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Por que precisamos defender o SUS para enfrentar a pandemia COVID-19?

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Figura 1 – “Viva o SUS” Ilustração Ana Cattini. No Instagram @_cattini

 

            “Saúde é direito de todos e dever do Estado” ou “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.”. As frases incorporadas na constituição brasileira de 1988 é repetida por muitos, e é bastante lembrada quando se pretende defender o Sistema Único de Saúde brasileiro. Garantir a saúde como um direito constitucional foi um grande avanço que culminou com a criação do sistema público de saúde, o Sistema Único de Saúde – SUS – pensado durante um período de turbulência política, entre os anos 67 e 77, dentro da luta contra a ditadura militar e democratização do país. Mas o movimento que originou o SUS, chamado de Reforma Sanitária Brasileira, não acabou aí. Ele continua e precisamos mais do que nunca nos engajar nele.

            Tenho alguma experiência como pesquisadora e defensora da Saúde Coletiva e, ao longo da minha trajetória, precisei desenvolver um certo otimismo crítico, mas não irresponsável, diante do caos. Esse precisava ser um caminho necessário para ensinar e pesquisar saúde, pois além de aprofundar nos problemas e críticas à condução desse grande projeto de oferecer serviços de saúde gratuitos para a população, é nossa tarefa pensar respostas e propostas criativas para enfrentar os problemas, seja os de saúde, ou de gestão. Lembrar que cidadãos, intelectuais, pesquisadores e trabalhadores da saúde pensaram, produziram e praticaram o projeto de sistema universal e gratuito para um país de extensão continental e marcado por profundas desigualdades sociais, em um momento tão duro da história do Brasil, me ajudou nessa empreitada.

            A discussão sobre a relação entre saúde, política e desigualdades não é nova, está na base do campo que se chama Saúde Coletiva. Esse é o campo que produz o referencial teórico e prático para o SUS. Entre seus pressupostos, estão a ideia de que um paciente vive em um tempo e um lugar, e que as doenças e a saúde são produzidas e afetadas por esse contexto, que também é determinante para o desfecho das doenças. Assim foi a história da professora  Rafaela de Jesus, uma das vítimas do coronavírus, que estava gávida e morava no interior da Bahia, em uma cidade que não possui leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). No Brasil, as grandes estruturas hospitalares estão concentradas principalmente nas capitais. Rafaela de Jesus, contaminada depois de ter contato indireto com turistas que estavam na região, precisou esperar uma ambulância de uma cidade maior que estava a caminho para atendê-la, mas infelizmente não chegou a tempo de tratá-la.

            Desde o início da pandemia da COVID-19 tenho escutado muito mais o nome no SUS. Circularam na internet imagens em defesa do SUS, e até um dos recém ex-ministros da saúde – que iniciou seu mandato sem muitos projetos concretos para o sistema de saúde pública e com interesses alinhados aos do sistema privado de saúde – participou de coletivas de imprensa usando uniforme do SUS. Mas afinal, por que precisamos defender o SUS como principal aliado para o enfrentamento de uma pandemia

            Para responder melhor essa pergunta, precisamos voltar um pouco na origem do sistema. O projeto da Reforma Sanitária Brasileira era ambicioso e utópico, no sentido de vislumbrar um futuro para o país que estava muito além do que se entendia como algo possível no Brasil das décadas de 60 e 70. O que propunha era uma transformação profunda na sociedade como um todo, para além de uma reforma exclusiva do setor da saúde. O movimento oferecia um projeto de sociedade, de melhoria das condições de saúde e da qualidade de vida da população brasileira, com um conjunto de práticas culturais, políticas, científicas, teóricas e técnicas, e mudanças na relação entre saber e prática. A Reforma Sanitária Brasileira não é definida por seus teóricos como algo do passado, que acabou. Essas pesquisadoras e pesquisadores que se dedicaram a estudar esse movimento, destacam que a reforma sanitária brasileira é um processo, está ai, e como diz Lilia Schraiber (p. 17) “o campo que se prepare, pois ainda há muito por fazer em matéria de Reforma Sanitária.”[i]

Precisamos defender um Sistema Público e Universal para o Brasil como o principal aliado no enfrentamento da pandemia da COVID19 porque o ele não se resume a serviços de saúde, apesar de serem extremamente importantes nesse momento. O SUS é uma rede complexa de serviços, pesquisa, controle de doenças, presente em todo país, consolidado há mais de 30 anos. Em sua origem e base teórica e política, estão as ideias de que garantir qualidade de vida para a população só é possível em uma sociedade justa e igualitária. Nesse quadro, são primordiais os esforços conjuntos de pesquisadores, políticos, profissionais de saúde de diferentes especialidades, bem como a colaboração da população como um todo. Também deve-se levar em conta que as doenças e a saúde atingem de forma diferente mulheres, homens, as populações negra e indígena, ricos e pobres, e as tão distintas regiões do país. Por isso, a saúde pública no Brasil precisa ser pensada de forma a diminuir essas várias desigualdades. Para alcançar esse objetivo, é preciso financiamento adequado do Estado, equipamentos e incentivo à pesquisa e às universidades para não só formar profissionais da saúde pública, mas também desenvolver tecnologia própria para tornar o SUS mais efetivo.

