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As doenças negligenciadas do Brasil

O medo de uma doença viral, mais conhecida como febre amarela, tem deixado a população brasileira em estado de alerta. Em um cenário que envolve: macacos morrendo, pessoas doentes, filas quilométricas nos postos de saúde e a falta de certeza se haverá vacina para todos.

Mas hoje não falaremos desta doença, a febre amarela já foi discutida em um outro post deste blog. Hoje falaremos de outras doenças virais transmitidas por mosquitos.

As arboviroses, ou doenças transmitidas por arbovírus, são ameaças constantes em países tropicais, como o Brasil. Fatores como: mudanças climáticas, desmatamento, migração, crescimento desordenado de áreas urbanas e condições sanitárias precárias, amplificam os vírus e seus vetores, favorecendo a transmissão de doenças.

No Brasil foram isolados, aproximadamente, 200 espécies diferentes de vírus, dos quais 40 podem causar doenças em humanos. As doenças virais transmitidas por mosquitos mais conhecidas são: zika, dengue, chikungunya e febre amarela. Mas existem outras, menos notificadas, negligenciadas e que são menos discutidas na literatura e, consequentemente, aparecem menos na mídia.

Estas doenças são: Oropouche, Mayaro e Rocio. Todas elas tem um sintoma em comum: febre alta. Não existem testes específicos para essas doenças. O que torna o seu diagnóstico difícil e por vezes são subnotificadas.

Oropouche

Esse vírus foi isolado pela primeira vez no ano de 1955 em Trindade e Tobago. Cinco anos depois o vírus foi encontrado no Brasil em uma amostra de bicho-preguiça. Desde essa época o vírus tem causado surtos epidêmicos na região Amazônica, principalmente nas cidades de Manaus e Belém.

O vírus é transmitido entre hospedeiros vertebrados, podendo infectar mamíferos e aves. Ele é transmitido por espécies silvestres de mosquitos e pelo Culicoides paraensis, popularmente conhecido como borrachudo.

Oropouche é considerada uma das doenças mais importantes nas Américas, especialmente na região da Amazônia Brasileira. Pesquisas indicam que cerca de 500 mil pessoas podem ter sido infectadas com o vírus Oropouche desde a década de 60.

Em 2002, 128 pessoas de Manaus foram encontradas infectadas pelo vírus, pacientes que tiveram o diagnóstico inicial de dengue. Provando que o diagnóstico dessa doença é constantemente confundido com outras que apresentam quadro febril do paciente e que são endêmicas na região amazônica, como dengue e malária.

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Pântano Oropouche – Trindade e Tobago. Fonte: Grueslayer @Wikipedia, CC BY-SA 4.0

Mayaro

A doença conhecida como febre do Mayaro, com sintomas que envolvem: febre, dor de cabeça e dor nas articulações, foi primeiramente identificada em 1954, em regiões silvestres aos arredores da Amazônia. Existem casos esporádicos da doença em seres humanos que habitam próximos a fragmentos de florestas tropicais, pois o vetor que transmite o vírus, mosquitos do gênero Haemagogus, são comuns nestas florestas.

A maior preocupação em relação a esse vírus, é de que ele pode ter se adaptado. Anteriormente, era transmitido apenas por mosquitos silvestres, e agora pode ser transmitido por mosquitos urbanos do gênero Aedes, indicando a possível urbanização da doença. Uma vez que mosquitos do gênero Aedes estão espalhados por todo o continente latino-americano, há razões para se preocupar com surtos dessa doença.

Foi estimado que a transmissão do vírus em Manaus, chegou a cerca de 2 milhões de pessoas. Essa doença pode se tornar um sério problema de saúde pública, pois não possui vacina e o controle de vetores é precário em determinadas regiões.

Rocio

O vírus Rocio, foi isolado de um caso fatal de encefalite em 1975, em uma área da Mata Atlântica. Esse caso foi detectado no surto que durou de 1973-1980 e causou mil casos de encefalite em mais de 20 municípios, resultando em 100 mortes. O ciclo do vírus é mantido por aves que servem de reservatório e transmitido por mosquitos do gênero Aedes e Psorophora. Porém, há pouca informação na literatura a respeito deste vírus.

Doenças negligenciadas

As doenças negligenciadas, ou “esquecidas”, são um conjunto de doenças infecciosas que atingem as populações mais vulneráveis. Essas populações incluem os mais pobres, os mais marginalizados e aqueles com menor acesso à serviços de saúde, especialmente pessoas que vivem em áreas rurais, ou nas periferias de grandes centros urbanos. Todas as doenças citadas no texto se encaixam no perfil de negligenciadas.

Lidar com essas doenças requer uma estratégia integrada com ações multi-setoriais, uma vez que todas elas têm o potencial de se espalhar pelo território brasileiro e ameaçar mais ainda a parte mais vulnerável da população. Além de intervenções com boa relação de custo-benefício para reduzir os impactos negativos que as doenças apresentam para a saúde e bem-estar socioeconômico da população.

Standing up to Chagas at the Paraguayan Chaco

Fonte: MSF – Anna Surinyach

Referências

Lorenz C, Azevedo TS, Virginio F, Aguiar BS, Chiaravalloti-Neto F, Suesdek L (2017) Impact of environmental factors on neglected emerging arboviral diseases. PLoS Negl Trop Dis 11(9): e0005959. https://doi.org/10.1371/journal. pntd.0005959

Informações do Ministério da Saúde

http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-do-mayaro

Informações na mídia sobre as doenças

http://agencia.fapesp.br/virus_oropouche_pode_emergir_e_causar_problemas_de_saude_publica_no_brasil/25696/

https://saude.abril.com.br/medicina/conhece-a-febre-do-oropouche-pois-ela-pode-crescer-no-brasil/

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/01/1954737-virus-primos-da-zika-tambem-causam-ma-formacoes-em-fetos-de-roedores.shtml

https://extra.globo.com/noticias/saude-e-ciencia/saiba-que-o-mayaro-virus-transmitido-pelo-aedes-aegypti-que-pode-se-espalhar-20428264.html

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/09/1919223-virus-primos-da-dengue-podem-estar-na-ativa.shtml

http://www.paho.org/hq/index.php?option=com_topics&view=article&id=37&Itemid=40760

