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COVID-19 e a necessidade de colaborarmos mutuamente pelo bem comum

O ano de 2020 tem sido marcado pela pandemia da COVID-19 em escala mundial. Trata-se de um período de muitas incertezas, debates políticos e uma época em que buscamos ansiosamente por tratamentos e por uma vacina, não é mesmo? Mas também tem sido um período de várias reflexões. Uma delas é a necessidade de aprendermos a viver juntos (apesar de distantes), de sermos solidários e de pensarmos no coletivo ao invés de apenas no individual (Figura 1). Como disse Ricardo Abramovay (pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo): “Não há melhor momento para pensar sobre o significado de viver juntos do que quando uma pandemia nos impõe estarmos separados”.

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Figura 1: Representação da interdependência entre os seres humanos. Fonte: Casa Firjan, 2020.

Viver juntos é mais do que a questão física, de estarmos próximos da nossa família, amigos, parceiros de trabalho e da comunidade em geral. Viver juntos é buscar o bem comum, ou seja, uma vida que vale a pena ser vivida, de modo que os outros ao nosso redor também se beneficiem. Assim, como o secretário-geral da ONU, António Guterres, mencionou, lidar com a pandemia envolve uma “interconexão essencial da nossa família humana” e de uma “responsabilidade compartilhada por todos nós” (Figura 2). 

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Figura 2: Trecho do discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a pandemia da COVID-19. Adaptado de Nações Unidas, 2020.

No entanto, observamos inúmeros problemas em manter o isolamento social ou mesmo em respeitar medidas sanitárias de segurança para evitar a dispersão da COVID-19. Por exemplo, são ações que prejudicam o coletivo pessoas que saem às ruas sem usar máscaras e/ou que fazem festas e grandes aglomerações para fazer compras. Mas, “por que viver juntos é algo tão difícil?”. Porque viver juntos tem a ver com a ética das sociedades. E essa ética envolve três dimensões: a cooperação entre os seres humanos, a solidariedade entre as gerações e a nossa relação com o meio ambiente, segundo Abramovay (Figura 3) [aliás, aqui no blog, tem um texto muito bacana sobre “A importância dos coletivos de mulheres feministas no apoio às mulheres em situação de vulnerabilidade na Pandemia da COVID-19”].

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Figura 3:  Três dimensões da ética relacionadas ao viver juntos: cooperação entre os seres humanos, solidariedade entre as gerações (intergeração) e relação com o meio ambiente, segundo Ricardo Abramovay (2020). Fontes: FUMC Saline; Ipads, 2016; Donnelly, 2016.

Em relação à cooperação mútua, “viver juntos” vai além de um pensamento individual de precisar do outro para nossas necessidades individuais. Trata-se da noção de interdependência, de coletividade, sem que haja necessariamente um vínculo ou benefício pessoal direto. Porém, caso algumas pessoas provoquem aglomerações, sem usar equipamentos de proteção individual, há prejuízos para todos, porque pode haver proliferação do vírus para diferentes pessoas, contribuindo assim, para os hospitais ficarem cheios e para o aumento dos perigos aos agentes de saúde, que ficam mais expostos ao vírus. Em outras palavras, há um descomprometimento com o “viver juntos”.

Essa cooperação mútua também nos faz pensar nas desigualdades socioeconômicas, as quais foram escancaradas com a pandemia. Por exemplo, muitos têm dificuldade em cumprir a quarentena, pois não têm o que comer, não podem acessar o conteúdo escolar porque não têm internet ou computador, entre outros problemas de infraestrutura domiciliar. Ao mesmo tempo, essa situação tem mostrado a solidariedade entre as pessoas e a importância da empatia. Assim, percebemos que a cooperação mútua para o bem comum envolve diversas facetas, as quais precisam ser, desde já, pensadas para agora e para o momento pós-pandemia. Além disso, apesar da globalização, muitas vezes, vivemos fechados em nossos grupos sociais, o que nos leva a insistir em nossos modos de vida, de produção e de consumo. Entretanto, a crise da COVID-19 colocou esses hábitos ainda mais para reflexão, apontando a necessidade urgente de mudanças na forma de organização das nossas sociedades (Figura 4), como a perspectiva de investir em bens públicos e coletivos e no bem estar das pessoas.

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Figura 4: Representação da comunidade extensa de pares e a busca pelo bem comum de todas e todos frente à pandemia da COVID-19. Fonte: Nações Unidas, 2020.

A outra dimensão ética é a responsabilidade intergeracional, conservando, por exemplo, os conhecimentos, capacidades, histórias, realizações humanas e condições ambientais,  mantendo-as para as gerações seguintes. Para isso, a questão ética é muito importante, necessitando de prudência e sabedoria para deixar condições para o bem comum futuro de maneira que as pessoas daqui uns anos também tenham a capacidade de florescer e viver uma vida que vale a pena ser vivida. Um caso é o monitoramento de centros urbanos, como no estado de São Paulo, que tem mostrado a redução da concentração de poluentes durante a pandemia. Isso indica que podemos deixar condições ambientais e de saúde melhores para as futuras gerações, caso tomemos a responsabilidade de mudar nosso modo de produção e de pensar desde já.

Esse último ponto também nos faz lembrar da terceira dimensão ética: nossa relação com o meio ambiente, de respeitar não apenas a vida humana, mas todos os processos e formas de vida no planeta. Se as agressões ao meio ambiente persistirem de maneira preocupante da maneira que tem ocorrido, pode ser que outras pandemias similares surjam em breve. Por exemplo, a COVID-19 é considerada uma zoonose (Figura 5), ou seja, doença transmitida de animais para humanos. No caso da COVID-19, acredita-se que a transmissão inicial foi pelo morcego  [há um texto no blog que trata mais profundamente da relação entre os morcegos e a COVID-19 e existe uma publicação acerca da prevenção de outras pandemias]. Acharam que só a COVID-19 foi uma zoonose nos últimos tempos? Não! Há outros exemplos de zoonoses que surgiram recentemente, como ebola, gripe aviária e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). Sabem um fato em comum entre elas? Estão todas ligadas à atividade humana.

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Figura 5: Conceito sobre zoonose e comparação com as doenças infecciosas. Fonte: Nações Unidas, 2016.

Assim, muitas de nossas ações podem aumentar a chance de zoonoses (Figura 6), como:

– O desmatamento e a redução da integridade dos ambientes naturais. Por exemplo, quando os morcegos (polinizadores noturnos e predadores de insetos) perdem suas áreas naturais, podem buscar novas áreas perto dos seres humanos e, assim, transmitir doenças.

– O crescimento da interação de seres humanos ou rebanhos (pecuária) com animais selvagens.

– O comércio ilegal ou irregular de animais selvagens, pois esses animais podem ser transmissores em potencial de doenças.

Nesse sentido, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aponta a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente, indicando que as ameaças ambientais impactam a humanidade: “A natureza está em crise, ameaçada pela perda de biodiversidade e de habitat, pelo aquecimento global e pela poluição tóxica. Falhar em agir é falhar com a humanidade”. 

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Figura 6: Fatores que favorecem o aparecimento de doenças zoonóticas. Fonte: Nações Unidas, 2016.

Como vimos, a pandemia da COVID-19 não envolve apenas medidas sanitárias e de saúde pública, mas também questões éticas, econômicas, de cooperação, responsabilidade intergeracional e relação com o meio ambiente. Para o caso da COVID-19, o mundo inteiro se tornou uma comunidade extensa de pares, visto que o comportamento e as atitudes de indivíduos e coletivos se tornaram cruciais para uma resposta bem-sucedida ao vírus, buscando o bem comum. Portanto, as reflexões e mudanças que estão se acentuando na pandemia terão de continuar após seu fim, necessitando tocar em questões sobre organização social e o modo como enxergamos nosso papel frente às pessoas e ao planeta. Nesse sentido, esse trecho do professor Abramovay é pertinente para refletirmos e nos reconstruirmos constantemente, pois o viver juntos está ligado à ética: “Viver juntos, nestas três dimensões não é um antídoto passageiro em época de pandemia. É uma forma de estar no mundo e imprimir sentido à vida de cada um de nós”. 

Referências:

António Guterres. Coronavírus: ‘Estamos todos juntos nesta situação – e juntos vamos superá-la’, diz secretário-geral da ONU. Disponível em: https://nacoesunidas.org/coronavirus-estamos-todos-juntos-nesta-situacao-e-juntos-vamos-supera-la-diz-secretario-geral-da-onu/

Nações Unidas. PNUMA lista 6 fatos sobre coronavírus e meio ambiente. Disponível em: https://nacoesunidas.org/pnuma-lista-6-fatos-sobre-coronavirus-e-meio-ambiente/

Nações Unidas. COVID-19 e o novo coronavírus. Disponível em: https://nacoesunidas.org/tema/coronavirus/

Nakada, L. Y. K.; Urban, R. C. (2020). COVID-19 pandemic: Impacts on the air quality during the partial lockdown in São Paulo state, Brazil. Science of The Total Environment, 139087. doi:10.1016/j.scitotenv.2020.139087.

