0

O vírus do medo e a xenofobia

Desde as primeiras semanas desse ano, um medo vinha se alastrando pelo mundo sob o nome de coronavírus. Ainda não se sabe a causa [1] (e quem disser “sopa de morcego” provavelmente apenas se enganou por notícias falsas [2]), mas já impera o medo do vírus que se alastra antes mesmo de que apareçam sintomas [3], [4]. À medida que esses casos se acumulam – só no Brasil, já beiram os dois mil [5] -, precisamos dar um passo atrás para compreender melhor de onde viemos e para onde caminhamos.

No dia 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde oficializou que se trata de uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” segundo o Regulamento Sanitário Internacional (2007), um status conferido até então a apenas cinco epidemias [6],[7]. Acerca dessa mudança de postura, Deisy Ventura, docente na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), destacou aspectos tanto positivos, como o potencial aumento de “investimentos em pesquisa”, quanto negativos, tais como o “pânico” junto à população, pois, a seu ver:

“Todas as manchetes sobre o coronavírus que estão alarmando as populações mundo afora fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência. Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.” Deisy Ventura, USP [7]

Longe de mera “retórica”, a ênfase da professora quanto à importância da saúde pública para combater epidemias desse nível consiste em um consenso internacional. Segundo especialistas da OMS: “Em epidemias contagiosas graves, é necessário acompanhar os contatos dos pacientes registrados para assegurar a identificação de todos os casos e limitar a disseminação da doença” (Bonita et. al., 2010, p. 126). Impossível pensar que planos de saúde privados poderiam dar conta dessa totalidade de casos sem o auxílio dos Estados, inclusive em áreas como alimentação e fisco [8], [9].

Na contramão desse auxílio, porém, ainda se fala muito em “corte de gastos” [10], [11], por um lado, e se testemunha muita xenofobia, pelo outro. Segundo o New York Times: “Em países da Ásia, empresas chegam a postar cartazes dizendo que chineses não são bem-vindos e pessoas chegam a assinar petições para proibir a entrada de cidadãos do país em seus territórios” [12]. Em São Paulo, o vírus da xenofobia não poupa sequer os descendentes de asiáticos, como a jovem escritora Fernanda Yumi, que sofreu um ataque no seu local de trabalho na maior cidade do país [13].

O fato de a China estar fazendo a sua parte a um ritmo impressionante [14], sem negar apoio material [15] e humano [16] a diversos países, já começa a mostrar resultados [17]. Resta a residentes em outras partes do mundo cobrarem de seus governos investimentos em saúde, ciência e tecnologia se quiserem ter igual segurança de um tratamento eficaz e gratuito para esta ou qualquer outra emergência que possa vir a surgir no futuro.

Quanto a nós, não teremos dúvidas na hora de escolher entre cobrar os governantes ou transmitir o preconceito. Esperamos de nossos leitores apenas o mesmo bom senso.

Referências

[1] Mercado de frutos do mar em Wuhan não foi origem do coronavírus, dizem cientistas (28.01.2020)
[2] Sopa de morcego exemplifica a desinformação e xenofobia no caso coronavírus (04.02.2020)
[3] Com casos confirmados em 13 países, coronavírus é transmissível antes dos sintomas aparecerem (26.01.20)
[4] Maioria dos casos de Covid-19 pode vir de pacientes assintomáticos, sugere estudo (16.03.2020)
[5] Worldometer – Coronavirus (Brazil) (Acesso em 23.03.2020)
[6] Coronavírus: o que significa a OMS declarar emergência global de saúde pública (30.01.2020)
[7] Coronavírus: não existe segurança sem acesso universal à saúde (31.01.2020)
[8] Covid-19: Criada Rede de Emergência Alimentar para população mais carenciada (20.03.2020)
[9] Com coronavírus, Itália anuncia suspensão de impostos e outras medidas de alívio (11.03.2020)
[10] Capes recua e diz que não cortará bolsas de estudantes no exterior por causa de coronavírus (19.03.2020)
[11] Governo facilita reduzir jornada e salário de funcionários e permite antecipação de feriados (18.03.2020)
[12] Sentimento anti-China se espalha com a propagação do Coronavírus (31.01.2020)
[13] Mulher borrifa álcool em jovem: “Você é o coronavírus” (19.03.2020)
[14] China construirá segundo hospital para tratar pacientes com coronavírus (25.01.2020) 
[15] Niterói declara guerra contra o coronavírus e limpa a cidade com tecnologia chinesa (23.03.2020)
[16] China envia médicos especialistas para Itália por pandemia (17.03.2020)
[17] China zera transmissão local do novo coronavírus pela 1ª vez (18.03.2020)

Bibliografia

Bonita, R.; Beaglehole, R.; Kjellström, T. (2010). Epidemiologia Básica. Santos, 2a ed. IN: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43541/9788572888394_por.pdf;sequence=5

 

0

Dia Internacional da Mulher

Créditos da ilustração: Mariana Reis

Em 2020, o tema do Dia Internacional da Mulher é sobre igualdade de gênero com a campanha internacional #EachforEqual. Aqui no Brasil, a organização ONU Mulheres lançou a campanha “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”. Em especial, a comunidade global fez um balanço dos avanços alcançados nos direitos das mulheres desde a adoção da Plataforma de Ação de Pequim, que é um dos documentos reconhecidamente mais progressistas para o empoderamento de mulheres e meninas no mundo inteiro. Entretanto, os resultados deste balanço mostram que os progressos na direção da igualdade de gênero têm sido muito lentos, e pior, que os difíceis ganhos enfrentam ameaças

Apesar de alguns avanços na igualdade de gênero em muitos lugares do mundo, mulheres e meninas continuam sendo discriminadas e subvalorizadas: trabalhamos mais, ganhamos menos e temos menos opções. Continuamos sendo expostas a várias formas de violência em casa e em lugares públicos. 

