0

Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

microtus

Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

33387000911_b5b72c3be1_o

Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

Anúncios
0

A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por seis cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

fernandapostagem

Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

produtividade

Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

fotodaAREAderecreacaoPARENTINSCIENCE

O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes das agências de fomento Capes e Fapergs e do Serrapilheira estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

postagemparent

Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

 

 

 

 

 

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm

0

Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

MATILDA

Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

trotula

Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

marie

Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

agnes

Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

nettie

Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

0

Trabalho reprodutivo na agenda. Obrigada, Irene Martín!

No 1.º de Maio, em Lisboa, Irene Martín, uma jovem espanhola que se encontra a fazer um mestrado em Portugal, foi para a rua com um cartaz que dizia o seguinte: “Farta até à cona de gerar a mais-valia dos homens. Trabalho reprodutivo sustenta o capital” [1]. Umas horas depois, a sua foto (em baixo) com o cartaz bem levantado incendiava as redes sociais. Falava-se da sua barriga, dos seus pelos no sovaco, enfim… os despropósitos habituais aplicados a todas as mulheres que assumem uma posição em público e não seguem a ética e a estética do patriarcado, que ainda acha (de achismo, que é diferente de “pensar” porque, na verdade, pensam muito pouco) que a sua opinião tem alguma validade.

41933745612_d96d026737_o.jpg

Irene Martín, Foto de Nuno Marques

No entanto, aquilo que deu, realmente, que falar foi o que se encontrava a vermelho, no cartaz: a palavra “cona” e a frase “Trabalho reprodutivo sustenta o capital”. Relativamente à palavra “cona” não pretendo perder muito tempo com ela, mas considero necessário tecer algumas considerações. “Cona”, até agora, tem sido um termo pejorativo utilizado pelos homens para assediarem sexualmente as mulheres ou para as insultarem através da sua genitália e sexualidade e é, por isso, uma palavra condenada ao segredo e à vergonha. Essa condenação ao segredo e à vergonha é para todas as mulheres, claro, e para os homens quando estão armados em bons chefes de família ou em respeitáveis intelectuais, ou homens de negócios, ou políticos, ou seja lá o que for que mereça um ar polidinho e sério. No dia a dia, é uma palavra que já todas nós, mulheres, ouvimos em forma de insulto e de assédio. Sem querer entrar num esquema de “me too” tenho a certeza absoluta que a grande maioria das mulheres portuguesas já ouviu esta palavra dirigida a si e/ou a outras mulheres.. É talvez, por isso, que os comentários ofensivos dirigidos à Irene por homens nas redes sociais devido ao uso desta palavra, não merecem qualquer comentário, é mais do mesmo, se ela usasse “estou farta até aos cabelos” provavelmente seria insultada na mesma, só pelo simples facto de estar naquela pose de desafio.

Quanto aos comentários feitos pelas mulheres, isso já é outra história e merece ser um pouco dissecada. Na verdade, parece-me que todas as que consideraram que a Irene era “mal-educada”, “sem classe”, “vulgar”, “arruaceira” e tantos outros adjectivos patriarcais e machistas, já se fartaram de ouvir na rua “rebentava-te com essa cona toda” e outros impropérios usando a dita palavra, e resolveram ficar em silêncio, cheiinhas de vergonha, porque não podiam repetir tal palavrão, que não é digno de uma “senhora”. Este conceito “senhora”, e tudo o que ele representa é tão conservador e ridículo que pensamos que já foi ultrapassado, mas, infelizmente, não é assim e surge sempre que é necessário lembrar que o mundo precisa das ditas “senhoras” para defenderem o seu status quo heteronormativo, machista e patriarcal de um dos seus maiores inimigos: as mulheres livres que teimam em transgredir e mandam esta gente e as suas regras de educação e classe para… onde quiserem (e puderem) ir, desde que não perturbem a ordem natural das coisas, que é o desmoronamento do heteropatriarcado. Enquanto por cá andam, poderiam ter aproveitado a dica da Irene, apropriar-se do termo “cona” que tem sido usado como um instrumento de opressão e convertê-lo num índice revolucionário, num lugar de resistência e acção política.

