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A Terra já foi plana?

Quando falamos do movimento dos terraplanistas não estamos falando de pessoas que trabalham na construção civil deixando áreas de terra muito íngremes mais planas para que a construção seja possível naquele local. Infelizmente. Quem dera. Ô vontade.

O movimento da Terra plana acredita que o nosso planeta, na verdade, não possuiu uma forma parecida com uma esfera e sim com um plano, como um grande disco de vinil ou um imenso biscoito Chocolícia e que, na verdade, a Lei da Gravidade e outras leis das física seriam inválidas.

Bom, parece apenas bem doido, não é? Para os fãs de Harry Potter, parece apenas uma teoria absurda que o Xenofílio Lovegood, pai da querida Luna Lovegood, publicou no Pasquim.

Aí você me diz “ué, qual o problema? Deixa as pessoas acreditarem no que elas querem”.

O problema é que esse movimento vem ganhando adeptos no mundo todo e realizando, inclusive, congressos sobre a “ciência” (??????) da Terra Plana. E no meio desse movimento, que além de tudo tem um profundo e perigoso viés religioso, existem pais de alunos que esperam que a Terra Plana faça parte do currículo escolar de seus filhos e não os estudos geográficos e físicos modernos. E esse tipo de movimento pode ficar tão grande quanto a movimentação de pais americanos que conseguiram o direito dos seus filhos aprenderem criacionismo na escola.

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Para os terraplanistas, o planeta seria um disco e o céu, uma cúpula em formato circular | Ilustração: Raphael Salimena . Crédito: BBC

Um estudo feito em 2017, pela doutora em educação Hanny Angeles Gomide, com alunos de 6° ano do ensino fundamental da cidade de Uberlândia em Minas Gerais, mostrou que 38,8% dos estudantes acreditavam em uma ideia de Terra plana. Quando questionados sobre as razões por trás dessa crença, simplesmente responderam “porque eu acho que é assim”.

Vocês entenderam o perigo?

Mas, pra tirar o gosto de barata da boca, Hanny observou no artigo que:

Naquilo que se relaciona aos demais astros, os participantes possuem um consenso de que o Sol é redondo. Muitos atribuem tal forma ao astro, por ser esta a configuração com que ele se mostra no céu, como é o caso de Márcio, que diz que o astro rei “é redondo por que já viu… em casa de olhar para o céu”. Já Emília observou que o Sol é redondo, “porque já viu nos livros de Ciências e porque também ele é a maior estrela do Universo”.

A simples condição de observação do Sol, seja ao vivo ou em livros de ciência, muda completamente a percepção dos estudantes sobre o fato. Inclusive, os próprios terraplanistas garantem que o Sol e a Lua são esféricos.

Nós podemos olhar para o Sol, Lua e estrelas mas, infelizmente,  como estamos sobre a superfície terrestre, não podemos olhar pra Terra e ter 100% de certeza que ela é plana através de uma observação puramente ocular. Apesar de existirem MILHÕES de fotografias, vídeos, imagens de satélite, leis da física, músicas de sertanejo universitário etc. que mostram que a Terra é plana, o desconfiar é da natureza humana.

E como este é um ambiente de ciência e ambiente de ciência é ambiente de referência científica, venho trazer um dos últimos gritos da ciência em matéria de Terra Esférica.

O texto da tese da doutora em física Anna Miotello, fala sobre os discos protoplanetários, que são estruturas achatadas que giram ao redor de estrelas jovens e são feitas de gás e poeira. Estes são os locais onde os planetas, como a nossa própria Terra, são formados.

Ou seja: nossa Terra já foi plana. Já foi. Passado do verbo ser. Significa que não é mais. Já tem uns 5 bilhões de anos que não é mais. Mais tempo do que você ligou da última vez pra sua avó.

Neste estudo, Miotello explica que a formação de estrelas e planetas começa com a formação de estruturas filamentares dentro de nuvens moleculares gigantes. Dentro desses longos filamentos, tipicamente são criadas dezenas de fibras menores que eventualmente se fragmentam em núcleos densos. Estes núcleos vão se colapsar para formar uma ou mais estrelas. À medida que o colapso prossegue, forma-se uma estrutura em forma de disco rotativo, através da qual a matéria se acumula na protoestrela ou protoplaneta, como podemos ver na figura abaixo.

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Esboço do processo de formação de estrelas e planetas de forma isolada. As classes evolutivas diferentes são esboçados de forma esquemática. [MIOTELLO, 2017]

A partir daí, uma série de eventos se desenrola e estes núcleos densos começam a atrair outras partículas e assim nascem os planetas e estrelas.

Então, meus queridos, apesar desse planeta já ter sido um grande biscoito (ou bolacha, como você preferir) hoje sabemos que não somos mais assim. E se alguém vier com essas ideias de Terra plana, você pega os seus dedinhos e faz assim pra pseudociência.

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Referências

  1. GOMIDE, Hanny Angeles; LONGHINI, Marcos Daniel. MODELOS MENTAIS DE ESTUDANTES DOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE O DIA E A NOITE: UM ESTUDO SOB DIFERENTES REFERENCIAIS. Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia, n. 24, p. 45-68, 2017.
  1. MIOTELLO, Anna et al. The puzzle of protoplanetary disk masses. 2018. Tese de Doutorado.

 

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O vácuo: a falta de representatividade étnica nos resultados de estudos científicos em saúde.

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Calma, hoje é dia da coluna de saúde mesmo! Pedimos licença às colegas das exatas para usar “vácuo” como analogia à falta de resultados científicos que mostrem a importância de se estudar as respostas biológicas das diferentes etnias. Nós já falamos sobre isso por aqui antes especialmente quando tratamos junto a questão do gênero. Um estudo recente realizado por uma rede de instituições de saúde de países como Estados Unidos, Porto Rico, México e Espanha mostrou como a etnia influencia no desenvolvimento e tratamento da asma.

A asma é uma doença crônica comum em crianças, que tem como característica básica a contração dos músculos das vias aéreas, diminuindo drasticamente a passagem do ar para os pulmões (Figura 1). O tratamento é relativamente simples uma vez que substâncias que dilatam as vias, ou seja, broncodilatadores como o salbutamol, são utilizados no momento da crise.

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Estudos anteriores já tinham identificado que, considerando as diferentes etnias presentes nos Estados Unidos, a maior parte das crianças que desenvolvem asma são de origem porto-riquenha (quase 40%). Crianças de origem africana e europeia tem incidência semelhante (12%) e, em menor proporção, estão as crianças mexicanas (7%). No entanto, o estudo mais recente liderado por Esteban Burchard, da Universidade da Califórnia, e realizado por outros 50 autores de 40 instituições de pesquisa, mostrou que não só a forma que a asma se apresenta, mas a resposta ao medicamento salbutamol também é diferente entre as etnias. A figura abaixo mostra como cada etnia estudada – porto-riquenhos*, mexicanos e afrodescendentes – responde ao medicamento. O gráfico mostra os resultados dos exames de função pulmonar (medição do volume de ar exalado no primeiro segundo de teste) após a administração do salbutamol. Os resultados considerados normais são mostrados em cinza, os resultados que representam a alta resposta ao medicamento é mostrada em vermelho, e a baixa resposta ao medicamento é mostrada em azul. Como pode ser claramente visto, as curvas de avaliação da função pulmonar mostram que cada população reage de uma forma diferente após a administração da mesma dose do medicamento. Isso sugere que a quantidade de medicamento que leva a melhora da população porto-riquenha pode ser muito alta para os afrodescendentes. Note que enquanto as populações porto-riquenhas estão respondendo ao medicamento de forma intermediária, as populações mexicanas e afrodescendentes estão respondendo fortemente, o que pode aumentar a possibilidade de efeitos colaterais.

