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Poder no feminino não é igual a feminismo ou Por que é que não festejamos quando algumas mulheres chegam ao poder?

Nos últimos tempos temo-nos deparado, nas redes sociais, com imensas acusações, diria mesmo “queixinhas” do tipo: “Uma mulher no comando de…(um cargo político, um serviço público, uma empresa privada, seja o que for…) e as feministas não comemoram!”

E, é verdade. Muitas vezes não comemoramos, porque não há nada para comemorar. Assim mesmo. Sem culpas! E isto é fácil de entender: se perdermos algum tempo para analisar os motivos que nos podem levar a celebrar quando uma mulher consegue um cargo de poder, chegamos à conclusão que são os que a seguir se enumeram, sem seguir uma ordem de importância:

  1. – progressos nas questões da igualdade de género, o que conduz a resultados mais justos para as mulheres e para a sociedade em geral;
  2. – uma questão de representatividade: ver muitas mulheres no poder faz-nos acreditar a todas que é possível chegar ao poder e as meninas passam a ter cada vez mais exemplos/modelos a seguir;
  3. – contribuição para a mudança de mentalidades do patriarcado: quantas mais mulheres ocuparem cargos de poder, mais influenciam a forma como a população observa e analisa o papel das mulheres na sociedade, aumentando desta forma o seu respeito e reconhecimento em cargos importantes no espaço público;
  4. – por sororidade: aquela união que deveria existir entre as mulheres, baseada no companheirismo que luta por alcançar objectivos em comum;
  5. – por confiança: reconhecimento que é mais fácil que mulheres produzam e influenciem medidas que beneficiam todas as mulheres e que defendam a igualdade de direitos;
  6. – Acreditar plenamente que a vitória de uma única mulher é importante para a vitória de todas as mulheres e que somos porque ela é, tal como ela é porque nós somos…;

 

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Margaret Thatcher Foto: GettyImages

E poderia talvez enumerar mais alguns motivos, mas todos levariam a um único ponto: celebramos a vitória de uma mulher, os seus avanços, as suas conquistas, porque ela é feminista e nem todas as mulheres que chegam ao poder o são. Tão simples assim!

No artigo “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” (Ferreira & Ferreira, 2018) [1], que se baseia numa leitura do romance histórico “A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa abordo e esclareço este assunto. A certa altura questiona-se: é a rainha Ginga feminista? Esta questão fazia todo o sentido, porque esta personagem era considerada um exemplo por muitos movimentos feministas. Quando esta questão foi colocada ao próprio Agualusa, ele respondeu algo extremamente interessante: “Não sei. Ela governava como um homem entre homens, como, por exemplo, a Margaret Thatcher. A Margaret Thatcher era feminista? Não me parece. Eu estou mais interessado num poder no feminino” (Agualusa 2015) [2]. E, com isto, o autor estabelece, de imediato, uma diferença entre feminismo e poder no feminino. Mas, para que se possa fazer esta distinção ou para se poder afirmar que alguém é ou não feminista, é importante definir o conceito, mesmo sabendo que “feminismo” é uma palavra que não tem sinónimo, nem um substituto adequado (Offen 2008) [3] e que é uma expressão que “esconde um mosaico de situações diferentes, muito afastadas de um conjunto homogéneo, sendo que a aparente comunhão de ideologias sob a bandeira do feminismo esconde a variedade de feminismos” (Tavares 2011:33) [4].

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Hillary Clinton Foto: FLICKR

Para Karen Offen, o feminismo é “um projecto político que desafia a dominação masculina e a subordinação feminina e que insiste em restabelecer um equilíbrio de poder entre os sexos” (Offen, 2008: 36) [3]. Sendo assim, existem mulheres que desafiam sempre a dominação masculina a título individual, mas nunca mostram preocupação com as mulheres como colectivo e com o “equilíbrio de poder entre os sexos”. Não lutam contra as opressões sofridas pelas outras mulheres e, por vezes, até pelo contrário: no seu lugar de privilegiadas oprimem-nas e humilham-nas. Isso faz delas mulheres poderosas, que no seu momento produzem transformações para si próprias enquanto mulheres que têm acesso ao espaço reservado aos homens, e que talvez só por isso possam efectuar mudanças na vida de outras mulheres. Silvermint (2018) [5], no seu artigo Resisting for other reasons explica tudo isto muito bem, dando como exemplo duas mulheres: a Champion e a Trailblazer. Às duas mulheres é negada uma promoção no trabalho, devido a padrões despudoradamente sexistas. Enquanto Champion chama de imediato a atenção para as práticas discriminatórias, com a finalidade de promover a igualdade para todas as mulheres, isto é, resiste à opressão sexista com a única intenção de acabar com o sexismo, Trailblazer aponta o dedo às práticas discriminatórias para prosseguir no seu local de trabalho sexista, mas por outro lado gratificante. Ela pretende viver uma vida boa, construir uma grande carreira e por isso é necessário ultrapassar as barreiras opressivas que encontra no caminho. A Trailblazer não pretende resistir à opressão, ela resiste apenas com o objectivo de subir na vida. Ora, segundo o autor, isto não significa que ela não obtenha exactamente os mesmos resultados que a Champion neste caso específico, acabar com o sexismo e conseguir a igualdade para todas as mulheres no local de trabalho e também não indica que, lá porque não tinha intenções de resistir, não corra os mesmos riscos que a outra mulher, por ser uma resistente consciente à opressão e com intenções de lhe colocar um termo definitivo.

Há muitas mulheres que se encontram na mesma situação que Trailblazer, as suas intenções são única e simplesmente ultrapassar os obstáculos que se colocam no seu caminho, para atingir as metas a que se propuseram. Podem até, por arrastamento, conseguir melhorar a situação de outras mulheres, nas situações específicas em que elas beneficiariam das suas lutas de resistência que tinham como único objectivo satisfazer os seus interesses pessoais. Mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. Além do mais, os maiores problemas surgem quando este tipo de pessoas que apenas resiste por motivações pessoais, não se levanta pelas bandeiras das lutas colectivas, como é o caso do feminismo interseccional, porque não lhes trazem dividendos. Voltando ao exemplo de Trailblazer, que tem como única motivação subir na carreira, nunca lutará contra o machismo que as mulheres sofrem na vida pessoal, como por exemplo, nos casos de violência doméstica, porque esse tipo de opressão não interfere com as suas ambições (Silvermint 2018) [5]. Assim são muitas mulheres que ocupam a cadeira do poder. Por isso, não se pode afirmar que são feministas. Tendo ainda em conta que, segundo Karen Offen:

“As feministas podem ser identificadas como quaisquer pessoas, mulher ou homem, cujas ideias e acções (…) respondam a três critérios: 1) que reconheçam a validade das interpretações das próprias mulheres sobre a sua experiência vivida e necessidades, e que reconheçam os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus (…) na apreciação do seu estatuto na sociedade face aos homens; 2) que exibam a sua consciência, desconforto ou até revolta face à injustiça institucionalizada (ou desigualdade) em relação às mulheres, enquanto grupo, pelos homens, enquanto grupo, em determinada sociedade; 3) que advoguem a eliminação dessa injustiça desafiando, mediante esforços para alterar as ideias prevalecentes, e/ou as instituições e práticas sociais, o poder coercivo, a força, ou autoridade que defenda as prerrogativas masculinas nessa cultura particular. Assim ser feminista é necessariamente ser contrário à dominação masculina na cultura e na sociedade, qualquer que seja o local geográfico ou situação histórica” (Offen 2008: 36) [3].

