0

Conheçam Anna Freud a fundadora da psicanálise infantil.

Anna Freud

Ilustração: Mari Reis

Filha do fundador da Psicanálise, Sigmund Freud, Anna Freud nasceu em 1895-Viena na época em que as teorias de Freud sobre sexo e mente estavam começando a torná-lo famoso em toda Europa. Desde nova mostrava interesse por estudar e ao acompanhar seu pai em reuniões de psicanálise, começou a colaborar profissionalmente com as pesquisas. Mais tarde tornou-se professora e psicanalista, sendo pioneira no tratamento de crianças, criando clínicas e enfermarias para crianças que foram vítimas de guerra, sobreviventes do holocausto ou perturbadas por traumas diversos.

Em seu livro de 1936 intitulado de O Ego e Mecanismos de Defesa, Anna traz à tona, pela primeira vez, a ideia da análise do ego como uma resposta instintiva a realidade, ou seja, que instintivamente tentamos proteger “a imagem aceitável do que somos’’ com uma variedade de defesas.

O problema é que no ato de defender nós mesmos contra a dor, acabamos prejudicando nossas chances de lidar com a realidade a longo prazo e, portanto, de desenvolver o amadurecimento.

Anna Freud destacou dez tipos principais de mecanismos de defesa:

1- Negação: quando não admitimos que há um problema e tentamos nos enganar justificando para nós mesmos com pequenas ‘mentiras’ de que tudo irá ficar bem ou que conseguiremos lidar com a situação. Se outras pessoas tentam nos conduzir a enfrentar a problema, tendemos a reagir muito mal. O instinto para se sentir bem consigo mesmo recusa reconhecer a nossa necessidade de mudança.

2 – Projeção: quando atribuímos um sentimento ruim ou nossas frustrações à alguém sem querer olhar para nós mesmos mais a fundo e tentar descobrir a origem desse sentimento. Você está colocando os sentimentos negativos, que você não quer reconhecer em si mesmo, na outra pessoa. Isso é projeção.

3- Voltar-se contra você: quando pensamos mal de nós mesmos como uma maneira de escapar de um pensamento ainda pior. Anna Freud descobriu que as crianças fazem muito isso. Uma criança abusada por um pai vai geralmente buscar refúgio em um pensamento que, embora desagradável, é menos terrível do que as alternativas. A pessoa tende a pensar: “devo ser ruim e sem valor é por isso que o meu pai está agindo dessa maneira comigo”. Dessa forma a auto-punição dirá que apesar de tudo: “Eu ainda tenho um bom pai”.

4- Sublimação: ocorre quando redirecionamos pensamentos ou emoções inaceitáveis, muitas vezes sobre sexo ou violência, em atividades ou experiências “superiores”. Por exemplo no mundo da música ou da arte, em que muitos autores transformam suas dores em obras incríveis. Como Frida Kahlo, que pintou suas angústias e tornou-se conhecida artista.

5- Regressão: frente a situações difíceis, voltamos a nos comportar como quando éramos mais jovens ou fugir da responsabilidade. Na regressão colocamos a culpa sempre em outra pessoa e é normal para muitos adultos regredirem quando estão sob pressão.

6- Racionalização: tentamos arranjar uma desculpa que soa inteligente para nossas ações, mas é cuidadosamente pensada/manipulada para chegar à conclusão que nós sentimos que precisamos: que somos inocentes, agradáveis e que não merecíamos passar por isso.

7- Intelectualização: ocorre quando tentamos justificar algo ruim baseado em fatos reais do passado ou da atualidade. Quando tentamos neutralizar a situação pensando puramente de forma racional.

8- Formação de reação: fazemos exatamente o oposto dos nossos sentimentos iniciais. Por exemplo quando você se sente atraído por alguém e passa a ser agressivo em relação a pessoa, em vez de admitir sua atração.

9- Deslocamento: quando você direciona seu desejo agressivo para alguém mais fraco. Um exemplo é quando seu chefe grita com você e ao chegar em casa você faz o mesmo com seu parceiro.

10 – Fantasia: ao transportarmos nosso mundo real e intimidador ao mundo da imaginação que é um mundo mais confortável de viver.

Anna Freud, ao escrever sobre os mecanismos de defesa sabe que essas defesas são inerentes do ser humano e também descreve o quanto esses mecanismos podem interferir para melhor ou pior a vida de cada individuo. Seu legado deixa uma forma de ajudar-nos a ver um pouco melhor a nós mesmos para que sejamos um pouco mais maduros e menos egoístas.

Referências

Freud, A. (1936) Ego & the Mechanisms of Defense.

Freud, A. (1956-1965) Research at the Hampstead Child-Therapy Clinic & Other Papers.

Freud, A. (1965) Normality & Pathology in Childhood: Assessments of Development.

PSICOATIVO. Disponível em:<http://psicoativo.com/2016/04/anna-freud-biografia-teorias-livros.html> Acesso em: 30 jun.2017.

PSICOATIVO. Disponível em: <http://psicoativo.com/2016/01/mecanismos-de-defesa-o-guia-essencial.html> Acesso em: 30 jun.2017.

 

Anúncios
0

Gases quânticos ultrafrios presos em cristais de luz

Na física da matéria condensada existem diversos estudos em cristais para entender suas estruturas e propriedades. Uma das mais conhecidas aplicações desse tipo de estudo é em componentes semicondutores que estão amplamente presentes em equipamentos de tecnologia. Além disso, uma recente descoberta (aproximadamente 13 anos), o grafeno possui uma excelente estrutura cristalina com inúmeras aplicações. Essa área de estudo tem muitos problemas fundamentais em aberto e é aí que entra uma as aplicações de gases quânticos ultrafrios em redes ópticas: usar esses sistemas como ferramentas de simulação para cristais como o grafeno. Uma outra área da física que pode tirar muito proveito do conceito de gases quânticos ultrafrios em redes ópticas é a computação quântica. Esses sistemas podem ser usados para fazer operações quânticas e processamento de informações. Tal sistema usando redes ópticas ganhou destaque por meio do físico Immanuel Bloch com o seu artigo publicado na Nature[1].