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A biologia da aprendizagem

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Fonte: http://www.corujaloira.com/2015/04/18/10-dicas-para-estudar-no-feriado/

Eu adoro estudar. Procuro sempre estar aprendendo algo novo, mesmo que eu não precise saber necessariamente aquele assunto. Quando você se dispõe a aprender algo, na maioria das vezes, será sobre um assunto que você gosta. Eu adoro biologia, literatura, história e vários outros assuntos, mas eu odeio tenho extrema dificuldade em aprender línguas. O problema é que eu preciso fazer um teste de proficiência esse ano e, querendo ou não, eu tenho que aprender de verdade a falar, escrever, escutar e ler em outra língua. Foi nesse cenário que eu comecei a pensar em quais estratégias eu poderia utilizar para tornar meu aprendizado mais eficiente e menos doloroso, por assim dizer. Nesse momento eu fui estudar. Estudei e achei respostas tão interessantes que resolvi trazer algumas das coisas que a ciência diz sobre o aprendizado e compartilhar com vocês. Vamos lá!

Começando pelo início

Bem simplificadamente, quando aprendemos algo novo, essa informação chega em primeira mão a um determinado grupo de neurônios. Esses neurônios então passam essa informação adiante através de impulsos elétricos e impulsos químicos. Esse ato de “passar a informação adiante” possibilita a formação de novas conexões. Cada informação nova é recebida, processada e analisada.

Cada organismo é um universo particular, então o recebimento de informações, os impulsos gerados, as conexões formadas são dependentes de uma série de fatores como aprendizagem anterior, existência de algum tipo de lesão, desbalanço químico, entre outros. Isso significa que não adianta você seguir todas as dicas que os cientistas dão para querer aprender neurociência em um dia se você não lembra nem das aulas de biologia. Ou ainda se você estiver sob forte estresse ou muito triste ou ansiosa(o). Primeiro você precisa resolver isso porque as emoções vão influenciar como e em que velocidade você aprende.

Primeira dica: Faça exercícios!

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Fonte: http://blogeducacaofisica.com.br/beneficios-do-exercicio-fisico

Diversos estudos sugerem que fazer exercícios aumenta a capacidade de aprendizado. Uma das relações existentes entre exercícios e aumento de aprendizagem é relacionada ao hipocampo. O hipocampo é uma estrutura localizada em ambos os hemisférios cerebrais que possui diversas funções em relação à consolidação da memória e aprendizagem. Praticar exercícios aumenta a formação de novos neurônios no hipocampo (neurogênese), aumenta a “força das sinapses” nessa região (em inglês: Long term potentiation – LTP) e aumenta também a concentração de substâncias neuroprotetoras e antioxidantes que vão proteger o hipocampo de danos.

Além de afetar o hipocampo, praticar exercícios aumenta a autoestima (pelo menos em crianças e adolescentes em idade escolar). Uma melhor imagem de si mesmo faz com que você se sinta mais feliz, menos ansiosa(o) e menos estressada(o). Certamente você estará mais disposta(o) a aprender quando estiver se sentindo bem. Recentemente, um estudo de pesquisadores norte americanos, mostrou que a corrida, especificamente, tem efeitos positivos na memória, mesmo se a pessoa estiver passando por algum tipo de estresse. Segundo esse estudo, a corrida elimina o efeito maléfico do estresse na memória.

Dica número 2: Alimente-se bem!

Muita gente já deve ter ouvido falar sobre o efeito positivo de uma planta chamada Ginkgo biloba na memória. Diversos estudos suportam essa ideia, mas a pergunta que fica é o que o G. biloba tem que pode afetar o nosso cérebro? A resposta é: ele tem flavonoides.

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Fonte: http://www.aiuro.it/benessere/ginkgo-biloba-pianta-proprieta-controindicazioni-e-benefici.html

Flavonoides também podem ser encontrados em grandes quantidades em uva, chá preto, chá verde, cacau e mirtilo. O que eles fazem? Até algum tempo atrás se achava que o potencial benéfico dos flavonoides era devido ao seu poder antioxidante. Atualmente já sabemos que esse potencial vai muito além. Flavonoides podem proteger neurônios vulneráveis, aumentar a função neuronal e estimular a regeneração neuronal. Eles também protegem os neurônios contra danos causados por doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Como os flavonoides podem ajudar em todos esses problemas? Especula-se que eles possam modular cascatas de sinalização intracelular que controlam sobrevivência, morte e diferenciação neuronal. Por exemplo, um estudo de 2007 de um grupo francês mostrou, após 10 anos de acompanhamento, que um maior consumo de flavonoides diminui as chances de sofrer com doenças neurodegenerativas e aumenta a capacidade cognitiva. Alguns estudos também mostram que um tipo especial de flavonoides, as isoflavonas, encontradas na soja, por exemplo, podem melhorar as capacidades cognitivas e memórias de mulheres na menopausa.

Resumindo, a ingestão de flavonoides não vai modificar seu cérebro de um dia para o outro e pode não funcionar se a sua intenção é memorizar todo o conteúdo do semestre para uma prova na semana que vem, mas certamente protege seu cérebro contra possíveis problemas no futuro e pode potencializar aos poucos sua capacidade cognitiva e de memória.

Dica número 3: Relaxe!

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Fonte: http://selmasanttos.blogspot.com.br

Eu sei, essa é uma dica que pode ser muito difícil de ser seguida. Com a vida corrida, milhares de coisas pra fazer, trabalho acumulado, chefe pressionando, artigo para escrever, análises para entregar o mestrado atrasadas, e muitas outras tarefas, relaxar pode parecer impossível. Mas acredite, a ciência diz que todas essas tarefas podem parecer mais fáceis se você tirar um tempo para desestressar. Uma revisão de 2016 compilou  uma série de dados que mostram que estresse crônico está associado com a degeneração estrutural e o mau funcionamento do hipocampo e do córtex pré-frontal. Nós já falamos que o hipocampo está relacionado com a consolidação da memória e a aprendizagem. Já o córtex pré-frontal está envolvido em uma série de funções como tomada de decisões, resoluções de problemas complexos, planejamento, atenção e memória. A boa notícia é que os problemas no cérebro causados pelo estresse não são permanentes. Segundo uma das autoras do estudo, uma professora do departamento de psiquiatria geriátrica da Universidade de Toronto, antidepressivos e exercícios (olha eles aí novamente) podem atuar revertendo a degeneração e o mau funcionamento dessas estruturas cerebrais.

