente complicado, visto que ele é altamente sensível à luz e temperatura. Nesse caso, o lipossoma age como uma “barreira” que protege a vitamina evitando a sua degradação.

lipossoma

Representação gráfica da estrutura de um lipossoma com as suas biocamadas lipídica.Créditos: Jornal On-Line da Universidade de Évora (UELine).

Devido à sua versatilidade em incorporar tanto compostos hidrofílicos e lipofílicos, os lipossomas são potentes carreadores tanto na indústria farmacêutica como na indústria de alimentos. Aumentando assim a eficácia aos tratamentos e a biodisponibilidade de certas vitaminas.

Referências

VITOR, M.T et al. Cationic liposomes produced via ethanol injection method for dendritic cell therapy. Journal of liposome research 27 (4), 249-263 .2017.

MICHELON et al. Structural characterization of β-carotene-incorporated nanovesicles produced with non-purified phospholipids. Food Research International 79, 95-105 2016

LG de La Torre, SC de Pinho .Lipid matrices for nanoencapsulation in food: liposomes and lipid nanoparticles. Food nanoscience and nanotechnology, 99-143 .2015

0

Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

SP

Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good

0

A quantas anda a transição energética?

tran·si·ção |z|  (latim transitio, -oniss. f.

  1. Ato ou efeito de transitar.
  2. Passagem de um lugar, assunto, tom ou estado para outro.
  3. Trajeto.

Também chamada de transição ecológica e transição para economia de baixo carbono, a transição energética trata de uma mudança profunda na estrutura econômica, social e política no sentido de sair da dependência de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, enquanto se diversifica a matriz energética e se aumenta o uso de modos de produção de energia renováveis e limpos. A ideia geral é diminuir a emissão de gases de efeito estufa e diminuir a poluição atmosférica, ambos muito perigosos à vida no planeta.

E o que é energia limpa?

Toda geração de energia tem custos, que podem ser expressos em valores monetários, ou de uso de recursos naturais ou de emissão de gases de efeito estufa, entre outros. Alguns desses recursos naturais são renováveis, como o sol, o vento, as marés, a água dos rios, o calor da terra, a biomassa… outros são finitos, como é o caso dos combustíveis fósseis. O conceito de energia limpa só diz respeito a formas de produção que não lancem poluentes na atmosfera, não se trata de ausência de impacto ambiental.

Vale lembrar que, nessa área, essa noção de energia limpa é muito contestável. Esse estudo, publicado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), põe em dúvida a consideração de que a energia hidrelétrica seria limpa, mostrando que, além dos danos ambientais e humanos causados pelas construções das usinas, existe liberação de metano (CH4) quando a água represada nas barragens passa pelas turbinas e vertedouros. Já no caso da produção de energia fotovoltaica, que requer painéis que utilizam silício e outros materiais, esse estudo de 2016, publicado na Nature Communications, mostra que a dívida de carbono gerada na produção das placas desde 1975 até 2015 terminou de ser paga, no pior dos cenários, em 2018 – isso significa que a partir de agora a produção de energia solar fotovoltaica pelos painéis já instalados e pelos novos está no 0 a 0 em termos de produção de carbono.

Mesmo com muitas dúvidas, alguns estudos como esse aqui, publicado na Nature Energy em 2017, mostram que, apesar dos custos superiores, o uso de energia solar fotovoltaica e eólica ainda é mais benéfico do ponto de vista humano, principalmente pela economia de gastos de saúde pública ligados em geral a doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica.

Mas e a transição no mundo na prática?

Vamos por partes. Primeiro, onde se gasta energia: indústria, agricultura, transporte, edifícios e residências. Os gases de efeito estufa são gerados pela queima de combustível para, entre outros, gerar energia elétrica, mas também pela pecuária (a criação de animais gera sozinha 15% dos gases de efeito estufa liberados no planeta!), pelo uso de motores à combustão de derivados de petróleo tanto para transporte quanto para processos industriais e agrícolas, e pelo desmatamento das florestas, que naturalmente sequestram o carbono. No Brasil, a agropecuária e o desmatamento geram 55% dos gases de efeito estufa. Esse relatório de 2018 da Renewable Energy Policy Network aponta que a maior parte dos esforços até hoje tem se concentrado na emissão de gases do setor elétrico, mas outras áreas também são igualmente importantes, como a conservação das florestas, a isolação dos edifícios e o setor de transporte, por exemplo.