Uma técnica muito utilizada para o estudo de átomos ultrafrios armadilhados é o sistema em que as armadilhas são magnéticas, em que o átomos são presos nas armadilhas pelo seu spin atômico. Mas ele possui uma limitação: por se tratar de spins, apenas um pequeno subconjunto dos estados atômicos disponíveis podem ser armadilhados pela rede. Já no caso de redes óticas, não existe essa limitação. O sistema é formado por átomos aprisionados em poços de potencial periódicos formados pelas redes óticas e não pelo momento angular de spin. Essas redes, então, são capazes de “armazenar” esses átomos frios em sua estrutura por meio de armadilhas de dipolos, criando um poderoso modelo de sistema de muitos corpos.

Para formar tais potenciais periódicos são usados feixes de laser propagando em direções opostas. Ao interferir apenas dois feixes, uma rede de uma dimensão (1D) é criada, formando um único padrão de interferência de uma única onda estacionária com um período de λL/2. Ao interferir duas ondas estacionárias ortogonalmente é possível criar um conjunto de tubos de potencial 1D, no qual o átomo só pode se mover no eixo dos tubos, conforme mostrado na figura 1a. Para criarmos uma rede em três dimensões o procedimento é análogo, basta interferir uma terceira onda estacionária perpendicularmente às outras duas. Agora, conforme ilustrado na figura 1b, podemos ver que o átomo fica completamente preso em pontos determinados pela rede, não podendo se mover de forma alguma.

im1

Uma outra vantagem de usar redes óticas para aprisionar átomos é o fato de a profundidade do poço de potencial (energia potencial cuja curva no eixo do espaço tem o formato de um poço) e a sua geometria estarem totalmente sob controle. É possível mudar a profundidade do poço mudando a intensidade dos feixes do laser e é possível mudar a geometria apenas mudando o ângulos dos feixes do laser.

 

Um potencial periódico formado por uma única onda estacionária terá a seguinte forma descrita pela figura 2.
im2

Uma aplicação desse sistema é mapear estados de Bloch na n-ésima banda de energia em uma partícula livre na n-ésima banda de Brillouin. Diminuindo adiabaticamente a profundidade do potencial da rede, ou seja, não há troca de energia entre a rede e a partícula, o momentum de cristal da excitação é preservado podendo então ser mapeado no momento da partícula livre na zona de Brillouin correspondente, conforme ilustrado na figura 3.

im3
Esse tipo de sistema pode ser estudado de diversas maneiras e tem sido uma grande fonte de descobertas tanto para a física da matéria condensada quanto para a mecânica quântica.

 

Referência do texto e das figuras:

[1] Bloch, Immanuel. “Ultracold quantum gases in optical lattices.” Nature Physics 1.1 (2005): 23-30.

0

Cicatrizes e Queimaduras: características e prevenção.

Quem nunca se feriu devido a acidentes ou descuidos que atire a primeira pedra. Marcas de nascença, descuidos na cozinha, aquela espinha que mexemos demais, o gatinho de estimação sem paciência para suas gracinhas. Estamos expostos a machucados o tempo todo, mesmo sozinhos dentro da nossa casa. E alguns machucados podem deixar marcas, as quais chamamos de cicatrizes. Mas afinal, como ocorrem?

O processo de cicatrização é dividido em três etapas:

  1. Etapa inflamatória: assim chamada, pois tem como característica principal a presença dos sinais inflamatórios; dor, rubor, calor e edema. Nessa etapa, que tem duração de dois a três dias, acontece uma série de processos que tem como objetivo reconstituir o tecido que foi lesado, possibilitando ou não o retorno de sua funcionalidade, tópico que abordaremos mais adiante.
  2. Etapa proliferativa: essa etapa é onde ocorre a reconstituição dos vasos sanguíneos e linfáticos, a partir de deposição de colágeno. Além disso, há uma alta taxa de migração celular, especialmente de queratinócitos, para que haja reepitelização, ou seja, o crescimento de epitélio nas bordas da ferida. Em conjunto, esses acontecimentos conferem o aspecto avermelhado da cicatriz. Essa etapa é mais longa, podendo durar cerca de 14 dias.
  3. Etapa de remodelamento: a principal característica dessa fase é a deposição de colágeno de forma organizada. Inicialmente o colágeno é mais fino e tem orientação paralela à pele. Com o tempo, ele é reabsorvido e adquire um aspecto mais espesso, sendo depositado ao longo das linhas de tensão. Como consequência, há um aumento da força tênsil da ferida. Essa etapa dura por tempo indeterminado, variando de acordo com a profundidade e extensão da lesão, por exemplo.Agora que entendemos o processo pelo qual a cicatriz é formada, passamos para a seguinte pergunta: por que diferem do restante da pele? Para respondê-la, primeiramente precisamos estabelecer a diferença entre reparo e regeneração.

    A regeneração é bem demonstrada pelo Wolverine. Sim, o Wolverine, dos X-men. Chamamos de regeneração o processo que ocorre quando há uma lesão tecidual e essa lesão é completamente restaurada, deixando o tecido exatamente igual ao seu estado anterior em termos de aparência e, principalmente, funcionalidade. Porém, diferente do Wolverine, a regeneração demanda mais tempo (às vezes MUITO mais tempo) para acontecer, e pode não ser 100% efetiva dependendo do grau da lesão. A regeneração em humanos não é tão efetiva quanto nas salamandras (imagem 1), por exemplo, que conseguem regenerar seus membros caso esses sejam lesionados ou perdidos de alguma forma. A nossa regeneração não sendo tão potente quanto a de alguns outros animais, é contornada com o processo de reparo, que ocorre quando a regeneração não é possível. Esses casos normalmente ocorrem em lesões maiores e/ou mais profundas ocasionadas por queimaduras de 3º grau ou feridas extensas. Assim, devido a maior área afetada, a qualidade do reparo é diminuída e há uma maior deposição de cicatriz, ou seja, de colágeno, fibroblastos entre outras biomoléculas cicatriciais. A cicatriz é uma forma de fechar a ferida para que não haja exposição aos agentes infecciosos presentes no ambiente externo. Quanto mais extensa e/ou profunda uma ferida, maior e mais espesso o tecido cicatricial.

