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O que está por trás do Telegram?

O Telegram tem ganhado destaque nos últimos acontecimentos nacionais. Mas você conhece a tecnologia envolvida no aplicativo?

Desde a sua criação, em 2013, o Telegram usa de criptografia em suas mensagens, ou seja, transforma todas em um arquivo com códigos. Além disso, diferentemente do WhatsApp, as mensagens ficam salvas em nuvens, em servidores em vários pontos do mundo, assim é possível manter mais de um canal de conversa independente do aparelho celular, sendo este fator marcante para a popularização do aplicativo. Os aplicativos com sistemas de armazenamento em nuvem dialogam com a tendência de mobilidade, característica fundamental para o público jovem, conforme estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que ainda salienta que alguns escândalos sobre vazamentos de dados podem desestimular o uso da tecnologia.

A empresa garante sigilo absoluto dos dados e ainda convoca um desafio: 300 mil dólares para quem conseguir quebrar a barreira de segurança da empresa!  Seus dados estão realmente bem seguros, pois diferente do concorrente, o Telegram não possui inteligência artificial que lê suas conversas para oferecer serviços (sabe quando você conversa com um amigo sobre uma próxima viagem e quando entra no Facebook estão oferecendo um hotel naquela cidade?). O objetivo de seus fundadores foi construir cuidadosamente um aplicativo para descentralizar a comunicação digital, permitindo integrações com bots e compartilhamento de vídeos ou imagens de qualquer tamanho, aspecto que só é viável pelo uso da tecnologia em nuvem.

Há diferentes tipos de implementação de um serviço em nuvem: privada, pública, comunidade e compartilhada. No caso de aplicações como o Telegram, o serviço é privado, ou seja, a infraestrutura de nuvem é utilizada exclusivamente por uma organização, sendo esta nuvem local ou remota e administrada pela própria empresa ou por terceiros. Para garantir a segurança das informações armazenadas, ocorre o processo de criptografia. A criptografia é um meio assertivo de proteção de dados. As mensagens a serem criptografadas são transformadas por uma função parametrizada por uma chave (“string”) que pode ser modificada quando necessário. Em seguida, passa por um processo de criptografia, transformando-se em texto cifrado.

A distribuição dos servidores em nuvem ao redor do mundo possibilita as aplicações individuais de exercerem um controle local sobre os dados, ou seja, torna ainda mais confiável, pois garante multiplicidade e autonomia em suas partes, podendo armazenar os dados de maneira distribuída. A vulnerabilidade acontece nos aparelhos móveis em redes sem fio, a troca de mensagens é passível de captura por alguém não autorizado, já que as ondas de rádio circulam abertas pela atmosfera, podendo ser violadas e utilizadas. 

Para proteger seu aparelho móvel, as dicas são: coloque senhas mais complexas na tela de desbloqueio, instale apenas aplicativos confiáveis, não clique em links ou correntes enviadas por terceiro, evite o acesso de wi-fi pública e formate seu aparelho antes de vendê-lo ou doá-lo.

 

Referência

 Gerenciamento de Dados em Nuvens: Conceitos, Sistemas e Desafios.

Banco de Dados Móveis: uma análise de soluções propostas para gerenciamento de dados.

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Como os mamíferos controlam seu estoque de óvulos ao longo da vida?

A fecundação é um processo chave para a perpetuação das espécies, e consiste na fusão de gametas femininos e masculinos dando início ao desenvolvimento embrionário. No caso dos humanos, a fecundação ocorre geralmente nas tubas uterinas (Figura 1 A), quando um espermatozóide (gameta masculino) se encontra com o ovócito* (gameta feminino). Há uma variedade de diferenças entre a produção de gametas masculinos (espermatogênese), e femininos (oogênese ou ovogênese), incluindo o fato de que enquanto a produção de espermatozoides se inicia durante a puberdade e continua durante toda a vida dos homens, os gametas femininos são formados apenas durante o período embrionário. Ou seja, as mulheres nascem com um número de ovócitos pré-estabelecido**, os quais não se dividem ao longo do tempo, passam por um processo de maturação a partir da puberdade e são liberados periodicamente desde a primeira menstruação, até a menopausa.

A oogênese se inicia quando células germinativas primordiais se proliferam no período embrionário, migram para os ovários e se diferenciam em ovócitos I. Ainda durante o período embrionário, os ovócitos I passam a ser revestidos por uma camada especializada de células foliculares formando os folículos primordiais (ovócito I + células foliculares achatadas) (Figura 1 B e C). Durante a puberdade, os folículos primordiais crescem, e as células foliculares tornam-se cubóides formando os folículos primários (ovócito I + células foliculares cubóides). À medida que os folículos crescem, ocorre a multiplicação de células foliculares e acúmulo de líquido entre as mesmas, formando um espaço denominado de antro folicular. Nesse estágio os folículos são denominados de folículos secundários ou folículos antrais. A região antral continua aumentando até a completa maturação do folículo, e ao mesmo tempo, o ovócito no interior do folículo também passa por um processo de maturação, se transformando em um ovócito II. (Figura 1). Após a completa maturação, o folículo maduro se rompe, liberando um ovócito II, que caso fecundado poderá formar um novo embrião.
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Considerando que as fêmeas nascem com um número limitado de folículos primordiais, é extremamente importante haver uma regulação de sua maturação para garantir um período longo de fertilidade e maiores chances de perpetuação das espécies. A existência de um mecanismo de regulação é clara nos mamíferos, onde folículos amadurecem ciclicamente por um período de mais de 40 anos (no caso dos humanos).  Porém, não se sabe ainda o que faz com que os folículos primordiais permaneçam em um estado dormente por tantos anos e não amadureçam em folículos maduros todos ao mesmo tempo. Pesquisadores do Departamento de biologia de células-tronco e medicina da Universidade de Kyushu no Japão estão trabalhando para responder essas questões. Dois artigos recentes publicados nos renomados jornais PNAS e Science Advances descrevem algumas as condições necessárias para gerar e manter essa população de folículos primordiais que é tão importante para a manutenção das espécies.

