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Relação alimentos e doença: uma questão de escolha individual ou ambiental?

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Fonte: http://www.reacaosaudavel.com.br/como-escolher-melhor-os-alimentos-no-supermercado/

 

A obesidade e as doenças crônicas são consideradas as principais causas de morbidade e mortes prematuras da população mundial. Por apresentarem causa multifatorial, o combate a essas condições é o principal desafio atual, sendo de extrema importância abordar os múltiplos fatores e níveis envolvidos no desenvolvimento dessas doenças. Recentemente tem se discutido muito a relação causal entre essas condições e a publicidade, e a maior disponibilidade de alimentos considerados menos saudáveis, enquanto muitos setores alegam ser uma questão apenas de escolha individual. Neste sentido, cresce o interesse em se aplicar um tipo de intervenção multinível e multicompartimental para responder a perguntas como: como os mecanismos biológicos são afetados por diferentes características do ambiente construído, social ou econômicamente, para produzir uma determinada distribuição de alimentos no ambiente ? Como essas condições permitem ou restringem a alimentação, e como essas condições  são incorporadas nos sistemas biológicos para afetar esses comportamentos?(1)

Considerando essas questões, pesquisadores americanos avaliaram o impacto de uma intervenção comunitária multinível (operando em diferentes condições do ambiente alimentar) e multicomponente (atuando em diferentes níveis de distribuição de alimentos). A comunidade escolhida foi uma área de baixa renda da cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, tendo como público principal as crianças. A intervenção consistiu na promoção e venda de alimentos mais saudáveis , de forma a aumentar o acesso e demanda desses alimentos. Foram incluídos na intervenção os mercados atacadistas, lojas de conveniência e mercados locais, centros de recreação e domicílios. Para selecionar os domicílios avaliados, foram convidados adultos cuidadores de crianças nos centros de recreação e frequentadores dos estabelecimentos comerciais da região selecionada(2).

No nível do atacadista, os gerentes foram convidados a armazenar produtos mais saudáveis, como grãos integrais, frutas e vegetais e lanches e bebidas com baixo teor de gordura e baixo teor de açúcar.  A maioria dos alimentos promovidos e das bebidas selecionadas estavam disponíveis durante todo o ano. Em lojas de conveniência e mercados menores, os proprietários foram incentivados a armazenar e/ou preparar alimentos usando itens mais saudáveis sugeridos pelo estudo. Os produtos foram promovidos nas lojas através de cartazes, etiquetas de prateleiras e sinalização. Além disso, os clientes foram expostos a esses novos produtos durante as sessões educacionais interativas conduzidas pelos pesquisadores nas lojas. Os clientes provaram amostras de alimentos, receberam folhetos educacionais, brindes e informações detalhando os benefícios para a saúde de cada item de comida ou bebida. Paralelamente, nas mídias sociais, materiais educativos e receitas foram disponibilizados e reforçados por meio de postagens e mensagens de texto enviadas para os cuidadores adultos. Nos centros de recreação, líderes juvenis (estudantes da faculdade de Baltimore e do ensino médio) ensinaram lições em tópicos de nutrição e aulas de culinária para crianças com idade entre 10 e 14 anos(2).

Para analisar  os resultados, os pesquisadores compararam os locais com e sem intervenção. Os autores do estudo observaram que houve aumento da venda dos produtos promovidos no comércio atacadista e maior disponibilidade desses produtos nos mercados menores, em especial em relação a bebidas e lanches. As crianças que foram expostas aos alimentos mais saudáveis aumentaram seu consumo significativamente, apesar do mesmo não ter sido observado em seus cuidadores. Assim, concluíram que a intervenção foi bem sucedida para modificar o ambiente alimentar (2).

Apesar de trazer algumas limitações, essa pesquisa merece destaque por ser pioneira no setor de distribuição de alimentos, mostrando o impacto das mudanças no sistema alimentar(2). Mais estudos com foco em outros itens alimentares e outros públicos serão necessários, bem como avaliar a resposta dessas mudanças por maior tempo e também nas variáveis de saúde. O campo é promissor, uma vez que estudos em escolas utilizando o mesmo modelo multinível mostraram haver redução do peso da população estudada(3-5). A mensagem que fica é que é preciso envolver crianças e suas famílias, escolas, líderes empresariais, profissionais de saúde, atores políticos e organizadores da comunidade para garantir melhor qualidade de vida e prevenir os problemas de saúde. Não basta apenas escolher – precisamos ter opções para fazermos melhores escolhas.

 

  1. Huang TT, Drewnowski A, Kumanyika SK, Glass TA. A Systems-Oriented Multilevel Framework for Addressing Obesity in the 21st Century. Preventing Chronic Disease. 2009;6(3):A82.
  2. Gittelsohn J, Trude AC, Poirier L, et al. The Impact of a Multi-Level Multi-Component Childhood Obesity Prevention Intervention on Healthy Food Availability, Sales, and Purchasing in a Low-Income Urban Area. Powell L, ed. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2017;14(11):1371. doi:10.3390/ijerph14111371.
  3. Economos CD., Hyatt RR., Must A, Goldberg JP, Kuder J, Naumova EN, Collins JJ, Nelson ME. Shape up somerville two-year results: A community-based environmental change intervention sustains weight reduction in children. Med. 2013;57:322–327. doi: 10.1016/j.ypmed.2013.06.001.
  4. Shin A., Surkan P.J., Coutinho A.J., Suratkar S.R., Campbell R.K., Rowan M., Sharma S., Dennisuk LA, Karlsen M, Gass A, et al. Impact of baltimore healthy eating zones: An environmental intervention to improve diet among African American youth. Health Educ. 2015;42:97–105. doi: 10.1177/1090198115571362.
  5. Foster GD, Sherman S, Borradaile KE, Grundy KM, vander Veur SS, Nachmani J, Karpyn A, Kumanyika S, Shults J. A policy-based school
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A democracia e seus déficits democráticos: ausência de mulheres em espaços representativos

Recentemente a PEC 181[1] foi aprovada em uma Comissão Especial na Câmara dos Deputados brasileira. A PEC, que inicialmente tratava sobre licença maternidade, incluiu a proibição do aborto, inclusive em casos previstos por lei, como estupro, risco de vida para a mãe a anencefalia do feto, e ainda vai tramitar em outras instâncias para que sua aprovação seja, de fato, confirmada. No entanto, para além da sensibilidade da temática, que fere frontalmente os direitos humanos, liberdade e autonomia das mulheres (BIROLI, 2014), apenas para citar alguns exemplos, uma evidência de exclusão política foi, mais uma vez, evidenciada e publicizada nas redes sociais.