Ricardo Abramovay. VIVER JUNTOS E O BEM COMUM. 2020. Disponível em: https://gamarevista.com.br/sociedade/viver-juntos-e-o-bem-comum/

Ricardo Abramovay. Covid-19: riscos globais exigem gestão racional e cooperativa. 2020. Disponível em: https://ricardoabramovay.blogosfera.uol.com.br/2020/03/25/covid-19-nao-ha-como-responder-nacionalmente-a-ameacas-globais/?cmpid=copiaecola

Ricardo Abramovay. COVID-19 e o Capitalismo em Estado Crítico – uma conversa com Ricardo Abramovay. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pWonCTeYihY&t=372s

Waltner-Toews, D.; Biggeri, A.; Marchi, B.; Funtowicz, S.; Giampietro, M.; O’Connor, M.; Ravetz, J.R.; Saltelli, A.; van der Sluijs, J.P. Post-Normal Pandemics: Why Covid-19 requires a new approach to Science. Disponível em: https://discoversociety.org/2020/03/27/post-normal-pandemics-why-covid-19-requires-a-new-approach-to-science/

Zambrano-Monserrate, M. A.; Ruano, M. A.; Sanchez-Alcalde, L. (2020). Indirect effects of COVID-19 on the environment. Science of the Total Environment, 138813. doi:10.1016/j.scitotenv.2020.138813.

 

 

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Deficiência: você tem certeza que sabe o que é?

Existem realidades que entram em contato com o nosso mundo por vias indiretas: nós sabemos que existem, mas elas parecem tão distantes que apenas seus elementos simbólicos nos impõem a constatação da sua existência. Para muitas pessoas, esse pode ser o caso da deficiência e do símbolo da cadeira de rodas.

         De acordo com a ONU, uma em cada sete pessoas de todo o mundo está em situação de deficiência e apesar disso, o símbolo da cadeira de rodas pintado nas vagas de estacionamento e nos assentos e caixas preferenciais é o máximo de contato de muita gente com o universo da deficiência no seu cotidiano. Por isso, não é de surpreender que o amplo debate em torno do próprio conceito de deficiência seja desconhecido por uma grande parte da população.

Legenda: Símbolo Internacional de Acesso.  Imagem de Christopher Strolia-Davis por Pixabay.
#Descrição da Imagem: Símbolo internacional de acesso em fundo azul e desenho de pessoa em cadeira de rodas em branco. [Fim da descrição].

No ano de 2011 foi decretado pelo governo federal o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de acordo com essa legislação:

Art. 2º São consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2011).

Essa definição se alinha ao entendimento presente na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, do qual o Brasil é signatário desde 2009. Observe que nela, a identificação da pessoa com deficiência envolve duas dimensões: o indivíduo e a sociedade e é a participação desta segunda no conceito de deficiência que pode ser uma novidade para muita gente!

Em meados da década de 1960, no contexto da contracultura, um grupo de sociólogos britânicos começou a questionar a naturalização que existia em torno da conceituação de deficiência. Até então, vigorou no meio científico o entendimento de que a deficiência se tratava de um problema individual, uma tragédia que acometia uma pessoa e removia dela a “normalidade” e por isso, os esforços eram voltados para adequá-la ao normal através de sua cura ou reabilitação. Essas pessoas eram frequentemente institucionalizadas e submetidas a tratamentos que muitas vezes violavam sua dignidade sem que sua vontade fosse levada em consideração. Isso porque, geralmente, essas pessoas eram consideradas incapazes.

Isto começou a mudar quando, inspirados pelos questionamentos produzidos pelos movimentos feminista e negro, estes sociólogos passaram a refletir sobre as formas como a sociedade produz barreiras que geram a exclusão de pessoas com deficiência, evidenciando que este é um fenômeno social.

Desde então, este campo do conhecimento, conhecido como Disability Studies ou Modelo Social da Deficiência, vem analisando como as pessoas com deficiência se tornaram particularmente vulneráveis após a Revolução Industrial e o fortalecimento do capitalismo, quando a metáfora de corpos humanos como máquinas (e consequentemente, sua capacidade produtiva) passou a regular o valor de nossos corpos.

Apesar de ainda restarem muitos direitos a serem conquistados, a contribuição do modelo social para a dignidade das pessoas com deficiência – principalmente por seus desdobramentos políticos – é incontestável. Isso, no entanto, não impediu que esse corpo teórico recebesse críticas, inclusive de pessoas que se alinhavam mais ao modelo social que ao modelo médico. Esses debates vêm constituindo um novo campo que se encontra em formação: os estudos críticos da deficiência ou modelo pós-social, que pode ser entendido como uma nova geração do modelo social e conta com importantes contribuições e críticas do pensamento feminista.

Fonte: imagem de upklyak por <a href="http://<a href="https://br.freepik.com/vetores/escola">Escola vetor criado por upklyak – br.freepik.comFreepik

#Descrição da Imagem: desenho colorido de crianças com deficiência de diferentes etnias se encontrando em frente a uma escola em um dia de céu azul com algumas nuvens branquinhas. Um menino utiliza cadeira de rodas, e o outro tem uma prótese como braço esquerdo, uma das meninas utiliza óculos escuros e uma bengala e a outra utiliza uma muleta. Elas se encontram em um caminho pavimentado plano que fica em meio a um gramado verde claro. Da lado esquerdo estão duas árvores e uma placa parcialmente encoberta por uma das crianças, onde se pode ler as letras SCHO e do lado direito, há uma bandeira azul claro balançando com o vento e uma árvore. O caminho leva ao prédio da escola, que tem cor de tijolos de barro, dois andares, muitas janelas e uma entrada grandiosa cercada por colunas. O único acesso à porta de entrada da escola é uma escadaria. [Fim da descrição].

O modelo social enfatiza as dimensões públicas da vida cotidiana, como as barreiras arquitetônicas e a exclusão do mercado de trabalho, em sua análise do papel da sociedade na produção da deficiência. Já para o modelo pós-social é necessário que sejam considerados também os aspectos da vida da pessoa com deficiência considerados privados, como o papel da dor, os efeitos da linguagem excludente, a sexualidade da pessoa com deficiência e ainda, a extensão dessas análises para a questão do cuidado e da interdependência, inerente à condição humana.

Justamente por todo o histórico de exclusão já vivido, o lema das pessoas com deficiência é “Nada sobre nós sem nós”. Por isso, para saber mais sobre esse debate, nada melhor que o Guia Feminista de Mulheres com Deficiência produzido pelo Coletivo Feminista Helen Keller, que você encontra clicando aqui

REFERÊNCIAS

BISOL, Cláudia Alquati; PEGORINI, Nicole Naji; VALENTINI, Carla Beatris. Pensar a deficiência a partir dos modelos médico, social e pós-social. Cad. Pesq., São Luís, v. 24, n. 1, p. 87-100, jan./abr. 2017.

BRASIL. Presidência da República. Decreto N° 6.949, de 25 de agosto de 2009 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Organização das Nações Unidas – ONU. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm. Acesso em 17 ago. 2020.

BRASIL. Decreto n°. 7612, de 17 de novembro de 2011. Institui o Plano Nacional de Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612.htm . Acesso em: 25 jul 2020.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DINIZ, Débora. Deficiência e Políticas Sociais – Entrevista com Colin Barnes. SER Social,  Brasília,  v. 15, n. 32, p. 237-251,  jan./jun.  2013. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. A ONU e as pessoas com deficiência. Disponível em: https://nacoesunidas.org/acao/pessoas-com-deficiencia/. Acesso em 25 jul. 2020.

PICCOLO, Gustavo Martins. Contribuições a um pensar sociológico sobre a deficiência. 2012. 231 f. Tese (Doutorado em Educação Especial) – Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/2898 . Acesso em 04 jun. 2020.

RUMO ao Fazendo Gênero 12 – Oficina Anticapacitismo. Seminário Internacional Fazendo Gênero, 2020. 1 vídeo (152 min). Publicado pelo canal Instituto de Estudos de Gênero – UFSC. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SFxsLgJeDVA . Acesso em 30 jul. 2020. 

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Astronomia e Big Data: o universo dos dados astronômicos

Com as melhorias dos equipamentos computacionais a quantidade de dados obtidos em pesquisas científicas tem crescido “astronomicamente”. Com isso a astronomia viu a necessidade de se adaptar às novas tecnologias da computação para conseguir lidar com essa considerável quantidade de informações.

Trabalhar com a infinitude do universo não é fácil. Imagina colocar em seu computador todos os dados das 300 bilhões de estrelas (isso só na Via Láctea). Agora imagina adicionar a essas estrelas dados de planetas, galáxias, asteróides, buracos negros, ou seja, todo um universo de informações em apenas alguns HDs de computadores.

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Figura 1 – Projeto LSST em uma noite de observação. Crédito: Todd Mason, Mason Productions Inc. / Large Synoptic Survey Telescope.

Para termos uma noção da quantidade de dados que podem ser gerados numa noite de observação, o Observatório Vera C. Rubin, no Chile, está se preparando para coletar 20 terabytes por noite com o LSST, assim que entrar em operação em 2022. O Square Kilometer Array, que se tornará o maior radiotelescópio do mundo, com sítios na Austrália e África do Sul irão gerar 100 vezes essa quantidade, até 2 petabytes diários, quando estiver online em 2028. Para termos uma ideia da dimensão dessa quantidade de dados, 10 bilhões de fotos numa rede social  ocupam cerca de 1,5 petabytes!

