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Atualidades sobre a Lua e Exomoons

Recentemente a missão Apollo 11, responsável pelo primeiro pouso na Lua, completou 50 anos e um novo plano está em ação para o retorno. A missão Artemis levará pela primeira vez uma mulher até o solo lunar, sendo um projeto de autoria da NASA, ESA e algumas instituições privadas.

A versão atual do programa Artemis incorpora vários componentes principais de outros projetos cancelados da NASA, tais como o Projeto Constellation (uma nova geração de naves para voos espaciais com humanos) e o Asteroid Redirect Mission (uma futura missão espacial que iria de encontro com um grande asteroide próximo da Terra e usaria braços robóticos com pinças de fixação para recuperar uma pedra de aproximadamente 4 metros do asteroide).

 

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Figura 1: Lua. Créditos: NASA/GSFC/Arizona State University

 

A missão Artemis sofreu vários golpes orçamentários nos últimos anos o que fez com que o projeto adiasse seu cronograma algumas vezes com previsão atual de chegada à Lua em 2024 .

Recentemente uma notícia curiosa chamou a atenção, a sonda israelense Beresheet foi feita para ser a primeira sonda privada a pousar na Lua. E tudo estava indo bem até que os controladores da missão perderam contato em abril enquanto a nave robótica descia. Além de toda a tecnologia que foi perdida no acidente, Beresheet tinha uma carga incomum: alguns milhares de tardígrados conhecidos como ursos-d’água. Muito resistentes, os tardígrados podem sobreviver a temperaturas variando desde pouco mais do que o zero absoluto (-272,15 °C) até os 150°C, pressões altíssimas e grandes níveis de radiação, cerca de 1000 vezes mais que um ser humano pode suportar!

Como a Lua é considerada sem vida, o escritório de proteção planetária da Nasa não desaprova as missões que derramam organismos terrestres em sua superfície. Afinal, astronautas já deixaram para trás seus próprios micróbios nos 96 sacos de lixo humano que aguardam algum futuro limpador na Lua. Se a espaçonave tivesse derramado sua carga viva em Marte, a história poderia ser diferente.

Dentro do sistema Solar sabemos que diversos planetas têm “luas”, satélites naturais, como pode ser visto mais detalhadamente nessa série de artigos da nossa página . Fora do nosso sistema temos as Exomons, “luas” de planetas orbitando estrelas que não se encontram no Sistema Solar. No final de 2018 pesquisadores apresentaram novas observações de uma candidata a “lua” associada ao Kepler-1625b usando o Telescópio Espacial Hubble.

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Figura 2: Impressão artística do planeta Artist’s do planeta Kepler-1625b orbitando sua estrela com a possível exomoon.Créditos:Dan Durda/Science

 

O sistema Kepler-1625 se encontra a mais de 8 mil anos-luz do nosso sistema e contém uma estrela bem similar ao Sol, o planeta Kepler-1625b é um gigante gasoso com cerca de 10 massas da Júpiter. As evidências em favor da hipótese da “lua”, foi baseada em decréscimos de fluxo de luz da estrela consistente com uma grande exomoon em trânsito (passando na frente da estrela). Como todo o trabalho foi feito apenas com os dados do Hubble, os pesquisadores defendem o monitoramento futuro do sistema para verificar as previsões do modelo e confirmar a existência da “lua”.

 

Referências:

[1] Evidence for a large exomoon orbiting Kepler-1625b; Alex Teachey and David M. Kipping; Sci Adv 4 (10), eaav1784. DOI: 10.1126/sciadv.aav1784

[2] https://apod.nasa.gov/apod/ap190716.html

[4] https://www.nasa.gov/artemis/

[3]https://www.theguardian.com/science/2019/aug/06/tardigrades-may-have-survived-spacecraft-crashing-on-moon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

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Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).

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8Março2019: Dia histórico em Portugal!

Um dia histórico e emocionante – será assim que o dia 8 de Março de 2019 será lembrado, por muitas das mulheres que o viveram em Portugal. Neste dia que assinala o Dia Internacional da Mulher estavam marcadas manifestações em 13 cidades (Albufeira, Amarante, Aveiro, Braga, Coimbra, Covilhã, Chaves, Fundão, Lisboa, Ponta Delgada, Porto, Vila Real e Viseu) para reivindicar igualdade de direitos e para protestar contra as violências praticadas contra as mulheres, num ano que se iniciou particularmente trágico, porque em dois meses foram assassinadas 12 mulheres, pelos seus companheiros [1].

