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Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

transmissão

Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012

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“Precisamos (…) lutar por um outro mundo possível”- Entrevista a Marcia Tiburi

O que eu teria gostado de realizar esta entrevista numa esplanada, ao sol, com algum friozinho, a sentir um ventinho no rosto e a beber um chá ou um café bem quente! Sem tempo contado, para poder falar com esta mulher inspiradora das ciências sociais e humanas – Marcia Tiburi – sobre vários temas da actualidade, e ficar a conhecer melhor o seu pensamento. Mas, mesmo que fosse viável encontrarmo-nos pessoalmente, nos dias que correm isso seria impossível, porque nos encontramos em confinamento, devido ao coronavírus. E é precisamente sobre este tema que nos vamos debruçar, numa conversa virtual, como ditam as boas regras do isolamento social. Marcia Tiburi dispensa grandes apresentações: de nacionalidade brasileira é doutorada em filosofia, professora universitária, escritora, artista plástica, política e tem mais de vinte obras publicadas na área das ciências sociais, que falam por si.

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Marcia Tiburi (foto cedida pela própria) 

Helena Ferreira (HF) – Como analisa este contexto distópico, que ninguém esperava, e para o qual não estávamos preparados, que estamos a viver?

Marcia Tiburi (MT) – Helena, é um momento distópico, de fato. A sensação da distopia nos surge no momento em que algo que deveria ter ficado escondido, de repente, apareceu. É o que Freud chamava de “unheimliche”, quando o que é familiar se torna estranho e o estranho se torna familiar. Estamos dentro disso. Chance para que o sistema econômico seja modificado, pois é o sistema econômico que nos levou a esse estado de coisas. O vírus pode ser forte, mas em uma sociedade baseada em outros valores que não os da mercadoria, tudo seria mais fácil. O sistema econômico atinge o sistema de saúde e todos os sistemas, de educação, de informação. Nesse sentido, não é um exagero dizer que o capitalismo funciona como um vírus. Tem o mesmo metabolismo viral. Eu tenho descrito em meus livros, de ficção e não ficção, essas situações distópicas. Creio que a literatura já antecipou as catástrofes que as ciências sociais e a filosofia demoram muito para ver.

HF – O mundo está a responder de forma adequada contra o coronavírus ou esta luta tem sido prejudicada pelas agendas políticas nacionais de alguns governos?

MT – Certamente o vírus vem a ser uma pedra no sapato de um certo capitalismo, aquele que sustenta o capitalismo rentista. O capitalismo não é um bloco fechado, ele é uma teia, tem realmente a estrutura de uma web. Não é a toa que a internet tenha surgido no seu bojo realizando aquilo que é a racionalidade da dominação enquanto racionalidade técnica. O mesmo acontece com o vírus e, nesse caso, o biológico é análogo à técnica digital que se espalha por tudo e a todos conecta. Não devemos ter contato nesse momento, senão o digital e isso sinaliza para o fato de que a nossa experiência humana está sendo ontologicamente modificada. Governantes tirânicos ou fascistas nesse momento, agem em conluio com o vírus, como é o caso de Jair Bolsonaro que, em vez de enfrentar e combater o vírus, está deixando as pessoas morrerem à mingua no Brasil enquanto faz discursos absolutamente fascistas, de ódio e descaso com o sofrimento do povo.

HF – Corre-se o risco desta pandemia ser usada para aumentar o fascismo, o nacionalismo e a xenofobia? Ou, pelo contrário, esta crise poderá aumentar a solidariedade entre as pessoas e os povos?

MT – O fascismo e o neoliberalismo são duas faces da mesma moeda. Uma é política, a outra é econômica. Em todos os momentos em que o capitalismo se viu ameaçado ele contra-atacou ferozmente e não será diferente na sua fase neoliberal. O fascismo não existiria sem o avanço do neoliberalismo. E não teria sido implantado no Brasil se não fossem interesses tipicamente econômicos das elites neoliberais. Nacionalismo e xenofobia crescem nesses meios. O caso do Brasil é interessante porque se trata de um fascismo de subserviência, sem nacionalismo, já que Bolsonaro tem uma subserviência sadomasoquista a Trump. A xenofobia no Brasil é uma questão menos comum, porque temos por lá o racismo que é imenso. O ódio é mais lançado aos habitantes internos do que aos estrangeiros, afinal lá nascemos também todos como estrangeiros e há quem ainda se ache estrangeiro e colonizador. Poderíamos falar, se tivéssemos tempo, da figura do colonizador interno. Há, é verdade, a solidariedade que surge na contramão disso tudo. A questão é saber se ela poderá fazer frente a isso tudo. Se ela não é uma arma muito delicada diante das bombas atômicas do neoliberalismo de rapina que avança sobre a terra.

HF – A pandemia colocou a nu a fragilidade do ser humano, nesta era que a Marcia considera de desinformação. As pessoas, bombardeadas com notícias a toda a hora, sentem a ameaça à sua volta, o medo. Como considera que se podem proteger disto?

MT – Essa é a pergunta mais difícil. As pessoas foram capturadas subjetivamente pelo capitalismo, e muitos pelo fascismo em um processo complexo sobre o qual pouco sabem. Na prática, eu acredito que somos formados por meios. Somos subjetivados pelos meios, ou seja, somos construídos internamente pelos meios de comunicação. Os livros nos formam de um modo, diferente do modo como somos formados pela televisão, do modo como somos formados pelo computador, pela linguagem que se pode usar nas redes sociais. Todos os meios envolvem jogos de linguagem. Nesse sentido, podemos jogar o jogo de linguagem da reflexão, da literatura, da poesia, ou podemos jogar o jogo de linguagem da violência, do fascismo. Para nos protegermos, precisamos cuidar do que pensamos e melhorar nossa relação com os meios que utilizamos. Portanto, é preciso voltar à reflexão, ao raciocínio e à compreensão da complexidade.

HF – Não poderia deixar de perguntar: Há questões de género nesta crise? Isto é, o impacto do coronavírus é diferente para homens e mulheres? O que pode ser feito para colmatar essas questões?

MT – Há, certamente. O aumento da violência doméstica é algo que se expande em todos os países do mundo sob o confinamento. Em relação a isso, podemos denunciar e fortalecer as redes de apoio e informação às mulheres vítimas nesse momento.