Focando no Large Synoptic Survey Telescope (LSST), o LSST irá mapear em seis bandas, quase a metade do céu por um período de 10 anos. O telescópio possui um espelho com diâmetro de 8,4 metros e sua câmera consiste de um mosaico de CCDs com 3.2 bilhões de pixels. Ao término do projeto estima-se cerca de 37 bilhões de estrelas e galáxias explorando um volume de espaço sem precedentes e gerando da ordem de 100 PB de dados!

IMG_4059Figura 2 – Observatório Rubin em Agosto de 2020 . Crédito: Large Synoptic Survey Telescope

Uma quantidade tão grande de dados poderá nos ajudar a desvendar cada vez mais o universo porém lidar com tanta informação é um desafio. Primeiramente a questão do armazenamento. Uma quantidade tão grande é inviável para os astrônomos baixarem e levarem em seus notebooks ou hds externos. Então como faremos para ter acesso a todos esses dados? Bem, os astrônomos olharam para as nuvens. A nuvem de dados é uma solução para esse problema de estrutura. Em termos simples, a computação em nuvem significa armazenar e acessar dados e programas pela Internet, em vez do disco rígido do seu computador, ou seja, os dados poderão ser acessado de qualquer parte do mundo.

Além de armazenar temos a complicação de analisar esses dados. Os usuários do LSST serão capazes de analisar todo o conjunto de dados LSST remotamente em servidores hospedados no National Center for Supercomputing Applications em Urbana, Illinois, em vez de usarem seus próprio computadores. Isso será feito a partir de programas escritos e executados na linguagem de programação Python.

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Figura 3 – Espelho principal do LSST, com um diâmetro de 8,4 metros. Crédito: Large Synoptic Survey Telescope

Em 2015, o projeto 3D-HST trabalhava com um servidor de 8 núcleos, que analisava dados do Telescópio Espacial Hubble. Então, eles se voltaram para a Amazon Web Services (AWS). Eles acabaram alugando cinco máquinas de 32 núcleos. “Nossos cálculos aproximados sugeriram que tudo o que tínhamos que fazer levaria três meses em nossas máquinas”, diz Momcheva, cientista do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial em Baltimore, Maryland. Usando os 32 núcleos do provedor eles passaram de uma análise que duraria 3 meses para apenas 5 dias!

No aspecto econômico pode ser mais barato ainda um servidor físico porém o benefício de tempo de análise, como vimos acima, é muito grande utilizando os recursos em nuvem.

Mais uma ideia seria um Astronomy Data Commons para co-localizar conjuntos de dados astronômicos e ferramentas na nuvem. A esperança é “eliminar a barreira de infraestrutura e software de entrada para a análise de big data”, diz Mario Juric, astrônomo da Universidade de Washington em Seattle, ou seja, uma comunidade astronômica mais unida e possibilitando troca de informações e alavancando a ciência.

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Figura 4 –  Um dos corredores de servidores da Amazon data center. Crédito: James Hamilton, Amazon Web Services

Além da democratização dos dados ainda será possível a democratização das ferramentas. “Eu poderia configurar um notebook na África do Sul para rodar na LSST Science Platform que tivesse todas as mesmas ferramentas como se eu estivesse em Princeton”, diz William O’Mullane, gerente de projeto de gerenciamento de dados LSST em Tucson, Arizona, “tudo que eu preciso é um navegador da web.”

Referências

Migrating big astronomy data to the cloud , Charles Q. Choi,Nature 584, 159-160 (2020) doi: 10.1038 / d41586-020-02284-7

https://www.linea.gov.br/

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Quando um estudo é confiável? Os casos do ozônio e da hidroxicloroquina

Com o mundo inteiro passando por uma pandemia que está desafiando a ciência (e os nervos), está sendo possível acompanhar o desenvolvimento de medicamentos e possíveis tratamentos para COVID-19 (Para mais informações sobre alguns tratamentos, você pode ler esses posts aqui no blog: 1, 2, 3, 4) . Como nem todo mundo está acostumado com o andar da ciência, a chuva de notícias mostrando que uma hora tal medicamento é promissor, e na semana seguinte já não é mais, causa muita confusão na cabeça da população que só quer sair da p%%¨&%$&*$¨ do isolamento. Falta de paciência misturada com falta de conhecimento científico e gente mal intencionada acaba gerando um caos.

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Figura 1: O ânimo durante o isolamento social. Fonte: Justin Sullivan / Getty Images North America / AFP

O caso mais recente foi o que aconteceu na cidade de Itajaí (SC), onde o prefeito, que é médico, queria indicar para a população uma terapia com ozônio baseado em alguns estudos e relatos de melhoras de pacientes com COVID-19. O caso mais grave foi o da hidroxicloroquina que foi recomendada não só pelo presidente do Brasil, mas também pelo presidente norte americano, e que não tem eficácia comprovada. A confusão em ambos os casos se deu porque os defensores dessas terapias baseiam a sua opinião em estudos publicados que afirmavam que os tratamentos funcionavam. A questão toda aqui é que nem todo estudo pode ser considerado válido a nível populacional. Existem diferentes tipos de estudos para comprovar a eficácia e segurança de um medicamento e alguns são mais confiáveis que outros. Nesse texto eu vou tentar explicar um pouco quais as características de um estudo que conferem mais ou menos credibilidade.

Nesse texto aqui do blog, a autora apresenta algumas metodologias de pesquisa, conceitos e detalha quais são as classificações dos estudos. Dependendo do que se quer estudar, o desenho do estudo, a quantidade de pacientes incluídos e o tempo de observação vão ser diferentes. Como regra geral, quanto mais pacientes e variáveis avaliadas por um período maior de tempo, melhor o estudo.

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Figura 2: Diferença entre o método científico, no qual o pesquisador observa o fenômeno, formula hipóteses a faz testes que podem ou não confirmar a hipótese inicial, de outros métodos que “produzem” medicamentos, tratamentos ou teorias sem comprovação. Fonte: https://conhecimentocientifico.r7.com/metodo-cientifico/ acesso em 18 de agosto de 2020.

No caso da ozonioterapia, por exemplo, o prefeito de Itajaí citou estudos feitos na Itália e Espanha que comprovaram a eficácia desse tratamento. Um ponto importante é que em nenhuma reportagem ou entrevista ele citou que estudos são esses, então eu fui procurar o que tem publicado. Na maioria dos casos, os artigos trazem informações teóricas de outros estudos e extrapolam os resultados para chegar à conclusão que ozônio seria um possível tratamento para COVID-19. Um desses estudos, publicado na revista Antioxidantes, mostra dados de uma série de outros estudos nos quais o ozônio atuou como protetor celular em diversas condições de estresse. É um tipo de estudo de revisão, que agrupa informações sobre um determinado assunto, permite comparar essas informações de diferentes fontes e avaliar a consistência dos dados. O problema aqui é que ele não mostrou nenhum dado específico de ozônio no tratamento de COVID-19. Nem mesmo em experimentos em laboratório. Nesse caso não é um estudo que podemos nos basear para iniciar tratamento de pacientes. Num outro estudo, pesquisadores utilizam a mesma técnica, mas agora focando mais em uma característica específica. O artigo fala de problemas de microcirculação pulmonar que é característico em diversas outras doenças e faz um gancho dizendo que ozônio, em teoria, aumentaria a oxigenação, concluindo que se COVID-19 causar um problema de falta de circulação sanguínea, e consequentemente falta de oxigênio no pulmão, isso já seria evidência suficiente para usar ozônio para tratamento de COVID-19. A conclusão do artigo é ainda mais chocante:

“The use of the ozone-dilution technique in physiological solution and its infusion could also be evaluated and, in the future, the possibility of using ozone therapy with endonasal  insufflation as a substitute for the vaccine could be evaluated.”

Em tradução livre: “O uso da técnica de diluição de ozônio em solução fisiológica e sua infusão poderia ser avaliada e, no futuro, a possibilidade de uso da ozonioterapia por insuflação endonasal como um substituto da vacina poderia ser avaliado”.

Não só o artigo não traz dados clínicos e experimentais específicos de COVID-19, como ainda sugere que a terapia pode ser usada ao invés de uma vacina. Outro detalhe importante, o artigo não é revisado por pares, o que significa que os autores o escreveram e publicaram sem ninguém ler e emitir uma opinião a respeito. Para vocês terem uma ideia, todos os textos publicados aqui no blog são revisados por pelo menos duas outras pessoas e discutidos antes de serem finalizados. Isso evita erros, vieses, e falha de comunicação por exemplo. Novamente, aquele é um artigo científico? Tecnicamente sim. Tem algum valor para o conhecimento e prática clínica? Não. E porque não? Porque não traz dados de pacientes com COVID-19, não faz comparação entre pacientes que usam ozônio e os que que não usam ozônio, e absolutamente nenhum dado que nos indique que os pacientes que usam ozônio não tiveram efeito adverso, nem mesmo dados de experimentos em laboratório. Você está disposto a usar algo que nunca foi testado antes e além de não ter comprovação de eficácia, não se sabe se é seguro?

