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08 de março de 2021

Está tudo muito difícil, sabemos. A pandemia causou mais impactos na vida das mulheres brasileiras, que sofrem ainda mais violência doméstica e sobrecarga de trabalho. O desemprego também afetou mais a elas, e sem o auxílio emergencial, muitas chefes de família estão em situação de vulnerabilidade social.

São as mulheres, também, as principais profissionais na linha de frente do combate ao coronavírus. Há um ano, elas enfrentam jornadas exaustivas, em casa e no trabalho, somadas ao medo de se contaminar e levar o vírus para seus entes queridos.

No meio acadêmico, a produtividade das mulheres despencou, reflexo das desigualdades de gênero e também de raça. Uma pesquisa mostrou que os grupos mais impactados foram os das mulheres negras (com ou sem filhos) e das mulheres brancas (com filhos de até 12 anos).

O dia internacional das mulheres sempre foi uma data de lutas e neste 08 de março de 2021, fazemos coro à Maria Bethânia: queremos vacina, respeito, verdade e misericórdia.

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A falta de inclusão nos eventos acadêmicos online: a explosão das lives só com homens

Por Mariana Candido*

Como eu escrevi anteriormente, a pandemia provocou uma expansão das lives acadêmicas, uma iniciativa louvável. Em um momento em que estamos todos trancados em nossas casas e em busca de atividades de nos ajudem a passar bem o tempo, professores universitários ocuparam o espaço virtual. De repente, ex-alunos, pais de universitários, avós, estudantes mais jovens e o público excluído do ensino superior teve a oportunidade de assistir o que acontece na universidade. Os eventos online trouxeram a pesquisa e o ensino universitário para o interior das nossas casas, desde que pudéssemos contar com tempo e internet que desse conta de tanta demanda.

Os eventos online prometiam democratizar o acesso ao conhecimento e aproximar as pessoas que estavam isoladas em suas casas. Depois da explosão de lives de artistas que entretiveram as pessoas, professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos começaram a discutir suas pesquisas e experiências profissionais com um público mais amplo, que, muitas vezes, desconhece o que faz um historiador profissional. Foi uma explosão tão grande ao ponto que já não sabemos se estamos vivendo ou só vendo lives! E eu, uma brasileira que saiu do Rio de Janeiro em 1997 para estudar história da África no México e no Canadá, pude escutar, de longe, colegas que, em geral, só encontro em eventos. Associações profissionais e departamentos começaram a divulgar debates e aulas públicas em várias plataformas e sobre assuntos variados, seja a ditadura no Cone Sul, a memória da escravidão no Rio de Janeiro, a história dos movimentos fascistas e o patrimônio cultural em Pernambuco, entre vários outros. Devido à minha área de pesquisa e ensino, assisti a vários eventos sobre escravidão e história da África e aprendi muito, mesmo estando tão longe do Brasil. Conheci o trabalho de novos pesquisadores, pós-graduandos e recém doutores, e pude escutar velhos amigos, a quem admiro e estimo devido a suas trajetórias acadêmicas. Os eventos online me aproximaram da discussão acadêmica no Brasil e assisti, como muito pesar, os ataques racistas a colegas respeitadíssimos.

Eu leio, ensino e cito os estudos sobre escravidão e presença africana feitos e publicados no Brasil porque a pesquisa é referência para os historiadores no exterior. Não é bairrismo meu por ser brasileira. É a pura constatação que a pesquisa feita no Brasil é sólida, metodologicamente criativa e séria. Eu sempre me surpreendo como os estudos publicados em inglês que ignoram a produção intelectual disponível em outra língua, principalmente aquela feita pelos colegas que estão no chamado “Sul Global”. Claro que há exceções, mas é fato que a historiografia anglófona tende a ser insular e ignorar a contribuição intelectual de latino-americanos, africanos e asiáticos. Perdemos todos quando não lemos o que é publicado em outras línguas e em outros contextos acadêmicos.

A convite da Mariana Armond Dias Paes, com quem colaboro em um projeto de pesquisa, fiz a minha estreia nas lives no Instagram das @cientistas feministas. Assisti outras conversas e foi uma oportunidade maravilhosa para me conectar com pesquisadoras que conhecia de eventos ou de leituras. Aprendi muito e vi, com grande satisfação, que amigos e familiares que não são professores universitários também entravam nessas lives. Conversei com a minha mãe e minhas irmãs, que não estão no mundo acadêmico, sobre as lives das professoras Fernanda Thomaz, Fernanda Bretones e Patrícia Melo, o que sugere que há um apetite do público em geral pela história, quando bem contada e acessível. E assisti a várias lives organizadas pelo Núcleo Escravidão e Sociedade na Época Moderna, da UFAL, organizadas pelo professor Gian Carlos.

Os eventos online deixaram evidente que quem tem destaque no mundo acadêmico é o homem branco, com raras exceções, como os eventos que mencionei anteriormente. Isso é verdade para o Brasil, para os Estados Unidos, onde trabalho, ou para o México e o Canadá, dois países onde me formei, ou, ainda, Portugal e Angola, lugares que frequento com certa regularidade devido ao meu ofício. Como eu expliquei num outro texto, os manels, como são chamados os all-male panels, os painéis onde todos os oradores são homens, são alvo de críticas duras nos Estados Unidos. Jornalistas, pesquisadoras, professoras denunciam esses eventos corriqueiramente. E, como a Brigid Schulte, autora de um artigo publicado em 2017, argumentou: não há desculpas para organizar eventos sem mulheres. Historiadoras inclusive organizaram uma base de dados que, ironicamente, ajuda homens a identificar uma especialista mulher em determinado assunto. Women also know history virou um slogan e hashtag nas redes sociais. Outro site oferece ajuda a colegas homens como o juramento de jamais aceitar participar de manels. O movimento #AbajoLosManeles, organizado por estudantes da faculdade de economia da Universidad de Los Andes, tem destaque nas redes sociais e denuncia eventos acadêmicos sem mulheres. Inclusive analisa como as mulheres tendem a ser interrompidas pelos homens quando participam de eventos profissionais.

Apoiar a existência de painéis mais diversos é uma causa fácil. O diretor do National Institute of Health, nos Estados Unidos, o médico geneticista Francis Collins, já declarou publicamente que se recusa a participar desse tipo de painéis. Seria importante que os intelectuais e pesquisadores brasileiros fizessem esforços semelhantes. Infelizmente, esse não é um problema que afeta somente os eventos online durante a pandemia, mas as conferências em geral, assim como os dossiês especiais de revistas e livros organizados que não incluem uma só autora. Mulheres tendem a ser excluídas dos espaços que consagram especialistas, inclusive da lista de autores que sempre citamos ou recomendamos para os nossos estudantes.

Foto Candido

Foto: Woman working on a laptop – Creative Commons http://rawpixel.com/

A ausência de mulheres, particularmente de mulheres negras, nos eventos online, é algo preocupante e que deveria causar constrangimento a todos. E, infelizmente, não é um evento isolado. Não é o caso de um seminário, de um tema específico ou, ainda, de uma palestrante que não pôde participar de última hora. É uma invisibilidade sistemática da produção intelectual feita por mulheres em geral, e por intelectuais negrxs e indígenas, sistematicamente silenciadas. Eventos excludentes e monocromáticos sempre aconteceram nas universidades e foram normalizados, como se o espaço acadêmico fosse naturalmente branco e masculino. Lives sobre O que produz o historiador, por exemplo, parecem não compreender que há mais historiador que o homem branco. Inclusive, as lives que se propõem a discutir o fascismo caem no mesmo problema e reúnem somente homens, sem se interrogar que debate é esse que exclui tanta gente. Como pode, em um país com uma população majoritariamente parda, negra, feminina e com forte presença indígena, justificar a ausência desses grupos em eventos acadêmicos? Até em lançamentos de livros as mulheres estão excluídas. Independentemente da universidade, departamento ou associação que organiza o evento, como justificar que nenhuma professora, branca, negra ou indígena, seja considerada uma interlocutora válida? É importante estarmos atentos à inclusão regional, já que no Brasil também podemos observar uma marginalização recorrente de pesquisadores que estão fora do eixo Sul-Sudeste. Porém, essa questão não pode servir como desculpa para excluir vozes de grupos historicamente silenciados no Brasil e que constituem parcela importante das populações dessas regiões. Por exemplo, a live “Como a escravidão influenciou a organização do trabalho no passado e no presente? foi interessante, contou com um público expressivo, mas foi marcada pela ausência feminina e negra. Muitas mulheres assistiram, comentaram e interagiram com os palestrantes, no entanto, sua participação se restringiu ao live chat. Foi inevitável refletir como a dinâmica de gênero nesses eventos reproduzem o discurso de que mulheres devem ser recatadas e silenciosas.