Nas Ciências e áreas acadêmicas, continuamos sendo sub-representadas, especialmente em posições de liderança na pesquisa. Continuamos sofrendo os maiores impactos ao conciliar maternidade e família com produção e avanço na carreira. Continuamos sofrendo com machismo, estereótipos de gênero, transfobia, homofobia e discriminação racial

São muitos os problemas a serem enfrentados para se conseguir mudanças reais na direção da igualdade de gênero. Mas também há boas notícias, como o aumento da participação de mulheres na ciência brasileira; mulheres cientistas liderando pesquisas de grande impacto, como por exemplo, o sequenciamento do Coronavírus, os estudos da relação da microcefalia com o Zika vírus e busca por ondas gravitacionais. Além disso, duas cientistas apareceram pela primeira vez na lista Forbes de mulheres mais poderosas do Brasil. Para ler sobre mais cientistas brasileiras inspiradoras, veja o site Open Box.              

A luta por igualdade é diária. O 8 março é importante para lembrar que não estamos sozinhas e que a causa não está perdida. Muitas outras mulheres estão nessa luta e outras virão. Ter esse dia é importante para lembrar que somos muitas e lutamos para que as mulheres e meninas vivam em um mundo que lhes permita ser quem elas desejarem. Especialmente, como Cientistas Feministas, lutamos para que cada vez mais mulheres possam entrar e permanecer nas Ciências.

0

Você sabe o que é colorismo?

Estudo mostra as chances de um indivíduo ser preso a depender da cor de sua pele

yunming-wang-E_xgD0Lfr88-unsplash

Créditos da Imagem: Photo by Yunming Wang on Unsplash

O termo colorismo pode ser conceituado como as consequências sociais diferenciais entre indivíduos brancos e negros, de modo que, quanto mais próximo da pele branca com características eurocêntricas, melhores as consequências. Tais consequências vão desde as chances de estudar, conseguir emprego e obter bons salários, até a probabilidade de ser considerado bonito/desejado e de um indivíduo se casar. Assim, pessoas com pele mais clara possuem chances aumentadas de obter coisas positivas, como educação, emprego e bons salários, e chances menores de obter coisas negativas, como ser abordado por um policial, ser preso ou ser sentenciado a muitos anos de prisão. De modo inverso, quanto mais escura a pele de uma pessoa, maiores as chances de sofrer uma abordagem policial, da pessoa ser presa e sentenciada a muitos anos de prisão, enquanto suas chances de obter educação, saúde e emprego são menores (e.g., Dixon & Telles, 2017).

Um ponto importante quando se fala de colorismo é que tal concepção pode se sobrepor ao conceito de raça e racismo em alguns contextos e/ou em algumas culturas: por exemplo, na sociedade brasileira, onde se utiliza a cor da pele (além de outros traços fenotípicos, como a textura do cabelo e o formato do nariz e da boca) como o principal indicador da raça de um indivíduo, cor e raça são tidos como sinônimos em vários contextos. Em outras culturas, como a estadunidense, onde o principal critério para saber a raça de um indivíduo é a hereditariedade (embora estes outros traços fenotípicos também sejam utilizados em alguns contextos), cor e raça são mais distintos que similares (embora possa haver alguma sobreposição).

Ampliando a literatura sobre o tema, Amelia Branigan, Christopher Wildeman, Jeremy Freese e Catarina Kiefe publicaram um estudo na revista Social Science Research investigando as chances de homens brancos e negros estadunidenses serem presos utilizando um banco de dados para análise. Sendo a pesquisa realizada nos Estados Unidos, é importante ressaltar que, nessa cultura, o conceito de colorismo operando como um contínuo de consequências sociais diferenciais, é geralmente adotado para se referir às minorias (especialmente às pessoas negras), de modo que se assume que a diferença no tom da pele branca não estaria relacionada a essas consequências diferenciais.

Para realizar a análise, utilizou-se dados obtidos no estudo de coorte “Coronary Artery Risk Development in Young Adults” (CARDIA – em português, Risco de Desenvolvimento de Artéria Coronária em Jovens Adultos) de quatro cidades: Birmingham – Alabama, Chicago – Illnois, Minneapolis – Minnesota, Oakland – California. Foram analisados os dados sobre raça, sexo, idade e nível educacional dos respondentes. Na primeira aplicação do questionário (realizada entre 1985 e 1986), os respondentes diziam se tinham sido presos no ano anterior. Na segunda aplicação (1987-1988), a pergunta era repetida, porém sem a limitação temporal.