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Que cada pessoa pode responder de formas diferentes a um mesmo medicamento não é novidade. Mas quando a diferença envolve populações inteiras e de características genéticas definidas, isso ajuda a entender as bases genômicas que justifiquem a diferença de resposta ao medicamento. Já existe um ramo da área de farmácia que estuda esse assunto chamado farmacogenômica. Esta cadeira estuda o efeito de um medicamento administrado em determinada pessoa com características genéticas próprias. Por exemplo, pessoas que tem variação genética, a ponto de produzirem enzimas do fígado que não funcionam bem, podem responder de forma diferente a medicamentos como anticoagulantes ou antidepressivos, quando comparado a pessoas que não tem essa variação. O que esse recente estudo mostra é que ao se estudar características genéticas de grupos étnicos pode-se melhorar o atendimento médico a essas pessoas e prover a elas o tratamento mais adequado e com menos efeitos colaterais.

 

No entanto, outros parâmetros devem ser levados em consideração. Não é à toa que existam poucos trabalhos que estudem as implicações terapêuticas das diferenças genéticas de populações. Isso é um reflexo de como a sociedade se comporta diante de diferentes raças, como já falamos por aqui antes. Nos atenhamos aos grupos avaliados no estudo. A marginalização da comunidade de mexicanos e afrodescendentes nos Estados Unidos os submete a condições de saúde mais precárias: alimentação pouco saudável, alto consumo de substância ilícitas, ambientes mais poluídos, acesso restrito a centros de saúde. Essa combinação de fatores pode dificultar o estudo da influência da genética das populações no efeito de medicamentos. Esse estudo mostra mais do que a falta de representatividade nos dados científicos, mostra como a desigualdade social dificulta o fazer ciência.

*Os porto-riquenhos não foram classificados como latinos devido a sua cultura e por seu meio ambiente insulano separado.  

  

Referências:

http://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/402/403

http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/01/29/farmacogenetica-torna-possivel-aplicar-terapias-individualizadas/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23750510

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29509491

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26734713

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Declínio populacional de anfíbios: De onde veio o fungo que está causando a morte desses animais no mundo todo?

Desde o início da minha graduação em ciências biológicas, há muito, muito tempo (mentira, era 2004, nem é tanto tempo assim), numa galáxia muito, muito distante (para alguns é bem distante mesmo, mas pra mim é logo ali em Porto Alegre) eu ouvia falar sobre o declínio populacional das espécies de anfíbios. Nas aulas de zoologia, os professores e professoras explicavam que esse declínio era mais acentuado nesse grupo animal por causa de um fungo que os atingia e causava alta mortalidade. Muitos falavam sobre a possível extinção desses animais, já que eles sofrem não só a pressão da perda de habitats e das mudanças climáticas, mas também tem que lidar com esse patógeno que diminui suas chances de sobrevivência. O fungo que atinge os anfíbios é o Batrachochytrium dendrobatidis (BD para os íntimos). Ele causa uma doença chamada quitridiomicose. Algumas espécies de anfíbios anuros, como sapos, pererecas e rãs, possuem imunidade contra esse fungo, ou seja, eles carregam o patógeno, mas não apresentam sintomas de infecção. Isso faz deles um ótimo vetor na disseminação desse fungo.

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Figura 1: Zoósporo de Batrachochytrium dendrobatidis em microscopia eletrônica. Fonte: Wikipedia.

Os primeiros relatos de quitridiomicose são da década de 70, mas somente em 1990 essa doença foi reconhecida como uma ameaça global ao grupo anfíbio (2). O BD dispersa seus zoósporos (célula reprodutiva) pela água e infecta larvas de anfíbios através da pele. Uma vez que o zoósporo encontra o hospedeiro, ele vai se multiplicar e novos zoósporos podem reinfectar o hospedeiro ou serem disseminados na água e infectar outros indivíduos. Uma série de fatores determinam a gravidade da infecção e possível morte do hospedeiro como temperatura da água e do ambiente, pH e até a imunidade do anfíbio. A infecção afeta principalmente a pele do animal atrapalhando processos de descamação, troca de temperatura, osmose e respiração. Os animais infectados e não imunes ao fungo demonstram letargia, anorexia, e engrossamento da pele. Esse último sintoma é o que acaba levando à morte porque faz com que a respiração, que acontece na maior parte através da pele nesses animais, fique prejudicada e o animal acaba tendo uma parada cardiorrespiratória.

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Figura 2: Ciclo de vida do fungo Batrachochytrium dendrobatidis. Adaptado de Rosenblum et al. 2010.

Durante esses quase 50 anos dos primeiros relatos de quitridiomicose e quase 30 do reconhecimento dessa ameaça aos anfíbios, muita coisa tem sido estudada, mas uma área específica ainda estava pouco explicada: a origem e evolução desse fungo. Conhecer dados sobre a origem de um parasita ajuda a entender como ele é contido no seu ambiente natural e nos dá ideias de estratégias para controlar esse parasito fora do seu ambiente. Quando inserido no ecossistema de origem, tanto animais, quanto plantas e parasitos não são considerados pragas (desde que o ecossistema não esteja desregulado). É mais simples de visualizar isso usando um exemplo animal: quando inserido no ecossistema de origem, um animal faz parte de uma cadeia alimentar e sofre uma série de pressões ambientais. Essas pressões ambientais, que podem ser disponibilidade de alimento, disponibilidade de território, presença de predadores, etc, fazem com que o animal não possa se reproduzir de maneira a se tornar uma praga e desestabilizar o ambiente. Então entender de onde veio a praga e estudar o seu ambiente ajuda a desvendar possíveis modos de contenção . E foi isso que um grupo global de cientistas, inclusive do Brasil, estavam tentando desvendar – de onde veio o BD?

Já existiam vários estudos que tentavam explicar a origem desse fungo, mas o diferencial do artigo publicado esse mês no periódico científico Science, foi a quantidade de dados utilizada. Quanto mais dados, mais robusta e próxima da realidade é uma análise. O grupo de cientistas analisou amostras de BD de América do Sul, América do Norte, Europa, África, Ásia e Oceania.

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Figura 3: Pontos mostrando a localização das amostras utilizadas no estudo. Fonte: O’Hanlon SJ, et al. 2018.

Com as amostras em mãos, eles utilizaram dados genéticos para avaliar as diferentes linhagens e pontuar a linhagem ancestral e qual a sua origem. Os resultados indicaram que a provável linhagem ancestral é asiática, proveniente da Coréia e que ela começou a se espalhar para o resto do mundo após o crescimento do comércio de anfíbios. As análises marcam o início da expansão do fungo causador de quitridiomicose entre 1898 (análise de genoma nuclear) e 1962 (análise de genoma mitocondrial). Esse intervalo de datas coincide com a expansão do comércio de anfíbios ao redor do mundo. Esses animais são comercializados por diversos motivos: animais de estimação, para medicamentos e alimentos (3). De fato, os cientistas encontraram amostras de todas as linhagens de BD em animais comercializados, mesmo com as regras internacionais que impedem a comercialização de animais infectados instituídas pela Organização Mundial de Saúde Animal.

A rota pela qual o BD começou a se espalhar pelo mundo após sair da Ásia ainda não é clara. O que se sabe é que, durante esse curto período do século XX em que houve essa expansão, o BD se diversificou em diferentes linhagens. Isso é comum de acontecer com organismos que ocupam ambientes tão diversos, mas no caso de parasitas, é preocupante. Essa diferenciação já gerou, inclusive, uma linhagem de BD altamente transmissível e virulenta conhecida como BdGPL  Quanto mais linhagens diferentes uma espécie de parasita possui, mais difícil se torna combatê-lo. A diferenciação genética (diferentes linhagens) é associada com a diversificação de características que influenciam na infecção do hospedeiro, ou seja, quanto mais diversa uma espécie de parasita, mais estratégias diferentes de infecção do hospedeiro ela terá. Para combater esse patógeno com eficiência é necessário impedir todas essas estratégias de infecção e reprodução. Então, por conta dessa diferenciação em diferentes linhagens, é provável que para combater o BD seja necessário utilizar diferentes estratégias que contemplem as características específicas de infecção e reprodução das diferentes linhagens. Atualmente, a quitridiomicose afeta aproximadamente 700 espécies de anfíbios, mas esse número tende a subir, já que somente 1.300 espécies das 7.800 descritas foram testadas até o momento. O artigo termina com um alerta para a intensificação da biossegurança envolvida no comércio de anfíbios e um apelo para futuros estudos e estratégias que visem a diminuição da disseminação da quitridiomicose e a sobrevivência do grupo anfíbio.