No que diz respeito ao trabalho reprodutivo, há que dizer que este cartaz foi de extrema importância para colocar este tema na agenda em Portugal, até porque foi notório o desconhecimento em relação a este assunto, nos posts e comentários que se viam nas redes sociais, uma vez que a maioria considerava que tinha a ver com reprodução (gravidez) ou trabalho sexual. Na verdade, este trabalho reprodutivo que uma jovem do país vizinho colocou na ordem do dia em Portugal, debate-se desde os anos setenta por feministas e marxistas que começaram a olhar para o trabalho doméstico como uma forma de trabalho de grande importância económica, que deveria ser contabilizado de alguma forma. O Instituto Europeu para a Igualdade de Género [2] define-o como: “Todas as tarefas associadas ao apoio e manutenção da actual e futura força do trabalho – daqueles que realizam ou realizarão trabalho produtivo. Inclui a criação e a manutenção, mas não se limita a essas tarefas” [2].

Aliás, as tarefas são tantas que é difícil enumerá-las todas, mas incluem-se: limpeza, preparação de alimentos, compras, prestação de cuidados, organização do funcionamento de toda a casa, planeamento de todas as actividades relacionadas com a família, gestão da casa, etc… Chama-se trabalho reprodutivo para o diferenciar do trabalho de produção (de bens e serviços), muito embora, este último seja o único reconhecido economicamente e socialmente como trabalho, nas sociedades industrializadas. Trabalho reprodutivo substitui o termo “trabalho doméstico”, para que possa ter um alcance muito maior do que o que é, normalmente, atribuído ao trabalho doméstico. Não é remunerado e é feito principalmente por mulheres nas suas casas, com as suas famílias. Quando se diz que é um trabalho realizado principalmente por mulheres, quer dizer-se que a grande maioria das mulheres, durante o seu ciclo de vida, se dedica a este trabalho de forma parcial ou total.

Existem mulheres que não o executam, trata-se de uma pequena minoria e está claramente associada à classe social – as classes mais elevadas pagam a outras mulheres para realizarem este trabalho ou, pelo menos, uma boa parte dele. É um trabalho completamente invisível, mesmo para a grande maioria das mulheres que o executam, particularmente para aquelas que realizam somente estas actividades, porque não têm noção da importância que este trabalho tem para que a sociedade possa funcionar [3,4,5].

Silvia Federici, uma das autoras que mais se tem dedicado a este tema chama a atenção para a desvalorização deste tipo de trabalho, que é considerado muito pouco criativo e propõe que lhe seja atribuído um novo significado e valor: “Como se pode dizer que produzir a vida das novas gerações, educar, conversar, é menos criativo do que construir uma casa, um carro, uma cadeira, um brinquedo? Por isso é importante para mim dar um novo significado a este trabalho. Creio que deve ser parte da luta.” Esta autora defende ainda que a última fronteira de conquista do capital é o corpo das mulheres e afirma: “Com o desenvolvimento do capitalismo, abre-se uma divisão, que é uma divisão do trabalho, uma divisão sexual do trabalho, entre a produção e a reprodução. Uma divisão entre a produção para o mercado, que se converte em trabalho assalariado, isso sobretudo para os homens, e a reprodução da vida e da força do trabalho, que é um trabalho não assalariado muito desvalorizado, muito naturalizado e são cada vez mais as mulheres que ficam concentradas nesse trabalho” [6].

Como se pode verificar, a luta pela visibilidade e valorização do “trabalho reprodutivo” está na ordem do dia na Europa e só apanhou de surpresa as portuguesas e os portugueses que se encontravam em Lisboa a assinalar o Dia do Trabalhador, que fotografaram a Irene, exibiram a sua foto e a insultaram com os mais variados impropérios. Não deixa de ser curioso que tudo isto tenha acontecido no 1.º de Maio. No dia em que se luta pelos direitos no trabalho verifica-se que ainda há muita gente que não reconhece o trabalho das mulheres – um trabalho invisível, não remunerado e sem direitos absolutamente nenhuns.