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Porto, foto de Helena Ferreira 

Estava, também, marcada uma greve feminista inédita, em solidariedade com a greve internacional, que se concretiza com bastante sucesso, pelo terceiro ano consecutivo, em países como Espanha, Argentina e Itália. Andrea Peniche, de “A Coletiva” e da “Rede 8 de Março”, explica que esta “não é uma greve como as outras, é uma greve social, que coloca no centro a realidade da vida das mulheres, para perceber o significado do conceito “trabalho”” e “que se organiza em quatro eixos fundamentais: greve ao trabalho assalariado, greve ao trabalho doméstico e dos cuidados, greve ao consumo e greve estudantil” e explica, por miúdos, que neste país ainda: 1. enfrentamos uma justiça machista, que culpa as vítimas e desculpabiliza os agressores; 2. trabalhamos 58 dias sem receber, porque os nossos salários são mais baixos do que os dos homens quase 16%; 3. somos o principal rosto da pobreza; 4. não temos direito a lazer, porque acumulamos o trabalho assalariado com o trabalho doméstico e dos cuidados; 5. trabalhamos mais duas horas diárias que eles nestas tarefas, ou seja, dedicamos-lhe 4h30 por dia; 5. e continuamos a ser objectificadas, mercadorizadas e invisibilizadas. Por tudo isto “não queremos flores, queremos direitos” [2].

 

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Lisboa, foto de Bruno Góis 

É ainda Andrea Peniche que salienta que o movimento sindical foi desafiado a juntar-se a esta greve, mas houve apenas cinco pré-avisos: do Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal (Sieap), do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), do Sindicato dos Trabalhadores de Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSS), do Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC ) e do Sindicato de todos os Professores (STOP) —, permitindo que só as mulheres (e homens, se o desejassem) que trabalham nestas diferentes áreas pudessem parar de trabalhar legalmente.

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Coimbra, foto de Daniel Sansão 

Patrícia Martins, também da “Coletiva” e da “Rede 8 de Março” e uma das maiores dinamizadoras do movimento [3], a nível nacional, que coloca na ordem do dia os problemas da desigualdade e da violência contra as mulheres e exige respostas, salienta que “muitas mais mulheres gostariam de ter feito greve, mas não lhes foi possível. Espera-se que para o ano o dia seja de greve geral”.

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Em Vila Real, foto de Gil Rego

Quanto ao facto deste dia 8 ficar na história como o que uniu milhares de pessoas (20 000 em Lisboa, 7 000 no Porto, 500 em Braga, e as restantes pelas outras localidades), principalmente mulheres, nas lutas feministas revela que “este é o resultado de um processo de mobilizações feministas que têm acontecido no Porto, nos últimos dois anos, desde a Marcha das Mulheres, como as concentrações em frente ao Tribunal da Relação do Porto (para protestar contra a justiça machista) e outras que se têm realizado devido à persistência de uma cultura de violação em Portugal”.

Para o ano esta organização pretende aumentar o nível de participação nas manifestações e organizar a maior greve feminista alguma vez realizada em Portugal, porque “se as mulheres param, o mundo pára”.

Até lá, queremo-nos vivas, livres e unidas!

[1] https://www.dn.pt/pais/interior/dois-meses-e-11-dias-23-pessoas-mortas-14-por-violencia-domestica-10667254.html

[2] https://www.publico.pt/2019/03/06/sociedade/opiniao/nao-queremos-flores-queremos-direitos-1864358?fbclid=IwAR36JhoG8Sc5xRi61aQXGCQAkZynPSzI2TVs0B6h-heu0MJ6P6cjUEKFVkQ#gs.u0OxqvCf

[3] https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/patricia-martins-temos-uma-sociedade-estruturada-na-exploracao-do-trabalho-das-mulheres-gratuito-e-invisibilizado-390145?fbclid=IwAR39-Bu1-PCs-wSfTCwHP5KigaFiUBFJpQWfLIE4TacVgIMtCYNyGGSwh6s#.XH-vy211vLc.facebook

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Poder no feminino não é igual a feminismo ou Por que é que não festejamos quando algumas mulheres chegam ao poder?