Para estudar a oogênese em mais detalhes no laboratório, o grupo de pesquisadores da Universidade de Kyush desenvolveu um modelo in vitro, no qual eles foram capazes de gerar “ovários reconstituídos” a partir de células-tronco pluripotentes de ratos em laboratório. Nos ovários reconstituídos foi possível observar células germinativas primordiais e folículos secundários bastante similares aos encontrados in vivo. Porém, o modelo in vitro não recapitulou todas as fases de desenvolvimento dos gametas, já que não foram encontrados folículos primordiais. Desse modo esse sistema não parecia muito útil para se estudar o estado dormente dos folículos primordiais. 

A partir dessa adversidade, os cientistas decidiram comparar os genes expressos nos ovócitos in vivo e in vitro, para entender quais eram as diferenças entre essas células. A comparação se focou em genes que produzem fatores de transcrição, os quais regulam a ativação e repressão de muitos outros genes, sendo elementos chave no controle dos processos celulares. Ao comparar os fatores de transcrição, um fator chamado de Foxo3 se destacou por apresentar níveis de expressão muito baixos in vitro, e muito altos in vivo. Para testar se essa diferença nos níveis de expressão de Foxo3 poderia ser responsável pela falta de folículos primordiais no sistema in vitro, os pesquisadores forçaram as células in vivo a super expressar Foxo3 e compararam a morfologia e novamente os genes expressos nos ovócitos in vitro e in vivo. A super expressão de Foxo3 fez com que o ovócitos in vitro se tornassem mais semelhantes a folículos primordiais em morfologia e expressão gênica, porém muitas diferenças ainda foram encontradas, sugerindo que há outros fatores envolvidos em estabelecer o estágio dormente dos folículos primordiais (Figura 2).

FIGURA 2

Figura 2: Restauração parcial de folículos primordiais por super expressão de Foxo3. A e B – As células dos ovários reconstituídos foram tratadas para apresentar fluorescência verde. A – Ovários reconstituídos com expressão de genes não modificada. B – Ovários reconstituídos forçados a super expressar Foxo3. É possível observar em B uma redução no tamanho de muitos folículos (indicados por setas) em comparação a A, indicando que eles estão se transformando em folículos primordiais. C – Imagem de alta magnificação de um ovário reconstituído com expressão de genes não modificada, onde se podem observar ovócitos circulados em verde, e camadas de células foliculares ao redor dos mesmos, em rosa. D – Imagem de alta magnificação de um ovário reconstituído com expressão forcada de Foxo3. Apesar de haver folículos grandes no centro da imagem, pequenos círculos verdes representam folículos que diminuíram em tamanho e mudaram sua morfologia após expressão de Foxo3, se tornando mais parecidos com folículos primordiais. Fonte: So Shimamoto et al.,2019.

Diversos relatos da literatura, reportam que o fator Foxo3 tem função importante durante condições de hipóxia (baixos níveis de oxigênio). A hipóxia é comumente associada com distúrbios como isquemia e inflamação, porém hipóxia pode ocorrer normalmente em tecidos embrionários e adultos, criando microambientes específicos que regulam a diferenciação celular. Baseando-se nessa ligação entre Foxo3 e hipóxia, os folículos in vitro foram cultivados em baixos níveis de oxigênio. A hipóxia gerou uma drástica redução do tamanho dos folículos, tornando-os mais similares aos folículos primordiais. Quando a hipóxia foi combinada com a super expressão de Foxo3 nos folículos in vitro, a expressão gênica e a morfologia das células in vitro foi muito mais parecida com as células in vivo.  Segundo o líder do grupo de pesquisa responsável por esse trabalho, Katsuhiko Hayashi, este é o mais próximo que ovócitos geradas a partir de células-tronco se assemelham aos ovócitos encontrados na natureza.

Um segundo estudo do mesmo grupo se focou em analisar outros fatores do microambiente dos ovócitos que auxiliam na manutenção de seu estado dormente, como a matriz extracelular (MEC) no entorno dos mesmos. A MEC foi por muitos anos considerada apenas como moléculas ao redor das células que servem para a sustentação dos tecidos, porém estudos recentes têm demonstrado sua crucial participação na regulação da expressão gênica, sinalização intracelular, proliferação e diferenciação celular, entre outras contribuições. No caso dos ovários, há grandes diferenças na composição da MEC, entre a região cortical (onde os folículos primordiais se localizam), e a região medular (onde a maioria dos folículos maduros se localiza) (Figura 3).

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Figura 3: Histologia de um ovário de gata, onde se pode observar folículos primordiais na região cortical e folículos em diferentes fases de maturação em direção a região medular. A MEC nas regiões cortical e medular são diferentes, podendo influenciar na diferenciação dos folículos. Fonte: https://embryology.med.unsw.edu.au/embryology/images/f/fe/Ovary5x.gif

Dessa vez, ao invés de um modelo in vitro, os pesquisadores transplantaram ovários de embriões e filhotes de ratos em ratos adultos. Os ovários dos embriões perderam seus folículos primordiais após o transplante, enquanto que os ovários dos filhotes mantiveram a população de folículos primordiais após transplantados em ratos adultos. Nesse caso, se descobriu que os folículos que se mantiveram como primordiais estavam cercados por uma MEC densa, presente nos recém-nascidos, mas não nos embriões. Para testar se a MEC estava mantendo os folículos dormentes, a MEC foi digerida in vitro com uma combinação de enzimas, e os folículos começaram então a entrar na fase de maturação. Pesquisadores também aplicaram uma pressão externa aos folículos in vitro, e observaram que a compressão inicial foi restaurada, assim como a dormência dos folículos. Esses experimentos demonstraram que o estresse mecânico/compressão causada pelas fibras da MEC tem um papel chave na manutenção do estado dormente dos folículos primordiais.