HF – Sendo a Marcia uma grande defensora de que a filosofia não deve ficar confinada na academia e que deve promover a reflexão, pergunto-lhe, qual o papel da filosofia, e das ciências sociais, de um modo geral, no meio desta crise? O que têm a dizer? E qual a utilidade disso?

MT – A meu ver, não é possível tratar a filosofia, ou qualquer forma de conhecimento social, como algo dissociado do mundo da vida. De fato, há um prazer imenso na pesquisa filosófica super especializada. Ler e estudar filosofia é um prazer em si mesmo. Porém, há que se levar em conta a contribuição social do saber e da pesquisa. Além disso, creio que a filosofia constrói mundos, constrói patamares a partir dos quais se desenvolvem mentalidades que atravessam instituições e o mundo da vida. Mal usada ela pode produzir aberrações paranoicas. O presidente do Brasil é aconselhado por um “guru” que se diz filósofo que promove o avanço da paranoia no Brasil. Como dizia Freud: a paranoia é um sistema filosófico que não deu certo. Por isso, todos os professores de filosofia nesse momento devem sentir-se convocados a salvar o pensamento reflexivo que é o inimigo mortal do fascismo.

HF – Por último, pergunto-lhe: depois disto, acredita que o mundo vai ser o mesmo? O que muda? Tem alguma mensagem de esperança?

MT – Eu prefiro não trabalhar com o método da crença. Prefiro trabalhar com probabilidades relacionadas a análises e com muito cuidado na hora de falar. Há pouco tempo, uma jornalista me disse que tinha medo dos meus livros, de ficção e não ficção porque eles antecipavam coisas que estavam acontecendo. Não tem nada de místico nisso. Se trata de um processo em que investigação e observação se entrelaçam. O mundo vai continuar após o trauma e deve se esforçar por elaborar o trauma. Os países que tiverem governos menos mesquinhos, ou seja, menos atrelados ao neoliberalismo tendem a se reconstruir com menos sofrimento do que aqueles nos quais o neoliberalismo é a ordem subjetiva e objetiva. Infelizmente, esse é o caso do Brasil. Por lá haverá muitos mortos ainda, como há na Europa e nos Estados Unidos. Esse é um momento de decisão para todos em que vai contar o valor que se dá à vida e à ideia de uma comunidade humana. O neoliberalismo e o fascismo não tem interesse em constituir essa comunidade. O que pretendem é salvar seus sócios, apenas isso. Precisamos, portanto, lutar por um outro mundo possível. Eu creio que é possível, mas não sob o signo do fascismo-neoliberalismo.

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Coronavirus, Pós-Graduação e Maternidade no Brasil: um difícil diálogo.

MAIO 11,2020| @ianycosta

Imagem 1: https://www.eucurtosermae.com.br/2016/12/vida-de-mae-academica.html. Acesso em: 14/04/2020.

O Coronavírus está fazendo sua escala ascendente de vítimas no Brasil e no mundo [1]. Muito se tem dito sobre sua origem, embora não haja um consenso entre os cientistas. Sabemos que esse vírus sofreu mutação, apresentando significativa letalidade e o seu contágio é rápido. Como não existe um tratamento eficaz comprovado para enfrentar a pandemia, o isolamento social é a única alternativa para conter o contágio. No Brasil, entre brigas de poder e de ego, estamos vivenciando os embates entre os entes federativos, alguns embasados pela ciência e outros pelos fakes news para sabermos se continuamos ou não com isolamento. Felizmente para a maior parte dos nossos governantes e sanitaristas estamos em isolamento social até a segunda ordem.

Deste modo, em meio a um isolamento necessário se levantam muitas questões e incertezas, nunca em nossa história recente tivemos que nos recolher, estar em casa com os nossos (quando se têm casa). O que denota o grande abismo social brasileiro que em meio à pandemia torna-se cada vez mais evidente [3]. Por essa razão nunca foi tão urgente se efetivar a política de renda básica universal [4], não apenas um atenuante provisório como o concedido pela lei 13.982/20.

Neste cenário, onde estão as universidades públicas do Brasil? Em sua maioria integram a frente da pesquisa sobre a doença e medidas de segurança em diferentes formas [5]. E os discentes? Da graduação à pós-graduação estão em casa (na medida do possível/impossível), com a suspensão das aulas, algumas universidades tem adotado a suspensão do Calendário Acadêmico 2020 para a Graduação [6]. E a pós onde entra? Não entra, na verdade, a pós nunca para e com isso os prazos também não. É bem sabido que nós pós-graduandas e cientistas brasileiras nunca vivemos um momento tão ruim, não apenas por conta do vírus, mas também por uma política que se estabeleceu na Educação do qual não fazemos ciência, fazemos balbúrdia!

E como boas balburdiadoras que somos, estamos remando contra a maré, mas como continuar com laboratórios fechados e pesquisas paradas? O espaço do lar é para todas lugar de produção científica? Estas perguntas são latentes frente a mais um corte de bolsas de pesquisa [7]. Como seguir produzindo sem bolsas, em casa e para muitas com filhas/os precisando de atenção? Para as mães na pós-graduação como prosseguir produzindo e ao mesmo tempo dar conta dos filhos/as?

Em um cenário de incertezas, a única certeza são os prazos, pois a pós-graduação no Brasil não é mãe, ela é carrasca. Então, para muitas mães como a que vos escreve, estamos vivenciando a difícil tarefa de conciliar prazos e cuidados d@s filh@s, é certo que nessas horas a sobrecarga e medo de não dar conta são companheiras de escrita e pesquisa.

Uma situação que se soma a “via crucis” da bolsa de pesquisa no Brasil, que para as que são bolsistas a luta é para não perder, mas para aquelas que não conseguiram a bolsa a possibilidade deste fomento está cada vez mais distante. Deste modo, em um momento necessário de isolamento social por conta da COVID-19, sustentar a pisada de se manter na pós, sem deixar a maternidade de lado torna-se um balé equilibrista. Quem poderá socorrer a nossa saúde mental?

E a posição das agências de fomento qual é? [8] estendem prazos de defesa para bolsistas, juntamente com a prorrogação das bolsas por igual período [9], mas não contemplam as não bolsistas e continuam a pressionar por produtividade. Por isso a necessidade de nos unirmos para resistir a mais uma avalanche. Li recentemente um artigo sobre o direito a procrastinar na quarentena [10], temática relevante mas que na pós-graduação não tem espaço, assim como ser mãe e pós-graduanda também não.