Nos últimos tempos temo-nos deparado, nas redes sociais, com imensas acusações, diria mesmo “queixinhas” do tipo: “Uma mulher no comando de…(um cargo político, um serviço público, uma empresa privada, seja o que for…) e as feministas não comemoram!”

E, é verdade. Muitas vezes não comemoramos, porque não há nada para comemorar. Assim mesmo. Sem culpas! E isto é fácil de entender: se perdermos algum tempo para analisar os motivos que nos podem levar a celebrar quando uma mulher consegue um cargo de poder, chegamos à conclusão que são os que a seguir se enumeram, sem seguir uma ordem de importância:

  1. – progressos nas questões da igualdade de género, o que conduz a resultados mais justos para as mulheres e para a sociedade em geral;
  2. – uma questão de representatividade: ver muitas mulheres no poder faz-nos acreditar a todas que é possível chegar ao poder e as meninas passam a ter cada vez mais exemplos/modelos a seguir;
  3. – contribuição para a mudança de mentalidades do patriarcado: quantas mais mulheres ocuparem cargos de poder, mais influenciam a forma como a população observa e analisa o papel das mulheres na sociedade, aumentando desta forma o seu respeito e reconhecimento em cargos importantes no espaço público;
  4. – por sororidade: aquela união que deveria existir entre as mulheres, baseada no companheirismo que luta por alcançar objectivos em comum;
  5. – por confiança: reconhecimento que é mais fácil que mulheres produzam e influenciem medidas que beneficiam todas as mulheres e que defendam a igualdade de direitos;
  6. – Acreditar plenamente que a vitória de uma única mulher é importante para a vitória de todas as mulheres e que somos porque ela é, tal como ela é porque nós somos…;

 

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Margaret Thatcher Foto: GettyImages

E poderia talvez enumerar mais alguns motivos, mas todos levariam a um único ponto: celebramos a vitória de uma mulher, os seus avanços, as suas conquistas, porque ela é feminista e nem todas as mulheres que chegam ao poder o são. Tão simples assim!

No artigo “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” (Ferreira & Ferreira, 2018) [1], que se baseia numa leitura do romance histórico “A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa abordo e esclareço este assunto. A certa altura questiona-se: é a rainha Ginga feminista? Esta questão fazia todo o sentido, porque esta personagem era considerada um exemplo por muitos movimentos feministas. Quando esta questão foi colocada ao próprio Agualusa, ele respondeu algo extremamente interessante: “Não sei. Ela governava como um homem entre homens, como, por exemplo, a Margaret Thatcher. A Margaret Thatcher era feminista? Não me parece. Eu estou mais interessado num poder no feminino” (Agualusa 2015) [2]. E, com isto, o autor estabelece, de imediato, uma diferença entre feminismo e poder no feminino. Mas, para que se possa fazer esta distinção ou para se poder afirmar que alguém é ou não feminista, é importante definir o conceito, mesmo sabendo que “feminismo” é uma palavra que não tem sinónimo, nem um substituto adequado (Offen 2008) [3] e que é uma expressão que “esconde um mosaico de situações diferentes, muito afastadas de um conjunto homogéneo, sendo que a aparente comunhão de ideologias sob a bandeira do feminismo esconde a variedade de feminismos” (Tavares 2011:33) [4].

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Hillary Clinton Foto: FLICKR