Referências:

1 – O’Hanlon SJ, et al. (2018). Recent Asian origin of chytrid fungi causing global amphibian declines. Science, 360 (6389): 621 – 627.

2 – Blaustein AR & Wake DB (1990). Declining amphibian populations: A global phenomenon? Trends in Ecology and Evolution, 5: 203 – 204.

3 – Carpenter AI, et al. (2014). A review of the international trade in amphibians: the types, levels and dynamics of trade in CITES-listed species.  Fauna & Flora International, Oryx, 48(4): 565–574.

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Trabalho reprodutivo na agenda. Obrigada, Irene Martín!

No 1.º de Maio, em Lisboa, Irene Martín, uma jovem espanhola que se encontra a fazer um mestrado em Portugal, foi para a rua com um cartaz que dizia o seguinte: “Farta até à cona de gerar a mais-valia dos homens. Trabalho reprodutivo sustenta o capital” [1]. Umas horas depois, a sua foto (em baixo) com o cartaz bem levantado incendiava as redes sociais. Falava-se da sua barriga, dos seus pelos no sovaco, enfim… os despropósitos habituais aplicados a todas as mulheres que assumem uma posição em público e não seguem a ética e a estética do patriarcado, que ainda acha (de achismo, que é diferente de “pensar” porque, na verdade, pensam muito pouco) que a sua opinião tem alguma validade.

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Irene Martín, Foto de Nuno Marques

No entanto, aquilo que deu, realmente, que falar foi o que se encontrava a vermelho, no cartaz: a palavra “cona” e a frase “Trabalho reprodutivo sustenta o capital”. Relativamente à palavra “cona” não pretendo perder muito tempo com ela, mas considero necessário tecer algumas considerações. “Cona”, até agora, tem sido um termo pejorativo utilizado pelos homens para assediarem sexualmente as mulheres ou para as insultarem através da sua genitália e sexualidade e é, por isso, uma palavra condenada ao segredo e à vergonha. Essa condenação ao segredo e à vergonha é para todas as mulheres, claro, e para os homens quando estão armados em bons chefes de família ou em respeitáveis intelectuais, ou homens de negócios, ou políticos, ou seja lá o que for que mereça um ar polidinho e sério. No dia a dia, é uma palavra que já todas nós, mulheres, ouvimos em forma de insulto e de assédio. Sem querer entrar num esquema de “me too” tenho a certeza absoluta que a grande maioria das mulheres portuguesas já ouviu esta palavra dirigida a si e/ou a outras mulheres.. É talvez, por isso, que os comentários ofensivos dirigidos à Irene por homens nas redes sociais devido ao uso desta palavra, não merecem qualquer comentário, é mais do mesmo, se ela usasse “estou farta até aos cabelos” provavelmente seria insultada na mesma, só pelo simples facto de estar naquela pose de desafio.

Quanto aos comentários feitos pelas mulheres, isso já é outra história e merece ser um pouco dissecada. Na verdade, parece-me que todas as que consideraram que a Irene era “mal-educada”, “sem classe”, “vulgar”, “arruaceira” e tantos outros adjectivos patriarcais e machistas, já se fartaram de ouvir na rua “rebentava-te com essa cona toda” e outros impropérios usando a dita palavra, e resolveram ficar em silêncio, cheiinhas de vergonha, porque não podiam repetir tal palavrão, que não é digno de uma “senhora”. Este conceito “senhora”, e tudo o que ele representa é tão conservador e ridículo que pensamos que já foi ultrapassado, mas, infelizmente, não é assim e surge sempre que é necessário lembrar que o mundo precisa das ditas “senhoras” para defenderem o seu status quo heteronormativo, machista e patriarcal de um dos seus maiores inimigos: as mulheres livres que teimam em transgredir e mandam esta gente e as suas regras de educação e classe para… onde quiserem (e puderem) ir, desde que não perturbem a ordem natural das coisas, que é o desmoronamento do heteropatriarcado. Enquanto por cá andam, poderiam ter aproveitado a dica da Irene, apropriar-se do termo “cona” que tem sido usado como um instrumento de opressão e convertê-lo num índice revolucionário, num lugar de resistência e acção política.

No que diz respeito ao trabalho reprodutivo, há que dizer que este cartaz foi de extrema importância para colocar este tema na agenda em Portugal, até porque foi notório o desconhecimento em relação a este assunto, nos posts e comentários que se viam nas redes sociais, uma vez que a maioria considerava que tinha a ver com reprodução (gravidez) ou trabalho sexual. Na verdade, este trabalho reprodutivo que uma jovem do país vizinho colocou na ordem do dia em Portugal, debate-se desde os anos setenta por feministas e marxistas que começaram a olhar para o trabalho doméstico como uma forma de trabalho de grande importância económica, que deveria ser contabilizado de alguma forma. O Instituto Europeu para a Igualdade de Género [2] define-o como: “Todas as tarefas associadas ao apoio e manutenção da actual e futura força do trabalho – daqueles que realizam ou realizarão trabalho produtivo. Inclui a criação e a manutenção, mas não se limita a essas tarefas” [2].

Aliás, as tarefas são tantas que é difícil enumerá-las todas, mas incluem-se: limpeza, preparação de alimentos, compras, prestação de cuidados, organização do funcionamento de toda a casa, planeamento de todas as actividades relacionadas com a família, gestão da casa, etc… Chama-se trabalho reprodutivo para o diferenciar do trabalho de produção (de bens e serviços), muito embora, este último seja o único reconhecido economicamente e socialmente como trabalho, nas sociedades industrializadas. Trabalho reprodutivo substitui o termo “trabalho doméstico”, para que possa ter um alcance muito maior do que o que é, normalmente, atribuído ao trabalho doméstico. Não é remunerado e é feito principalmente por mulheres nas suas casas, com as suas famílias. Quando se diz que é um trabalho realizado principalmente por mulheres, quer dizer-se que a grande maioria das mulheres, durante o seu ciclo de vida, se dedica a este trabalho de forma parcial ou total.

Existem mulheres que não o executam, trata-se de uma pequena minoria e está claramente associada à classe social – as classes mais elevadas pagam a outras mulheres para realizarem este trabalho ou, pelo menos, uma boa parte dele. É um trabalho completamente invisível, mesmo para a grande maioria das mulheres que o executam, particularmente para aquelas que realizam somente estas actividades, porque não têm noção da importância que este trabalho tem para que a sociedade possa funcionar [3,4,5].

Silvia Federici, uma das autoras que mais se tem dedicado a este tema chama a atenção para a desvalorização deste tipo de trabalho, que é considerado muito pouco criativo e propõe que lhe seja atribuído um novo significado e valor: “Como se pode dizer que produzir a vida das novas gerações, educar, conversar, é menos criativo do que construir uma casa, um carro, uma cadeira, um brinquedo? Por isso é importante para mim dar um novo significado a este trabalho. Creio que deve ser parte da luta.” Esta autora defende ainda que a última fronteira de conquista do capital é o corpo das mulheres e afirma: “Com o desenvolvimento do capitalismo, abre-se uma divisão, que é uma divisão do trabalho, uma divisão sexual do trabalho, entre a produção e a reprodução. Uma divisão entre a produção para o mercado, que se converte em trabalho assalariado, isso sobretudo para os homens, e a reprodução da vida e da força do trabalho, que é um trabalho não assalariado muito desvalorizado, muito naturalizado e são cada vez mais as mulheres que ficam concentradas nesse trabalho” [6].