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Fonte: http://www.bcslogic.com/time-to-relax/

Dica número 4: Durma bem!

Dormir é tudo de bom. Uma boa noite de sono pode resolver muitos problemas, pode te dar novas ideias, pode te fazer relaxar, enfim, só coisa boa. E aquela velha lenda de que podemos aprender algo enquanto dormimos é verdade? Bom, sim e não. Calma que eu já te explico.

Primeiro o “não”. Se você está pensando naquela cena de filme em que uma pessoa coloca uma fita pra tocar sobre algo que ela quer aprender, vai dormir e no dia seguinte acorda expert naquele assunto saiba que isso só acontece nos filmes mesmo. Até hoje não há estudos mostrando que isso seja possível.

Agora o “sim”. Se você considerar que enquanto dormimos, nossa mente se reorganiza e trabalha para formar e consolidar memórias, então de certa maneira, nós aprendemos enquanto dormimos. Um estudo de 2017, feito por cientistas da Alemanha e Suíça, mostrou que algumas áreas do cérebro ficam extremamente ativas enquanto dormimos. Uma estrutura em particular interessou bastante os cientistas: os dendritos. Os dendritos são prolongamentos dos neurônios responsáveis pela recepção dos estímulos nervosos tanto do ambiente, quanto de outros neurônios e na transmissão desses estímulos para o corpo da célula. Os cientistas viram que há alta atividade dendrítica em certos momentos do sono que são importantes na formação e consolidação de memórias. Além disso, os cientistas também puderam ter uma ideia de como estimular esses dendritos em pessoas com dificuldades de aprendizado e memória.

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Fonte: http://tudosobrecachorros.com.br

Concluindo…

Existem várias estratégias para você aprender mais e melhor. Aqui é importante lembrar que cada indivíduo é único e que algumas táticas funcionam melhor para uma pessoa que para outra. O importante é não se desesperar (olha o estresse aí). Quando você estiver estudando aquele assunto difícil que não entra na sua cabeça de jeito nenhum, pare. Reveja o que você está fazendo, como você está (estressada(o)? Com sono? Com fome?), tente bolar uma estratégia diferente, siga algumas das dicas do texto e não desista. Você certamente é capaz.

 

Referências:

Trudeau F and Shephard R J. Physical education, school physical activity, school sports and academic performance. International Journal of Behavioral, Nutrition and Physical Activity, 2008; 5: 10.

Roxanne M. Miller, David Marriott, Jacob Trotter, Tyler Hammond, Dane Lyman, Timothy Call, Bethany Walker, Nathanael Christensen, Deson Haynie, Zoie Badura, Morgan Homan, Jeffrey G. Edwards. Running exercise mitigates the negative consequences of chronic stress on dorsal hippocampal long-term potentiation in male mice. Neurobiology of Learning and Memory, 2018; 149: 28

Spencer J P E. Food for thought: the role of dietary flavonoids in enhancing human memory, learning and neuro-cognitive performance. Proceedings of the Nutrition Society, 2008; 67: 238.

Letenneur L, Proust-Lima C, Le Gouge A, Dartigues J F, and Barberger-Gateau P. Flavonoid Intake and Cognitive Decline over a 10-Year Period. American Journal of Epidemiology, 2007; 165 (12): 1364.

Linda Mah, Claudia Szabuniewicz, Alexandra J. Fiocco. Can anxiety damage the brain? Current Opinion in Psychiatry, 2016; 29 (1): 56

Julie Seibt, Clément J. Richard, Johanna Sigl-Glöckner, Naoya Takahashi, David I. Kaplan, Guy Doron, Denis de Limoges, Christina Bocklisch, Matthew E. Larkum. Cortical dendritic activity correlates with spindle-rich oscillations during sleep in rodents. Nature Communications, 2017; 8 (1).

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Cientista brasileira lidera projeto em busca da energia escura

Texto escrito em parceria com @ruajosephine.

Até o final da década de 1990 a expansão do universo ainda era uma incógnita. Não sabíamos ao certo se o universo era estático, se estava em expansão desacelerada ou acelerada.  A teoria da gravidade de Albert Einstein predizia que o universo teria energia suficiente para estar em expansão, mas que a gravidade faria esse fenômeno diminuir gradativamente. Em 1998, com as observações de supernovas através do telescópio espacial Hubble (HST) foi compreendido que o universo está realmente se expandindo, e a cada momento mais rápido! Ninguém sabia explicar o que tornaria sua expansão acelerada com o passar do tempo. E, por isso, imaginou-se uma energia capaz de contrapor a força gravitacional e, ao mesmo tempo, de difícil (talvez impossível?) detecção, chamada de energia escura.

E afinal, o que é energia escura?

Desconhecemos mais do que conhecemos. Sabemos a quantidade da energia escura pelo quanto que ela interfere na expansão do universo. Calcula-se que o espaço-tempo seja constituído de aproximadamente 68% de energia escura, 27% de matéria escura (outra força que ainda é um mistério) e menos de 5% de matéria “normal”, a matéria que conhecemos que forma planetas, estrelas e nós, conhecida como matéria bariônica. [1]

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O diagrama acima representa as possíveis mudanças na taxa de expansão desde o surgimento do universo há quase 14 bilhões de anos. Crédito: NASA / STSci / Ann Feild.

As ciências físicas e astronômicas vêm investindo em pesquisas no campo da cosmologia para compreendermos melhor os fenômenos que acontecem no universo, desde a sua formação, sua expansão acelerada até as origens de elementos químicos. E uma das observações mais incríveis aconteceu no dia 17 de agosto de 2017: duas estrelas de nêutrons colidiram em uma galáxia há 130 milhões de anos-luz de distância da Terra e pela primeira vez detectamos esse tipo de evento [2]. A colisão, conhecida como kilonova, emitiu um pulso de ondas gravitacionais forte o suficiente para ser detectado pelos instrumentos do Observatório Interferométrico de Ondas Gravitacionais (LIGO), nos Estados Unidos, e do Observatório Interferométrico Europeu VIRGO, na Itália. O fenômeno permitiu calcular a atual taxa de expansão local do Universo, a constante de Hubble. O valor encontrado coincide com medidas da constante de Hubble obtidas por diversos outros métodos em pesquisas realizadas no mundo todo [3]. Foi a primeira vez que um evento de proporções astronômicas foi simultaneamente visto (em diferentes comprimentos de ondas) e ouvido (através da reconstrução do sinal das ondas gravitacionais), dando início a uma nova era da astronomia.