Para Karen Offen, o feminismo é “um projecto político que desafia a dominação masculina e a subordinação feminina e que insiste em restabelecer um equilíbrio de poder entre os sexos” (Offen, 2008: 36) [3]. Sendo assim, existem mulheres que desafiam sempre a dominação masculina a título individual, mas nunca mostram preocupação com as mulheres como colectivo e com o “equilíbrio de poder entre os sexos”. Não lutam contra as opressões sofridas pelas outras mulheres e, por vezes, até pelo contrário: no seu lugar de privilegiadas oprimem-nas e humilham-nas. Isso faz delas mulheres poderosas, que no seu momento produzem transformações para si próprias enquanto mulheres que têm acesso ao espaço reservado aos homens, e que talvez só por isso possam efectuar mudanças na vida de outras mulheres. Silvermint (2018) [5], no seu artigo Resisting for other reasons explica tudo isto muito bem, dando como exemplo duas mulheres: a Champion e a Trailblazer. Às duas mulheres é negada uma promoção no trabalho, devido a padrões despudoradamente sexistas. Enquanto Champion chama de imediato a atenção para as práticas discriminatórias, com a finalidade de promover a igualdade para todas as mulheres, isto é, resiste à opressão sexista com a única intenção de acabar com o sexismo, Trailblazer aponta o dedo às práticas discriminatórias para prosseguir no seu local de trabalho sexista, mas por outro lado gratificante. Ela pretende viver uma vida boa, construir uma grande carreira e por isso é necessário ultrapassar as barreiras opressivas que encontra no caminho. A Trailblazer não pretende resistir à opressão, ela resiste apenas com o objectivo de subir na vida. Ora, segundo o autor, isto não significa que ela não obtenha exactamente os mesmos resultados que a Champion neste caso específico, acabar com o sexismo e conseguir a igualdade para todas as mulheres no local de trabalho e também não indica que, lá porque não tinha intenções de resistir, não corra os mesmos riscos que a outra mulher, por ser uma resistente consciente à opressão e com intenções de lhe colocar um termo definitivo.

Há muitas mulheres que se encontram na mesma situação que Trailblazer, as suas intenções são única e simplesmente ultrapassar os obstáculos que se colocam no seu caminho, para atingir as metas a que se propuseram. Podem até, por arrastamento, conseguir melhorar a situação de outras mulheres, nas situações específicas em que elas beneficiariam das suas lutas de resistência que tinham como único objectivo satisfazer os seus interesses pessoais. Mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. Além do mais, os maiores problemas surgem quando este tipo de pessoas que apenas resiste por motivações pessoais, não se levanta pelas bandeiras das lutas colectivas, como é o caso do feminismo interseccional, porque não lhes trazem dividendos. Voltando ao exemplo de Trailblazer, que tem como única motivação subir na carreira, nunca lutará contra o machismo que as mulheres sofrem na vida pessoal, como por exemplo, nos casos de violência doméstica, porque esse tipo de opressão não interfere com as suas ambições (Silvermint 2018) [5]. Assim são muitas mulheres que ocupam a cadeira do poder. Por isso, não se pode afirmar que são feministas. Tendo ainda em conta que, segundo Karen Offen:

“As feministas podem ser identificadas como quaisquer pessoas, mulher ou homem, cujas ideias e acções (…) respondam a três critérios: 1) que reconheçam a validade das interpretações das próprias mulheres sobre a sua experiência vivida e necessidades, e que reconheçam os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus (…) na apreciação do seu estatuto na sociedade face aos homens; 2) que exibam a sua consciência, desconforto ou até revolta face à injustiça institucionalizada (ou desigualdade) em relação às mulheres, enquanto grupo, pelos homens, enquanto grupo, em determinada sociedade; 3) que advoguem a eliminação dessa injustiça desafiando, mediante esforços para alterar as ideias prevalecentes, e/ou as instituições e práticas sociais, o poder coercivo, a força, ou autoridade que defenda as prerrogativas masculinas nessa cultura particular. Assim ser feminista é necessariamente ser contrário à dominação masculina na cultura e na sociedade, qualquer que seja o local geográfico ou situação histórica” (Offen 2008: 36) [3].

Segundo estes parâmetros, é fácil identificar mulheres que não são feministas porque estas não reconhecem “os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus”, não mostram desconforto nem revolta com a injustiça institucionalizada em relação às mulheres como grupo e não advogam a eliminação dessa injustiça.

Depois disto, é fácil perceber que as feministas não têm que apoiar, defender e muito menos celebrar todas as mulheres que conseguem um cargo no poder. Vamos lá a retirar dessas cabecinhas a ideia peregrina de que as feministas dão pulinhos de alegria, quando mulheres atingem o poder, só porque são mulheres. Isso não basta! Primordial é colocar em lugares de poder mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres, de forma a acabar com todas as opressões. Ou seja, feministas!