A medida da cor da pele dos respondentes foi obtida na quarta aplicação (1992-1993), utilizando um espectrofotômetro. Esse instrumento mede a refletância da pele, de modo que, quanto maior a refletância da pele, mais clara ela é (nesse sentido, quanto maior a refletância, a pessoa seria “mais branca” na nossa concepção). O local de aplicação do espectrofotômetro foi a parte interna do antebraço, local onde raramente se pega sol, de modo que, para os experimentadores, refletiria a cor “constitutiva” de cada participante. Uma vez que existe uma correlação entre nível socioeconômico e negritude, o estudo controlou o cargo ocupado pelos respondentes, o nível educacional obtido pelos pais dos respondentes e por eles mesmos, de modo que as diferenças encontradas foram devido a cor do respondente, e não seu nível socioeconômico. Os dados analisados foram de 888 homens brancos e 703 homens negros.

Em resumo, os resultados mostraram que o nível de refletância da pele está associado a probabilidade de ser preso somente para os homens brancos (p<0.01); independentemente da cor, os homens negros tinham a mesma probabilidade de serem presos (uma probabilidade, no entanto, bem mais alta que a dos homens brancos, é importante mencionar). Ao analisar a probabilidade de ser preso pelo percentil de refletância da pele, verificou-se que, entre os homens brancos cuja pele possuía refletância semelhante à do negro de pele mais clara, a probabilidade de prisão se assemelhava a das pessoas negras.

Esses resultados são importantes, uma vez que mostram 1) que o racismo atinge também pessoas brancas, mesmo em um país como os EUA, onde a raça é formalmente classificada mais por conta da hereditariedade do que por meios fenotípicos; 2) que, apesar dessa formulação, em decisões rápidas, como a de uma abordagem policial, os policiais estadunidenses se pautam mais nas características fenotípicas para realizar ou não uma abordagem e/ou prisão e 3) que um indivíduo negro, mesmo de pele clara, tem a mesma chance de ser preso do que um negro retinto. Achados de pesquisas anteriores, que mostraram que brancos com características afrocentradas têm maiores chances de serem presos e de terem maiores sentenças que indivíduos brancos com traços eurocêntricos apoiam tais resultados. Uma das limitações do estudo foi o fato que os dados analisados foram obtidos há 30 anos, duas décadas após a Lei dos Direitos Civis, que eliminou formalmente as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Apesar disso, tais dados são relevantes, uma vez que é nítido que o racismo é um fenômeno presente tanto nos EUA quanto no Brasil, como mostram as inúmeras notícias de agressões verbais e físicas a indivíduos negros/de pele escura quase que diariamente.

Quer saber mais? Leia o estudo na íntegra:

Branigan, A. R., Wildeman, C., Freese, J., & Kiefe, C. I. (2017). Complicating colorism: Race, skin color, and the likelihood of arrest. Socius: Sociological Research for a Dynamic World, 3, 1-17. doi: 10.1177/2378023117725611

Referência

Dixon, A. R., & Telles, E. E. (2017). Skin color and colorism: Global research, concepts, and measurement. Annual Review of Sociology, 43(1), 405–424. doi:10.1146/annurev-soc-060116-053315

1

O laboratório e o dia-a-dia – Parte III: Como cientistas estudam relações entre fenômenos?

Nos artigos anteriores sobre o método científico e os fenômenos do dia-a-dia, discutimos um pouco sobre a diferença de variáveis dependentes e independentes e sobre a importância da estatística para a ciência.

Também vimos que, tipicamente, cientistas estão lidando com muitas variáveis ao mesmo tempo e que estabelecer uma relação entre elas de forma rigorosa não costuma ser uma tarefa fácil.

Muitas vezes, entender as causas e consequências de determinado fenômeno exigem a análise de fatores que interferem tanto com as variáveis dependentes quanto com as independentes. Eles são chamados fatores de confusão.

Quanto mais longe das chamadas “hard sciences” nós estamos, mais complexos os fatores de confusão. Por exemplo, nas ciências sociais, pode-se observar padrões de comportamento em diferentes grupos, mas é impossível isolar todas variáveis ou “criar” uma sociedade independente de outras culturas para realizar observações experimentais. Na verdade, assumir que todas as variáveis são conhecidas já seria cometer um erro metodológico logo no começo.



Determinar fatores de confusão pode levar muitos anos de pesquisa em uma area, e o uso de diferentes abordagens. Imagem adaptada de: Annalise Batista

Na linguística, da mesma forma, para entender o desenvolvimento da fala e suas relações com a cultura, não se pode ensinar uma língua a um bebê de forma a isolá-lo da sociedade – e mesmo que este experimento imaginário não tivesse muitos problemas éticos, ainda assim teríamos um fator cultural proveniente dos próprios experimentadores.

Isso não quer dizer que não é possível estudar o fenômeno da aquisição de linguagem, apenas que a abordagem metodológica requer mais observação e análise do que manipulação experimental, ou ainda que a manipulação experimental é mais localizada e visa analisar como o fenômeno já acontece, no lugar de induzir o acontecimento do fenômeno.

Isso também acontece em algum nível nas ciências exatas. Na astronomia e na cosmologia por exemplo, não se está criando um buraco negro em laboratório para estudar como um buraco negro funciona. Mas observações indiretas sistemáticas levam a modelos capazes de compreender e prever fenômenos de forma reprodutível e confiável.

Cada área do conhecimento terá suas abordagens próprias e seus recortes do que será considerado propriedade e o que será considerado resultado. Áreas multidisciplinares carregam o desafio de cruzar as metodologias de áreas diferentes e encontrar conexões lógicas e que forneçam conclusões coerentes.