Essa discussão sobre a falta de diversidade nos eventos online me remete ao debate sobre as cotas universitárias, quando vários ex-professores e alguns colegas de faculdade que hoje são professores universitários argumentavam que implementar as cotas nas universidades brasileiras seria importar ideias americanas. Mais grave: alguns diziam que a qualidade do ensino nas universidades públicas iria cair, afinal, como “adaptar” o alto nível de ensino das universidades públicas a um corpo discente que não estava preparado? Incluir várias vozes no debate acadêmico e na vida universitária deveria estar na agenda de todos e não ser visto como uma “moda americana”.

Foram vários os manels nos últimos meses. O debate Decadência, Atraso e Modernidade na História de Goiás: uma desconstrução reuniu seis homens que jamais se perguntaram a ironia de discutir atraso em 2020 sem incluir um interlocutor negro, indígena ou mulher. Esse não foi o único debate monocromático.Revistas em Debates: co-autoria na pesquisa de história, por exemplo, reuniu quatro editores de várias revistas especializadas: todos homens e brancos. Isso evidencia que são os homens que decidem quem publica e onde se publica, um problema que não é exclusivo do mundo acadêmico brasileiro. Não podemos fingir que esses eventos são exceções e devemos reconhecer que eles são a realidade nas universidades brasileiras, nas quais o corpo docente é majoritariamente branco e masculino. Para quem não frequenta a universidade e só assiste as lives parece que não há pesquisa feita por mulheres. Aqui, repito o título de um texto de 2018: as mulheres também sabem história!

Nas últimas semanas, eventos mais diversos pipocaram, talvez em reação aos manels. A Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros organizou uma jornada de história das mulheres negras e o História Indígena Hoje criou um espaço para a participação dos intelectuais indígenas. No dia 29 de julho, o CACH da Unicamp reuniu as professoras Lucilene Reginaldo, Debora Jeffrey, Maria Luiza Nogueira e Letícia Parks em uma conversa fantástica sobre o papel das mulheres negras no combate ao racismo. Ou seja, espaços menos excludentes começam a aparecer como, por exemplo, o curso “Emancipações e pós-abolição: por uma outra história do Brasil” e o Ciclo de Debates, História da África – Desafios e perspectivas para a pesquisa e o ensino.

Como já escrevi anteriormente, a ausência feminina dos eventos online não é um “problema de mulher”. Além disso, a falta de palestrantes negros não afeta somente os intelectuais negros. Afeta a todos nós que naturalizamos a produção acadêmica e os espaços de debate intelectual como essencialmente masculinos e brancos. A composição étnico-racial e de gênero desses eventos influencia como meninas e meninos são socializados e aspiram a carreiras. A representatividade (ou a falta dela) é algo que deveria preocupar qualquer cidadão que tenha um compromisso com a democracia e a inclusão social. Não dá para defender uma sociedade mais justa nas redes sociais ou nas ruas sem se perguntar como eu, Mariana Pinho Candido, beneficiei-me da existência de uma sociedade brasileira racista. Ou, ainda, como continuo a me beneficiar de uma imigração racista e classista, nos Estados Unidos, o que me permitiu ter um emprego de professora universitária hoje.

Perdemos todos com eventos excludentes. A exclusão feminina e/ou negra dos eventos online está alinhada com as políticas do governo atual: é retrograda e revela a falta de um compromisso sério com a inclusão. No Brasil e nos EUA, não devemos aceitar como normal departamentos de história sem historiadores negros. Ou departamentos que tenham somente um ou dois professores negros e nenhum professor indígena. Precisamos de departamentos que representem a real população brasileira e não uma população imaginada pelo grupo que está no poder.

Um dos argumentos para justificar os painéis nos quais somente homens brancos figuram ou departamentos sem a presença de intelectuais negros e indígenas é a ausência desses grupos entre os historiadores profissionais. Esse argumento é velho e foi utilizado para questionar a necessidade de implementar cotas raciais nas universidades. É o mesmo argumento utilizado para justificar a falta de contratação de professores negros nos concursos. Assim como no debate sobre as cotas raciais, o argumento é que a realidade brasileira é diferente da dos Estados Unidos e que qualquer política de ação afirmativa é uma tentativa de copiar os americanos. Qualquer mudança é desconfortável e exige repensar privilégios e nosso papel na perpetuação das desigualdades. E, assim, mobilizando esses discursos, o assunto é empurrado com a barriga e as desigualdades continuam como estão, como se fossem naturais e incapazes de serem modificadas.

Somos todos responsáveis pela falta de diversidade nos departamentos e nas associações profissionais. Somos coniventes quando não citamos mulheres, quando não nos preocupados com a desigualdade de gênero ou étnico-racial nos eventos que organizamos. Somos coniventes quando somente incluímos especialistas do sexo masculino nos programas de nossos cursos de graduação ou pós-graduação, quando o nosso diálogo é somente com homens ou quando somos incapazes de lembrar o nome de especialistas negrxs. Também quando argumentamos, com convicção, que não há mulheres e/ou algum intelectual negro ou indígena que já escreveu sobre o assunto. Se você não conhece uma autora, talvez seja a hora de expandir seus horizontes. Pode começar por aqui, onde poderá encontrar o nome de várias professoras brasileiras.

Os eventos online, seja no Instagram, Facebook ou YouTube são uma oportunidade excelente para incluir mais vozes e democratizar a produção dos historiadores, principalmente em um momento em que a universidade pública está sob ataque. Ao divulgar e participar de eventos só com pesquisadores homens ou brancos nos alinhamos com o atual governo. É preciso agir para aumentar a inclusão de mulheres, negros e indígenas em todas as esferas acadêmicas, como forma de resistência à onda conservadora no Brasil e no mundo. Talvez a exclusão não seja intencional, mas está introjetada de tal modo que quem participa desse sistema de omissão não percebe que, ao fazê-lo, colabora para perpetuar exclusões de gênero e étnico-raciais. Somos todos coniventes com os silenciamentos e omissões.

Todo pesquisador quer que o evento que organizou tenha destaque nas redes sociais. Ao incluir mais nomes e vozes, os comentários serão sobre a qualidade dos palestrantes ou a temática e não sobre a homogeneidade dos oradores.