[1] Ferreira, Helena & Ferreira, Aline (2018). “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” in Moderna språk 2018:1, pp. 153-164

[2] Agualusa, José Eduardo (2015), “Obras” in José Eduardo Agualusa http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=28&idbook=107&interviews

[3 Offen, Karen (2008), “Erupções e fluxos: reflexões sobre a escrita de uma história comparada dos feminismos europeus, 1700-1950”, in Cova, Anne (Dir.), História Comparada das Mulheres, Lisboa: Livros Horizonte, 29-45.

[4] Tavares, Manuela (2011), Feminismos, Percursos e Desafios (1947-2007). Alfragide: Texto Editores, Lda.

[5] Silvermint, Daniel (2018), “Resisting for other reasons”, Canadian Journal of Philosophy, 48 (1): 18-42.

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Pílulas do festival Mulheres do Mundo: feminismo e ciência na veia

Por Renata Fontanetto e Rebeca Bayeh

Durante os dias 16 a 18 de novembro, a praça Mauá foi sacudida pelo festival Mulheres do Mundo (WoW, na sigla em inglês). Nós duas, Renata e Rebeca, fomos selecionadas pelo British Council (BC) para participar do início do programa Mulheres na Ciência e integrar o treinamento em divulgação científica oferecido pelo BC. Foram dois dias intensos de aprendizados e troca de vivências. Depois, tivemos que cobrir o WoW nos três dias de festival. Separamos pequenos momentos que observamos para compartilhar no Cientistas Feministas. Vem junto!

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Cientistas Feministas marcando presença no WoW: na foto, Rebeca Bayeh, Renata Fontanetto, Meghie Rodrigues e Josephine Rua com participantes da sessão “Converse com uma cientista”. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

O protagonismo é das mulheres, a luta é da sociedade como um todo

“Aprendi a ser feminista sem ser feminista”. A frase foi de Avanildo Silva, agrônomo e gestor de projetos da ActionAid, na roda de conversa “A conversa aqui é eles com elas pela igualdade de gênero”. Segundo Silva, os homens deveriam conhecer os princípios, filosofia, métodos e abordagens do dia a dia do feminismo, mas sem roubar o protagonismo e a luta, que sempre será das mulheres. Reconhecendo que as mulheres estão em condição de desigualdade, os homens poderiam ser empáticos à causa e lutar por um mundo mais justo e igualitário impedindo, por exemplo, aquele “brother” machista (racista, homofóbico…) de reproduzir piadas e comportamentos que constrangem individualidades e coletividades. Não vamos conseguir sozinhas porque não vamos e não queremos lutar sem nossos pais, filhos, amigos, familiares e amores. Se for preciso, seguiremos sozinhas. Mas queremos os homens ao nosso lado também! A sociedade como um todo precisa estar engajada.

Um mundo sem “mordidinhas de mosquito”

A física Márcia Barbosa, em fala na discussão “Mulheres na ciência e a potência do trabalho realizado em rede”, disse que as frases que as mulheres ouvem todos os dias, que muitas pessoas na sociedade veem como inofensivas (“mordidinhas de mosquito”, em suas palavras), machucam, expõem, constrangem, isolam e podem causar adoecimento. São frases inoportunas que falam sobre a inteligência de uma mulher, o “absurdo” de ser mãe e querer seguir carreira científica, estereótipos femininos e toda sorte de barbaridades que podem calar uma mulher e prejudicar seu desempenho acadêmico. Para impedir que essas mordidas continuem a nos machucar, é preciso que as universidades e instituições estimulem alunas e docentes a denunciar, criando um ambiente acolhedor e seguro.

Tesoura de repicar

Márcia Barbosa também compara os recortes opressivos às tesouras de repicar, explicando que mulheres são sempre sub-representadas nas ciências, mas que conforme analisamos recortes mais profundos como raça, maternidade e região, as proporções de mulheres que pertencem a minorias são ainda menores.  “O problema é geral, mas é agravado pelas circunstâncias e pelo grupo social do qual você faz parte”, concorda Josephine Rua, também física, que participou da sessão de tutoria “Converse com uma Cientista”, do WoW. Josephine conta sobre um workshop do qual participou no International Center of Theoretical Physics, que reuniu mulheres físicas do mundo todo. “Você vê as diferenças dos típicos casos latino-americanos, os típicos casos africanos, os típicos casos de países africanos que são muçulmanos”, adicionando que alguns passaportes sequer dão acesso a países na Europa e aos EUA, onde a maioria dos congressos científicos acontece.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

As mulheres na divulgação científica precisam se unir!