Enfim, é preciso considerar a saúde como algo complexo, que afeta e é afetada por outros setores, como trabalho, renda, lazer e educação. A pandemia da COVID-19 tem deixado isso muito claro, de forma extremamente dolorosa. Assistimos o número de óbitos acelerar de forma desigual no país, e chagar a situações dramáticas, como em Manaus. Nesse curto período, a produção cientifica de diversas áreas do conhecimento é acelerada para responder questões concretas, que acontecem, na prática, de forma muito mais rápida que o tempo da produção intelectual. Pesquisadoras já publicaram, por exemplo, um artigo[ii] que resgata permanências históricas da nossa sociedade, para discutir os impactos da pandemia na população negra e em espaços geográficos segregados a partir de exemplos de outras doenças. As autoras apresentam o dado de dificuldade de testagem em locais como o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, e outros problemas relacionados a estratificação racial e de classe, não só no Brasil, como em outros países como os Estados Unidos, além de propostas para enfrentar esses problemas.

            Para saber mais sobre esse assunto, acesse os sites da Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, o CEBES, do Observatório de Análise Politica em Saúde e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abrasco – que tem promovido a Ágora Abrasco, uma serie de debates sobre a pandemia da COVID-19 no Brasil. Respondo nesse texto parcialmente a questão que foi feita no título, e convido vocês, leitoras e leitores, a contribuir com a resposta, enviando comentários e dúvidas.

Referências Bibliográficas

[i] PAIM, JS. Reforma Sanitária Brasileira: Contribuição para a compreensão e crítica. Salvador: Edufba/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 356 pp.

[ii] GOES, Emanuelle F.; RAMOS, Dandara O.; FERREIRA, Andrea J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3,2020, e00278110. DOI: 10.1590/1981-7746-sol00278

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Contar para (re)lembrar

Reflexões sobre O Crime do Cais do Valongo, de Eliana Alves Cruz

Foi pelo Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro, que grande parte dos escravizados africanos chegaram ao Brasil durante o período em que ocorria intenso tráfico de pessoas. A região do cais é um espaço de construção de narrativas sobre o passado brasileiro, sobretudo sobre a história da escravidão.

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Desembarque da Princesa Real Leopoldina (1834, de Jean Baptiste Debret)

Pensando sobre a importância desse local e sobre a história da escravidão, a escritora carioca Eliana Alves Cruz, em seu romance O Crime do Cais do Valongo, constrói uma narrativa nela ambientada, numa reconstrução histórica do início do século XIX. A autora representa, a partir da poética da ficcionalidade, como seria o cotidiano e como seria a interação das diversas camadas sociais que compunham a sociedade da época. A obra apresenta como seriam tratados os escravizados que aportaram no Brasil, representando vozes, pensamentos, medos, inseguranças, tristezas e revoltas.

Publicado em 2018, a obra acompanha a busca por desvendar a morte de Bernardo Lourenço Viana, rico comerciante branco, Barão de Mata Cavalos, encontrado assassinado na rua, com sinais de mutilação. Os acontecimentos são narrados a partir de duas perspectivas: Nuno Alcântara Moutinho e Muana Lómuè. Nuno é um mestiço, filho de um português branco e uma mãe também mestiça. Segundo o narrador: “Sou um pardo, um mulato e fui criado ali, largado, solto entre os livros e pelas ruas fazendo pequenos serviços para a família do livreiro” (CRUZ, 2018, p.35). Já Muana é uma escravizada moçambicana, que além de fornecer informações sobre a morte de seu “senhor”, o barão assassinado, conta sua própria história de vida, de mulher livre em África até ser trazida para o Brasil.

Ser escravizado representa ser visto como um objeto, como uma mercadoria. O ser humano é esvaziado de subjetividade. Para o filósofo camaronês Achille Mbembe (2018, p.27), ser escravo significa uma tripla perda: “perda de um ‘lar’, perda de direitos sobre seu corpo e perda do estatuto político. Essa tripla perda equivale a uma dominação absoluta, uma alienação de nascença e uma morte social (que é expulsão fora da humanidade)”. Dessa forma, ao escolher a voz de uma mulher escravizada como uma das perspectivas principais para contar a sua história, a autora proporciona ao leitor acompanhar toda uma trajetória de uma mulher que luta para que sua humanidade seja preservada.

Pensar a construção da história a partir da voz do silenciado é uma forma de entender que o passado não é uma constante linear e universal, mas que é composto por muitas vozes que atuam de forma divergente a partir de relações de poder. Não é possível se pensar a escravidão do Brasil, por exemplo, a partir de apenas uma linha de raciocínio e uma cronologia. Ouvir a voz do silenciado é o caminho para pensar numa concepção mais ampla do passado. Mais do que esvaziar de sentido e humanidade os corpos, há também o processo de apagamento dos conhecimentos, o epistemicídio. Para Suely Carneiro:

(….) a história do epistemicídio em relação aos afro-descendentes é a história do epistemicídio do Brasil, dado o obscurantismo em que o país foi lançado em sua origem. O projeto de dominação que se explicita de maneira extrema sobre os afrodescendentes é filho natural do projeto de dominação do Brasil, um sistema complexo de estruturação de diferentes níveis de poder e privilégios. (CARNEIRO, 2005, p.104)

capa do livro crime do cais do valongo

Contar uma história a partir da perspectiva, mesmo que ficcional, daqueles que sempre foram silenciados é importante faceta do romance O Crime do Cais do Valongo. Mais do que apresentar uma obra de ficção, o romance instiga para que os vestígios do passado do Brasil possam ser refletidos. Ao conferir protagonismo de uma escravizada na reconstrução da narrativa histórica brasileira, Eliana Alves Cruz abre um caminho para que se possa (re)lembrar do passado de opressão, entender as estruturas que permanecem no presente e que seja possível resistir e construir um futuro mais livre de opressões e silenciamentos, no qual todos possam ser livres para serem protagonistas das próprias histórias.

