Nas ruínas da sociedade, a literatura faz humanos: a pesquisa de doutorado de Melissa Sá sobre distopias femininas.

Arte de Renee Nault para a adaptação de The Handmaid’s Tale para graphic novel (2019)

A relação entre literatura e sociedade – tanto a sociedade que a produz como a que a lê, nem sempre coincidentes – é uma questão basilar dos estudos literários e também uma resposta possível para a eterna e incômoda pergunta “para que serve literatura?”. A tese de doutorado “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”[1], defendida pela professora Melissa Cristina Silva de Sá na Universidade Federal de Minas Gerais em 2020, oferece dois caminhos muito interessantes para pensarmos aquela relação a partir de um só gênero literário.

A proposta de Melissa Sá é buscar entender de que forma o ato de narrar uma história está associado com aquilo que nos torna humanos, e como essa questão aparece em romances distópicos escritos por mulheres a partir dos anos 2000. Os três romances selecionados por Sá para traçar características comuns do tema foram The Telling (2000), de Ursula K. Le Guin, ainda não traduzido no Brasil, The Stone Gods (2007 – em português, Deuses de Pedra), de Jeanette Winterson, e MaddAddam (2013 – em português, MaddAdão), de Margaret Atwood, a qual ficou muito conhecida por aqui depois do sucesso do seriado The Handmaids’ Tale (O conto da Aia), baseado em seu romance de mesmo título. Além desses três títulos, Sá traz muitos outros exemplos de romances distópicos escritos por mulheres para embasar suas análises e reforçar seus argumentos, mantendo, porém, um recorte de obras em língua inglesa. Apesar de a maioria das autoras estudadas serem norte-americanas ou canadenses (Winterson é a única britânica) e brancas, há também o multiculturalismo que se reflete, por exemplo, nas obras de Nalo Hopkinson, de origem jamaicana, e Nnedi Okorafor, de família nigeriana. Desta última, vale destacar o romance Who Fears Death (Quem Teme a Morte, 2010), o qual retrata uma sociedade dividida violentamente entre duas etnias, remetendo-se ao massacre de Ruanda de 1994 e o conflito entre as etnias Hutu e Tutsi.  

Ursula K. Le Guin e sua obra The Telling

Para Sá, esses romances selecionados continuam uma tradição da ficção científica feminina, como visto em outras obras de Atwood e Le Guin, ou ainda em Octavia Butler, de questionar e descartar características “tradicionais” desse gênero literário solidificadas nos romances escritos por homens, mas vão além ao direcionarem seu foco para a questão da narração e para o compartilhamento de experiências via narração como características não só humanas mas também humanizantes. Ou seja, ao invés de propor que a narração tem a capacidade de tornar as pessoas mais humanas – algo que o sempre relevante Antonio Candido já propôs em “O Direito à Literatura” (1988) –, essas obras vão humanizar criaturas não-humanas, como aliens, robôs e seres criados geneticamente, exatamente pela sua capacidade de se apropriar do ato de narrar e de compartilhar experiências.

Outro ponto em comum nas obras estudadas por Sá é a forma como a narração tem um grande poder de impactar aquela sociedade que está “perdida”. As distopias normalmente trabalham com um cenário negativo, como pós-apocalíptico, autoritário, violento, de desesperança, etc., mas a narração traz em si a possibilidade de se criar um novo mundo ou de alterar significativamente aquele já existente. Nas palavras de Sá, “esses romances enfatizam de maneira contundente como o ato de narrar cria e molda não só indivíduos mas também sociedades. A linha que divide ficção realista e não-realista é borrada nesses romances selecionados porque, em alguns, histórias literalmente mudam o mundo, assim como personagens, ao reescreverem um livro, também reescrevem a história e a memória de uma sociedade (…). Histórias e suas consequências são uma constante na ficção distópica escrita por mulheres, e elas são os meios para a mudança”[2] (p.33, tradução minha).