A jornalista Flávia Oliveira, na mesa “As mulheres precisam conquistar o campo da comunicação”, levantou reflexões sobre a presença feminina no jornalismo e, por tabela, refletimos sobre a presença da mulher na divulgação científica. Entendemos a divulgação científica (DC) como uma área que dialoga fortemente com a comunicação, sendo o jornalismo científico uma das áreas que a integram. Segundo levantamento sobre o perfil do jornalista brasileiro (2012), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 64% dos profissionais atuantes no país são mulheres, mas os homens continuam sendo maioria nos cargos de chefia. Se mergulharmos num recorte racial, a realidade é ainda mais grave. “Aqui na sala vocês estão vendo 100% das colunistas negras do jornal O Globo”, disse Oliveira, referindo-se a ela e Ana Paula Lisboa, outra palestrante da sessão. A divulgação científica ainda precisa de dados mais sólidos que explorem a questão da presença feminina no campo, mas durante o festival pudemos perceber que isso também precisa ser discutido pela área. Um exemplo que defende o nosso ponto de vista é a presença de mulheres em canais do ScienceVlogs Brasil: ao todo, há 39 canais, sendo que apenas três são de mulheres. Mulheres da divulgação científica, UNI-VOS!

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Na sessão “Converse com uma cientista’, o público podia escolher sua cientista e tirar dúvidas durante 15 minutos. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Representatividade importa

“Se você não pode ver, não pode ser”, repetiu a física e jornalista britânica Sue Nelson ao longo do Festival, no qual participou falando sobre mulheres nas ciências espaciais. Sue, que trabalhou como correspondente da BBC e hoje trabalha na Agência Espacial Europeia produzindo vídeos de divulgação científica, conta que havia apenas três mulheres em sua turma e que todas ouviram ao longo da vida comentários como “você não deveria estar fazendo física”. Ela acrescenta que aprendeu a ignorar comentários misóginos ao longo de sua carreira e a focar em suas ambições profissionais. Ela é entusiasta da ficção científica porque acredita que mulheres podem se inspirar em personagens cientistas. “Se você vê uma mulher fazendo o trabalho, você pensa ‘eu também posso fazer isso’”. E também observa que fora da ficção há cada vez mais representantes femininas na ciência para que as meninas se inspirem. “Felizmente hoje há muito mais mulheres que têm modelos femininos na ciência, porque há mais mulheres fazendo comunicação científica, mais mulheres nas ciências e organizações como Go Science Girl”.

Quem deseja estudar fora precisa se unir e resistir

Na mesa “Sem fronteiras: mulheres que se aventuram a pesquisar fora do Brasil”, pesquisadoras de diferentes áreas compartilharam as experiências que tiveram em temporadas de estudo fora do país. Viver longe da família, estudar um idioma novo e conhecer costumes de uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que se escreve dissertação ou tese, pode ser um desafio e tanto. Separamos três conselhos que ouvimos por lá. Para a psicóloga Enoe Isabela de Moraes, que estudou na Inglaterra e é colaboradora no Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas da Universidade Federal de Goiás, é fundamental conhecer os próprios limites para saber o que você está disposto a fazer, bem como entrar em contato com histórias de outras pessoas para observar o que elas passaram e como enfrentaram questões diversas em outro país. A professora de biologia e pesquisadora paraibana Ana Cláudia Gonçalves conta que sentiu a Síndrome do Impostor em todas as suas vivências enquanto fez intercâmbio na Austrália e mestrado no Reino Unido. “Procurem por redes de apoio dentro da universidade para que vocês se fortaleçam”, sugeriu. A física mineira Zélia Ludwig, que passou por temporadas na Alemanha e Estados Unidos, defendeu que é preciso divulgar para outras mulheres a própria experiência. “Quando um já foi e conta para o outro, este outro já vai muito mais destemido. É uma forma de incentivar outras mulheres”.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Estratégias de luta