Segundo estes parâmetros, é fácil identificar mulheres que não são feministas porque estas não reconhecem “os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus”, não mostram desconforto nem revolta com a injustiça institucionalizada em relação às mulheres como grupo e não advogam a eliminação dessa injustiça.

Depois disto, é fácil perceber que as feministas não têm que apoiar, defender e muito menos celebrar todas as mulheres que conseguem um cargo no poder. Vamos lá a retirar dessas cabecinhas a ideia peregrina de que as feministas dão pulinhos de alegria, quando mulheres atingem o poder, só porque são mulheres. Isso não basta! Primordial é colocar em lugares de poder mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres, de forma a acabar com todas as opressões. Ou seja, feministas!

[1] Ferreira, Helena & Ferreira, Aline (2018). “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” in Moderna språk 2018:1, pp. 153-164

[2] Agualusa, José Eduardo (2015), “Obras” in José Eduardo Agualusa http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=28&idbook=107&interviews

[3 Offen, Karen (2008), “Erupções e fluxos: reflexões sobre a escrita de uma história comparada dos feminismos europeus, 1700-1950”, in Cova, Anne (Dir.), História Comparada das Mulheres, Lisboa: Livros Horizonte, 29-45.

[4] Tavares, Manuela (2011), Feminismos, Percursos e Desafios (1947-2007). Alfragide: Texto Editores, Lda.

[5] Silvermint, Daniel (2018), “Resisting for other reasons”, Canadian Journal of Philosophy, 48 (1): 18-42.

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Pílulas do festival Mulheres do Mundo: feminismo e ciência na veia

Por Renata Fontanetto e Rebeca Bayeh

Durante os dias 16 a 18 de novembro, a praça Mauá foi sacudida pelo festival Mulheres do Mundo (WoW, na sigla em inglês). Nós duas, Renata e Rebeca, fomos selecionadas pelo British Council (BC) para participar do início do programa Mulheres na Ciência e integrar o treinamento em divulgação científica oferecido pelo BC. Foram dois dias intensos de aprendizados e troca de vivências. Depois, tivemos que cobrir o WoW nos três dias de festival. Separamos pequenos momentos que observamos para compartilhar no Cientistas Feministas. Vem junto!

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Cientistas Feministas marcando presença no WoW: na foto, Rebeca Bayeh, Renata Fontanetto, Meghie Rodrigues e Josephine Rua com participantes da sessão “Converse com uma cientista”. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

O protagonismo é das mulheres, a luta é da sociedade como um todo

“Aprendi a ser feminista sem ser feminista”. A frase foi de Avanildo Silva, agrônomo e gestor de projetos da ActionAid, na roda de conversa “A conversa aqui é eles com elas pela igualdade de gênero”. Segundo Silva, os homens deveriam conhecer os princípios, filosofia, métodos e abordagens do dia a dia do feminismo, mas sem roubar o protagonismo e a luta, que sempre será das mulheres. Reconhecendo que as mulheres estão em condição de desigualdade, os homens poderiam ser empáticos à causa e lutar por um mundo mais justo e igualitário impedindo, por exemplo, aquele “brother” machista (racista, homofóbico…) de reproduzir piadas e comportamentos que constrangem individualidades e coletividades. Não vamos conseguir sozinhas porque não vamos e não queremos lutar sem nossos pais, filhos, amigos, familiares e amores. Se for preciso, seguiremos sozinhas. Mas queremos os homens ao nosso lado também! A sociedade como um todo precisa estar engajada.

Um mundo sem “mordidinhas de mosquito”

A física Márcia Barbosa, em fala na discussão “Mulheres na ciência e a potência do trabalho realizado em rede”, disse que as frases que as mulheres ouvem todos os dias, que muitas pessoas na sociedade veem como inofensivas (“mordidinhas de mosquito”, em suas palavras), machucam, expõem, constrangem, isolam e podem causar adoecimento. São frases inoportunas que falam sobre a inteligência de uma mulher, o “absurdo” de ser mãe e querer seguir carreira científica, estereótipos femininos e toda sorte de barbaridades que podem calar uma mulher e prejudicar seu desempenho acadêmico. Para impedir que essas mordidas continuem a nos machucar, é preciso que as universidades e instituições estimulem alunas e docentes a denunciar, criando um ambiente acolhedor e seguro.

Tesoura de repicar

Márcia Barbosa também compara os recortes opressivos às tesouras de repicar, explicando que mulheres são sempre sub-representadas nas ciências, mas que conforme analisamos recortes mais profundos como raça, maternidade e região, as proporções de mulheres que pertencem a minorias são ainda menores.  “O problema é geral, mas é agravado pelas circunstâncias e pelo grupo social do qual você faz parte”, concorda Josephine Rua, também física, que participou da sessão de tutoria “Converse com uma Cientista”, do WoW. Josephine conta sobre um workshop do qual participou no International Center of Theoretical Physics, que reuniu mulheres físicas do mundo todo. “Você vê as diferenças dos típicos casos latino-americanos, os típicos casos africanos, os típicos casos de países africanos que são muçulmanos”, adicionando que alguns passaportes sequer dão acesso a países na Europa e aos EUA, onde a maioria dos congressos científicos acontece.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

As mulheres na divulgação científica precisam se unir!

A jornalista Flávia Oliveira, na mesa “As mulheres precisam conquistar o campo da comunicação”, levantou reflexões sobre a presença feminina no jornalismo e, por tabela, refletimos sobre a presença da mulher na divulgação científica. Entendemos a divulgação científica (DC) como uma área que dialoga fortemente com a comunicação, sendo o jornalismo científico uma das áreas que a integram. Segundo levantamento sobre o perfil do jornalista brasileiro (2012), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 64% dos profissionais atuantes no país são mulheres, mas os homens continuam sendo maioria nos cargos de chefia. Se mergulharmos num recorte racial, a realidade é ainda mais grave. “Aqui na sala vocês estão vendo 100% das colunistas negras do jornal O Globo”, disse Oliveira, referindo-se a ela e Ana Paula Lisboa, outra palestrante da sessão. A divulgação científica ainda precisa de dados mais sólidos que explorem a questão da presença feminina no campo, mas durante o festival pudemos perceber que isso também precisa ser discutido pela área. Um exemplo que defende o nosso ponto de vista é a presença de mulheres em canais do ScienceVlogs Brasil: ao todo, há 39 canais, sendo que apenas três são de mulheres. Mulheres da divulgação científica, UNI-VOS!