REFERÊNCIAS

Carneiro, A. Suely. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

CRUZ, Eliana Alves. O crime do Cais do Valongo. Rio de Janeiro: Malê, 2018.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Trad. Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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“Precisamos (…) lutar por um outro mundo possível”- Entrevista a Marcia Tiburi

O que eu teria gostado de realizar esta entrevista numa esplanada, ao sol, com algum friozinho, a sentir um ventinho no rosto e a beber um chá ou um café bem quente! Sem tempo contado, para poder falar com esta mulher inspiradora das ciências sociais e humanas – Marcia Tiburi – sobre vários temas da actualidade, e ficar a conhecer melhor o seu pensamento. Mas, mesmo que fosse viável encontrarmo-nos pessoalmente, nos dias que correm isso seria impossível, porque nos encontramos em confinamento, devido ao coronavírus. E é precisamente sobre este tema que nos vamos debruçar, numa conversa virtual, como ditam as boas regras do isolamento social. Marcia Tiburi dispensa grandes apresentações: de nacionalidade brasileira é doutorada em filosofia, professora universitária, escritora, artista plástica, política e tem mais de vinte obras publicadas na área das ciências sociais, que falam por si.

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Marcia Tiburi (foto cedida pela própria) 

Helena Ferreira (HF) – Como analisa este contexto distópico, que ninguém esperava, e para o qual não estávamos preparados, que estamos a viver?

Marcia Tiburi (MT) – Helena, é um momento distópico, de fato. A sensação da distopia nos surge no momento em que algo que deveria ter ficado escondido, de repente, apareceu. É o que Freud chamava de “unheimliche”, quando o que é familiar se torna estranho e o estranho se torna familiar. Estamos dentro disso. Chance para que o sistema econômico seja modificado, pois é o sistema econômico que nos levou a esse estado de coisas. O vírus pode ser forte, mas em uma sociedade baseada em outros valores que não os da mercadoria, tudo seria mais fácil. O sistema econômico atinge o sistema de saúde e todos os sistemas, de educação, de informação. Nesse sentido, não é um exagero dizer que o capitalismo funciona como um vírus. Tem o mesmo metabolismo viral. Eu tenho descrito em meus livros, de ficção e não ficção, essas situações distópicas. Creio que a literatura já antecipou as catástrofes que as ciências sociais e a filosofia demoram muito para ver.

HF – O mundo está a responder de forma adequada contra o coronavírus ou esta luta tem sido prejudicada pelas agendas políticas nacionais de alguns governos?

MT – Certamente o vírus vem a ser uma pedra no sapato de um certo capitalismo, aquele que sustenta o capitalismo rentista. O capitalismo não é um bloco fechado, ele é uma teia, tem realmente a estrutura de uma web. Não é a toa que a internet tenha surgido no seu bojo realizando aquilo que é a racionalidade da dominação enquanto racionalidade técnica. O mesmo acontece com o vírus e, nesse caso, o biológico é análogo à técnica digital que se espalha por tudo e a todos conecta. Não devemos ter contato nesse momento, senão o digital e isso sinaliza para o fato de que a nossa experiência humana está sendo ontologicamente modificada. Governantes tirânicos ou fascistas nesse momento, agem em conluio com o vírus, como é o caso de Jair Bolsonaro que, em vez de enfrentar e combater o vírus, está deixando as pessoas morrerem à mingua no Brasil enquanto faz discursos absolutamente fascistas, de ódio e descaso com o sofrimento do povo.

HF – Corre-se o risco desta pandemia ser usada para aumentar o fascismo, o nacionalismo e a xenofobia? Ou, pelo contrário, esta crise poderá aumentar a solidariedade entre as pessoas e os povos?

MT – O fascismo e o neoliberalismo são duas faces da mesma moeda. Uma é política, a outra é econômica. Em todos os momentos em que o capitalismo se viu ameaçado ele contra-atacou ferozmente e não será diferente na sua fase neoliberal. O fascismo não existiria sem o avanço do neoliberalismo. E não teria sido implantado no Brasil se não fossem interesses tipicamente econômicos das elites neoliberais. Nacionalismo e xenofobia crescem nesses meios. O caso do Brasil é interessante porque se trata de um fascismo de subserviência, sem nacionalismo, já que Bolsonaro tem uma subserviência sadomasoquista a Trump. A xenofobia no Brasil é uma questão menos comum, porque temos por lá o racismo que é imenso. O ódio é mais lançado aos habitantes internos do que aos estrangeiros, afinal lá nascemos também todos como estrangeiros e há quem ainda se ache estrangeiro e colonizador. Poderíamos falar, se tivéssemos tempo, da figura do colonizador interno. Há, é verdade, a solidariedade que surge na contramão disso tudo. A questão é saber se ela poderá fazer frente a isso tudo. Se ela não é uma arma muito delicada diante das bombas atômicas do neoliberalismo de rapina que avança sobre a terra.

HF – A pandemia colocou a nu a fragilidade do ser humano, nesta era que a Marcia considera de desinformação. As pessoas, bombardeadas com notícias a toda a hora, sentem a ameaça à sua volta, o medo. Como considera que se podem proteger disto?

