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Aplicação de impressão 3D e lasers no desenvolvimento de aviões

Se você gosta de tecnologia, você com certeza já ouviu falar sobre impressão 3D. Existem inúmeros grupos de pesquisa pelo mundo trabalhando com técnicas de impressão 3D e com o desenvolvimento de equipamentos capazes de imprimir as mais variadas coisas, desde nanopartículas1 (materiais muito muito mas muito pequenos), até comida2. Mas mais interessante do que o desenvolvimento da impressão 3D é o leque de possibilidades que essa tecnologia abre.

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Túnel de vento da Mercedes Benz, em Stuttgart, Alemanha. Fonte.

Testes de protótipos de carros, aviões e asas em túneis de vento são parte fundamental do processo de desenvolvimento e melhoramento da aerodinâmica desses veículos. Os túneis de vento variam em tamanho e, dependendo da etapa do desenvolvimento da pesquisa, modelos em escala são testados nestes túneis antes da construção de protótipos em tamanho real. Antigamente, os modelos eram praticamente todos feitos de metal ou madeira, mas avanços na tecnologia de impressão 3D tornaram possíveis maior precisão e flexibilidade na construção de modelos, gerando resultados mais próximos aos reais durante testes iniciais. Isso é de extrema importância para as empresas desenvolvedoras dessas tecnologias, já que problemas com determinados designs podem ser percebidos em etapas iniciais, gerando grande economia em dinheiro e tempo.

A Delft University of Technology (TU Delft), localizada na Holanda, tem sido uma das grandes contribuintes para o desenvolvimento da pesquisa em túneis de vento. Grupos de pesquisa desta universidade foram pioneiros na invenção de técnicas não-intrusivas de medição de fluxos de ar. Para esse tipo de estudo, é muito comum o uso de instrumentação baseada em medição de pressão, o que exige o posicionamento de sensores de pressão no fluxo de ar que podem influenciar a coleta de dados. Técnicas baseadas no uso de lasers e câmeras minimizam esses problemas, já que não há a necessidade de introduzir sensores diretamente na seção de teste.

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Imagem de partículas iluminadas por laser durante um teste feito com velocimetria por imagem de partículas. Fonte.

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Sequência de partículas capturadas com velocimetria por imagem de partículas. As setas indicam a direção do fluxo onde as partículas se encontram. Fonte.

As técnicas a laser mais utilizadas hoje em dia são chamadas particle image/tracking velocimetry (Velocimetria por imagem de partículas, em tradução da Wikipedia3). Essa técnica consiste em inserir partículas muito pequenas (da ordem de micrômetros – 10-6, ou 0,000001 metros) que acompanhem o desenvolvimento do fluxo de ar praticamente sem afetá-lo, e tirar duas fotos consecutivas dessas partículas iluminadas pela luz do laser. O software de captura de imagens tem a capacidade de medir o deslocamento das partículas entre a primeira e a segunda imagem, que são espaçadas com um determinado tempo. E, sabendo tempo e deslocamento, é possível calcular a velocidade do fluxo de ar.

Um exemplo de aplicação da combinação de impressão 3D e dessa técnica de medição é um estudo realizado na própria TU Delft em que foi impresso um modelo em tamanho real do ciclista Tom Dumoulin para análise da sua performance aerodinâmica em um túnel de vento.4 Cento e cinquenta câmeras digitais foram utilizadas para fotografar o corpo do ciclista em detalhe, para garantir que o modelo impresso fosse o mais fiel possível. O manequim foi impresso em 8 partes separadas em diferentes impressoras e levou 50 horas para ficar pronto. O modelo foi então colocado em uma bicicleta e vestido com as roupas e capacete de corrida similares aos que o próprio ciclista veste durante suas corridas. A técnica de velocimetria por imagem de partículas foi utilizada para analisar o fluxo de ar sobre o modelo do ciclista em pontos cruciais, onde existem possibilidades de melhoria aerodinâmica, como no capacete e sobre o traje do ciclista. Foram utilizadas partículas chamadas helium filled soap bubbles (bolhas de sabão preenchidas com gás hélio, em tradução livre) e imagens do teste podem ser vistas no vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=TBEagWWFkuA.

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Modelo em 3D do ciclista Tom Dumoulin no túnel de vento da TU Delft. Fonte.

Técnicas similares são aplicadas no estudo e desenvolvimento de novos modelos de asas e aviões. A NASA tem investido bastante em um novo conceito de avião comercial chamado hybrid wing body, que possui asas que se fundem ao corpo do avião, dando a ele um formato bem diferente dos aviões comerciais disponíveis atualmente. Os principais objetivos desse conceito são aumentar a eficiência energética dos aviões, diminuindo seu consumo de combustível e diminuir a emissão de ruídos durante vôos.

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Novo conceito de avião da NASA, chamado hybrid wing body. Fonte.

Construir um modelo de avião em tamanho real sem antes analisar se existe a possibilidade de atingir os objetivos desejados seria extremamente caro e arriscado. A NASA então construiu um modelo em escala 6% (ou seja, com 6% do tamanho real) com ajuda de impressão 3D para ser testado em um de seus túneis de vento nos Estados Unidos.5 Resultados desses testes indicam que existe a redução de consumo de combustível e de barulho durante o vôo. Com isso, a NASA segue realizando testes para verificar outros aspectos envolvidos no vôo de uma aeronave tão diferente. Também existem outros grupos de pesquisa trabalhando com materiais impressos em 3D para verificar a operabilidade e eficiência das turbinas de aviões deste modelo.6

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Modelo em escala do avião conceito da NASA durante teste com velocimetria por imagem de partículas no túnel de vento da NASA. Fonte.