* Mariana P. Candido é professora (Associate Professor) de história da África na Emory University, em Atlanta (EUA), desde julho de 2020. Anteriormente, deu aulas na University of Notre Dame, University of Kansas, Princeton University e University of Wisconsin-La Crosse. Concluiu o doutorado em história da África na York University, Canadá, e o mestrado em estudos africanos no El Colegio de México, México. Publicou duas monografias:  Fronteras da Escravização (Benguela: Universidade Katyavala Bwila, 2018) e  An African Slaving Port and the Atlantic World: Benguela and its Hinterland (Cambridge University Press, 2013). Organizou, com Adam Jones, African Women in the Atlantic World. Property, Vulnerability and Mobility, 1680-1880 (James Currey, 2019); com Carlos Liberato, Paul Lovejoy e Renée Soulodre-La France, Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos (Museu Nacional da Escravatura/ Ministério da Cultura, 2017); e, com  Ana Lucia Araujo e Paul Lovejoy,  Crossing Memories: Slavery and African Diaspora (African World Press, 2011). Em colaboração com Eugénia Rodrigues, organizou o número especial “Cores, classificações e categorias sociais: os Africanos nos impérios ibéricos, séculos XVI a XIX”, na Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, n. 3 (2018) e “African Women’s access and rights to property in the Portuguese Empire”, na African Economic History, vol. 43 (2015). Desde 2016, é uma das editoras da African Economic History e faz parte do conselho editoral da History in Africa.

 

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A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da Covid-19.

Imagem 1: http://anamontenegro.org/cfcam/2020/03/30/mulheres-e-a-pandemia-de-covid-19/. Acesso em: 23/06/2020.

Julho, 10, 2020|IANYCOSTA

Não é de hoje que as mulheres têm se organizado coletivamente para enfrentar as estruturas em busca de melhores condições de vida, bem como pela conquista de direitos sociais e a viabilidade de políticas públicas que tem o gênero como prisma identitário. Em uma arqueologia da construção social da figura da mulher na sociedade ocidental, a emergência do Movimento Feminista na segunda metade do século XIX, primeiro na Europa, depois em outros lugares do mundo, teve um impacto decisivo na mudança da figura da mulher como sujeito do lar para a mulher que ocupa diferentes esferas sociais. Vale lembrar que na cerne do feminismo clássico estas mulheres eram majoritariamente brancas, heterossexuais e de classe média, e suas demandas e reivindicações passavam longe das lutas das mulheres de cor [1] que passaram a vivenciar uma zona do não-ser dentro deste movimento, legando-as à necessidade urgente da construção de outros lugares de fala que visibilizassem suas pautas.

Por isso, em meio às sucessivas ondas do Movimento Feminista enquanto coletivo, mas também como epistemologia [2], o feminismo negro, seguido do feminismo indígena e do feminismo decolonial [3] durante o século XX e nas primeiras décadas do século XXI, nas Américas e no Caribe, vem construindo um lugar de resistência, ou melhor, r-existência que perpassa a negação do “torna-se mulher” a partir do pensamento de Simone de Beauvoir, visto que nem todas as mulheres tem historicamente sua condição de sujeito reconhecida, que dirá terem direitos. Portanto, ao pautarem suas falas na denúncia da invisibilidade, do abandono e da negação de direitos sociais que violam diretamente os direitos humanos e tem na lógica da política neoliberal orquestrada por um Estado do qual a necropolítica [4] é palavra de ordem, encontram um lugar comum [5] de enfrentamento às diversas formas de violência que grafam seus corpos em um feixe interseccional [6] de gênero, classe e raça.

Enquanto mulheres que compartilham uma cidadania insurgente [7] no Brasil, principalmente, no pós-88, diferentes coletivos de mulheres feministas ligados às universidades e ao movimento social se estruturam para construir lugares de apoio, de fala e de produção de conhecimento no intuito de acolher, empoderar e contribuir para a asseguração de direitos e a transformação das vidas de outras mulheres em situação de vulnerabilidade social. Por isso, em tempos da pandemia da Covid-19 que tem grafado a monstruosa desigualdade social no Brasil [8], estes coletivos tem assumido um lugar vazio da política de assistência social que tem sido desestruturada desde o golpe de 2016 e se evidencia com o recorte interseccional do avanço da doença e suas mazelas.

Com isso, buscando trazer as experiências destes coletivos, sem ter a intenção de resumir suas ações devido às limitações deste texto, citamos exemplos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil, como no estado da Paraíba o Coletivo de mães Pachamamá [9] que tem através de campanhas solidárias distribuindo cestas básicas, kits de higiene e enxovais para mães de diferentes comunidades periféricas de João Pessoa, o Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba [10] em parceria com o fundo Baobá tem oferecido cursos online no intuito de articular mulheres lideranças comunitárias para o fortalecimento de seus territórios. No estado de Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, o Coletivo Mulher eu sou [11] formado por mulheres capoeristas da nação Angola, tem usado da medicina popular para a produção de remédios naturais para aumentar a imunidade e fortalecer o sistema respiratório das mulheres vulneráveis na cidade. No estado do Rio de Janeiro, na cidade de Niterói, o GT “mulheres na ciência” da Universidade Federal Fluminense [12], vem organizado uma campanha coletiva para o apoio a mães estudantes da graduação e da pós-graduação desta universidade com o intuito de garantir segurança alimentar e ajuda financia em tempos de pandemia.

De diferentes modos os coletivos de mulheres feministas vêm atuando em seus territórios no intuito de apoiar outras mulheres vulneráveis. Embora com limitações econômicas e geográficas, suas ações tem impactado diretamente na vida de outras mulheres, para além do apoio alimentar, financeiro, intelectual, etc. A articulação desses coletivos trazem a sonoridade e o conforto de não estar sozinha no enfrentamento ao Covid – 19. Com isso, a importância destes coletivos perpassa a discussão de outras questões estruturantes como o racismo, o machismo e o sexismo e seus efeitos na violação dos direitos das mulheres. Sendo estes coletivos um elo entre a militância, a episteme e a vida prática, pois, ao saírem de suas casas, deixando suas famílias em meio à pandemia para buscar ajudar outras famílias, estas mulheres em marcha nos demonstram que sonoridade e solidariedade são sinônimos, a partir, do momento que o flagelo do outro passa a importar para você. Se “a revolução será feminista ou não será” [13], então, que sejamos nós mulheres que em tempos de ameaças aos direitos e de pandemia, mais uma vez sustentemos a pisada [14] no apoio mútuo a outras mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil.

Se puder fique em casa, se puder ajude a ajudar outras mulheres, cuide de si e da próxima.

Referências.      

[1] Para Lugones (2014) “mulheres de cor” são mulheres latinas dos Estados Unidos, asiáticas, chicanas, afro-americanas ou indígenas norte-americanas que vivenciam a violência e exploração do Estado pós-colonial e tem seus corpos oprimidos pela colonialidade de gênero que as condiciona a categoria de não sujeitos. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[2] ALCOFF, L. M. Uma epistemologia pra a próxima revolução. Revista Sociedade e Estado, UNB, v. 1, Jan/Abr, 2016, pp. 129-143.

[3] CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: ASHOKA Emprendimentos Sociais: Takano Cidadania (orgs). Racismos Contemporâneos. RJ: TAKANO, 2003, pp. 49-58. GELEDES, Portal, Conheça um pouco sobre o feminismo indígena no Brasil e sua importância. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/conheca-um-pouco-sobre-feminismo-indigena-no-brasil-e-sua-importancia/>. Acesso em: 20/06/2020. KAXUYANA, ValériaPaye Pereira; SILVA, Suzy Evelyn de Souza. A Lei Maria da Penha e as mulheres indígenas. In: VERDUM, Ricardo (Org.). Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas. Brasília: Inesc, 2008. LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22 (3): 320, Setembro-dezembro, 2014. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36755>. Acesso em: 15/06/2020.

[4] MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169>. Acesso em: 12/06/2020.

[5] DARDOT, P; LAVAL. C. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Trad. ECHALAR, N. 1ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

[6] CRENSHAW, K. W. Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres não-brancas. 2017 [1993] Trad. Carol Correia. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/mapeando-as-margens-interseccionalidade-politicas-de-identidade-e-violencia-contra-mulheres-nao-brancas-de-kimberle-crenshaw%E2%80%8A-%E2%80%8Aparte-1-4/>. Acesso em: 10/06/2020.