Pelo menos, agora este tema encontra-se na agenda e poderá ser debatido abertamente por quem de direito. Está aberta a sessão. Que comecem os trabalhos!

Obrigada, Irene!

 

 

[1] http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/26017/irene-miuda-do-cartaz-feminista-que-abanou-redes-sociais

[2] http://eige.europa.eu/rdc/thesaurus/terms/1352

[3] https://www.ecologistasenaccion.org/?p=13104

[4] http://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0213-91112004000400007

[5] https://www.raco.cat/index.php/Papers/article/view/25507/25340

[6] https://www.youtube.com/watch?v=XyG8wGXXTeE

0

Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

“A Revolução será feminista, ou não será! Construí-la é tarefa de todas nós. Vamos a isto!” Foi com esta provocação que Patrícia Martins deu por encerrado o primeiro encontro de mulheres [1] realizado no Porto, em Portugal, nos últimos 10 e 11 de Março. Esta iniciativa que teve lugar na Escola Artística Soares dos Reis, centrou-se em três eixos temáticos: mulheres e precariedade, mulheres e violência e mulheres invisibilizadas.

DSCN8408

Manifesto do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Pelas 12 mesas redondas e 7 oficinas passaram 200 pessoas, sendo que 95% foram mulheres, mas nem assim os homens foram descurados, uma vez que lhes foram dedicadas “orientações feministas para participantes que se identificam como homens”. Assinadas pelo Diogo Araújo e pelo Filipe Barbosa, estas orientações iniciavam-se com o seguinte alerta: “Dado que o espaço exterior ao Encontro de Mulheres, tanto público como privado, é maioritariamente dominado por pessoas que se identificam como homens, o do Encontro de Mulheres é gerido por pessoas que se identificam como Mulheres e os espaços de discussão destinados à participação das Mulheres” e terminavam com a seguinte convocatória: “Dá a tua vez a quem não tem voz!”

DSCN8490

Mesas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Para sabermos a quem foi dada voz, falamos com Patrícia Martins e Ana Barbosa, duas das organizadoras do evento. Ana Barbosa esclareceu-nos que foi, na realidade, “a vontade de reunir diferentes vozes que levou à dinamização de reuniões em Braga, Bragança, Chaves, Coimbra, Lisboa e Vila Real onde convidamos as pessoas a juntarem-se à organização, desafiando-as a organizarem-se localmente para a divulgação, preparação e participação no Encontro. Deste esforço resultou a presença de participantes de outras cidades, para além das que tinham sido abordadas, como Barcelos, Esmoriz e Guimarães.”

DSCN8461

Oficinas no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

E clarifica que “o Encontro de Mulheres partiu da vontade de mudar uma sociedade em que as mulheres ocupam espaços de sub-representação em várias áreas, desde a participação política, à esfera familiar, às decisões sobre os seus corpos e sexualidade, ao direito ao espaço público. Essa sub-representação é agravada quando as mulheres experienciam outras formas de opressão como a cor de pele, estatuto social e económico, orientação sexual não normativa, religião… O diagnóstico da falta de espaços onde haja discussão que reconheça essas opressões e em que exista um acesso igual à palavra, levou-nos a procurar alternativas de contexto para que as mulheres se sentissem capacitadas para a elaboração e resolução das suas próprias questões, apresentando livremente as suas opiniões e propostas.” Foi neste ambiente que circularam as já mencionadas 200 pessoas, “com uma média de idades de 26 anos”, informa-nos a Ana Barbosa e, continua: “Os homens presentes foram, sobretudo, voluntários nas tarefas de logística do evento permitindo assim uma maior disponibilidade das mulheres para participar nas mesas de debate.”