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Na sessão “Converse com uma cientista’, o público podia escolher sua cientista e tirar dúvidas durante 15 minutos. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Representatividade importa

“Se você não pode ver, não pode ser”, repetiu a física e jornalista britânica Sue Nelson ao longo do Festival, no qual participou falando sobre mulheres nas ciências espaciais. Sue, que trabalhou como correspondente da BBC e hoje trabalha na Agência Espacial Europeia produzindo vídeos de divulgação científica, conta que havia apenas três mulheres em sua turma e que todas ouviram ao longo da vida comentários como “você não deveria estar fazendo física”. Ela acrescenta que aprendeu a ignorar comentários misóginos ao longo de sua carreira e a focar em suas ambições profissionais. Ela é entusiasta da ficção científica porque acredita que mulheres podem se inspirar em personagens cientistas. “Se você vê uma mulher fazendo o trabalho, você pensa ‘eu também posso fazer isso’”. E também observa que fora da ficção há cada vez mais representantes femininas na ciência para que as meninas se inspirem. “Felizmente hoje há muito mais mulheres que têm modelos femininos na ciência, porque há mais mulheres fazendo comunicação científica, mais mulheres nas ciências e organizações como Go Science Girl”.

Quem deseja estudar fora precisa se unir e resistir

Na mesa “Sem fronteiras: mulheres que se aventuram a pesquisar fora do Brasil”, pesquisadoras de diferentes áreas compartilharam as experiências que tiveram em temporadas de estudo fora do país. Viver longe da família, estudar um idioma novo e conhecer costumes de uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que se escreve dissertação ou tese, pode ser um desafio e tanto. Separamos três conselhos que ouvimos por lá. Para a psicóloga Enoe Isabela de Moraes, que estudou na Inglaterra e é colaboradora no Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas da Universidade Federal de Goiás, é fundamental conhecer os próprios limites para saber o que você está disposto a fazer, bem como entrar em contato com histórias de outras pessoas para observar o que elas passaram e como enfrentaram questões diversas em outro país. A professora de biologia e pesquisadora paraibana Ana Cláudia Gonçalves conta que sentiu a Síndrome do Impostor em todas as suas vivências enquanto fez intercâmbio na Austrália e mestrado no Reino Unido. “Procurem por redes de apoio dentro da universidade para que vocês se fortaleçam”, sugeriu. A física mineira Zélia Ludwig, que passou por temporadas na Alemanha e Estados Unidos, defendeu que é preciso divulgar para outras mulheres a própria experiência. “Quando um já foi e conta para o outro, este outro já vai muito mais destemido. É uma forma de incentivar outras mulheres”.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Estratégias de luta

É unanimidade que mulheres cientistas lidam com problemas que seus pares homens não enfrentam. Mas as perspectivas sobre causas, consequências e estratégias – legítimas em suas respectivas realidades – são diversas. Sue Nelson advoga pelo foco: “Na vida sempre haverá pessoas dizendo que você não deveria estar lá, que você não deveria estar fazendo o que faz, que aquilo não é para você. Você tem que se acostumar com isso, ignorá-los e fazer o que você quer fazer”. Timandra Harkness, escritora, comediante e jornalista científica britânica, conta que já usou o fato de entrevistados subestimarem seu conhecimento científico a seu favor. “Como jornalista, é muito útil que não esperem que você saiba algo, porque isso significa que você pode perguntar ‘o que é um gene?’[…] meu trabalho é conseguir respostas, a audiência quer respostas […]. Você também pode começar com questões pequenas e básicas e então os pegar de surpresa. Eles não estão esperando isso”, compartilha Timandra com humor. Duília de Mello, astrofísica brasileira que também participou do WoW, propõe uma estratégia diante da situação política: “seja uma pessoa positiva em um ambiente negativo […] encontre sua felicidade, porque isso pode mudar a realidade a sua volta”. Duília propõe que se realizar um sonho não é possível agora, o caminho da adaptação e resiliência podem possibilitar sua realização futura ou sua transformação em algo novo. A química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, vencedora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais, é uma das mulheres cientistas que conta ter passado por isso, ao narrar sua transição entre sonhar pesquisar nos EUA, mas se ver forçada a voltar para o Brasil e lecionar em uma escola técnica. Ao contar sobre sua trajetória, destaca alguns conselhos-chave. “Você não pode ter vergonha de pedir quando você precisa”, aconselha. Joana advoga pela persistência e compartilha que o preconceito que sofreu serviu como combustível para suas conquistas. “O preconceito pode ser utilizado como ferramenta para formação de cérebros pensantes”.

 

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O papel das mulheres que rompem o teto de vidro na manutenção deste fenômeno

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/colorido-pir%C3%A2mide-3d-2253141/

O teto de vidro é um fenômeno bastante conhecido nos meios feministas e denota a dificuldade das mulheres em ascender nas áreas consideradas de maior prestígio em seus campos profissionais. Nesse contexto, muitas pesquisas têm demonstrado o fenômeno ao evidenciar a porcentagem de mulheres e homens em posições “subordinadas”, “juniores” e “sêniores”. Os resultados têm mostrado que quanto mais alta determinada posição, menor a chance de uma mulher atingi-la. Isso acontece, inclusive, nos campos em que as mulheres são maioria, como, por exemplo, a psicologia. Nessas áreas, os cargos de maior prestígio (por exemplo, pesquisadores da área experimental) são dominados por homens.

Apesar da imensa dificuldade, algumas mulheres conseguem romper o teto de vidro. ‘Isso é ótimo’, você deve estar pensando. Outra ideia que pode estar passando por sua cabeça é: ‘Essas mulheres podem auxiliar outras a ascenderem, pois suas posições de prestígio possibilitam que elas lutem pela implementação de ações afirmativas que beneficiem outras mulheres no início de carreira’. Seria maravilhoso se isso acontecesse, não? Mas não é bem isso que tem ocorrido.

Queen Bee, ou Abelha Rainha, é o nome dado à “tendência de algumas mulheres, que investiram no sucesso de suas carreiras, de serem mais críticas com relação às suas colegas mulheres em posições inferiores e menos inclinadas a defender medidas que apoiem as mulheres como um grupo” (tradução minha)[1]. Três características estão presentes nessas mulheres em posições de chefia: um distanciamento das mulheres em posições “juniores”, a assimilação a um grupo de maior status, que ocorre, por exemplo, quando as abelhas rainhas se classificam com traços considerados mais masculinos, e a legitimação do status quo, por exemplo, ao rechaçar políticas direcionadas a desigualdade de gênero.