Como se pode verificar, a luta pela visibilidade e valorização do “trabalho reprodutivo” está na ordem do dia na Europa e só apanhou de surpresa as portuguesas e os portugueses que se encontravam em Lisboa a assinalar o Dia do Trabalhador, que fotografaram a Irene, exibiram a sua foto e a insultaram com os mais variados impropérios. Não deixa de ser curioso que tudo isto tenha acontecido no 1.º de Maio. No dia em que se luta pelos direitos no trabalho verifica-se que ainda há muita gente que não reconhece o trabalho das mulheres – um trabalho invisível, não remunerado e sem direitos absolutamente nenhuns.

Pelo menos, agora este tema encontra-se na agenda e poderá ser debatido abertamente por quem de direito. Está aberta a sessão. Que comecem os trabalhos!

Obrigada, Irene!

 

 

[1] http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/26017/irene-miuda-do-cartaz-feminista-que-abanou-redes-sociais

[2] http://eige.europa.eu/rdc/thesaurus/terms/1352

[3] https://www.ecologistasenaccion.org/?p=13104

[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0213-91112004000400007

[5] https://www.raco.cat/index.php/Papers/article/view/25507/25340

[6] https://www.youtube.com/watch?v=XyG8wGXXTeE

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Alquimia do universo: como produzir elementos químicos – Parte II

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Figura 1:  Estrela Sh2-106. Imagem do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA mostrando a estrela recém-formada Sh 2-106. Crédito: NASA/ESA

Continuamos a nossa série “Alquimia do universo” que começou aqui falando sobre os elementos criados durante o Big Bang. O evento que deu origem ao universo produziu a maior parte do hidrogênio e do hélio que existe! Isso não é pouca coisa quando consideramos que aproximadamente 98% de toda a matéria comum (bariônica) que forma você, as árvores, a Terra, o Sol é composta por hidrogênio e hélio.

Tudo muito bom e muito bonito mas hoje nós vamos falar das estrelas! ⭐ Antes de nós passarmos para nosso bate-bola estelar (e não, não vamos falar de falar de futebol 🤣), vamos falar sobre o que são estrelas.

Vídeo 1: SN 2006gy, uma estrela explodindo. Simulação de uma estrela extremamente massiva lançando algumas de suas camadas externas em uma grande erupção antes de colapsar violentamente. A explosão (do tipo supernova) por sua vez entra no gás expelido (em cor acobreada), que se encontra numa temperatura mais fria, criando um espetáculo de luz brilhante. Créditos: NASA/CXC/A.Jubett.]

Estrelas são bolas de gás e poeira com a particularidade que elas conseguiram juntar tanto gás e tanta poeira (graças à força gravitacional) que o núcleo dessas bolas esquentou, e esquentou, até atingir uma temperatura em torno de 4 milhões de Kelvins! Isso é tipo um cadinho menos que 4 milhões de graus Celsius! 🔥😵🔥 Essa temperatura é especial porque significa que agora a nossa “bolinha de poeira” tem energia suficiente para fusionar os núcleos de hidrogênio originando novos núcleos de hélio. E isso acontece bilhões de vezes por segundo, e cada fusão desse tipo gera mais energia, numa cadeia de inúmeras explosões atômicas. É essa energia liberada no processo de fusão que transforma a ex-bola de gás numa bola de gás incandescente: uma estrela.

Vídeo 2: Simulação sobre a formação estelar. O início da simulação parte de uma nuvem molecular distribuída esfericamente que, graças ao efeito da gravidade, começa a colapsar até eventualmente originar estrelas. Créditos: Youtube/Francis Villatoro.

Durante esse período no qual a estrela transforma o hidrogênio presente em seu núcleo em hélio, dizemos que a estrela está na sequência principal de sua evolução estelar. E essa também corresponde a maior fase da vida de uma estrela, como se fosse sua vida adulta.

Se você quer entender melhor como estrela evoluem, dá uma olhada nessa simulação maneiríssima onde você mesma, pessoa, escolhe o tamanho da sua estrela. Tá em português!

 

Só para dar uma ideia..
uma estrela como o nosso Sol demorou 50 milhões de anos para juntar energia suficiente antes de começar a fusionar hidrogênio. Ela está na sequência principal (fase adulta) há aproximadamente 5 bilhões de anos e assim vai permanecer por mais uns 5 bilhões de anos.🌞

 

Depois que a estrela queima o hidrogênio do seu núcleo, os eventos seguintes dependem da massa da estrela. Estrelas entre 0,08 até ~8 massas solares são consideradas estrelas de baixa massa. E estrelas superiores a 8 massas solares estão na categoria de estrelas massivas. A estrela mais massiva observada até hoje tem 265 vezes a massa do Sol, mas estima-se que no começo de sua fase na sequência principal sua massa foi de 320 vezes a massa do Sol! 🤯

Talvez você esteja pensando que estrelas de massivas “vivam” mais do que estrela com menos massa, mas é o contrário. A força gravitacional das estrelas massivas é maior do que as com menos massa. Por isso, a pressão do seu núcleo é muito maior, o que eleva ainda mais a temperatura, fazendo com que queimem o seu hidrogênio muito mais rápido do que estrelas menos massivas. Uma estrela com baixa massa fica na sequência principal por dezenas de bilhões de anos, enquanto estrelas massivas “apenas” por centenas de milhões de anos. Fala sério, vai me dizer que não bateu um alívio do Sol ser do time das baixinhas agora! 

 

Voltando ao assunto, depois que a estrela queima o hidrogênio do núcleo, ela passa a queimar outros elementos (ou o hidrogênio de camadas fora do núcleo), desde que ela atinja a energia de fusão desses outros elementos químicos. E, como você pode imaginar pelo papo que tivemos até aqui, quanto maior a massa da estrela, maior a temperatura que ela pode atingir. Então, quanto mais massiva, mais elementos químicos ela produz.

Sendo assim, estrelas de baixa massa têm energia suficiente para produzir carbono, nitrogênio e oxigênio. Estrelas massivas produzem esses elementos e continuam colapsando e subindo a temperatura de seus núcleos produzindo, subsequentemente, elementos químicos até chegar ao Ferro. Dá uma olha na tabela periódica a seguir para conferir os elementos.

Figura 2: Tabela periódica com elementos produzidos na natureza e legenda representando os eventos que os produzem. Em azul, nucleossíntese do Big Bang; em verde, a morte de estrelas de baixa massa; em rosa, fissão de raios cósmicos; em dourado, explosão de estrelas massivas; em roxo, colisão de estrelas de nêutrons; e em cinza, explosão de anãs brancas. Créditos: Wikipedia/Jennifer Johnson (OSU).

 

E agora vamos ao nosso bate-bola!

Evento: Nucleossíntese estelar

Quando acontece

Dentro das estrelas, durante a fase principal da vida das estrelas e depois em sucessivos processos anteriores a sua morte.

O que é 

As estrelas fundem elementos químicos através de fusão nuclear de forma a manterem sua estabilidade hidrostática: o equilíbrio entre a força gravitacional gerada pelo efeito sua própria massa (pressão “para dentro” da estrela) contra a radiação eletromagnética produzida durante a fusão dos elementos (pressão “para fora” da estrela).

O que é produzido

Desde do hélio-4, a partir do fusão dos núcleos de hidrogênio, até o oxigênio-16 em estrelas de baixa massa. Em estrelas massivas são produzidos elementos desde o hélio-4 até o ferro-56. Veja na tabela periódica a seguir os outros elementos químicos.