 

 

DSCN8415

Feira Feminista no Encontro – Todas as Vozes Contam

Foi ainda Patrícia Martins que elogiou a experiência horizontal dos debates explicando que: “O modelo do I Encontro de Mulheres 2018 foi pensado a partir das experiências dos Encontros de Mulheres da América Latina. Desse modo, pretendeu-se diluir as fronteiras de audiência/público e quem transmite conhecimento: a possibilidade das participantes construírem o debate a partir do tema que enquadra a mesa redonda e das pistas dadas pelas moderadoras. Procurou-se ter a presença de duas moderadoras no debate para a moderação não ficar centrada numa só pessoa, e possibilitar um espaço mais democrático. O feedback geral deste método revelou-se bastante pertinente: primeiro, a maioria das moderadoras comentou que no início havia alguma dificuldade das mulheres partilharem opiniões, experiências e ideias, mas quando o nível de participação começou a aumentar, houve uma grande participação e vontade de comunicar ( chegando a comentar que o tempo não era suficiente). Esta experiência reforça a ideia da necessidade de espaços que fomentam a participação e emancipação das mulheres. Para o trabalho de moderação foram recolhidas algumas técnicas de moderação de conversas e debates e divulgadas junto das moderadoras. Isto foi apenas uma experiência, pretendemos aprofundar este trabalho de moderação, no sentido horizontal da participação”.

DSCN8499

Recepção no Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Ana Barbosa assumiu que o evento superou as expectativas que possuía, uma vez que “as 12 mesas redondas e as 7 oficinas foram muito participadas por intervenientes com diversidade de idades, estatuto social e nacionalidades (participantes de 10 países diferentes) e consequente pluralidade de opiniões e experiências.” E assegura que “ outro dos objectivos bem sucedidos deste primeiro Encontro foi a autogestão da iniciativa, sem qualquer tipo de financiamento ou patrocínio, procurou-se uma responsabilização colectiva para a recolha de fundos e doações, tendo sido dinamizadas várias actividades, entre elas o lançamento de uma campanha de crowdfunding. A nível local também houve iniciativas de recolha de verbas que serviram para o apoio aos transportes das participantes”.

DSCN8504.JPG

Encerramento do Encontro de Mulheres – Todas as Vozes Contam

Patrícia Martins refere que a organização deste Encontro está, neste momento, a analisar profundamente as anotações de todas as relatoras das várias mesas e oficinas mas que pode adiantar que o que se conclui deste Encontro é que: “A sociedade actual estrutura-se segundo sistemas de opressão e discriminação que se articulam entre si. Deste modo podemos concluir que todas estas formas de opressão e exclusão das mulheres na sua diversidade racial, étnica, sexual ou de origem de classe prende-se com uma questão estrutural. As opressões não estão isoladas, não são caso pontuais, estão todas interligadas. Desta forma, a nossa resposta também não deve ser isolada, ou individual. Tem que ser colectiva, interseccional, de combate à precariedade, à exclusão e ao racismo.” E termina, tendo em mente vários desafios: “A nossa preocupação agora é como a partir das sínteses conclusivas deste Encontro podemos construir uma Greve de Mulheres 2019 e o 2º Encontro de Mulheres a partir de uma perspectiva mais estrutural das opressões e de maior representatividade das diferentes agendas.”

[1] https://www.facebook.com/encontromulheres.pt/

 

 

 

0

Marielle e a luta contra a criminalização da pobreza

marielle

Créditos da imagem: Nunah Alle

Marielle Franco, mulher, negra, bissexual e mãe. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Relatora da controversa intervenção federal no Rio de Janeiro. Socióloga e mestra em Administração Pública. Ela é, inegavelmente, parte do grupo que saúda nos agradecimentos de sua dissertação de mestrado, o “bonde de Intelectuais da favela”. Marielle é parte daqueles que frequentaram cursinhos populares, foram para universidades consagradas e ousaram ocupar os espaços da pós-graduação.

Nós, enquanto um coletivo de mulheres cientistas e feministas, composto por diferentes etnias e origens sociais, estamos em luto. Cada pedaço da história de vida de Marielle ecoa em diversas partes de nossas próprias histórias. Desejamos, acima de tudo, honrar sua trajetória e somar forças para que toda a dor proveniente dos últimos acontecimentos se converta em luta.

O engajamento social de Marielle aparece também no tema de sua pesquisa de mestrado, que analisa a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na cidade do Rio de Janeiro e a implementação de um modelo de Estado Penal. Em tempos sombrios, tentamos aqui resumir em linhas gerais sua dissertação, potente e viva, como não poderia deixar de ser.