A Comissão especial foi composta por 19 pessoas. Dentre estas, 18 deputados federais e apenas uma deputada. O resultado da votação da proposta seguiu a mesma tendência: 18 votos favoráveis e um voto contrário à aprovação da PEC. O único voto em desfavor foi conferido pela Deputada Federal Erika Kokay, única mulher integrante da Comissão. Como este exemplo bem ilustra, a ausência de mulheres nestes espaços decisórios pode impactar na representação de perspectivas das mulheres, que não estão devidamente representadas em termos de presença, ideias e interesses (YOUNG, 2006).

Este não é um problema democrático recente e já vem sendo debatido por cientistas políticas feministas há muito tempo. A ausência de mulheres em espaços representativos eleitorais, e os consequentes problemas desta ausência, já foram evidenciados em diferentes instituições e arenas da política brasileira, como o Legislativo e Executivo (ARAÚJO, 2009; BROLLO e TROIANO, 2015; entre muitas outras autoras importantes) e, também, em comissões e conselhos internos a estas arenas (REZENDE, 2015). E, também em representações não eleitorais, caso do Poder Judiciário (MARONA, 2016).

Desde o período da redemocratização, a Câmara dos Deputados brasileira nunca contou com mais de 10% de mulheres eleitas. Já nos municípios brasileiros, as prefeituras comandas por mulheres nunca passaram de 11%. Vereadoras, por sua vez, nunca ultrapassaram o teto de 12%, em média, nos municípios brasileiros. Com relação a este último, o gráfico abaixo é ilustrativo da ausência de mulheres neste cargo representativo da política brasileira. Como é possível ver pela escala de cores dos mapas, homens são a imensa maioria nas câmaras municipais de todo o país.

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Fonte: MEIRELES e ANDRADE, 2017

Em artigo recente[2], nos debruçamos a entender, justamente, a eleição de mulheres para o nível municipal, em cargos de vereadoras. Especificamente, examinamos se aumentar o número de cadeiras nas câmaras municipais – um tipo de reforma eleitoral frequentemente mencionado na literatura sobre o tema que poderia facilitar a eleição de mulheres, diminuindo o número necessário de votos e gastos de campanha para minorias se elegerem – também aumentaria o número de mulheres eleitas vereadoras no Brasil.

A importância de estudar esta instância representativa diz respeito ao fato de os municípios brasileiros se constituírem em uma importante arena de atuação política para as mulheres. Por um lado, a inserção nesta arena se dá de forma mais fácil, e com custos reduzidos, dada a aproximação das mulheres com o público eleitor, a partir de movimentos sindicais, de bairros e igrejas, entre outros. Assim como há a redução do dispêndio de tempo com a campanha, em que não há a necessidade de deslocamento para outros territórios, possibilitando que as mulheres consigam continuar administrando a vida doméstica e outros trabalhos, já que, comumente, muitas acumulam duplas ou triplas jornadas de trabalho (MATOS & RAMALHO, 2010). Por outro lado, a atuação destas mulheres em políticas focalizadas, que possam produzir efeitos diretos na vida das mulheres e crianças nos municípios, é possibilitada sobremaneira na atuação municipal, já que elas se envolveriam mais em temas sociais, e também nos relacionados à educação e saúde (MASSOLO, 2005).

De fato, nossos resultados indicam que uma cadeira a mais aumenta o número de vereadoras eleitas nas câmaras municipais brasileiras – em até mesmo 20 pontos percentuais na probabilidade de eleger ao menos uma mulher. De forma geral, isto fez com que a representação de mulheres nas câmaras municipais brasileiras aumentasse cerca de 40%, em média, entre as eleições de 2004 e 2008.

Mas o que explica que simplesmente aumentar o número de vagas numa câmara de município ajude tanto a eleição de mulheres? Como dito acima, na literatura sobre o tema supõe-se geralmente que isso decorreria da diminuição da competição eleitoral: se existem mais vagas, e se o número de pessoas votantes permanece o mesmo, menos votos seriam necessários para se eleger – e também menos recursos para fazer campanha. Por essa razão, continua o argumento, quanto mais cargos eletivos disponíveis, mais fácil seria para minorias se elegerem.

No caso dos municípios brasileiros, contudo, com o aumento de uma cadeira para as câmaras municipais mais homens se candidataram a vereador, e não mais mulheres. Trocado em miúdos, isto significa que, mesmo sendo mais fácil para mulheres se elegerem com uma cadeira a mais, apenas mais homens decidiram tentar a sorte. O problema para eles, contudo, é que isso foi ruim para eles: a competição entre eles aumentou, mas os votos das candidatas mulheres não sofreram alteração. Como as candidaturas femininas permaneceram nos mesmos patamares, portanto, mais mulheres foram eleitas, já que o desempenho médio dos homens foi pior.

Isto nos apresenta dois caminhos possíveis de análise. Um, que desenvolvemos em nosso artigo, é o da ausência de coordenação entre os candidatos homens, o que veio a fragmentar o eleitorado. Por outro lado, isto também indica que os partidos não recebem incentivos para aumentarem o número de candidatas mulheres para além do que é estabelecido pelas cotas eleitorais. Quando o percentual mínimo exigido é preenchido, líderes partidários (normalmente homens) não enxergam as candidaturas femininas como competitivas eleitoralmente, dando preferência aos candidatos homens. Em qualquer um dos casos, entretanto, mais homens competindo entre si facilitou a entrada de mais mulheres nas câmaras municipais entre 2004 e 2008.