MT – Essa é a pergunta mais difícil. As pessoas foram capturadas subjetivamente pelo capitalismo, e muitos pelo fascismo em um processo complexo sobre o qual pouco sabem. Na prática, eu acredito que somos formados por meios. Somos subjetivados pelos meios, ou seja, somos construídos internamente pelos meios de comunicação. Os livros nos formam de um modo, diferente do modo como somos formados pela televisão, do modo como somos formados pelo computador, pela linguagem que se pode usar nas redes sociais. Todos os meios envolvem jogos de linguagem. Nesse sentido, podemos jogar o jogo de linguagem da reflexão, da literatura, da poesia, ou podemos jogar o jogo de linguagem da violência, do fascismo. Para nos protegermos, precisamos cuidar do que pensamos e melhorar nossa relação com os meios que utilizamos. Portanto, é preciso voltar à reflexão, ao raciocínio e à compreensão da complexidade.

HF – Não poderia deixar de perguntar: Há questões de género nesta crise? Isto é, o impacto do coronavírus é diferente para homens e mulheres? O que pode ser feito para colmatar essas questões?

MT – Há, certamente. O aumento da violência doméstica é algo que se expande em todos os países do mundo sob o confinamento. Em relação a isso, podemos denunciar e fortalecer as redes de apoio e informação às mulheres vítimas nesse momento.

HF – Sendo a Marcia uma grande defensora de que a filosofia não deve ficar confinada na academia e que deve promover a reflexão, pergunto-lhe, qual o papel da filosofia, e das ciências sociais, de um modo geral, no meio desta crise? O que têm a dizer? E qual a utilidade disso?

MT – A meu ver, não é possível tratar a filosofia, ou qualquer forma de conhecimento social, como algo dissociado do mundo da vida. De fato, há um prazer imenso na pesquisa filosófica super especializada. Ler e estudar filosofia é um prazer em si mesmo. Porém, há que se levar em conta a contribuição social do saber e da pesquisa. Além disso, creio que a filosofia constrói mundos, constrói patamares a partir dos quais se desenvolvem mentalidades que atravessam instituições e o mundo da vida. Mal usada ela pode produzir aberrações paranoicas. O presidente do Brasil é aconselhado por um “guru” que se diz filósofo que promove o avanço da paranoia no Brasil. Como dizia Freud: a paranoia é um sistema filosófico que não deu certo. Por isso, todos os professores de filosofia nesse momento devem sentir-se convocados a salvar o pensamento reflexivo que é o inimigo mortal do fascismo.

HF – Por último, pergunto-lhe: depois disto, acredita que o mundo vai ser o mesmo? O que muda? Tem alguma mensagem de esperança?

MT – Eu prefiro não trabalhar com o método da crença. Prefiro trabalhar com probabilidades relacionadas a análises e com muito cuidado na hora de falar. Há pouco tempo, uma jornalista me disse que tinha medo dos meus livros, de ficção e não ficção porque eles antecipavam coisas que estavam acontecendo. Não tem nada de místico nisso. Se trata de um processo em que investigação e observação se entrelaçam. O mundo vai continuar após o trauma e deve se esforçar por elaborar o trauma. Os países que tiverem governos menos mesquinhos, ou seja, menos atrelados ao neoliberalismo tendem a se reconstruir com menos sofrimento do que aqueles nos quais o neoliberalismo é a ordem subjetiva e objetiva. Infelizmente, esse é o caso do Brasil. Por lá haverá muitos mortos ainda, como há na Europa e nos Estados Unidos. Esse é um momento de decisão para todos em que vai contar o valor que se dá à vida e à ideia de uma comunidade humana. O neoliberalismo e o fascismo não tem interesse em constituir essa comunidade. O que pretendem é salvar seus sócios, apenas isso. Precisamos, portanto, lutar por um outro mundo possível. Eu creio que é possível, mas não sob o signo do fascismo-neoliberalismo.

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Covid-19 e o cárcere

Figura 1. Superior: detentos de estabelecimento prisional do condado de Cook, na cidade de Chicago, Estados Unidos, exibem cartaz com pedido de ajuda. Fotografia por: Andy Koval (11/04/2020). Inferior: dentro da penitenciária La Modelo em Bogotá, Colômbia, detentos denunciam “mais de 30 mortes”. Fotografia por: AP Photo/Ivan Valencia (22/03/2020).

Os dados estatísticos concernentes à superpopulação encarcerada no Brasil não são novidade: são 729.929 presos, distribuídos em 2770 estabelecimentos prisionais cuja lotação máxima é de 437.912 –uma taxa de superlotação de 166% [1]. As imagens acima demonstram a realidade do cárcere ao redor do mundo no cenário pandêmico que atravessamos: de Chicago (figura 1) a Bogotá (figura 2), o medo da morte e da enfermidade tem sido preocupação constante dos encarcerados. O que esperar em um país como o nosso, cujo governo opera sob o signo da morte e cujos “cidadãos de bem” consideram que “bandido bom é bandido morto”?

E, principalmente, como pensar em evitar a propagação de uma doença infectocontagiosa de proporções globais dentro de estabelecimentos carcerários superlotados?

Na data de 17/03, o Conselho Nacional de Justiça, por meio da Resolução 62/2020, recomendou aos tribunais e magistrados a “adoção de medidas preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus – Covid-19 no âmbito dos estabelecimentos do sistema prisional e do sistema socioeducativo”. A resolução buscou promover a diminuição da população carcerária por meio da aplicação de medidas restritivas de direito alternativas à privação de liberdade. Dentre elas, figuram o uso de tornozeleiras eletrônicas e o recolhimento domiciliar. Em adição, foram estipuladas e reforçadas medidas sanitárias nas ocasiões de visitação externa ao estabelecimento prisional, tais como a higienização dos espaços de visitação e o fornecimento de máscaras e itens de proteção individual aos visitantes.