A epidemiologia, por exemplo, usa diversos modelos matemáticos e computacionais para estudar ciências da saúde, com o objetivo de compreender doenças do ponto de vista coletivo e promover sua prevenção.

Observar grandes quantidades de casos nos permite fazer perguntas interessantes, que não seriam possíveis se estivéssemos estudando doenças isoladamente ou como as doenças afetam um único organismo.

Por exemplo, ouvimos falar com frequência que exercícios físicos combatem a depressão. Mas como determinar se essa relação é de fato causal, ou seja, como saber se a prática de exercícios previne a depressão ou se pessoas não deprimidas tendem a se exercitar mais?


Exercícios físicos previnem a depressão ou a depressão aumenta o sedentarismo? Imagem: Mabel Amber

Ou ainda: como saber se a prática regular de exercícios associada a menores índices de depressão não é na verdade um indicador econômico de que determinados grupos, que têm acesso facilitado à prática de exercícios, tem também acesso a outras oportunidades de atividades que proporcionam maior bem estar?

Para abordar o problema dos fatores de confusão, e também o problema de determinar se a relação entre dois fatores observados é de causa ou de consequência, um dos métodos usados em epidemiologia chama-se Randomização Mendeliana. Aqui, o nome é inspirado em Mendel porque trata-se do uso de dados mensuráveis de variação genética numa determinada população, de forma a escolher apenas os genes com funções bem conhecidas. Assim, é possível entender melhor quais as relações causais de fato envolvidas entre dois fenômenos que parecem estar relacionados.

Um estudo recente publicado na JAMA Psychiatry estudou centenas de milhares de pessoas e seus respectivos níveis de atividade física – tanto os níveis relatados pelos participantes quanto medidas objetivas calculadas através do uso de acelerômetros – bem como variantes genéticas independentes que foram previamente associadas à prática de exercícios.

Os pesquisadores concluíram que, de fato, a prática regular de exercícios físicos (medida objetivamente) é um fator de proteção contra a depressão clínica. As medidas subjetivas – quantidade de exercícios que os participantes relataram verbalmente – não apresentou a mesma correlação.

Isso não quer dizer que as demais possíveis relações são todas inválidas (por exemplo, ainda é verdade que pessoas deprimidas têm mais dificuldade de encontrar motivação para se exercitarem). Mas é uma forma de atestar uma relação segura de causa-consequência.

Encontrar correlações precisas entre fenômenos não é uma tarefa trivial, e levanta mais perguntas. No caso do estudo acima, por exemplo, ainda resta muito a investigar sobre as relações profundas entre exercício físico e depressão, e sobre as causas da depressão em si, que já são sabidamente muitas.

Mas este trabalho é necessário e cumulativo, e nos traz cada vez mais perto de entender fenômenos complexos e como eles se relacionam ou não. Mais ainda: podemos desenvolver cada vez mais novas áreas interdisciplinares que vão trazer novas perguntas a serem respondidas.

Referências
Choi KW, Chen C, Stein MB, et al. Assessment of Bidirectional Relationships Between Physical Activity and Depression Among Adults: A 2-Sample Mendelian Randomization Study. JAMA Psychiatry. 2019;76(4):399–408. <https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2720689>

Popular Science – “Exercise really does seem to help with depression” <https://www.popsci.com/exercise-depression>

Wikipedia – Mendelian Randomization <https://en.wikipedia.org/wiki/Mendelian_randomization>

0

Expedição MOSAiC: seguindo os passos de um dos grandes.

Polarstern-Winterexperiment

O navio polar alemão Polarstern. Foto de Stefan Hendricks. 

Aos 28 anos, já não sofro mais de amores platônicos ou daqueles “crushs” sem explicação. Mais ainda há um indivíduo pelo qual nutro uma admiração nada tímida, o que minha mãe chamaria de “ter uma queda por”… Hoje falaremos desse homem: Fridtjof Nansen. E também das mudanças climáticas no Ártico. 

A primeira vez que ouvi falar de Nansen foi relacionado a um tipo de garrafa usada para amostragem de água no oceano, que possui um mecanismo de fechamento automático. Em 1894, Nansen criou um sistema em que um peso de latão chamado “mensageiro” era enviado por um cabo, permitindo que qualquer pessoa fechasse esta garrafa em qualquer profundidade desejada e revolucionando a maneira como investigamos o oceano. Um homem que dominou a arte de se comunicar com profundidade. 

GarrafaNansen

Esquema da Garrafa de Nansen, equipamento de amostragem oceanográfica. Imagem retirada do material da Universidade de Algarve, Portugal. 

Mais tarde, ainda na graduação, aprendi que Nansen foi o primeiro a notar que o oceano se move cerca de 45° para a direita (Hemisfério Norte) do vento predominante. Ele fez isso observando como seu barco flutuava com o gelo através do Oceano Ártico. Um homem que presta atenção aos detalhes.

Naquela época, mal sabia eu que essa deriva não era um passeio de barco comum pelo Ártico. Inspirado nos restos de um barco que afundou na Sibéria e foi descoberto na costa da Groenlândia três anos depois, Nansen projetou uma embarcação com casco arredondado e outras características para suportar a pressão do gelo na esperança de alcançar o pólo norte, o Fram. Apesar do desânimo de outros exploradores polares, Nansen levou o Fram às Novas Ilhas da Sibéria, no leste do Oceano Ártico, congelou-o em um bloco de gelo e iniciou sua expedição de três anos. Ele não alcançou o pólo, mas o Fram desviou-se para o oeste até emergir no Atlântico Norte e ele foi encontrado em Franz Josef Land após sua tentativa de chegar ao topo do mundo a pé. Todo mundo ama um homem interessado em uma aventura.