De toda forma, mesmo com o aprimoramento de regras eleitorais e do sistema político brasileiro, a ausência de mulheres eleitas continua sendo um grave problema democrático brasileiro. É preciso enfrentá-lo em diferentes frentes de atuação: na capacitação de mais mulheres candidatas e com intenção de se candidatarem, aumento de recursos partidários para as candidaturas de mulheres – o que envolve tanto recurso financeiro quanto tempo em campanhas eleitorais, por exemplo –, cumprimento da cota eleitoral pelos partidos, organização da lista partidária de forma a favorecer que mais mulheres possam se eleger, dentre tantos mais. A representação das mulheres diz respeito à ampliação do Estado Democrático de Direito, diz respeito à Justiça.

 

[1] Para mais informações sobre a PEC, ver: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITO-E-JUSTICA/547896-COMISSAO-APROVA-LICENCA-MAIOR-PARA-A-MAE-DE-BEBE-PREMATURO-E-DEFINE-QUE-A-VIDA-COMECA-NA-CONCEPCAO.html

[2]  Para acesso ao artigo, ver link:              http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782017000300079&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Referências
ARAÚJO, Clara. Gênero e acesso ao poder legislativo no Brasil: as cotas entre as instituições e a cultura. Revista Brasileira de Ciência Política, 2(2), pp.23-59, 2009
BIROLI, Flávia. Autonomia e justiça no debate sobre aborto: implicações teóricas e políticas. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 15, p. 37, 2014.
Brollo, F. & Troiano, U. What Happens When a Woman Wins an Election? Evidence from Close Races in Brazil. Journal of Development Economics, 122, pp.28-45, 2015
MARONA, Marjorie Corrêa. Representação Política e Poder Judiciário: dos viéses do recrutamento e perfil da magistratura brasileira. Anais do 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, 2016.
Massolo, A. Gobiernos locales y mujeres: nuevos cambios y desafíos en América Latina. Observatório América Latina Genera: Gestion del Conocimiento para la Equidad de Géner, 2005
Matos, M. & Ramalho, I. Mais mulheres no poder: contribuição à Formação Política das Mulheres. Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010
MEIRELES, Fernando; ANDRADE, Luciana Vieira Rubim. Magnitude eleitoral e representação de mulheres nos municípios brasileiros. Revista de Sociologia e Política, v. 25, n. 63, p. 79-101, 2017.
Rezende, Daniela L. Qual o lugar reservado às mulheres? Uma análise generificada de comissões legislativas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2015
YOUNG, Iris Marion. Representação política, identidade e minorias. Lua Nova, n. 67, 2006.

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O Carnaval está chegando! Vamos falar sobre mulheres na ciência e no carnaval?

Texto escrito em colaboração com @agaiadm

“Ó abre alas que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar”! Viemos aqui falar sobre carnaval, mulher e ciência. Pedimos licença e abrimos espaço citando a primeira marchinha feita na história, no século XIX, pela musicista carioca e preta Chiquinha Gonzaga, uma mulher que fez a diferença na música popular brasileira e trouxe representatividade e poder a qualquer mulher que quer conquistar seu lugar de fala e respeito numa sociedade machista.

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Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – Imagem de Edinha Diniz, 2009.[1]

Como sabemos, o carnaval vem chegando aí e nada como curtir esses dias de liberdade, calor e manifestação cultural compreendendo de onde vem essa festa e refletindo sobre a relação de nós mulheres com a ciência, a cultura e tudo o mais que nós quisermos nos relacionar! Sim, o carnaval é um manifesto a favor da liberdade. E a história está aí para nos contar como as mulheres se relacionam com essa tal liberdade em diversos contextos diferentes. O que nunca mudou no carnaval é que temos uma festa onde podemos sair pelas ruas trazendo à tona nossas fantasias, podendo ser desde deusas a animais selvagens ou seres fantásticos.

Lá no início…

O carnaval teve como inspiração momentos de festividade desde a Grécia antiga e foi adaptado aos moldes da igreja católica como um ritual festivo de preparação à quaresma até a páscoa. Bom, até aí nada de novo. Mas como será que as mulheres eram vistas, levando em consideração as épocas, as classes sociais e a cor, nos primeiros carnavais do Brasil? Por que hoje somos tão objetificadas, principalmente nesse período do ano?

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Representação de jogos do entrudo no Rio de Janeiro, na pintura de Augustus Earle (1822)

A primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso país foi o Entrudo, no século XVI, que era um conjunto de brincadeiras típicas das aldeias da Península Ibérica ligado a práticas socioculturais da Europa pré-cristã. Os Entrudos resumiam-se em três dias de festas que antecediam a quaresma. Era o único momento do ano em que as mulheres sentiam uma liberdade parecida com a dos homens, diferente dos outros 362 dias, onde elas se resguardavam à espera de um casamento. Durante esses três dias, as mulheres podiam sair pelas ruas sem ser reconhecidas, brincavam com quem quisessem e demonstravam interesse por aquele crush que jamais soubera de seus sentimentos. Estamos falando, é claro, das mulheres brancas. Já as mulheres pretas, ainda escravizadas, em épocas de Entrudos tinham muito trabalho a fazer. Eram elas que preparavam os brinquedos e as fantasias, por exemplo. Podiam, sim, participar de brincadeiras durante esses dias, mas tinham a responsabilidade pela produção da festa. A hierarquia social era demonstrada nas festividades e a alegria, marca do carnaval, não era (é!) para todos.[3]

O carnaval foi sofrendo influências políticas, sociais e econômicas até ter a estrutura atual, que começou a ser lapidada no início do século XX, com a expansão urbana e a criação de novos bairros nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As novas ruas largas foram os palcos escolhidos pela burguesia para apresentar seus desfiles carnavalescos, onde suas filhas desfilavam em ricas fantasias em cima de carros alegóricos, a fim de esbanjarem suas riquezas e quiçá servirem como catálogos para moços ricos escolherem com quem casar. Nesse momento, o Rio de Janeiro tinha uma grande população preta escravizada, em desigualdade social bem evidente, e que trazia outro carnaval às ruas. Da pequena África, região onde morava grande parte dos pretos baianos, surgiram as tias, mulheres emblemáticas conhecidas por acolher os que precisassem de lar e pelos seus saberes e agrupamentos em corporações de trabalho, como fabricação de doces, salgados e costura e aluguel de roupas carnavalescas. As tias foram espécies de mediadoras culturais e ficavam entre as distintas classes sociais, pois eram muito procuradas pelos burgueses da zona sul que encomendavam roupas de carnaval e acabavam ficando em suas casas para os sambas. Aliás, foi na Pedra do Sal, localizada na pequena África, na presença das tias, que o samba nasceu, levando identidade e pertencimento a muitos cantos do país. [4]