Não existem dúvidas de que o avanço da pesquisa, tanto na indústria como em universidades, está diretamente ligado ao desenvolvimento de novos produtos e conceitos inovadores que tem como objetivo melhorar a vida das pessoas e ao mesmo tempo minimizar o impacto causado na natureza e no mundo. Hoje pode parecer estranho ver um avião tão diferente quanto esse em uma arte de divulgação, mas pode ser que daqui a dez anos nós estejamos voando em aviões similares a estes. E tudo isso graça à combinação de diversos conceitos e conhecimentos das mais diversas áreas da engenharia.

Referências:

1 http://advances.sciencemag.org/content/2/4/e1501381

2 http://www.cnn.com/2014/11/06/tech/innovation/foodini-machine-print-food/

3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Velocimetria_por_imagem_de_part%C3%ADculas

4 http://www.tudelft.nl/en/current/latest-news/article/detail/3d-geprinte-mannequin-van-tom-dumoulin-in-windtunnel-moet-seconden-winst-opleveren/

5 Gatlin, G. M., Vicroy, D. D., Carter, M.B. 2012 “Experimental Investigation of the Low-Speed Aerodynamic Characteristics of a 5.8-Percent Scale Hybrid Wing Body Configuration.” 30th AIAA Applied Aerodynamics Conference, 25- 28 June, New Orleans, Louisiana.

6 Guimarães Bucalo, T., Lowe, K. T., and O’Brien, W. F., “An overview of recent results using the StreamVane method for generating tailored swirl distortion in jet engine research,” AIAA Paper 2016-0534, January 2016.

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A nossa dor não sai no jornal: Mulheres Negras e a epidemia do Zika vírus, um ano depois

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Imagem da Internet

Há mais ou menos um ano nos deparamos com um novo tipo de vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a chikungunya, e a descoberta ocorreu por conta do nascimento de crianças com o perímetro cefálico menor (microcefalia) que a medida padrão.

A ocorrência da microcefalia surgia no mesmo momento e nos mesmos lugares onde havia a epidemia do zika vírus, no nordeste do País, mais precisamente em Pernambuco e na Bahia. Desde então pesquisas vem sendo feita para identificar a causalidade entre o zika vírus e os recém-nascidos com microcefalia.

“A epidemia de microcefalia registrada no Brasil em 2015 é resultado de infecção congênita da mãe para o bebê por zika”. A conclusão é de um estudo caso­controle preliminar do Microcephaly Epidemic Research Group (MERG), publicado na revista científica The Lancet Infectious Diseases, intitulada “Association between Zika Virus infection and microcephaly in Brazil, January to May 2016: Preliminary report of a case control study”. A pesquisa ainda aponta sobre o que virá “uma epidemia global de microcefalia e outras manifestações da Síndrome Congênita do Zika.”

De acordo com o informe epidemiológico do Ministério da Saúde nº. 48, até 15 de outubro de 2016 havia 9.862 casos notificados para microcefalia e/ou outras alterações do sistema nervoso central, sendo 2063 confirmados: Nordeste apresentou mais da metade dos casos (1650), Sudeste (219), Centro-Oeste (107), Norte (68), Sul (19).

No entanto, mesmo diante de uma situação que abala a saúde pública do País, ainda não foram realizadas medidas que de fato mudassem o cenário até o momento, como saneamento básico, promoção da saúde, saúde reprodutiva e informações suficientes à população sobre a epidemia e forma de transmissão do vírus. O que observamos é um silenciamento da grande mídia e dos órgãos de governo responsáveis.

Quem são as pessoas que tem as suas vidas mais prejudicadas pelo zika vírus e suas consequências? São mulheres em idade reprodutiva, do nordeste do Brasil, em situação de pobreza e negras em sua maioria. Essas mulheres moram em situações inadequadas, com acesso irregular a serviços de saneamento básico, ambiente este que colabora para o desenvolvimento de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes (Figura 1).

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Fonte de Dados: Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2010)

De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os Estados do Nordeste estão nas últimas colocações do Ranking nacional. Com destaque para Pernambuco em 19º lugar e a Bahia em 22º, os dois estados onde ocorreram mais casos de zika vírus e microcefalia.

Os dados sobre a situação das mulheres como chefe de família do Atlas de Desenvolvimento Humano, apresentam que as mulheres da Bahia e Pernambuco tem um maior percentual como chefia de família, quando comparamos Brasil, São Paulo e Santa Catarina, destaco que estes dois estados estão os três primeiros no Ranking do IDH (Figura 2).

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Fonte de Dados: Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2010)

O que estamos observando, escutando as mulheres, é que as mães dos filhos com microcefalia estão assumindo grande parte de todo o processo de cuidado, tendo que acompanhar os seus filhos nos atendimentos das redes de serviços, comprometendo toda a sua rotina de vida e trabalho.

A epidemia deste vírus e a negligência do Estado na sua desatenção ou no seu investimento insuficiente podem ser pensado como um case de racismo institucional e ambiental. Racismo Institucional trata-se da falha coletiva de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica (SANTOS, 2001). Racismo Ambiental é o aprofundamento da estratificação de pessoas (raça, cor e etnia) e de lugar (nas cidades, bairros periféricos, áreas rurais entre outros) (SANTANA FILHO; ROCHA, 2008).

No que se refere aos direitos reprodutivos, a falta de acesso à saúde para um planejamento reprodutivo, por meio de informações e métodos contraceptivos, também é outra realidade, e são as mulheres negras do Nordeste que têm menos acesso aos métodos (Tabela 3). Pesquisas  já apontam que o vírus também é de transmissão sexual (Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC)), possivelmente serão as mulheres negras e em situação de pobreza as mais expostas a essa situação, pois estão mais vulneráveis a desinformação sobre o uso de preservativos para a proteção contra o vírus..