Segundo, quem são os principais atores da emissão dos gases de efeito estufa: o campeão do mundo é a China, seguida de perto pelos Estados Unidos. Depois da COP21, que aconteceu em Paris no fim de 2015, 175 países assinaram um acordo se comprometendo a realizar medidas com objetivo principal de limitar o aumento da temperatura global em até +2º C acima dos níveis pré-industriais, vários países começaram a agir. A própria China tem mostrado a ambição de se tornar um país “verde” nas próximas décadas, e junto com Europa e Estados Unidos, investiram quase 75% de todo o investimento global em energias renováveis, de acordo com o relatório citado no parágrafo anterior. No entanto, em termos de investimento por unidade do PIB, países como Ruanda ou Guiné-Bissau estão investindo tanto quanto ou mais que países considerados desenvolvidos. Infelizmente, a mudança não tem sido suficiente e, em 2018, constatou-se que houve um aumento global de 2,1% da demanda de energia e as emissões de CO2 relacionadas à geração de energia subiram 1,4% no ano anterior – o que significa que a velocidade da mudança ainda é muito lenta. E a emissão de gases de efeito estufa na China ainda aumentou 4% só no primeiro trimestre de 2018…

Na França, uma lei de “transição energética pelo crescimento verde” foi passada em 2015 e o equivalente do nosso Ministério do Meio Ambiente se chama Ministério da Transição ecológica e solidária. Apesar do nome bonito, o ministro Nicolas Hulot, importante figura da luta ecológica francesa e ministro mais conhecido do governo Macron, pediu demissão recentemente ao vivo num programa de rádio, principalmente por causa da rejeição da emenda que proibia o glifosato* e da redução pela metade do preço da licença de caça, além de dizer que a França não está fazendo o suficiente na luta contra as alterações climáticas. Um ponto positivo importante é a organização não lucrativa négaWatt, que vem publicando relatórios de cenários energéticos totalmente dependentes de fontes renováveis, excluindo, inclusive, o uso da energia nuclear, principal fonte atual de energia no território francês. O último relatório trata do horizonte temporal de 2017 a 2050, sugerindo o uso massivo de produção eólica em terra e mar, uso de biomassa e de redes de calor, junto com uma redução de 50% da demanda, dividida em redução real e aumento de eficiência. Entretanto, esses relatórios não têm sido adotados pelo governo.

Na Alemanha, após o desastre de Fukushima em 2011 foi lançado o plano Energiewende, um dos mais ambiciosos do mundo. Atualmente, no entanto, o entusiasmo é muito menor: apesar de um terço da energia do país ser efetivamente gerada por fontes renováveis, o preço da energia elétrica para pequenos consumidores mais que dobrou entre 2000 e 2013,  e o carvão natural continua sendo fonte importante de produção de eletricidade. E essa semana ativistas contrários à expansão de uma mina de carvão na floresta de Hambach, no estado na Renânia do Norte-Vestfália, foram retirados à força por mais de 3,5 mil policiais. Apesar de não parecer, para a União Europeia em geral, o segundo relatório sobre o estado da transição energética, de 2017, diz que as metas de emissão de gases estão sendo cumpridas… o que levanta a questão se essas metas são mais políticas de aparência do que de fato um compromisso em reverter as mudanças climáticas.

Na África, na maior parte dos países, os desafios passam por modernização, expansão e acesso à energia, uma vez que toda a produção de energia do continente africano, excluindo a África do Sul, equivale à da Argentina sozinha. Mesmo com as dificuldades, a boa notícia é que alguns países por lá estão desenvolvendo seus sistemas de energia e evitando aumentar a emissão de gases de efeito estufa no mundo ao mesmo tempo.

No Brasil, a página do Ministério do Meio Ambiente não explica muito sobre as iniciativas da nossa transição. Enquanto isso, as petroleiras e outras grandes corporações tomam a dianteira nos investimentos em energias renováveis. Mesmo em época de eleição, é raro ouvir outra coisa que não seja relativa à exploração de petróleo ou à própria Petrobras, apesar de alguns programas de governo proporem explicitamente planos de transição energética ou ecológica.