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Tia Ciata (1854 – 1924), exemplo das tias baianas na cidade do Rio de Janeiro. (fonte pinterest).[2]

Hoje em dia, o que vemos do carnaval é um grande comércio carnavalesco de desfiles, onde as mulheres são apresentadas não mais a burgueses, mas ao mundo pela mídia, a fim de potencializar o turismo na cidade. Essa exposição, dentro de uma cultura que respira patriarcado e que não vê o corpo da mulher com respeito, acabou contribuindo bastante para a objetificação da mulher brasileira. O carnaval de rua, representado pelos blocos de bairro, também nos traz histórias que mostram que o machismo está enraizado em diversas atitudes. Não é a toa que governos, empresas e sites jornalísticos têm divulgado o Ligue 180 para que mulheres tenham em mente esse canal em casos de assédio durante a folia. Atualmente, muitas mulheres têm reivindicado o direito por seus corpos, sexualidade e vontades. Quem dita as regras somos nós! O que dá gana de lutar pela equidade de gênero e nossos direitos é ver diversos blocos nascendo do feminismo, idealizado por minas engajadas e com fome de conquistas.

A discussão sobre gênero incomoda, mas temos que fazê-la

Essa pequena história do carnaval brasileiro traz as mulheres em diversas posições sociais, porém é perceptível o quanto o machismo está atrelado em nossos caminhos e escolhas. Lugar de mulher é onde ela quiser, seja no carnaval, na arte ou na ciência. Ainda assim, as notícias não enganam: é difícil ser mulher no mundo, em qualquer contexto social. A gente lê manchetes, dados e estatísticas e se assusta, não entende, busca um porquê para ser desse jeito. Os sustos vêm de todos os lados. Pode vir no título de uma matéria de jornal de 2016: “Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901” (El país). Em 2017, nada mudou: os homens – todos brancos, vale destacar – levaram todos os prêmios do Nobel. Pode vir num número que representa a realidade nua e crua de muitas brasileiras: a taxa de feminicídio (o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) no Brasil, segundo levantamento da organização Artigo 19, é a quinta maior do mundo. Ou, então, pode vir de um lado que a gente não viu, em forma de agressão física, simplesmente porque dissemos não a alguma pessoa que claramente não soube respeitar o nosso direito de se divertir no carnaval.

Mulher na ciência, mulher vítima de assassinato no Brasil, mulher no carnaval… são mundos distintos, nós reconhecemos. Todos eles poderiam ser contextualizados de forma individualizada, mas há, no pano de fundo que os sustenta, um novelinho de lã que costura essas narrativas. No Brasil, ou em outras partes do mundo, não há como falar de mulher na ciência sem ao menos contextualizar, um pouco que seja, o que isso representa naquela cultura e naquele local. Isso porque uma coisa pode puxar a outra e somos seres inseridos em diferentes mundos ao longo da vida: família, profissão e vida social, por exemplo. Há opressões direcionadas às mulheres em cada um desses mundos. E, sim, todas elas conversam dentro da nossa cultura porque falam de opressão ao gênero e sexo feminino.

Todos nós conhecemos a história de uma mulher que precisa se desdobrar em três para dar conta de trabalhar e/ou estudar, tomar conta da casa e/ou da família e cuidar de si mesma (se restar tempo, claro). Vamos dar um nome a essa mulher: Rosa. Rosa está quase terminando seu mestrado em matemática, cresceu ouvindo que mulher precisa saber cozinhar e ser excelente mãe para arranjar e segurar marido e, além disso, morre de vergonha e desconforto de sair com roupas mais decotadas e menores porque tem medo de ser assediada na rua ou no trabalho. No carnaval de rua, por exemplo, só se sente confortável para sair de casa com alguma fantasia que deixa o corpo mais à mostra caso esteja com um grupo de amigos confiáveis. Isso porque, infelizmente, ela percebeu que é um fator cultural o fato de muita gente achar que pode fazer o que bem entender com o corpo de uma mulher e “se saiu desse jeito, é porque estava pedindo”. “Aqueles amigos do mestrado”, ela pensa, “certamente me julgariam se me vissem desse jeito”.

Desconstruir para construir novos valores na cultura

É difícil ser mulher no mundo. Ponto. É tanta coisa para pensar. As respostas que temos que dar, os sinais que temos que ler, a rua escura que precisamos enfrentar, ou evitar, a inteligência que precisamos provar, a fragilidade que já nos é atribuída de forma natural desde a infância, a boneca que teimam em nos dar para cuidar… A sociedade põe a todos numa caixa, é verdade. Porém, verdade seja dita: a caixa das mulheres, no caso de muitas mulheres, é bem pequena para comportar tanto julgamento e opressão. Já rasgamos e quebramos muitas caixas mundo afora, mas todo dia precisamos rasgar um pouco mais as que ainda existem por aí.

Um convite mais que especial

 

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(Fonte: Museu da Vida/Fiocruz)

Pensando nesse contexto, estamos realizando, no dia 3 de fevereiro, um Grito de Carnaval, cujo tema – ou samba-enredo – será “Mulheres na ciência”. O evento será realizado no Museu da Vida, centro de ciência da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e é uma tentativa de rasgar um pouquinho mais essas caixas que nos rodeiam dentro da sociedade. Há atividades para várias idades. Além de ser uma excelente oportunidade para debater a igualdade de gênero na ciência brasileira, essa farra carnavalesca nos propõe pensar novos formatos para fazer divulgação científica.

Dando alguns exemplos: no “Espaço da fantasia”, o público poderá vestir uma fantasia que dialoga com diversas áreas da ciência. A proposta conversa com dois questionamentos: “Será mesmo que cientista tem uma única cara, a do jaleco?” e “Será que podemos dar ao nosso público a oportunidade de considerar ser uma cientista?”. No carnaval, as fantasias conversam bastante com o imaginário, sonhos e possibilidade. Por isso, a mensagem que queremos passar é que ser mulher cientista é, além de muito necessário, extremamente possível. Já em “Estandarte das mulheres incríveis”, os visitantes poderão escrever em pedaços de papel sobre mulheres inspiradoras, como integrantes da família, professoras, amigas, namoradas ou outras pessoas queridas. Em eventos públicos de divulgação científica, conversar com o público e ouvi-lo é fundamental!