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Fonte de Dados: Pesquisa Nacional de Saúde/IBGE (2013)

Pela Vida das Mulheres

O movimento de mulheres e de mulheres negras vem atuando frente à epidemia do zika vírus, participando de diálogos junto a Nações Unidas e atuando nas comunidades com projetos de intervenção com a finalidade de ampliar a informação pelo direito à saúde.

Em Março deste ano, Jurema Werneck elaborou um Boletim sobre o impacto da epidemia chamando atenção para as mulheres negras, que seria a população mais exposta as consequências do vírus. Além disso, apresentou 10 pontos reivindicando o direito a saúde e pelo bem viver (Boletim Epidemia de Zika e Mulheres Negras).

O grupo de pesquisa Anis, liderado pela pesquisadora Debora Diniz, apresenta juntamente com a Associação Nacional dos Defensores Públicos – ANADEP uma ação no Supremo Tribunal Federal sobre a proteção de direitos violados na emergência de saúde pública do vírus zika.

Há muitas incertezas sobre o zika vírus e as suas consequências nas crianças com a síndrome congênita, mas o que sabemos é que são as mulheres em idade reprodutiva, negras do nordeste que estão no centro da epidemia e na margem da sociedade e das políticas públicas. Essa situação nos coloca diante de novas lutas para a garantia dos direitos das mulheres e dessa nova população que chega. E com este cenário político que se instala de usurpação de direitos sociais, políticos e humanos convergem para a invisibilidade, a desatenção e a violação do direito humano à saúde desta população.

Referencias

SANTOS, H. A busca de um caminho para o Brasil : a trilha do círculo vicioso. [s.l.] Editora SENAC São Paulo, 2001.

SANTANA FILHO. Diosmar M. de. ROCHA, Júlio Cesar de Sá.  Justiça Ambiental da Águas e Racismo Ambiental. Justiça pelas águas: enfrentamento ao racismo ambiental – Salvador, Superintendência de Recursos Hídricos, 2008. p. 35

Links:

http://www.atlasbrasil.org.br/2013/

http://www.combateaedes.saude.gov.br/images/pdf/informe_microcefalia_epidemiologico48.pdf

http://portugues.cdc.gov/zika/transmission/sexual-transmission.html

http://populacaonegraesaude.blogspot.com.br/2016/03/a-epidemia-de-zika-e-as-mulheres-negras.html

http://www.anadep.org.br/wtk/pagina/materia?id=29504

Leia também: 

Impacto do zika vírus na vida das mulheres

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Você é o que você come? – Dieta Paleolítica e o viés sexista.

 

A dieta paleolítica é baseada na convicção que há uma discrepância entre o que comemos atualmente e o que nossos ancestrais “evoluíram para comer”. Defende que nosso corpo está preso na idade da Pedra, ou seja, que é adaptado para comer da mesma maneira que caçadores-coletores comiam na era paleolítica. Poxa mas isso significa que estamos comendo coisas erradas e/ou de forma errada por 2,6 milhões de anos e que durante esse tempo não houve nenhum processo adaptativo. 

Parece improvável, certo? Então por que há cientistas que defendem essa ideia? Bem, porque as sociedades caçadoras-coletoras atuais apresentam menor incidência de doenças as quais vem se tornando epidemias no mundo, como diabetes, e altos níveis de triglicérides e colesterol. Deveríamos então nos alimentar como eles para sermos mais saudáveis? 

Parece a resposta mais óbvia. Contudo, se nos alimentássemos como os atuais caçadoras-coletores ainda estaríamos longe da dieta paleolítica sugerida nos bestsellers já que, como sugerido por Alyssa Crittenden, da Universidade de Nevada, os atuais caçadores-coletores não devem ser considerados como fósseis vivos. Ou seja, eles não se alimentam como à 2,6 milhões de anos.

Além disso, mesmo um dos grandes defensores da dieta paleolítica, Loren Cordian, da Universidade de Utah, comete gafes conceituas. Ele defende que devemos comer muita proteína animal, mas não diariamente e também muitos grãos, como o feijão. Ironicamente, muitos dos produtos sugeridos por ele (como muitos dos grãos) foram, na realidade, introduzidos na dieta humana apenas quando dominamos a agricultura.

Outra falha dos defensores dessa dieta é desconsiderar a plasticidade da alimentação dos caçadores-coletores, que deveriam se alimentar conforme à disponibilidade de cada ambiente. Ou seja, não há uma dieta única da era paleolítica. 

A principal argumentação dos defensores da dieta é que ela estaria alinhada com uma teoria muito aceita na biologia que diz respeito a importância da proteína animal para o processo de encefalizção. 

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Essa teoria fala da importância da ingestão calórica proporcionada pelo consumo de carne. Alguns órgãos são super consumidores de energia. O intestino e o cérebro são exemplos. Dessa forma, é comum contestar que os animais que são consumidores de plantas fibrosas, (que exigem grandes intestinos) possuem menor relação cérebro/corpo do que os que consumem mais proteína animal, que permite um investimento energético no desenvolvimento do cérebro. 

Essa relação é bem relatada em primatas não humanos, sendo os macacos mais complexos cognitivamente os com maior relação cérebro/corpo e que possuem na sua dieta uma maior proporção de proteína animal. 

Para se ter uma ideia da importância da dieta na evolução do cérebro basta verificar que um cérebro de um chimpanzé em completo repouso gasta 8% das calorias diárias necessárias, enquanto em um homem moderno (Homo sapiens) em mesmas condições de repouso o cérebro gasta, para se manter, 20% das calorias diárias. Portanto, fica fácil de entender porque acredita-se na imensa importância da ingestão de proteína animal para evolução do homem moderno.