No geral as notícias não são boas: as nações que fazem parte do G20 ainda investem 4 vezes mais dinheiro público em combustíveis fósseis do que em energias renováveis, os EUA se retiraram do acordo de Paris… ainda há muito trabalho a fazer. Soluções existem e a transição efetiva passa, sobretudo, pela descentralização da produção de energia e a conscientização de pessoas e corporações sobre a importância do uso eficiente de recursos energéticos e, claro, sobre novos modelos de consumo. O motor da transição é a inovação e o investimento em novos usos de tecnologia existente, assim como uma mudança real não é possível sem compreender que consumir menos e melhor é mais interessante do que buscar novas maneiras de produzir mais energia. Afinal, energia mais limpa também é aquela que nem precisou ser gerada.

 

*Glifosato é um herbicida largamente utilizado no mundo, principalmente em grandes plantações, mas também em uso doméstico. Potencialmente cancerígena, foi essa substância que levou a Monsanto a ser condenada a pagar indenização milionária a um homem nos EUA, e ainda existem pelo menos mais 8 mil processos judiciais contra a empresa pela mesma razão.

Referências

“transição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/transi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 12-09-2018].

0

SAÚDE MENTAL E PREVENÇÃO AO SUICÍDIO

42087317_1826815304080285_1171734363306459136_n

“A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: ‘onde dói? e ‘como posso ajudá-lo?’”

Dr. Edwin Schneidman

O QUE É O SUICÍDIO?

     O suicídio é um grave problema de saúde pública. Sua complexidade exige atuação de diversas áreas de conhecimento, pois é determinado quase sempre por um conjunto de fatores, biológicos, psicológicos e sociais. O que sabemos é que o adoecimento mental existe, e ainda existem muitos tabus sobre essa temática que precisam ser superados, pois para a saúde mental a melhor opção é sempre falar.

O suicídio é um fenómeno complexo e multifacetado, fruto da interação de fatores de ordem filosófica, antropológica, psicológica, biológica e social. As estratégias de prevenção da ideação suicida, comportamentos autolesivos e atos suicidas (tentativas de suicídio e suicídio consumado) implicam interações e sinergias multissetoriais, multiculturais e multiprofissionais, onde a vertente da saúde deverá funcionar como o núcleo central no planejamento, organização, operacionalização e avaliação, mas nunca de forma isolada (PORTUGAL, 2013)

     Émile Durkheim, há mais de um século já analisava o suicídio como uma questão social, com razões muito mais complexa do que apenas questões psicológicas. Ele analisou que um ser humano está propenso a cometer atos suicidas dependendo dos vínculos sociais que ele estabelece. Ter poucos vínculos sociais, perder vínculos sociais, ou sofrer pressões excessivas desses vínculos são também compreendidos enquanto fatores que podem colaborar para a ocorrência de um suicídio. O grau em que as pessoas se sentem integradas na sociedade e em seu meio social são fatores sociais que podem ser terreno fértil ao suicídio . Ou seja, os diferentes contextos sociais afetam as taxas de suicídio. Logo a sociedade produz o comportamento suicida.

     A sociedade produz as condições para que o suicídio ocorra. Se o fortalecimento de vínculos sociais seria uma possibilidade de atuação para prevenção do suicídio, como fazê-lo sendo que vivemos em uma sociedade que quebra e rompe esses vínculos, que dissemina valores de concorrência, competitividade e individualismo?

DADOS SOBRE SUICÍDIO

     A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, ou seja, mais de 900 mil pessoas morrem por suicídio anualmente, com uma taxa de 10,7 mortes a cada 100 mil pessoas. O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos (OMS, 2017).

     No Brasil a média é de 11 mil óbitos por suicídio anualmente, sendo o suicídio a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Nesta mesma faixa etária, o suicídio entre os homens é a terceira maior causa de mortes entre os homens, e a oitava maior causa entre as mulheres é a oitava maior causa. A taxa é de 6,5 mortes por suicídio a cada 100 mil pessoas. E embora abaixo da média mundial, há uma significativa subnotificação dos casos, fazendo com que os dados atuais não correspondam totalmente a realidade, apesar de dar uma dimensão do problema (BRASIL, 2017) E isso ocorre por dois motivos. Primeiro, pela insuficiente capacidade dos sistemas de registro dos países de baixa e média renda. E, segundo, pelo estigma e criminalização, que levam as pessoas a manterem em segredo seus pensamentos suicidas e as famílias a esconderem quando ele de fato ocorre (PAHO, 2018).  