    A pele é um órgão externo que possui diversas funções, entre elas: proteção contra microrganismos infecciosos, choques mecânicos e perda de água. Mais que isso, a pele ainda possui diversos anexos que auxiliam no bom funcionamento do corpo, como as glândulas sudoríparas, as glândulas sebáceas e os folículos pilosos. Além da aparência diferenciada, as cicatrizes têm suas funções comprometidas, não possuindo nenhum dos anexos citados acima, atuando basicamente como uma barreira de proteção física. Em se tratando de pequenas lesões do dia a dia, uma cicatriz não vai afetar a vida de ninguém, muitas pequenas cicatrizes nem mesmo são notadas por quem as obteve. Entretanto, em casos mais severos, as cicatrizes podem se tornar um grande obstáculo, podendo gerar as chamadas cicatrizes hipertróficas, as quais podem provocar deformações e retrações graves. Isso acontece porque uma cicatriz possui muito menos elastina e colágeno, que são responsáveis por proporcionar elasticidade e capacidade de retornar a pele ao seu estado inicial. Com a diminuição dessas moléculas no tecido, ele se torna muito mais rígido, podendo até dificultar a movimentação caso esteja presente em articulações.

    Cicatriz-Hipertrófica-2

    Cicatriz hipertrófica. Fonte: Moda & Beleza, 2017. https://modaebeleza.org/cicatriz-hipertrofica/

    Acidentes que levam a queimaduras são mais frequentes em crianças e descuidos na cozinha, como cabos de panela para fora do fogão ou o uso desinformado da chapinha, por exemplo. Por isso, no Brasil, o dia 06 de junho é o Dia Nacional de Luta contra Queimaduras, um dia destinado a conscientização e prevenção de queimaduras. Além disso, o país possui a Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), “uma associação civil, sem fins lucrativos, com os objetivos de promover, encorajar, contribuir e estimular a ciência, o estudo, a pesquisa, a divulgação e a prática do tratamento das queimaduras; promover a conscientização dos aspectos preventivos das queimaduras e divulgar os primeiros-socorros; encorajar a educação em todas as categorias profissionais envolvidas no tratamento e prevenção das queimaduras; facilitar a cooperação e o intercâmbio entre todos os países, fornecendo informações disponíveis, incluindo a afiliação a outras sociedades e organizações internacionais de queimaduras e promover gestões no sentido de transformar o tratamento de queimaduras em especialidade em todas as profissões da área da Saúde”. Em conjunto com algumas instituições, a SBQ promove campanhas sobre queimaduras e seus riscos e prevenções. Alguns dos parceiros de campanha são: o Hospital Infantil Joana de Gusmão e o Laboratório de Células-Tronco e Regeneração Tecidual, da UFSC. As campanhas variam de ano para ano, mas normalmente são utilizadas cartilhas informativas e já aconteceram visitas em escolas a fim de conscientizar crianças sobre os cuidados a se tomar para evitar se queimar.

    Recentemente, um grupo de cientistas do Ceará desenvolveu um tratamento para queimaduras utilizando a pele de tilápia (sim, o peixe!). Em suma, a pele do peixe passa por procedimentos de esterilização e é colocada em cima da queimadura, aderindo à pele do paciente e impedindo a contaminação pelo meio externo e a desidratação, ambos prejudiciais para o processo de cicatrização. O tratamento com pele de tilápia é a nova aposta no tratamento de queimaduras, pois além de apresentar melhores resultados, ele também é mais barato do que os tratamentos tradicionais. Os testes clínicos estão em andamento e se tudo der certo (e tudo indica que dará), o novo tratamento deve ser implementado em alguns anos.

0

Como palavras podem “causar” medo?

Há aproximadamente 30 anos, um artista muito famoso cuspiu na bandeira do Brasil durante um show que fazia. Após o ocorrido, várias colunas de jornais avaliaram o fato, dizendo, por exemplo, que foi um absurdo ele ter cuspido na bandeira, o símbolo do nosso país. Mas por que ocorreram tantas críticas diante de um ato em um “pedaço de pano”? Se fosse em outro pano qualquer, haveria tantas críticas assim? Por que nós sentimos raiva ou podemos ficar indignados por algo que aconteceu com um pedaço de pano?

“Por que esse pedaço de pano significa algo”, alguém me diz. Esse pano, com essas cores, com essa configuração impressa (da bandeira), representa a nação brasileira. Cuspir na bandeira nacional é como cuspir em cada um de nós, brasileiros.

Críticas à parte[1], não é impressionante como um símbolo pode gerar tantos sentimentos na gente?! Olhar uma foto pode nos causar o maior prazer; ver a imagem de um bolo pode evocar a famosa “barriga roncando”; ouvir alguém falando mal do artista que mais gostamos pode nos fazer desgostar de uma pessoa, mesmo sem saber quase nada sobre ela…

Que os símbolos, como as palavras, podem nos causar os mais diversos sentimentos (e comportamentos), nós temos inúmeros exemplos, não é mesmo? Mas você já parou para pensar em como é que essas relações podem ser estabelecidas? É sobre isso que o post de hoje vai falar!

Os pesquisadores Dougher, Hamilton, Fink e Harrington realizaram um experimento bastante interessante no ano de 2007 (Estudo 1): eles recrutaram 15 estudantes universitários (8 no grupo experimental, e os demais no controle), que receberam choques (!!!), os quais foram selecionados individualmente, de modo que cada participante indicasse quando um choque era forte e incômodo o suficiente, porém sem causar dor. Os experimentadores mediram a reação galvânica da pele (característica da reação de medo) dos participantes diante do choque escolhido, pois isso seria importante nas próximas etapas do experimento. Em seguida, os participantes do grupo experimental faziam uma tarefa onde aprendiam a relacionar estímulos.

Na tela do computador aparecia, sempre, uma figura sem sentido (entre três) na parte superior, e três círculos idênticos, exceto pelo seu tamanho, na parte inferior: havia sempre um círculo pequeno, um médio e um grande. A figura na parte de cima deveria ser relacionada com uma das três debaixo, de modo que sempre havia uma única resposta correta: a figura 1 deveria ser relacionada ao menor círculo, a figura 2 com o círculo médio e, por fim, a figura 3 combinava com o círculo maior (vide Figura 1). A cada tentativa, o computador avisava os participantes se suas escolhas estavam corretas ou erradas.

1

Figura 1. Esquema mostrando como cada participante deveria responder na tarefa. Retirado de: de Almeida & Perez (2016).

Depois de treinar por um tempo com os círculos – e também com outras formas geométricas (quadrados, retângulos, etc. que sempre variavam somente no tamanho) – os participantes aprenderam a relacionar cada uma das figuras sem sentido com as formas geométricas de tamanhos variados. Isso foi verificado em um teste, no qual três formas geométricas não utilizadas no treino foram empregadas, e os participantes tinham que responder sem obter feedback sobre as escolhas, ou seja, o computador não avisava mais se os participantes acertavam ou não.