Existem registros de pelo menos dois estudos clínicos sendo feitos na China para avaliar o uso da ozonioterapia no tratamento de COVID-19. Pelo menos um deles é randomizado, ou seja, os pacientes são escolhidos aleatoriamente, o que é uma vantagem porque representa melhor a população. Ainda assim, esse estudo em andamento conta com somente 152 participantes. Quando os resultados saírem, podemos ter uma ideia melhor de como o ozônio afeta os pacientes com COVID-19.

A questão da hidroxicloroquina segue a mesma linha de raciocínio. É verdade que alguns estudos publicados mostraram resultados diretamente em pacientes tratados em hospitais, o que já é uma vantagem em relação à ozonioterapia, mas as notícias boas acabam por aí. Um dos estudos que trouxe a hidroxicloroquina para as notícias foi conduzido na França avaliando 20 pacientes infectados com COVID-19. O problema deste estudo é que 20 pacientes não representam a população. Ele é válido no sentido de despertar uma possibilidade de tratamento que precisa ser mais investigada e ponto. Não se pode dizer que porque 20 pessoas tiveram uma melhora por conta de um tratamento, aquele tratamento pode ser feito em todo mundo. Muito menos comprar estoques e estoques de um medicamento e indicar que a população se automedique porque 20 pessoas tiveram uma melhora. Quem são essas 20 pessoas? elas tinham algum problema pré-existente? eram homens? mulheres? quais eram suas idades? Um detalhe importante desse artigo é que do grupo de pacientes que iniciaram tratamento com a hidroxicloroquina, 6 morreram antes de terminar o tratamento. Nenhum paciente do grupo controle morreu. Os autores não levaram em consideração essas mortes durante a análise dos resultados, então quando eles concluem que 100% dos pacientes tratados com hidroxicloroquina e azitromicina testaram negativo para o vírus depois do tratamento, eles estão considerando somente os pacientes que terminaram o tratamento vivos. Não te parece errado não considerar e não avaliar o porquê outros pacientes morreram durante o tratamento? Já temos outros estudos maiores e com resultados confiantes mostrando que a hidroxicloroquina não oferece nenhuma vantagem no tratamento de COVID-19.

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Figura 3: Ás vezes muita informação e dados divergentes podem fazer a gente ficar confuso. Fonte: Arquivo pessoal.

Eu entendo que nem todo mundo lê e entende um artigo científico. Fica confuso e difícil avaliar em quem confiar quando muitos jargões são usados e a comunicação não é eficaz. Na situação atual, tudo que queremos é uma cura, deixar de ter medo, rever amigos e familiares e voltar a nossa rotina, mas não existe milagre. Desconfie de tudo que for muito bom pra ser verdade. Desconfie da pílula mágica ou super alimento que cura desde unha encravada até câncer. Procure diversas fontes antes de chegar a uma conclusão. Veja o que grandes organizações, como OMS, Conselhos de Medicina, institutos de pesquisa ou universidades estão falando a respeito. Nessas organizações o consenso não é baseado em uma ou outra opinião, são milhares de pesquisadores, médicos, e profissionais de saúde conversando e avaliando todos os pontos de vista. A evolução da ciência não depende da nossa opinião e não acontece do dia para a noite. É resultado de testes, experimentos, cálculos, interpretação e principalmente trabalho árduo de cientistas. Tudo o que queremos é ter uma cura, uma vacina, uma notícia positiva e estamos nos esforçando para isso, mas queremos ter certeza de que tudo o que fazemos vai ser seguro e certeiro. Como diz minha mãe, não queremos que a emenda saia pior que o soneto.

 

Referências:

Martínez-Sánchez G, Schwartz A, Di Donna V. Potential Cytoprotective Activity of Ozone Therapy in SARS-CoV-2/COVID-19. 2020. Antioxidants, 9: 389. DOI: 10.3390/antiox9050389.

Ranaldi GT, Villani ER, Franza L, Motola G. 2020. Devils and Angels: Ozonetherapy for microcirculation in covid-19. DOI: https://doi.org/10.31226/osf.io/c2jvt.

Gautret P, Lagier, Parola JCP, Hoang VT, Meddeb L, Mailhe M, Doudier B, Courjon J, Giordanengo V, Vieira VE, Dupont HT, Honoré S, Colson P, Chabrière E et al. 2020. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents, 56 (1): 105949. DOI: https://doi.org/10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.

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A falta de inclusão nos eventos acadêmicos online: a explosão das lives só com homens

Por Mariana Candido*

Como eu escrevi anteriormente, a pandemia provocou uma expansão das lives acadêmicas, uma iniciativa louvável. Em um momento em que estamos todos trancados em nossas casas e em busca de atividades de nos ajudem a passar bem o tempo, professores universitários ocuparam o espaço virtual. De repente, ex-alunos, pais de universitários, avós, estudantes mais jovens e o público excluído do ensino superior teve a oportunidade de assistir o que acontece na universidade. Os eventos online trouxeram a pesquisa e o ensino universitário para o interior das nossas casas, desde que pudéssemos contar com tempo e internet que desse conta de tanta demanda.

Os eventos online prometiam democratizar o acesso ao conhecimento e aproximar as pessoas que estavam isoladas em suas casas. Depois da explosão de lives de artistas que entretiveram as pessoas, professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos começaram a discutir suas pesquisas e experiências profissionais com um público mais amplo, que, muitas vezes, desconhece o que faz um historiador profissional. Foi uma explosão tão grande ao ponto que já não sabemos se estamos vivendo ou só vendo lives! E eu, uma brasileira que saiu do Rio de Janeiro em 1997 para estudar história da África no México e no Canadá, pude escutar, de longe, colegas que, em geral, só encontro em eventos. Associações profissionais e departamentos começaram a divulgar debates e aulas públicas em várias plataformas e sobre assuntos variados, seja a ditadura no Cone Sul, a memória da escravidão no Rio de Janeiro, a história dos movimentos fascistas e o patrimônio cultural em Pernambuco, entre vários outros. Devido à minha área de pesquisa e ensino, assisti a vários eventos sobre escravidão e história da África e aprendi muito, mesmo estando tão longe do Brasil. Conheci o trabalho de novos pesquisadores, pós-graduandos e recém doutores, e pude escutar velhos amigos, a quem admiro e estimo devido a suas trajetórias acadêmicas. Os eventos online me aproximaram da discussão acadêmica no Brasil e assisti, como muito pesar, os ataques racistas a colegas respeitadíssimos.

Eu leio, ensino e cito os estudos sobre escravidão e presença africana feitos e publicados no Brasil porque a pesquisa é referência para os historiadores no exterior. Não é bairrismo meu por ser brasileira. É a pura constatação que a pesquisa feita no Brasil é sólida, metodologicamente criativa e séria. Eu sempre me surpreendo como os estudos publicados em inglês que ignoram a produção intelectual disponível em outra língua, principalmente aquela feita pelos colegas que estão no chamado “Sul Global”. Claro que há exceções, mas é fato que a historiografia anglófona tende a ser insular e ignorar a contribuição intelectual de latino-americanos, africanos e asiáticos. Perdemos todos quando não lemos o que é publicado em outras línguas e em outros contextos acadêmicos.

A convite da Mariana Armond Dias Paes, com quem colaboro em um projeto de pesquisa, fiz a minha estreia nas lives no Instagram das @cientistas feministas. Assisti outras conversas e foi uma oportunidade maravilhosa para me conectar com pesquisadoras que conhecia de eventos ou de leituras. Aprendi muito e vi, com grande satisfação, que amigos e familiares que não são professores universitários também entravam nessas lives. Conversei com a minha mãe e minhas irmãs, que não estão no mundo acadêmico, sobre as lives das professoras Fernanda Thomaz, Fernanda Bretones e Patrícia Melo, o que sugere que há um apetite do público em geral pela história, quando bem contada e acessível. E assisti a várias lives organizadas pelo Núcleo Escravidão e Sociedade na Época Moderna, da UFAL, organizadas pelo professor Gian Carlos.

Os eventos online deixaram evidente que quem tem destaque no mundo acadêmico é o homem branco, com raras exceções, como os eventos que mencionei anteriormente. Isso é verdade para o Brasil, para os Estados Unidos, onde trabalho, ou para o México e o Canadá, dois países onde me formei, ou, ainda, Portugal e Angola, lugares que frequento com certa regularidade devido ao meu ofício. Como eu expliquei num outro texto, os manels, como são chamados os all-male panels, os painéis onde todos os oradores são homens, são alvo de críticas duras nos Estados Unidos. Jornalistas, pesquisadoras, professoras denunciam esses eventos corriqueiramente. E, como a Brigid Schulte, autora de um artigo publicado em 2017, argumentou: não há desculpas para organizar eventos sem mulheres. Historiadoras inclusive organizaram uma base de dados que, ironicamente, ajuda homens a identificar uma especialista mulher em determinado assunto. Women also know history virou um slogan e hashtag nas redes sociais. Outro site oferece ajuda a colegas homens como o juramento de jamais aceitar participar de manels. O movimento #AbajoLosManeles, organizado por estudantes da faculdade de economia da Universidad de Los Andes, tem destaque nas redes sociais e denuncia eventos acadêmicos sem mulheres. Inclusive analisa como as mulheres tendem a ser interrompidas pelos homens quando participam de eventos profissionais.