 Por último, os pesquisadores conseguiram observar um fenômeno curioso, os núcleos nos ovócitos nos folículos primordiais estavam girando (você pode checar o vídeo nesse link)! Apesar do fenômeno de movimentação de núcleos ser descrito desde 1953, não é claro porque esse processo ocorre, porém durante esse estudo foi sugerido que a rotação os núcleos está ligada a manutenção do estado de dormência dos folículos primordiais. Experimentos utilizando compressão mecânica induziram a rotação, e a manutenção dos folículos no estado de dormência, enquanto o tratamento das células com moléculas para inibir as rotações estimularam a maturação, mesmo com a manutenção da compressão mecânica.

Em resumo, fatores diversos como: baixos níveis de oxigênio, o fator de transcrição Foxo3, a compressão mecânica causada pela MEC, e a rotação dos núcleos dos ovócitos foram descritos como importantes para a manutenção dos folículos primordiais em seu estado de dormência. Essas descobertas, mesmo sendo realizadas em modelos in vitro ou modelos animais aumentam nosso entendimento sobre um processo crítico da reprodução e devem contribuir para a evolução da medicina reprodutiva no futuro. O processo de regulação da maturação dos folículos é bastante complexo, mas apenas dando pequenos passos para seu entendimento poderemos ser capazes de responder perguntas como: Como os óvulos humanos sobrevivem e se mantêm viáveis por mais de 40 anos? Podemos controlar a maturação dos óvulos aumentando a idade reprodutiva da espécie humana? Como podemos tratar disfunções durante a ovulação? Etc. 

 

* No conhecimento popular o gameta feminino é muitas vezes referido como óvulo, porém o termo mais correto cientificamente seria ovócito II. Todo mês, durante o ciclo menstrual, um ovócito II é liberado nas tubas uterinas, quando este ovócito sai do ovário ele ainda precisa passar por um processo de divisão celular para se tornar um óvulo. Essa divisão só ocorre se o ovócito II for fecundado por um espermatozoide.

** Apesar de esse conhecimento representar um dogma desde 1951, ele vem sendo questionado por pesquisas que mostram que algumas células têm a capacidade de se dividir no ovário.  (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1413208713000745)

Referências

 “Mechanical stress accompanied with nuclear rotation is involved in the dormant state of mouse oocytes” Science Advances(2019).  DOI: 10.1126/sciadv.aav9960 , https://advances.sciencemag.org/content/5/6/eaav9960

So Shimamoto et al. Hypoxia induces the dormant state in oocytes through expression of Foxo3, Proceedings of the National Academy of Sciences (2019). DOI: 10.1073/pnas.1817223116

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Precisamos falar sobre o Nióbio!

Nos últimos dias nossa Jóia do Infinito esteve de novo nos principais meios de comunicação e redes sociais, e junto uma série de notícias que nos fazem perguntar: se o Nióbio é tão maravilhoso por que ele é tão mal explorado?

Para responder essa questão antes precisamos falar o que é o Nióbio? Com número atômico 41 e massa de 92,9 unidades atômicas, esse elemento pertence ao Grupo e Período de número 5, na área dos metais de transição. Suas principais características são a leveza e a resistência, principalmente em condições extremas de temperatura. Realmente é um elemento completo, o metal dos sonhos.

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Figura 1: Nióbio na tabela periódica.

A condição particular que agrega a si grande resistência faz dele um produto de excelente uso em diversas áreas como indústria aeroespacial, máquinas de tomografia, supercondutores eletrônicos, caldeiras, usinas nucleares, estruturas metálicas, construções marítimas, oleodutos, gasodutos e outras diversas opções.

Conhecido inicialmente como Columbio, o Nióbio foi confundido com o Tântalo durante algum tempo. Foi descoberto no Brasil na década de 20, mas somente nos anos 60 é que realmente despertou interesse para seu uso. Possuímos 98,2% de todo Nióbio do mundo, somos detentores praticamente únicos deste elemento tão coringa. A maior quantia fica na cidade de Araxá – MG, 70% aproximadamente, depois na Região Amazônica e em Catalão – GO. Além de nós, os outros quase 2% pertencem aos Canadá, EUA, Gabão, Tanzânia e Austrália. Ao custo hoje de 26 dólares o quilo, o Brasil produz em torno de 1 bilhão de dólares ao ano, com uma extração que recebe 2% de commodities de indústrias que o exploram. Isso significa que a exploração deste material é particular e quem realiza este processo paga ao país somente 2% do que recebe ao exportá-lo. Para uma comparação, a exploração de Petróleo beira os 10%, assim como outros minérios.

O Nióbio está para o Brasil assim como o Vibranium está para Wakanda, cidade fictícia do filme Pantera Negra produzido pela Marvel, onde esse material é o mais eficiente existido e transforma Wakanda, a cidade, em um lugar extremamente tecnológico, inexistente em qualquer lugar do mundo. Ela se mantém escondida para evitar exploração desenfreada.

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Figura 2: Cidade Wakanda do filme Pantera Negra.

A diferença básica é o desenvolvimento tecnológico necessário para potencializarmos o uso desse material como ele merece. Os produtos aonde ele é utilizado são altamente tecnológicos, e com demandas limitadas. O mercado de foguetes no mundo é muito restrito, vale lembrar que são somente partes das turbinas e não o material estrutural que ele compõe. Assim como a indústria de construção de tomógrafos, ou de construção de usinas nucleares é reduzida. Além disso, a demanda é pouca perto da quantia que temos no país, rapidamente saturaríamos o mercado e o valor ficaria muito elevado, pois supriríamos itens específicos. Ganharíamos dinheiro por pouco tempo e depois ficaríamos com estoque “encalhado”. Mas o que mais atrapalha nossa fantástica evolução a partir do uso deste material é a semelhança dele com outros materiais muito mais disponíveis como: titânio, tungstênio, vanádio, tântalo, molibidênio. Metais com maior disponibilidade e menor custo de obtençãono mercado internacional.