Fridtjof-Nansen-2

Nansen e o Fram. Imagem de Domínio Público.

A expedição de Nansen inspirou a expedição do MOSAiC, que tem o quebra-gelo alemão Polarstern, preso no gelo na tentativa de replicar o caminho do Fram. Enquanto ele deriva com o gelo, cientistas coletarão dados de pesquisa atmosférica, oceanográfica, biológica e biogeoquímica no caminho, criando um conjunto de dados sem precedentes para entender o sistema Ártico. Tive a chance de fazer parte da primeira etapa desta viagem e trabalhar na configuração inicial dos equipamentos, cruzando meu caminho com o de Nansen mais uma vez. Correndo o risco de ser maquiavélica, devo concordar que “um homem prudente sempre tentará seguir os passos de grandes homens”.

logistic_martin_kuesting-01

Passar um ano “preso” no gelo não é fácil. A expedição MOSAiC enfrenta um grande desafio logístico, incluindo pelo menos 3 aeronaves científicas, 4 navios quebra-gelo de apoio e muita colaboração internacional. 

A Expedição está programada para durar 1 ano e no momento se encontra em sua segunda fase. Na primeira, estive abordo do navio russo RV Akademik Fedorov, como parte de um programa de treinamento para doutorandos e mestrandos que ocorreu em conjunto (MOSAiC School). Fomos incluídos na tarefa de instalar uma rede de apoio ao Polarstern em um raio de 20km-40km da onde ele se encontrava fundeado no gelo. Horas de trabalho no gelo marinho, instalando estações meteorológicas, perfiladores e bóias. Tudo isso combinado a vôos de helicóptero para instalações um pouco mais simples, mas mais numerosas.

Distributed Network

Mapa da Rede de Equipamentos. A estrela vermelha no meio representa o Polarstern, no bloco de gelo escolhido. L-sites foram os locais com mais equipamentos instalados, contendo estações meteorológicas, boias de fluxos, boias de massa e perfiladores (quadrados azuis). M-sites são os locais um pouco menores, contendo medidores de salinidade e temperatura em profundidade, boias de neve e perfiladores (Círculos verdes). Os P-sites representam boias-GPS, que ajudam a monitorar a deformação dos blocos de gelo onde os equipamentos estão e dão uma melhor estimativa da deriva, que pode chegar até 3km por dia.    

MOSAiC School_Group picture

O grupo parte da MOSAiC School no Ártico com o RV Akademik Fedorov ao fundo (Set-Out/2019). Credit: Josephine Lenz.

Agora, o Polarstern está fundeado no gelo e derivando, junto com toda a sua rede de equipamentos de apoio. A deriva pode ser acompanhada pelo web app da expedição, junto com a deriva do Fram em 1893. Lá também se encontram diversas informações, fotos e artigos das atividades desenvolvidas e desafios enfrentados pelos cientistas e tripulação a bordo.

Screenshots do web app da expedição, mostrando a comparação entre as duas derivas. Polarstern à esquerda (azul) e o Fram de Nansen à direita (verde). MOSAiC se propõe a investigar o sistema climático do Ártico de forma integrada o ano todo – uma das maiores áreas desconhecidas da pesquisa climática.

Mas pra quê tanto esforço logístico pra passar um ano no meio do gelo? O Ártico é a área onde os efeitos das mudanças climáticas globais são mais visíveis, com taxas de aquecimento excedendo o dobro da média global e aquecimento ainda maior no inverno. Os cientistas já defendem que o oceano Ártico ficará sem gelo no verão ainda durante o século XXI. Essa mudança dramática não afeta somente o Ártico, impactando o clima em todo o hemisfério norte e fomentando um rápido desenvolvimento econômico na região.

csm_Temperature_changes_58ac497f2f

Mudanças próximas da temperatura da superfície de 1970-2017 (Gráfico: NASA GISS, https://data.giss.nasa.gov/gistemp).

Além disso, as projeções futuras de mudanças climáticas para o Ártico são extremamente incertas, com um fator de três incertezas do aquecimento projetado até o final deste século – uma incerteza muito maior do que em qualquer outro lugar do planeta. Muitos processos no sistema climático do Ártico estão mal representados nos modelos climáticos, porque não são suficientemente compreendidos. Enquanto não entendermos esses processos, as projeções do clima no Ártico não serão robustas.

csm_projected_temperatur_change_66d4275ff8

No Ártico, as incertezas dos modelos climáticos são muito maiores do que em qualquer outra parte do planeta. As projeções do aquecimento até o final do século variam entre 5 e 15 graus Celsius entre os diferentes modelos, para o mesmo cenário (RCP8.5). © Alfred Wegener Institute.

A compreensão dos processos climáticos do Ártico é limitada por falta de observações no Ártico Central, especialmente no inverno e na primavera. Durante essas estações, o gelo do mar é tão espesso que nem mesmo os melhores quebra-gelo de pesquisa conseguem penetrar no Ártico e os pesquisadores sempre ficam trancados. Daí a importância de coletar os dados durante a noite polar! Para melhorar as projeções dos modelos climáticos são preciso dados reais – em todas as épocas do ano. A expedição MOSAiC fornecerá uma base científica mais robusta para decisões políticas sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas e para estabelecer uma estrutura para gerenciar o desenvolvimento do Ártico de maneira sustentável.