Com isso, nunca foi tão necessário discutir como tem se pautado as políticas da pós-graduação no Brasil. Em um momento em que o século XXI está ruindo [11], muito tem se falado de como será o mundo pós-COVID-19. Eu me pergunto como ficam as nossas pesquisas e prazos hoje? Quem der conta do recado receberá um singelo “parabéns” e aquelas que ficarem no caminho?

Em tempos de Coronavírus, nunca foi tão importante resistir, ou melhor, r-existir e lutar para permanecer na pós-graduação brasileira, não só por nós, mas por noss@s filh@s, por outra forma de sociedade, outra forma de pós-graduação onde o sujeito seja visto para além dos prazos. O Coronavírus veio para trazer muitas dúvidas, medos, mas importantes lições e a primeira delas é que a vida é o bem mais precioso. Por isso, se somos nós mulheres que geramos a vida, então que lutemos para que a nossa vida e nossa saúde mental dentro das pós-graduações brasileiras, sejam valorizadas além dos muros que a pontuação no Sucupira insiste em estabelecer!

Referências

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-17/ao-vivo-ultimas-noticias-sobre-o-coronavirus-no-brasil-e-no-mundo.html. (17/04/2020).

[2] https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9 (14/04/2020).

[3] https://www.brasildefato.com.br/2020/04/05/preocupacao-de-bolsonaro-com-o-combate-a-fome-e-falsa (07/04/2020).

[4] https://www.cartacapital.com.br/politica/precisamos-garantir-renda-basica-para-todos-os-brasileiros-defende-suplicy/ (05/04/2020).

[5] https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/04/de-norte-a-sul-a-corrida-das-universidades-publicas-contra-a-covid-19/ (02/04/2020)

[6] http://portais.univasf.edu.br/seac-gr/noticias-seac-gr/univasf-mantem-suspensao-do-calendario-academico-devido-a-pandemia-da-covid-19 (06/04/2020).

[7] https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/portaria-da-capes-corta-bolsas-de-diversos-programas-de-pos-graduacao1 (01/04/2020).

[8] http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-36-de-19-de-marco-de-2020-249026197 (12/04/2020).

[9] https://www.capes.gov.br/36-noticias/10295-capes-prorroga-a-duracao-das-bolsas-de-mestrado-e-doutorado (30/04/2020).

[10] https://medium.com/@rntpincelli/quarentena-porque-vc-deveria-ignorar-toda-a-pressao-para-ser-produtivo-agora-3f4f0b8378ae (15/04/2020).

[11] https://jornal.usp.br/artigos/covid-19-o-nascimento-de-um-novo-seculo-e-os-laboratoriossociais/?fbclid=IwAR3Q3UAUAC2gcbUN_e12MoV7PRKk4I_zY_nCiZhUVL7sx0rxX3nx2W1Pnw (16/04/2020).

BRASIL. Decreto 10.316/2020.  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/D10316.htm  (08/04/2020). 

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Marcha pela Ciência: por que ainda estamos marchando por fatos?

Em maio do ano passado, milhares de cientistas em diversas cidades brasileiras reuniram-se para realizar a chamada Marcha pela Ciência. O movimento, iniciado há alguns anos nos Estados Unidos (e originalmente chamado de March for Science), fez coro com mais de um milhão de cientistas de mais de 600 cidades do globo, que saíram das universidades às ruas para promover conscientização sobre a importância da ciência na vida das pessoas.


Início da concentração para a Marcha pela Ciência no vão do MASP, em São Paulo. Foto por Rebeca Bayeh.


Concentração para a Marcha pela Ciência em São Paulo. Foto por Marta Brietzke


Marcha pela Ciência na altura do metrô consolação, em São Paulo. Foto por Marta Brietzke

O dia da Marcha brasileira em 2019 coincidiu com o anúncio do primeiro corte de bolsas “ociosas” de mestrado e doutorado pelo governo Bolsonaro. Desde então, os cortes nas verbas destinadas a ciência e educação sofreram diversos novos cortes.

Ainda no ano passado, em julho, cientistas brasileiros se reuniram novamente na Avenida Paulista para expor para o público geral um pouco do seu trabalho dentro das universidades e explicar conceitos científicos de forma lúdica. As exposições científicas abordaram desde paleontologia até robótica, contando com a participação da equipe ThundeRatz da Escola Politécnica da USP, que já vinha participando das Marchas pela Ciência. Mariana Oliveira, membra da equipe, contou que ao falar sobre ciência para o público “as pessoas realmente se interessam, páram e perguntam”.

A professora Katia Oliveira, docente na UNIFESP, que junto à professora Erica Suzuki coordena o projeto Patógenos em Jogo, contou à epoca que “muitas pessoas do público leigo têm parado, têm se impressionado com tudo que a Universidade tem proporcionado”, e adiciona: “ninguém defende o que não conhece, então este é um passo muito importante […] e é uma vocação social da universidade, fazer divulgação científica”.

O projeto de Katia e Erika busca ensinar para o público sobre agentes infecciosos e as doenças causadas por eles através de jogos educativos. Katia conta que cada vez mais seus colegas têm se engajado em comunicar seu trabalho para o público, e aponta que ainda hoje em dia poucas pessoas têm real compreensão do que acontece dentro da universidade pública: “A população em geral tem uma visão muito simplista de que a universidade é o lugar em que o aluno senta, estuda e se forma profissional”, e completa que “a universidade pública tem uma dimensão muito maior, de pesquisa e extensão”. Katia se referia aos três pilares da universidade pública: o ensino, a pesquisa e a extensão, sendo a extensão qualquer atividade de compartilhamento de conhecimento da universidade junto à comunidade.


Verme de pelúcia da equipe do Patógenos em Jogo. Foto por Rebeca Bayeh

A Marcha pela Ciência é uma das muitas iniciativas em que cientistas e entusiastas da ciência têm se engajado para fazer divulgação científica. O movimento é apartidário, e tem como princípios a propagação de ideias baseadas em fatos e a ciência enquanto bem necessário para o progresso da sociedade e o bem-estar de toda a população. No Brasil, o movimento é apoiado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência e pelos Cientistas Engajados.

Normalmente, nos cartazes das Marchas pela Ciência ao redor do mundo, algumas das frases escolhidas pelos cientistas são “no começo de todo filme de desastre há um cientista sendo ignorado”, “fale agora ou aprenda a nadar” (em referência ao aquecimento global, outro problema sobre o qual cientistas vêm alertando a população há décadas) ou ainda “você teve rubéola? Eu também não, graças à ciência”, em referência às vacinas, que protegem milhões de vidas todos os anos.