Uma das cientistas importantes envolvidas com a detecção é a astrofísica capixaba Marcelle Soares-Santos. Marcelle é coordenadora do projeto Dark Energy Survey (DES) que descobriu e analisou a contrapartida óptica do evento de onda gravitacional de agosto de 2017, GW170817. Lembra que falamos de “ver” e “ouvir” a colisão? A equipe que a Marcelle lidera é responsável pela parte do “ver” que de fato nossos olhos poderiam ver (luz visível).

Quem é Marcelle Soares-Santos

Marcelle é graduada em física pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestra e doutora em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP). Foi pós-doutoranda e, posteriormente, pesquisadora principal do Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab/EUA), um dos mais importantes centros de investigação sobre física de partículas. Ela era a única brasileira presente entre os 16 líderes de grupos de pesquisa ao anunciarem a detecção da colisão das estrelas de nêutrons na sede da National Science Foundation (EUA). Imagina: umas das 16 pessoas a chefiar os 3.500 cientistas por trás de uma das mais importantes descobertas da Ciência.

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A líder do DES, Marcelle Soares-Santos, na sede da National Science Foundation (EUA) divulgando os resultados da observação GW170817 no espectro óptico. Crédito: Dark Energy Survey.

Ela atua no Fermilab desde 2010, participando da construção de um dos maiores detectores de luz já construídos: uma câmera de 570 megapixels (aquelas câmeras profissionais que você acha incríveis têm em média 20 megapixels!!!), a DECam, instalada no telescópio Blanco no Cerro Tololo Inter-American Observatory (Chile). A DECam mapeia 300 milhões de galáxias para o projeto Dark Energy Survey. Foi com essa câmera que a equipe da Marcelle entrou para a História ao capturar e analisar a parte visível da colisão entre estrelas de nêutron de 2017, a primeira detecção de colisão desse tipo. Hoje Marcelle compartilha seus saberes sendo professora pesquisadora na Universidade Brandeis, em Massachusetts, também nos EUA.

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Imagem no espectro visível da colisão entre estrelas de nêutrons GW170817. À esquerda temos a imagem da kilonova até 1,5 dias depois da explosão. À direita percebemos que a explosão já não é tão visível após 14 dias. Créditos: Dark Energy Survey.

Convidada pelas Cientistas Feministas, Marcelle nos contou mais sobre sua carreira como astrofísica e sobre o projeto Dark Energy Survey.

Cientistas Feministas: A energia escura é um dos grandes mistérios da física. Mas o que lhe motivou, em particular, a estudar energia escura e a expansão do universo?

Marcelle: Minha curiosidade a respeito do mundo físico ao meu redor começou quando eu era criança. À medida que fui crescendo e avançando nos estudos, descobri que a Física era a disciplina certa para satisfazer essa curiosidade. O tópico da energia escura e expansão do universo, em particular, cativou meu interesse no último ano do ensino médio, quando li um artigo sobre cosmologia falando que mais de 2/3 do universo atual é composto de uma forma de energia cuja natureza física ainda é desconhecida. Entender a energia escura passou a ser um foco dos meus estudos a partir dali.

CsFs: Entender os processos de expansão do universo tem muitas barreiras principalmente por conta dos nossos limites tecnológicos. Se você pudesse obter qualquer observável no Universo, o que você imaginaria que seria o mais fantástico para avançar no entendimento sobre a energia escura?

M: O problema da energia escura é um desafio tão grande que a comunidade científica vai precisar de um conjunto grande e coerente de dados para resolvê-lo. Infelizmente não existe uma “bala de prata” que consiga esclarecer essa questão. É por isso que, por exemplo, meu grupo de pesquisa envolve desde estudos de aglomerados de galáxias e lentes gravitacionais (com a pesquisadora brasileira Dra. Maria Elidaiana Pereira, que veio para Brandeis em Outubro de 2017 depois de concluir o doutorado no CBPF, Rio de Janeiro) até o desenvolvimento de novas técnicas, como por exemplo, ondas gravitacionais.

CsFs: A captação da colisão de estrelas de nêutrons do dia 17 de agosto de 2017 repercutiu o mundo inteiro e pode revolucionar os estudos de física. Como você enxerga esse fenômeno e as possibilidades de mudanças para a ciência a partir dessas novas descobertas? E do ponto de vista do avanço no entendimento da energia escura?

M: O evento observado no dia 17 de agosto, conhecido pela sigla GW170817, foi importante para mim pessoalmente porque é a primeira vez que temos prova empírica de que podemos utilizar esses eventos para estudar a energia escura. Essa nova técnica que vinha sendo desenvolvida há anos pela comunidade realmente funciona! Foi importante para a comunidade científica no mundo inteiro porque abre uma nova janela observacional, que permite estudar vários fenômenos astrofísicos de uma nova perspectiva. A partir desse evento podemos agora estudar a origem de elementos pesados (como ouro, platina) no universo, podemos entender a evolução de estrelas de nêutrons, história de formação de sistemas estelares binários, física de partículas fundamentais como os neutrinos… Há uma variedade enorme de tópicos a serem estudados!

CsFs: Uma grande parte da sua pesquisa é identificar ondas gravitacionais no espaço a partir da DECam. Como o registro de ondas gravitacionais pode contribuir com seus estudos?

M: O papel da DECam é busca rápida a partir da detecção do evento de ondas gravitacionais pela rede de detectores LIGO/Virgo. Nossa câmera não é capaz de ver ondas gravitacionais, mas é capaz de identificar a fonte luminosa correspondente. Isso nos permite então combinar o sinal de ondas gravitacionais e as imagens do evento, para determinar suas propriedades.

CsFs: A câmera que vocês desenvolveram tem uma capacidade excepcional de registrar o universo. O que você espera da DECam com esses cinco anos de pesquisa e registros de imagens do universo?

M: Esperamos observar aproximadamente 10 eventos nos próximos anos!