Após demonstrar no teste que tinham aprendido a tarefa anterior, uma nova etapa era iniciada: a tarefa agora requeria que os participantes pressionassem a barra de espaço do computador em uma frequência estável quando a figura 2 (relacionada com a forma de tamanho médio) aparecia na tela do computador. Para auxiliar os participantes, um dos experimentadores mostrava como fazer isso: quando a figura 2 aparecia na tela do computador, ele apertava a barra de espaço uma vez a cada segundo, durante 30 segundos. Depois, foi pedido que os participantes fizessem o mesmo, para ver se haviam entendido a tarefa. Por fim, cada participante foi instruído a pressionar a barra de espaço diante de outras figuras também, na frequência que achassem adequada. Vocês imaginam o que aconteceu?

Quando a figura 1 (relacionada com a forma menor) apareceu, todos os participantes pressionaram a barra de espaço em uma frequência menor que a obtida quando a figura 2 aparecia na tela do computador. Do mesmo modo, quando a figura 3 apareceu (relacionada com a figura maior), todos os participantes apertaram a barra de espaço em uma frequência maior que a obtida quando a figura 2 aparecia. Assim, eles passaram a responder a cada uma das figuras sem sentido como se elas significassem o mesmo que as figuras de tamanho pequeno, médio ou grande. Interessante, não? Mas o melhor ainda está por vir!

Vocês lembram que os experimentadores mediram a resposta da pele de cada participante, diante de um choque que era incômodo, mas não doloroso?! Na última fase da pesquisa, os pesquisadores pediram que os participantes se sentassem e olhassem para a tela do computador. Eles foram avisados que figuras apareceriam na tela do computador, e que eles levariam choques. Depois, a figura 2 aparecia na tela do computador, e, em seguida, os participantes levavam o choque “escolhido” previamente. Isso aconteceu seis vezes, e durante todo o tempo, os experimentadores mediam a resposta eletrodermal de cada participante. Em seguida, a figura 1 apareceu na tela do computador, seguida por um choque com a metade da voltagem apresentada no choque “selecionado”. E diante da figura 3, o participante não recebia choque. A resposta eletrodermal foi medida durante todo o tempo. O que vocês imaginam que aconteceu quando a figura 3 apareceu?

Mesmo não tendo recebido choque algum, a resposta eletrodermal obtida após o aparecimento da figura 3 foi MAIOR que a obtida após o aparecimento da figura 2. Então, mesmo sem receber choque, os participantes sentiram um incômodo como se tivessem levado, de fato, um choque, e um choque maior que o obtido anteriormente. Isso aconteceu somente com os participantes do grupo experimental (os participantes do grupo-controle fizeram todas as etapas, menos a tarefa onde aprendiam a relacionar as diferentes formas geométricas com as figuras sem sentido). Impressionante, não???

Uma vez que os participantes aprenderam a relacionar as figuras 1, 2 e 3 com as formas geométricas pequenas, médias e grandes, respectivamente, e que a figura 2 foi pareada com um choque incômodo, as demais figuras também passaram a evocar respostas eletrodermais (caraterísticas de medo) de acordo com o tamanho da forma que foram relacionadas.

Pesquisas semelhantes têm sido feitas nos últimos anos e replicam e ampliam os dados obtidos nessa pesquisa, mostrando, por exemplo, que o mesmo procedimento pode ser utilizado para evocar respostas de dor em símbolos que nunca foram relacionadas com dor diretamente (e.g., Bennett, Meulders, Bayens, & Vlaeyen, 2015).

Esse tipo de estudo, apesar de ser uma pesquisa básica, tem implicações práticas muito importantes: pensem, por exemplo, em quantas pessoas possuem uma fobia e, mesmo passando por tratamentos, não conseguem identificar sua origem. Saber que você tem medo de barata porque um dia uma barata veio voando e pousou no seu braço facilita muito no tratamento, mas, às vezes, temos medo de algo (e.g. palhaço) sem nunca ter passado por uma história “negativa” com ele (e.g., de Almeida & Perez, 2016). Este estudo mostra, portanto, como podemos ter uma reação negativa diante de um estímulo (e.g., símbolo, palavra, objeto, etc.) mesmo sem nunca termos passado por uma situação aversiva com relação a ele, ou seja, como palavras/símbolos podem nos “causar” medo.

Referências

Bennett, M. C., Meulders, A., Bayens, F., & Vlaeyen, J. W. S. (2015). Words putting pain in motion: The generalization of pain-related fear within an artificial stimulus category. Frontiers in Psychology, 6, 520.

de Almeida, J. H., & Perez, W. F. (2016). Paus e pedras podem machucar, mas palavras… também! – Teoria das Molduras Relacionais. In: Soares, P. G., de Almeida, J. H., & Cançado, C. R. X. Experimentos Clássicos em Análise do Comportamento. Brasília: Instituto Walden 4 (pp. 186-204).

Dougher, M. J., Hamilton, D. A., Fink, B. C., & Harrington, J. (2007). Transformation of the discriminative and eliciting functions of generalized relational stimuli. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 88, 179-197. Recuperado de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1986433/pdf/jeab-88-02-179.pdf

[1] Segue a resposta do artista sobre o incidente: “Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo…. Eu sei muito bem o que é a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock in Rio junto com uma multidão que acreditava que este país podia realmente mudar. A bandeira de um país é o símbolo da nacionalidade para um povo. Vamos amá-la e respeitá-la no dia em que o que está escrito nela for uma realidade. Por enquanto, estamos esperando”.

0

Clitóris e orgasmo feminino. Como a ciência aborda esses assuntos?

É impressionante como a ciência atual está direcionada para áreas relacionadas com algum retorno financeiro e não com o bem estar das pessoas. Um exemplo claro disso é a negligência científica sobre assuntos tão importantes como o órgão sexual feminino e o orgasmo feminino. A explicação sobre a polêmica do assunto e do raro financiamento para pesquisas nessas áreas está associada claramente ao fato da nossa sociedade ser patriarcal e machista, além de vários outros aspectos sociais envolvidos. Porém, aqui no blog Cientistas Feministas esses assuntos devem constar, e hoje nós vamos falar das últimas publicações sobre esses tabus sociais e científicos. Vamos lá!