Os dizeres, que fazem alusão aos riscos de se ignorar fatos científicos com implicações para toda a sociedade, parecem escancarar mais do que nunca uma realidade que tem sido ignorada pelo governo brasileiro: Todos precisam de ciência. É uma espécie de grito coletivo daquilo que não deveria ser gritado para ser escutado: os fatos.

Em 2020, o mundo está se deparando com uma pandemia sem precedentes, cujos riscos também têm sido previstos e alertados há anos por cientistas, evidenciando mais ainda a função da ciência para a sociedade. Quaisquer que sejam as potenciais soluções para a pandemia, sejam elas vacinas, tratamentos, prevenção de pioras por uso inadequado de medicamentos, formas de detectar o vírus SARS-CoV-2 e todas as medidas que atualmente estão salvando milhões de vidas ao redor do mundo, como o distanciamento físico, são construídas a partir do conhecimento científico.

A propagação de fake news, soluções mágicas para a pandemia sem embasamento científico e o negacionismo praticado pelo atual governo já matou centenas de pessoas no Brasil. O engajamento da população não apenas nas medidas de prevenção do contágio mas também na propagação de fatos baseados em evidência se faz mais do que nunca necessário. Apenas soluções coletivas resolverão problemas coletivos. Já passamos há muito tempo da fase em que ignorar os fatos era uma opção.

Hoje, dia 7 de maio de 2020, respeitando as medidas de distanciamento físico, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência está organizando a primeira
Marcha Virtual pela Ciência. A programação completa pode ser acompanhada aqui.

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Explicando um modelo de espalhamento de doenças que tem sido bastante utilizado para descrever a evolução da COVID-19

Quando Newton descreveu a queda de uma maçã usando a lei da gravitação, ele encontrou uma maneira de descrever a queda dos corpos que funciona não só para maçãs, mas para bananas, mangas ou melancias. Funciona não só na Inglaterra, mas em qualquer outro país, ou em qualquer outro planeta. Essa é a beleza de encontrarmos bons modelos. Conhecendo o limite de validade do modelo, podemos fazer generalizações com razoável segurança. Podemos inclusive descrever a queda de uma fruta de que nunca tenhamos ouvido falar antes. 

Quando falamos de espalhamento de doenças, epidemias ou pandemias, existem algumas propriedades que são comuns a este processo independente do tipo da doença: gripe, ebola, rubéola; ou do país onde ela se espalha: China, Inglaterra, Brasil.  No exemplo do Newton, a força que o planeta exerce sobre uma fruta muda dependendo da massa da fruta e do planeta, mas a equação para a força gravitacional com que um corpo atrai o outro continua a mesma. Nos modelos de espalhamento de epidemia cada doença ou cada país pode ter parâmetros diferentes na velocidade do espalhamento ou da recuperação de infectados por exemplo. Mas, em princípio, um modelo epidêmico pode ser útil para estudarmos, inclusive, uma doença nova que descobrimos há apenas alguns meses como a COVID-19.  

Um dos modelos mais utilizados para descrever o espalhamento de doenças é chamado SIR e considera que cada indivíduo de uma população pode estar em 3 estados possíveis: Suscetível  (ainda não foi contaminado e não possui resistência ao vírus), Infectado (doente e transmitindo a doença) ou Removido (indivíduo curado ou morto). Indivíduos Suscetíveis podem tornar-se Infectados quando contaminados e, depois de um certo tempo, se recuperam ou falecem (tornando-se Removidos). Eventualmente todo Infectado se tornará Removido, mas nem todo Suscetível se tornará Infectado. Portanto, consideramos que a quantidade de  pessoas suscetíveis S, infectadas I e removidas R varia no tempo t. A dinâmica da população é exatamente a descrição de como esses números variam no tempo, e pode ser representada por um conjunto de equações diferenciais (equações para taxas de variações no tempo). Essas equações precisam garantir que S diminui cada vez que alguém é infectado (e consequentemente I aumenta) e que I diminui cada vez que alguém se recupera ou morre (o que aumenta R). Assim, numa população com um número fixo de N pessoas, a quantidade total de indivíduos Suscetíveis, mais a de indivíduos Infectados, mais a de pessoas Removidas (S+R+I) é fixa e igual a N.

Uma variante deste modelo chamada SEIR tem sido utilizada pelo grupo de epidemiologistas do Imperial College para estimar a evolução da epidemia de COVID-19 em vários países [1]. Os estudos desse grupo têm influenciado as decisões políticas do Reino Unido sobre a necessidade de isolamento da população. O modelo SEIR descreve como varia no tempo a quantidade de indivíduos Suscetíveis, Expostos (foram contaminados mas estão em período de incubação e ainda não são contagiosos), Infecciosos (o indivíduo pode transmitir a doença e os indivíduos sintomáticos começam a exibir os primeiros sintomas) e Removidos (pessoas isoladas que podem vir a ser curadas, hospitalizadas ou mortas). 

Figura 1: Esquema do modelo SEIR para descrever a propagação de doenças como a COVID-19. O parâmetro mais importante do modelo é o R0 chamado número de reprodução da doença e indica em média quantos Suscetíveis são infectados por um Infeccioso. Modificada das Refs. [2,5].

 

Na figura 1 podemos ter uma ideia do tempo médio que um indivíduo passa nos estados E e I (tempo de incubação e tempo infeccioso). Esses tempos dependem dos dados clínicos da doença e foram estimados na referência [1]. A taxa com que Suscetíveis viram Expostos depende tanto do tempo infeccioso (Tinf) como do parâmetro epidemiológico R0, chamado de número de reprodução de base. Na prática, este é o nosso parâmetro mais importante: R0 representa o número médio de contágios provocados por um indivíduo Infeccioso. No caso da COVID-19 estima-se R0 entre 2,4 e 3,0 [1]. Ou seja, uma pessoa doente, infecta entre 2 e 3 pessoas durante todo o período em que transmite a doença. Portanto a taxa com que o número S diminui no tempo é proporcional a R0/Tinf (veja Ref. [1,2,3] para saber mais detalhes matemáticos do modelo).