CsFs: Trabalhar com grandes fenômenos da natureza certamente proporciona grandes emoções. Até agora qual foi o momento mais emocionante em sua carreira como cientista? Conte-nos detalhes dessa história!

M: O momento mais emocionante foi definitivamente 17 de agosto as 07h41min da manhã (Chicago time), quando GW170817 ocorreu. É muito raro a gente estar envolvido em uma descoberta dessa magnitude!

CsFs: O Fermilab é um dos maiores Institutos de física do mundo. Como foi trabalhar lá?

M: Tenho lembranças maravilhosas do tempo que passei no Fermilab. Trabalhar num centro de pesquisa grande pode ser muito estimulante e o grupo de Cosmologia e Astrofísica, em que eu trabalhei, é excepcional nesse sentido.

CsFs: Atualmente você é professora universitária na Brandeis University, em Massachusetts. Como está sendo essa transição de compartilhar o laboratório com a sala de aula?

M: Aqui em Brandeis, além de ensinar para formação da próxima geração de físicos, minha pesquisa está tomando novas dimensões. Eu agora tenho meu próprio grupo de pesquisa e planos de engajar estudantes e pós-doutores em projetos de grande impacto, em colaboração com uma comunidade acadêmica vibrante e inspiradora.

CsFs: Como a colisão de estrelas de nêutrons registrada em agosto desse ano repercutiu para seus alunos na faculdade?

M: A universidade toda, desde estudantes até o topo da administração, ficou muito entusiasmada. É maravilhoso ver um membro da nossa comunidade fazer uma descoberta de impacto!

É maravilhoso para nós vermos a Dra. Marcelle Soares-Santos desvendando os mistérios do universo! Estamos muito felizes em trazer uma cientista com a sua trajetória e sucesso para nos explicar questões cosmológicas. Ela nos inspirar a olhar para o céu e tentarmos entender quem somos (terráqueos viajantes do Cosmos).

Agradecimentos:

À Dra. Maria Elidaiana da Silva Pereira por ter intermediado essa entrevista. As CsFs desejam muito sucesso em Brandeis.

Referências:

[1] https://science.nasa.gov/astrophysics/focus-areas/what-is-dark-energy;

[2] https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/11/23/todo-o-ouro-do-universo-colisao-de-estrelas-de-neutrons/

[3] http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/10/17/detectada-pela-primeira-vez-colisao-de-estrelas-de-neutrons-inaugura-nova-era-na-astronomia/.

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“Guerra justa” e abolicionismo (ou, por quê precisamos estudar mais história africana)

A historiografia dedicada à escravidão negra e ao tráfico transatlântico de escravos continua crescendo e aportando novos conhecimentos sobre essa parte tão importante da história das Américas. Por um lado, historiadores que pesquisam o passado colonial do continente americano têm sucedido em demonstrar que, de norte a sul, a colonização e o desenvolvimento de impérios coloniais dependeu da presença de africanos (escravizados, livres e libertos), forçando-nos a reconhecer as contribuições geralmente silenciadas desses sujeitos históricos. Por outro lado, avançou-se muito no entendimento acerca do funcionamento do tráfico de escravos, desde o financiamento do tráfico transatlântico até as rotas internas do tráfico americano (para além dos portos principais de chegada dos navios negreiros). Uma área que ainda merece mais atenção, no entanto, diz respeito ao funcionamento da escravidão no continente africano. Pouco se sabe sobre as rotas internas do tráfico humano de pessoas escravizadas no interior da África, já que, não raro, ao serem vendidas para comerciantes europeus, essas pessoas eram descritas nos documentos de acordo com os portos atlânticos de embarque (por exemplo, “da Guiné,” termo genérico utilizado pelos europeus para se referir a uma região do oeste africano que, na realidade, correspondia a vários reinos e impérios africanos).

A legalidade do tráfico negreiro (e da escravidão de modo geral, inicialmente) assentou-se no princípio da guerra justa e na ideia de que o(s) vencedor(es) tinha(m) o direito de escravizar o(s) perdedor(es). Herança do Código Justiano, uma compilação de leis romanas segundo a qual a escravização era vista como uma alternativa (positiva) ao assassinato dos perdedores de uma guerra, o princípio da guerra justa foi amplamente utilizado para justificar o contínuo comércio de escravos entre africanos e europeus que se produziu durante mais de três séculos. Mas como era possível garantir que as guerras lançadas no interior do continente africano eram realmente “justas”? Podia-se de fato garantir a legalidade da escravização dos seres humanos apreendidos nessas guerras e transplantados para os litorais para serem vendidos como escravos? Esse era o tipo de pergunta que os abolicionistas levantavam quando formulavam suas críticas à escravidão. E essas críticas constituem o objeto de análise do artigo de Jeffrey Glover publicado recentemente na revista The William and Mary Quarterly.[i]

Glover, professor do Departamento de Inglês da Universidade Loyola, em Chicago, analisou uma série de escritos publicados por abolicionistas ingleses que lançaram dúvidas a respeito da validade ou mesmo existência de guerras justas na África que pudessem sustentar o tráfico de escravos. Autores como Alexader Falconbridge questionaram a legitimidade do status legal dos milhares de homens, mulheres e crianças vendidos como escravos. Falconbridge havia sido um comerciante de escravos, mas se converteu à causa abolicionista após notar que a carga humana que comerciava não parecia exibir nenhum sinal de combate, fato que o levou a cogitar que talvez nunca houvessem estado em uma guerra, já que o mais natural seria terem algum tipo de ferimento ou cicatriz. Se não haviam estado em uma guerra, não poderiam ser legalmente escravizados, e seu comércio seria, portanto, ilegal.[ii] Ao longo do artigo, Glover nos introduz a uma série de outros autores abolicionistas, como Anthony Benezet e Thomas Clarkson, que coletaram relatos de viajantes e testemunhos, e Ottobah Cugoano, que havia sido escravizado e relatou em primeira mão sua experiência. Esses escritos contribuíram significativamente para o ímpeto do movimento abolicionista inglês, e merecem sem dúvida mais atenção.