Trabalho operacional, auroras, noite polar, -30 graus e ursos polares.  MOSAiC é uma forma ousada e inovadora de buscar entender o sistema climático do Ártico e sua representação nos modelos climáticos globais. Uma experiência sensacional, cujos dados estarão disponíveis para todos a partir de 2023.

20191010_TheaSchneider_small_DSC0594

Trabalhando no gelo. Cientistas enfrentam diversas dificuldades, incluindo utilizar ferramentas finas com luvas grossas. Retirar as luvas com -30°C é arriscado e a exposição precisa ser mínima. Foto Thea Schneider.

Nansen também estava à frente de seu tempo de outras maneiras. De volta do Ártico e com acesso à internet (infelizmente) restabelecido, fui confrontada com meu primeiro “nude masculino” não solicitado de todos os tempos: um nu frontal de Fridtjof Nansen. Ele parece sereno e seguro de si em uma pose destemida, ousada e desafiadora. Assim como sua vida e sua contribuição para a ciência.

Nansen_tag

Nude frontal de Nansen. Foto Dominio Público. 

Que homem! 😉

0

O cérebro e suas redes (bem) complexas

No século XVIII a cidade de Königsberg (na atual Rússia) possuía 7 pontes conectando suas duas ilhas e duas outras porções de terra principais (veja mapa na figura 1). Diz a lenda que as pessoas costumavam se perguntar se seria possível fazer um passeio pelas ilhas atravessando todas as pontes sem repetir nenhuma delas. Até que em 1736, o matemático e físico Leonhard Euler resolveu essa questão considerando que cada pedaço de terra funcionaria como um nó e cada ponte como um link (ou uma conexão) entre os diferentes nós (veja o lado direito da figura 1) [1]. Ele percebeu que uma condição necessária para que todos os links (ou pontes) fossem percorridos uma única vez era que a rede tivesse zero ou apenas dois nós com um número ímpar de links. No primeiro caso qualquer nó poderia ser escolhido como ponto inicial do passeio. No segundo caso, o caminho (que ficou conhecido posteriormente como caminho de Euler) deveria começar e terminar exatamente nos nós com números ímpares de conexões. Note que essa solução se aplica a qualquer rede e não apenas a das pontes de Königsberg. Mas como a rede em questão possuía 4 nós, cada um com um número ímpar de links, Euler garantiu que não seria possível realizar um passeio por esta cidade cruzando cada ponte uma única vez.

texte13pontes

Fig.01: Mapa da cidade de Königsberg em 1736 e sua simplificação para um  estudo de redes. Figura retirada da Ref. [1].

Esta história ficou conhecida como o primeiro problema resolvido do que veio a ser a área do conhecimento que estuda as propriedades das redes complexas e que recebeu o nome de ciência das redes (network science). Desde então, a ciência das redes vem sendo utilizada para resolver problemas em diversas áreas como engenharia de transportes, finanças, genética, ecologia… Recentemente sua aplicação em neurociência ganhou o nome especial de network neuroscience [2] (ainda sem um nome oficial em português podemos chamar a neurociência das redes ou redes cerebrais). A ideia básica continua parecida com o problema das pontes, mas a quantidade de nós e links que podemos estudar é gigantesca. E, portanto, exige o desenvolvimento de novas técnicas de análise de redes e de obtenção de dados reais das redes específicas de interesse. Além disso, a quantidade de perguntas que podemos fazer sobre caminhos e propriedades dessas redes tem aumentado bastante.

Diversos grupos de pesquisa têm se dedicado a descrever da maneira mais detalhada  possível a rede formada por neurônios e sinapses de determinadas regiões do cérebro de diferentes espécies. Em julho deste ano foi publicada a matriz de conectividade completa do sistema nervoso do nematódeo C. Elegans (provavelmente o vermezinho mais querido da ciência) [3]. Em outras palavras, os cientistas descreveram todas as conexões entre os 302 neurônios do animal. Para diversas outras espécies, o que já conhecemos é a matriz de conectividade entre certas regiões do cérebro. Afinal, encontrar a matriz de conexão entre os 85 bilhões de neurônios do cérebro humano [4] parece uma tarefa exageradamente árdua.

Claramente as redes de conectividade dos diferentes animais são algo intermediário entre a total regularidade e a bagunça generalizada. Ou seja, os 302 neurônios do C. Elegans não estão organizados em uma rede regular, como em um cristal, onde cada nó tem a mesma quantidade de vizinhos (exemplo da esquerda na figura 2), nem estão conectados de maneira totalmente aleatória (direita da figura 2). E o que os cientistas têm buscado são propriedades topológicas mais gerais das diferentes redes cerebrais. Assim, seguimos procurando um ponto ótimo entre tentar conhecer o melhor possível a estrutura das redes que nos interessam e tentar extrair propriedades mais gerais dessas redes.

texte13redes

Fig. 02 Modificada da Ref. [5].  Uma rede inicialmente regular onde cada nó possui dois vizinhos vai sendo transformada em uma rede aleatória seguindo uma regra em que sucessivamente escolhemos um nó que pode ter um de seus links removidos com probabilidade p e sorteamos aleatoriamente um outro nó para se conectar com este primeiro. Para valores intermediários de p esta rede é conhecida como mundo pequeno (small word).