Mas afinal, evoluímos para comer os alimentos atuais?

Durante a revolução da agricultura houve um boom populacional de humanos. O que a primeira vista leva a crer que a qualidade da dieta aumentou. Contudo, Clark Specnes da Universidade de Ohio, acredita que o aumento populacional decorreu simplesmente porque não precisamos ser saudáveis para ter bebês. Pois, apesar do aumento populacional, a agricultura deixou a dieta dessas populações menos diversa e depois, com a domesticação de animais, os contatos com parasitas e doenças infecciosas aumentaram.

Contudo, apesar da dieta dos caçadores-coletores poder ser constituída por até 30% das calorias em carne, estes podiam ficar muitos dias sem consumir carne. Padrão que ainda se encontra nas comunidades caçadores-coletores atuais que com exceção das comunidades no Ártico (onde a dieta chega a ser constituída de 99% de carne).

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Pesquisas recentes têm mostrado que o papel mais importante da sociedade caçadora-coletora, ao contrário do que se imaginava até agora, não é do homem caçador mas da mulher coletora. Afinal, fica cada vez mais claro que a energia necessária para a evolução do nosso cérebro não veio apenas da carne. Elas eram e são as responsáveis por dar o sustento principalmente em momentos de escassez de alimentos. Por exemplo, a sociedade caçadora-coletora contemporânea Hadza tem quase 70% das calorias da sua dieta provida de plantas, e da mesma forma as sociedades, Kung, Aka, Baka Pygmies, Tsimane e Yanomami e Australian Aboriginals.

Parece portanto, que houve um viés dos cientistas em pesquisar o papel masculino e, como reflexo, uma tendência a super-estimar a importância da carne para evolução humana. 

Amanda Henry do Max Planck Institute, achou evidência de que comemos de tubérculos e cereais por pelo menos 100 mil anos! Ou seja, antes mesmo da agricultura, o que derrubaria outro argumento a favor da dieta paleolítica: houve tempo suficiente para tolerarmos esta ingestão. 

E quanto tempo é necessário para que ocorra adaptação? Sarah Tishkoff da Universidade da Pennsylvania defende que nossos dentes, mandíbulas, morfologia do crânio, e nosso DNA não é exatamente igual depois do surgimento da agricultara, o que significa que nosso corpo não está mais adaptado para a dieta paleolítica.

Um ótimo exemplo da evolução constante é a intolerância ao leite. Nas regiões em que houve a domesticação de animais e em que o consumo de leite foi importante, você encontra pessoas que são tolerantes a leite (Europa, Africa), enquanto onde não houve essa influência (China, Tailândia, Nativos Norte-Americanos, Nativos Sul-Americanos) encontra-se populações intolerantes à lactose. 

Fica claro então, a sua dieta ideal vai estar fortemente correlacionada com sua hereditariedade. Uma das mais brilhantes características da evolução do humano é a sua plasticidade; como Homo sapiens, somos virtualmente capazes de tirar nutrição de qualquer ambiente.

O que pode se concluir é que a dieta paleolítica pode não ser a mais indicada para você, enquanto pode ser ótima para seu colega de trabalho. Em outras palavras, a comunidade vai comer conforme o que está disponível no ambiente e dessa forma a dieta, seja na Era Paleolítica ou não, não é homogênea: existiram diversas dietas dos homens das cavernas. 

E sobre quando começamos a cozinhar? Bem esse fica para o próximo post! Até lá!

Para saber mais:
The First Human: The Race to Discover Our Earliest Ancestors. Ann Gibbons
The evolution of the human diet: the know, the unknown and the unknowable. Peter Ugar

 

Crédito de imagem: pirâmide:cnqc.ong, mulheres caçadora-coletoras: http://deedellaterra.blogspot.com.br/2013/02/cacadores-coletores-uma-revisao.html

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A REPRESENTAÇÃO DA MULHER NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A gordura no corpo feminino é objeto de diferentes interpretações, determinações, opiniões e percepções. A gordura feminina não é questionada, restrita e determinada apenas pelo tamanho, mas pelo que ela significa hoje no imaginário social e na ordem simbólica estabelecida pela modernidade. Esta censura, que pode ser expressa ou implícita, gera conflitos e ambivalências internas para a mulher que está acima do peso, o que dificulta seu desenvolvimento individual.

Os meios de comunicação são um importante veículo de transmissão massiva de ideologias. Claramente, a censura sobre o corpo gordo menospreza seu aspecto e sua condição, ao transformá-lo em um existente que deve ser erradicado. Há vários produtos que penalizam a gorda e a confinam à necessidade de um processo de mudança. Se uma mulher está com excesso de peso, devem ser iniciados os procedimentos que a direcionem a perder peso. É visto como inconcebível que ela deseje manter-se assim ou que não faça nada para moldar seu corpo.

Ademais, a gordura do sexo feminino, ou seja, a construção da subjetividade “gorda” evidencia conotações negativas que se relacionam fortemente com políticas de mercado e com as imposições normativas do sistema patriarcal.

Assim, podemos verificar, na atualidade, que a publicidade que promove produtos para emagrecimento tem como público preferencial as mulheres. Neste contexto, é recorrente, nos meios de comunicação, a ideia de que o excesso de peso em mulheres opõe-se a uma boa saúde e a “gorda” carece de atrativo erótico /sexual. Essas imposições e representações internalizam cada vez mais o patriarcado em nossa sociedade.

Nos meios de comunicação, a gordura é categorizada como a antítese dos corpos que aparecem como sinônimos da beleza e harmonia feminina. A “gorda” não pode ser um referente em si mesma, mas deve querer ser a outra, a magra, a operada, a “trabalhada”, ser “curvilínea”, “voluptuosa”, “exuberante”, descartando o que constitui o seu corpo.