Apoiar a existência de painéis mais diversos é uma causa fácil. O diretor do National Institute of Health, nos Estados Unidos, o médico geneticista Francis Collins, já declarou publicamente que se recusa a participar desse tipo de painéis. Seria importante que os intelectuais e pesquisadores brasileiros fizessem esforços semelhantes. Infelizmente, esse não é um problema que afeta somente os eventos online durante a pandemia, mas as conferências em geral, assim como os dossiês especiais de revistas e livros organizados que não incluem uma só autora. Mulheres tendem a ser excluídas dos espaços que consagram especialistas, inclusive da lista de autores que sempre citamos ou recomendamos para os nossos estudantes.

Foto Candido

Foto: Woman working on a laptop – Creative Commons http://rawpixel.com/

A ausência de mulheres, particularmente de mulheres negras, nos eventos online, é algo preocupante e que deveria causar constrangimento a todos. E, infelizmente, não é um evento isolado. Não é o caso de um seminário, de um tema específico ou, ainda, de uma palestrante que não pôde participar de última hora. É uma invisibilidade sistemática da produção intelectual feita por mulheres em geral, e por intelectuais negrxs e indígenas, sistematicamente silenciadas. Eventos excludentes e monocromáticos sempre aconteceram nas universidades e foram normalizados, como se o espaço acadêmico fosse naturalmente branco e masculino. Lives sobre O que produz o historiador, por exemplo, parecem não compreender que há mais historiador que o homem branco. Inclusive, as lives que se propõem a discutir o fascismo caem no mesmo problema e reúnem somente homens, sem se interrogar que debate é esse que exclui tanta gente. Como pode, em um país com uma população majoritariamente parda, negra, feminina e com forte presença indígena, justificar a ausência desses grupos em eventos acadêmicos? Até em lançamentos de livros as mulheres estão excluídas. Independentemente da universidade, departamento ou associação que organiza o evento, como justificar que nenhuma professora, branca, negra ou indígena, seja considerada uma interlocutora válida? É importante estarmos atentos à inclusão regional, já que no Brasil também podemos observar uma marginalização recorrente de pesquisadores que estão fora do eixo Sul-Sudeste. Porém, essa questão não pode servir como desculpa para excluir vozes de grupos historicamente silenciados no Brasil e que constituem parcela importante das populações dessas regiões. Por exemplo, a live “Como a escravidão influenciou a organização do trabalho no passado e no presente? foi interessante, contou com um público expressivo, mas foi marcada pela ausência feminina e negra. Muitas mulheres assistiram, comentaram e interagiram com os palestrantes, no entanto, sua participação se restringiu ao live chat. Foi inevitável refletir como a dinâmica de gênero nesses eventos reproduzem o discurso de que mulheres devem ser recatadas e silenciosas.

Essa discussão sobre a falta de diversidade nos eventos online me remete ao debate sobre as cotas universitárias, quando vários ex-professores e alguns colegas de faculdade que hoje são professores universitários argumentavam que implementar as cotas nas universidades brasileiras seria importar ideias americanas. Mais grave: alguns diziam que a qualidade do ensino nas universidades públicas iria cair, afinal, como “adaptar” o alto nível de ensino das universidades públicas a um corpo discente que não estava preparado? Incluir várias vozes no debate acadêmico e na vida universitária deveria estar na agenda de todos e não ser visto como uma “moda americana”.

Foram vários os manels nos últimos meses. O debate Decadência, Atraso e Modernidade na História de Goiás: uma desconstrução reuniu seis homens que jamais se perguntaram a ironia de discutir atraso em 2020 sem incluir um interlocutor negro, indígena ou mulher. Esse não foi o único debate monocromático.Revistas em Debates: co-autoria na pesquisa de história, por exemplo, reuniu quatro editores de várias revistas especializadas: todos homens e brancos. Isso evidencia que são os homens que decidem quem publica e onde se publica, um problema que não é exclusivo do mundo acadêmico brasileiro. Não podemos fingir que esses eventos são exceções e devemos reconhecer que eles são a realidade nas universidades brasileiras, nas quais o corpo docente é majoritariamente branco e masculino. Para quem não frequenta a universidade e só assiste as lives parece que não há pesquisa feita por mulheres. Aqui, repito o título de um texto de 2018: as mulheres também sabem história!

Nas últimas semanas, eventos mais diversos pipocaram, talvez em reação aos manels. A Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros organizou uma jornada de história das mulheres negras e o História Indígena Hoje criou um espaço para a participação dos intelectuais indígenas. No dia 29 de julho, o CACH da Unicamp reuniu as professoras Lucilene Reginaldo, Debora Jeffrey, Maria Luiza Nogueira e Letícia Parks em uma conversa fantástica sobre o papel das mulheres negras no combate ao racismo. Ou seja, espaços menos excludentes começam a aparecer como, por exemplo, o curso “Emancipações e pós-abolição: por uma outra história do Brasil” e o Ciclo de Debates, História da África – Desafios e perspectivas para a pesquisa e o ensino.

Como já escrevi anteriormente, a ausência feminina dos eventos online não é um “problema de mulher”. Além disso, a falta de palestrantes negros não afeta somente os intelectuais negros. Afeta a todos nós que naturalizamos a produção acadêmica e os espaços de debate intelectual como essencialmente masculinos e brancos. A composição étnico-racial e de gênero desses eventos influencia como meninas e meninos são socializados e aspiram a carreiras. A representatividade (ou a falta dela) é algo que deveria preocupar qualquer cidadão que tenha um compromisso com a democracia e a inclusão social. Não dá para defender uma sociedade mais justa nas redes sociais ou nas ruas sem se perguntar como eu, Mariana Pinho Candido, beneficiei-me da existência de uma sociedade brasileira racista. Ou, ainda, como continuo a me beneficiar de uma imigração racista e classista, nos Estados Unidos, o que me permitiu ter um emprego de professora universitária hoje.

Perdemos todos com eventos excludentes. A exclusão feminina e/ou negra dos eventos online está alinhada com as políticas do governo atual: é retrograda e revela a falta de um compromisso sério com a inclusão. No Brasil e nos EUA, não devemos aceitar como normal departamentos de história sem historiadores negros. Ou departamentos que tenham somente um ou dois professores negros e nenhum professor indígena. Precisamos de departamentos que representem a real população brasileira e não uma população imaginada pelo grupo que está no poder.

Um dos argumentos para justificar os painéis nos quais somente homens brancos figuram ou departamentos sem a presença de intelectuais negros e indígenas é a ausência desses grupos entre os historiadores profissionais. Esse argumento é velho e foi utilizado para questionar a necessidade de implementar cotas raciais nas universidades. É o mesmo argumento utilizado para justificar a falta de contratação de professores negros nos concursos. Assim como no debate sobre as cotas raciais, o argumento é que a realidade brasileira é diferente da dos Estados Unidos e que qualquer política de ação afirmativa é uma tentativa de copiar os americanos. Qualquer mudança é desconfortável e exige repensar privilégios e nosso papel na perpetuação das desigualdades. E, assim, mobilizando esses discursos, o assunto é empurrado com a barriga e as desigualdades continuam como estão, como se fossem naturais e incapazes de serem modificadas.

Somos todos responsáveis pela falta de diversidade nos departamentos e nas associações profissionais. Somos coniventes quando não citamos mulheres, quando não nos preocupados com a desigualdade de gênero ou étnico-racial nos eventos que organizamos. Somos coniventes quando somente incluímos especialistas do sexo masculino nos programas de nossos cursos de graduação ou pós-graduação, quando o nosso diálogo é somente com homens ou quando somos incapazes de lembrar o nome de especialistas negrxs. Também quando argumentamos, com convicção, que não há mulheres e/ou algum intelectual negro ou indígena que já escreveu sobre o assunto. Se você não conhece uma autora, talvez seja a hora de expandir seus horizontes. Pode começar por aqui, onde poderá encontrar o nome de várias professoras brasileiras.

Os eventos online, seja no Instagram, Facebook ou YouTube são uma oportunidade excelente para incluir mais vozes e democratizar a produção dos historiadores, principalmente em um momento em que a universidade pública está sob ataque. Ao divulgar e participar de eventos só com pesquisadores homens ou brancos nos alinhamos com o atual governo. É preciso agir para aumentar a inclusão de mulheres, negros e indígenas em todas as esferas acadêmicas, como forma de resistência à onda conservadora no Brasil e no mundo. Talvez a exclusão não seja intencional, mas está introjetada de tal modo que quem participa desse sistema de omissão não percebe que, ao fazê-lo, colabora para perpetuar exclusões de gênero e étnico-raciais. Somos todos coniventes com os silenciamentos e omissões.

Todo pesquisador quer que o evento que organizou tenha destaque nas redes sociais. Ao incluir mais nomes e vozes, os comentários serão sobre a qualidade dos palestrantes ou a temática e não sobre a homogeneidade dos oradores.