Com o objetivo de entender porque as mulheres, especialmente as que estão em uma posição de prestígio, não estão inclinadas a apoiar cotas para mulheres, Klea Faniko e colaboradores fizeram dois estudos correlacionais, publicados em 2017 no Personality and Social Psychology Bulletin.

No estudo, 1.222 mulheres da Suíça responderam a um questionário. Oitenta e sete trabalhavam em posições de prestígio (cargos de gestão) e 135 em posições consideradas subordinadas. trabalhavam, em média, há mais de 15 anos em seus campos de atuação. O questionário avaliava os seguintes itens: sacrifícios pessoais para alcançar sucesso profissional; percepção do comprometimento com a carreira (seu próprio e de mulheres em posição acima ou abaixo delas); autodescrição, em termos de traços considerados masculinos e femininos; e percepções acerca do outro grupo de mulheres.

Além disso, no final do questionário, havia um pequeno texto dizendo que várias organizações tendem a adotar ações afirmativas para aumentar a representação de mulheres em posições de gerenciamento no país. Esse texto era seguido pela proposição de uma política que beneficiava: 1) mulheres sêniores, 2) mulheres juniores, ou a própria respondente. Assim, era possível descobrir se haveria diferença no apoio, dependendo do “alvo”.

Os resultados mostraram que as mulheres em posições de gerência relataram ter feito mais sacrifícios pelas suas carreiras do que suas colegas em posições consideradas subordinadas. Essas mulheres também afirmaram ter um maior comprometimento com suas carreiras do que suas colegas em posições inferiores e se descreveram como mais masculinas que suas pares de posições subordinadas. Além disso, as mulheres em posições de destaque foram menos favoráveis às cotas direcionadas às mulheres juniores do que às mulheres no mesmo nível que elas.

O distanciamento das mulheres em posições mais altas foi calculado a partir da diferença entre a percepção do comprometimento de suas carreiras e traços de masculinidade auto atribuídos com a percepção do comprometimento e grau de masculinidade de suas colegas em posições inferiores. Os resultados mostraram que a relação entre a posição hierárquica e o distanciamento do outro grupo foi mediado pelos sacrifícios relatados, ou seja, as abelhas rainhas que relatavam terem feito mais sacrifícios também foram o grupo que obteve o maior índice de distanciamento.

Uma vez que as mulheres em posições superiores mostraram apoio às cotas para suas pares de mesmo nível hierárquico, apoiando em menor grau as cotas direcionadas às mulheres em posições inferiores, o estudo de Faniko e colaboradores aponta que o fenômeno da Abelha Rainha não é guiado por um senso de competitividade com outras mulheres. Isso só seria possível se elas se mostrassem contra cotas para suas pares de mesmo nível, mas isso não aconteceu. Assim, foram suas percepções de sacrifício feitos, junto com o distanciamento das mulheres em posições inferiores que fez com que as mulheres em posições de prestígio se considerassem diferentes das mulheres em posições juniores. O problema é que isso acaba, em última instância, reforçando o teto de vidro já existente.

Uma limitação do Estudo 1 foi o fato de que o distanciamento só foi avaliado em relação às mulheres em posições inferiores e não em relação às pares de mesmo nível hierárquico. Já o Estudo 2 foi feito com uma amostra de 156 mulheres da Albânia e os resultados foram replicados. Ou seja, ao que tudo indica, a percepção de que mulheres em níveis inferiores se sacrificam menos do que as mulheres em posições de alto prestígio leva as segundas a serem menos favoráveis à adoção de cotas para mulheres em posições subordinadas.

Como mudar isso?

O artigo de Faniko e colaboradores argumenta que as intervenções que busquem remediar esse efeito devem se pautar em medidas que diminuam o distanciamento entre as mulheres em posições superiores e inferiores. Isso poderia ser alcançando mostrando às mulheres de nível hierárquico superior que as mulheres de nível hierárquico inferior se sacrificam como elas, tendo o mesmo comprometimento em suas carreiras.

Quer saber mais?

Faniko, K., Ellemers, N., Derks, B., & Lorenzi-Cioldi, F. (2017). Nothing changes, really: Why women who break through the glass ceiling end up reinforcing it. Personality and Social Psychology Bulletin, 43(5), 638-651. doi: 10.1177/0146167217695551

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5414903/

[1] Faniko, Ellemers, Derks, & Lorenzi-Cioldi (2017).

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Nettie Maria Stevens e a descoberta dos Cromossomos Sexuais

Nettie Maria Stevens nasceu em Cavendish, Vermont, cidadezinha de um dos menores estados dos Estados Unidos, em sete de julho de 1861. Nascida em uma época na qual a maior preocupação de uma jovem mulher deveria ser com um bom casamento, Nettie Maria queria muito mais. Estudou muito e trabalhou como professora, mas queria mesmo era ser pesquisadora. Com muito esforço e dedicação, ela conseguiu um espaço na história da genética.

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Nettie veio de uma família muito simples, vivendo nos Estados Unidos recém-saído de uma guerra civil. Apesar disso, o pai, carpinteiro e faz-tudo, conseguiu mandar os filhos à escola. Nettie logo se destacou entre os alunos, com um histórico brilhante. Em 1896, ela foi para a Universidade de Stanford, na Califórnia. Graduou-se com mestrado em biologia, dedicando-se ao estudo de novas espécies de vidas marinhas. Nettie foi continuar seus estudos na pós-graduação do Bryn Mawr College, uma faculdade liberal para mulheres, localizada na Pensilvânia. Seu desempenho foi tão extraordinário que ela ganhou uma bolsa para estudar no exterior.

Ela desenvolveu seus estudos na Estação de Zoologia de Nápoles na Itália e no Instituto de Zoologia de Würzburg na Alemanha, em parceria com Theodor Boveri. Theodor Boveri foi um importante biólogo alemão, que estudava o modo como características genéticas eram transmitidas, o que logo chamou a atenção de Nettie. Ela obteve o título de Ph.D. em 1903, aos 39 anos, e em 1905 publicou sua pesquisa intitulada “Studies in Spermatogenesis”. Finalmente, Nettie pode trabalhar como pesquisadora, se dedicando ao entendimento da determinação sexual nos animais.

nettie2 Nettie Maria trabalhando em suas análises microscópicas. Sua experiência em microscopia foi muito importante para suas descobertas.

Nettie Maria descreveu a diferença entre os cromossomos sexuais, através de suas observações em diversos animais. Stevens descreveu que células do besouro da farinha, Tenebrio molitor, eram diferentes entre machos e fêmeas.

As células das fêmeas, em divisão meiótica, continham 20 cromossomos grandes, enquanto as células masculinas continham 19 cromossomos grandes e 1 cromossomo menor. Ela concluiu que essa diferença resultava na presença de material genético diferente, associado à diferenciação sexual.