Escala de energia
  • o hélio-4 é produzido a temperaturas de 4 milhões de Kelvins;
  • o oxigênio-16 a 2 bilhões de Kelvins;
  • e o ferro-56 a 3 bilhões de Kelvins.
Em quanto tempo são produzidos
  • todo o hélio-4 é produzido em dezenas de milhões de anos;
  • a produção de oxigênio-16 em menos de 1 ano;
  • e, por fim, todo o ferro-56 em menos de 1 segundo!!!
Com que frequência ocorre 

Isso está acontecendo desde que o universo tinha aproximadamente 100 milhões de anos. Hoje, estima-se que o universo tem mais ou menos 14 bilhões de anos e em torno de 2 trilhões de galáxias. E cada galáxia tem em torno de 100 milhões de estrelas, das quais 90% estão na fase de transformar hidrogênio em hélio e as outras 10% estão produzindo outras coisas. Vou deixar para você contar quantas estrelas estão queimando hidrogênio nesse exato instante 😉

Os dados desse bate-bola foram retirados dessa aula super legal do Dr. Dmitry Semenov, Instituto de Astronomia Max Planck, na Alemanha.

 

Espero que você esteja pensando “tá legal, mas perá lá! E o que acontece depois disso? Como é que a estrela libera tudo isso no espaço? Cadê estrela de nêutrons, buracos negros e supernovas? Falta coisa aí!”. E você está certíssima, pessoa! E esse será o tema do nosso próximo papo: os elementos químicos produzidos na morte das estrelas. ⭐💥💀💫

Vídeo 3: Animação da formação de uma nebulosa planetária. Ao contrário do que o nome sugere nebulosas planetárias não dão origem a planetas. Elas são a sopa quente e poderosa de elementos químicos formadas após a explosão de anã branca. 🤩 Esse é tipo o de fim de vida que nosso Sol vai levar. 💥 Créditos: NASA/ESA/J.Gitlin(STScI).

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Loucuras Permitidas

*“Loucuras permitidas

Existem vários tipos de loucura

as que todos tem e as que “precisam” de cura

chamadas transtornos mentais

são elas que nos separam dos que dizem ser normais

Delírios coletivos são permitidos, divulgados, assistidos, aclamados, organizados

e várias vezes repetidos

tidos como exemplo de sanidade, interpretados com naturalidade

nesse modelo doente de sociedade

onde jogam os normais contra os doentes

baseados em diferenças em suas mentes

Crentes de sua superioridade, julgando até mesmo por idade

reprimindo a criatividade, matando a infância e a vitalidade

Qualquer sinal de tristeza, dor, felicidade é tratado como enfermidade

quando o único erro do paciente

foi experimentar a liberdade

Libertou-se de qualquer grade ou corrente

que um dia aprisionou sua mente

e hoje é chamado de doente, apenas por ser diferente

Não posso me exaltar, pensar ou me expressar

sem que ameacem me internar

tentam me descartar, me jogar fora

acham que eu sou um lixo, um erro

embora esqueçam que já passou da hora

de trazer luz à minha história”

*poema escrito por um adolescente, que preferiu manter seu nome em sigilo, durante as atividades da luta antimanicomial de 2018 em São Paulo.

O Brasil é um dos países que se propôs a garantir saúde como direito, em um sistema universal, como a Inglaterra e o Canadá. Como já discutido aqui , o Sistema Único de Saúde (SUS) funciona no modelo de Redes de Atenção (RAS). Dentre elas, há a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A RAPS foi instituída pela Portaria Nº 3088, de 23 de Dezembro de 2011.

A RAPS foi um desdobramento de um cenário geral de mobilização de trabalhadores, usuários e pesquisadores dispostos a repensar a estrutura e prática do cuidado em saúde mental no Brasil.

Há 31 anos, no município de Bauru, ocorreu um encontro que culminou na criação do documento conhecido como Carta de Bauru. A Carta foi escrita pelos 350 profissionais de saúde que estavam presentes e tinha como principais reivindicações extinção das práticas manicomiais e garantia de direitos básicos às pessoas em sofrimento psíquico.

“O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida.”

Naquele momento, os trabalhadores chamavam a atenção para um dos fatores camuflados na lógica manicomial.No trecho acima, retirado da Carta, é possível observar a crítica feita não só à instituição manicômio, mas ao mecanismo de segregação social que ela  impulsiona. Se existe um local depositário de pessoas fora da norma, deve-se considerar que essa norma é construída socialmente e visa isolar, fragilizar e marginalizar a diversidade cultural, étnica, etária, sexual e de gênero.

O país já havia viabilizado verdadeiros massacres aos direitos humanos motivados pela prática asilar em saúde mental. Um exemplo dolorido, mas visceral para a compreensão da barbárie do ataque é o hospital de Barbacena em Minas Gerais. Neste local, cadastrado como manicômio na época, estima-se que tenham ocorrido 60 mil mortes. As condições de vivência levavam à morte com agilidade, privando os internos de acesso a roupas, alimentação, e saneamento básico mínimo. Além disso, práticas de tortura e abusos eram validadas, bem como camisas de força e choques elétricos. A situação só mudou de panorama com a Reforma Psiquiátrica.

HB

 Foto: Luiz Alfredo. Divulgação: Geração editorial

A Reforma Psiquiátrica no Brasil está bastante atrelada à Reforma Sanitária e ao movimento popular de construção de saúde coletiva, que tem como foco a saúde e  bem estar social, e não na doença. Uma das principais influências para a reforma foi o movimento italiano, com o pensamento de Franco Basaglia, de foco no cuidado de saúde mental voltado para construção de autonomia dos sujeitos e extinção das práticas manicomiais.

Dessa forma, após anos de graves acometimentos aos direitos humanos e de constante mobilização do grupo contrário à desumanidade que era tida como proposta única, foram garantidos respaldos para o cuidado em liberdade em saúde mental.

A RAPS tem como diretrizes:

  •  Respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia, a liberdade e o exercício da cidadania.

       • Promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde.

       • Garantia do acesso e da qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar.

       • Ênfase em serviços de base territorial e comunitária, diversificando as estratégias de cuidado, com participação e controle social dos usuários e de seus familiares.

       • Organização dos serviços em RAS regionalizada, com estabelecimento de ações intersetoriais para garantir a integralidade do cuidado.

       • Desenvolvimento da lógica do cuidado centrado nas necessidades das pessoas com transtornos mentais, incluídos os decorrentes do uso de substâncias psicoativas.

Esse cenário é considerado positivo, no entanto, ainda há muito a construir no cotidiano. As práticas manicomiais não ocorrem apenas quando as pessoas estão trancafiadas em manicômio. Podem ocorrer em qualquer espaço que as prive de autonomia e liberdade.

Quando falamos em loucura, nosso imaginário contaminado pela lógica do senso comum nos leva a pensar em situações e pessoas marginalizadas, alheias. Basta pensarmos no sentido que atribuímos à palavra loucura, bem como a louco e louca.

Quando dizemos que alguém está louca, nos referimos a comportamentos tidos pela sociedade patriarcal como femininos, como a histeria. Quando dizemos que alguém está louco, em geral estamos justificando a ação cruel de algum homem, como a psicopatia.

É nesse sentido que deve-se repensar o local da loucura na sociedade com urgência, pois reforça marginalizações e aprisiona corpos e mentes.

Atualmente contamos com a garantia governamental do cuidado em liberdade. Isso é fruto da organização da sociedade civil e passível de se estruturar melhor e com maior capilaridade e abrangência. As quebras e construções de sociedade implicadas nesse processo, envolvendo mudança de linguagem, na cultura e na formação de concepções comuns só é possível a partir da manutenção dessa organização de base.

O encontro de Bauru ocorreu no dia 18 de maio de 1987 e este é considerado o dia nacional da luta antimanicomial, com manifestações organizadas em todo o país, todos os anos. Devemos lembrar das atrocidades à humanidade para que nunca mais aconteçam.

Referências Bibliográficas:

BASAGLIA, F. ONGARO, FB. A problem of institutional psychiatry: exclusion as a social and psychiatric category. International Review of Psychiatry. Pages 120-128 | Published online: 14 May 2018.