Jeanette Winterson e seu romance Deuses de Pedra

E por que isso é importante? Distopias, afirma Sá, são baseadas ou trabalham com medos coletivos específicos da sociedade em que o autor vive – esses medos são colocados em prática nessas obras no pior cenário possível, obrigando os leitores a experimentá-los. Dessa forma, podemos dizer que a literatura tem raízes profundas na sociedade que a produz, mesmo que essa relação não seja sempre óbvia. Como consequência, a ficção científica distópica, para falar desse gênero em específico, também é um lugar privilegiado de reflexão sobre aquela sociedade e, por que não, um instrumento de transformação. Leitores, confrontados com realidades aterrorizantes, são desafiados a se questionarem, a enfrentarem os problemas que aquela obra apresenta, e a tentarem mudar a sua própria realidade. Os romances estudados por Melissa Sá, por tratarem da narração como possibilidade criativa, humanizadora e produtora, são eles próprios, portanto, exemplos de como se dá a relação entre literatura e sociedade. Ainda mais, a pesquisa de Sá tem o valor de levantar as questões propostas por cada uma das obras estudadas, questões atuais e que nos dizem respeito, e nos forçar a pelo menos tentar respondê-las.

Para compreender melhor a pesquisa de Melissa Sá, esse gênero literário tão intenso e também as pesquisas acadêmicas na área de Estudos Literários, realizei uma breve entrevista com a autora, que reproduzo a seguir. Espero que muitos fãs de ficção científica confiram a tese de Sá, disponível no repositório da UFMG, e que muitos outros se tornem fãs desse gênero depois de ver um estudo tão cuidadoso e instigante. Caso a língua inglesa seja uma barreira, ao final há indicações de outras publicações de Sá sobre o assunto. E, obviamente, fica a dica para a leitura dos romances citados nesse artigo e na tese.

Margaret Atwood e a edição brasileira de MaddAdão

Entrevista:

CF: Por que você escolheu fazer um recorte de distopias escritas apenas por mulheres? Haveria uma relação entre a experiência do gênero feminino na atualidade com essa preocupação central com a narração, ou com o ato de narrar/contar?

MS: Escolhi trabalhar distopias escritas por mulheres como uma forma de mapear essas autoras e analisar a visão social apresentada em seus romances. Meu foco é esse desde minha iniciação científica em 2010 e essa pergunta sobre o recorte feminino sempre aparece, de diversas formas. Engraçado porque, muitas vezes, um recorte exclusivamente masculino não provoca nenhuma necessidade de justificativa. Isso diz muito do que socialmente é aceito como uma amostra literária de um gênero.

Distopias estão sempre entrelaçadas com as questões contemporâneas do tempo em que foram escritas e acredito que no século XXI existe uma inquietação narrativa. Em meio a tantas narrativas possíveis, fake news e histórias fabricadas, há uma necessidade de se contar a própria história, de se narrar o que se viveu; uma busca pelo “autêntico”. Para as mulheres, mostrar a validade de suas experiências sempre foi algo central no movimento feminista, mas acredito que nos últimos vinte anos essa necessidade de contar sua própria experiência, narrar a si mesma, tem se tornado mais latente. Temos como exemplos movimentos como o Me Too, que abriu as portas para relatos de abusos na indústria do cinema, algo que sempre foi conhecido, mas até então essas histórias não tinham rostos, não tinham protagonistas. No Brasil, a Lei Maria da Penha de 2006 deu forma e nome à violência contra a mulher. Essas narrativas contribuem para balancear o jogo do poder da narrativa dominante, que, como se sabe, ainda é predominantemente masculina, branca, heterossexual e elitizada. Assim, não é surpreendente que as distopias escritas por mulheres nesse século estejam tão ligadas a essa questão. É uma inquietação do nosso tempo.

CF: Você define distopia como um retrato de uma sociedade que é pior que aquela em que o leitor/autor vive, baseada em medos coletivos. Quais medos você acredita que estão por trás dessa preocupação com a narração?

MS: O medo de ter sua experiência de vida desvalidada, ser silenciada, ter justificado o abuso com seu corpo. Mas acredito que, principalmente, o medo de que as coisas fiquem as mesmas, que as mesmas vozes continuem a ser ouvidas e que não haja mudança social radical.