Ela também observou que as células dos espermatozoides podiam conter conjuntos de cromossomos com o cromossomo feminino ou com o cromossomo menor (masculino). A combinação desses conjuntos determinaria o sexo do indivíduo formado. De forma que ela inferiu que a união de dois cromossomos grandes (XX) determinaria o sexo feminino, enquanto um cromossomo grande e um pequeno (XY) determinaria o sexo masculino.
Ela repetiu estes estudos em diversas espécies de insetos, para poder afirmar que a diferenciação sexual, entre diversos fatores hoje conhecidos, estava relacionada ao par de cromossomos sexuais. Esse foi o início da teoria da determinação sexual cromossômica, que foi reconhecida mais tarde como correta, nos permitindo conhecer os cromossomos X e Y.

Thomas Morgan , importante zoologista e geneticista americano, que estudou e aprimorou o modelo de estudo animal da Drosophila melanogaster, a mosquinha da fruta, foi professor de Stevens. Ele afirmou que durante seus 12 anos de professor na pós-graduação nunca teve alguém tão competente e independente em pesquisa como Nettie.

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Células em divisão no besouro-farinha e observação dos cromossomos sexuais x e Y.

Na época, a teoria de herança sexual cromossômica era pouco aceita entre os cientistas, e o trabalho de Nettie não foi muito reconhecido. Mais ou menos na mesma época, Edmund Beecher Wilson fez observações similares, dando maior credibilidade à pesquisa de Nettie Maria. Nettie Maria Stevens era brilhante, porém teve uma carreira curta. Ela faleceu em 1912 de câncer de mama. No entanto, deixou sua contribuição inestimável para o entendimento do mecanismo genético de determinação sexual.

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Imagem de cariótipo humano masculino (46, XY) mostrando a diferença de tamanho entre os cromossomos sexuais X e Y.
Referências:
• Nettie Stevens: A Discoverer of Sex Chromosomes, disponível em: https://www.nature.com/scitable/topicpage/nettie-stevens-a-discoverer-of-sex-chromosomes-6580266

• Nettie Maria Stevens, disponível em: http://www.dnaftb.org/9/bio.html

• Wessel GM. Y does it work this way? Nettie Maria Stevens (July 7, 1861 – May 4, 1912) , Mol Reprod Dev. 2011 Sep;78(9):Fmi. doi: 10.1002/mrd.21390.

• Nettie Stevens, disponível em https://www.britannica.com/biography/Nettie-Stevens

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Meninas, trabalho doméstico e escola

O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, realizou um levantamento estatístico com 174.468 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ocupados no serviço doméstico no país. Nessa pesquisa mostrou-se que o trabalho infantil dentro de residências é, em geral, reservado às meninas, 94,2% das crianças. Entre elas, 73,4% são negras e 83%, além de trabalharem na casa de terceiros, realizam afazeres domésticos em sua própria casa. [1]

As consequências do trabalho infantil doméstico são tanto físicas quanto emocionais: elas podem desenvolver lesões por esforço repetitivo, severas alergias por exposição a produtos químicos, risco de acidentes e mordidas de animais. Há também o risco de assédio sexual por parte dos patrões ou homens que habitem o local de trabalho. [1]

Os serviços domésticos estão na vida de todas as meninas. É na idade do brincar que ocorre uma separação dos papéis entre homens e mulheres. As meninas tem contato com miniaturas de eletrodomésticos, bonecas, mini vassouras para limpar. Aos meninos, o quintal e as ruas, os joelhos sujos de terra, carrinhos e ferramentas. [1]

Em pesquisa realizada pela Plan em 2013, retratou a divisão de tarefas domésticas em suas casas entre as meninas e meninos, evidenciando a discrepância entre a quantidade de tempo dedicado para tarefas entre os dois gêneros. A figura 1 mostra um pouco dessas diferenças. O tempo gasto para tarefas domésticas é retirado de tempo de estudo e lazer dessas meninas, o que pode prejudicar seu desenvolvimento educacional. [2]

Em um trabalho desenvolvido na USP em 2011, mostrou-se que as meninas que têm essa rotina de trabalho doméstico acaba por ver a escola como um ambiente mais agradável, tratando os estudos como lazer já que o tempo de lazer lhes foi retirado pelas obrigações domésticas. Porém, segundo o FNPETI, trabalhando em jornadas tão longas, as meninas não conseguem dar continuidade aos estudos, começando um histórico de reprovações que culmina no abandono da escola antes mesmo do término do ensino fundamental.[3] [4]

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Figura 1: Distribuição de tarefas entre meninos e meninas nas casas brasileiras. Fonte: Plan 2013.

No trabalho realizado pela professora Ana Lúcia Kassouf, do departamento de Economia, Administração e Sociologia, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), e seus alunos do programa de doutorado em Economia Aplicada Marcos Garcias, Ida Bojicic Ono e Camila Rossi, integraram ao projeto PEP (Partnership for Economic Policy), os resultados analisados mostraram que o trabalho infantil, dentro ou fora de casa, atrapalha e diminui o desempenho das crianças na escola. “Nossas conclusões indicam que o trabalho doméstico, que muitas vezes não é contabilizado nas estatísticas sociais e não é considerado perigoso, deve ser incluído nas políticas de governo destinadas a combater o trabalho infantil”, ressaltou Ana. [3]

Na análise, monitorando diversos fatores relacionados às crianças, família e escola, ainda notamos que as crianças que trabalham, seja no domicílio ou no mercado, apresentam menor rendimento escolar, pois estão mais cansadas e sobrecarregadas”, ressaltou a professora. [3]

Nos EUA há um cenário parecido, numa pesquisa realizada pela Universidade de Maryland entre adolescentes de 15 a 19 anos, mostrou-se que os meninos gastam em média 30 minutos ao dia em tarefas domésticas enquanto as meninas cerca de 45 minutos. [6]

No passar dos anos o cenário não melhora para essas meninas, uma vez casadas, a responsabilidade do cuidado da casa será quase que exclusivamente delas. O IBGE em 2016 constatou que as mulheres dedicam, em média, 20,9 horas semanais aos cuidados com o lar, enquanto os homens dedicavam 11,1 horas semanais.[5]

Além das tarefas domésticas o levantamento do IBGE mostrou que cerca de 25% da população em idade de trabalhar cuidou de outras pessoas em 2016. O percentual de mulheres (32,4%) que se dedicavam a cuidar de pessoas foi superior ao dos homens (21%). [5]

A pesquisa mostrou que 49,6% das pessoas que receberam cuidados tinham entre zero e 5 anos de idade e 48,1% tinham entre 6 e 14 anos. O cuidado de idosos correspondeu a apenas 9% dos casos. Ou seja, a responsabilidade pelos cuidados dos filhos ainda é majoritariamente da mulher. [5]

Na figura 2, podemos ver a distribuição atual das tarefas dentro das casas brasileiras divulgada pelo IBGE em 2017. [5]

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Figura 2: Distribuição das tarefas domésticas nos lares brasileiros Fonte: G1

Desde criança as meninas são submetidas a uma carga maior de responsabilidades dentro de casa além de serem estimuladas com brincadeiras dedicadas às tarefas domésticas, por mais que isso possa trazer certo benefício no desenvolvimento da organização, outros fatores do desenvolvimento podem ser afetados. Com uma sobrecarga de tarefas, essas meninas podem não se dedicar tanto às atividades de lazer e escolar quanto deveriam. Durante toda sua vida serão cobradas nos quesitos de eficiência tanto ou mais quantos os homens no mercado de trabalho, mas estão acumulando duplas e triplas jornadas de trabalho. O quanto essa divisão injusta dos trabalhos domésticos pode estar atrapalhando o desenvolvimento intelectual dessas meninas e mulheres ao redor do mundo? Quanto a humanidade não poderia se beneficiar com mentes brilhantes que acabam presas dentro de casa a uma rotina de trabalhos domésticos?