No link a seguir é apresentado um documentário sobre como a mulher é vista e como as mulheres são coisificadas pela mídia brasileira na matéria da Pueblos: Revista de Información y debate: https://www.youtube.com/watch?v=MyDfr4N7dWk

De acordo com a psicóloga e coordenadora do Observatório da Mulher, Rachel Moreno, para mudar a representação feminina na mídia, quebrando estereótipos e pondo fim à exploração sexual da imagem da mulher, é preciso democratizar os meios de comunicação. Ela ainda ressalta que a atual forma de representação da mulher, em um cenário de concentração da mídia, é “absolutamente estreita”, e que falta “diversidade e pluralidade”; para Rachel “a mulher é sempre representada como branca, jovem, magra, cabelos lisos etc quando, na verdade, a mulher brasileira é branca, negra, jovem, velha, magra, gorda, de uma diversidade que, simplesmente, não se veem representadas.”[1]

Assim, é necessária a formação de uma consciência crítica em relação ao padrão de beleza imposto pela mídia (mulher magra como bela e saudável), sendo a discussão desta pauta imperiosa para o fortalecimento do feminismo enquanto movimento social e para a valorização da imagem da mulher enquanto ser humano, sem desvalorização e subjugação geral da figura feminina.

É necessário discutirmos a respeito visto que a mulher deve ser respeitada em suas individualidades e diferenças. As mulheres deveriam ser devidamente representadas como tal em todos os meios sociais, como mulheres comuns, com corpos normais sem preconceito de qualquer ordem. Assim, além do compromisso social que a grande imprensa deveria adotar, democratizando e ampliando a representação das mulheres na mídia, nós mulheres precisamos nos unir e nos empoderar juntas, não aceitando o discurso imposto pela mídia.

 

Sites consultados:

http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/desvalorizacao-e-subjugamento/

http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/a-representacao-da-mulher-na-midia-e-em-produtos-7011.html

https://www.youtube.com/watch?v=MyDfr4N7dWk

http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/03/sem-democracia-na-midia-mulher-continuara-sendo-tratada-como-objeto-7014.html

[1] http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/03/sem-democracia-na-midia-mulher-continuara-sendo-tratada-como-objeto-7014.html

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Mulheres, cerveja e a contribuição do trabalho de Gabriela Montandon para a cervejaria nacional. Trilogia da cerveja – Parte 3

Em uma rápida pesquisa no meu navegador com as palavras “mulheres” e “cerveja”, limitada entre os anos de 1990 a 2010 a resposta obtida foi:

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Olhando essa resposta é possível recolher três evidências:

  1. Cinco em cada sete mulheres no Brasil bebiam cerveja usando biquíni até o ano de 2010.
  2. Bom, nesse aí o moço que escreveu a notícia não pegou o famoso espírito da coisa. A ideia era fazer uma cerveja que questionasse o marketing cervejeiro feito até então.
  3. Finalmente foi respondida a pergunta “Cerveja x Mulher: o que é melhor?” ninguém mais conseguia dormir com essa dúvida na cabeça, não é mesmo?

Ironias a parte, a mentalidade brasileira seguia até esse ponto (e praticamente sem questionamento) o estereótipo tenebroso e machista que se aplica a muita coisa nesse país: que existem coisas de homem e coisas de mulher. Infelizmente não só nesse país. Em 2014 houve  A Q U E L A promoção pavorosa na final da Champions League de 2014, pra “ajudar” os machos a “tirar” as “suas” mulheres de casa pra que eles pudessem assistir a final “em paz”.

De uns anos pra cá, essa ideia tem sido questionada em diversos campos: na inserção da mulher no mercado de trabalho, na moda, no comportamento, etc. E apesar de termos ainda muito chão pela frente até a igualdade realmente existir as coisas parecem estar melhorando.

E sabe o que mais? Cerveja é um alimento. Não seria um completo absurdo falar de “comida de homem” e “comida de mulher”?

Mulheres que bebem cerveja

Segundo uma pesquisa divulgada pelo Instituto Innovare em fevereiro desse ano o brasileiro consome em média 82 litros de cerveja por pessoa ao ano. Isso nos coloca em 17° lugar no ranking mundial. Pra termos uma noção, em primeiro lugar vem à República Checa onde o consumo é de 143 litros por pessoa ao ano.

Cruzando esses dados com outra pesquisa feita pela empresa Sophia Mind – voltava para pesquisa e inteligência de marketing –, sabemos que 47% das mulheres brasileiras consomem bebidas alcoólicas e dessas 47,88% bebem cerveja.

A projeção do IBGE para 2016 mostra um total de 104.335.330 mulheres no país. Ou seja, mais de 23 milhões de mulheres no país consomem cerveja. Fechando as contas, temos 1.925.294.810 litros de cerveja consumidos anualmente por mulheres.

Passou ou não passou da hora da indústria cervejeira desse “Brasilzão” olhar as mulheres como financiadoras?

Mulheres que falam sobre cerveja

Acho que se você está lendo um texto em um site chamado Cientistas Feministas é porque se interessa pelo que as mulheres tem a dizer e pela forma como elas dizem. E têm muitas minas maravilhosas por aí falando sobre cerveja.

Eu podia ficar até amanhã citando os sites, blogs e podcasts feitos por mulheres na área mas vou citar só alguns e deixo o resto por conta da sua curiosidade de pesquisa, ok?