A forma mais comercializada é a liga Fe-Nb que é constituída de 65% Nb, 30% Fe e 5% de outros elementos. A coloração é cinza metálico e pode ficar azulada dependendo do tratamento térmico.

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Figura 3: Liga Fe-Nb.

O processo de obtenção é bem complexo, são ao menos 15 etapas para que a partir do mineral Columbita para chegarmos ao Nióbio puro.

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Figura 4: Mineral Columbita.

Além disso, cada 1 quilo de minério columbita produz 25 gramas de Nióbio, o que torna a eficiência econômica do processo muito baixa. Por isto, é muito mais atrativo para o país extrair outros minerais rentáveis. Na frente há a extração da ferrita e do ouro, que praticamente brota da terra durante o garimpo. Assim, o Brasil investe naquilo que realmente gera muito mais lucro. O grama do ouro custa, em média, R$ 170,78. Enfim, extrair, qual seja o material, só será interessante se realmente for rentável.

Algumas pesquisas no país têm avançado, principalmente nas universidades de Minas Gerais, para abranger a utilização como materiais compósitos de bagaço de cana enriquecido com nióbio, tratamentos superficiais e fotocatálises.

Concluindo, o Nióbio é sim um material metálico de propriedades muito interessantes, utilidade em áreas tecnológicas avançadas, o temos em abundância e quase em exclusividade. Para explorar o potencial econômico do Nióbio é necessário continuar avançando na sua pesquisa e em possíveis aplicações industriais, e isso requer investimento, estratégia e colaborações entre setores de tecnologia e industriais. E quem sabe um dia seremos a real potência sonhamos de que o Brasil seja finalmente “Wakanda forever” !

Referências Imagens

Figura 1: depositphotos_102907792-stock-photo-niobium-symbol-nb-element-of

Figura 2: https://glitched.africa/south-africa-could-get-a-wakanda-themed-amusement-park/

Figura 3: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/o-que-e-niobio-e-como-ele-pode-cair-no-vestibular/

Figura 4: https://all.biz/br-pt/coltan-columbita-tantalita-niobio-g112526

Referências Vídeos:

Superinteressante:https://www.youtube.com/watch?v=1DV9TJOSuk0

Fatos Desconhecidos:https://www.youtube.com/watch?v=bR_u6mSC1Qw

Canal do Pirula:https://www.youtube.com/watch?v=RqohMBQfWvk

Referências Bibliográficas:

A. Cuervo, J. E. Munoz, J. S. Pantoja, F. F Vallejo Bastidas, J. J. Olaya Flórez. (2015). Recubrimentos de carburos de Nb-V-Cr depositados mediante el processo de difusión termorreactiva (TDR). Ciencia e Ingeniería Neogranadina, 25, pp. 5-20.

Lopes, O. F.; Mendonça, V. R.; Silva, F. B. F.; Paris, E. C.; Ribeiro, C. Óxidos de Nióbio: uma visão sobre a síntese do Nb2O5 e sua aplicação em fotocatálise heterogênea. Química Nova, vol. 38, No. 1, 106-117, 2015.

Melo, N. P. A. Nióbio do Brasil: um estudo sobre a variação do valor das exportações do minério (1999-2016). Trabalho de conclusão de curso em bacharel em relações internacionais. Universidade Federal de Uberlândia. Julho, 2017.

 

 

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Nos oceanos, tamanho é documento!

Por que alguns mares são mais salgados que outros? Por que a temperatura no Hemisfério Norte varia mais que no Hemisfério Sul? Qual é o oceano mais quente? Tudo isso tem a ver com o formato dos nossos oceanos. Hoje  conversaremos sobre como as dimensões do oceano influenciam em alguns dos processos físicos mais comuns!

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Ocean Waves. UN DESA.

 

A maior parte da superfície terrestre é coberta por mar, cerca de 71% oceano e 29% continentes. Esses 71% correspondem a um volume de água de aproximadamente 1.360.000 km3 de água. A profundidade média dos oceanos é de 4km e, em relação ao nível do mar, os oceanos possuem maiores diferenças altimétricas do que os continentes. Enquanto somente 11% da superfície terrestre está acima de 2000m, 84% do assoalho oceânico tem profundidade superior a 2000m. As máximas de ambos, no entanto, são similares com a Fossa das Marianas >11.000m e o monte Everest com quase 9000m. Apesar da profundidade média dos oceanos ficar em torno de 4000 m, essa distância vertical é relativamente pequena quando comparada à escala horizontal dos oceanos, que está entre 5000km e 15.000km. O oceano é uma camada bem fina em relação a superfície terrestre e, para sua adequada representação, precisa de exagero da escala vertical. 

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Relação entre a altitude dos continentes e a profundidade do oceano. Fonte: Reproduzido de Emanuelly Verde.

 

O oceano é “mais alto”, contém um impressionante volume de água e diversas subdivisões e feições topográficas. Como isso influencia nas características físicas dos oceanos?

MARES E DIMENSÕES 

Os oceanos são bacias na superfície sólida da Terra contendo água salgada. As maiores áreas oceânicas são o Oceano Pacífico, o Oceano Índico, o Oceano Atlântico, o Oceano Ártico e o Oceano Austral. Os primeiros 4 são claramente divididos por massas continentais, mas os limites que o Oceano Austral faz ao norte com os outros oceanos são dinâmicos. Ou seja, são determinados somente pelas características das águas e pela circulação. A Corrente Circumpolar Antártica é a corrente principal da Antártica e suas frentes são consideradas como os limites dinâmicos do oceano Austral.  