O interesse pela função sexual feminina documentado se inicia com os trabalhos de Hippocrates (a.c. 400). No entanto, sobre o clitóris, especificamente, foi apenas no século XVI que os anatomistas Realdo Colombo e Gabriele Falloppio reivindicam a sua descoberta, sendo que nestes trabalhos pela primeira vez foi atribuída a função sexual a esta estrutura [1].

Seguindo a linha do tempo, os primeiros relatos mais precisos da anatomia do clitóris aconteceram só no século XIX e, durante o século XX, essa terminologia praticamente desapareceu dos textos médicos por 30 anos e só voltou a reaparecer com o surgimento do movimento feminista da época. A explicação para o desaparecimento de investigações sobre o tema foi relacionada ao surgimento dos trabalhos de Freud, nos quais ele afirmava que o orgasmo vaginal era superior ao orgasmo clitoriano. Freud dizia que a capacidade de atingir orgasmos vaginais era fundamental para o desenvolvimento psicológico de uma mulher. No entanto, a ideia foi refutada por trabalhos de Kinsey e Masters e Johnson [2]. Sim, os mesmos pesquisadores da série de TV Masters of Sex (Mestres do Sexo) que voltaremos a falar mais adiante.

00834313.JPG

Master e Johnson. Fonte: Leonard McCombe—The LIFE Picture Collection/Getty Images.

Muitos artigos na internet descrevem o clitóris como um botãozinho de prazer, porém a verdade é que esta estrutura é muito maior do que se imagina, sendo esse botãozinho apenas a parte externa do órgão. E, ao contrário do que muitos textos apontam, a idade, a altura, o peso e uso de contraceptivos não afetam o tamanho do clitóris. A real representação do clitóris está sendo desvendada agora, com as principais pesquisas realizadas nos anos de 2005 [3], 2015 [2], 2017 [4], utilizando imagens de ressonância magnética, sendo os trabalhos pioneiros nesta área desenvolvidos pelo grupo de pesquisadores australianos liderados pela professora Helen O’Connell [3].

Clitoris anatomia

Histologicamente, o corpo do clitóris é semelhante ao pênis. Porém, esse órgão possui mais de oito mil terminações nervosas, o dobro do encontrado na glande (cabeça) do pênis. Os nervos estão na superfície externa do corpo, e os corpos do clitóris também são cercados por ramos nervosos, sendo que a maior concentração de pequenos nervos está dentro da glande do clitóris [2].

Clitoris desenho fonte

Masters e Johnson investigaram o orgasmo humano na década de 1960 e criaram o termo “ciclo de resposta sexual humana”. Em seus trabalhos eles descreveram as fases sexuais como excitação, platô (plateau), orgasmo e resolução. Atualmente essas fases foram modificadas e podem ser identificadas como desejo, excitação, orgasmo e resolução. Em seus trabalhos os pesquisadores estudaram o comportamento de 694 voluntários (312 homens e 382 mulheres), após o acompanhamento de 10 mil relações e outros estímulos sexuais em condições de laboratório durante 11 anos de estudo. Masters e Johnson concluíram que as pessoas possuem uma constante tensão sexual humana, que só precisa ser estimulada para que o orgasmo seja alcançado. Porém, apesar de todas essas descrições científicas, é bem fácil de perceber que nem todas as mulheres passam por esse exato “ciclo de resposta” em suas relações sexuais e nem por esta exata sequência [2].

fases orgasmo 2O orgasmo é regulado por nervos somáticos e autônomos, ou seja, uma mistura de estímulos voluntários e involuntários [3]. E diferente dos homens, em que a testosterona desempenha o principal papel na resposta sexual, nas mulheres o estrogênio é o hormônio primário que rege a resposta fisiológica feminina. Os estudos apontam que o desenvolvimento da capacidade da mulher de obter orgasmos é gradual ao longo da vida, e a maioria das mulheres só consegue atingir o orgasmo após os vinte anos [2]. Além disso, as pesquisas relatam que mulheres que experienciam orgasmos tem uma saúde mental superior a mulheres que não passam por essa experiência [2]. E, percebendo todas essas imagens do clitóris é possível perceber algo em que a maioria dos cientistas atuais são muito enfáticos: o papel central do clitóris no orgasmo feminino é indiscutível.

Em relação ao orgasmo vaginal a discussão ainda é ativa, o canal vaginal não possui a mesma quantidade de inervação do clitóris, pelo motivo de sofrer uma grande expansão no parto. Além disso, 30 a 40% das mulheres afirmam nunca terem sentido na vida orgasmo vaginal sem uma estimulação direta ou indireta do clitóris. Adicionalmente, uma parcela de trabalhos relatam uma relação entre o prazer da penetração vaginal com uma estimulação do clitóris internamente a vagina. Assim, todos os estímulos se iniciariam no clitóris e posteriormente iriam para o cérebro através de um nervo chamado nervo pudendo.

pudental nerve

Entretanto, estudos com mulheres com diferentes graus de lesão da medula espinhal, com ferimentos que bloqueiam as vias nervosas que conectam a medula espinhal dos genitais ao cérebro, demonstraram que essas mulheres podiam sentir o momento em que a vagina e o colo do útero estavam sendo tocados. Algumas até experimentaram orgasmo, apesar do nervo pudendo ter sido rompido. Isso mesmo, você não leu errado. Mulheres com lesão da medula espinhal que não conseguiam sentir o clitóris, tiveram orgasmos por estimulação vaginal. Essa pesquisa constitui nos dias de hoje a melhor prova de que existem orgasmos vaginais. A explicação para isso pode ser a existência do nervo vago, que está situado fora da medula espinhal e carrega sensações da vagina para o cérebro [5].

Sobre ponto G (ponto Gräfenberg) e ejaculação feminina, a maioria dos estudos possuem uma baixa amostragem de casos e ainda hoje os resultados são inconclusivos. Assim, a existência de uma região específica mais sensível no interior da vagina que ao ser tocada provocaria orgasmos não foi comprovada pela ciência. Em um trabalho publicado na renomada revista Nature, pesquisadores italianos liderados pelo professor Emmanuele Jannini afirmam que seria mais adequado nomear a região anterior da vagina, junto com o clitóris e a uretra, de “clitourethrovaginal complexo ou CUV complexo”. Os pesquisadores ainda afirmam que a região distal da vagina está tão relacionada com o clitóris que é difícil afirmar que são duas estruturas separadas [6]. Já sobre a emissão de algum fluído feminino durante a atividade sexual, os cientistas afirmam que isto pode ser muito mais relacionado com uma pequena incontinência urinária (pelo relaxamento da uretra) no momento do sexo, a emissão de secreção das glândulas de Skene em resposta à excitação sexual ou orgasmo, ou a uma mistura de urina com secreções de Skene [2].