  • Fabiana Arreguy, dona do Pão e Cerveja: Fabiana é jornalista e sommelier de cervejas formada pela Doemens Academy de Munique através do SENAC SP. É criadora e apresentadora da coluna Pão e Cerveja na Rádio CDL FM. Também é colunista do jornal Estado de Minas e da Revista PQN Notícias e sócia-fundadora e professora da Academia Sommelier de Cerveja. Acho que deu pra entender que ela é fantástica, né?
  • Confraria Feminina de Cerveja – Confece: A CONFECE é a primeira Confraria Feminina de Cerveja do Brasil. As minas formaram o grupo em 2007 e se reúnem mensalmente para degustar e estudar cerveja. Além de tudo, o objetivo delas é “estimular o consumo responsável, dirigindo os encontros para a qualidade da bebida”.
  • Confraria Maria Bonita Beer: no dicionário a palavra confraria é apresentada como ‘associação ou conjunto de pessoas do mesmo ofício, da mesma categoria ou que levam um mesmo modo de vida’ e é exatamente isso que essas bonitas fazem. Segundo a descrição das moças “a ideia é difundir a cultura cervejeira e inspirar outras pessoas (homens e mulheres) a fazer a sua própria cerveja em casa!”

Mulheres que fazem cerveja

Talvez você não saiba, mas os sumérios eram bem espertos, já faziam cerveja e tinham uma deusa da cerveja: a deusa Ninkasi. Existe uma lenda que diz que Ninkasi nasceu da água fresca cintilante e a sua presença na Terra era manifestada através da cerveja, considerada pelos sumérios uma bebida capaz de saciar o coração.

O mais interessante dessa história é quem recebeu o crédito pelas primeiras receitas de cerveja desenvolvidas pelos sumérios foi a própria Ninkasi, a primeira (e única, creio eu) mestra cervejeira espiritual.

Existe, inclusive, um Hino à Ninkasi, com trechos bem arrebatadores como “você é a única que segura com ambas as mãos o magnífico e doce mosto fermentando-o com mel e vinho”.

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Uma deusa, uma louca, uma cervejeira

As Ninkasis contemporâneas são outras e são muitas! As moças da E.L.A. (Empoderar. Libertar. Agir.) se uniram em torno do propósito de fazer, não só uma cerveja, mas um coletivo de mulheres que questiona o uso e a objetificação do corpo feminino em propagandas fetichistas de cervejas, empodera o lugar social ocupado por nós e vem pra dizer que ELA vem chegando e lugar de mulher é onde ELA quiser! Elas produziram a cerveja ELA, uma American Barley Wine com 10% de álcool e fizeram uma campanha linda a #35diassemmachismonacerveja.

Gabriela Montandon e a primeira levedura nacional

Falando sobre mulheres e cerveja é impossível não falar de Gabriela Montandon (Gabriela, se algum dia você chegar aqui e ler esse texto, saiba que eu sou muito sua fã ♥).

Montandon começou a fabricar cerveja em casa, numa experiência que a levaria a fundar a sua própria cervejaria: a Grimor. Foi justamente nesses ensaios com fabricação caseira de cerveja que Gabriela percebeu que não havia uma levedura nacional. Como microbiologista, ela sabia que teria acesso a um banco de leveduras na universidade e entre essas leveduras estaria a Saccharomyces cerevisiae, uma levedura usada na fermentação de cervejas.

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Gabriela Montandon, nossa Ninkansi

Hoje, Gabriela tem 31 anos e é doutora em microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Na sua tese de doutorado intitulada “Seleção de linhagens indígenas de Saccharomyces cerevisiae para produção de cervejas de alta fermentação” – feita com período sanduíche no Laboratory of Enzyme, Fermentation and Brewing Technology da Katholieke Universiteit Leuven, em Gent na Bélgica – ela trata justamente da busca por linhagens de leveduras nacionais que poderiam ser usadas na cervejaria.

O foco da pesquisa foi tornar possível a produção de cervejas especiais brasileiras com leveduras nacionais. Em uma entrevista ao G1 Gabriela comenta: “Fiz uma seleção de vários micro-organismos que vieram de ambientes naturais do Brasil como: a Floresta Amazônica, Serrado, [também de] de outras bebidas, de madeiras brasileiras”. Desses estudos nasceu a Grimor 18, uma cerveja do tipo Blond Ale que Gabriela chama de “uma agulha num palheiro”.

No meu primeiro texto aqui no blog, eu falei sobre a fermentação e o trabalho que as leveduras realizam nesse processo. Mas pra relembrar, a fermentação alcoólica é a transformação dos açúcares presentes no malte em substâncias mais simples, como álcoois. Quem realiza essa transformação são as leveduras, que utilizam esses açúcares para geração de energia. Como resultado dessa geração de energia, também são produzidos álcool e gás carbônico.

O trabalho da Gabriela é revolucionário, pois é o primeiro passo para o desenvolvimento de uma escola brasileira de cerveja. Essa escola é o conjunto de todas as peculiaridades de um país com relação à fabricação e consumo de cerveja. Essas escolas influenciam também a forma com que outros países fabricam a própria cerveja, é um negócio muito bonito.

As mulheres estão fazendo uma mudança muito positiva na cara da cultura cervejeira nacional, seja no consumo, na sua divulgação ou (principalmente) no meio científico. É a ciência ajudando a nos inserir em mais um espaço que antes era majoritariamente dos homens. Falta agora o mercado criar juízo e nos representar vestidas nas propagandas. Vestidas, inclusive, de jalecos.

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Emergência e reemergência de doenças infecciosas no sul europeu

Crises econômicas e mudanças climáticas são fatores essenciais para promover a emergência e propagação de doenças tropicais negligenciadas e transmitidas por vetores no sul da Europa [1]. Países como Espanha, Portugal, sul da França, Córsega, Grécia e Croácia serão os mais afetados pela emergência ou reemergência destas doenças. Por apresentarem um clima quente mediterrâneo, os países sul-europeus já foram palco de diversas doenças tropicais, como a malária que já foi endêmica nesta região e a leishmaniose causada por Leishmania infantum.