Poderíamos ficar um bom tempo discorrendo sobre as atividades, mas, para quem é do Rio ou estiver pelo Rio no dia 3, queremos deixar o convite de ir construir o Grito de Carnaval com a gente. Fica a dica! Há mais informações sobre o evento no link bit.ly/gritodecarnavalmv.

Referências:
[1] DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar. 2009
[2] https://br.pinterest.com/
[3] SIMSON, Olga R. de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o entrudo até as escolas de samba). Revista de História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, july 1992.
[4] VELLOSO, Monica P. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, p.207-228, 1990.
[5] http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/11-visitacao/884-anote-na-agenda-o-grito-de-carnaval-do-museu-da-vida-vem-ai

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Precisamos de mais antibióticos: a busca por novos fármacos

Na verdade, é uma questão simples, nada pessoal. Trata-se de sobrevivência, pura evolução, é disso que estamos falando quando o tema é RESISTÊNCIA BACTERIANA.  Podemos simplificar o mecanismo assim: as bactérias causam doenças nos humanos e nós humanos usamos os antibióticos para eliminá-las. Com o avanço da Medicina aumentamos a expectativa de vida da espécie humana. Tratamos doenças antes intratáveis, pacientes com HIV sobrevivem longos anos, transplantados são imunossuprimidos através do uso de fármacos para evitar rejeição, infecções simples são logo tratadas com antibióticos. Pensando como bactéria, isso é muita pressão. Pressão seletiva!

O uso indiscriminado de antibióticos e o aumento da sobrevida de pacientes imunossuprimidos levaram ao crescimento acelerado da resistência bacteriana. As bactérias mais vulneráveis são eliminadas pelo tratamento, no entanto uma bactéria se replica rapidamente e por isso a taxa de mutação nas bactérias também é alta. Bactérias mais resistentes são selecionadas e começam a se multiplicar. Quanto mais antibiótico é utilizado, maior a seleção, e em consequência, maior a chance do desenvolvimento de resistência.

É um verdadeiro cabo de guerra entre antibióticos e bactérias. Além disso, as bactérias são capazes de trocar materiais genéticos entre si (e entre diferentes espécies) e por isso podem espalhar os genes de resistência, através da troca de plasmídeos que contenham essas características. Se você se interessa por esse assunto pode ler muito mais, aqui mesmo no blog, no texto Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1 e Parte 2, e também temos um sobre Heteroresistência aos antibióticos.

A tão falada Superbactéria, nada mais é do que uma bactéria multirresistente, sendo uma das mais conhecidas a KPC. Mas o que vem a ser isso? KPC é uma sigla para Klebsiella pneumoniae carbapenemase resistente. Os carbapenêmicos são antibióticos muito fortes, de uso restrito a graves infecções hospitalares, como Meropenem, Imipenem e Ertapenem, no entanto, a Klebsiella desenvolveu uma enzima capaz de quebrá-los e inativá-los, uma carbapenemase, causando surtos infecciosos nos hospitais.  Esse mecanismo enzimático de resistência recebeu o nome de KPC, por ter sido descrito pela primeira vez, na Klebisiella pneumoniae.

Infelizmente, nos últimos anos têm sido descritos mais mecanismos de resistência bacterianos do que novos antibióticos. Essa enzima não ficou restrita ao gênero da Klebsiella, sendo descrita em diversas outras bactérias, e segundo a Anvisa, isolados clínicos que apresentem resistência aos carbapenêmicos em testes iniciais, devem ser triados para a presença de carbapenemases e feita confirmação em laboratório de referência, conforme a Nota 01/2013. Apesar de ser a mais conhecida, a KPC não é o único mecanismo de resistência existente para esses fármacos, já sendo relatados no Brasil a presença de isolados NDM (metalo-betalactamase) e de resistência concedida por AmpC plasmidial.

Será que as bactérias estão evoluindo mais do que nós?

Em 15 de junho de 2017, um grupo italiano de pesquisa, da Universidade de Milão em parceria com departamentos de bioquímica e farmacologia dos Estados Unidos e Alemanha, formado por Sonia I. Maffioli e colaboradores publicou na revista americana Cell, o seguinte artigo: “Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase”. O grupo descobriu uma nova molécula com potencial antimicrobiano. Isso mesmo, temos um possível novo antibiótico em teste!

E pode chamá-lo de PUM, ou melhor, Pseudouridimycin. A molécula foi isolada de um microrganismo encontrado no solo, até então desconhecido, que ganhou o mesmo nome (Pseudoridimycin). Os autores ressaltam a importância do estudo da biodiversidade, principalmente para os microrganismos do solo, de forma que fica a recomendação: “olhos atentos ao chão! ”. A grande maioria dos fármacos e substâncias de interesse clínico e econômico são descobertas na natureza, como foi o caso do primeiro antibiótico desenvolvido, a penicilina.

A ação do Pseudouridimycin se dá pela ligação à RNA polimerase de bactérias, impedindo a transcrição do genoma, a produção de proteínas e sua replicação, uma ação semelhante à da rifampicina (antibiótico já em uso). No entanto os cientistas afirmam que o mecanismo do PUM é dez vezes menos suscetível ao desenvolvimento de mecanismos de resistência. A substância foi isolada e está em estudo, tendo sido testada em laboratório in vitro e in vivo com ratos.

​​Os autores afirmam que o Pseudouridimycin possui ação contra bactérias Gram Positivas e Gram Negativas (largo espectro), apresentando baixa indução de resistência in vitro  e in vivo. A RNA polimerase bacteriana é responsável por traduzir o genoma da bactéria em proteínas, e vai incorporando a sequência de bases do RNA.

Quando a RNA polimerase vai colocar uma Uracila na fita, o PUM se liga a ela e bloqueia todo o processo. De modo que para a produção de proteínas da bactéria, sem poder produzir suas proteínas essenciais, a bactéria morre. É como uma greve geral na maquinaria de síntese bacteriana que leva ao tratamento da infecção.

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Estrutura do Pseudouridimycin (PUM) e sua interação com a RNA polimerase.