No último dia 30/03, porém, o ex-Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, assinou um texto publicado no jornal Estado de São Paulo juntamente ao diretor-geral do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), Fabiano Bordignon, confirmando o que já esperávamos. Disseram eles, na contramão da Resolução 62/2020 do CNJ: “não há, porém, nenhum motivo para, no momento, promover a libertação generalizada dos presos, o que nos faria ter que enfrentar, concomitantemente aos desafios decorrentes da pandemia e de suas consequências econômicas, uma crise na segurança pública”.

Ressalta-se que o esforço em prol da desobstrução da população carcerária em terras brasileiras, batizado por Moro e Bordignon de “solturavírus”, segue o curso das medidas adotadas por outros países nos quais o Covid-19 surtiu efeitos alarmantes sobre a população carcerária. Resoluções análogas à do CNJ foram implementadas no Irã, que chegou a libertar cerca de 54 mil presos, nos Estados Unidos, na China, entre outros. Por aqui, a despeito da opinião do ex-ministro e do diretor, diversos magistrados vêm optando pela aplicação de medidas de privação de liberdade distintas da reclusão conforme recomendado pelo Conselho Nacional de Justiça.

Para entendermos o caráter urgente e imprescindível de tais medidas, é preciso relembrar o que por vezes esquecemos: o cárcere não é uma comunidade isolada ou alheia ao restante da sociedade. Mesmo se considerarmos a suspensão das visitas aos encarcerados, sob a justificativa do isolamento social devido à pandemia, a ida e vinda de agentes penitenciários dos estabelecimentos prisionais pode criar notáveis correntes de transmissão –tanto do cárcere para além de seus muros, quanto o fluxo contrário. Ademais, a transferência de presos entre estabelecimentos prisionais e a chegada de novos apenados advindos de fora do cárcere também contribuem para a formação de tal corrente. Esse argumento, embora simples, não está distante de nossa realidade, uma vez que apenas no Distrito Federal, até 12 de abril, a Administração Penitenciária confirmou 18 agentes penais e 20 presos infectados pelo Covid-19 [2].

Além disso, o cárcere configura-se como epicentro para doenças infectocontagiosas. Celas superlotadas, mal ventiladas e não higienizadas, somadas à dificuldade de acesso a serviços de saúde, são apenas alguns dos múltiplos fatores de risco que potencializam a contaminação da comunidade carcerária. Antes mesmo da pandemia causada pelo coronavírus, Dolan et al (2016, p. 188) ressaltaram os casos mundiais de HIV, hepatite viral e tuberculose entre os apenados: em nosso país, no caso da tuberculose, por exemplo, a chance de contaminação daqueles privados de liberdade é trinta vezes maior em relação ao restante do contingente populacional [3].

Às afirmações de Moro e Bordignon a respeito da “falta de motivos” para o desencarceramento em tempos de coronavírus, o presente texto respondeu com apenas três das principais justificativas pelas quais a preocupação com a população carcerária deve ser considerada como prioridade neste momento.  O que almejamos, mais do que fixar conclusões, foi provocar o questionamento e a reflexão acerca dos riscos envolvidos em rechaçar políticas públicas que visam conter a disseminação da pandemia no cárcere e, por conseguinte, também em toda a sociedade além dos muros dos estabelecimentos prisionais.

Não resta dúvidas de que uma enfermidade com alto grau de contágio como o Covid-19, que já provou ser mais do que “só um resfriadinho, uma gripezinha”, produzirá efeitos imensuráveis sobre os encarcerados. Neste período, a ação do Estado visando a proteção dos direitos à dignidade e à saúde –ou, do contrário, sua negligência para com tais direitos- define a linha tênue entre a vida e a morte de milhares de pessoas que compõem esta população vulnerável.

NOTAS

[1] Dados provenientes do estudo “Sistema Prisional em Números”, divulgado em agosto de 2019 pelo Conselho Nacional do Ministério Público. O estudo pode ser acessado em: https://www.cnmp.mp.br/portal/relatoriosbi/sistema-prisional-em-numeros (Acesso: 28/04/2020)

[2] O número foi divulgado pela Pastoral Carcerária no dia 17/04/2020. O artigo completo pode ser encontrado no seguinte link: https://carceraria.org.br/combate-e-prevencao-a-tortura/artigo-covid-19-chegou-nas-prisoes-e-resultado-sera-tragico-para-toda-sociedade (Acesso: 28/04/2020)

[3] Dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2019. Disponíveis em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2019/marco/22/2019-009.pdf (Acesso: 28/04/2020)

PARA SABER MAIS

PIRES, Guilherme M. Poder punitivo e COVID-19. Canal Ciências Criminais, 2020. Disponível em: https://canalcienciascriminais.com.br/poder-punitivo-e-covid-19/. Acesso em: 28/04/2020.

SILVA, Guilherme Rodrigues da. As prisões como epicentro da COVID-19. Justificando, 2020. Disponível em: https://www.justificando.com/2020/04/03/as-prisoes-como-epicentro-da-covid-19/. Acesso em: 28/04/2020.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução n° 62, de 17 de março de 2020. Disponível em: <https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/03/62-Recomenda%C3%A7%C3%A3o.pdf&gt; Acesso em: 28/04/2020.

MORO, Sérgio; BORDIGNON, Fabiano. Prisões, coronavírus e “solturavírus”. Estado de São Paulo, São Paulo, 30 de março de 2020. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/prisoes-coronavirus-e-solturavirus/&gt; Acesso em: 28/04/2020.