No entanto, essas publicações estão longe de constituir as primeiras críticas à escravidão africana. Como é comum entre os pesquisadores que manejam exclusivamente as fontes em inglês, Glover ignora a trajetória do pensamento abolicionista para além do mundo anglo-saxão. Existe, porém, uma larga tradição intelectual antiescravista no mundo ibérico. Já no século XVII, o capuchinho aragonês Francisco José de Jaca produziu uma ferrenha defesa da abolição da escravidão com sua Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos.[iii] Resultado de sua passagem por Caracas, Cartagena de Índias, e Havana (três dos maiores portos importadores de escravos africanos durante o período colonial), o tratado de Jaca argumentava que a escravização dos africanos tal como estava sendo praticada era ilegal, pois não obedecia aos princípios da guerra justa; portanto, o tráfico transatlântico deveria ser abolido, os senhores de escravos punidos, e os escravos introduzidos por essa via ilegal, manumitidos. Suas críticas encontraram eco no também capuchinho Epifanio de Moirans, que Jaca conheceu em Havana, onde ambos estavam detidos justamente por conta da oposição àquela que era a instituição mais rentável do império espanhol.

Em nenhum caso, porém—nem nos tratados antiescravistas de Jaca e Moirans, nem nos escritos abolicionistas ingleses—ilumina-se os pormenores da escravidão no interior do continente africano. E, se tanto no universo ibérico quanto no anglo-saxão existiram vozes dissonantes que apontam para a ilegalidade da escravidão durante o período colonial, é bem possível que tivessem algo de razão. Faz-se portanto necessário examinar mais a fundo a questão. É aí, então, que a chamada historiografia do mundo atlântico deveria fazer o maior investimento, com pesquisas de campo que resultem em publicações de peso e substância.

Referências:

[i]                   GLOVER, Jeffrey. “Witnessing African War. Slavery, the Laws of War, and Anglo-American Abolitionism” IN The William and Mary Quarterly Vol. 74 N. 3, 2017.

[ii]                  FALCONBRIDGE, Alexander. An Account of the Slave Trade on the Coast of Africa. Londres, 1788.

[iii]             JACA, Francisco José de. Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos: la primera condena de la esclavitud en el pensamiento hispano. Ed. Miguel Anxo Pena González. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2003.

 

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Carrapatos em âmbar: será que teremos um Jurassic Park?

Um dos grandes fascínios da humanidade são os Dinossauros, ainda mais depois da série de filmes Jurassic Park. Mas quem se lembra bem do filme está atento a um pequeno detalhe: o mosquito preservado em âmbar, cujo sangue continha material genético utilizado para criar os dinossauros.  

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Mosquito no Âmbar de Jurassic Park. Fonte: Daily Mail

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Pulga identificada em peça de âmbar. Fonte: cnet.com

De fato, fósseis de ectoparasitos¹ e artrópodes hematófagos já foram encontrados: ovos de piolhos presos aos pelos em um âmbar, e pulgas preservadas junto aos pelos de mamíferos, ambos datados do período Mioceno [1]. Porém, mais difícil ainda é encontrar algum traço de sangue nestes fósseis. A ciência que estuda estes parasitos é denominada Paleoparasitologia e é considerada uma das subáreas tanto da Paleontologia, como Arqueologia e Parasitologia. Na Paleoparasitologia estuda-se os parasitos em material antigo, que pode ser tanto de origem humana quanto animal.

Recentemente um grupo de pesquisadores de diferentes instituições espanholas, americanas e britânicas encontraram peças de âmbar datado do período Cretáceo. O especial destas peças é o seu interior: a presença de espécimes de carrapatos de 99 milhões de anos (Ma²). A partir de sua análise foi descrita uma nova espécie de carrapato extinta, Deinocroton draculi. E também identificada outra espécie já descrita em 2003: Cornupalpatum burmanicum.

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Peças de âmbar analisadas no estudo. Fonte: National Geographic

 Além da descrição de uma nova espécie, um dos espécimes encontrados estava associado a uma pena de dinossauro. Aí, você leitor, deve se perguntar: como se sabe que era de dinossauro e não de uma ave? Grupos de aves foram excluídos como possíveis hospedeiros devido ao seu surgimento há 73 Ma, antes das penas encontradas neste âmbar. As análises morfológicas relacionadas à pena e sua datação indicam que o seu dono era possivelmente do grupo Pennaraptora, um ancestral das aves modernas. Porém, é difícil saber exatamente qual espécie, com os poucos dados encontrados.

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Carrapato associado a pena de dinossauro. Fonte: Nature Communications

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Carrapato ingurgitado. Fonte: Nature Communications

Foi também identificado um carrapato ingurgitado (cheio de sangue) no pedaço de âmbar, o primeiro aproximadamente 8.5 vezes maior que o seu volume corporal. O ingurgitamento também ocorre com carrapatos fêmeas atuais, podendo atingir até 100 vezes o seu volume original. Essas evidências indicam que carrapatos se alimentavam do sangue de dinossauros durante o Cretáceo Inferior. Devido à presença de fósseis de grupos relacionados a mosquitos (dípteros) e a pulgas, questiona-se se estes artrópodes seriam vetores de patógenos de dinossauros, e o achado dos carrapatos ingurgitados reforça  esta hipótese. Hoje em dia, carrapatos são vetores de microrganismos de pássaros, mamíferos e répteis e possivelmente, estes carrapatos transmitiam estes organismos aos antepassados destes vertebrados.

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Carrapatos machos não ingurgitados. Fonte: Nature Communications

Carrapatos são ectoparasitos que possuem poucos exemplares fósseis, o que dificulta muito o entendimento de sua história evolutiva e relação parasito-hospedeiros. Sabe-se que as estratégias para o desenvolvimento da hematofagia e surgimento das adaptações de ectoparasitos surgiram no período Mesozoico. Estas adaptações se estendem para os carrapatos e são condizentes com os achados deste estudo, que mostra que a relação dos carrapatos com seus hospedeiros data de pelo menos 99 milhões de anos.

Infelizmente, os pesquisadores deste estudo ainda não conseguiram a extração de material genético destes parasitos tão antigos, já que até onde se sabe, o limite para se recuperá-lo é de 1 milhão e meio de anos (depois dos dinossauros, diga-se de passagem). Acho que Jurassic Park vai ter que esperar mais um pouco… e ainda bem né?

 

  1. Parasitos que ocorrem no exterior do hospedeiro: carrapatos, piolhos e pulgas.
  2. Ma- Milhões de anos.

Referências:

[1] Peñalver, Enrique, et al. “Ticks parasitised feathered dinosaurs as revealed by Cretaceous amber assemblages.” Nature communications 8.1 (2017): 1924.