Apesar de ser uma descoberta muito promissora, a molécula de Pseudouridimycin ainda vai passar por muitos testes. Nos testes laboratoriais o PUM demonstrou atividade bactericida sobre vinte diferentes espécies de bactérias, inclusive algumas com altos níveis de resistência aos antibióticos atualmente em uso; em ratos foi capaz de curar as infecções por Streptococcus pyogenes, com baixíssimo índice de indução de resistência e boa tolerabilidade, ou seja, com baixa toxicidade.

            Todo fármaco para chegar ao uso em humanos passa por uma série de ensaios, não só de sua ação, mas também de sua segurança, percorrendo um longo caminho dos laboratórios até as farmácias.

Os testes seguintes incluem a determinação da efetividade in vivo, dose terapêutica, toxicidade, carcinogenicidade, efeitos adversos, teratogenicidade (indução de malformação em fetos) e contraindicações. Os cientistas acreditam que testes em humanos, com o novo antibiótico, devem começar em 2020, e se confirmada sua ação, chegar ao mercado dentro de uma década, segundo os pesquisadores da Universidade Rutgers-New Brunswick e da empresa italiana de biotecnologia Naicons. Para entender um pouco mais como essas etapas acontecem, você pode ler, aqui no blog os textos Conceitos Básicos da Pesquisa em Saúde, Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

Esperamos em breve ter mais notícias do grupo de pesquisa de Sonia I. Maffiolo, com os avanços dos testes da molécula PUM. Se tudo correr conforme o esperado podemos ter um novo antibiótico em uso no ano de 2027.

Dentre todos os fármacos pesquisados, a maior dificuldade é em inovar nos antibióticos, tão necessários à nossa medicina, por isso esse estudo traz uma descoberta de grande relevância, e também aponta um norte para novas pesquisas, pois ainda existem muitos microrganismos produzindo substâncias totalmente desconhecidas por nós, que podem nos ajudar na luta contra a resistência bacteriana.

Referências:

Maffioli SI, Zhang Y, Degen D, Carzaniga T, Del Gatto G, Serina S e cols. Antibacterial Nucleoside-Analog Inhibitor of Bacterial RNA Polymerase. Cell. 2017 Jun 15;169(7):1240-1248.e23. doi: 10.1016/j.cell.2017.05.042.

Nota técnica Anvisa 01/2013. MEDIDAS DE PREVENÇÃO E CONTROLE DE. INFECÇÕES. POR. ENTEROBACTÉRIAS. MULTIRESISTENTES. Brasília, 17 de abril de 2013.

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Aborto: um direito ou um crime?

A Pesquisa Nacional do Aborto (2016) mostrou números assustadores sobre a magnitude do aborto no Brasil: 4,7 milhões de mulheres já abortaram, ou seja, uma em cada cinco mulheres aos 40 anos já fez, pelo menos, um aborto – prática restrita pela lei e muitas vezes condenada pela opinião pública.

Os direitos sexuais e reprodutivos garantem a liberdade e autonomia das pessoas a partir do reconhecimento da igualdade de direitos e diversidade de vivências e modos de ser partilhados entre nós. Infelizmente não há um consenso sobre eles em nossa sociedade e, diversas vezes, eles são colocados em xeque por uma moralidade impositiva que desqualifica – e tenta criminalizar – modos de ser que fujam de ordens preestabelecidas. A mais recente, diz respeito à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 181 que, inicialmente, altera o inciso XVIII do art 7o da CRFB/88 e dispõe sobre o aumento da licença maternidade em caso de parto prematuro.

Contudo, por uma manobra executada pela bancada religiosa no congresso brasileiro, foi realizada uma alteração nesta mesma proposta, colocando o entendimento da proteção à vulnerabilidade do prematuro como uma proteção à existência do pré-maturo, ou seja, uma ampliação da compreensão de que a existência se dá desde a concepção, portanto, construindo assim uma brecha para a proibição de qualquer tipo de interrupção de gestação, até mesma daquelas garantidas atualmente em nossa constituição.

O aborto é um tema complexo, pois pode-se dizer que um dos pontos que está em disputa é o entendimento que se tem por “vida”. De um lado, uma ideia abstrata (vida abstrata), advinda de argumentos religiosos e sustentada pelo entendimento de que a vida ocorre desde a fecundação. Por outro lado, há a ideia de “vida vivida”, defendida pelas feministas, na qual deve-se levar em consideração os direitos das mulheres advindos de sua “vida vivida”. Explorar essa disputa de sentido em nossa sociedade foi a proposta de Lia Zanotta Machado, no artigo “O aborto como direito e o aborto como crime: o retrocesso neoconservador”. Nele, a autora se propõe a analisar os depoimentos de deputados e religiosos fundamentalistas no que se refere a direitos das mulheres, laicidade e direitos humanos.

A partir de uma contextualização das discussões sobre a construção dos argumentos fundamentalistas ao longo dos tempos no Brasil, a autora coloca os anos 2000 como marco para uma reorganização das forças conservadoras. Lia aponta que a ofensiva conservadora, favorável á criminalização e contrária à legalização do aborto, crescera exponencialmente no Brasil a partir de 2005, uma reação à elaboração e à apresentação naquele ano pelo Poder Executivo ao Legislativo de minuta de projeto de lei em favor da legalização da interrupção da gravidez. (MACHADO, 2017). 

Essa minuta foi construída a partir de demandas feministas para a revisão da legislação punitiva do aborto e foi acatada pelo Poder Executivo. Essa ação causou respostas contrárias e gerou uma articulação dentro e fora do parlamento para impedir a legalização do aborto.

Para se ter uma ideia do poder de articulação desses grupos conservadores e religiosos, a autora recorda que em 2010, na campanha presidencial, os dois candidatos receberam pressões das Frentes Parlamentares Evangélicas e “contra o aborto”, bem como da Conferência Nacional de Bispos no Brasil (CNBB). Desde então, vivemos uma escalada de tentativas para frear discussões sobre o aborto e, como é o caso da PEC 181, modificar conquistas garantidas na constituição.

mulheres

Buscando outras estratégias para o enfrentamento do discurso pré-vida, diversos grupos feministas e de mulheres – utilizando a mesma lógica conservadora – colocaram em questionamento o conceito abstrato de vida e contrapuseram com a ideia de “vida vivida” por mulheres de uma maneira geral.