[7] Segundo Holston (2013, p. 22): possuímos: “uma cidadania que administra as diferenças sociais legalizando-as de maneira que legilitimam e reproduzem as desigualdades”, sendo a articulação dos movimentos sociais frente a uma cidadania desigual caracterizada como uma cidadania insurgente que visa a conquista de direitos negados e a desestabilização desse sistema excludente. HOLSTON, J. Cidadania insurgente: disjunções da democracia e da modernidade no Brasil. 1 ed. São Paulo Companhia das Letras, 2013.

[8] Instituto Socioambiental, Desigualdade racial é evidenciada na pandemia da Covid – 19 (08/05/2020). Disponível em: < https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-monitoramento/desigualdade-racial-e-evidenciada-na-pandemia-da-covid-19>. Acesso em: 08/06/2020. GOES, E. F; RAMOS, D. de O; FERREIRA, A. J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde. (versão On-line), vol. 18, no. 3, Rio de Janeiro 2020, (29/05/2020). Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462020000300301>. Acesso em: 16/06/2020.

[9] Página em redes sociais do Coletivo de mães Pachamamá Disponível em: <ttps://www.instagram.com/coletivo_pachamama/>. Acesso em: 18/06/2020.

[10] Página em redes sociais do Abayomi – Coletiva de mulheres negras da Paraíba Disponível em: < https://www.facebook.com/abayomi.pb/>. Acesso em: 19/06/2020.

[11] Informação sobre a atuação do Coletivo Mulher eu sou. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2020/03/22/coronavirus-mulheres-capoeiristas-distribuem-remedios-naturais-nas-periferias-de-bh>. Acesso em: 10/05/2020.

[12] Página em redes sociais do Núcleo Interseccional de Estudos da Maternidade do qual faz menção a uma atividade do GT “Mulheres na Ciência” da Universidade Federal Fluminense – UFF. Disponível em:<https://www.facebook.com/nucleoniem/posts/455142188623367>. Acesso em: 15/06/2020.

[13] VILELA, E. A revolução será feminista ou não será. In: Página da Web – O Jornal de Todos os Brasis.  Disponível em: <https://jornalggn.com.br/artigos/a-revolucao-sera-feminista-ou-nao-sera-por-elenira-vilela/>. Acesso em: 16/06/2020.

[14] Usando da licença poética parafraseamos a música de Jacinto Silva “Pisa Madeiro” muito usada em protestos de diversos movimentos sociais na cidade de João Pessoa. Disponível em: https://www.letras.mus.br/jacinto-silva/1841563/. Acesso em: 04/07/2020.

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Coronavirus, Pós-Graduação e Maternidade no Brasil: um difícil diálogo.

MAIO 11,2020| @ianycosta

Imagem 1: https://www.eucurtosermae.com.br/2016/12/vida-de-mae-academica.html. Acesso em: 14/04/2020.

O Coronavírus está fazendo sua escala ascendente de vítimas no Brasil e no mundo [1]. Muito se tem dito sobre sua origem, embora não haja um consenso entre os cientistas. Sabemos que esse vírus sofreu mutação, apresentando significativa letalidade e o seu contágio é rápido. Como não existe um tratamento eficaz comprovado para enfrentar a pandemia, o isolamento social é a única alternativa para conter o contágio. No Brasil, entre brigas de poder e de ego, estamos vivenciando os embates entre os entes federativos, alguns embasados pela ciência e outros pelos fakes news para sabermos se continuamos ou não com isolamento. Felizmente para a maior parte dos nossos governantes e sanitaristas estamos em isolamento social até a segunda ordem.

Deste modo, em meio a um isolamento necessário se levantam muitas questões e incertezas, nunca em nossa história recente tivemos que nos recolher, estar em casa com os nossos (quando se têm casa). O que denota o grande abismo social brasileiro que em meio à pandemia torna-se cada vez mais evidente [3]. Por essa razão nunca foi tão urgente se efetivar a política de renda básica universal [4], não apenas um atenuante provisório como o concedido pela lei 13.982/20.

Neste cenário, onde estão as universidades públicas do Brasil? Em sua maioria integram a frente da pesquisa sobre a doença e medidas de segurança em diferentes formas [5]. E os discentes? Da graduação à pós-graduação estão em casa (na medida do possível/impossível), com a suspensão das aulas, algumas universidades tem adotado a suspensão do Calendário Acadêmico 2020 para a Graduação [6]. E a pós onde entra? Não entra, na verdade, a pós nunca para e com isso os prazos também não. É bem sabido que nós pós-graduandas e cientistas brasileiras nunca vivemos um momento tão ruim, não apenas por conta do vírus, mas também por uma política que se estabeleceu na Educação do qual não fazemos ciência, fazemos balbúrdia!

E como boas balburdiadoras que somos, estamos remando contra a maré, mas como continuar com laboratórios fechados e pesquisas paradas? O espaço do lar é para todas lugar de produção científica? Estas perguntas são latentes frente a mais um corte de bolsas de pesquisa [7]. Como seguir produzindo sem bolsas, em casa e para muitas com filhas/os precisando de atenção? Para as mães na pós-graduação como prosseguir produzindo e ao mesmo tempo dar conta dos filhos/as?

Em um cenário de incertezas, a única certeza são os prazos, pois a pós-graduação no Brasil não é mãe, ela é carrasca. Então, para muitas mães como a que vos escreve, estamos vivenciando a difícil tarefa de conciliar prazos e cuidados d@s filh@s, é certo que nessas horas a sobrecarga e medo de não dar conta são companheiras de escrita e pesquisa.

Uma situação que se soma a “via crucis” da bolsa de pesquisa no Brasil, que para as que são bolsistas a luta é para não perder, mas para aquelas que não conseguiram a bolsa a possibilidade deste fomento está cada vez mais distante. Deste modo, em um momento necessário de isolamento social por conta da COVID-19, sustentar a pisada de se manter na pós, sem deixar a maternidade de lado torna-se um balé equilibrista. Quem poderá socorrer a nossa saúde mental?

E a posição das agências de fomento qual é? [8] estendem prazos de defesa para bolsistas, juntamente com a prorrogação das bolsas por igual período [9], mas não contemplam as não bolsistas e continuam a pressionar por produtividade. Por isso a necessidade de nos unirmos para resistir a mais uma avalanche. Li recentemente um artigo sobre o direito a procrastinar na quarentena [10], temática relevante mas que na pós-graduação não tem espaço, assim como ser mãe e pós-graduanda também não.

Com isso, nunca foi tão necessário discutir como tem se pautado as políticas da pós-graduação no Brasil. Em um momento em que o século XXI está ruindo [11], muito tem se falado de como será o mundo pós-COVID-19. Eu me pergunto como ficam as nossas pesquisas e prazos hoje? Quem der conta do recado receberá um singelo “parabéns” e aquelas que ficarem no caminho?

Em tempos de Coronavírus, nunca foi tão importante resistir, ou melhor, r-existir e lutar para permanecer na pós-graduação brasileira, não só por nós, mas por noss@s filh@s, por outra forma de sociedade, outra forma de pós-graduação onde o sujeito seja visto para além dos prazos. O Coronavírus veio para trazer muitas dúvidas, medos, mas importantes lições e a primeira delas é que a vida é o bem mais precioso. Por isso, se somos nós mulheres que geramos a vida, então que lutemos para que a nossa vida e nossa saúde mental dentro das pós-graduações brasileiras, sejam valorizadas além dos muros que a pontuação no Sucupira insiste em estabelecer!

Referências

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-17/ao-vivo-ultimas-noticias-sobre-o-coronavirus-no-brasil-e-no-mundo.html. (17/04/2020).

[2] https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9 (14/04/2020).

[3] https://www.brasildefato.com.br/2020/04/05/preocupacao-de-bolsonaro-com-o-combate-a-fome-e-falsa (07/04/2020).