FELIZARDO, JT. OLIVEIRA, JL. As análises de Hannah Arendt acerca dos campos de concentração e suas relações com o “holocausto brasileiro”. Mental vol.11 no.21 Barbacena jul./dez. 2017.

CASAGRANDE, AB. BAO, CE.Conjugando gênero e loucura: as experiências de homens e mulheres no cotidiano asilar do Hospital-Colônia Adauto Botelho/PR (1954-1960). Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X.

Indicação de documentário:

Holocausto Brasileiro

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À beira d’água

Um longo focinho de jacaré e uma bizarra vela nas costas – assim podemos definir os espinossaurídeos, um dos grupos de dinossauros carnívoros mais conhecidos na cultura popular. Estrelas de filmes como “Jurassic Park III” e “A Era do Gelo III”, o Spinosaurus aegyptiacus – a espécie típica de seu grupo – ganhou destaque desde sua descoberta pelo seu tamanho grande e pela morfologia que o diferenciava facilmente de outros tipos de dinossauros predadores (Figura 1). Descoberto em 1912 pelo paleontólogo alemão Ernest Stromer durante uma expedição no Egito, o Spinosaurus causou sensação por possivelmente rivalizar em tamanho com o Tyrannosaurus rex. Outros espinossaurídeos começaram a ser descobertos pelo mundo, inclusive aqui no Brasil (onde temos três espécies válidas). Infelizmente, o registro fóssil de espinossaurídeos ainda é bastante incompleto se comparado com outros terópodes, havendo muitas dúvidas quanto a sua morfologia peculiar e o quanto esta refletia seus hábitos de vida. Essa situação piorou depois que o holótipo do Spinosaurus, que estava depositado no museu de Munique, foi destruído durante os bombardeios na Segunda Guerra Mundial.

 

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Spinosaurus (maior) e seus “primos” espinossaurídeos. Dinossauros que possuem uma morfologia geral bem típica e de fácil reconhecimento – mas o quanto isso seria reflexo de seus hábitos de vida? Imagem: Vitor Silva.

 

Porém, num artigo publicado recentemente, uma equipe formada de paleontólogos brasileiros e europeus, ao avaliarem uma tíbia incompleta, trouxeram algumas informações interessantes sobre essa misteriosa família de dinossauros. O fóssil, proveniente da Bacia do Araripe (nordeste do Brasil), apesar de incompleto nos ajuda a entender uma história evolutiva interessante sobre os espinossaurídeos sul-americanos. Utilizando-se de técnicas como a tomografia computadorizada e de cortes paleohistológicos, foi possível observar que a parede óssea era mais espessa do que em outros dinossauros carnívoros, sendo uma região óssea chamada cavidade medular se encontrava preenchida parcialmente por osso (Figura 2). Isso significa que o osso engrossou, deixando pouquíssimo espaço em seu interior – uma característica que é encontrada em animais que voltaram a viver em águas rasas, como os peixes-boi e ornitorrincos. Ou seja, essa maior densidade óssea ajudava esse espinossaurídeo a submergir e impedia o animal de ficar flutuando na superfície quando não estivesse tentando mergulhar. Esse aumento da densidade óssea ecoa a suspeita de um estilo de vida semi-aquático ou mesmo totalmente aquático.

 

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Vistas e análise transversal do fóssil da tíbia incompleta de espinossaurídeo brasileiro. Imagem retirada do artigo de Aureliano et al. (2018).

 

Paralelamente à essa pesquisa, uma outra equipe de paleontólogos encontrou evidências que podem corroborar com essa hipótese. Quando esses pesquisadores compararam a composição isotópica do cálcio presente no esmalte dos dentes de espinossaurídeos africanos, eles conseguiram rastrear que esse grupo particular de dinossauros se alimentava quase que exclusivamente de peixes. Digo quase exclusivamente, pois em 2004, um dente de um espinossaurídeo desconhecido foi encontrado preso numa vértebra de pterossauro, o que sugere uma relação predador-presa, ainda que o réptil voador possa ter sido uma presa incomum de seu predador. De toda forma, os demais registros indicam que os espinossaurídeos deviam se alimentar de peixes, o que implica que provavelmente estes animais deviam ficar boa parte do tempo submersos na água – ou ao menos, saibam pescar muito bem!

O mais interessante, porém, é que o fóssil brasileiro é pelo menos dez milhões de anos mais antigo que o Spinosaurus e seus conterrâneos africanos. Isso significa que a afinidade com a natação pode ter corrido muito mais previamente na evolução da família do que o observado anteriormente… (Figura 3). Uma outra novidade sobre esse fóssil é seu tamanho. A equipe responsável pela pesquisa estimou prováveis 10m, através da comparação com outros indivíduos mais completos. Isso torna esse elemento ósseo como um representante de um dos maiores espinossauros encontrados na América do Sul – e curiosamente, a paleohistologia também indicou que este indivíduo era um subadulto, ou seja, o animal não estava totalmente maduro no momento da sua morte, por isso poderia ter crescido ainda mais se tivesse vivido mais tempo.

 

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Um espinossaurídeo busca por comida, enquanto nada em seu ambiente, onde prefere atacar um pterossauro. Imagem de Julio Lacerda, retirada do artigo de Aureliano et al. (2018).

 

Infelizmente, por ser um único osso, não é possível atribuir com certeza a uma espécie em particular – porém, a boa notícia é que na Bacia do Araripe existem duas espécies de espinossaurídeos, o Irritator challengeri e o Angaturama limai. Apesar de ambas espécies terem apenas elementos do crânio conhecidos, muito provavelmente essa tíbia pertence a alguma dessas duas espécies. Pelo menos até que seja evidenciada que existe uma terceira espécie de espinossaurídeo para o Araripe… Por fim, esse osso, ainda que incompleto, nos ajudou a entender um pouco melhor a história de vida dos espinossaurídeos. Futuramente, quando novos fósseis mais completos desses dinossauros forem estudados, podemos enfim um dia conhecermos melhor sua família.

Para saber mais:

Aureliano, T., Ghilardi, A.M., Buck, P.V., Fabbri, M., Samathi, A., Delcourt, R., Fernandes, M.A., Sander, M., Semi-aquatic adaptations in a spinosaur from the Lower Cretaceous of Brazil, Cretaceous Research (2018), doi:10.1016/j.cretres.2018.04.024.

Hassler, J. E. Martin, R. Amiot, T. Tacail, F. Arnaud Godet, R. Allain, V. Balter. Calcium isotopes offer clues on resource partitioning among Cretaceous predatory dinosaurs, Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences (2018). DOI: 10.1098/rspb.2018.0197

Buffetaut, E.; Martill, D.; Escuillié, F. Pterosaurs as part of a spinosaur diet. Nature (2004). 430 (6995): 33. Bibcode:2004Natur.429…33B. doi:10.1038/430033a. PMID 15229562.

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Robôs nas eleições: como ser mais humano?

Prazer, conheça a @fatimabot, um bot com boas intenções que irá ajudar a combater as fakenews no cenário de eleições brasileiras. A iniciativa foi a grande vencedora de um concurso lançado pelo Catraca Livre em parceria com o Instituto SEB e Educação com o apoio da Microsoft. Fátima é um chatbot com a intenção de ajudar os usuários do Facebook a identificar notícias falsas, encontrar dados reais e confiáveis e saber se a fonte é confiável ou não. Os bots estão se tornando uma importante ferramenta da tecnologia, tanto para informar democraticamente todos, como um aliado no relacionamento com o cliente.


Ao se tratar de atendimento ao público, a estratégia é usada desde o Banco do Brasil, que através do Messenger resolve questões simples de atendimento e dúvidas de cliente, até a marca Prudence, com a Conselheira Prudence, incentivando o uso de preservativos e dando dicas sobre sexo. (Você pode ler sobre outros exemplos aqui). E o investimento tem aumentado. Em 2016, as empresas investiram 229% a mais em chatbots em relação a 2015. Alguns chatbots são famosos mundialmente, como Eliza (Weinzebaum,1966) e ALICE (Abu Shawar and Atwell, 2003), a sigla de “Artificial Linguistic Internet Computer Entity”.