[2] National Geographic:   

<https://news.nationalgeographic.com/2017/12/tick-dinosaur-feather-found-in-amber-blood-parastites-science/>

[3] Poinar, G. O. & Brown, A. E. A new genus of hard ticks in Cretaceous Burmese amber (Acari: Ixodida: Ixodidae). Syst. Parasitol. 54, 199–205 (2003)

 

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Ahed Tamimi e o silêncio das organizações feministas ocidentais

Com apenas oito anos de idade começou a participar em manifestações, em Nabi Saleh, localidade da Cisjordânia onde reside com a sua família, contestando o apartheid e a colonização de que a sua terra é alvo por parte de Israel. Em 2011 viu morrer um tio a tiro às mãos dos militares israelitas e em 2012 enfrentou um grupo de soldados que tinham prendido um dos seus irmãos e recebeu um prémio do então Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan pela coragem demonstrada ao enfrentar os soldados israelitas. Em Maio do ano passado foi acusada de tentar impedir soldados de prenderem um manifestante que lhes atirava pedras. Não, não falamos da Malala da Palestina nem da Joana d’Arc palestiniana como é conhecida nalguma imprensa. O seu verdadeiro nome é Ahed Nariman Tamimi, é palestiniana, de facto, tem 17 anos e sonha formar-se em Direito para ajudar os activistas a criar um Estado Palestiniano.

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Ahed Tamimi, Foto:Middle East Eye.

Apelidá-la de Malala e de Joana d’Arc é já retirar-lhe uma parte da sua identidade da Outra diferente – a árabe que luta contra os “únicos democratas e civilizados do Médio Oriente” e atribuir-lhe características das identidades destas duas heroínas, com as quais nos identificamos, que são muito mais “as nossas” heroínas, porque se aproximam do Eu semelhante, igual a nós. A Ahed Tamimi é a Ahed Tamimi, não é a Malala nem a Joana d’Arc e talvez estas três adolescentes partilhem apenas entre si, a juventude e a coragem. Nunca sentimos necessidade de comparar a Joana d’Arc a ninguém, nem a Malala, que de repente aparece associada à Joana d’Arc, depois do caso da Ahed ser explorado pelos activistas dos direitos humanos. Isto significa, tão só e simplesmente, que necessitamos destes truques das comparações com alguém que legitimámos como nosso para humanizar a Ahed, para a ver como uma adolescente igual às “nossas”, porque ela não o é, é a Outra diferente. E as organizações feministas ocidentais ficam em silêncio!

Pelo mundo inteiro replicam-se por parte de activistas, nas redes sociais, mensagens de repúdio à prisão de Ahed Tamimi que se encontra detida desde o dia 19 de Dezembro do ano passado em prisões israelitas. O seu crime foi ter esbofeteado um soldado israelita, armado até aos dentes, que se encontrava no território da sua residência e que tinha atingido um seu primo com um tiro de borracha à queima roupa na cara (deixando-o em coma induzido durante três dias) durante um protesto contra a decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. O soldado israelita adulto que mandou o seu primo para o hospital está livre e solto, enquanto ela, uma adolescente de 17 anos, se encontra presa há dois meses e será julgada por um tribunal militar por agressão agravada a um militar israelita, obstruir a sua acção, perturbação da ordem pública e incitamento à violência. E as organizações feministas ocidentais nada dizem.

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Ahed Tamimi rodeada por soldados israelitas, foto: Photo-File

As circunstâncias da sua prisão e o abuso dos direitos humanos de que foi alvo são atrozes: é uma menor que não tem acesso aos seus pais, nem a um advogado, no imediato. Por sua vez, levantam-se as vozes de líderes e jornalistas israelitas exigindo a sua prisão perpétua e até insinuando que ela deveria ser violada num quarto escuro para pagar pelos seus crimes [1]. E as organizações feministas ocidentais continuam em silêncio e o movimento #metoo não reconhece a voz da adolescente palestiniana.

Ahed Tamimi com a sua cabeça bem levantada e o olhar muito directo e frontal, sem demonstrar medo, enfrenta o opressor desafiando consciências. Ela recusa submeter-se à lógica israelita de que os palestinos devem viver como eles querem que vivam, sem protestar e se não quiserem viver assim, devem partir. Mas, Ahed Tamimi quer ficar nas suas terras e por isso desafia-os e luta contra o roubo dos seus recursos e liberdades, e mesmo assim não surgem por parte das organizações feministas ocidentais hashtags como #IamAhed ou #JesuisAhed.

Não existem perspectivas de que Ahed obtenha justiça. Ahed Tamimi não é a primeira criança a ser presa. Estima-se que, desde o ano de 2000 foram detidos na Cisjordânia cerca de 10 000 crianças e adolescentes, incluindo crianças de seis e sete anos, sem consequências [2]. Israel não responde perante ninguém. Tem o grande apoio dos Estados Unidos da América e os outros países mantêm-se como observadores silenciosos. E os grupos feministas ocidentais também.

As organizações feministas ocidentais são acusadas de racistas e islamofóbicas por não se pronunciarem sobre a prisão de Ahed Tamimi e de outras adolescentes e mulheres palestinianas [3] e nem assim quebram o silêncio!

E, este silêncio não se percebe e é difícil de aceitar. O feminismo é um movimento de emancipação que emergiu da tomada de consciência da opressão vivenciada pelas mulheres. Este movimento só tem sentido se estiver empenhado com a equidade e justiça social de todos os seres humanos e com a luta para eliminar todas as formas de violência e opressão. Desta forma, uma das grandes batalhas do feminismo é dar voz às mulheres e a todos os subalternos, particularmente àqueles que se encontram sob a alçada de um poder colonial que os constituem sempre como os “outros” diferentes e inferiores. Nenhuma pessoa ou grupo social se pode apropriar legitimamente do rótulo “feminista” sem se comprometer com estes princípios. [4]

Por tudo isto, a luta pela liberdade de Ahed Tamimi e de todas as adolescentes de qualquer recanto do globo terrestre é uma luta feminista!