Sobre as diferenças da percepção do orgasmo no cérebro, os trabalhos do pesquisador Barry Komisaruk da Universidade Rutgers nos Estados Unidos trazem algumas explicações. A verdade é que o orgasmo consiste na ativação de muitas áreas do cérebro, fazendo com que a origem e as causas de toda essa ativação seja difícil de definir. Em relação às diferenças entre o orgasmo feminino e masculino os pesquisadores afirmam que as similaridades entre as sensações é muito maior do que as diferenças. Porém, após ocorrer um orgasmo, as coisas mudam de configuração: o cérebro masculino não responde imediatamente à estimulação sensorial adicional dos órgãos genitais, já o cérebro das mulheres continua a ser ativado. Essa pode ser a explicação do fato de algumas mulheres terem experiências com orgasmos múltiplos, e os homens não [7].

Na biologia evolutiva, o papel do orgasmo feminino ainda é motivo de muitos atritos. No último trabalho publicado (fev. 2017) como resposta ao Dr. Komisaruk, os biólogos Gunter Wagner e Mihaela Pavlicev discutem a origem e a função no orgasmo feminino. O que se tem certeza até agora é que o orgasmo feminino não é necessário para a reprodução e não traz para a espécie humana maiores taxas reprodutivas. Sabe-se que o orgasmo feminino é uma característica de um sistema fisiológico muito antigo, que foi responsável pela ovulação induzida por copulação. Um fato curioso é que em espécies que possuem esse tipo específico de ovulação todo o clitóris, incluindo a parte externa (glande), está localizada totalmente no interior do canal vaginal, provavelmente com estimulação direta e indireta através da parede vaginal durante a cópula. Assim, entender os motivos da transformação da genitália feminina para a parte externa em humanos, em conjunto com a fisiologia do ovário é um fato biológico que ainda precisa de explicação [8].

Infelizmente, ainda em 2017 a área de pesquisa sobre anatomia e orgasmo feminino é dominada por homens, mas nos últimos anos o número de publicações feitas por mulheres têm aumentado significativamente. Por fim, como disse o pesquisador italiano Emmanuele Jannini “Somos capazes de ir à lua, mas não entendemos o suficiente sobre nossos próprios corpos” [9]. Assim, em meio a tantas certezas e incertezas, a mensagem da maioria dos cientistas para cada uma das mulheres é: busque conhecer e entender quem você é hoje, porque provavelmente amanhã você será diferente, e não pense no corpo feminino como uma máquina que sempre irá responder da mesma forma.

Para saber mais, uma animação maravilhosa sobre o assunto é chamada “Le Clitoris”. E um vídeo inspirador do website TED sobre a relação entre o prazer feminino e a sociedade nos dias atuais é da jornalista Peggy Orenstein. Vale a pena conferir!

Referências

[1] Stringer MD, Becker I. Colombo and the clitoris. Eur. J. Obstet. Gynecol. Reprod. Biol., v. 151, p.130–133, 2010.

[2] Mazloomdoost, D., Pauls, R.N. A Comprehensive Review of the Clitoris and Its Role in Female Sexual Function. Sex. Med. Rev., v. 3, p. 245–263, 2015.

[3] O’Connell, H.E., Sanjeevan, K.V., Hutson, J.M. Anatomy of the Clitoris.  Journal of Urology, v.  174, 1189–1195, 2005.

[4] Agarwal, M.D., Resnick, E.L., Mhuircheartaigh, J.N., Mortele, K.J. MR Imaging of the Female Perineum. Clitoris, Labia, and Introitus. Magn Reson Imaging Clin N Am (in press). 2017.

[5] Komisaruk, B. R., Gerdes, C. A. & Whipple, B. ‘Complete’ spinal cord injury does not block perceptual responses to genital selfstimulation in women. Arch. Neurol. 54,  1513–1520. 1997.

[6] Jannini, E.A.,  Buisson, O., Rubio-Casillas, A. Beyond the G‑spot: clitourethrovaginal complex anatomy in female orgasm. Nature Rev. Urol. (opinion). 2014.

[7] Komisaruk, B. R., Beyer-Flores, C. & Whipple, B. The science of orgasm (Johns Hopkins University Press, 2006).

[8] Pavlicev M, Wagner G. Origin, Function, and Effects of Female Orgasm: All Three are Different. J. Exp. Zool. (Mol. Dev. Evol.) 00B:1–5. 2017.

[9] BBC (Linda Geddes). The mystery of female orgasm. Disponível em: <http://www.bbc.com/future/story/20150625-the-mystery-of-the-female-orgasm>, 2015.

0

A ciência é patriarcal e deve ser abandonada pelas mulheres?

Embora grande número de estudos tenha sido feito para mostrar que as mulheres não estão à altura dos homens, é surpreendente o quão pouco sabemos acerca dos corpos femininos, quando se trata de manter as mulheres saudáveis” (Schiebinger, 2001, p. 215).

Não é muito incomum encontrar em grupos feministas debates sobre a relação entre dominação masculina e a ciência [1].  Tais debates geralmente se desenvolvem a partir da constatação de que, além do cânone predominantemente masculino, historicamente, a Ciência forneceu ferramentas para justificar a subjugação das mulheres [2] e sua consequente anulação como produtoras de saber. As exceções compostas pelos poucos casos de mulheres cientistas reconhecidas pelo cânone até recentemente só confirmam a regra e conforme vamos avançando nos estudos feministas e na historiografia das ciências, temos tomado conhecimento a respeito de inúmeras mulheres que contribuíram de maneira revolucionária para o desenvolvimento da ciência e que foram apagadas da história, de modo que em diversos casos homens levaram os créditos em seus lugares. O filme Estrelas Além do Tempo e o livro As Cientistas – 50 mulheres cientistas que mudaram o mundo podem ser citados como produções recentes destinadas ao grande público contando um pouco dessa história [3].