CF: Você considera possível extrapolar a questão da narração e pensar a arte como um todo na definição do que nos faz humanos? Como essas distopias abordam, se abordam, outras formas de arte que não a literatura?

MS: O Brian Boyd, um dos teóricos que utilizo em minha pesquisa, trabalha com essa premissa: de que a arte nos faz humanos e que a narração é uma forma de arte. Apesar da narrativa ter proeminência nos romances selecionados para minha pesquisa, outras formas de arte também estão presentes. É o caso da trilogia MaddAddam, da Margaret Atwood, em que os seres geneticamente modificados a partir de humanos, os Crakers, começam a desenvolver formas de arte como a representação imagética, a dança e a música. Essa relação com a arte os faz ser considerados humanos não apenas pela leitora, mas também pelos demais personagens do romance.

CF: Pensando na conexão inescapável entre raça, classe e gênero, você encontrou nos romances escolhidos essa inter-relação? Se sim, ela se relaciona com a questão da narração?

MS: Apesar de o foco principal ser o questionamento daquilo que é humano, raça, classe e gênero atravessam os romances. Até mesmo porque o humano tradicionalmente foi associado ao masculino, branco, heterossexual e culto/elitizado durante séculos. O que se desvia dessa norma é frequentemente considerado mais próximo ao animal, à natureza, ao que é selvagem. Os romances selecionados muitas vezes se utilizam dessa crítica à categoria humano justamente para mostrar o quanto ela é construída com base nesses preconceitos e nesse pequeno recorte do que na verdade é a humanidade e em como essa ideia de “humano” desumanizou pessoas ao longo dos séculos para justificar genocídio e escravidão.

As escritoras Nalo Hopkinson, Nnedi Okorafor e N. K. Jemisin

Alguns romances fazem a crítica a raça, classe e gênero de uma forma mais contundente, como é o caso de Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor, em que uma mulher preta e pobre, considerada menos humana pelo povo que subjuga o seu, usa sua própria história e seus poderes mágicos para contestar a cultura dominante. O mesmo acontece com a trilogia A Terra Partida, de N.K. Jemisin, em que a narrativa que literalmente irá moldar o mundo é feita a partir de uma pária social que desafia o discurso dominante e propõe ideias e valores mais igualitários para uma sociedade futura.

CF: Para além da intenção do autor ao escrever o romance, você aponta para a importância do papel do leitor na recepção da obra, em especial no processo de reconhecimento da sociedade distópica como uma extrapolação, ou exagero, de um medo que ele, o leitor, também tem. Nesse sentido, distopias podem ficar “datadas”?

MS: Seguindo essa perspectiva, sim. A distopia como a conhecemos hoje ainda é um gênero recente, fruto do século XX, e muitas questões propostas por obras no início desse século ainda são medos coletivos muito presentes na nossa sociedade como o medo da perda de direitos, do apagamento do indivíduo, do autoritarismo, da desigualdade social e da escassez de recursos naturais. Talvez, num futuro, esses medos não sejam mais uma preocupação presente e leitores das próximas décadas ou séculos possam ter dificuldade de entender a trilogia MaddAddam, de Margaret Atwood, ou mesmo Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Essa é uma visão esperançosa.

CF: Por último, para ajudar aqueles leitores que querem entrar no mundo da pesquisa acadêmica na área de Literatura, você pode explicar um pouco como foi o processo para criar o seu projeto de pesquisa de doutorado, do surgimento da ideia até a concepção de um objetivo e problema de pesquisa?

MS: Minha trajetória com esse tema começou em 2010, ainda na Iniciação Científica, quando pesquisei o romance Oryx e Crake, de Margaret Atwood. A partir daí, continuei os estudos da utopia e da distopia, o que culminou na minha dissertação de mestrado que foi sobre como a narrativa se constitui uma estratégia de sobrevivência nos romances Oryx e Crake e O ano do dilúvio, de Margaret Atwood.