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Mapa-mundi com divisões do planeta em hemisférios, oceanos e massas continentais. Encyclopædia Britannica, Inc.

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Observe a demarcação do Oceano Austral. Ao contrário dos demais oceanos, demarcação é dinâmica. Nesse caso, ele é demarcado ao norte pela Zona de Convergência Antártica e ao Sul pelo continente Antártico.

 

Além das bacias oceânicas, existem os Mares Marginais. Eles são bacias de água salgada razoavelmente grandes que são conectadas ao oceano aberto por um ou alguns canais estreitos. Os que são conectados por poucos canais são chamados de mares mediterrâneos, em referência ao Mar Mediterrâneo do continente europeu.

→ Mar Mediterrâneo

O Mar Mediterrâneo apresenta um balanço negativo de P-E (precipitação e evaporação), ou seja, menos entrada de água doce (deságue de rios e precipitação) e mais evaporação.

→ Mar Negro

Exemplo de balanço positivo, ele se conecta ao Mar Mediterrâneo.

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Note como o Mar Negro (Black Sea) se conecta ao Mar Mediterrâneo por um pequena passagem em seu limite sul. Fonte: Free World Maps.

 

O termo mar também é utilizado para porções do oceano que não são divididas por terra, mas tem características oceanográficas locais que as distinguem do seu entorno.

→ Mar da Noruega

O Mar da Noruega se caracteriza pela presença de uma batimetria profunda que “aprisiona” as águas naquela região. Essas bacias profundas podem servir de proxy em estudos, pois a renovação das águas é bastante lenta.

→ Mar do Sargasso

É uma região cercada por correntes oceânicas e que está inserida em um giro anticiclônico. É conhecido pela grande concentração de algas que acaba sendo deslocada para seu interior.

À esquerda, esquema ilustrativo da circulação dominante no Mar do Sargasso (Fonte: Domínio Público). À direita, foto da localidade mostrando a acumulação de algas (Fonte: European Space Agency). 

A forma, a profundidade e a localização geográfica dos oceanos afetam as características gerais de circulação de cada oceano. 

→  Proporção de água para terra em cada hemisfério – HN 1.5:1 / HS 4:1. 

O potencial calorífico da água é muito maior do que o dos continentes, tornando os oceanos um excelente regulador térmico. Ou seja, essa proporção influencia diretamente na amplitude térmica, que por sua vez influencia o gradiente de pressão, que influencia a intensidade dos ventos e que transfere momentum às correntes superficiais. A maior amplitude térmica se dá no HN, por ter menos água.

→ Largura das Bacias

O Atlântico forma um “S” bem marcado no seu centro e o Pacífico possui uma distribuição mais oval o que impacta em como a circulação se ajusta à mudança de fatores que a influenciam. A diferença de largura implica por exemplo, nas características termohalinas (salinidade e temperatura) de cada oceano. O Pacífico, para uma mesma latitude, apresenta regiões (mais extensas) com temperatura superficiais mais altas do que as do Atlântico. Isso acontece porque o Oceano Pacífico é significativamente mais amplo perto do equador do que o Atlântico.

Compare a largura das bacias.  Fonte: CIA – The World Factbook.

 

Mas como exatamente se dá esse processo de aquecimento desigual? A maior parte do aquecimento dos oceanos e exportação de calor tem lugar nas regiões equatoriais, e é importante notar que as águas não são estacionárias. De forma geral, a circulação nos oceanos abertos pode ser descrito como giros anticiclônicos – giros conduzidos pelo vento, no sentido horário no hemisfério Norte e sentido anti-horário no hemisfério sul. Assim, em ambos os oceanos Atlântico e Pacífico, as águas do oceano viajam para o oeste ao longo do equador a cerca de 10-15 cm/s.

O Atlântico tem cerca de 6.500 km de largura na linha do equador, enquanto o Pacífico tem quase 18.000 km de largura. Isto significa que no Atlântico, as águas passam por sua região de maior aquecimento durante cerca de 45 dias, enquanto no Pacífico passam por este aquecimento por cerca de 125 dias antes de serem desviados norte e sul para os giros subtropicais.

Assim, as águas superficiais do Pacífico se submetem a esse aquecimento por quase 3 vezes mais tempo que as águas do Atlântico, resultando em temperaturas de superfície mais elevadas e maior exportação de calor para latitudes mais altas.

→  Volume

O Oceano Pacífico abriga cerca de 49% do volume total dos oceanos, representando mais do que o volume do Atlântico e do Índico somados.

→  Limites latitudinais

Observando o oceano Índico, percebemos que ele não faz parte de nenhuma região polar. A inexistência de regiões frias, impede que se forme água de fundo ou profunda no Índico.

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Observe o Oceano Índico, área hachurada, não se estende ao sul de 60°S. Fonte: CIA – The World FactbookCIA – The World Factbook

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Referências

  1. Lynne D Talley. Descriptive physical oceanography: an introduction. Academic press, 2011.
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Dieta low-carb: heroína ou vilã?

A dieta conhecida como “low-carb”, ou pobre em carboidratos, se tornou muito popular nos últimos anos entre aqueles indivíduos que procuram perder peso. Essa dieta é definida pelo consumo reduzido de carboidratos (presente em pães, massas, cereais e frutas), em detrimento do aumento da ingestão de proteínas (presente em carnes, ovos, leite e feijões) e gorduras (óleos, manteiga, queijos e castanhas). A conduta divide opiniões entre profissionais e cientistas.  