* Mariana P. Candido é professora (Associate Professor) de história da África na Emory University, em Atlanta (EUA), desde julho de 2020. Anteriormente, deu aulas na University of Notre Dame, University of Kansas, Princeton University e University of Wisconsin-La Crosse. Concluiu o doutorado em história da África na York University, Canadá, e o mestrado em estudos africanos no El Colegio de México, México. Publicou duas monografias:  Fronteras da Escravização (Benguela: Universidade Katyavala Bwila, 2018) e  An African Slaving Port and the Atlantic World: Benguela and its Hinterland (Cambridge University Press, 2013). Organizou, com Adam Jones, African Women in the Atlantic World. Property, Vulnerability and Mobility, 1680-1880 (James Currey, 2019); com Carlos Liberato, Paul Lovejoy e Renée Soulodre-La France, Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos (Museu Nacional da Escravatura/ Ministério da Cultura, 2017); e, com  Ana Lucia Araujo e Paul Lovejoy,  Crossing Memories: Slavery and African Diaspora (African World Press, 2011). Em colaboração com Eugénia Rodrigues, organizou o número especial “Cores, classificações e categorias sociais: os Africanos nos impérios ibéricos, séculos XVI a XIX”, na Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, n. 3 (2018) e “African Women’s access and rights to property in the Portuguese Empire”, na African Economic History, vol. 43 (2015). Desde 2016, é uma das editoras da African Economic History e faz parte do conselho editoral da History in Africa.

 

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É possível quantificar a eficiência da nossa comunicação?

Estamos o tempo inteiro processando informações que recebemos do mundo externo: cores, cheiros, sabores; consciente ou inconscientemente. Quando nos comunicamos com outras pessoas, quando ouvimos uma música ou vemos um filme também estamos recebendo e tentando processar informações. Enquanto escrevo esse texto, e enquanto você lê essas palavras, estamos intencionalmente tentando nos comunicar. Mas não necessariamente você irá absorver toda a informação que eu quis transmitir. E tudo bem.

De maneira intuitiva, esperamos que para otimizar o entendimento eu deveria enviar uma mensagem clara e objetiva; enquanto você precisaria estar atenta e interessada.  Ainda assim, dependendo das suas expectativas ou conhecimento prévio sobre o tema você poderia achar que foi mais fácil ou mais difícil entender a mensagem. Portanto, a eficiência da transmissão de informação deve depender tanto de propriedades da mensagem enviada como de características do receptor. 

Do ponto de vista científico, é possível nos perguntarmos como quantificar este fluxo de informação. O quanto somos eficientes em nos comunicar? Que características da mensagem otimizam nossa eficiência? E ainda, seria de se esperar melhoras na eficiência da comunicação ao longo da história da humanidade? Ou mesmo, um aumento na eficiência ao longo da evolução das espécies e dos nossos cérebros?

Diversos cientistas têm abordado essas questões usando teoria da informação, teoria de probabilidade e medidas de redes complexas para quantificar a informação produzida e transmitida durante processos de comunicação. Tipicamente, a comunicação humana usa estímulos (palavras, símbolos, ou conceitos) interconectados, que podem ser representados por redes topológicas em que cada palavra é um nó, e a relação entre os nós são os links da rede. 

Por exemplo, a frase “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” poderia ser representada por uma rede com N=10 nós referentes a cada uma das palavras. Cada palavra estaria conectada apenas com suas primeiras vizinhas. A figura 1 mostra um esquema da rede que representa esta frase. Nesse esquema, todos os nós, exceto os que representam a primeira e a última palavra, teriam k=2 vizinhos (ou links). 

Uma outra frase: “Três pratos de trigo para três tigres tristes” poderia ser representada por uma rede com 7 nós, em que um deles possui k=1, cinco deles possuem k=2 e um deles possui k=3 vizinhos. 

Figura 01: Exemplo de redes formadas por palavras. Cada palavra é um nó da rede e a ligação (ou o link) entre duas palavras só existe se elas aparecerem seguidas uma da outra no texto.

Se considerarmos a rede direcionada, diríamos que no primeiro exemplo, depois de ler algumas vezes a mesma frase, o total de surpresa após cada palavra é zero. Se você lesse a palavra “pedra”, saberia que a próxima palavra seria “dura” com 100% de certeza. Já na segunda frase, como a palavra “três” aparece duas vezes na frase, se você lesse a palavra “três” poderia no máximo dizer que palavra seguinte seria “pratos” ou “ tigres”.

Uma maneira de quantificar a “surpresa” em relação a qual será a próxima palavra é calculando a entropia (ou a bagunça) da rede e usando para isso o número de vizinhos que cada nó apresenta. Numa rede aleatória com N nós (palavras), em que cada nó possui k=2 vizinhos a surpresa quanto ao próximo nó pode ser calculada como: S=log(k)=log(2)=1. Neste caso, dado um nó, temos 50% de chance de ir para um de seus vizinhos e 50% de chance de ir para o outro e , portanto, teríamos “surpresa” = 1. Se agora cada nó está conectado a outros k=8 vizinhos, temos que a  S=log(k)=log(2³)=3, indicando que a nossa surpresa aumentou, já que após um nó teríamos a opção de ter outros 8 nós. Esse tipo de medida de entropia, quantifica o grau de desordem do sistema e está intimamente relacionada à quantidade de informação transmitida. Ainda assim, conhecer a entropia da rede topológica que representa a mensagem enviada não garante que conhecemos a eficiência (ou ineficiência) na maneira como processamos tal informação. 

Recentemente, um artigo publicado pelo grupo da Danielle Bassett demonstrou experimentalmente que a informação percebida pelos humanos e a informação contida na mensagem enviada diferem sistematicamente. Ou seja, ainda que possamos quantificar a entropia ou a surpresa numa rede de palavras como as da Fig. 01, a eficiência da transmissão de informação depende também do receptor da mensagem e da topologia da rede que representa a mensagem. No estudo, foi  proposto que a informação percebida pode ser quantificada como uma eficiência que é caracterizada por uma baixa divergência entre a mensagem recebida e nossa expectativa.

Num exemplo inocente, se você já ouviu várias vezes o ditado “Água mole em pedra dura tanto bate até que …” a sua expectativa para que a última palavra seja “fura” será bastante alta. E a divergência entre a mensagem recebida e a expectativa será baixa.

Ao contrário do que ocorre para computadores, nossas expectativas são enviesadas e variam de humano para humano (e podem depender por exemplo de experiências prévias e de quantas vezes você já ouviu um certo tipo de mensagem). O grupo de cientistas mostrou que em um experimento controlado essas expectativas podem ser medidas por características comportamentais como, por exemplo, tempo de reação e taxa de acerto. Eles mostraram também que a informação percebida (relacionada às expectativas do receptor ou das probabilidades estimadas do que irá receber) depende fortemente da topologia da rede que descreve a mensagem enviada.

O grupo realizou um experimento com centenas de voluntários em que cada participante observou uma sequência de imagens como na figura 2a. Antes de ver a imagem seguinte, o participante deve apertar as teclas correspondentes aos quadrados vermelhos no teclado (figura 2c). Ao todo, 1500 imagens foram mostradas para cada pessoa. Cada imagem corresponde a um ou dois dos cinco quadrados da figura 2a pintados de vermelho.  Cada combinação de quadrados cinzas e vermelhos funciona como um nó na rede (ou uma palavra num texto). Portanto, a rede pode ter até 15 nós (5 deles com só um quadrado vermelho e 10 deles com cada uma das combinações possíveis de dois quadrados vermelhos). A ordem em que as imagens são apresentadas obedecem a regras pré-determinadas que estão relacionadas com uma rede topológica em que cada imagem é um nó e cada link garante que existe uma probabilidade daquelas duas imagens aparecerem uma depois da outra. 

Na figura 2a mostramos um exemplo em que apenas 5 nós (símbolos) dos 15 possíveis estão sendo utilizados. A imagem em que apenas o quinto quadrado é vermelho é o que eles decidiram chamar de nó número 4. A imagem seguinte, com os quadrados 1 e 3 pintados é o que eles chamaram de nó número 5 e assim por diante. Estas imagens estão relacionadas com a rede mostrada na figura 1b. Isto significa que, após uma imagem do tipo 4, qualquer uma das imagens do tipo 1, 2 ou 5 podem aparecer com igual probabilidade (p4,1=p4,2=p4,5=1/3). E a probabilidade da imagem 3 aparecer logo após a imgem 4 é nula (p4,3=0).  A rede na figura 2b garante que após a imagem do tipo 1 aparece, a imagem seguinte poderia ser qualquer uma das imagens 2, 3, 4 ou 5 com igual probabilidade (p1,2=p1,3=p1,4=p41,5=1/4).

Com este experimento, foi possível gerar sequências de estímulos em que as propriedades da mensagem enviada eram bem conhecidas e utilizar o tempo de reação e a taxa de acerto dos participantes para estimar as propriedades da eficiência na percepção dessa informação. 

Figura 02: Modificada do Referencia [1]. Esquema do experimento realizado para analisar a eficiência na comunicação. (a), (b), (c) O participante vê uma sequência de imagens de quadrados cinzas e vermelhas que representam uma certa rede complexas e deve apertar no teclado as teclas correspondentes aos quadrados vermelhos mostrados na tela. (d), (e) Quanto maior o número de vizinhos de cada nó na rede que representa a sequencia de imagens, mais difícil prever qual será a próxima imagem e maior o tempo de reação do participante. (f), (g), (h) Redes em que os nós possuem o mesmo número de vizinhos mas numa configuração hierárquica garantem tempos de reação menores. Isso indica que a topologia da rede que representa a mensagem facilita o entendimento ou a eficiência da comunicação.