Para o doutorado, foquei em uma questão que me deixou inquieta na conclusão da minha dissertação, que era a ideia de que a narrativa talvez fosse um assunto proeminente em obras distópicas escritas por mulheres no século XXI. Comecei, então, a ler distopias recentes e prestar atenção se a questão da narrativa aparecia de alguma forma e me deparei com cada vez mais e mais livros escritos por mulheres que tinham esse tema como algo central. No entanto, tudo ainda estava em um caráter observacional e não muito consolidado.

Para montar o projeto de doutorado, tive que levantar uma hipótese que poderia ou não estar errada. Simplesmente dizer que a narrativa era uma questão presente nessas obras não era o suficiente para sustentar um argumento acadêmico, então comecei a pensar com o que a narrativa se relacionava, para que fins era usada dentro dessas obras. Foi assim que me deparei com a questão de desafiar aquilo que é humano.

Com essa proposição formulada montei meu projeto e me amparei muito no trabalho de Ildney Cavalcanti, que mapeou as distopias das décadas de 80 e 90 em sua relação com a linguagem. Foi quando decidi que precisava de um volume maior de romances para dar corpo ao meu argumento. Diferente do meu mestrado, onde foquei na análise de duas obras, com esse projeto eu estava tentando definir uma tendência dentro de um gênero e para isso precisava de um corpus mais extenso. Cheguei ao número de trinta e oito romances distópicos publicados em língua inglesa entre os anos 2000 e 2018 selecionados para a tese. Para compor esse corpus, escolhi obras de literatura infanto-juvenil, jovem adulto e adulto que tivessem como tema central a questão da narrativa para questionar o que é humano.

Eu me deparei então com a impossibilidade que é analisar profundamente trinta e oito romances. Então decidi, já no projeto inicial, focar em três livros: The Telling, de Ursula K. Le Guin, Os deuses de pedra, de Jeanette Winterson, e MaddAddamm, de Margaret Atwood. Esses três livros delimitam as três pontas do triângulo dessa tendência de usar a narrativa para questionar o que é humano: histórias fazem os humanos melhores, histórias definem os humanos e histórias são a fundação de uma nova humanidade. A escolha desses romances se deu porque eles mais explicitamente exemplificam essas ideias e os demais livros foram agrupados de acordo com essas categorias e analisados pontualmente.

Ao longo da escrita da tese, novas ideias foram surgindo, bem como novas perspectivas de análises, mas esse foi o alicerce no qual me baseei desde a concepção do projeto inicial.

CF: A sua tese está escrita em língua inglesa. Além das publicações listadas abaixo em língua portuguesa, têm outras indicações para interessados no tema?

MS: Indico o trabalho do grupo Literatura e Utopia, que tem vídeos de seu último evento online no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Uuf7HRep7Ls

Também dá para acompanhar o trabalho do grupo de estudos que faço parte, o Neufic – Núcleo de Estudos de Utopismos e Ficção Científica. Para saber das datas dos encontros, basta assinar a Newsletter:

Referências

CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura” (1988) in Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017, p.169-1941.

SÁ, Melissa Cristina Silva de. “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/34288

SÁ, Melissa C. S.. O duplo como paródia em O Ano do Dilúvio. EM TESE (BELO HORIZONTE. ONLINE), v. 23, p. 275, 2018. Disponível em http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/11764

SÁ, Melissa C. S.. Corpo e violência em Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood. In: Luciana Calado Deplagne; Ildney Cavalcanti. (Org.). Utopias sonhadas / Distopias anunciadas: feminismo, gênero e cultura queer na literatura. 1ed.João Pessoa: UFBP, 2019, v. , p. 131-148.


[1] “Histórias que nos fazem humanos: distopias do século XXI escritas por mulheres” – a tese foi redigida em inglês porque foi desenvolvida na área de concentração de Literaturas de Língua Inglesa no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da FALE/UFMG.

[2] No original: “these novels strongly emphasize how storytelling creates and shapes not only individuals but societies too. The line between realistic and non-realistic fiction is blurred in the selected novels, because in some of them stories literally change the world, as characters, by rewriting a book, also rewrite the history and memory of a society using unexplained magical powers. Stories and their aftermaths seem a trend in women’s dystopian fiction, and they are the means of change”

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