É unanimidade que mulheres cientistas lidam com problemas que seus pares homens não enfrentam. Mas as perspectivas sobre causas, consequências e estratégias – legítimas em suas respectivas realidades – são diversas. Sue Nelson advoga pelo foco: “Na vida sempre haverá pessoas dizendo que você não deveria estar lá, que você não deveria estar fazendo o que faz, que aquilo não é para você. Você tem que se acostumar com isso, ignorá-los e fazer o que você quer fazer”. Timandra Harkness, escritora, comediante e jornalista científica britânica, conta que já usou o fato de entrevistados subestimarem seu conhecimento científico a seu favor. “Como jornalista, é muito útil que não esperem que você saiba algo, porque isso significa que você pode perguntar ‘o que é um gene?’[…] meu trabalho é conseguir respostas, a audiência quer respostas […]. Você também pode começar com questões pequenas e básicas e então os pegar de surpresa. Eles não estão esperando isso”, compartilha Timandra com humor. Duília de Mello, astrofísica brasileira que também participou do WoW, propõe uma estratégia diante da situação política: “seja uma pessoa positiva em um ambiente negativo […] encontre sua felicidade, porque isso pode mudar a realidade a sua volta”. Duília propõe que se realizar um sonho não é possível agora, o caminho da adaptação e resiliência podem possibilitar sua realização futura ou sua transformação em algo novo. A química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, vencedora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais, é uma das mulheres cientistas que conta ter passado por isso, ao narrar sua transição entre sonhar pesquisar nos EUA, mas se ver forçada a voltar para o Brasil e lecionar em uma escola técnica. Ao contar sobre sua trajetória, destaca alguns conselhos-chave. “Você não pode ter vergonha de pedir quando você precisa”, aconselha. Joana advoga pela persistência e compartilha que o preconceito que sofreu serviu como combustível para suas conquistas. “O preconceito pode ser utilizado como ferramenta para formação de cérebros pensantes”.

 

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O papel das mulheres que rompem o teto de vidro na manutenção deste fenômeno

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/colorido-pir%C3%A2mide-3d-2253141/

O teto de vidro é um fenômeno bastante conhecido nos meios feministas e denota a dificuldade das mulheres em ascender nas áreas consideradas de maior prestígio em seus campos profissionais. Nesse contexto, muitas pesquisas têm demonstrado o fenômeno ao evidenciar a porcentagem de mulheres e homens em posições “subordinadas”, “juniores” e “sêniores”. Os resultados têm mostrado que quanto mais alta determinada posição, menor a chance de uma mulher atingi-la. Isso acontece, inclusive, nos campos em que as mulheres são maioria, como, por exemplo, a psicologia. Nessas áreas, os cargos de maior prestígio (por exemplo, pesquisadores da área experimental) são dominados por homens.

Apesar da imensa dificuldade, algumas mulheres conseguem romper o teto de vidro. ‘Isso é ótimo’, você deve estar pensando. Outra ideia que pode estar passando por sua cabeça é: ‘Essas mulheres podem auxiliar outras a ascenderem, pois suas posições de prestígio possibilitam que elas lutem pela implementação de ações afirmativas que beneficiem outras mulheres no início de carreira’. Seria maravilhoso se isso acontecesse, não? Mas não é bem isso que tem ocorrido.

Queen Bee, ou Abelha Rainha, é o nome dado à “tendência de algumas mulheres, que investiram no sucesso de suas carreiras, de serem mais críticas com relação às suas colegas mulheres em posições inferiores e menos inclinadas a defender medidas que apoiem as mulheres como um grupo” (tradução minha)[1]. Três características estão presentes nessas mulheres em posições de chefia: um distanciamento das mulheres em posições “juniores”, a assimilação a um grupo de maior status, que ocorre, por exemplo, quando as abelhas rainhas se classificam com traços considerados mais masculinos, e a legitimação do status quo, por exemplo, ao rechaçar políticas direcionadas a desigualdade de gênero.

Com o objetivo de entender porque as mulheres, especialmente as que estão em uma posição de prestígio, não estão inclinadas a apoiar cotas para mulheres, Klea Faniko e colaboradores fizeram dois estudos correlacionais, publicados em 2017 no Personality and Social Psychology Bulletin.