Dentre esses debates, por vezes, defende-se a ideia de que as mulheres deveriam renegar a ciência e pautarem-se a partir de outros tipos de saberes. Meu ponto neste texto consiste em apresentar um contraponto a essa visão, ao mesmo tempo em que reconheço os problemas do machismo/patriarcado/da dominação masculina (a denominação pode ser escolhida de acordo com o gosto da/o leitora/o) na ciência.

Meu argumento principal se desenvolve ao redor da ideia de que desconsiderar a ciência enquanto um campo de conhecimento que necessita ser disputado pelas mulheres e transformado por dentro traz perdas para toda a sociedade, mas, acima de tudo, pode custar a vida de várias mulheres.

cientistasfinal.jpg

Ilustração feita por Juliana Adlyn para o blog

Em seu livro O feminismo mudou a Ciência?, Londa Schiebinger aborda três aspectos principais desse tema: o desenvolvimento histórico das ciências ocidentais, a história de como as noções de feminilidade e masculinidade modelaram os conceitos nos contextos e produções científica e como os papéis de gênero influenciaram não apenas a configuração institucional da ciência, mas o próprio fazer científico. A conclusão óbvia disso é que… *tam tam taaaaaamm*….. a ciência não é neutra!

Nesse sentido, é importante compreender que, para além dos usos da ciência para fins declaradamente higienistas e/ou dominadores conhecidos historicamente, pesquisadores podem ser tendenciosos de maneira inconsciente ou não intencional, mas são influenciados por questões políticas e sociais ao criar suas categorias de análise. Para ilustrar um pouco disso, vou tentar expor resumidamente alguns aspectos da história da medicina e da primatologia explorados pela historiadora da ciência.

Até meados do século XVIII, pesquisadores acreditavam que o corpo feminino era uma versão inferior do corpo masculino, sendo as únicas diferenças entre os corpos femininos e masculinos os aparelhos reprodutivos e a qualidade inferior do feminino (que era entendido como uma espécie de cópia inferior do corpo masculino).  Após esse período, passou-se a considerar a “diferença sexual” não mais como uma questão resumida às genitálias, mas “que envolvia cada fibra do corpo”. Muitas e muitas décadas de pesquisa se seguiram norteadas pela ideia de papéis sexuais. As pesquisas como um todo buscavam encontrar evidências “biológicas” para justificar os papéis de homens e mulheres na sociedade.

Como aponta Londa, “(…) poucos médicos interessavam-se pelas implicações da diferença na assistência à saúde. Na maioria das vezes, o estudo acadêmico de diferenças sexuais era projetado para manter as mulheres em seu lugar”.

No século XIX, em um momento de grandes reivindicações das mulheres estadunidenses para serem admitidas nas universidades, argumentava-se que a ânsia de mulheres em produzir ciência era a forma mais alta de egoísmo e essa atitude poderia  prejudicar a saúde delas de tal forma que seus ovários poderiam atrofiar (!).

A autora nos conta que a história da medicina oscilou nesse sentido entre dois paradigmas. O paradigma da igualdade, que considerava os organismos feminino e masculino iguais, teve como consequência o fato de que certos aspectos da saúde das mulheres fossem pouquíssimo estudados, como, por exemplo, a relação entre tratamento com estrógenos e problemas cardiovasculares. Já o paradigma da diferença radical resultou em considerar sintomas relatados por mulheres como efeitos “psicossomáticos” com muito maior recorrência do que se registram os sintomas relatados por homens (dito em bom português, “mulher é tudo meio doida e paranoica mesmo… homem não, quando relata algo deve ser coisa séria”).

Nos anos que se seguiram a partir de 1980, diversas feministas se dedicaram a estudar e criticar pesquisas médicas que negligenciavam totalmente os corpos femininos, pois se baseavam em grupos controle compostos unicamente por homens (em um deles, por exemplo, foram estudados 22.071 homens e ZERO mulheres). Os resultados dos testes realizados apenas com indivíduos do sexo masculino eram generalizados para toda a população, e, mesmo sem que se soubesse, por exemplo, o efeito de aspirinas em casos de doenças cardíacas no organismo feminino, mulheres passaram a ser orientadas a tomar uma aspirina por dia (tá dando pra sacar o absurdo?). Esse tipo de negligência com o estudo do organismo feminino, tomando o corpo masculino como referência universal, foi e ainda é responsável por danos seríssimos na saúde das mulheres.

Uma pesquisa de 1981 sobre estudos a respeito da saúde das mulheres descobriu que havia duas vezes mais pesquisas sobre mulheres relacionadas ao parto e à criação dos filhos do que outros problemas de saúde. Além disso, apesar do foco na saúde reprodutiva, dos mais de 15 institutos do NIH (Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos) nenhum deles era dedicado à ginecologia e obstetrícia. Dito de outra maneira, temos profissionais dedicados a cuidar da saúde dos bebês, mas não temos profissionais dedicados a cuidar da saúde das mulheres que deram a luz a esses bebês. E mais, a grande maioria dos estudos a respeito da saúde das mulheres naquele momento estava diretamente relacionada à mulher apenas enquanto sujeito que dá a luz, não enquanto um organismo que necessita de cuidados independente de ter (ou querer) ter filhos ou não.

Para ilustrar brevemente como essas questões afetam diretamente a vida das mulheres mesmo em campos distintos da medicina, cito o exemplo da primatologia, um dos poucos campos com predominância de pesquisadoras mulheres. Pesquisas sérias realizadas por cientistas mulheres nesse campo desmistificaram noções que guiavam as pesquisas até então, como a de que machos primatas seriam os dominadores dos bandos, responsáveis pela busca por fêmeas para reprodução. Essas pesquisadoras se propuseram a estudar fêmeas e descobriram uma complexa rede de relações, de modo que as próprias fêmeas possuem um papel ativo na escolha de parceiros sexuais. Dessa forma, por meio de estudos replicáveis, desbancaram a partir da própria primatologia argumentos anteriormente pautados nas sociedades de primatas como justificativa para a dominação masculina nas sociedades humanas.

É relevante ainda mencionar que as mulheres só foram admitidas nas universidades norte-americanas na última década do século XIX. No Brasil, como observa Nilda Marinho, professora da Universidade de Rio de Janeiro:

“Embora o ensino superior estivesse presente desde 1808, com a vinda da família real, somente com a Reforma do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte e o Superior em todo o Império – instituída pelo Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, e que ficou conhecida como Reforma Leôncio de Carvalho – a mulher passou a ter esse direito citado. A primeira mulher brasileira a possuir um diploma de ensino superior foi Maria Augusta Generoso Estrela, que se graduou em Medicina no ano de 1882, porém nos Estados Unidos, não no Brasil. Desta forma, em 1887, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954) se torna a primeira mulher a se graduar no País na Faculdade de Medicina da Bahia.”