[4] https://www.cartacapital.com.br/politica/precisamos-garantir-renda-basica-para-todos-os-brasileiros-defende-suplicy/ (05/04/2020).

[5] https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/04/de-norte-a-sul-a-corrida-das-universidades-publicas-contra-a-covid-19/ (02/04/2020)

[6] http://portais.univasf.edu.br/seac-gr/noticias-seac-gr/univasf-mantem-suspensao-do-calendario-academico-devido-a-pandemia-da-covid-19 (06/04/2020).

[7] https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/portaria-da-capes-corta-bolsas-de-diversos-programas-de-pos-graduacao1 (01/04/2020).

[8] http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-36-de-19-de-marco-de-2020-249026197 (12/04/2020).

[9] https://www.capes.gov.br/36-noticias/10295-capes-prorroga-a-duracao-das-bolsas-de-mestrado-e-doutorado (30/04/2020).

[10] https://medium.com/@rntpincelli/quarentena-porque-vc-deveria-ignorar-toda-a-pressao-para-ser-produtivo-agora-3f4f0b8378ae (15/04/2020).

[11] https://jornal.usp.br/artigos/covid-19-o-nascimento-de-um-novo-seculo-e-os-laboratoriossociais/?fbclid=IwAR3Q3UAUAC2gcbUN_e12MoV7PRKk4I_zY_nCiZhUVL7sx0rxX3nx2W1Pnw (16/04/2020).

BRASIL. Decreto 10.316/2020.  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/D10316.htm  (08/04/2020). 

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Dia Internacional da Mulher

Créditos da ilustração: Mariana Reis

Em 2020, o tema do Dia Internacional da Mulher é sobre igualdade de gênero com a campanha internacional #EachforEqual. Aqui no Brasil, a organização ONU Mulheres lançou a campanha “Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”. Em especial, a comunidade global fez um balanço dos avanços alcançados nos direitos das mulheres desde a adoção da Plataforma de Ação de Pequim, que é um dos documentos reconhecidamente mais progressistas para o empoderamento de mulheres e meninas no mundo inteiro. Entretanto, os resultados deste balanço mostram que os progressos na direção da igualdade de gênero têm sido muito lentos, e pior, que os difíceis ganhos enfrentam ameaças

Apesar de alguns avanços na igualdade de gênero em muitos lugares do mundo, mulheres e meninas continuam sendo discriminadas e subvalorizadas: trabalhamos mais, ganhamos menos e temos menos opções. Continuamos sendo expostas a várias formas de violência em casa e em lugares públicos. 

Nas Ciências e áreas acadêmicas, continuamos sendo sub-representadas, especialmente em posições de liderança na pesquisa. Continuamos sofrendo os maiores impactos ao conciliar maternidade e família com produção e avanço na carreira. Continuamos sofrendo com machismo, estereótipos de gênero, transfobia, homofobia e discriminação racial

São muitos os problemas a serem enfrentados para se conseguir mudanças reais na direção da igualdade de gênero. Mas também há boas notícias, como o aumento da participação de mulheres na ciência brasileira; mulheres cientistas liderando pesquisas de grande impacto, como por exemplo, o sequenciamento do Coronavírus, os estudos da relação da microcefalia com o Zika vírus e busca por ondas gravitacionais. Além disso, duas cientistas apareceram pela primeira vez na lista Forbes de mulheres mais poderosas do Brasil. Para ler sobre mais cientistas brasileiras inspiradoras, veja o site Open Box.              

A luta por igualdade é diária. O 8 março é importante para lembrar que não estamos sozinhas e que a causa não está perdida. Muitas outras mulheres estão nessa luta e outras virão. Ter esse dia é importante para lembrar que somos muitas e lutamos para que as mulheres e meninas vivam em um mundo que lhes permita ser quem elas desejarem. Especialmente, como Cientistas Feministas, lutamos para que cada vez mais mulheres possam entrar e permanecer nas Ciências.

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Você sabe o que é colorismo?

Estudo mostra as chances de um indivíduo ser preso a depender da cor de sua pele

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Créditos da Imagem: Photo by Yunming Wang on Unsplash

O termo colorismo pode ser conceituado como as consequências sociais diferenciais entre indivíduos brancos e negros, de modo que, quanto mais próximo da pele branca com características eurocêntricas, melhores as consequências. Tais consequências vão desde as chances de estudar, conseguir emprego e obter bons salários, até a probabilidade de ser considerado bonito/desejado e de um indivíduo se casar. Assim, pessoas com pele mais clara possuem chances aumentadas de obter coisas positivas, como educação, emprego e bons salários, e chances menores de obter coisas negativas, como ser abordado por um policial, ser preso ou ser sentenciado a muitos anos de prisão. De modo inverso, quanto mais escura a pele de uma pessoa, maiores as chances de sofrer uma abordagem policial, da pessoa ser presa e sentenciada a muitos anos de prisão, enquanto suas chances de obter educação, saúde e emprego são menores (e.g., Dixon & Telles, 2017).

Um ponto importante quando se fala de colorismo é que tal concepção pode se sobrepor ao conceito de raça e racismo em alguns contextos e/ou em algumas culturas: por exemplo, na sociedade brasileira, onde se utiliza a cor da pele (além de outros traços fenotípicos, como a textura do cabelo e o formato do nariz e da boca) como o principal indicador da raça de um indivíduo, cor e raça são tidos como sinônimos em vários contextos. Em outras culturas, como a estadunidense, onde o principal critério para saber a raça de um indivíduo é a hereditariedade (embora estes outros traços fenotípicos também sejam utilizados em alguns contextos), cor e raça são mais distintos que similares (embora possa haver alguma sobreposição).

Ampliando a literatura sobre o tema, Amelia Branigan, Christopher Wildeman, Jeremy Freese e Catarina Kiefe publicaram um estudo na revista Social Science Research investigando as chances de homens brancos e negros estadunidenses serem presos utilizando um banco de dados para análise. Sendo a pesquisa realizada nos Estados Unidos, é importante ressaltar que, nessa cultura, o conceito de colorismo operando como um contínuo de consequências sociais diferenciais, é geralmente adotado para se referir às minorias (especialmente às pessoas negras), de modo que se assume que a diferença no tom da pele branca não estaria relacionada a essas consequências diferenciais.

Para realizar a análise, utilizou-se dados obtidos no estudo de coorte “Coronary Artery Risk Development in Young Adults” (CARDIA – em português, Risco de Desenvolvimento de Artéria Coronária em Jovens Adultos) de quatro cidades: Birmingham – Alabama, Chicago – Illnois, Minneapolis – Minnesota, Oakland – California. Foram analisados os dados sobre raça, sexo, idade e nível educacional dos respondentes. Na primeira aplicação do questionário (realizada entre 1985 e 1986), os respondentes diziam se tinham sido presos no ano anterior. Na segunda aplicação (1987-1988), a pergunta era repetida, porém sem a limitação temporal.

A medida da cor da pele dos respondentes foi obtida na quarta aplicação (1992-1993), utilizando um espectrofotômetro. Esse instrumento mede a refletância da pele, de modo que, quanto maior a refletância da pele, mais clara ela é (nesse sentido, quanto maior a refletância, a pessoa seria “mais branca” na nossa concepção). O local de aplicação do espectrofotômetro foi a parte interna do antebraço, local onde raramente se pega sol, de modo que, para os experimentadores, refletiria a cor “constitutiva” de cada participante. Uma vez que existe uma correlação entre nível socioeconômico e negritude, o estudo controlou o cargo ocupado pelos respondentes, o nível educacional obtido pelos pais dos respondentes e por eles mesmos, de modo que as diferenças encontradas foram devido a cor do respondente, e não seu nível socioeconômico. Os dados analisados foram de 888 homens brancos e 703 homens negros.