No estudo, 1.222 mulheres da Suíça responderam a um questionário. Oitenta e sete trabalhavam em posições de prestígio (cargos de gestão) e 135 em posições consideradas subordinadas. trabalhavam, em média, há mais de 15 anos em seus campos de atuação. O questionário avaliava os seguintes itens: sacrifícios pessoais para alcançar sucesso profissional; percepção do comprometimento com a carreira (seu próprio e de mulheres em posição acima ou abaixo delas); autodescrição, em termos de traços considerados masculinos e femininos; e percepções acerca do outro grupo de mulheres.

Além disso, no final do questionário, havia um pequeno texto dizendo que várias organizações tendem a adotar ações afirmativas para aumentar a representação de mulheres em posições de gerenciamento no país. Esse texto era seguido pela proposição de uma política que beneficiava: 1) mulheres sêniores, 2) mulheres juniores, ou a própria respondente. Assim, era possível descobrir se haveria diferença no apoio, dependendo do “alvo”.

Os resultados mostraram que as mulheres em posições de gerência relataram ter feito mais sacrifícios pelas suas carreiras do que suas colegas em posições consideradas subordinadas. Essas mulheres também afirmaram ter um maior comprometimento com suas carreiras do que suas colegas em posições inferiores e se descreveram como mais masculinas que suas pares de posições subordinadas. Além disso, as mulheres em posições de destaque foram menos favoráveis às cotas direcionadas às mulheres juniores do que às mulheres no mesmo nível que elas.

O distanciamento das mulheres em posições mais altas foi calculado a partir da diferença entre a percepção do comprometimento de suas carreiras e traços de masculinidade auto atribuídos com a percepção do comprometimento e grau de masculinidade de suas colegas em posições inferiores. Os resultados mostraram que a relação entre a posição hierárquica e o distanciamento do outro grupo foi mediado pelos sacrifícios relatados, ou seja, as abelhas rainhas que relatavam terem feito mais sacrifícios também foram o grupo que obteve o maior índice de distanciamento.

Uma vez que as mulheres em posições superiores mostraram apoio às cotas para suas pares de mesmo nível hierárquico, apoiando em menor grau as cotas direcionadas às mulheres em posições inferiores, o estudo de Faniko e colaboradores aponta que o fenômeno da Abelha Rainha não é guiado por um senso de competitividade com outras mulheres. Isso só seria possível se elas se mostrassem contra cotas para suas pares de mesmo nível, mas isso não aconteceu. Assim, foram suas percepções de sacrifício feitos, junto com o distanciamento das mulheres em posições inferiores que fez com que as mulheres em posições de prestígio se considerassem diferentes das mulheres em posições juniores. O problema é que isso acaba, em última instância, reforçando o teto de vidro já existente.

Uma limitação do Estudo 1 foi o fato de que o distanciamento só foi avaliado em relação às mulheres em posições inferiores e não em relação às pares de mesmo nível hierárquico. Já o Estudo 2 foi feito com uma amostra de 156 mulheres da Albânia e os resultados foram replicados. Ou seja, ao que tudo indica, a percepção de que mulheres em níveis inferiores se sacrificam menos do que as mulheres em posições de alto prestígio leva as segundas a serem menos favoráveis à adoção de cotas para mulheres em posições subordinadas.

Como mudar isso?

O artigo de Faniko e colaboradores argumenta que as intervenções que busquem remediar esse efeito devem se pautar em medidas que diminuam o distanciamento entre as mulheres em posições superiores e inferiores. Isso poderia ser alcançando mostrando às mulheres de nível hierárquico superior que as mulheres de nível hierárquico inferior se sacrificam como elas, tendo o mesmo comprometimento em suas carreiras.

Quer saber mais?

Faniko, K., Ellemers, N., Derks, B., & Lorenzi-Cioldi, F. (2017). Nothing changes, really: Why women who break through the glass ceiling end up reinforcing it. Personality and Social Psychology Bulletin, 43(5), 638-651. doi: 10.1177/0146167217695551

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5414903/

[1] Faniko, Ellemers, Derks, & Lorenzi-Cioldi (2017).