Pelo menos até a metade do século XX as mulheres ainda eram declaradamente desencorajadas a tentar carreira de pesquisadoras e mesmo nos dias atuais é possível perceber a relação desproporcional entre mulheres no corpo discente e docente nas universidades, em que, o número de homens como professores é maior e o número de mulheres é maior dentre o corpo discente, evidenciando a evasão das mulheres ao longo dos níveis da carreira acadêmica. Precisamos ampliar o acesso das mulheres ao ensino e à produção de conhecimento em todas suas instâncias e não sermos mais uma voz que as desencoraja a ocupar esse lugar que lhes é negado. #StandWithMalala

Dito rapidamente tudo isso, defendo que a ciência é um campo que deve ser disputado pelas mulheres e que as transformações proporcionadas por pesquisas preocupadas com o questionamento do sujeito universal masculino (geralmente branco e sempre entendido como neutro) são uma relação de ganha-ganha entre o aprimoramento da ciência, que vai aos poucos se reinventado e se libertando de paradigmas limitadores para a própria pesquisa e, para dizer o mínimo, o avanço no alcance de qualidade de vida para as mulheres e seu reconhecimento enquanto sujeitos. No entanto, somando coro à Londa, friso mais uma vez que “a incorporação das mulheres à ciência não pode e não deve ocorrer sem conturbações na ordem vigente, pois demanda profundas mudanças estruturais na cultura, nos métodos e no conteúdo da ciência” (p.37).

Propor o debate e a transformação das epistemologias e metodologias científicas considerando as mulheres enquanto sujeitos é desafiar o status quo. Ser mulher e fazer ciência é desobedecer! ❤

 Agradeço às meninas que gentilmente sugeriram temas para os textos desta coluna, especialmente à Aline Couto, por ter sugerido o tema da vez. Agradeço também à ilustradora Juliana Adlyn pela sensibilidade e por ter concedido a mim a honra de ter uma de suas artes cocriando os sentidos do texto 🙂

Referências

SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência. Bauru: Edusc, 2001.

Pesquisa analisa a trajetória de inserção das mulheres no ensino superior. Disponível em: <http://www.faperj.br/?id=2748.2.6&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

O feminismo mudou a ciência. Mudará ele a Análise do Comportamento? Disponível em: <http://www.comportese.com/2016/06/o-feminismo-mudou-a-ciencia&gt;. Acesso em: 14 jun 2017.

[1]                      O mais adequado aqui seria falar em “Ciência(s)”, mas para deixar o texto visualmente mais limpo e fluído, optei por usar o termo desta forma. De todo modo, considero “Ciência” o denominador de um campo múltiplo.

[2]                      Cabe dizer que, diferentemente do que os discursos de subjugação feminina propagavam (e ainda propagam), não existe qualquer coisa parecida com uma mulher universal. Existem sim mulheres que vieram de diferentes classes, raças, orientações sexuais, gerações e países, com histórias e repertórios dos mais diversos.

[3]                      Como mostra o filme mencionado, essa problemática toda ganha novas nuances quando interseccionada com outras questões negligenciadas pela ciência, como etnia.

0

Um chamado: a mãe natureza precisa de suas filhas

 

Mulheres

Foto: Site Homeward Bound

O Homeward Bound é um projeto idealizado por Fabian Dattner e Jess Melbourne Thomas. Essas duas mulheres incríveis trabalharam por 6 meses para conseguir suporte da comunidade científica e alheadas de influência para dar seguimento ao projeto. No final de 2015 o Homeward Bound viralizou e nesse mesmo tempo ele já estava com as inscrições para o programa completamente lotadas. As 76 mulheres selecionadas para participar vinham de diferentes partes do mundo e eram das mais diversas áreas da ciência.

Okay, mas do que se trata esse projeto? Aí é que vem a mágica. O principal objetivo dessa iniciativa, que se tornou um movimento global, é aumentar a influência e o impacto de mulheres cientistas de forma que elas consigam influenciar leis e decisões sobre os rumos do nosso planeta. Observem como essa ideia pode ficar ainda mais incrível: o projeto tem planos de enviar 1000 mulheres do mundo inteiro (até agora foram enviadas 76) para ficar um ano inteiro na Antártica!

Por que na Antártica? As principais razões apontadas pelas criadoras do projeto são: 1. Devido ao fato de o continente apresentar regiões que estão entre as que respondem mais rapidamente às mudanças climáticas em todo o planeta; 2. Porque os estudos do local e de seus papéis no sistema climático tem o potencial de gerar insights sobre as mudanças climáticas em uma escala global e sobre a influência das atividades humanas nas mudanças climáticas. 3. Além disso, viajando juntas, as mulheres cientistas podem estabelecer fortes laços (alô sororirade!) e se inspirar, porque convenhamos, ô lugarzinho incrível esse!

Antártica

Foto: Mary-Anne Lea

E por fim? Por que MULHERES? Primeiro, porque mulheres, ao redor do globo infelizmente ocupam poucos cargos de liderança e essa mudança rumo a uma maior igualdade tem sido extremamente lenta, apensar dos crescentes diálogos e de pequenas alterações já observadas em algumas instituições. Segundo, porque uma grande porcentagem de recém-graduados é composta por mulheres, porém, pouquíssimas delas estão em papeis principais de tomadas de decisão. Terceiro (e mais lindo de tudo), porque oferecendo à essas mulheres treinamento de habilidades estratégicas e de liderança, um bom entendimento sobre ciência e uma grande e forte rede de contatos, elas serão capazes de gerar impacto em leis e decisões rumo a um futuro mais sustentável.

Mulheres Antártica

Foto: Jess Melbourne-Thomas

Vocês podem ficar por dentro do projeto pelo site (http://homewardboundprojects.com.au) ou pelo facebook (https://www.facebook.com/homewardboundprojects/) ou podem doar dinheiro para o projeto diretamente pelo link: https://chuffed.org/project/hbscholarships. Afinal, não é todos os dias que encontramos propostas tão inovadoras e promissoras assim envolvendo apenas cientistAs.

Fonte:

http://homewardboundprojects.com.au