Em resumo, os resultados mostraram que o nível de refletância da pele está associado a probabilidade de ser preso somente para os homens brancos (p<0.01); independentemente da cor, os homens negros tinham a mesma probabilidade de serem presos (uma probabilidade, no entanto, bem mais alta que a dos homens brancos, é importante mencionar). Ao analisar a probabilidade de ser preso pelo percentil de refletância da pele, verificou-se que, entre os homens brancos cuja pele possuía refletância semelhante à do negro de pele mais clara, a probabilidade de prisão se assemelhava a das pessoas negras.

Esses resultados são importantes, uma vez que mostram 1) que o racismo atinge também pessoas brancas, mesmo em um país como os EUA, onde a raça é formalmente classificada mais por conta da hereditariedade do que por meios fenotípicos; 2) que, apesar dessa formulação, em decisões rápidas, como a de uma abordagem policial, os policiais estadunidenses se pautam mais nas características fenotípicas para realizar ou não uma abordagem e/ou prisão e 3) que um indivíduo negro, mesmo de pele clara, tem a mesma chance de ser preso do que um negro retinto. Achados de pesquisas anteriores, que mostraram que brancos com características afrocentradas têm maiores chances de serem presos e de terem maiores sentenças que indivíduos brancos com traços eurocêntricos apoiam tais resultados. Uma das limitações do estudo foi o fato que os dados analisados foram obtidos há 30 anos, duas décadas após a Lei dos Direitos Civis, que eliminou formalmente as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Apesar disso, tais dados são relevantes, uma vez que é nítido que o racismo é um fenômeno presente tanto nos EUA quanto no Brasil, como mostram as inúmeras notícias de agressões verbais e físicas a indivíduos negros/de pele escura quase que diariamente.

Quer saber mais? Leia o estudo na íntegra:

Branigan, A. R., Wildeman, C., Freese, J., & Kiefe, C. I. (2017). Complicating colorism: Race, skin color, and the likelihood of arrest. Socius: Sociological Research for a Dynamic World, 3, 1-17. doi: 10.1177/2378023117725611

Referência

Dixon, A. R., & Telles, E. E. (2017). Skin color and colorism: Global research, concepts, and measurement. Annual Review of Sociology, 43(1), 405–424. doi:10.1146/annurev-soc-060116-053315

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Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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Formas efetivas de reduzir vieses masculinos na linguagem

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Na língua portuguesa, aprendemos que se usa o masculino para se referir ao plural de várias palavras (e.g., todos, para um grupo com homens e mulheres), assim como para se referir a humanidade (e.g., o homem). Isso ocorre em outras línguas também, e durante muito tempo não se questionou possíveis problemas com essa forma de utilizar a linguagem. Entretanto, críticas a masculinização do universal começaram a surgir, apontando possíveis alternativas para que a linguagem não tenha um viés androcêntrico. Nesse sentido, se propôs, por exemplo, utilizar palavras com gênero neutro, mas alguns estudos têm mostrado que mesmo essas são associadas com masculinidade/homem. A busca de alternativas efetivas continua sendo, portanto, uma pergunta cujos pesquisadores e pesquisadoras precisam se debruçar para responder.

Levando em consideração o número baixo de estudos que investiguem formas de amenizar o chamado viés masculino da linguagem (suposição de que uma pessoa, descrita por meio de uma palavra que não permite definir seu sexo, é um homem), as pesquisadoras Anna Lindqvist, Emma Renström e Marie Sendén investigaram experimentalmente algumas alternativas propostas na literatura, fruto de discussões entre principalmente, mas não exclusivamente, grupos de feministas e de LGBTs.

De acordo com as autoras do estudo, até o momento, existem duas propostas de reforma da língua com o intuito de gerar uma linguagem justa com relação aos gêneros, ou seja, uma linguagem inclusiva, independentemente da identidade de gênero de cada indivíduo: a feminização e a neutralização. O objetivo da proposta de feminização é dar visibilidade para o feminino. Um exemplo de sua utilização é utilizar eles/elas ou todos/todas para se referir a um grupo de pessoas. A segunda estratégia é de neutralização, cujo objetivo é reduzir dicas que possam levar ao entendimento de que certa palavra se refere a um homem. Um exemplo dessa estratégia é a mudança das palavras, em inglês, “fireman” para “firefighter” (bombeiro). Outro exemplo de neutralização constitui na criação de novas palavras, como se pode ver, no Brasil, na palavra “menine”, usada para se referir à meninos e meninas (e inclusiva também para indivíduos não-binários[1]).

A pesquisa buscou investigar ambas estratégias, utilizando palavras em sueco e em inglês. No Estudo 1, 417 estudantes de uma universidade sueca participaram da pesquisa (303 mulheres, 85 homens e 25 com identidades de gênero não-binárias). Os/as participantes foram informades que a pesquisa era sobre avaliação de candidatos para empregos em situações de recrutamento. A tarefa consistia em ler uma pequena descrição de determinado/a candidato/a e dizer, em seguida, qual de quatro fotos de candidatos/as (dois homens e duas mulheres) os/as participantes achavam que correspondia a descrição. O emprego utilizado foi de corretor de imóveis, uma profissão na qual homens e mulheres trabalham em uma mesma proporção na Suécia. As fotos utilizadas foram pareadas em termos feminilidade, masculinidade, nível de atratividade, expressão emocional e idade.

Os/as participantes liam uma de três versões da descrição, sendo uma de feminização e duas de neutralização. Na estratégia de feminização, utilizou-se o equivalente a ele/ela na descrição do/a candidato/a (han/hon). Na estratégia de neutralização 1, utilizou-se as palavras “the applicant” (candidato/a) e, em seguida, “NN” (Latim para ‘não sei o nome’). Na segunda estratégia de neutralização, utilizou-se uma palavra recente cujo gênero é neutro, “hen”. Apesar de ser uma palavra relativamente nova, as autoras afirmaram que mais de 95% da população conhece a palavra, devido aos debates sobre as justificativas a favor e contra o uso desta.

Os resultados desse estudo mostraram que o uso das palavras supostamente neutras “the applicant” e “NN” geraram vieses masculinos, ou seja, mais da metade dos/das participantes que eram dessa condição disseram que o/a candidato/a era um dos homens das fotos. Em contraste, o uso do par “ele/ela” e da palavra neutra “hen” ambas eliminaram o viés racial. Isso significa que as fotos dos homens e das mulheres receberam, aproximadamente, 50% de votos cada.

No Estudo 2, 411 participantes estadunidenses (145 mulheres, 252 homens, 5 mulheres trans, 4 homens trans, 3 com identidades de gênero não-binárias, e 2 que não indicaram o gênero) participaram da pesquisa. Houveram duas diferenças do primeiro para o segundo experimento: as palavras utilizadas para denotar o/a candidato/a e um questionário para ver o quão familiar era a palavra “ze”. Na estratégia de feminização, foi utilizado o par ele/ela (he/she). Na estratégia de neutralização 1, foram utilizadas as palavras “the applicant” (candidato/a) e o “they” no singular[2]. Na segunda estratégia de neutralização, “hen” foi substituído pela palavra “ze”, uma palavra criada recentemente para denotar gênero-neutro no contexto dos Estados Unidos.

Novamente, os resultados mostraram que o uso das palavras “the applicant” e “they” no singular geraram um viés masculino. Ou seja, foi necessário usar o par ele/ela (he/she) ou a palavra “ze” para eliminar esse viés. Não houve diferença nos resultados dos/das participantes que não eram familiares com ze, em comparação com os/as que eram. Esse resultado faz sentido, uma vez que o entendimento de novas palavras se dá pelo contexto.