Utilizando redes aleatórias com N=15 símbolos possíveis e diferentes valores de k, o número de conexões de cada nó (veja na figura 2d um exemplo de rede aleatória com k=8), o grupo relacionou a surpresa ou entropia da rede representando a mensagem com o tempo de reação dos receptores. A figura 2e mostra que, de fato, quanto maior o k (e consequentemente maior a surpresa) maior o tempo de reação para pressionar o teclado.

Quanto maior o k, maior o número de imagens que podem ser apresentadas no próximo passo. Especificamente a figura 2e mostra que para cada bit que aumentamos na informação recebida, aumentamos 32 ms no nosso tempo de reação. O grupo também mostrou ainda que a taxa de erro também aumenta com a surpresa, 0.3% a mais de erro para cada bit a mais de entropia da rede.

Além de tudo isso, o grupo ainda comparou duas redes com topologias distintas mas com mesmos valores de N e k e consequentemente mesmos valores de entropia (figuras 2f e 2h). Eles mostraram que para uma topologia modular e hierárquica (como na figura 2f) os tempos de resposta dos participantes são em média 24ms menores que  para a rede aleatória (figura 2h). Na rede hierárquica da figura 2f, apesar de todos os nós possuírem k=4,a hierarquia faz com que possamos separar os links em três tipos distintos: internos, fronteira, e entre-módulos. Os resultados na figura 2g mostram, por exemplo, que os participantes reagem muito mais rápido quando as transições ocorrem entre nós internos do que entre-módulos. Esta reação mais rápida está relacionada com modelos internos percebidos pelos participantes (e que por isso variam entre participantes) sobre as probabilidades de transição entre um nó e outro que estão relacionados com a topologia das redes. 

O grupo sugeriu portanto que a eficiência da informação pode ser quantificada pela entropia cruzada entre as probabilidades de transição na rede que representa a mensagem e a distância entre as probabilidades reais e as probabilidades percebidas (ou estimadas) pelos participantes. O grupo mostrou que dado todas as redes possíveis com um certo N e k, a divergência entre as probabilidades reais e estimadas é mínima para redes modulares e portanto a eficiência da transmissão de informação é máxima para essas redes.

Estudos como esse podem ajudar a desenvolver melhores ferramentas para sistemas de comunicação em interfaces humanos – inteligência artificial bem como em áreas de ensino. Além disso, essa nova medida de eficiência abre novas possibilidades nos estudos sobre possíveis diagnósticos de doenças psiquiátricas [2] que já vêm utilizando ferramentas de análise de redes de discurso como as da figura 1 para pacientes com esquizofrenia por exemplo.

Referências 

[1] Human information processing in complex networks. Christopher W. Lynn, Lia Papadopoulos, Ari E. Kahn, Danielle S. Bassett.

[2] Thought disorder measured as random speech structure classifies negative symptoms and schizophrenia diagnosis 6 months in advance. Natália B. Mota , Mauro Copelli, Sidarta Ribeiro.

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Ferramentas Virtuais: estamos vivendo ou só vendo lives?

Videoconferencia

Despertador do celular toca. Inúmeras notificações marcadas na Agenda do Google e você já se assusta. Você tem que levantar, há reuniões marcadas para quase o dia todo, você tem que trabalhar, as crianças têm aula para assistir: mesmo em casa a vida continua intensamente.

Você dá uma passada de água na cara, faz um café, põe alguma roupa decente da cintura pra cima, e vai. 

E assim começa. Procura o link da reunião, acha o errado, clica, estranha que mesmo atrasada ninguém está ali. Procura no email, de novo, encontra e finalmente consegue achar o link do Google Meet. Entra quietinha na reunião, ainda estão nos bom dia, deixa a câmera e som desligados, até que alguém resolve te chamar, e você tem que falar, e sem querer liga a câmera junto, e nem sua cara, nem seu pano de fundo estão ideais para o ambiente institucional, mas segue mesmo assim. Participa, desliga tudo e volta para o modo “observação”, alguém esquece o microfone ligado e boceja alto, todos ouvem e riem, afinal, esse é o novo normal, com suas anormalidades.

Acaba a primeira reunião, agora uma aula de especialização, a plataforma agora é o Jitsi. A nova sala de aula é uma tela cheia de bolinhas, o professor estranha o silêncio, provoca participações, e alguns alunos mais corajosos respondem. O cachorro do professor late no fundo, o do aluno responde, e leva uns cinco minutos para que tudo se torne audível novamente. Já para o final da aula você percebe que entrou com o registro do seu filho, e seu nome está João na aula, e quando vai falar ninguém reconhece. E fica por isso mesmo.

A manhã acaba, você corre para arrumar o almoço, e as atividades da tarde pipocando no celular. Lá vem mais uma atividade digital: agora é você que dará aula no Microsoft Teams que é bom para ensino. Os alunos entram. A aula toda planejada segue até o fim, poucas dúvidas surgem. Quando termina lembra que esqueceu de gravar para aqueles que não estão podendo ter acesso síncrono. E, por isso, terá que transcrever tudo. Os alunos sem acesso não têm culpa, você também não, mas devemos amenizar ao máximo as diferenças, e poder assistir aula é a principal delas. Posta tudo no Google Classroom, faz atividades no Google Forms, salva tudo no Google Drive. E assim as aulas seguem.

Agora você corre para auxiliar seus filhos: o Moodle da escola é o link da vez. Seu filho esquece a senha, você esquece em qual email foi cadastrado, liga para escola, o técnico de informática tenta explicar calmamente, nada dá certo. Ele te acalma, os dois reclamam da pandemia, e finalmente resolve-se a questão. Para não esquecer ele recomenda que anote em algum lugar na nuvem, e você, nas nuvens, não faz ideia do que ele está falando, ele diz que o Keep ajuda, dá para por no celular, melhor anotar em um papel, e deixar na tela do computador, junto às outras dezoito senhas já registradas. Seu filho entrou no moodle da escola.  A professora pede um mapa mental, sugere que seja usado o Cmaptools, que é gratuito, é só instalar. Seu filho percebe sua angústia, e em cinco minutos resolve o problema. Diz que pode ser útil para suas aulas, e é, e você presta atenção nele te ensinando, e alguma coisa dentro de você se acalma. A esperança que seu filho realmente não esteja tendo tanta dificuldade é um alívio no fim do dia, e você relaxa.

O estômago lembra que o dia está acabando. Mais um encontro, de profissionais da sua área, algo mais descontraído, e agora é pelo Cisco Webex, mas nunca usou. Você grita perguntando a senha, seu marido da cozinha diz que não lembra. E você já atrasada faz outro cadastro gratuito, e entra no encontro. Agora as câmeras estão ligadas, e você com um pré-pijama dos ursinhos carinhosos, mas agora já é tarde. Você observa que a plataforma é interessante, com as câmeras ligadas dá para ver as casas das pessoas, é o máximo de novas paisagens que você consegue ver nos últimos meses. Os microfones também estão ligados, e alguém grita “mãe”, outras duas respondem de suas casas “a mãe está ocupada”, todos riem, todos compreendem. 

Há outro encontro ainda hoje do grupo de estudo de inglês, e lá vai você. O link vem pelo Whats, a plataforma é a Zoom, você muda o plano de fundo para fazer uma graça, também pode interagir nas postagens do professor. Para trabalhar um assunto específico usa o Jamboard, a aula é mais relaxante e divertida, não poderia ser diferente para o fim do dia, mas é nítido o cansaço de todos. Acabamos a aula antes, desabafamos as inseguranças deste tempo tão diferente. E a vida segue.

E os novos dias continuam, nem sempre em um ritmo tão intenso, mas ainda assim continuam os encontros virtuais em vários meios. Mais ferramentas surgem: Padlet, Kahoot, Twitch, Trello, Slack.

Você achou que no começo da pandemia teria tempo, iria aproveitá-lo em casa para pequenas reformas, ficar com a família, aprender um prato novo, assistir séries e lives, e percebe que o tempo se foi. E sem querer você olha o calendário e vê que passaram cinco meses de pandemia e você pensa afinal: Estou vivendo ou só vendo lives?

No glossário abaixo, opino sobre cada ferramenta, entendendo que cada pessoa tem a predileção de acordo com sua adaptação. O objetivo é pontuar as principais vantagens de cada item a seguir:

Agenda do Google

Aplicativo disponível para os usuários do Gmail que organiza os eventos em forma de agenda diária, semanal ou mensal. Pode ser instalado ao celular vinculado ao email e notifica, de acordo com a programação do usuário, todos eventos agendados.

Google meeting

Existe uma versão gratuita para os usuários do Gmail, é uma ferramenta que faz reuniões online, de fácil agendamento pela Agenda do Google que envia o link para todos os participantes. Podem até 250 pessoas, tem filtro de ruídos que identificam barulhos externos e os diminuem. Disponibiliza display com até 16 participantes e pode fazer layout personalizado. É necessário que o anfitrião da reunião tenha conta no Gmail, todos os integrantes podem compartilhar arquivos. Quando o vídeo é gravado, uma cópia vai direto ao email de quem agendou a reunião e também salva em pasta no Google Drive, o que facilita o acesso posterior. O arquivo já fica em *.mp4, que é fácil de abrir. O chat é limitado a todos os participantes, não tem opção de troca de plano de fundo, então antes de usar é bom pensar em um legal. Existem empresas que estão simulando fundos de papelão com a estampa que desejarem desde livros, que é o mais desejado, até fundo com gatos, vai do gosto do cliente.