Porém, os chatbots tradicionais possuem uma capacidade limitada de interatividade, sendo fiéis as situações e palavras que foram programados para interagir. Com a evolução da inteligência artificial, foram desenvolvidos vários métodos de aprendizado, podendo os mesmos serem dinâmicos ou estáticos. No caso dos estáticos, o conhecimento é extraído de fóruns na internet ou de diálogos e aplicados na interação com os usuários. Nos dinâmicos, o conhecimento é extraído da própria conversa com os usuários, o que pode facilitar a resposta usando palavras chave. Neste sentido, cada palavra possível tem uma probabilidade de respostas.


A inteligência artificial e o aprendizado de máquina (machine learning) surgem neste contexto a partir da necessidade dos robôs se aprimorarem e serem capazes de aprenderem sozinhos.

A criação e o desenvolvimento de novas tecnologias são incentivadas através de competições e premiações.  O prêmio Loebner, por exemplo, é uma competição anual de inteligência artificial que premia os chatbots  que mais se assemelham ao comportamento humano, com padrão no Teste de Turing.  É possível, aprendendo uma linguagem de programação como JAVA, programar um chatbot em um que seja código livre. (Você pode encontrar exemplos aqui).

A tecnologia está disponível e nos permitindo criar interações cada vez mais sofisticadas.

É bom estarmos atentos porque essa mesma tecnologia que nos permite criar um mundo mais acessível e democrático, se utilizada de maneira indevida, pode limitar nosso exercício de cidadania,por exemplo. Em ano eleitoral, os robôs virtuais que emitem comentários e tendenciam fóruns na internet tornam-se uma ameaça a um processo eleitoral honesto. A resposta contra iniciativas que tentam inviabilizar o cenário democrático é o desenvolvimento tecnológico a serviço da sociedade, como a Fátima, para que prevaleça características humanas nas notícias e nas redes sociais, como a ética e o senso crítico.


Referências
DAL PICCOL SOTTO, Léo e DE CIA COSTA, Victor. Chatbot com Aprendizado a Partir de Diálogos. Instituto de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de São Paulo, São José dos Campos, São Paulo, Brasil. Link.


ALICE: https://home.pandorabots.com/en/

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“Sims era um salvador ou um sádico? Depende da cor das mulheres que você pergunta”

Quem faz a pergunta e resposta que dão título a este texto é a pesquisadora Harriet Washington no seu estudo sobre racismo na saúde nos Estados Unidos da América que gerou como resultado o livro Medical Apartheid (2007).

Mulheres de Anarcha

Yeboah-Kodie and others were sprayed with red to signify women’s pain after surgeries. (Creditos da imagem: Howard Simmons/New York Daily News)

No último mês de abril ativistas e militantes do movimento de mulheres negras dos EUA tiveram uma vitória simbólica, que da estátua de Dr. Sims foi removida do Central Park, Nova Iorque, chamado de “pai da ginecologia moderna” o cirurgião que utilizava as mulheres negras escravizadas como cobaias nos seus experimentos. No entanto, infelizmente, não foi somente Sims que, na história da medicina e da saúde, utilizou os corpos negros para realização de experimentos, fazendo-os cobaias da humanidade.

Estudo da Sífilis Não-Tratada de Tuskegee (Alabama/EUA) foi também um dos casos de uso da população negra como cobaias. Durante o período de 1932 a 1972, foi realizado um ensaio clínico no qual 399 homens negros com sífilis foram usados como cobaias na observação da progressão natural da sífilis sem medicamentos. Os doentes envolvidos não eram informados sobre seu diagnóstico e jamais deram seu consentimento para participar da experiência. Eles recebiam apenas informação que eram portadores de “sangue ruim”, e que se participassem do programa receberiam tratamento médico gratuito, transporte para a clínica, refeições gratuitas e a cobertura das despesas de funeral.

No Brasil um dos casos mais emblemáticos tem relação com o controle de natalidade da população negra, em Salvador (Bahia). O Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH), criado em 1986, e dirigido pelo médico Elsimar Coutinho na Bahia, fazia campanhas sobre controle de natalidade a partir de uma perspectiva eugênica. Entre os seus materiais de divulgação, tinham outdoors com fotos de crianças e mulheres negras com os seguintes dizeres: “Defeito de Fabricação”, para convencer a população baiana da necessidade do controle da natalidade (A questão da saúde reprodutiva e o feminismo negro no Brasil). Além disso, no Centro realizava experimentos com métodos contraceptivos hormonais, principalmente os injetáveis, em mulheres negras e pobres sob acusações da falta de informação dos efeitos no corpo e dos riscos no uso do método.

Mas quem era Dr. Sims?

James Marion Sims (1813–1883) foi um médico estadunidense e um pioneiro no campo da cirurgia, conhecido como o “pai da moderna ginecologia“. O seu trabalho mais importante foi desenvolver uma técnica cirúrgica para reparação da fístula vesicovaginal, uma grave complicação do trabalho de parto prolongado em demasia.

Sims usou mulheres negras escravizadas como cobaias no desenvolvimento dos seus estudos. Em seus experimentos realizava cirurgias nestas mulheres, sem o uso de anestesia, pois segundo ele “os africanos tinham uma tolerância fisiológica incomum para a dor”.

Em sua autobiografia, Sims disse que: estava em dívida para com as mulheres escravizadas. Depois que várias operações falharam ele estava desanimado e as escravizadas encorajaram-no a continuar, porque elas estavam determinadas a ter os seus problemas médicos curados. Logo depois de Sims ter feito uma cirurgia bem sucedida de fístula vesicovaginal e fístula rectovaginal em 1849, ele teria reparado com êxito as fístulas de outras mulheres escravizadas. Elas voltaram para seus trabalhos escravos.

Reflexos das práticas racistas na saúde das mulheres negras na atualidade

O sucesso dos experimentos de Sims nas mulheres negras, com reconstituição das fistulas vesicovaginal e fistula rectovaginal (fistulas obstétricas), não se reverteu para as mulheres africanas, pois ainda hoje em vários países da África as mulheres são expostas as fístulas, sendo um dos agravos determinantes da morte materna (Fístula Obstétrica e a violação de direitos).

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a fístula obstétrica afeta mais de 2 milhões de mulheres no mundo, principalmente nos países localizados na África e na Ásia. O perfil de mulheres mais afetadas inclui mulheres e meninas em situação de pobreza, com baixa escolaridade e que na maioria das vezes vivenciam o casamento forçado e a gravidez prematura.

“As mulheres negras são resistentes”, é o que diz o senso comum e vai além disso, pois parece que a prática de Sims ganhou adeptos na atenção obstétrica. Estudos científicos confirmam que os profissionais de saúde utilizam desta informação para definir o uso ou não de analgesia para as mulheres negras, é o que revela a pesquisadora Maria do Carmo Leal e colaboradoras em seus dois artigos “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil” (2017). Neste artigo é evidenciado que as mulheres pretas recebem menos anestesia local (pretas 10,7% e brancas 8,0%) para a episiotomia e o artigo mais antigo “Desigualdades raciais, sociodemográficas e na assistência ao pré-natal e ao parto, 1999-2001” (2005) revela que as mulheres negras estão mais expostas à não utilização de anestésico no parto vaginal, chegando a quase um terço.

Diante disso, o que temos como responsabilidade hoje é recontar a história da medicina/saúde e a história natural da doença, desconstruir epistemologias racistas, sexistas e colonizadas nas práticas de saúde e construir outras bases epistemológicas que reconheçam os direitos humanos, a diversidade e as diferenças, na esperança que futuramente os atendimentos e os cuidados nos serviços de saúde não sejam estruturados pelo racismo e outras formas de opressões correlatas, que ainda tem sido determinante na forma de adoecer e morrer para mulheres negras e homens negros.