O quadrinho “Era só pedir” (https://www.geledes.org.br/quadrinho-explica-por-que-as-mulheres-se-sentem-tao-cansadas/) traz o agravante de o quanto esses trabalhos domésticos são mais do que o ato, mas todo o esforço emocional que as mulheres carregam para manter um lar funcionando.

Referências:

[1] O perigo do trabalho infantil doméstico dentro e fora de casa. Cecília Garcia. Matéria feita em parceria com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) Atualizada às 10h30 do dia 27/04/2018.

[2] POR SER MENINA NO BRASIL: Crescendo entre Direitos e Violências. Pesquisa com meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do Brasil. Plan. 2013

[3] Trabalho infantil provoca significativas quedas no desempenho escolar . Ana Carolina Brunelli . Universidade de São Paulo. 2016

[4] Trabalho doméstico não prejudica meninas na escola. Ariane Alves. Ano: 46 – Edição No: 94 – Educação – Faculdade de Educação. 2013

[5] https://g1.globo.com/economia/noticia/mulheres-passam-o-dobro-do-tempo-dos-homens-com-tarefas-domesticas-aponta-ibge.ghtml

[6] A ʻGenerationally Perpetuatedʼ Pattern: Daughters Do More Chores. Claire Cain Miller. The New York Times. 2018

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Vamos falar de política: por que somos #elenão?

43103402_1965589976840185_2460453641367060480_nO primeiro nome deste site já diz: somos cientistas (ou divulgadoras científicas). Somos muitas e somos plurais. Estamos pelo Brasil todo e até mesmo fora do Brasil, estudando ou trabalhando. O segundo nome diz respeito a um valor muito claro: somos feministas. Ser feminista, acima de tudo, como bem já disse a escritora e intelectual negra Chimamanda Ngozie Adichie, é acreditar na igualdade social e econômica entre homens e mulheres na sociedade. É também lutar por esses valores, estudá-los, escrever sobre eles, encorajá-los e praticá-los.

Se não tivéssemos que prestar atenção nas questões de gênero e de raça, no mundo e no Brasil, não veríamos que os premiados do Nobel são em sua maioria homens – 97% desde 1901 – e brancos. A diversidade e a representatividade não são a regra no universo acadêmico. Mas há pessoas lutando para que esses valores sejam.

Vamos retroceder alguns dias para cutucar uma ferida: em 30 de julho de 2018, o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro disse em entrevista no programa Roda Viva que não existe pesquisa científica no Brasil. No início de agosto, a hashtag #existepesquisanobr invadiu o Twitter e outras redes sociais, levando milhares de cientistas brasileiros a falar sobre seus projetos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Gente que trabalha e tenta contribuir para que a ciência brasileira avance em nosso país e a nível internacional. O que Bolsonaro disse simplesmente joga o trabalho de muitos profissionais no lixo e demonstra profundo desconhecimento sobre o que o Brasil produz, investe e estuda.

Em um apanhado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que consolidou as propostas de governo de cada candidato para ciência, tecnologia e inovação, vemos que Bolsonaro é o candidato do empreendedorismo, de simpatia pela iniciativa privada em conjunto com universidades, do investimento no ensino básico e na visão de ciência como sinônimo de “produto, negócios, riqueza e oportunidades”. Nada contra o empreendedorismo, a iniciativa privada e o investimento em educação básica. Mas ao focar de forma pesada no espírito empreendedor que as universidades deveriam ter e no produto que a ciência deveria gerar, ele não contempla o contexto social brasileiro.

Hoje, no Brasil, segundo o Censo IBGE de 2010, pouco mais de 12,6 milhões de brasileiros concluíram alguma graduação. Para aumentar esse número, as oportunidades precisam ser apresentadas, inclusive estímulos sociais, a exemplo das cotas para entrada em instituições públicas. Outro ponto: a ciência não é só pesquisa aplicada e produtos que geram riquezas. Há muita gente fazendo pesquisa básica e, no projeto de governo de Bolsonaro, esse item passa batido. Ele também propõe reduzir a quantidade de ministérios, mas não diz, por exemplo, onde encaixará ciência e educação. Bolsonaro, de fato, é uma incógnita.

Mas há pontos em que ele é claro e cristalino. Bolsonaro é abertamente a favor da tortura, da família tradicional que envolve apenas homem e mulher, já foi racista e sexista em muitos discursos e é admirador escancarado de uma das pessoas mais horripilantes da história da Ditadura no Brasil: o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Não adianta colar links para comprovar cada uma dessas coisas porque a verdade é que quem o defende sabe de seus valores e o apoia. Ele não tem vergonha de falar essas coisas. Ele é o que é. Mas nós não somos o que ele é. Quem é feminista nunca vai defender o que Bolsonaro defende.

Por isso, deixando bem claro os valores humanos que a gente quer ver em nosso país. Queremos candidatas e candidatos que apoiem a participação feminina em todos os setores da sociedade. Queremos ver nossas mulheres livres, sendo e exercendo o que elas desejam. Queremos respeito à população gay e trans e que essas pessoas possam andar nas ruas sem medo de serem agredidas. Queremos participação da sociedade na dívida histórica que temos com a população negra e indígena. Queremos entendimento sobre o que são os direitos humanos, além de candidatos que os apoiem. Queremos respeito à individualidade e diferença de cada ser humano. Esse mundo da tortura, do homem e da mulher branca acima de tudo, detentores do conhecimento e das boas educações, já marcou durante muito tempo a nossa história.

A história que queremos é bem diferente e não inclui retrocessos nos direitos humanos e sociais, tão pouco a apologia aberta pra que se cometa ainda mais violência no interior de nossa sociedade, tão débil de perspectiva de futuro. Nos colocamos contra qualquer forma de retrocesso, com avanço de uma ideologia neofascista encabeçada por Bolsonaro. As mulheres sempre estiveram à frente das lutas democráticas e da busca pelo bem comum; seguiremos firmes em nossos objetivos, até a vitória.