     Entre 2011 e 2016 foram notificadas 176.226 lesões autoprovocadas, das quais 27,4% (48.204) foram tentativas de suicídio. Destas tentativas 69% foram realizadas por mulheres, sendo que 58% foi por envenenamento e/ou intoxicação. Ou seja, no Brasil o envenenamento ou intoxicação são os principais meios utilizados na tentativa de suicídio, seguidos de tentativa por objeto perfuro-cortante (6,5%) e enforcamento (5,8%) (SINAN, 2016).

COMO PREVENIR?

     Os fatores de proteção são compreendidos enquanto fatores que reduzem o risco de suicídio e são considerados isoladores contra o suicídio. Os fatores de proteção incluem: Apoio da família, de amigos e de outros relacionamentos significativos; Crenças religiosas, culturais, e étnicas; Envolvimento na comunidade; Uma vida social satisfatória;  Integração social como, por exemplo, através do trabalho e do uso construtivo do tempo de lazer; Acesso a serviços e cuidados de saúde mental.

  Embora tais fatores de proteção não eliminem o risco de suicídio, podem contrabalançar o peso imposto por circunstâncias difíceis da vida. Os comportamentos suicidas são mais comuns em certas circunstâncias devido a fatores culturais, genéticos, psicossociais e ambientais.

      Os fatores de risco gerais incluem: Nível socioeconômico e nível de educação baixos; Perda de emprego;  Estresse social; Problemas com o funcionamento da família, relações sociais, e sistemas de apoio;  Trauma, tal como abuso físico e sexual; Perdas pessoais; Perturbações mentais tais como depressão, perturbações da personalidade, esquizofrenia, e abuso de álcool e de substâncias;  Sentimentos de baixa auto-estima ou de desesperança; Questões de orientação sexual (tais como homossexualidade); Comportamentos idiossincráticos (tais como estilo cognitivo e estrutura de personalidade); Pouco discernimento, falta de controle da impulsividade, e comportamentos auto-destrutivos; Poucas competências para enfrentar problemas; Doença física e dor crônica; Exposição ao suicídio de outras pessoas; Acesso a meios para conseguir fazer-se mal; Acontecimentos destrutivos e violentos (tais como guerra ou desastres catastróficos) (PORTUGAL, 2013).

     Portanto para pensar ações ou políticas públicas, programas e projetos, a questão do suicídio não pode ser compreendida apenas por uma área do conhecimento. O suicídio, tal como o adoecimento mental de forma geral, precisa ser compreendido enquanto uma questão biopsicossocial e, estruturado nacionalmente enquanto um plano nacional de prevenção ao suicídio, mas que exige atuação de todo SUS, das organizações da sociedade civil (ONGs, entidades filantrópicas) e setor privado enquanto complementar.

     O SETEMBRO AMARELO foi pensado enquanto ação específica para a prevenção do suicídio. Esse mês de alerta para os problemas de saúde mental é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no Brasil e no mundo e sobre suas formas de prevenção. A ação surgiu através do Centro de Valorização da Vida – CVV, do Conselho Federal de Medicina – CFM e da Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, sendo realizadas as primeiras ações em 2015 concentradas em Brasília.

     A saúde mental assim como a saúde em geral é um reflexo do contexto social em que vivemos e das relações sociais (vínculos afetivos) que construímos. Não é algo simples, demanda políticas públicas e intervenção multiprofissional de especialistas da saúde. Um ambiente saudável é uma sociedade sem desigualdade social, sem fome, sem violência, sem abusos (sexuais, físicos, psicológicos, financeiros), sem discriminação, sem autoritarismos, com educação e saúde de qualidade, emprego digno e moradia. Ou seja, o ambiente social possui uma importância nesse contexto, e para além disso, quem é acometido por algum transtorno psiquiátrico tem o direito de receber tratamento adequado. Nada vale a sua saúde mental, se for um trauma, um emprego ou um relacionamento que colabora para o seu adoecimento, PROCURE AJUDA.