No início desse ano, Danielle Basset uma física bastante ativa na área de neurociência das redes e buscando aplicações em medicina, publicou um artigo de revisão sobre a física das redes cerebrais [6]. O artigo é um compilado de como diversas áreas da física podem contribuir para neurociência e em particular para o estudo da topologia dessas redes a partir da análise dos diferentes tipos de dados. Ela salienta que a arquitetura das conexões entre os neurônios ou regiões cerebrais está sempre restrita a necessidade de minimização de energia e eficiência na transferência de informação. Se por um lado precisamos de técnicas para determinar o melhor possível a conectividade anatômica entre as regiões, por outro precisamos ser capazes de determinar a conectividade funcional levando em conta a atividade dinâmica do cérebro durante diferentes tarefas. Nos dois casos podemos determinar a matriz de conectividade das redes e suas propriedades topológicas (ver figura 03).

texte13cerebros

Fig. 03 Modificada da Ref. [6]. Na primeira linha medimos as conexões anatômicas entre as regiões do cérebro e determinamos quais regiões estão conectadas entre si através da matriz de adjacência. Depois estudamos as propriedades da rede formada. Na segunda linha utilizamos a atividade elétrica ou sanguínea das diversas regiões cerebrais e determinamos uma matriz de similaridade dependendo do quanto esses sinais estão correlacionados. Esta é a chamada rede funcional pois pode variar durante a realização de diferentes tarefas cognitivas.

Por exemplo, em um outro artigo Danielle estudou a matriz de conectividade entre regiões do cérebro de quatro animais diferentes: rato, mosca, macaco e humanos [7]. A maioria das conexões nessas redes são de curto alcance, ou seja, conectam regiões próximas, o que reflete as restrições anatômicas e energéticas do sistema. No entanto algumas conexões entre regiões bastante afastadas são (inesperadamente) encontradas. Dado o custo energético dessas conexões longas, espera-se que elas desempenhem um papel importante para o funcionamento do cérebro. No artigo, a cientista mostrou que, diferente do que se acreditava, conexões de longas distâncias no cérebro têm um papel minoritário em reduzir as distâncias topológicas entre os nós da rede. Por outro lado, essas conexões de longo alcance aumentam a complexidade da dinâmica da rede. Graças à análise de mais dados e a combinação dessas análises com modelos teóricos (comparando conectividade estrutural e funcional) foi possível prever uma nova funcionalidade para essas conexões entre regiões distante que seria garantir a diversidade da atividade cerebral.

No começo desse mês, mais uma contribuição para essa área foi publicada dando mais um passo na caracterização da complexidade das redes. Dessa vez, um estudo realizado aqui no Brasil desenvolveu uma nova ferramenta matemática para classificar redes complexas de maneira geral, bem como redes associadas ao cérebro [8]. Utilizando algumas ideias bem estabelecidas de análise de séries temporais os pesquisadores propuseram uma maneira de calcular a entropia de uma rede complexa, baseado na probabilidade de um caminhante aleatório passear pelos diversos nós da rede. (Na analogia das pontes, considerando qual a probabilidade de você atravessar uma certa ponte durante um passeio aleatório pela cidade sem querer chegar em nenhum outro ponto específico.)

Calculando duas medidas específicas baseadas na quantidade de links de cada nó: a entropia de Shannon e a informação de Fisher para redes do tipo regular (vermelho) e do tipo aleatória (azul) eles puderam comparar onde outras redes reais estariam nesse plano.  Em particular, eles mostraram que a rede que descreve a medula da mosca e a retina do rato (respectivamente representadas pelos números #13 e #14 na figura 4) estão em uma região intermediária do plano de entropia podendo ser caracterizada por redes tipo mundo pequeno. Além disso, uma possível extensão dessa ferramenta seria calcular não apenas a entropia mas a complexidade (ou o desequilíbrio) dessas redes. Esperamos que, em breve, essa nova ferramenta possa ser utilizada em dados de outros sistemas nervosos como por exemplos os dados estudados na Ref. [7].

texto13entropia

Fig.04 Modificada da Ref. [8]. Compara as propriedades de redes reais (laranja) com redes simuladas computacionalmente com diferentes valores de densidade de links por nó. Calculando duas medidas estatísticas específicas : a entropia de Shannon e a informação de Fisher para redes do tipo regular (vermelho) e do tipo aleatória (azul) os autores deste trabalho puderam delimitar uma região do plano em que as redes reais se comportariam como rede tipo mundo pequeno.

Referências

[1]  Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Seven_Bridges_of_K%C3%B6nigsberg

[2]  Danielle S. Basset e Olaf Sporns. “Network neuroscience.” Nature neuroscience 20.3 (2017): 353.

[3] Steven J. Cook, et al. “Whole-animal connectomes of both Caenorhabditis elegans sexes.” Nature 571.7763 (2019): 63-71.

[4]  Frederico AC Azevedo, et al. “Equal numbers of neuronal and nonneuronal cells make the human brain an isometrically scaled‐up primate brain.” Journal of Comparative Neurology 513.5 (2009): 532-541.

[5] Duncan J. Watts e Steven H. Strogatz. “Collective dynamics of ‘small-world’networks.” nature 393.6684 (1998): 440.