Para compreender sua proposição, é necessário, antes de tudo, entender do que se trata um “Estado penal”. De acordo com as definições trazidas ao longo do texto, o Estado Penal  é caracterizado pela redução das políticas públicas focadas na garantia de direitos básicos (como saúde, educação, moradia etc) e o aumento de políticas voltadas para o controle da ordem por meio de repressão estatal, por meio do aparato policial e Judiciário.

Nesse sentido, sua pesquisa se propôs a  investigar se as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), enquanto política de segurança pública adotada no estado do Rio de Janeiro, reforçam o modelo de Estado Penal. Para compreender esse fenômeno, Marielle considerou todo o processo de formulação da implementação das UPPs nas favelas do Rio de Janeiro, no período de 2008 a 2013.

Além disso, questionou “em que medida essas ações representam políticas que, de certo modo, alteram a realidade da administração da segurança pública; ou se operam uma espécie de maquiagem dos fatos reais que, com efeito, constroem uma capa ideológica que disfarça e aprofunda o Estado Penal; ou, ainda, se estas unidades seriam, realmente, uma mudança de percurso da política do Estado para a segurança pública do conjunto da cidade, especificamente nas favelas” (FRANCO, 2014, p. 17).

A pesquisa se fundamentou na análise de documentos oficiais, tais como decretos legislativos, normativas e o boletim interno da Polícia Militar.  Durante todo o processo de elaboração do trabalho foi utilizada a observação participante, que consistiu na participação da pesquisadora em diversas reuniões com os movimentos sociais e a cúpula da Segurança Pública. Além disso, o exercício profissional junto à equipe da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ foi, sem dúvidas, um grande aliado na compreensão do fenômeno estudado.

A autora conclui que, do ponto de vista dos dados quantitativos,  a medida teve o efeito contrário ao prometido por parte de alguns gestores. O número de homicídios aumentou desde a implementação das UPPs:

“Desde o início das UPPs, alguns moradores de favela foram assassinados pelas mãos armadas do Estado. Somente em 2010, morreram no Brasil 49.932 pessoas vítimas de homicídio, ou seja, 26,2 a cada 100 mil habitantes, sendo que 70,6% das vítimas eram negras. Ao analisar a faixa etária desses mortos, 26.854 eram jovens entre 15 e 29, ou seja, 53,5% do total (ISP, 2013). Já no último ano da série oficial, refere-se o Instituto de Segurança Pública (ISP) ao ano de 2013, ocorreu o aumento de 16,7% nas mortes por homicídio, 4.081 em 2012 e 4.761 em 2013. Seguindo a lógica de raciocínio impetrada e maciçamente propagandeada pelo governo do Rio de Janeiro, 680 pessoas deixaram de ser salvas” (FRANCO, 2014, p. 102).

A pesquisadora alerta para o fato de que o homicídio de policiais também aumentou, totalizando 16 mortes. Além disso, tais ações tiveram impacto direto no respeito aos direitos dos moradores e nas as alterações das relações sociais dessas comunidades. Não parece muito difícil de concluir, afinal de contas, que a presença constante de coerção e o aumento de homicídios tenham influência na vida da população.

Nesse sentido, o que estaria em disputa não seria, simplesmente, a preocupação ou não com a segurança pública, mas dois diferentes projetos de cidade:

A cidade como mercadoria, baseada no lucro dos grandes empreendimentos, em que determinados tipos de limpeza social acontecem a fim de tornar o ambiente mais propício para esses negócios, empurrando grande parte da população para o sistema penal ou para as periferias.

A cidade de direitos, que busca a implementação de políticas públicas para a superação dos problemas de segurança pública, na contramão dos projetos hegemônicos desenvolvidos até então.

Desse modo, as UPPs, acima de tudo, são “(…) uma iniciativa ideológica que responde às necessidades do momento, diante de megaeventos, exposição do Rio de Janeiro ao mundo e resposta a investidores, ao invés de assumirem um papel qualitativo de alteração de um dos aspectos centrais das políticas de dominação, que é o modelo de segurança pública” (FRANCO, 2014, p. 16).