ONDE PROCURAR AJUDA?

     A Política Nacional de Saúde Mental dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Com a reforma psiquiátrica na perspectiva da luta antimanicomial, os direitos dos usuários dos serviços precisam ser respeitados. Cuidar e tratar deve estar ligado à inclusão, pois a repressão não é a solução e privar uma pessoa do convívio social é puni-la e de certa forma dizer que ela não pertence à sociedade.

A Rede de Atenção Psicossocial – RAPS foi instituída para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS (BRASIL, 2011). Essa rede é atualmente constituída pelas seguintes componentes, conforme o art. 5º da portaria:

I – atenção básica em saúde, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Unidade Básica de Saúde;
  2. b) equipe de atenção básica para populações específicas:
  3. Equipe de Consultório na Rua;
  4. Equipe de apoio aos serviços do componente Atenção Residencial de Caráter Transitório;
  5. c) Centros de Convivência;

II – atenção psicossocial especializada, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Centros de Atenção Psicossocial, nas suas diferentes modalidades;

III – atenção de urgência e emergência, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) SAMU 192;
  2. b) Sala de Estabilização;
  3. c) UPA 24 horas;
  4. d) portas hospitalares de atenção à urgência/pronto socorro;
  5. e) Unidades Básicas de Saúde, entre outros;

IV – atenção residencial de caráter transitório, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) Unidade de Recolhimento;
  2. b) Serviços de Atenção em Regime Residencial;

V – atenção hospitalar, formada pelos seguintes pontos de atenção:

  1. a) enfermaria especializada em Hospital Geral;
  2. b) serviço Hospitalar de Referência para Atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas;

VI – estratégias de desinstitucionalização, formada pelo seguinte ponto de atenção:

  1. a) Serviços Residenciais Terapêuticos; e

VII – reabilitação psicossocial.

     É possível procurar ainda o CVV – Centro de Valorização da Vida que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Acesse o site www.cvv.org.br ou ligue 188. Portanto é possível procurar ajuda através do CVV, Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades de Pronto Atendimentos (UPA).

 

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. : il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). CAB 34 Saúde Mental, 2013.

______. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção  do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil : 2017 a 2020 [recurso eletrônico] / Ministério da Sáude, Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2017. 34 p. : il. Disponível em <https://www.neca.org.br/wp-content/uploads/cartilha_agenda-estrategica-publicada.pdf&gt;. Acesso em 22/08/2018.

______. Ministério da Saúde lança Agenda Estratégica de Prevenção do Suicídio. Disponível em:  <https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Boletim _suicidio_MS_set17.pdf> . Acesso em 22/08/2018.

______. Ministério da Saúde Suicídio. Saber, agir e prevenir. Disponível em:  

<https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/09/folheto-jornalistas.pdf >. Acesso em 20/08/2018.

______. Ministério da Saúde. Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio. Prevenção do Suicídio Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Disponível em:  <https://www.cvv.org.br/wp-content/uploads/2017/05/manual_prevencao_suicidio_ profissionais_saude.pdf>. Acesso em 20/08/2018.

______. Portaria GM/MS nº204 de 2016.

______. Portaria nº2.466, de 11 de novembro de 2014.

______. Sistema de Informação sobre Mortalidade, 2017.

CVV. Falar é a melhor opção. Disponível em: <http://www.setembroamarelo.org.br&gt;. Acesso em 22/08/2018.

WHO (2014). Preventing suicide: a global imperative. World Health Organization, Geneva. http://www.who. int/mental_health/suicide-prevention/world_report_2014/en/.

WHO (2018). Suicide mortality rate. World Health Statistics data visualizations dashboard. http://apps.who.int/gho/data/node.sdg.3-4-viz-2?lang=en

PAHO. “Suicídio é grave problema de saúde pública e sua prevenção deve ser prioridade”, afirma OPAS/OMS. https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view= article&id=5674:suicidio-e-grave-problema-de-saude-publica-e-sua-prevencao-deve-ser-prioridade-afirma-opas-oms&Itemid=839

PORTUGAL. Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013/2017. Disponível em: < https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-nacional-de-prevencao-do-suicido-20132017-pdf.aspx >. Acesso em 20/08/2018.