Esses resultados são importantes, principalmente para quem advoga a favor da criação de novas palavras que denotem gênero neutro, uma vez que mostram que palavras já existentes na literatura, embora supostamente consideradas neutras, podem ser entendidas como masculinas. Esse é, inclusive, um dos argumentos de quem é contra a criação de novas palavras de gênero neutro: afirmar que já existem palavras que expressam neutralidade de gênero. O uso do par ele/ela, embora não tenha gerado um viés masculino, ainda dicotomiza os gêneros em dois, sendo, portanto, não inclusivo aos indivíduos não-binários.

Apesar de parecer apenas um detalhe na linguagem, sem implicações práticas na vida das pessoas, as experimentadoras apontam pesquisas indicando que o uso da linguagem pode aumentar a probabilidade de mulheres se candidatarem a certos empregos, sem contar os efeitos psicológicos da negação da identidade de gênero no caso de indivíduos trans. Nesse sentido, essa é uma linha de pesquisa importante do ponto de vista científico e social, especialmente quando se leva em consideração a luta contra a desigualdade de gênero e a inclusão de indivíduos não-binários.

Quer saber mais?

Lindqvist, A., Renström, E. A., & Sendén, M. G. (2018). Reducing a male bias in language? Establishing the efficiency of three different gender-fair language strategies. Sex Roles. Online First Publication. doi: 10.1007/s11199-018-0974-9)

[1] Não-binário é um termo utilizado para descrever indivíduos cuja identidade de gênero não se conforma na dicotomia masculino-feminino.

[2] Uma das estratégias utilizadas pelo movimento LGBT é utilizar a palavra “they”, já existente no vocabulário, embora tradicionalmente para se referir a eles e elas, para identificar indivíduos não-binários ou trans. Nesse caso, é utilizado o “they” no singular (he/she/it/they is).

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8Março2019: Dia histórico em Portugal!

Um dia histórico e emocionante – será assim que o dia 8 de Março de 2019 será lembrado, por muitas das mulheres que o viveram em Portugal. Neste dia que assinala o Dia Internacional da Mulher estavam marcadas manifestações em 13 cidades (Albufeira, Amarante, Aveiro, Braga, Coimbra, Covilhã, Chaves, Fundão, Lisboa, Ponta Delgada, Porto, Vila Real e Viseu) para reivindicar igualdade de direitos e para protestar contra as violências praticadas contra as mulheres, num ano que se iniciou particularmente trágico, porque em dois meses foram assassinadas 12 mulheres, pelos seus companheiros [1].

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Porto, foto de Helena Ferreira 

Estava, também, marcada uma greve feminista inédita, em solidariedade com a greve internacional, que se concretiza com bastante sucesso, pelo terceiro ano consecutivo, em países como Espanha, Argentina e Itália. Andrea Peniche, de “A Coletiva” e da “Rede 8 de Março”, explica que esta “não é uma greve como as outras, é uma greve social, que coloca no centro a realidade da vida das mulheres, para perceber o significado do conceito “trabalho”” e “que se organiza em quatro eixos fundamentais: greve ao trabalho assalariado, greve ao trabalho doméstico e dos cuidados, greve ao consumo e greve estudantil” e explica, por miúdos, que neste país ainda: 1. enfrentamos uma justiça machista, que culpa as vítimas e desculpabiliza os agressores; 2. trabalhamos 58 dias sem receber, porque os nossos salários são mais baixos do que os dos homens quase 16%; 3. somos o principal rosto da pobreza; 4. não temos direito a lazer, porque acumulamos o trabalho assalariado com o trabalho doméstico e dos cuidados; 5. trabalhamos mais duas horas diárias que eles nestas tarefas, ou seja, dedicamos-lhe 4h30 por dia; 5. e continuamos a ser objectificadas, mercadorizadas e invisibilizadas. Por tudo isto “não queremos flores, queremos direitos” [2].

 

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Lisboa, foto de Bruno Góis 

É ainda Andrea Peniche que salienta que o movimento sindical foi desafiado a juntar-se a esta greve, mas houve apenas cinco pré-avisos: do Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal (Sieap), do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), do Sindicato dos Trabalhadores de Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSS), do Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC ) e do Sindicato de todos os Professores (STOP) —, permitindo que só as mulheres (e homens, se o desejassem) que trabalham nestas diferentes áreas pudessem parar de trabalhar legalmente.

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Coimbra, foto de Daniel Sansão 

Patrícia Martins, também da “Coletiva” e da “Rede 8 de Março” e uma das maiores dinamizadoras do movimento [3], a nível nacional, que coloca na ordem do dia os problemas da desigualdade e da violência contra as mulheres e exige respostas, salienta que “muitas mais mulheres gostariam de ter feito greve, mas não lhes foi possível. Espera-se que para o ano o dia seja de greve geral”.

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Em Vila Real, foto de Gil Rego

Quanto ao facto deste dia 8 ficar na história como o que uniu milhares de pessoas (20 000 em Lisboa, 7 000 no Porto, 500 em Braga, e as restantes pelas outras localidades), principalmente mulheres, nas lutas feministas revela que “este é o resultado de um processo de mobilizações feministas que têm acontecido no Porto, nos últimos dois anos, desde a Marcha das Mulheres, como as concentrações em frente ao Tribunal da Relação do Porto (para protestar contra a justiça machista) e outras que se têm realizado devido à persistência de uma cultura de violação em Portugal”.

Para o ano esta organização pretende aumentar o nível de participação nas manifestações e organizar a maior greve feminista alguma vez realizada em Portugal, porque “se as mulheres param, o mundo pára”.

Até lá, queremo-nos vivas, livres e unidas!

[1] https://www.dn.pt/pais/interior/dois-meses-e-11-dias-23-pessoas-mortas-14-por-violencia-domestica-10667254.html

[2] https://www.publico.pt/2019/03/06/sociedade/opiniao/nao-queremos-flores-queremos-direitos-1864358?fbclid=IwAR36JhoG8Sc5xRi61aQXGCQAkZynPSzI2TVs0B6h-heu0MJ6P6cjUEKFVkQ#gs.u0OxqvCf

[3] https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/patricia-martins-temos-uma-sociedade-estruturada-na-exploracao-do-trabalho-das-mulheres-gratuito-e-invisibilizado-390145?fbclid=IwAR39-Bu1-PCs-wSfTCwHP5KigaFiUBFJpQWfLIE4TacVgIMtCYNyGGSwh6s#.XH-vy211vLc.facebook

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Poder no feminino não é igual a feminismo ou Por que é que não festejamos quando algumas mulheres chegam ao poder?

Nos últimos tempos temo-nos deparado, nas redes sociais, com imensas acusações, diria mesmo “queixinhas” do tipo: “Uma mulher no comando de…(um cargo político, um serviço público, uma empresa privada, seja o que for…) e as feministas não comemoram!”

E, é verdade. Muitas vezes não comemoramos, porque não há nada para comemorar. Assim mesmo. Sem culpas! E isto é fácil de entender: se perdermos algum tempo para analisar os motivos que nos podem levar a celebrar quando uma mulher consegue um cargo de poder, chegamos à conclusão que são os que a seguir se enumeram, sem seguir uma ordem de importância:

  1. – progressos nas questões da igualdade de género, o que conduz a resultados mais justos para as mulheres e para a sociedade em geral;
  2. – uma questão de representatividade: ver muitas mulheres no poder faz-nos acreditar a todas que é possível chegar ao poder e as meninas passam a ter cada vez mais exemplos/modelos a seguir;
  3. – contribuição para a mudança de mentalidades do patriarcado: quantas mais mulheres ocuparem cargos de poder, mais influenciam a forma como a população observa e analisa o papel das mulheres na sociedade, aumentando desta forma o seu respeito e reconhecimento em cargos importantes no espaço público;
  4. – por sororidade: aquela união que deveria existir entre as mulheres, baseada no companheirismo que luta por alcançar objectivos em comum;
  5. – por confiança: reconhecimento que é mais fácil que mulheres produzam e influenciem medidas que beneficiam todas as mulheres e que defendam a igualdade de direitos;
  6. – Acreditar plenamente que a vitória de uma única mulher é importante para a vitória de todas as mulheres e que somos porque ela é, tal como ela é porque nós somos…;

 

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Margaret Thatcher Foto: GettyImages

E poderia talvez enumerar mais alguns motivos, mas todos levariam a um único ponto: celebramos a vitória de uma mulher, os seus avanços, as suas conquistas, porque ela é feminista e nem todas as mulheres que chegam ao poder o são. Tão simples assim!