KINNER, Stuart A.; YOUNG, Jesse T.; SNOW, Kathryn; SOUTHALA, Louise; LOPEZ-ACUÑA, Daniel; BORGES, Carina Ferreira; O’MOORE, Éamonn. Prisons and custodial settings are part of a comprehensive response to COVID-19. Prisons and custodial settings are part of a comprehensive response to COVID-19. The Lancet Public Health, Londres, vol. 5, n. 4, p. 188-189, 1 de abril de 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/S2468-2667(20)30058-X.

DOLAN, Kate; WIRTZ, Andrea L.; MOAZEN, Babak; NDEFFO-MBAH, Martial; GALVANI, Alison; KINNER, Stuart A.; COURTNEY, Ryan; MCKEE, Martin; AMON, Joseph J.; MAHER, Lisa; HELLARD, Margaret; BEYRER, Chris. Global burden of HIV, viral hepatitis, and tuberculosis in prisoners and detainees. The Lancet Public Health, Londres, v. 388, n. 10049, p. 1089-1102, 10 de setembro de 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)30466-4.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim epidemiológico, Brasília, v. 50, n. 09, mar. 2019. Disponível em: <https://www.saude.gov.br/images/pdf/2019/marco/22/2019-009.pdf&gt;. Acesso em: 28/04/2020.

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O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?

Desde a chegada do Covid-19 ao Brasil, além das notícias sobre a doença, tem se falado bastante sobre um outro vírus que já passou por aqui cerca de cem anos atrás e que ficou conhecido como ‘gripe espanhola’. Há matérias jornalísticas que buscam apontar semelhanças entre as pandemias, que analisam o papel da imprensa brasileira durante a epidemia de gripe espanhola e que desmentem boatos, como a de que o presidente eleito em 1918, Rodrigues Alves, teria morrido em decorrência “da espanhola”.

Afinal, o que foi a gripe espanhola, quais as consequências dela no Brasil e no mundo à época, e quais os paralelos com a Covid-19?

A gripe espanhola

Ainda que seja conhecida como gripe espanhola, a provável origem do vírus é norte-americana. De acordo com o historiador Alfred W. Crosby em seu livro “America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918”, os Estados Unidos teriam passado por uma primeira onda do vírus no começo de 1918, mas sem atrair atenção pelo número pequeno de casos, confundidos com gripe comum e pneumonia. A hipótese é de que os soldados americanos teriam levado o vírus para a Europa, onde os casos explodiram. Vale lembrar que, naquele momento, a Europa estava mergulhada na Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e terminou apenas no final de 1918. A guerra, aliás, foi um dos motivos do vírus ter se espalhado rapidamente e de forma tão letal, conforme o professor Henrique Carneiro (2020):

A pandemia de 1918 é um resultado direto da Primeira Guerra Mundial. Não simplesmente porque as condições de miséria e destruição causadas pelo conflito tivessem ajudado a sua disseminação, mas porque foram as condições das inéditas concentrações humanas provocadas pela guerra que criaram o meio de contágio ideal para a doença.

Assim, ainda que os primeiros casos da gripe tenham começado nos Estados Unidos, ela se transformou em pandemia a partir da Europa, da onde se espalhou para o resto do mundo.

Por conta da guerra, a imprensa dos países envolvidos no conflito sofria censuras e não passava a real dimensão do que estava acontecendo para não alarmar a população. A Espanha, por outro lado, manteve-se neutra em relação à guerra, e seus jornais traziam a gravidade da situação. Assim, parecia que a Espanha estava sofrendo muito mais com a nova gripe do que os outros países, que quase não reportavam a doença. Não demorou para que a gripe passasse a ser conhecida como “espanhola” (BARRY, 2004).

De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (em inglês Centers for Disease Control and Prevention – CDC), a gripe espanhola foi a pandemia mais mortal do século XX: estima-se que 50 milhões de pessoas morreram em consequência dela. Para se ter uma ideia, a estimativa de mortos em decorrência da Primeira Guerra Mundial é de 20 milhões.

No Brasil, estima-se que entre 30 e 50 mil pessoas morreram devido à gripe espanhola. Só no Rio de Janeiro, capital federal à época, 15 mil pessoas perderam as vidas em derorrência da pandemia de gripe espanhola. A situação no Rio foi extremamente complicada, como lembra alguém que viveu o drama:

O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. (…) As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos (FREIRE apud GOULART, 2005 s/p).

Imagem: capa do jornal Gazeta de Notícidas de 15 de outubro de 1918

Apenas no final da década de 1990 cientistas conseguiram estudar melhor o vírus da gripe espanhola e descobriram se tratar de uma variante do H1N1. Essas pesquisas só foram possíveis porque pedaços de tecidos de pulmões contaminados foram guardados para estudo posterior. Além disso, cientistas também desenterraram corpos congelados e perfeitamente preservados de uma pequena ilha no Alaska, que teve 72 mortos entre seus 80 habitantes à época.

Gripe espanhola x Covid-19

Embora ainda seja cedo para escrever um texto definitivo sobre as semelhanças entre as pandemias, alguns paralelos já podem ser traçados:

– “É só uma gripezinha”

Assim como Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro tentaram, em um primeiro momento, diminuir a gravidade do novo corona vírus, em 1918 diversos líderes e autoridades afirmaram que “a espanhola é só uma gripe”. Não era em 1918 e não é agora apenas uma gripezinha. As duas doenças tem uma taxa de letalidade muito maior se comparadas com a gripe comum, que gira em torno de 0,1%. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a gripe espanhola teve uma taxa de letalidade de 2 a 3%, enquanto até o momento a taxa de letalidade da Covid-19 está entre 3 e 4%.