As formulações de “vida vivida”, de “gente em vida” e de “vida em sua concretude”, enriquecem as argumentações feministas. Fortalecem a defesa do respeito à ética da justiça e do uso da “ponderação” por acesso a direitos em disputa que se opõem, mas que devem ser levados em conta relacionalmente: os direitos do concepto à “vida (abstrata)” e os direitos das mulheres advindos de sua “vida vivida”(MACHADO, 2017, pag. 5).

Outro ponto apontado por essas mulheres é a necessidade da defesa do Estado laico, ou seja, de um estado que se coloca como imparcial nas questões religiosas, ou seja, no caso da concepção de vida, não cabe ao estado legislar sobre definições de cunho religioso como é a proposta na PEC 181.

A criminalização do aborto conflita com os direitos fundamentais, civis, políticos e sociais das mulheres, assim como com a definição mínima de sujeito de direito, pessoa nascida, tornada social e jurídica a partir do nascimento, em uma sociedade plenamente laica. (MACHADO, 2017, pag. 7)

Lia mostra, em seu texto, que esses argumentos perderam força e foram duramente questionados nas últimas duas décadas. Para ela, a estratégia de combinar a igreja e a cadeira legislativa foi pensada para condensar, em uma só figura, autoridades política e a religiosa, com o objetivo de reforçar os valores familiares tradicionais, que incluem o controle da sexualidade e da reprodução das mulheres.

Falas como as do deputado federal Odair Cunha mostram como as discussões sobre os direitos sexuais de mulheres vem sendo perpassadas por princípios de cunho conservador e fundamentalismo religioso

Entendo que têm três leis. Tem a lei dos homens, que é a Constituição Federal, que é essa aqui que nós aprovamos um dia, dois terços da Casa que aprova; tem o Código Civil, que é a metade mais um; e tem essa aqui, que é a lei de Deus, que é a Bíblia Sagrada. Eu não posso, senhor presidente. Eu queria que a companheira Jandira entendesse. Nós temos a lei de dois terços, a lei de metade mais um e a lei de Deus. Está escrito aqui: “Céus e terras passarão, mas minha palavra não passará”, “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” Deputado Federal Odair Cunha, do PT-MG, audiência pública, novembro de 2005.

Nesse raciocínio, a hierarquia a ser respeitada dentro da legislação, coloca os preceitos religiosos como algo superior à própria constituição. Continuando nessa linha, as mulheres deixam de ser sujeitos de direitos e passam a ser responsabilizadas pelos direitos de outros, sendo, no caso do aborto, de um outro abstrato.

Vale a leitura do artigo para perceber como as construções discursivas nos âmbitos legislativo e jurídico estão envoltas em pressupostos religiosos. Entender o poder desses discursos para, depois, poder analisá-los e questioná-los criticamente é um processo realizado por Lia para apresentar a necessidade de que esta discussão possa ser feita a partir de outros argumentos, que considerem as mulheres como sujeitos de direitos capazes de decidirem sobre suas próprias vidas.

Bibliografia

Machado Lia Zanotta. “O aborto como direito e o aborto como crime: o retrocesso neoconservador”. Cadernos Pagu, 2017, no.50

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Turismo Negro – Entrevista a Belmira Coutinho

No final do ano passado, um jantar organizado no Panteão Nacional pela Founders Summit para assinalar o encerramento da Web Summit gerou imensa controvérsia nas redes sociais e na comunicação social [1, 2, 3, 4]. O jantar, onde só participaram algumas dezenas de pessoas, seleccionadas pela organização decorreu no espaço central do Panteão, junto aos túmulos de algumas personalidades portuguesas. Na verdade, este não foi o primeiro jantar que ali se realizou, mas foi este que se transformou numa notícia bombástica que indignou a grande maioria dos portugueses, desde figuras públicas a figurantes não tão públicos assim… Inicialmente supus que esta indignação teria mais a ver com a defesa dos monumentos nacionais, mas não, toda a tinta que se gastou neste assunto teve a ver com “a grande falta de respeito” pelos ilustres mortos. Isto encontra-se relacionado com a forma como encaramos a morte, assunto que, já agora, evitamos a todo o custo. Considera-se, portanto, pertinente falar com a Belmira Coutinho, que investiga o turismo como mediador de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea.

Belmira

Belmira Coutinho -Dark Tourism researcher 

Helena Ferreira (HF) – Como explicas toda a polémica que se gerou em torno dos jantares que se realizaram no Panteão Nacional, junto dos túmulos das personalidades portuguesas?

Belmira Coutinho (BC) – Em primeiro lugar, importa clarificar que no local onde se realizou o jantar (corpo central do Panteão) não existem túmulos, apenas cenotáfios. Mas, indo ao que interessa: a resposta a esta pergunta dava para uma tese! Há muitos factores que contribuem para que tenha havido uma reacção pública tão enfática à realização deste evento. Resumidamente: temos um evento com carácter recreativo num local a que são atribuídas características de sagrado e que contém sepulturas de pessoas vistas como importantes para o país. A forte influência católica no nosso país impõe uma postura de reverência e pesar em face da morte e de túmulos. Em Portugal não existem sepulturas fora de locais religiosos (cemitérios, igrejas, etc.). Então, aqui, qualquer actividade em cemitérios e outros locais de enterramento além daquelas ligadas à religiosidade ou as visitas a sepulturas de familiares e amigos pode ser vista como “falta de respeito”, como algo que vai deturpar o carácter sagrado daquele espaço. A minha pesquisa mostrou-me como noutros países, mais seculares e/ou onde o catolicismo tem menos peso, esta postura é diferente. Além disso neste caso trata-se de um local onde estão sepultadas ou têm monumentos funerários “pessoas com destaque na História de Portugal”, ou seja, que são reconhecidas por grande parte da população. Então a “falta de respeito” não é só para com os indivíduos sepultados e eventualmente as suas famílias, é para com o país inteiro! Ainda por cima o evento destinou-se maioritariamente a um público estrangeiro, que desconhece estas figuras, então é visto como incapaz de prestar o devido respeito à sua memória. Ao mesmo tempo, existe uma retirada quase total da morte da vida quotidiana. Enquanto sociedade só nos permitimos contactar com a morte “real”, personalizada, em momentos e circunstâncias excepcionais. Lidamos com essa morte em funerais, nas visitas a moribundos ou mortos nos hospitais e morgues, nos rituais religiosos de visitas a cemitérios. Quando tem mesmo de ser. De resto, não queremos sequer lembrar-nos de que ela existe. Trazer os mortos para uma actividade tão mundana como um jantar, ainda por cima festivo, é algo que nos causa muita impressão.