No artigo “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” (Ferreira & Ferreira, 2018) [1], que se baseia numa leitura do romance histórico “A Rainha Ginga” de José Eduardo Agualusa abordo e esclareço este assunto. A certa altura questiona-se: é a rainha Ginga feminista? Esta questão fazia todo o sentido, porque esta personagem era considerada um exemplo por muitos movimentos feministas. Quando esta questão foi colocada ao próprio Agualusa, ele respondeu algo extremamente interessante: “Não sei. Ela governava como um homem entre homens, como, por exemplo, a Margaret Thatcher. A Margaret Thatcher era feminista? Não me parece. Eu estou mais interessado num poder no feminino” (Agualusa 2015) [2]. E, com isto, o autor estabelece, de imediato, uma diferença entre feminismo e poder no feminino. Mas, para que se possa fazer esta distinção ou para se poder afirmar que alguém é ou não feminista, é importante definir o conceito, mesmo sabendo que “feminismo” é uma palavra que não tem sinónimo, nem um substituto adequado (Offen 2008) [3] e que é uma expressão que “esconde um mosaico de situações diferentes, muito afastadas de um conjunto homogéneo, sendo que a aparente comunhão de ideologias sob a bandeira do feminismo esconde a variedade de feminismos” (Tavares 2011:33) [4].

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Hillary Clinton Foto: FLICKR

Para Karen Offen, o feminismo é “um projecto político que desafia a dominação masculina e a subordinação feminina e que insiste em restabelecer um equilíbrio de poder entre os sexos” (Offen, 2008: 36) [3]. Sendo assim, existem mulheres que desafiam sempre a dominação masculina a título individual, mas nunca mostram preocupação com as mulheres como colectivo e com o “equilíbrio de poder entre os sexos”. Não lutam contra as opressões sofridas pelas outras mulheres e, por vezes, até pelo contrário: no seu lugar de privilegiadas oprimem-nas e humilham-nas. Isso faz delas mulheres poderosas, que no seu momento produzem transformações para si próprias enquanto mulheres que têm acesso ao espaço reservado aos homens, e que talvez só por isso possam efectuar mudanças na vida de outras mulheres. Silvermint (2018) [5], no seu artigo Resisting for other reasons explica tudo isto muito bem, dando como exemplo duas mulheres: a Champion e a Trailblazer. Às duas mulheres é negada uma promoção no trabalho, devido a padrões despudoradamente sexistas. Enquanto Champion chama de imediato a atenção para as práticas discriminatórias, com a finalidade de promover a igualdade para todas as mulheres, isto é, resiste à opressão sexista com a única intenção de acabar com o sexismo, Trailblazer aponta o dedo às práticas discriminatórias para prosseguir no seu local de trabalho sexista, mas por outro lado gratificante. Ela pretende viver uma vida boa, construir uma grande carreira e por isso é necessário ultrapassar as barreiras opressivas que encontra no caminho. A Trailblazer não pretende resistir à opressão, ela resiste apenas com o objectivo de subir na vida. Ora, segundo o autor, isto não significa que ela não obtenha exactamente os mesmos resultados que a Champion neste caso específico, acabar com o sexismo e conseguir a igualdade para todas as mulheres no local de trabalho e também não indica que, lá porque não tinha intenções de resistir, não corra os mesmos riscos que a outra mulher, por ser uma resistente consciente à opressão e com intenções de lhe colocar um termo definitivo.

Há muitas mulheres que se encontram na mesma situação que Trailblazer, as suas intenções são única e simplesmente ultrapassar os obstáculos que se colocam no seu caminho, para atingir as metas a que se propuseram. Podem até, por arrastamento, conseguir melhorar a situação de outras mulheres, nas situações específicas em que elas beneficiariam das suas lutas de resistência que tinham como único objectivo satisfazer os seus interesses pessoais. Mas, na grande maioria dos casos, isso não acontece. Além do mais, os maiores problemas surgem quando este tipo de pessoas que apenas resiste por motivações pessoais, não se levanta pelas bandeiras das lutas colectivas, como é o caso do feminismo interseccional, porque não lhes trazem dividendos. Voltando ao exemplo de Trailblazer, que tem como única motivação subir na carreira, nunca lutará contra o machismo que as mulheres sofrem na vida pessoal, como por exemplo, nos casos de violência doméstica, porque esse tipo de opressão não interfere com as suas ambições (Silvermint 2018) [5]. Assim são muitas mulheres que ocupam a cadeira do poder. Por isso, não se pode afirmar que são feministas. Tendo ainda em conta que, segundo Karen Offen:

“As feministas podem ser identificadas como quaisquer pessoas, mulher ou homem, cujas ideias e acções (…) respondam a três critérios: 1) que reconheçam a validade das interpretações das próprias mulheres sobre a sua experiência vivida e necessidades, e que reconheçam os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus (…) na apreciação do seu estatuto na sociedade face aos homens; 2) que exibam a sua consciência, desconforto ou até revolta face à injustiça institucionalizada (ou desigualdade) em relação às mulheres, enquanto grupo, pelos homens, enquanto grupo, em determinada sociedade; 3) que advoguem a eliminação dessa injustiça desafiando, mediante esforços para alterar as ideias prevalecentes, e/ou as instituições e práticas sociais, o poder coercivo, a força, ou autoridade que defenda as prerrogativas masculinas nessa cultura particular. Assim ser feminista é necessariamente ser contrário à dominação masculina na cultura e na sociedade, qualquer que seja o local geográfico ou situação histórica” (Offen 2008: 36) [3].

Segundo estes parâmetros, é fácil identificar mulheres que não são feministas porque estas não reconhecem “os valores que as mulheres reclamam publicamente como seus”, não mostram desconforto nem revolta com a injustiça institucionalizada em relação às mulheres como grupo e não advogam a eliminação dessa injustiça.

Depois disto, é fácil perceber que as feministas não têm que apoiar, defender e muito menos celebrar todas as mulheres que conseguem um cargo no poder. Vamos lá a retirar dessas cabecinhas a ideia peregrina de que as feministas dão pulinhos de alegria, quando mulheres atingem o poder, só porque são mulheres. Isso não basta! Primordial é colocar em lugares de poder mulheres que lutam pelos direitos de todas as mulheres, de forma a acabar com todas as opressões. Ou seja, feministas!

[1] Ferreira, Helena & Ferreira, Aline (2018). “A Rainha Ginga – o queer não se deixa colonizar” in Moderna språk 2018:1, pp. 153-164

[2] Agualusa, José Eduardo (2015), “Obras” in José Eduardo Agualusa http://www.agualusa.pt/cat.php?catid=28&idbook=107&interviews

[3 Offen, Karen (2008), “Erupções e fluxos: reflexões sobre a escrita de uma história comparada dos feminismos europeus, 1700-1950”, in Cova, Anne (Dir.), História Comparada das Mulheres, Lisboa: Livros Horizonte, 29-45.

[4] Tavares, Manuela (2011), Feminismos, Percursos e Desafios (1947-2007). Alfragide: Texto Editores, Lda.

[5] Silvermint, Daniel (2018), “Resisting for other reasons”, Canadian Journal of Philosophy, 48 (1): 18-42.