A primeira controvérsia reside no fato da dieta variar bastante na quantidade de carboidratos, bem como no restante dos alimentos que a compõe, tornando difícil a padronização e agrupamento nos estudos científicos. Segundo uma revisão publicada em 2019, nossa alimentação pode ser definida como (1):

1. Muito baixa em carboidratos: < 10% do valor calórico ingerido no dia ou 20-50 mg/dia

2. Baixa em carboidratos: <26% do valor calórico ingerido ou < 130 mg/dia

3. Moderada em carboidratos: 26-44% do valor calórico ingerido

4. Alta em carboidratos: a partir de 45% do valor calórico ingerido ou mais

A circunferência abdominal aumentada é um dos principais riscos para doenças do coração. Fonte: blogs.jornaldaparaiba.com.br

Em relação aos efeitos no organismo, alguns estudos avaliaram o efeito a curto prazo sobre a perda de peso e relataram que a redução do carboidrato foi eficiente em promover a perda de peso e reduzir o risco metabólico (menor pressão arterial, menor circunferência abdominal, colesterol e inflamação) enquanto que outros, que avaliaram o efeito a longo prazo, encontraram maior mortalidade e resultados controversos, dependendo da população estudada – benefício não encontrado em populações orientais e mulherem americanas, por exemplo.(1,2). A maior limitação desses estudos reside no fato de eles serem de observação, usarem dados heterogêneos (misturarem vários tipos de dietas) e usarem metodologias falhas com falta de poder estatístico pra encontrar a associação entre os alimentação e mortalidade.

Pensando em preencher algumas dessas lacunas, Mohsen Mazidi e um grupo de pesquisadores da Academia de Ciências, Hospital das Forças Armadas Chinesas, Hospital Hippocration na Grécia, Universidade College London na Inglaterra, Universidade Place no Reino Unido, Universidade Médica de Lodz na Polônia e o Centro de Pesquisa Cardiovascular da Universidade de Zielona Gora publicaram em abril deste ano um estudo na revista European Heart Journal avaliando dados de um grande estudo de coorte (saiba mais aqui), conhecido como NHANES – um dos mais importantes para a pesquisa em saúde. Neste trabalho os autores focaram na saúde e mortalidade geral e por causas específicas, uma vez que a dieta “low-carb” pode levar ao aumento da ingestão de gordura, fator conhecidamente associado a risco cardiovascular(2). Também foi realizada uma revisão sistemática e metanálise com 9 estudos prospectivos e 462 mil participantes.

Para o estudo de coorte, os autores avaliaram os dados de 24825 participantes adultos acima de 20 anos, usando 2 anos de ciclo da pesquisa entre 1999 e 2010. Os dados dietéticos dos participantes foram avaliados por meio de questionários contendo todos os alimentos e bebidas consumidos dois dias antes de cada entrevista. O consumo de carboidratos foi categorizado em quartis desde 0 (considerado alta ingestão, representando 66% do valor calórico consumido) até 10 (considerado baixa ingestão, representando 39% do valor calórico consumido) e calculado em relação ao total de energia consumido. 

Os resultados do estudo do NHANES mostraram que o consumo dos 3 quartis mais altos de carboidratos foi maior nas mulheres, e que a maioria dos participantes com menor escolaridade apresentavam o quartil mais baixo de ingestão de carboidratos. Em relação aos desfechos de saúde, a mortalidade total foi positivamente associada nos com a menor quantidade de carboidratos consumidos, mesmo após ajustes para outros fatores, mantendo-se para causas específicas como morte por doenças cerebrovasculares, cardiovasculares e câncer. Ao separar pelo estado nutricional, a associação se manteve em obesos e não obesos, sendo mais forte nos participantes não obesos. Os resultados na metanálise corroboraram com esses achados, indicando associação positiva entre a dieta low-carb e a mortalidade total, morte por doença cardiovascular e câncer, com ótima sensibilidade. Ao se avaliar a ingestão de proteína, o padrão baixo carboidrato/alta proteína foi associado significativamente com maior mortalidade.

Assim, os autores concluem que existe efeito adverso potencial ao se adotar a alimentação “low-carb” a longo prazo, associado a maior mortalidade e mortalidade cerebro-cardiovascular e por câncer, considerando 39% de carboidratos na dieta. Uma das possíveis explicações para esse resultado é que a redução dos carboidratos acompanham menor ingestão de fibras, presente nas frutas e nos cereais integrais – fator reconhecidamente protetor para a saúde, e aumento do consumo de proteína animal (rica em colesterol e gordura saturada). Entretanto, apesar de resultados expressivos, o artigo não põe fim à discussão, uma vez que dietas com menos de 39% de carboidratos, ou seja, aquelas com baixo e muito baixo teor de carboidratos não foram avaliadas no estudo – mas acende um alerta importante sobre as mudanças alimentares sem orientação adequada. 

A metanálise mostrou que a dieta low carb se associou a maior mortalidade (Favours B), indicado no lado direito do gráfico. Fonte: European Heart Journal, ehz174, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehz174

Enquanto aguardamos novos resultados, a mensagem principal é que nossa alimentação deve ser equilibrada, orientada por profissional habilitado e de acordo com sua necessidade e individualidade, priorizando alimentos naturais e ricos em vitaminas, minerais e fibras. É importante lembrar que dietas restritivas podem ser muito atraentes e com resultados rápidos, mas podem ser difíceis de serem mantidas e trazer efeitos indesejados, exatamente como levantado pelo estudo com dados americanos. 

Mas calma! Não podemos concluir que agora carboidratos estão liberados à vontade: nesta história, a moderação e o bom-senso ainda são os principais heróis!