Entretanto, nas últimas décadas, outras importantes doenças tropicais negligenciadas emergiram ou reemergiram no sul da Europa, sendo elas chikungunya, dengue (DENV-1), vírus do Nilo Ocidental, infecção pelo vírus Toscano, doença de Lyme, doença de Chagas, leishmaniose, malária vivax, esquistossomose, febre hemorrágica de Criméia-Congo e opistorquíase.

Nos países em desenvolvimento, com baixa ou média renda, a pobreza é um dos principais determinantes na transmissão de doenças. É importante citar que a emergência ou reemergência de doenças tropicais infecciosas no sul da Europa coincidem com a crise econômica que começou em 2009, na qual a Grécia, Espanha e Portugal apresentaram dificuldades econômicas e dependeram de ajuda financeira externa. Estas doenças não somente tendem a estar associadas a locais pobres, mas também as próprias doenças são a causa da pobreza.

Desde 2009 ocorreram na Grécia alguns casos de malária, o que pode ser preocupante, já que é uma das doenças que mais causam impactos na economia dos países afetados, principalmente na África. Seu impacto engloba despesas gastas com saúde, dias de trabalho perdidos, dias perdidos na educação, diminuição na produtividade devido às lesões cerebrais, migração, demografia e perda de receitas de investimento e turismo [2]. Porém, tudo leva a crer que outras doenças causadas por insetos vetores como a dengue e o Zika vírus também causem impactos negativos na economia, principalmente a segunda, que está associada com microcefalia e síndrome de Guillian-Barré.

Finalmente, as mudanças climáticas causadas pelos gases do efeito estufa emitidos através da queima de carvão, queima de combustíveis fósseis e outras atividades humanas, são também um fator importante, pois a temperatura do sul europeu tem aumentado, levando ao aparecimento de insetos e caramujos, vetores de agentes etiológicos causadores de doenças.

As mudanças climáticas também podem mudar a distribuição geográfica de algumas doenças infecciosas e de seus vetores [3]. Este é mais um fator pelo qual as mudanças climáticas e o aumento da temperatura global podem afetar países do sul europeu que sofrem frequentes introduções de insetos vetores e patógenos.

Existe ainda mais um importante fator que pode ser levado em consideração, a perda de biodiversidade, que pode ser ocasionada, entre outros fatores, pelas mudanças climáticas, pelo aumento das populações que invadem áreas não habitadas ou pelo desmatamento. A perda de biodiversidade pode levar ao aumento de doenças infecciosas, como a doença de Lyme, que é fortemente associada a este fator [4].

A emergência ou reemergência de doenças infecciosas negligenciadas em diferentes regiões nunca dependem de somente um fator, é muito mais provável que esse evento aconteça por uma rede multicausal de fatores que devem ser estudados e previstos, principalmente em países que podem sofrer com a expansão de doenças infecciosas.

Referências

  1. Hotez PJ. Southern Europe’s Coming Plagues: Vector-Borne Neglected Tropical Diseases. Aksoy S, editor. PLoS Negl Trop Dis. 2016;10: e0004243. doi:10.1371/journal.pntd.0004243
  2. Sachs JD, Malaney P. The economic and social burden of malaria. Nature. 2002;415: 680–685. doi:10.1038/415680a
  3. Lafferty KD. The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology. 2009;90: 888–900. doi:10.1890/08-0079.1
  4. Keesing F, Belden LK, Daszak P, Dobson A, Harvell CD, Holt RD, et al. Impacts of biodiversity on the emergence and transmission of infectious diseases. Nature. Nature Publishing Group; 2010;468: 647–652. doi:10.1038/nature09575
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Sobre memória e preservação documental

“A memória do mundo é a memória coletiva e documentada dos povos do mundo, ou seja, seu patrimônio documental, que representa boa parte do patrimônio cultural mundial. Ela traça a evolução do pensamento, dos descobrimentos e das realizações da sociedade humana. É o legado do passado para a comunidade mundial presente e futura.”[i]

 

Recentemente estive em Cuba para uma viagem de pesquisa cujo objetivo era coletar informação para minha tese de doutorado. Após quase dois meses na ilha, me deparei com uma verdade difícil de engolir para quem está na metade de uma pós-graduação: meu projeto era simplesmente inviável. Não porque eu não tivesse capacidade, tempo, ou recursos suficientes para tocar a pesquisa, mas por que a documentação que eu buscava simplesmente desvaneceu. Volumes inteiros de atas municipais e protocolos notariais, por exemplo, se converteram em pó. Ameaçados constantemente pela umidade caribenha, insetos, fortes chuvas e furacões, grande parte dos documentos dos séculos passados se desintegrou. Com eles, foi-se uma uma parte da história colonial cubana que jamais será recuperada. Uma quantidade inestimável de informação está permanentemente perdida, criando um silêncio sobre esse passado.

Não é apenas em Cuba que o patrimônio documental está ameaçado. São milhares de arquivos, bibliotecas, e coleções ao redor do mundo em perigo iminente. Guerras, deslocamentos forçados, desastres naturais ou simples descaso—os riscos são muitos e variados. Uma das primeiras coisas que pensei quando ouvi as notícias sobre o último furacão a passar pelo Caribe foi: putz, será que destruiu muito documento? (Claro, a preocupação com a vida humana sempre vem antes, mas o passo seguinte foi pensar na informação que também se perde em desastres como esse). No Brasil mesmo, há relatos de arquivos abandonados, depósitos com infiltrações, instituições sucateadas por falta de verba (quem lembra quando o Museu Nacional, mais antiga instituição científica do país, fechou temporariamente as portas no ano passado por falta de pagamento de funcionários?).