O número de reprodução efetivo Ref é proporcional ao R0 e à mobilidade dos indivíduos e, portanto, varia quando medidas de isolamento são tomadas. Por exemplo, se todos os Expostos fossem perfeitamente isolados antes de passarem a ser Infecciosos, eles não transmitiriam a doença para mais ninguém e Ref seria zero. Quando Ref>1 a doença infecciosa se espalha exponencialmente pela população; quando Ref<1 o número de Infecciosos passa a diminuir e a doença não tem potencial para se propagar na população. Para um R0 de 2,7, típico do coronavirus, é necessária uma redução de cerca de 70% na mobilidade das cidades para garantir Ref<1. Esta redução tão rígida é o que temos chamado lockdown.  

Nos últimos dias, o grupo do Imperial College publicou um novo estudo [4] estimando o Ref de vários países baseados na evolução da doença em cada lugar por diferentes métodos. Nesse artigo o Ref do Brasil foi calculado em 2,8 enquanto o da Alemanha foi de 0,8.  Ou seja, mantendo fixas as medidas de isolamento nos dois países, o número de novos infectados deve seguir diminuindo na Alemanha, e aumentando aqui no Brasil. É importante salientar que qualquer diminuição no Ref gera o tão citado achatamento da curva e pode ajudar a não sobrecarregar os hospitais. Por isso, reduções de mobilidade de cerca de 50%, ainda que não garantam a diminuição exponencial do número de infectados (como ocorreria com o lockdown), estão sendo fundamentais para os estados se preparem para enfrentar o pico da epidemia, por exemplo, comprando testes, EPIs, contratando profissionais de saúde e expandindo o número de leitos.

Utilizando dados específico da COVID-19 como porcentagem de pessoas hospitalizadas e taxa de fatalidade da doença por faixa etária, é possível usar o modelo SEIR para estimar o número de leitos que serão utilizados nos hospitais em cada estado. Por exemplo, um grupo de pesquisadores brasileiros tem empregado o modelo do Imperial College [1] para estimar a evolução da doença no estado de Alagoas e em outros estados do Nordeste [4]. Utilizando a pirâmide etária de Alagoas e as proporções de casos hospitalizados, internados em UTI e fatalidades distribuídas por faixa etária (obtidas a partir de dados de COVID-19 na China [1]) foi encontrado que 96,8% dos Removidos terão sintomas leves ou serão assintomáticos, 2,4% precisarão ser internados em leitos normais de hospital e 0,8% precisarão de leitos de UTI (veja Fig. 2) [4].

Figura 2: Esquema do modelo SEIR incluindo as informações sobre os Removidos para estimar número de leitos necessários nos hospitais da região. Os doentes podem ser separados em três grupos: sintomas leves ou assintomáticos, os que necessitam leitos normais de hospital e os que necessitam UTI. Modificada da Ref. [5].

 

Simulações da evolução do modelo SEIR para o estado de Alagoas indicavam que se, no começo de abril, as medidas de isolamento social fossem suspensas seriam necessários mais de 5000 leitos de UTI em junho. Na Fig. 3a vemos os resultados das estimativas de leitos necessários caso não fossem mantidas as medidas de isolamento social iniciadas em março (usando 𝑅0=2,7). Foram utilizados número diferentes de Infecciosos iniciais I(t=0)) para levar em conta a subnotificação dos casos: as linhas tracejadas indicam I(t=0)=30, enquanto as contínuas mostram os resultados para I(t=0)=300. Visto que o número de leitos de UTI no estado em maio será pouco maior que 250, o estudo mostrou não apenas que o isolamento social deveria ser mantido, mas também que a taxa de mobilidade deveria ser ainda menor para diminuir o Ref no estado e achatar a curva roxa na Fig. 3a. De fato, um segundo relatório comparou a ocupação real das UTIs com as simulações para Ref=1,5 considerando a redução na mobilidade graças às medidas de isolamento (ver Fig. 3b.). Esse tipo de previsão pode auxiliar nas decisões políticas de diferentes regiões sobre a necessidade de lockdown e no esclarecimento das dúvidas da sociedade sobre por que tantos sacrifícios são necessários nesses tempos de pandemia. Para saber mais sobre isto indico o excelente vídeo da Ref. [6] e outros sites confiáveis na Ref [7].

 

Figura 3: Simulação computacional utilizando o modelo SEIR com dados do estado de Alagoas para estimar número de leitos hospitalares necessários durante a epidemia de COVID-19. (a) Estimativa no caso sem isolamento social. (b) Estimativa mantendo o isolamento adotado em março e comparação com os dados reais de internados. Modificada da Ref. [5]

 

Referências 

[1] Neil M Ferguson, Daniel Laydon, Gemma Nedjati-Gilaniet al.Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand.Imperial College London (16-03-2020),doi:https://doi.org/10.25561/77482.

[2] Binti Hamzah FA, Lau C, Nazri H, Ligot DV, Lee G, Tan CL, et al. CoronaTracker: World-wide COVID-19 Outbreak Data Analysis and Prediction. [Submitted]. Bull World Health Organ. E-pub: 19 March 2020. doi: http://dx.doi.org/10.2471/BLT.20.255695

[3] O modelo SEIR é matematicamente descrito pelas 4 equações diferenciais a seguir. (É possível também utilizar um modelo SEIR para cada município e acrescentar ao modelo os efeitos da mobilidade das pessoas entre as cidades.)

[4] https://mrc-ide.github.io/covid19-short-term-forecasts/index.html

[5] Relatórios sobre COVID-19 no estado de Alagoas: https://im.ufal.br/laboratorio/led/iniciativas-covid19/.

[6] Vídeo do Átila Iamarindo sobre a necessidade de Lockdown: https://youtu.be/gs-HlvC5iJc

[7] Outros sites úteis e confiáveis com números e informações sobre a pandemia:

https://www.worldometers.info/coronavirus/

https://covid19br.wcota.me/

https://www.comitecientifico-ne.com.br/

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Origem e transmissão: uma visão geral sobre a pandemia do COVID-19

Origem e o vírus 

Em dezembro de 2019, teve início o surto de pneumonia na cidade de Wuhan, na China, sendo os primeiros casos associados ao mercado de frutos do mar da cidade. Em pouco tempo, a doença se espalhou pela China, atingiu outros países, continentes, e tomou as proporções de uma pandemia, conforme decretado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020. No final de janeiro deste ano, a OMS  havia declarado que o novo Coronavírus era uma situação de emergência internacional, sendo um dos seis maiores problemas de saúde pública já registrados, entre eles o H1N1 (2009), a pólio (2014), o Ebola na África (2014), o Zika vírus (2016) e o surto de Ebola na República Democrática do Congo (2019). Este não é o primeiro surto, nem a primeira pandemia que a humanidade enfrenta, como exemplos históricos temos a peste negra, a gripe espanhola, e podemos aprender com as semelhanças desses episódios, como discutido no texto aqui do blog: “O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?”