[6] Christopher W. Lynn e Danielle S. Bassett. “The physics of brain network structure, function and control.” Nature Reviews Physics (2019): 1.

[7] Richard F. Betzel e Danielle S. Bassett. “Specificity and robustness of long-distance connections in weighted, interareal connectomes.” Proceedings of the National Academy of Sciences 115.21 (2018): E4880-E4889.

[8] Cristopher GS Freitas, et al. “A detailed characterization of complex networks using Information Theory.” Scientific reports 9.1 (2019): 1-12.

0

A moeda do momento: suas informações

O mundo gira pela roda do capitalismo, o consumo é a base da sociedade atual, ela que molda seu trabalho e até suas relações pessoais e é claro que as empresas sabem disso.

Já algum tempo as empresas utilizam dos seus desejos mais secretos para fazê-lo consumir mais. Antigamente você ia até uma loja e lá um funcionário lhe ajudaria a achar o que mais lhe agradasse, hoje o tempo que você passa vendo uma propaganda na internet, um like em um artista, uma pesquisa num buscador é muito mais do que o suficiente para traçar o seu perfil e enviar marketing personalizado para você. Por um lado pode até facilitar a sua vida quando necessário mas e quando isso extrapola a necessidade? Milhões de pessoas se endividam devido a um consumo exagerado e essas propagandas direcionadas tem colaborado fortemente para isso.

O Customer Relationship Management (CRM) é um termo em inglês que pode ser traduzido para a língua portuguesa como Gestão de Relacionamento com o Cliente. Foi criado para definir toda uma classe de sistemas de informações ou ferramentas que automatizam as funções de contato de empresas com os clientes.

Por um tempo essa relação entre os clientes e as empresas eram feitas de outras formas, muitas vezes também não muito honestas como em caso de compras de dados telefônicos e cpf ou a famosa abordagem aos aposentados pelas empresas de empréstimos. Agora a coleta de dados é automatizada e quem está disponibilizando as nossas informações somos nós mesmo.

As ferramentas que utilizam o CRM ajudam a montar campanhas específicas para certos públicos e manter um bom relacionamento com seus clientes armazenando e inter-relacionando de forma inteligente, informações sobre suas atividades e interações com a empresa.

Os dados são a nova força vital do capitalismo.O fluxo de dados agora contribui mais para o PIB mundial do que o fluxo de bens físicos.

Em outras palavras, há mais dinheiro na movimentação de informações entre fronteiras do que movendo soja e refrigeradores.

A circulação global de dados é realmente sobre a circulação global de capital. E tem enormes consequências para a organização global da riqueza e do trabalho.

Os fluxos de dados permitem que os empregadores em países com salários mais altos terceirizem mais tarefas para trabalhadores em países com baixos salários. Eles ajudam as empresas a coordenar cadeias de fornecimento complexas que empurram empregos de manufatura para os lugares com os custos de mão de obra mais baratos.

O quanto é irresponsável para o planeta esse consumo desenfreado com o modelo capitalista que virá a causar uma catástrofe ambiental em nome do lucro. Mas a coleta de dados não são apenas para o consumo, suas informações podem ser usadas para definir governos.

Recentemente o Facebook aceitou pagar multa de 500 mil libras pelo caso Cambridge Analytica, uma grande empresa de mineração de dados nas redes.

A empresa britânica Cambridge Analytica foi acusada de coletar e explorar sem consentimento os dados pessoais de milhões de usuários, que foram disponibilizados pelo Facebook, com uma finalidade política, sobretudo para fazer o Brexit ganhar no Reino Unido e Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016.

O documentário “Privacidade Hackeada” mostra os bastidores desse escândalo. A empresa britânica utilizava dados pessoais de usuários do Facebook para traçar perfis da população americana e criar anúncios segmentados para grupos de indecisos. Essa prática teria exercido uma influência decisiva na corrida eleitoral do EUA, mas não somente lá.

Em Trindad e Tobago a estratégia foi outra, minimizar a atuação política dos jovens, em especial dos jovens caribenhos de forma que o partido de maioria afro-caribenha, Movimento Nacional do Povo (PNM), cedesse o lugar ao partido indiano UNC.

A campanha teve traços perversos, um slogan “Do So” (Não Vote) e impulsionou os jovens nas redes e nas ruas de maneira que parecia um movimento genuíno da juventude mas que foi justamente programado para tal.

doso

Pôster da campanha “Do so”, promovida pelo UNC. Foto: Kierron Yip Ngow/ Facebook

Vimos recentemente o grande efeito das fake news, divulgadas nas redes sociais, nas questões políticas no Brasil mostrando que também estamos suscetíveis a esse tipo de interferência cibernética. Tudo que compartilhamos e recebemos nas redes tem impactado cada vez mais em questões que extrapolam a internet, economia e governo. Não existe mais uma separação entre vida real e virtual, tudo está conectado.

Referências

1)Documentário “Privacidade Hackeada”, Karim Amer e Jehane Noujaim, 2019.

2)https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/03/harvard-professor-says-surveillance-capitalism-is-undermining-democracy/

3)https://exame.abril.com.br/negocios/facebook-aceita-pagar-multa-de-500-mil-libras-por-caso-cambridge-analytica/

4)https://www.theguardian.com/technology/2018/jan/31/data-laws-corporate-america-capitalism

5)https://www.smartdatacollective.com/ways-big-data-changing-capitalism-centuries-come/