E por que é importante pensar na preservação do patrimônio documental?  Ora, através dele é possível acessar o passado, desvendar a história daquilo que veio antes de nós e, assim, construir conhecimento—sobre quem somos, como chegamos até aqui, etc. Quando parte dessa memória é permanentemente perdida, cria-se uma lacuna na narrativa do passado. Isso é um problema grave, já que significa apagar completamente do registro histórico eventos talvez de grande significância. Diversos órgãos, nacionais e internacionais, entendem o direito à memória como um elemento fundamental da cidadania; portanto, preservar os registros onde a memória se inscreve é essencial. Não se trata apenas de interesse acadêmico. Imagine, por exemplo, se um furacão como o Matthew passa pela sua cidade e destrói os prédios públicos onde estão armazenados os registros civis (nascimento, casamento, óbito, etc). Imagine que o mesmo furacão provocou enchentes no seu bairro, e a água levou seu documento de identidade e qualquer outro pedaço de papel que prove que você é você. E agora? Já pensou que dor de cabeça ter que recriar a sua identidade? Ah, mas no Brasil não tem furacão. Não. Mas tem enchente, incêndio, traça, desabamento… Ah, mas hoje em dia os registros estão todos digitalizados, estão no sistema. Não, nem todos. Principalmente os mais antigos. Então se você precisar comprovar sua árvore genealógica (pelos motivos mais diversos, como garantir indenização, pensão, divisão de bens, herança, descolar aquele passaporte italiano tão cobiçado, sei lá), talvez tenha que consultar os livros históricos do cartório, ou da igreja, ou do cemitério. E se esses livros estiverem todos carcomidos por traças, completamente ilegíveis? Pois é…. Agora imagine que milhões de pedacinhos de informação como esse estão, nesse instante, em risco de desaparecer completamente, apagando a memória de indivíduos como você, comprometendo o conhecimento futuro a respeito do tempo presente e do tempo presente a respeito do passado.

A boa notícia é que há esforços sendo feitos para preservar a memória do mundo. Em 1993, a UNESCO criou um programa com esse nome que visa garantir a preservação de coleções de grande importância através da reprodução dos documentos originais em diferentes formatos (microfilme, digital, etc). O órgão trabalha com governos ao redor do mundo para salvaguardar a informação. Uma década mais tarde, em 2004, a British Library—biblioteca nacional Britânica—criou um programa parecido, porém mais descentralizado, que tem o mesmo objetivo de preservar a memória e garantir o acesso à informação, o Endangered Archives Program, ou EAP. O diferencial do programa da BL é que ele é menos burocrático, no sentido de que não depende de governos e políticas públicas. Pesquisadores que identifiquem acervos em risco podem submeter um projeto de preservação a ser financiado pela biblioteca. Já são mais de 240 projetos diferentes financiados pela biblioteca ao redor do mundo, e os resultados estão totalmente disponíveis online na página da instituição. São manuscritos de monastérios Etíopes, resgistros de minorias no Vietnã, leis antigas escritas à mão na Índia, livros de batismo da população de origem africana em Cuba, e processos do tribunal da Paraíba, entre muitos outros. O fato dos materiais preservados serem acessíveis a qualquer pessoa que tenha acesso a um computador com rede me parece um dos maiores méritos do projeto. Em termos de democratização do conhecimento, é um passo enorme. Afinal, viajar para fazer pesquisa de campo não é fácil, principalmente em tempos de crise como o atual em que o financiamento para isso é podado. Mas na galeria do EAP é possível acessar os documentos sem sair de casa! Quantos trabalhos podem ser escritos através dessas coleções! Recursos como esse podem inclusive ser utilizados nas escolas, possibilitando que alunos de colegial trabalhem com fontes primárias antes inacessíveis.

Se deparou com algum acervo em risco durante sua pesquisa? Pense na possibilidade de coordenar um projeto de preservação. As informações sobre como enviar propostas podem ser encontradas no site do EAP. E sabe aquelas fotos que seu avô tirava quando era jovem que estão abarrotadas em um caixa de sapato no fundo da gaveta juntando pó? Ou os selos que sua tia colecionava e que estão esquecidos em um canto qualquer? Já pensou em doá-los a alguma instituição arquivística e contribuir para a preservação do patrimônio documental? Fica a dica.

Para saber mais:

-Maja Kominko, ed. From Dust to Digital: Ten Years of the Endangered Archives Programme. Disponível em format Open Source em: http://www.openbookpublishers.com/product/283

-Coleções digitais do Endangered Archives Program http://eap.bl.uk/database/collections.a4d

-Heloisa de Faria Cruz. “Direito à memória e patrimônio documental.” Em: História e Perspectivas, Uberlândia (54): 23-59, jan./jun. 2016.

-Franciele Merlo e Glaucia Vieira Ramos Konrad. “Documento, história e memória: a importância da preservação do patrimônio documental para o acesso à informação.” Em: Inf. Inf., Londrina, v. 20, n. 1, p. 26 – 42, jan./abr. 2015 (disponível em http:www.uel.br/revistas/informacao/)

-“Historiadores digitalizam documentos históricos da Justiça paraibana” http://www.cnj.jus.br/noticias/judiciario/81862-historiadores-digitalizam-documentos-historicos-da-justica-paraibana – mais detalhes sobre o Projeto n.627 da BL em: http://eap.bl.uk/database/overview_project.a4d?projID=EAP627;r=41

-Registros eclesiásticos coloniais da população africana nas Américas, em particular no Brasil, Cuba, e Colômbia: Ecclesiastical & Secular Sources for Slave Societies

[i]                   UNESCO, Programa Memória do Mundo. Disponível em: http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/communication-and-information/access-to-knowledge/documentary-heritage/