O agente etiológico da pneumonia foi identificado como um novo β-coronavírus, um vírus envelopado de fita única de RNA, nomeado SARS-CoV-2, e a doença foi chamada de COVID-19. Os Coronavírus são divididos em 4 gêneros, α, β, γ e δ-CoV, sendo que α e β são capazes de infectar mamíferos, enquanto que os demais causam infecções em aves. Antes do surgimento do SARS-CoV2, já existiam 6 CoVs capazes de causar infecção em humanos, contudo 4 causam apenas infecções leves, do trato respiratório superior, com um resfriado normal. Contudo outros ꞵ-coronavírus também são agentes mais agressivos, sendo capazes de causar infecções graves e até mesmo fatais, sendo que em 2003 houve um surto de SARS1 (SARS-CoV-1),e em 2012 de MERS (MERS-Cov) (Síndrome Respiratória do Oriente médio). A MERS tornou-se endêmica no Oriente Médio e desencadeou um grande surto secundário em Coreia do Sul, com alta mortalidade e sem tratamento específico. 

Existem várias teorias a respeito do início da pandemia atual, do COVID-19, no entanto nenhuma confirmada até o momento. Às informações são muito recentes e têm se atualizado constantemente e com grande velocidade, devido a preocupação mundial com este vírus. Os primeiros casos relatados na China, tinham um foco em comum, o mercado de frutos do mar. No entanto, o vírus não é transmitido pelo consumo ou manuseio desses alimentos. Neste mercado também são vendidos, de forma ilegal, animais exóticos e silvestres para consumo, que poderiam também conter o vírus. Outros Coronavírus têm como hospedeiros intermediários morcegos, roedores e camelos. O vírus MERS passou para os humanos, através do contato com camelos, e acredita-se que de alguma forma o vírus SARS-CoV-2 possa estar relacionado ao morcego, ainda que o vínculo do início da infecção não seja claro até o momento. Isso porque a análise do genoma viral, bem como análises evolutivas e filogenéticas do SARS-CoV-2 mostram que a maior similaridade do vírus humano é com o vírus do morcego. O vírus apresenta 79% de similaridade com a família SARS-CoV, e mais de 95% de similaridade com o vírus CoV RaTG13 do morcego. Esses dados reforçam a ideia, de que de alguma forma, o morcego tenha tido um papel importante na transmissão do vírus para humanos, e no início dessa pandemia. 

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Imagem 1. Características e origem do Vírus SARS-CoV-2. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

Transmissão e diagnóstico

 O SARS-CoV-2 tem parado todo o mundo e atraído a atenção de todos, devido a sua altíssima transmissibilidade. Até o dia 05 de maio de 2020, segundo dados do Ministério da Saúde (covid.saude.gov.br), o Brasil registrou 107.780 casos confirmados, 7.321 óbitos e taxa de letalidade de 6,8%, sendo São Paulo o estado mais atingido, com mais de 30 mil casos confirmados. E estes números são ainda subestimados, devido a carência de testagens em massa na população brasileira e aos casos assintomáticos e leves. Estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, estima que o número real de casos seja até 4 vezes maior do que os confirmados.

A principal rota de transmissão se dá por contato de pessoas sadias com  gotículas expelidas do trato respiratório superior de pessoas infectadas, objetos e/ou superfícies contendo o vírus. A presença do vírus em amostras de soro, urina e fezes não permite que se descarte a possibilidade de outras vias de transmissão. No entanto, é no contato próximo com uma pessoa infectada, sintomática ou não, que está o maior risco de transmissão. Este contato próximo, como uma conversa com a pessoa infectada sem respeitar a distância mínima de 1 metro do outro, é o que permite que o vírus expelido  contamine outras pessoas ou os objetos à sua volta. A principal forma de prevenção é a lavagem de mãos frequentemente com água e sabão, uso de álcool gel (70%), e o distanciamento social. Às importâncias dessa medida são discutidas no texto aqui do blog: Achate a Curva! O que significa crescimento exponencial e o novo coronavírus 

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Imagem 2. Dicas de prevenção do Ministério da Saúde.

 O tempo médio da infecção até o aparecimento dos primeiros sintomas é de 5 dias, porém o vírus pode ficar incubado até 14 dias, sendo contagioso também nesse período. A maioria dos pacientes apresenta bom prognóstico, no entanto dados da população chinesa afetada demonstram que cerca de 18% dos infectados apresenta doença severa, e 3,5% de letalidade. Crianças podem ser importantes vetores da doença, pois a maioria não apresenta sintomas característicos, ou até mesmo nenhum sintoma, mas são transmissoras. A infecção nosocomial (dentro do ambiente hospitalar) também tem se mostrado um grave problema. Os casos entre profissionais da saúde correspondem a 3,8% do total, sendo de suma importância disponibilidade e uso dos EPI (equipamento de proteção individual) e EPC (equipamento de proteção coletiva) para o trabalho na linha de frente, garantindo a segurança de profissionais e pacientes.

Dentre os sintomas mais comuns estão febre, tosse, mal-estar, fadiga e dor de cabeça, alguns poucos pacientes apresentam sintomas do trato gastrointestinal, como vômito e diarreia. Estudo recente mostra também a presença do vírus causando conjuntivite. O sintoma que deve ser um alerta maior na observação desses pacientes é a dificuldade respiratória, pois está relacionada a forma mais severa da doença.

Os idosos (>65 anos) e pessoas com doenças crônicas (hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes, doenças cardiovasculares, imunossupressão) apresentam complicações com maior frequência e o quadro do COVID-19 tende a evoluir rapidamente nestes pacientes. As complicações incluem síndrome do desconforto respiratório agudo, choque séptico, acidose metabólica difícil de corrigir, disfunção da coagulação, e falência múltipla dos órgãos.