 

[1] http://mondoweiss.net/2017/12/should-israeli-journalist/

[2] http://observatorio3setor.org.br/noticias/criancas-palestinas-estao-sendo-presas-e-condenadas-em-israel/

[3] https://medium.com/@TonyGreenstein/feminist-silence-over-ahed-tamimi-exposes-the-racist-consensus-at-the-heart-of-western-feminism-8413ea14be23

[4] Ferreira, Helena (2017). “Sou feminista e apoio o BDS”. Folhas Soltas N. 8, pp. 16-18. http://grupoaccaopalestina.blogspot.pt/2017/09/folhas-soltas-n8.html

 

 

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Tópicos quentes de pesquisa na área de Internet – Parte III: Cloud Computing

Daremos continuidade a série de postagens sobre os tópicos quentes de pesquisa na área de Internet, na qual já foi falada sobre CDNs e Internet das coisas. Falaremos sobre Cloud Computing ou Computação em Nuvem.

A computação em nuvem é hoje uma realidade e muitos usuários já a usam mesmo sem saber. Por exemplo, quando um usuário coloca um arquivo em um serviço do tipo Dropbox ou Google Drive, ele está fazendo uso de uma infraestrutura de computação em nuvem. Quando usa um serviço de formulários online, como SurveyMonkey ou Typeform para suas pesquisas, também está.

Apesar disso, para muitas pessoas o conceito de nuvem é um tanto quanto etéreo e abstrato. Afinal, se um usuário coloca um arquivo em um serviço em nuvem para onde isso vai? Para entender melhor é preciso voltar um pouquinho na história da computação. No início apenas grandes empresas tinham a possibilidade de possuir os mainframes, que nada mais são que computadores de grande porte com a capacidade de oferecer serviços de processamento a milhares de usuários conectados através de milhares de terminais. Nessa época, os terminais em si não tinham praticamente nenhum poder de processamento, sendo que os mainframes centralizavam todas as operações.

Com o advento dos PCs muitas das tarefas que antes eram executadas em um mainframe passaram a ser possíveis de ser realizadas localmente e assim o poder de processamento se tornou um pouco mais distribuído. Nesse contexto, o modelo cliente-servidor, que ainda hoje é o mais utilizado, tornou-se predominante. O servidor roda um ou mais serviços ou programas que compartilham recursos com os clientes. Já um cliente (que normalmente é uma máquina de usuário) inicia uma comunicação através de uma rede de computadores, solicitando conteúdo ou serviços de um servidor. Há vários exemplos de aplicações que seguem esse paradigma como o e-mail, a Web e as impressoras em rede. Inicialmente nesse modelo o servidor possuía um endereço lógico conhecido, além de se conhecer sua localização física (muitas vezes, no data center da própria empresa).

Pode-se pensar na computação em nuvem como uma evolução desse modelo no sentido de que o servidor não tem necessariamente uma localização conhecida. Além disso, os serviços prestados pelo servidor são geralmente terceirizados e executados de forma distribuída. Um usuário não é capaz de saber se apenas um servidor é responsável por toda a execução de um processamento ou se há vários envolvidos. Há a possibilidade de coordenação entre vários servidores em diferentes localidades para a “entrega” do serviço solicitado pelo cliente. Por isso, a ideia de nuvem aparece.

A computação em nuvem se baseia na virtualização de servidores, que nada mais é do que emular um servidor de forma virtual, configurando em um software de virtualização quanto de memória RAM, espaço de armazenamento, processador e sistema operacional aquela máquina vai ter. O interessante é que numa máquina real é possível ter quantas máquinas virtuais forem desejadas, com diferentes configurações que atendam o que for necessário. Basicamente esses servidores virtuais compartilham o mesmo hardware e podem rodar simultaneamente de forma otimizada. Para ajudar na compreensão analisemos um exemplo: imagine um servidor real com um processador Intel i7, 10GB de memória RAM e 1TB de espaço de armazenamento (HD). Nele foi instalado um software de virtualização e com isso foram configuradas 2 máquinas virtuais, sendo que uma roda Windows e tem disponível 8GB de RAM e 500MB de HD, enquanto a outra roda um Linux e tem disponível 4GB de RAM e 800MB de HD. Somando as capacidades das máquinas virtuais notamos que o valor é maior do que o existente na máquina real. Mas isso não é um problema porque os valores configurados são os máximos a serem atingidos no caso da outra máquina virtual estar ociosa ou superdimensionada. Quando uma máquina virtual não for mais necessária, ela pode ser simplesmente apagada da memória da máquina real.

Há várias vantagens em se usar a computação em nuvem, sendo que dentre as principais estão a alta disponibilidade dos serviços, a alta capacidade de processamento, os custos reduzidos em comparação a uma solução interna e a grande flexibilidade para ampliar ou diminuir a capacidade de processamento ou de armazenamento (o que se conhece como elasticidade). Por outro lado, há desvantagens que devem ser consideradas na hora de se adotar a nuvem como a redução de desempenho, o esforço de portabilidade de aplicações já existentes internamente para a nuvem, o atendimento a regulamentação de países específicos e os riscos de segurança, especialmente em relação ao vazamento de informações e violação à privacidade.

Hoje existem 3 categorias de serviços de computação em nuvem. O mais conhecido é o SaaS (Software as a Service) em que o provedor de serviços fornece um programa que fica em um servidor remoto e as aplicações são acessíveis por meio de dispositivos do cliente, com uso de interfaces simples, como a Web. O usuário não gerencia ou controla nenhum item da infraestrutura que hospeda o software, sendo somente possível ajustar configurações específicas a nível de usuário. Exemplos desse tipo de serviço são o Google Drive, Dropbox, SurveyMonkey e Typeform.

Ainda existem as categorias conhecidas como PaaS (Platform as a Service) e IaaS (Infrastructure as a Service) que no geral são mais voltadas para equipes de desenvolvimento de software. Uma das empresas mais conhecida que fornece esses tipos de serviço é a Amazon Web Services (AWS).

Apesar da computação em nuvem já ser uma realidade e estar sendo comercializada, ainda há muitos desafios a serem superados, os quais são tópicos relevantes de pesquisa na área da Internet e de redes de computadores. Um dos mais relevante concerne às questões de segurança, em como minimizar o vazamento de informações. Isso porque há a possibilidade de explorar vulnerabilidades em relação ao incorreto isolamento entre os servidores virtuais.

No próximo post continuaremos falando sobre tópicos quentes de pesquisa na área de Internet. Até lá!