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Confissões de uma cientista mãe

Fechando a série sobre maternidade e ciência, trazemos sete histórias de cientistas brasileiras que vivem a ciência e a maternidade.

Para muitas mulheres, a maternidade chega acompanhada de um sentimento de culpa. Falamos sobre isso na primeira matéria sobre maternidade e ciência, na qual apresentamos dados do grupo Parent in Science que ajudam a traçar o perfil da pesquisadora brasileira mãe. Na segunda, “Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?”, levantamos provocações a partir de estudos que se debruçaram sobre o tema. Hoje, vamos trazer depoimentos de cientistas que se disponibilizaram a contar como é a experiência de ser cientista e mãe.

Um dos dados obtidos pelo Parent in Science que mais chama atenção é o que diz respeito à percepção das mães sobre o impacto dos filhos na produção científica: 81% avaliaram de forma negativa, sendo que 59% responderam com “negativa” e 22% com “bastante negativa”. Apenas 5% avaliaram de forma positiva, 2% responderam com “bastante positivo” e 12% marcaram “nenhum impacto”.

Com a falta de políticas públicas de órgãos governamentais para solucionar o cenário e a falta de compreensão por parte de atores dentro das universidades brasileiras, não é de se espantar a avaliação negativa. Ser mãe não é nenhum mar de rosas, como grande parte da sociedade gosta de pregar, e não é vergonhoso admitir-se cansada, sem tempo e com a sensação de que não será possível conciliar maternidade, trabalho e vida pessoal. Pelo contrário, é humano e precisamos dar suporte para que as mulheres se sintam confortáveis a falar sem medo de represálias. Senão, o que estamos fazendo com a saúde mental das nossas mulheres?

Com a palavra, as cientistas.

*O nome verdadeiro foi alterado a pedido da entrevistada.

 

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Rafaela Silva*, doutoranda em Ciência Política, grávida do primeiro filho

Por enquanto ainda não consigo imaginar como seria, de fato, ter um bebê em meio à rotina que, muitas vezes, é de intensa abdicação de vida social e cuidado pra que os prazos possam ser cumpridos. Minha orientadora e co-orientadora me deram todo o apoio necessário e não me cobraram nada além do que era possível no momento. Houve, por parte de algumas pessoas, questionamentos sobre a minha necessidade de usar a licença-maternidade, além de terem afirmado a importância de que eu não a utilize e cumpra os prazos de defesa a tempo, de forma a não perder a chance de um pós-doutorado e a não passar por um processo de estagnação na carreira.

Muitas vezes não nos perguntam se gostaríamos de tirar um tempo para a maternidade. Seguir a vida acadêmica da mesma forma como antes, ou da forma como esperam que sigamos, acaba sendo rotina para aquelEs que não entendem nossas especificidades. No momento, ainda em gestação, estou tentando adiantar um pouco os trabalhos e submeter artigos que estavam prontos, aguardando maturação de ideias e melhorias. É como se eu tivesse que trabalhar agora por duas: pelo que eu deveria trabalhar normalmente e pelo que eu “deveria estar trabalhando quando o bebê nascer”. Penso que as condições que precisam ser oferecidas dentro da sociedade sejam as mesmas para todas as mulheres que estão no período de gravidez, pós-parto, amamentação e no ser mãe. Por exemplo, políticas de creche, licença-maternidade remunerada e ambientes estruturados que possam receber crianças e recém-nascidos para que a mãe não tenha que se deslocar e se isolar do que está fazendo.

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Marcela Miranda*, 35 anos, física

Sou formada na área de exatas. No último semestre de minha pós-graduação, engravidei. Quando informei sobre a minha gravidez, a notícia foi bem recebida pelos meus coordenadores. Com o passar do tempo, as coisas mudaram um pouco. Após a licença-maternidade, fui cobrada em relação à produtividade por ter ficado um tempo longe de projetos e pesquisas. Cobrada justamente em uma época bastante complicada, na qual a rotina muda e estamos sensíveis a tudo. Além disso, queremos estar presentes em todos os momentos de descoberta de nossos filhos. Começa um sentimento de culpa por estar longe em uma época que eles mais precisam da gente. Um tempo depois, minha saúde ficou debilitada e tive que me afastar do trabalho e dos projetos. Inicialmente, senti um preconceito muito grande. Os sintomas começaram a se manifestar e fui diagnosticada, primeiramente, com depressão pós-parto e estresse no trabalho. Ao ter que abandonar tarefas de trabalho e pós-graduaçăo, fui criticada por alguns colegas. Hoje, continuo realizando pesquisas na área, mas não com a mesma produtividade que tinha antes de ter meu filho. Antigamente, no decorrer de minha graduação e de minhas pós-graduações, a prioridade eram os estudos e projetos. Após ser mãe, as prioridades são filho, saúde, família, estudos e projetos!

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Paula Garcia, 37 anos, linguista

Entrei como professora numa faculdade pública em junho de 2010 e, em novembro, vi que estava grávida. Ouvi de alguns colegas de departamento que “dei o golpe”, isto é, esperei passar no concurso para logo sair de licença-maternidade. Fiquei com essa culpa um bom tempo. Ano passado (2017), participei de uma banca de concurso como membro e presenciei a melhor candidata tentando esconder a barriga durante as provas para que sua gravidez não fosse um impeditivo para uma boa classificação. Ela ficou em primeiro lugar, assumiu e logo saiu de licença. Ela vai ter mais 30 anos para trabalhar na universidade, assim como eu. Não serão os seis meses de licença que farão ela trabalhar menos ou ser menos capaz de fazer as coisas. Ao lembrar desses anos, lembro que eu sempre tinha a sensação de dever algo a alguém. Fiz um doutorado, publiquei artigos, participei dos congressos que pude com o marido morando em uma cidade, e os familiares, em outra. Dei e estou dando o meu melhor, mas parecia que minhas ações na universidade eram para comprovar que eu não tinha mesmo tido a intenção de dar um golpe.

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Andréa Wieck Ricachenevsky, 36 anos, bióloga molecular

Bom, meu nome é Andréa Wieck Ricachenevsky, tenho 36 anos, moro em Santa Maria (RS) há dois anos e tenho uma filha, a Maya, também de dois anos. Sempre trabalhei com pesquisa na área de ciências da saúde, mais especificamente com psiconeuroimunologia. Eu engravidei quando meu marido havia passado no concurso para professor da Universidade Federal de Santa Maria. Até então, eu era pós-doutoranda em Porto Alegre. Vim oficialmente para Santa Maria quando a Maya tinha 15 dias e, após o término dos quatro meses de licença-maternidade que tinha direito como bolsista, entreguei a bolsa e, oficialmente, fiquei desempregada.