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Imagem 3. Características do hospedeiro que contribuem para a severidade da doença. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

O padrão-ouro para o diagnóstico é o PCR (reação em cadeia da polimerase) em tempo real de amostras respiratórias para detecção do material genético do vírus, confirmado por sequenciamento de nova geração, e você pode ler mais sobre isso aqui: Aplicação da Biologia Molecular no Diagnóstico da COVID-19Existem também testes sorológicos, que detectam a presença de anticorpos IgG e IgM contra o vírus. Os testes moleculares são mais sensíveis e específicos, já os testes sorológicos podem apresentar resultado negativo no período de até 7 dias após a infecção, devido a janela imunológica, ou seja, ainda não houve tempo suficiente para que o organismo produza anticorpos. Outras alterações laboratoriais refletem a resposta inflamatória do paciente, porém são pouco específicos. Testes para outros vírus respiratórios, como Influenza A e B, e o vírus Sincicial Respiratório, tem sua importância aumentada neste momento para diagnóstico diferencial e de exclusão.

 

Resposta imune e Opções terapêuticas

A resposta imune é de máxima importância para o controle e resolução da infecção. O SARS-CoV-2 infecta as células humanas pela ligação da proteína S viral ao receptor de angiotensina do tipo 2 (AT2), fusionando sua membrana as células e liberando o seu RNA. O RNA viral é reconhecido por receptores do tipo Toll como um fator estranho (padrão associado à patógenos), desencadeando então uma série de ações do sistema imunológico. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é a chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Drogas antivirais como inibidores da neuraminidase, ganciclovir, aciclovir e ribavirina e corticoesteróides não possuem ação no COVID-19 e não são recomendados. O fármaco antiviral remdesivir apresenta atividade frente a vírus de RNA, e foi eficaz no tratamento do primeiro caso de COVID-19. A cloroquina é um medicamento utilizado para o tratamento da malária e doenças autoimunes com potencial no tratamento do COVID-19, apesar do mecanismo de ação sobre o vírus ainda não ser conhecido. No entanto, alguns estudos já mostraram a ineficácia do tratamento e efeitos adversos graves , inclusive com risco aumentado de morte.  Na Coréia do Sul  e na China foi demonstrada a diminuição da carga viral com uso de lopinavir/ritonavir (Kaletra®) no tratamento de pacientes com COVID-19. Além disso, protocolos com combinação de práticas da medicina Chinesa tradicional e a medicina Ocidental demonstraram bons resultados no tratamento dos casos graves em relatos na China. Outra alternativa em estudo, é o uso do plasma de pacientes convalescentes (terapia de imunização passiva), pois o mesmo contém anticorpos neutralizantes específicos para o vírus.

Não há, até o momento, tratamentos específicos para o COVID-19, sendo o principal objetivo a correção sintomática, principalmente da insuficiência respiratória, sendo que muitos pacientes cursam com necessidade de ventilação mecânica. Isso reforça a necessidade de ensaios clínicos com novas drogas e combinações para o tratamento desses pacientes, permitindo o controle dessa pandemia.   Os cientistas de todo o mundo estão buscando diariamente as respostas para tantas perguntas que ainda temos sobre o SARS-Cov2 e o COVID-19. No entanto, enquanto não temos uma solução, a OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) recomendam a manutenção do isolamento social e a adoção de higiene respiratória para a população, para reduzir a exposição ao vírus, devido a ausência de vacinas, ou tratamento específico e o crescimento exponencial do número de casos. 

 

Referências:

Guo et al. Military Medical Research (2020) 7:11 https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0 The origin, transmission and clinical therapies on coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak – an update on the status

 Huilan Tu ,   Sheng Tu ,   Shiqi Gao ,   Anwen Shao ,   Jifang Sheng ,  The epidemiological and clinical features of COVID-19 and lessons from this global infectious public health event, Journal of Infection(2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.jinf.2020.04.011

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/04/15/universidade-de-pelotas-faz-pesquisa-sobre-a-propagacao-do-coronavirus-no-pais.ghtml

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Gao Y, Li T, Han M, Li X, Wu D. et al. Diagnostic Utility of Clinical Laboratory Data Determinations for Patients with the Severe COVID-19.J Med Virol, March 17 2020. doi: 10.1002/jmv.25770.

 

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Covid-19 e o cárcere

Figura 1. Superior: detentos de estabelecimento prisional do condado de Cook, na cidade de Chicago, Estados Unidos, exibem cartaz com pedido de ajuda. Fotografia por: Andy Koval (11/04/2020). Inferior: dentro da penitenciária La Modelo em Bogotá, Colômbia, detentos denunciam “mais de 30 mortes”. Fotografia por: AP Photo/Ivan Valencia (22/03/2020).

Os dados estatísticos concernentes à superpopulação encarcerada no Brasil não são novidade: são 729.929 presos, distribuídos em 2770 estabelecimentos prisionais cuja lotação máxima é de 437.912 –uma taxa de superlotação de 166% [1]. As imagens acima demonstram a realidade do cárcere ao redor do mundo no cenário pandêmico que atravessamos: de Chicago (figura 1) a Bogotá (figura 2), o medo da morte e da enfermidade tem sido preocupação constante dos encarcerados. O que esperar em um país como o nosso, cujo governo opera sob o signo da morte e cujos “cidadãos de bem” consideram que “bandido bom é bandido morto”?

E, principalmente, como pensar em evitar a propagação de uma doença infectocontagiosa de proporções globais dentro de estabelecimentos carcerários superlotados?

Na data de 17/03, o Conselho Nacional de Justiça, por meio da Resolução 62/2020, recomendou aos tribunais e magistrados a “adoção de medidas preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus – Covid-19 no âmbito dos estabelecimentos do sistema prisional e do sistema socioeducativo”. A resolução buscou promover a diminuição da população carcerária por meio da aplicação de medidas restritivas de direito alternativas à privação de liberdade. Dentre elas, figuram o uso de tornozeleiras eletrônicas e o recolhimento domiciliar. Em adição, foram estipuladas e reforçadas medidas sanitárias nas ocasiões de visitação externa ao estabelecimento prisional, tais como a higienização dos espaços de visitação e o fornecimento de máscaras e itens de proteção individual aos visitantes.

No último dia 30/03, porém, o ex-Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, assinou um texto publicado no jornal Estado de São Paulo juntamente ao diretor-geral do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), Fabiano Bordignon, confirmando o que já esperávamos. Disseram eles, na contramão da Resolução 62/2020 do CNJ: “não há, porém, nenhum motivo para, no momento, promover a libertação generalizada dos presos, o que nos faria ter que enfrentar, concomitantemente aos desafios decorrentes da pandemia e de suas consequências econômicas, uma crise na segurança pública”.