– Necessidade de um sistema forte de de saúde no país

A gripe espanhola mostrou a necessidade de um sistema nacional de saúde, e, em 1920, foi criado o “Departamento Nacional de Saúde Pública”, considerado como uma espécie de “semente” do SUS, o Sistema Único de Saúde, previsto na Constituição Federal de 1988.

Hoje, é graças ao SUS que temos uma saúde universalizada, ou seja, toda a população brasileira tem direito ao serviço de saúde. Infelizmente temos assistido a um desmonte desse sistema, com o repasse cada vez menor de verbas necessárias para que as pessoas possam de fato ter esse direito cumprido.

– Tratamentos milagrosos não existem

Aqui no Brasil, muitos (inclusive o Presidente da República) tem defendido o uso da cloroquina em pacientes do novo corona vírus. O medicamento atualmente é utilizado no combate à malária e também no tratamento de algumas doenças auto-imunes, como lúpus.

Em Manaus, uma pesquisa sobre a cloroquina precisou ser interrompida depois que 11 pacientes morreram. Segundo um dos pesquisadores “a alta dosagem que os chineses estavam usando é muito tóxica e mata mais pacientes”.

Todo mundo deseja que uma cura (ou uma vacina) para o novo corona vírus seja descoberta o quanto antes, mas isso precisa ser feito de forma segura, caso contrário o próprio medicamento se torna uma fonte de perigo para os pacientes, como foi o caso da aspirina em 1918. Durante a epidemia de gripe espanhola, médicos do mundo todo receitaram aspirina como uma possível “cura” para a gripe. Altas dosagens eram recomendadas, chegando até a 30g por dia! Na década de 1970, a recomendação passou a ser de que a dose diária máxima de aspirina deveria ser de 4g.
Um estudo de 2019 sugere que muitas das complicações atribuídas à gripe espanhola podem ter sido em decorrência do uso indiscriminado de aspirina.

Por fim, uma curiosidade inusitada. Em São Paulo, uma outra “cura” para a gripe espanhola vinha de uma receita saborosa: cachaça, mel e limão. Daí a afirmação de que a invenção da caipirinha aconteceu em 1918. Ocorre que há registros anteriores da mistura de cachaça e limão feita pelos escravizados no Brasil. Em Paraty, um historiador encontrou um registro de que, em 1856, em meio à epidemia de cólera, se bebia cachaça, limão e açúcar.

Referências:

BARRY, John M. The Great Influenza: The Epic Story of the Deadlist Plague in History. New York: Viking, 2004.

CROSBY, Alfred W. America’s Forgotten Pandemic: The Influenza of 1918. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

GOULART, Adriana da Costa. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciência, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 12, n.1, disponível em: < https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702005000100006&script=sci_arttext&tlng=pt#top5 >. Acesso em 01 abr. 2020.

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Por que chineses trocam o “r” pelo “l” e por que o Ministro está errado?

Em meio a um contexto de intensa crise política e social e diante do incontestável cenário de avanço mundial da pandemia de COVID19, o Ministro da Educação do Brasil atuou como um dos protagonistas de uma crise diplomática que tem se desenvolvido entre o Brasil e a China. Em um post realizado em seu perfil no twitter, Abraham Weintraub não apenas insinuou que “alguém” estaria por trás da pandemia com o objetivo de sair fortalecido geopoliticamente e que, para tanto, contaria com aliados no Brasil, como também utilizou em seu texto dois recursos para responder àquilo que ensinuou em forma de pergunta: a capa de uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica, da qual a história se passa na China, e a marcação gráfica da troca de “r” por “l”, característica comumente associada à pronúncia de chineses falando português. Há, pelo menos, duas características fundamentais na construção desse post sobre as quais vou discorrer a seguir.

postministro

A primeira delas diz respeito a como a narrativa construída no post segue elementos característicos de uma teoria da conspiração. De acordo com o especialista em pandemias Steven Taylor (2019), essas teorias são muito comuns em momentos de pandemia e geralmente buscam fornecer uma explicação simples sobre “porque alguém fez algo, quem se beneficiou disso e quem devemos culpar”. Tipicamente, esses discursos são construídos por meio de perguntas retóricas que tentam desafiar visões aceitas ou mais estabelecidas e que, ao mesmo tempo, são vagas o bastante para que os “fatos” mencionados não sejam passíveis de verificação (a vagueza das afirmações não permite que a hipótese levantada possa ser testada). Além disso, as teorias da conspiração geralmente se opõem abertamente a narrativas oficias. É curioso observar, nesse caso, que, desde sua condição de autoridade enquanto Ministro da Educação de uma nação, o autor se oponha a um outro discurso que seria oficial (mas a quem ele não atribui autoria de modo declarado). Ao invés de assumidamente “anticientífico”, esse discurso tenta se construir como “antissistêmico”, ainda que a voz do autor só seja ouvida com a amplitude que tem atualmente devido ao cargo oficial que ocupa dentro do sistema.