A expansão do Estado Penal permite abafar a precariedade e o caos urbanos gerados pela desigualdade e pela má gestão pública e permite que políticos contenham seu nível de desaprovação em momentos em que não têm muito a oferecer aos seus eleitores. Ela é, basicamente, uma jogada de “marketing”, que apenas garante a manutenção do poder dos grupos de sempre.

Marielle termina sua dissertação dizendo que, apesar das graves consequências desse tipo de política, diante delas, cada vez mais, as periferias têm se constituído como locais de resistência e auto-organização, criando meios de fortalecimento e existência. Caso se faça a opção por outras políticas, focadas no desenvolvimento social, a periferia tem consigo não apenas dor e luto, mas imensa potencialidade de criação de alternativas.

 Enquanto isso:

“As marcas dos homicídios não estão presentes apenas nas pesquisas, nos números, nos indicadores. Elas estão presentes sobretudo no peito de cada mãe de morador de favela ou mãe de policial que tenha perdido a vida. Nenhuma desculpa pública, seja governamental ou não, oficial ou não, é capaz de acalentar as mães que perderam seus filhos” (FRANCO, 2014, p. 103).

Seguimos em luta.

manifesta

Fonte: Portal A Postagem

Referência

FRANCO, MARIELLE. UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. UFF: Niterói. Dissertação (Mestrado), 2014. Disponível em: <https://www.dropbox.com/s/uojapsz1tghgk5b/Marielle_Disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf?dl=0&gt;. Acesso em: 16 mar. 2018.

0

Ahed Tamimi e o silêncio das organizações feministas ocidentais

Com apenas oito anos de idade começou a participar em manifestações, em Nabi Saleh, localidade da Cisjordânia onde reside com a sua família, contestando o apartheid e a colonização de que a sua terra é alvo por parte de Israel. Em 2011 viu morrer um tio a tiro às mãos dos militares israelitas e em 2012 enfrentou um grupo de soldados que tinham prendido um dos seus irmãos e recebeu um prémio do então Primeiro-Ministro turco Recep Tayyip Erdogan pela coragem demonstrada ao enfrentar os soldados israelitas. Em Maio do ano passado foi acusada de tentar impedir soldados de prenderem um manifestante que lhes atirava pedras. Não, não falamos da Malala da Palestina nem da Joana d’Arc palestiniana como é conhecida nalguma imprensa. O seu verdadeiro nome é Ahed Nariman Tamimi, é palestiniana, de facto, tem 17 anos e sonha formar-se em Direito para ajudar os activistas a criar um Estado Palestiniano.

ISRAEL-PALESTINIAN-CONFLICT-TAMIMI

Ahed Tamimi, Foto:Middle East Eye.

Apelidá-la de Malala e de Joana d’Arc é já retirar-lhe uma parte da sua identidade da Outra diferente – a árabe que luta contra os “únicos democratas e civilizados do Médio Oriente” e atribuir-lhe características das identidades destas duas heroínas, com as quais nos identificamos, que são muito mais “as nossas” heroínas, porque se aproximam do Eu semelhante, igual a nós. A Ahed Tamimi é a Ahed Tamimi, não é a Malala nem a Joana d’Arc e talvez estas três adolescentes partilhem apenas entre si, a juventude e a coragem. Nunca sentimos necessidade de comparar a Joana d’Arc a ninguém, nem a Malala, que de repente aparece associada à Joana d’Arc, depois do caso da Ahed ser explorado pelos activistas dos direitos humanos. Isto significa, tão só e simplesmente, que necessitamos destes truques das comparações com alguém que legitimámos como nosso para humanizar a Ahed, para a ver como uma adolescente igual às “nossas”, porque ela não o é, é a Outra diferente. E as organizações feministas ocidentais ficam em silêncio!