HF –Consideras que houve, no mundo ocidental, uma evolução nas atitudes perante a morte, ao longo do tempo?

BC – Claro que sim. Sensivelmente a partir do Romantismo a morte foi assumindo um carácter cada vez mais extraordinário na sociedade ocidental. Até então ela era encarada como algo triste, claro, mas que fazia parte da vida. A morte não interrompia a vida. Quando alguém morria seguiam-se os devidos rituais religiosos e civis, mas as outras actividades do quotidiano aconteciam paralelamente. Da mesma forma, os locais de enterramento não eram vistos como cidades dos mortos, eles pertenciam às cidades dos vivos, eram locais de comércio, habitações, e até actividades lúdicas. Mas progressivamente fomos encarando a morte como uma ruptura com as regras do quotidiano, como algo que não deve fazer parte dele. Para isto contribuiu, entre outras coisas, o avanço da Medicina. À medida que mais doenças e ferimentos se tornaram tratáveis, a morte passou de natural a algo que devia ser combatido; em alguns momentos chega a ser vista como uma falha da medicina. Também nos fomos preocupando cada vez mais com a nossa morte, em vez de a encararmos como um destino colectivo. Conforme a nossa sociedade se foi dessacralizando e os indivíduos foram ficando mais e mais isolados, os tradicionais ritos e crenças que ajudavam a lidar com a morte foram perdendo importância, deixando-nos sozinhos a lidar com a nossa finitude. O que torna mais difícil querermos pensar nela. Como disse atrás, só lidamos com a morte quando somos obrigados. Ao mesmo tempo acontece uma coisa paradoxal: a morte entra-nos em casa todos os dias. É raro o dia em que não vemos imagens de pessoas mortas ou ouvimos relatos de mortes. Basta ligarmos a televisão ou entrarmos na internet para termos notícias de crimes e desastres. Ou ouvirmos música, vermos um filme, uma série, ou lermos um livro. A morte está muito presente na cultura popular. Mas ela é abstracta, despersonalizada. Suavizada.

HF – O que se entende por turismo negro? E turismo cemiterial? Queres dar como exemplo alguns locais?

BC – O Turismo Negro pode ser encarado – ou pelo menos eu encaro-o assim – como a actividade turística em locais que têm alguma ligação com a morte e com o sofrimento. Isto inclui, claro os cemitérios. Então, o Turismo Cemiterial, que diz respeito ao turismo desenvolvido em cemitérios, é Turismo Negro, mas o Turismo Negro engloba muito mais coisas. Podemos pensá-lo como um conceito guarda-chuva que abrange a actividade turística em locais que pouco ou nada mais têm em comum do que a sua ligação a morte e a sofrimento. Digo actividade turística porque não se trata apenas de uma fenómeno de oferta ou de procura, mas de algo muito mais complexo que envolve locais de elevada importância cultural e política para comunidades e nações, e com implicações éticas e económicas que devem ser tidas em conta, e que são visitados por pessoas nas quais vão causar algum impacto. Um exemplo facilmente identificável são os campos de concentração nazis, como Auschwitz, que no ano passado recebeu 2 milhões de visitantes. Mas há muitas atracções dentro deste tipo de turismo: campos de batalha, antigas prisões, exposições como a que está actualmente no CCB (sobre os portugueses em campos de concentração nazis), circuitos turísticos como o do Jack O Estripador, em Londres, antigos hospitais, entre tantas outras. A maior parte das pessoas já fez Turismo Negro sem ter pensado nisso.

HF – Segundo a tua investigação, o turismo negro e o turismo cemiterial assumem algum papel relevante para os indivíduos e a sociedade?

BC – Sim, assumem. Como já disse, na nossa sociedade não lidamos directamente com a morte e com o sofrimento. Precisamos de mediadores. E o Turismo Negro é um dos mais importantes mediadores de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea. É importante salientar que muitas das atracções deste tipo de turismo constam dos principais guias e roteiros de visita da maioria das cidades. Locais como o Cemitério do Père Lachaise (Paris), Pompeia, o Ground Zero. Em todos estes locais os visitantes podem contactar com a morte e o sofrimento sem serem afectados pessoalmente. Podem elaborar as suas construções e reflexões sobre aqueles acontecimentos ou sobre a finitude num local pensado para ser visitado, para ser consumido.

HF – O que podes ainda acrescentar sobre a tua investigação?

BC – A minha investigação procura pensar o Turismo Negro na realidade portuguesa a partir de um caso prático. A maior parte da teoria sobre este tema vem de um contexto anglocêntrico, então há coisas que não se podem transpor directamente para a nossa realidade. Por exemplo, as atracções relacionadas com a Segunda Guerra Mundial são consideradas o pináculo do Turismo Negro, mas em Portugal não as temos nem tivemos batalhas recentes no nosso território. O que é que nós temos de mais “negro” neste sentido? Eu creio que são os locais relacionados com a ditadura, como o Forte de Peniche e o Museu do Aljube, que hoje funcionam como museus de Resistência. São atracções turísticas e são locais onde a morte e o sofrimento aconteceram, embora isso não seja muito falado. Acho que é importante percebermos que histórias se estão a contar nestes locais, e quem é que as conta.

[1] http://observador.pt/2017/11/11/o-jantar-exclusivo-da-web-summit-foi-no-panteao-nacional/

[2] http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/paddy-cosgrave-pede-desculpa-por-jantar-no-panteao-nacional

[3] http://observador.pt/2017/11/11/governo-diz-que-jantar-da-web-summit-no-panteao-nacional-e-absolutamente-indigno-e-ofensivo/

[4] https://sol.sapo.pt/artigo/588526/web-summit-jantar-no-panteao-nacional-gera-revolta