Referências

WASHINGTON, Harriet A. Medical apartheid: The dark history of medical experimentation on black americans from colonial times to the present. 2007.

ESTUDO DA SÍFILIS NÃO TRATADA DE TUSKEGEE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2017. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Estudo_da_S%C3%ADfilis_n%C3%A3o_Tratada_de_Tuskegee&oldid=48573236>. Acesso em: 17 abr. 2017.

MARION SIMS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=J._Marion_Sims&oldid=51851068>. Acesso em: 19 abr. 2018.

DAMASCENO, Mariana. A questão da saúde reprodutiva e o feminismo negro no Brasil. 2017. https://www.cafehistoria.com.br/a-questao-da-saude-reprodutiva-e-o-feminismo-negro-no-brasil/

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2017, vol.33, suppl.1, e00078816.  Epub July 24, 2017.

LEAL, Maria do Carmo; GAMA, Silvana Granado Nogueira da; CUNHA, Cynthia Braga da. Desigualdades raciais, sociodemográficas e na assistência ao pré-natal e ao parto, 1999-2001. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 39, n. 1, p. 100-107,  Jan.  2005.

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Medo de dirigir? A psicologia aliada a tecnologia pode ajudar

Uso de realidade virtual e terapia de exposição tem sido eficaz na diminuição do medo de dirigirdriving-2732934_640Fonte: CC0 Creative Commons

Muitas pessoas têm medo de dirigir, e isso ocorre por diversos motivos, mesmo quando um indivíduo não esteve presente ou causou um acidente prévio. Entender os motivos pelos quais um indivíduo tem esse medo é o primeiro passo na construção de um programa que tenha como objetivo reduzir o medo ou fobia de dirigir. Para a análise do comportamento, a análise funcional é uma forma de descobrir relações entre nossos comportamentos e o ambiente a nossa volta, evidenciando, por exemplo, diante de quais situações um indivíduo evita ou se recusa a dirigir e o que acontece quando ele se comporta desse jeito.

Estudos têm mostrado, por exemplo, que a avaliação negativa de terceiros (pais, parceiros e, inclusive, estranhos) é um dos motivos pelos quais muitas pessoas evitam dirigir. Outros motivos incluem regras como “se eu dirigir, vou perder o controle do carro”, “não consigo me concentrar”, etc. que, mesmo sem serem acuradas, diminuem a probabilidade de que um indivíduo se engaje no comportamento de dirigir. Para a análise do comportamento, a fobia de dirigir é caracterizada pela esquiva, ou seja, evitação de situações onde seja necessário dirigir, uma vez que elas produzem grande ansiedade. Assim, a emissão dessas regras e de outros comportamentos são eficazes porque reduzem ou eliminam a ansiedade. Nesse sentido, a terapia deve ser focada em expor o indivíduo a situações relativamente estressantes, ensinando estratégias para lidar com a ansiedade e comportamentos técnicos adequados, como a colocação correta das mãos no volante, o uso correto da embreagem, etc., de modo que o indivíduo se sinta cada vez menos ansioso nessas situações, mostrando que ele é capaz de dirigir sem necessariamente causar acidentes.

Pensando nos prejuízos associados a esse medo, pesquisadores têm buscado formas de auxiliar na redução da fobia de dirigir, sem, no entanto, expor esses indivíduos na situação in vivo. Nesse sentido, as terapias de exposição por realidade virtual têm sido utilizadas como uma ferramenta importante em que, apesar de não haver perigo real de acidente, os indivíduos com fobia de dirigir se sentem como se estivessem dirigindo na rua, ou seja, mesmo estando em um ambiente fechado e sem estar em movimento, as características de hardware e software do carro e dos cenários visualizados pelo indivíduo são eficientes em gerar emoções parecidas com a situação real.

O estudo de Elizeu Borloti e colaboradores (2018), publicado na revista Avances en Psicología Latinoamericana é um exemplo disso. Os experimentadores recrutaram seis adultos, quatro mulheres e dois homens que, apesar de possuírem a carteira de habilitação, relataram ter medo ou fobia de dirigir, e uma intervenção com o objetivo de reduzir esse medo foi feita com o uso da terapia por exposição por realidade virtual. Para tal, um simulador de veículo automotivo foi utilizado. Esse simulador continha a estrutura de um carro, com volante, cinto de segurança, freio, embreagem, acelerador, etc., e apresentava diversos cenários (e.g., cenário urbano sem trânsito e com poucos transeuntes; cenário de subida; cenários com múltiplas paradas requeridas; cenário de rampas, curvas e subidas; estacionamento). Durante todo o procedimento, os participantes avaliavam a sensação de desconforto/ansiedade sentida, o senso de presença, ou seja, o quão similar a situações in vivo o simulador era, entre outras medidas.

Na linha de base, foi verificada a habilidade dos participantes no carro, como a identificação dos componentes do carro, a posição do pé na embreagem, a posição das mãos no volante, etc. Nessa fase, nenhum erro de condução foi apontado. As dificuldades foram anotadas para serem abordadas na fase de intervenção. Três cenários foram escolhidos para a fase de intervenção, sendo eles os que o participante demonstrou maior dificuldade. Nessa fase, a experimentadora realizou também uma avaliação funcional do comportamento de dirigir dos participantes, ou seja, verificou em quais contextos e situações os participantes desistiam ou se recusavam a dirigir, e o que acontecia após (e.g., se alguém punia seu comportamento, com comentários do tipo “você nunca vai dirigir assim” e “dirigir é fácil”; se ela recebia apoio e comentários empáticos do tipo “é normal ficar nervosa”, “respira fundo e tenta de novo”).

Sempre que o participante tivesse um nível alto de ansiedade, ele era encorajado a respirar com o diafragma. O cenário inicial sempre era o que eliciava menor ansiedade, aumentando gradativamente, conforme o desempenho do participante fosse melhorando. As dificuldades técnicas no dirigir foram abordadas e ensinadas maneiras adequadas de manipular os elementos do carro. Sempre que um participante realizasse manobras ou outras atividades de modo adequado, ele recebia feedback positivo, assim como pelo enfrentamento da situação que era altamente estressante. Os participantes só avançavam para o próximo cenário se demonstrassem um menor nível de ansiedade e uma boa condução no nível anterior. Foram realizadas seis a oito sessões de intervenção, a depender da necessidade de cada participante, e um e três meses depois do fim da intervenção, foram feitas sessões para avaliar se o comportamento de dirigir tinha sido mantido (follow-up).

Os resultados mostraram que, no geral, todos os participantes relataram sentir menos medo de dirigir. Isso foi evidenciado pelo fato de que todos os participantes tiveram oportunidades de executar o que foi aprendido, dirigindo no dia a dia, e quatro dos cinco dirigiram em mais de 50% das oportunidades durante a fase de intervenção (P1 e P6 dirigiram em todas as oportunidades; P4 dirigiu em torno de 38% das oportunidades). Durante o follow-up, todos os participantes dirigiram em, pelo menos, 50% das oportunidades, e a maioria relatou sentir menos medo de dirigir em comparação com a fase de intervenção. Os participantes relataram que os cenários eram bastante reais, e isso os auxiliou enfrentar o medo e dirigir, de fato, nas ruas. A análise funcional também foi útil, pois ajudou os participantes a discriminarem as situações as quais evitam ou se recusam a dirigir, buscando estratégias próprias para superar o medo e se exporem às situações que temiam.

Esse estudo é um exemplo de como a união de estratégias da psicologia com os avanços tecnológicos, pelo uso dos simuladores pode melhorar a vida e diminuir o sofrimento de diversas pessoas que sofrem de fobia ou medo de dirigir.

Quer saber mais?

O estudo: Borloti, E., Santos, A., Haydu, V. B. (2018). Terapia com exposição à realidade virtual e avaliação funcional para fobia de dirigir: Um programa de intervenção. Avances en Psicología Latinoamericana, 36(2), 235-251. doi: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/apl/a.5329