Pelo mundo inteiro replicam-se por parte de activistas, nas redes sociais, mensagens de repúdio à prisão de Ahed Tamimi que se encontra detida desde o dia 19 de Dezembro do ano passado em prisões israelitas. O seu crime foi ter esbofeteado um soldado israelita, armado até aos dentes, que se encontrava no território da sua residência e que tinha atingido um seu primo com um tiro de borracha à queima roupa na cara (deixando-o em coma induzido durante três dias) durante um protesto contra a decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. O soldado israelita adulto que mandou o seu primo para o hospital está livre e solto, enquanto ela, uma adolescente de 17 anos, se encontra presa há dois meses e será julgada por um tribunal militar por agressão agravada a um militar israelita, obstruir a sua acção, perturbação da ordem pública e incitamento à violência. E as organizações feministas ocidentais nada dizem.

PHOTO-FILE

Ahed Tamimi rodeada por soldados israelitas, foto: Photo-File

As circunstâncias da sua prisão e o abuso dos direitos humanos de que foi alvo são atrozes: é uma menor que não tem acesso aos seus pais, nem a um advogado, no imediato. Por sua vez, levantam-se as vozes de líderes e jornalistas israelitas exigindo a sua prisão perpétua e até insinuando que ela deveria ser violada num quarto escuro para pagar pelos seus crimes [1]. E as organizações feministas ocidentais continuam em silêncio e o movimento #metoo não reconhece a voz da adolescente palestiniana.

Ahed Tamimi com a sua cabeça bem levantada e o olhar muito directo e frontal, sem demonstrar medo, enfrenta o opressor desafiando consciências. Ela recusa submeter-se à lógica israelita de que os palestinos devem viver como eles querem que vivam, sem protestar e se não quiserem viver assim, devem partir. Mas, Ahed Tamimi quer ficar nas suas terras e por isso desafia-os e luta contra o roubo dos seus recursos e liberdades, e mesmo assim não surgem por parte das organizações feministas ocidentais hashtags como #IamAhed ou #JesuisAhed.

Não existem perspectivas de que Ahed obtenha justiça. Ahed Tamimi não é a primeira criança a ser presa. Estima-se que, desde o ano de 2000 foram detidos na Cisjordânia cerca de 10 000 crianças e adolescentes, incluindo crianças de seis e sete anos, sem consequências [2]. Israel não responde perante ninguém. Tem o grande apoio dos Estados Unidos da América e os outros países mantêm-se como observadores silenciosos. E os grupos feministas ocidentais também.

As organizações feministas ocidentais são acusadas de racistas e islamofóbicas por não se pronunciarem sobre a prisão de Ahed Tamimi e de outras adolescentes e mulheres palestinianas [3] e nem assim quebram o silêncio!

E, este silêncio não se percebe e é difícil de aceitar. O feminismo é um movimento de emancipação que emergiu da tomada de consciência da opressão vivenciada pelas mulheres. Este movimento só tem sentido se estiver empenhado com a equidade e justiça social de todos os seres humanos e com a luta para eliminar todas as formas de violência e opressão. Desta forma, uma das grandes batalhas do feminismo é dar voz às mulheres e a todos os subalternos, particularmente àqueles que se encontram sob a alçada de um poder colonial que os constituem sempre como os “outros” diferentes e inferiores. Nenhuma pessoa ou grupo social se pode apropriar legitimamente do rótulo “feminista” sem se comprometer com estes princípios. [4]

Por tudo isto, a luta pela liberdade de Ahed Tamimi e de todas as adolescentes de qualquer recanto do globo terrestre é uma luta feminista!

 

[1] http://mondoweiss.net/2017/12/should-israeli-journalist/

[2] http://observatorio3setor.org.br/noticias/criancas-palestinas-estao-sendo-presas-e-condenadas-em-israel/

[3] https://medium.com/@TonyGreenstein/feminist-silence-over-ahed-tamimi-exposes-the-racist-consensus-at-the-heart-of-western-feminism-8413ea14be23

[4] Ferreira, Helena (2017). “Sou feminista e apoio o BDS”. Folhas Soltas N. 8, pp. 16-18. http://grupoaccaopalestina.blogspot.pt/2017/09/folhas-soltas-n8.html