Ressalta-se que o esforço em prol da desobstrução da população carcerária em terras brasileiras, batizado por Moro e Bordignon de “solturavírus”, segue o curso das medidas adotadas por outros países nos quais o Covid-19 surtiu efeitos alarmantes sobre a população carcerária. Resoluções análogas à do CNJ foram implementadas no Irã, que chegou a libertar cerca de 54 mil presos, nos Estados Unidos, na China, entre outros. Por aqui, a despeito da opinião do ex-ministro e do diretor, diversos magistrados vêm optando pela aplicação de medidas de privação de liberdade distintas da reclusão conforme recomendado pelo Conselho Nacional de Justiça.

Para entendermos o caráter urgente e imprescindível de tais medidas, é preciso relembrar o que por vezes esquecemos: o cárcere não é uma comunidade isolada ou alheia ao restante da sociedade. Mesmo se considerarmos a suspensão das visitas aos encarcerados, sob a justificativa do isolamento social devido à pandemia, a ida e vinda de agentes penitenciários dos estabelecimentos prisionais pode criar notáveis correntes de transmissão –tanto do cárcere para além de seus muros, quanto o fluxo contrário. Ademais, a transferência de presos entre estabelecimentos prisionais e a chegada de novos apenados advindos de fora do cárcere também contribuem para a formação de tal corrente. Esse argumento, embora simples, não está distante de nossa realidade, uma vez que apenas no Distrito Federal, até 12 de abril, a Administração Penitenciária confirmou 18 agentes penais e 20 presos infectados pelo Covid-19 [2].

Além disso, o cárcere configura-se como epicentro para doenças infectocontagiosas. Celas superlotadas, mal ventiladas e não higienizadas, somadas à dificuldade de acesso a serviços de saúde, são apenas alguns dos múltiplos fatores de risco que potencializam a contaminação da comunidade carcerária. Antes mesmo da pandemia causada pelo coronavírus, Dolan et al (2016, p. 188) ressaltaram os casos mundiais de HIV, hepatite viral e tuberculose entre os apenados: em nosso país, no caso da tuberculose, por exemplo, a chance de contaminação daqueles privados de liberdade é trinta vezes maior em relação ao restante do contingente populacional [3].

Às afirmações de Moro e Bordignon a respeito da “falta de motivos” para o desencarceramento em tempos de coronavírus, o presente texto respondeu com apenas três das principais justificativas pelas quais a preocupação com a população carcerária deve ser considerada como prioridade neste momento.  O que almejamos, mais do que fixar conclusões, foi provocar o questionamento e a reflexão acerca dos riscos envolvidos em rechaçar políticas públicas que visam conter a disseminação da pandemia no cárcere e, por conseguinte, também em toda a sociedade além dos muros dos estabelecimentos prisionais.

Não resta dúvidas de que uma enfermidade com alto grau de contágio como o Covid-19, que já provou ser mais do que “só um resfriadinho, uma gripezinha”, produzirá efeitos imensuráveis sobre os encarcerados. Neste período, a ação do Estado visando a proteção dos direitos à dignidade e à saúde –ou, do contrário, sua negligência para com tais direitos- define a linha tênue entre a vida e a morte de milhares de pessoas que compõem esta população vulnerável.

NOTAS

[1] Dados provenientes do estudo “Sistema Prisional em Números”, divulgado em agosto de 2019 pelo Conselho Nacional do Ministério Público. O estudo pode ser acessado em: https://www.cnmp.mp.br/portal/relatoriosbi/sistema-prisional-em-numeros (Acesso: 28/04/2020)

[2] O número foi divulgado pela Pastoral Carcerária no dia 17/04/2020. O artigo completo pode ser encontrado no seguinte link: https://carceraria.org.br/combate-e-prevencao-a-tortura/artigo-covid-19-chegou-nas-prisoes-e-resultado-sera-tragico-para-toda-sociedade (Acesso: 28/04/2020)

[3] Dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2019. Disponíveis em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2019/marco/22/2019-009.pdf (Acesso: 28/04/2020)

PARA SABER MAIS

PIRES, Guilherme M. Poder punitivo e COVID-19. Canal Ciências Criminais, 2020. Disponível em: https://canalcienciascriminais.com.br/poder-punitivo-e-covid-19/. Acesso em: 28/04/2020.

SILVA, Guilherme Rodrigues da. As prisões como epicentro da COVID-19. Justificando, 2020. Disponível em: https://www.justificando.com/2020/04/03/as-prisoes-como-epicentro-da-covid-19/. Acesso em: 28/04/2020.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução n° 62, de 17 de março de 2020. Disponível em: <https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/03/62-Recomenda%C3%A7%C3%A3o.pdf&gt; Acesso em: 28/04/2020.

MORO, Sérgio; BORDIGNON, Fabiano. Prisões, coronavírus e “solturavírus”. Estado de São Paulo, São Paulo, 30 de março de 2020. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/prisoes-coronavirus-e-solturavirus/&gt; Acesso em: 28/04/2020.

KINNER, Stuart A.; YOUNG, Jesse T.; SNOW, Kathryn; SOUTHALA, Louise; LOPEZ-ACUÑA, Daniel; BORGES, Carina Ferreira; O’MOORE, Éamonn. Prisons and custodial settings are part of a comprehensive response to COVID-19. Prisons and custodial settings are part of a comprehensive response to COVID-19. The Lancet Public Health, Londres, vol. 5, n. 4, p. 188-189, 1 de abril de 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/S2468-2667(20)30058-X.

DOLAN, Kate; WIRTZ, Andrea L.; MOAZEN, Babak; NDEFFO-MBAH, Martial; GALVANI, Alison; KINNER, Stuart A.; COURTNEY, Ryan; MCKEE, Martin; AMON, Joseph J.; MAHER, Lisa; HELLARD, Margaret; BEYRER, Chris. Global burden of HIV, viral hepatitis, and tuberculosis in prisoners and detainees. The Lancet Public Health, Londres, v. 388, n. 10049, p. 1089-1102, 10 de setembro de 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)30466-4.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim epidemiológico, Brasília, v. 50, n. 09, mar. 2019. Disponível em: <https://www.saude.gov.br/images/pdf/2019/marco/22/2019-009.pdf&gt;. Acesso em: 28/04/2020.