1) Oh R, Uppaluri KR.Low Carbohydrate Diet. SourceStatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2019 May 13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537084/

2) Mazidi MKatsiki NMikhailidis DPSattar NBanach M. Lower carbohydrate diets and all-cause and cause-specific mortality: a population-based cohortstudy and pooling of prospective studies. Eur Heart J. 2019 Apr 19. pii: ehz174. doi: 10.1093/eurheartj /ehz174 https://academic.oup.com/eurheartj/article-lookup/doi/10.1093/eurheartj/ehz174

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Joana D’Arc visita o Brasil. Ou pelo menos podemos imaginar como seria

Desde 2 de julho até 25 de agosto está aberta a exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc na cidade de Serro-MG, depois de um mês em Diamantina-MG. Infelizmente não se trata de uma visita oficial da heroína francesa a uma das mais célebres mulheres brasileiras do século XVIII, mas de uma igualmente interessante proposta de comparar a trajetória dessas duas personagens instigantes. O Cientistas Feministas conversou com a pesquisadora responsável por essa exposição, a historiadora Flávia Aparecida Amaral, professora da UFVJM, sobre a proposta dessa exposição, como Chica da Silva e Joana D’Arc podem ser comparadas, como esse tipo de abordagem auxilia a pesquisa no Brasil, especialmente na área de Estudos Medievais, e também sobre a sua pesquisa sobre a construção da imagem heroica de Joana D’Arc.

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Você poderia explicar como surgiu a ideia de estabelecer um diálogo entre Chica da Silva e Joana D’Arc?

F.A: A exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc é parte das ações planejadas dentro do projeto Caminho Saint Hilaire, da prefeitura de Diamantina, cujo objetivo é desenvolver um corredor cultural, histórico, gastronômico, ambiental e medicinal, na região que liga três cidades: Conceição do Mato Dentro, Serro e Diamantina. O naturalista francês Auguste Saint-Hilaire percorreu essa região, descrevendo sua flora, relevo e cultura no início do século XIX. O objetivo da exposição foi homenagear a cidade francesa de Orléans, onde nasceu Saint-Hilaire, no mês de comemoração dos 590 anos da libertação dessa cidade por Joana d’Arc. A irmanação das cidades do Serro, Diamantina, Conceição do Mato Dentro e Orléans, proposta pelo projeto Caminho Saint-Hilaire, nos deu a oportunidade de vislumbrar aspectos que aproximam esses municípios de grande importância histórica para seus países. Um dos pontos mais interessantes é o fato dessas cidades contarem com duas personagens femininas que protagonizam a construção da memória local nessas regiões. Mulheres com percursos improváveis, que ocuparam espaços não destinados a elas e que até hoje provocam reflexões e polêmicas na interpretação das suas trajetórias de vida.

De que forma vocês traçaram esses diálogos em termos de temas e objetos selecionados para a exposição?

F.A: A exposição foi pensada em torno de uma ideia central: Chica da Silva recebendo Joana d’Arc para uma visita, visto que o evento, em Diamantina, ocorreu na Casa da Chica onde, atualmente, funciona o Escritório Técnico do Iphan na cidade. Dessa forma, em um primeiro momento, o objetivo era apresentar a Donzela de Orléans à dona daquela casa e aos moradores da cidade a partir de alguns documentos históricos. No primeiro ambiente da exposição, trouxemos testemunhos documentais do século XV cujo objetivo principal é desvendar a verdadeira personalidade de Joana d’Arc. Em De quadam puella, texto anterior à vitória em Orléans, a pergunta essencial é “Quem é essa jovem”? Já na obra Sibilla Francica – “Sibila Francesa” – o autor proclama Joana como uma profetisa pertencente a um grupo reconhecido pelo cristianismo como as mulheres que profetizaram, além dos destinos de gregos e romanos, a Encarnação de Jesus – as Sibilas.

A partir do reconhecimento de Joana d’Arc como uma sibila, tem início a conexão entre a heroína francesa e a história do Tijuco (antigo nome de Diamantina). Diamantina é o único local de colonização portuguesa na América a contar com representações das sibilas em véus quaresmais e na abóbada de uma de suas Igrejas, a de Nosso Senhor do Bonfim. Na mostra expusemos a representação de um desses belos véus quaresmais como forma de aproximar Joana d’Arc da história do Tijuco.

Dentro do contexto da exposição, a apresentação de Joana d’Arc a seus anfitriões – Chica da Silva e o povo de Diamantina – teria o seguinte percurso.

  • Uma pergunta inicial “Quem é essa Donzela, quem é Joana d’Arc?” A partir dos documentos apresentados o público poderia construir sua resposta. Além dos trechos dos dois documentos já apresentados DE QUADAM PUELLA e SIBILA FRANCICA, foi colocado à disposição do público um livreto com trechos do processo que condenou Joana d’Arc à morte, na fogueira, em 1431, do processo que anulou a condenação, em 1456, e do processo que a beatificou, tornando-a santa em 1920.
  • A apresentação de Joana d’Arc como uma sibila pela obra SIBILA FRANCICA aproxima essa personagem histórica dos anfitriões. Familiarizados com suas sibilas, Chica da Silva e os diamantinenses passam a ter condições de decifrar a personalidade da visitante.

E de que forma essa comparação pode auxiliar os estudos e as interpretações sobre essas duas mulheres aqui no Brasil?

F.A: O ponto chave da exposição foi trabalhar a questão da construção e dos usos da memória e a importância desse debate na formação das identidades. Quem foi Chica da Silva, quem foi Joana d’Arc? Poucos se atrevem a dar uma resposta definitiva, mas todos temos que concordar que as memórias construídas em torno dessas duas figuras femininas moldaram e continuam moldando o imaginário de seus países de origem. Brasil e França lançam sobre essas personagens históricas luzes e sombras na interpretação de seu próprio passado buscando nessas mulheres algo que possa conduzir esses países na encruzilhada de seus desafios ao longo do tempo.