O primeiro ano da minha filha não fez nem cócegas no meu currículo, pois, como eu sabia que ficaria “um tempo” parada, trabalhei bastante durante a gestação e deixei várias coisas alinhavadas que foram publicadas ao longo desse tempo. Já se passaram dois anos e sigo desempregada. Depois que a gente vira mãe, relativizamos uma série de itens e passamos a não dar importância para coisas que antes eram questão de vida ou morte. Eu, como mãe, não vou me candidatar ou aceitar oportunidades em que eu não tenha certeza que meu marido e filha possam ir comigo. Assim como não vou aceitar fazer algo como passar x dias longe dela e depois voltar. De forma nenhuma estou dizendo que o trabalho não importa ou que deixamos de amar ser cientistas. Não! Apenas digo que observar e acompanhar uma criança se desenvolvendo é uma das coisas mais maravilhosas no mundo. Passa muito rápido. Perdeu o foco, eles já estão em outra fase! E a gente sente falta. Então, sim, a gente muda o foco, dá mais importância para os nossos filhos do que para um artigo e, sim, a gente fica em casa cuidando deles quando estão doentes.

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Paola Sanches, bióloga

Sou bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade e estou finalizando o doutorado em ciências com ênfase em Oceanografia Biológica pela USP. Sou mãe da Catharina, de 8 meses, que nasceu durante o terceiro ano do meu doutorado. Nos primeiros meses, com a amamentação em livre demanda e todas as necessidades do bebe, é difícil arrumar tempo para a execução dos projetos. Mesmo assim, analisei dados e escrevi. Eu lembro de pensar que, enquanto eu estava de licença-maternidade, meus colegas estavam publicando e eu me afastava das chances de passar em um concurso para professora. O curioso é que esse período não deveria gerar essa preocupação.

Eu digo que a sociedade é cruel com as mães. Ela exige que sejamos presentes, dedicadas, devotadas, mas que também tenhamos a justa paridade com os homens em relação ao sucesso profissional. Ter uma rede de apoios nesse momento é fundamental. Faço parte de um grupo de mães também no puerpério. O compartilhamento de medos, anseios e experiências me fortalece muito. Além disso, minha sogra fica com minha filha de duas a três vezes por semana e meu marido durante os fins de semana para que eu consiga “só” trabalhar. Tenho a sorte de ter supervisores que me acolheram muito, tanto durante a gestação quanto nesse primeiro ano da minha filha. Todos disseram que seria difícil, mas que eu daria conta e que teria uma motivação a mais. Eu aumentei o meu poder de concentração e aprendi a focar mais rápido e em períodos que não necessariamente eu focaria antes. Além disso, minha filha representa uma motivação ainda maior para meu crescimento e minha consolidação profissional. Passei, sim, por um momento de constrangimento quando uma pessoa com quem trabalho (o mais triste é ser uma mulher que se diz feminista) justificou sua própria improdutividade alegando que a minha prioridade é outra, apesar de eu ter produzido durante a gestação, a licença-maternidade e ainda mais agora. Isso reflete o pensamento latente da sociedade de que a maternidade é um impeditivo para a carreira de mulheres.

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Imagem: acervo pessoal

Aline Pan, física, 37 anos, Rio Grande do Sul

Meu nome é Aline Cristiane Pan, sou mestre em Engenharia e Tecnologia dos Materiais e doutora em Energia Solar. Sou mãe da Sofia de 6 anos, nascida em 2012, e do Benício de 3 anos, nascido em 2014. Mulheres que trabalham com ciência são promovidas pela mídia a todo instante com o intuito de desmistificar o gênero nesta área. No entanto, a realidade crua destas mulheres é pouco mencionada e/ou, inclusive, “apaziguada” para que não seja retratada. Os motivos são inúmeros, tais como: vergonha, tempo, medo, desunião e reconhecimento. Contudo, todas as mulheres que trabalham com ciência já sofreram ou sofrerão algum tipo de discriminação em sua carreira científica. Inicialmente, podemos pensar nas premiações ou promoções de projetos de fomento de gênero que “tentam” valorizar as mulheres que trabalham na ciência. O primeiro critério de avaliação destes prêmios são os números de artigos e projetos nos quais as mulheres estão envolvidas nos últimos anos (em geral, os três últimos anos). No entanto, se esta mesma mulher teve, neste período de tempo, dois filhos, como no meu caso, e licenças-maternidade, isso não é levado em consideração sob hipótese nenhuma.

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Nota-se, claramente, que a opção de ter estes filhos foi dela (minha), mas será que ela (eu) deve ser avaliada pelo mesmo período de tempo das demais consideradas “na ativa” e que não tiveram filhos? Estas regras foram feitas baseadas em perfis masculinos ou para mulheres cientistas que não são mães? Por tudo isso, não acredito que seja fácil conciliar a produção acadêmica e a maternidade, e a sociedade não oferece ajuda nenhuma para estas condições. Quando retornei da minha segunda licença-maternidade, um colega me perguntou: “Como estavam tuas férias?” e, depois,: “Deve estar sendo bom fazer filho. Esta já é a tua segunda vez em pouco tempo”. Um outro, em uma situação em que eu estava reclamando do tempo de licença não ser considerado pela avaliação trienal, disse que “Se ele conseguiu publicar muito enquanto teve três filhos, eu também poderia”. Por eu não ter conseguido manter as minhas métricas antes da maternidade, fui desvinculada de um programa de pós-graduação da minha universidade, onde acabei tendo muitos prejuízos por isso.

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Depoimento anônimo, 39 anos, Rio Grande do Sul

Quando retornei do doutorado, em 2009, comecei a ensinar numa faculdade particular. No final de 2009, descobri que estava grávida, algo que planejei. Em 2010, com minha primeira bebê, tive direito à licença-maternidade. De 2012 a 2016, fiz um pós-doutorado financiado por duas agências de fomento. Nesse período, tive dois filhos. Com a bolsa, eu não podia tirar licença, apenas pedir extensão da mesma. Então, não parei de trabalhar, continuei escrevendo artigos. Minha orientadora, durante esse processo, foi muito tranquila. Eu optei por não parar por causa da situação financeira, mas também porque era o meu nome que estava em jogo na pesquisa. Se eu parasse, eu sabia que ia me prejudicar. Eu vejo que, por ser mulher, as atribuições são maiores para nós do que para os homens neste momento. Não tem nem como comparar. Participei de congressos enquanto estava grávida. Quando eu chegava em casa, continuava trabalhando, cuidando das crianças e, quando eles dormiam, continuava trabalhando para poder dar conta. Na particular, percebo que há uma luta maior pela sobrevivência porque eu ainda me encontro preocupada com o futuro. Eu não tenho garantia que estarei neste lugar pelo resto da vida. Quem já está na federal tem mais garantias e estabilidade. Acho que as agências de fomento deveriam considerar a trajetória acadêmica levando em conta as licenças-maternidade e afastamentos. O currículo não é só acadêmico, ele também é pessoal.