Jitsi

Totalmente gratuita, essa ferramenta tem todos os recursos básicos das demais de videoconferência, e algumas opções diferenciadas como desfocamento do plano de fundo das pessoas, o que pode esconder um pouco a bagunça naqueles dias que você está com mais pressa. Também tem como diferencial a possibilidade de “erguer a mão” para que o interlocutor veja sem ser interrompido. Se a internet está ruim, há a opção de alterar a qualidade do vídeo e do áudio para melhorar a transmissão, e pode ser transmitido direto ao Youtube transformando apresentações em lives. Outra vantagem é que as pessoas podem acessar a reunião sem necessariamente instalar o programa em seu computador ou celular, o que torna o acesso rápido e prático. Existe um diferencial que qualquer pessoa pode silenciar alguém que tiver com o áudio atrapalhando a reunião, ou pode até silenciar todos incluindo o apresentador, assim ruídos indesejáveis (conversa paralela, trânsito, cachorro, televisão) podem ser desligados.

 

Microsoft Teams

A maior vantagem desta plataforma, que tem todos os requisitos básicos que as demais têm, é o acesso ao pacote Office para trabalho online. Os grupos podem ter acesso aos documentos e modificá-los durante a reunião. Também têm um ótimo acesso a ferramentas de apresentação quando o interlocutor está compartilhando algo. Todas as pessoas podem compartilhar documento sem autorização, o que torna o processo mais rápido. O limite de participantes por evento é de 500 mil pessoas, ou seja, praticamente ilimitado para uma reunião institucional. Ele possui versão gratuita, mas o arquivamento de dados da reunião somente nas versões pagas.

Google Classroom

Ferramenta vinculada ao Gmail que cria salas de aulas virtuais que permitem compartilhamento de materiais entre professores e alunos, grupos de pesquisa e demais fim didáticos. O professor cria uma turma (sala de aula) onde, por meio de uma senha, os alunos se inscrevem. E lá ele pode colocar, de forma organizada, materiais para consulta e, também, criar atividades incluindo avaliações. Pois há o recurso de rubrica que mostra todos os critérios que o professor analisa na atividade enviada, e pontua cada um deles conforme o planejamento do professor. As aulas podem ser agendadas pela Agenda do Gmail, e a própria ferramenta cria uma pasta no Google Drive onde são armazenados todos os arquivos compartilhados. Geralmente é necessário que haja uma inscrição da instituição de ensino para que se tenha acesso a esta plataforma, mas agora na pandemia esta estrutura foi liberada.

Google Forms

Ferramenta que possibilita fazer questionários com perguntas em vários formatos: múltipla escolha, dissertativas etc. E as respostas podem ser organizadas em formas de gráfico depois. Também oferece a possibilidade de feedback individual por questão, e pontuação em cada uma das questões. O acesso ao questionário é feito por meio de um link compartilhado pelo autor, e pode escolher a opção de uma só resposta por e-mail vinculado, ou várias. Também pode limitar o tempo das respostas fechando o acesso ao formulário quando desejar.

Google Drive

A principal função do Google Drive é a de nuvem, onde há armazenamento dos arquivos lá postados sem ocupar a memória do dispositivo do usuário. Mas também uma excelente opção é trabalhar com documentos online, onde este documento é salvo o tempo todo e você pode acessá-lo de vários computadores. Outra ferramenta é de várias pessoas compartilharem o mesmo documento e poderem trabalhar nele simultaneamente. É uma ferramenta Google, vinculada a um e-mail Gmail, gratuita.

Moodle

Essa ferramenta é semelhante ao Google Classroom, mas geralmente direcionada a instituição que a registrou. Bastante comum nas escolas, principalmente agora nos ensinos remotos da pandemia, onde os professores montam cursos inteiros, com as matérias separadas, e todo material e atividades é posto neste site.

Keep

É uma das minhas ferramentas preferidas, vinculada a uma conta do Gmail, ela é um bloquinho de notas onde você pode guardar informações em forma de lista ou mosaico, como preferir. Lá são armazenados desde lista de compras, senhas pouco relevantes até contas de casa. É um acesso rápido de informações que também pode ser instalado no celular como aplicativo, mas pode acessar através da conta do Google no computador. Armazena também imagens, caso necessite arquivá-las para acesso rápido posteriormente.

Cmaptools

Ferramenta gratuita para confecção de Mapas Mentais ou Conceituais. É bastante útil para estudos, fichamentos e memorização, pois usa o artifício visual para guardar informações. O uso é bastante intuitivo, fácil e prático. Pode ser usado como forma de avaliação nas aulas, os alunos compreendem rápido, pode ser salvo em *.pdf e enviado como imagem se for necessário.

Cisco Webex

Ferramenta de videoconferência semelhante às demais, a versão gratuita tem apresentação visual personalizada, para até 100 participantes, também com opção de chamar o interlocutor por raise hand, tela interativa, uma ótima opção que é o quadro branco onde todos podem colocar ideias (só tem nele). As reuniões gratuitas são limitadas a 50 minutos, podendo ser renovada e agendadas, mas é necessário instalar o aplicativo. O que eu mais gostei, particularmente, foi a qualidade de som e áudio que se mostrou superior aos demais, principalmente na questão de sincronicidade.

WhatsApp

Dispensa apresentações, o WhatsApp tem sido uma ferramenta exaustivamente usada na pandemia, mas o que eu quero destacar aqui é que, na minha opinião, é a ferramenta mais fácil para videoconferências com pessoas mais próximas. Não necessita de link, nem de acesso por e-mail. É só discar videochamada e pronto, você está pronto para além de conversar, ver seus pais, sua avó, sua irmã. Então, apesar das inúmeras opções, o bom e nem tão velho Whats ainda é uma excelente opção.

Zoom

Muito rapidamente na pandemia o Zoom virou a menina dos olhos das videoconferências, isso porque ela já era uma ferramenta bastante conhecida nos meios corporativos, e foi migrada para a vida comum. Há uma versão gratuita que traz alguns diferenciais interessantes como interação digital por qualquer integrante nas apresentações compartilhadas, escolha de qualquer imagem como pano de fundo, e além do raise hand há também as palmas que você pode enviar para alguém. Mas particularmente a minha observação que diferencia o Zoom das demais é que ele usa imagem HD e eu desconfio, não tenho provas, que é usado algum filtro na imagem que deixa as pessoas mais harmoniosas. Pode ser impressão minha, mas observem. Outra opção interessante, aí já para versão paga, é poder criar várias salas numa mesma reunião, e assim trabalhar com grupos. Função que é excelente para aulas por exemplo.

Jamboard

Ferramenta da Google Education, vinculada ao Gmail, é um quadro branco interativo, compartilhado através de link, onde todos os participantes podem usar caneta virtual, post its, e emoticons para reagir a ideias ou imagens apresentadas. O anfitrião pode montar uma apresentação de base, com questões que devem ser respondidas pelos participantes. Ótima ferramenta para projetos de pesquisa, brainstorms.

Padlet

É uma ferramenta educacional que consiste em um painel virtual, como se fosse um scrapbook onde várias pessoas podem postar na mesma tela. Assim você tem um painel com “colagens” de todos sobre um determinado assunto. Além das imagens, podem ser postados vídeos também, e todos podem contribuir nas postagens dos colegas com comentários naquela imagem, e podem correlacionar por meio de linhas assuntos semelhantes. É bem didático, a desvantagem é que qualquer pessoa pode editar a edição do outro, e pode inclusive apagar. Mas se o grupo for bem integrado dá para realizar excelentes trabalhos.

Kahoot

O kahoot é uma ferramenta que possibilita o professor a criar questionários divertidos, onde os alunos vão responder as perguntas e o próprio programa adiciona a parte áudio visual semelhante a um vídeo game. Além disso os alunos ao responderem podem ver, através de um ranking, seu desempenho naquela atividade. Também envia para quem organizou o questionário uma planilha com o desempenho de cada participante. Achei bem útil para desenvolver quiz com os alunos de forma mais lúdica e divertida.

Twitch

Canal que transmite eventos, ao vivo, e que proporciona interação dos participantes incluindo votações. Voltado para o público gamer, agora está sendo bem visto para os participantes de eventos de iniciação científica.

Trello

Excelente ferramenta para organizar fluxo de projetos. No meu caso utilizo para projetos de pesquisa onde as metas podem ser agendadas, com notificações informam os prazos, e pode servir como depósito de todos os arquivos pesquisados, independente do formato. Também há espaços bem organizados para discussão por assunto ou etapa.

Slack

Semelhante ao WhatsApp, é uma ferramenta em forma de Chat onde os integrantes interagem entre si por meios de conversas, vídeo chamadas, imagens. Também podem ser criados grupos específicos, e a vantagem é que o usuário tem o domínio do que vai participar. As pessoas só terão acesso a você, pelo Slack, se você permitir, o que não ocorre no caso do WhatsApp. Ideal para grupos de pesquisa.