Em termos mais gerais sobre a área de História Medieval, você poderia falar um pouco sobre a presença dos Estudos de Gênero nessa área?

F.A: Especialmente na década de 1990 o recorte dos estudos de gênero fez sucesso entre os medievalistas, sobretudo na historiografia norte-americana. Há um livro que se tornou referência para o assunto, escrito pelo professor R. Howard Bloch, da Universidade de Yale: Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental, de 1991. Na obra o autor traça um panorama da aversão à figura feminina construída pelos textos cristãos do início da Idade Média, discutindo a importância desse modelo que influenciou a literatura medieval e a construção da ideia de amor romântico no Ocidente. A partir de então houve uma proliferação desses estudos que conheceu seu auge naquele período.

Finalmente, pode nos explicar um pouco do seu trabalho a respeito das imagens construídas de Joana D’Arc?

F.A: No meu doutorado investiguei as condições historiográficas e intelectuais que permitiram a construção de Joana d’Arc como uma heroína laica e republicana no século XIX francês. Esse processo esteve associado à construção do discurso nacionalista e ao nascimento da História enquanto uma disciplina científica. Agora, no pós-doutorado, estou trabalhando com textos do período em que Joana d’Arc surge no cenário político francês, em 1429. Naquele momento houve muita dúvida em relação à verdadeira natureza de suas inspirações, se elas teriam uma origem divina ou diabólica. Tenho estudado alguns desses textos com o objetivo de discutir a partir de Joana d’Arc as visões sobre o profetismo feminino no final da Idade Média.

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Após o período em Serro, a exposição Chica da Silva recebe Joana D’Arc seguirá para Conceição do Mato Dentro-MG. Não deixem de conferir!

 

Referências:

BLOCH, Howard Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental São Paulo: Editora 34, 2000.

AMARAL, Flávia A. História e ressignificação: Joana d’Arc e a historiografia francesa da primeira metade do século XIX São Paulo. Universidade de São Paulo. Tese de Doutorado. 2012.

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Uma nova esperança no combate à malária

A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido para os seres humanos através da picada de mosquitos do gênero Anopheles. A malária é a doença transmitida por vetores que mais recebe investimentos para sua eliminação, US$ 3.1 bilhões de dólares foram investidos para a eliminação da doença no ano de 2017. Estima-se que 219 milhões de casos de malária ocorreram nesse mesmo ano , totalizando 435 mil mortes. Cerca de 90% das mortes por malária ocorreram nos países da África Sub-Saariana, acometendo principalmente crianças menores que 5 anos.

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Países com casos de malária em 2000 e seu status em 2017 – em vermelho as regiões mais afetada pela doença. Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Devido à implementação de diversas técnicas para o controle da malária, as mortes pela doença caíram 60% desde os anos 2000. As estratégias de controle são baseadas no uso de mosquiteiros tratados com inseticidas e pulverização de inseticidas dentro dos domicílios. Além do uso de testes rápidos para o diagnóstico da doença e tratamento derivados da artemisinina (artesunato + mefloquina). Apesar dos avanços no controle da doença, muitas comunidades ainda não conseguem ter acesso à essas intervenções, e é por isso que cientistas estão desenvolvendo uma vacina que seja efetiva contra a doença. Cabe ressaltar que a malária causa um importante impacto negativo na economia de países africanos.

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Plasmodium vivax se multiplicando nos glóbulos vermelhos do sangue. Fonte: Public Health Image Library (PHIL).

A vacina, que recebe o nome científico RTS,S representando sua composição ou MosquirixTM, foi desenvolvida em 1987 e de lá pra cá passou por diversos testes para testar sua eficácia. Essa vacina espera ativar o sistema imune quando o Plasmodium falciparum infecta a corrente sanguínea por meio da picada do mosquito Anopheles. A vacina foi desenvolvida para prevenir o parasita de infectar as células do fígado do paciente (período de incubação da doença). 

A vacina tem sido rigorosamente testada por uma série de testes clínicos. Na fase 3, a vacina foi testada quanto a sua segurança e efetividade, em um teste clínico envolvendo 15.459 crianças africanas. Os testes mostraram que a vacina preveniu aproximadamente 4 em 10 (39%) casos de malária e 3 em 10 (29%) casos de malária severa em um período de 4 anos.

 

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Fonte: Pixabay

Essa é a primeira vacina que proveu proteção parcial contra a malária em crianças menores de 5 anos. Após anos de testes, a vacina está pronta para ser implementada em um programa de imunização piloto que ocorrerá em três países africanos, Gana, Quênia e Malawi. Estima-se que aproximadamente 360 mil crianças receberão a vacinação junto com suas vacinas da infância. A vacina será implementada em quatro doses, uma vez por mês durante três meses e a quarta dose após 18 meses.

O programa de imunização durará seis anos. O objetivo do programa de imunização é colher o máximo de informação na efetividade e quaisquer efeitos colaterais associados ao uso da vacina, para assim poder ser implementada em um contexto mais amplo.

Apesar da eficácia da vacina ser de apenas 40%, o que não é alto em comparação a outras vacinas, ainda assim é um grande avanço rumo ao controle da malária e sua subsequente eliminação. Com menos pessoas doentes, os mosquitos terão menos oportunidades de serem infectados e carregar os parasitos e com isso infectarão menos pessoas.

Referências

Organização Mundial da Saúde – Perguntas e Respostas sobre a implementação da vacina.

Organização Mundial da Saúde – Relatório sobre a vacina contra a malária.

PATH – Explicação sobre a implementação da vacina.

 

Notícia em português

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/oms-anuncia-primeiro-teste-em-grande-escala-de-vacina-contra-malaria.ghtml

Mais sobre a malária no blog

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/18/malaria-novas-complicacoes-para-velhos-problemas/

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/25/malaria-de-macacos-infectando-humanos-na-mata-atlantica/