A segunda delas diz respeito mais especificamente à grafia utilizada no texto que marca a troca de “r” por “l”, traço linguístico usualmente associado à fala de chineses mediante palavras com a ocorrência do som de “r”. Vale mencionar que embora qualquer pessoa provavelmente apresente diversas dificuldades ao falar uma determinada língua que não aquela em que é nativa, em nosso país, o chavão “pastel de flango” talvez seja uma das “piadas” mais amplamente conhecidas que têm como alvo aspectos da pronúncia de imigrantes falando nossa língua. Em um post antigo aqui do blog falei um pouco sobre alguns efeitos de determinados temas que, ao se tornarem alvos de piadas, acabam  produzindo e revelando, concomitantemente, nossas percepções sobre a língua e nossa sociedade. Neste post, contudo, vou me dedicar a explicar um pouquinho mais a respeito desse fenômeno (substituição de “r” por “l”, como em “plato” no lugar de “prato”) conhecido dentro da linguística por “lambdacismo”.

Esse tipo de ocorrência é bastante frequente entre pessoas com uma condição congênita popularmente conhecida como “língua presa”, crianças e imigrantes chineses. O primeiro caso, com o qual se costuma associar o personagem do quadrinho, Cebolinha, consiste em uma condição em que a membrana inferior da língua (o “freio”) é muito curta ou pode estar muito próxima da ponta da língua, dificultando alguns movimentos no momento da fala. Com o treino adequado, contudo, é possível que o falante consiga aprender como articular os diferentes sons. O próprio Cebolinha, ao crescer, para de realizar a troca de “r” por “l”, como é possível observar nos desenhos e quadrinhos da Turma da Mônica Jovem.

No que diz respeito às crianças, embora por muito tempo tal característica tenha sido associada a algum tipo de patologia causadora de atraso no desenvolvimento da fala (diagnosticada em alguns casos como“dislalia”), cada vez mais cresce na literatura dedicada ao tema a defesa de que essa dificuldade na pronúncia se daria, dentre outros fatores, pela mesma razão em que ocorre entre falantes chineses. Tanto “r” como “l” são o que chamamos de “consoantes líquidas” e têm o mesmo modo e o mesmo ponto de articulação. Além disso, diversos estudos na linguística demonstram que, devido à sua complexidade, a consoante líquida não lateral (como o “r”) em diversas línguas é aquela mais tardiamente desenvolvida pelas crianças e também uma das primeiras a ser perdida em casos de afasia.

No que diz respeito às similaridades entre “r” e “l”, o movimento que realizamos com nosso aparelho fonador para realizar as duas pronúncias é extremamente parecido. Ative o áudio do seu computador e dê uma olhadinha no vídeo a seguir para poder visualizar melhor ao que me refiro:

 

Por conta das características das duas consoantes, é muito fácil que ocorra certa dificuldade na distinção entre uma e outra tanto na articulação de cada uma delas no momento da fala quanto na percepção dos dois sons por parte daqueles que ainda não estão devidamente habituados a eles. Essa dupla dificuldade de distinção, aliás, não se dá por acaso, pois é muito mais difícil para os falantes produzirem sons que não são capazes de reconhecer ao os ouvirem.

A língua chinesa tem dentre seus sons aquele que representamos com a letra “l”, contudo, não tem o som de “r”. Por isso, diante de uma construção em que ocorre o som de “r”, chineses tendem a substituí-lo em suas falas por “l” (que, como já mencionado, tem pontos de articulação muito similares a “r” e, portanto, é o som mais próximo a esse dentre aqueles que eles conhecem). Além disso, ao ouvir alguém emitindo uma palavra com esses som, chineses tendem também a perceber o som de “r” como um som mais próximo de “l”.

Vale a pena ainda mencionar que esse tipo de fenômeno ocorre em final de sílaba (como em “carne”/”calne”) ou quando “r” é antecedido por outra consoante (como é o caso de “cravo”/”clavo”). Diferente daquilo sugerido pelo ministro com as construções “sel”, “dominal” e “sail”, porém, essas substituições jamais ocorrem em final de verbo no infinitivo em que, mesmo entre falantes nativos de português, o que costuma acontecer é o apagamento de “r”, de modo que na fala corrente pronuncia-se “sê” no lugar de “ser”, “dominá” no lugar de “dominar” e assim por diante.

Essa pode ser uma oportunidade para mencionar também que o fenômeno de troca no sentido contrário, ou seja, de “l” por “r” (“probrema” no lugar de “problema) ocorre no português falado no Brasil e é chamado por linguistas de “rotacismo”. Embora esse fenômeno seja alvo de muito preconceito nos grandes centros urbanos, em cidades menores do país, mesmo pessoas com alto nível de escolaridade falam dessa forma. O que é bastante curioso é que filólogos estudiosos do português como Nascentes (1953) vêm demonstrando como esse processo de troca do “l” por “r” na transição do latim para o português fez com que palavras de nossa língua fossem como as conhecemos hoje:

blandu (latim) > brando (português)
clavicula (latim) > cravelha (português)
flaccu (latim) > fraco (português)
gluten (latim) > grude (português)
plancto (latim) > pranto (português)

Desses exemplos, talvez tenha ficado minimamente ilustrado como fenômenos linguísticos que são altamente estigmatizados e ridicularizados em um determinado período por determinados grupos provavelmente já fizeram ou farão parte da história das línguas. Observar justamente quais fenômenos são selecionados como mais aceitos e corretos e quais são mais ridicularizados e rejeitados nos diz muito sobre nossos percursos sociohistóricos e, na maior parte do tempo, sobre nossa ignorância a respeito do processo de formação de nossas próprias línguas.

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Para saber mais:

Neste site é possível brincar vendo a articulação de diversos sons da nossa língua e consultar materiais muito interessantes http://www.fonologia.org/fonetica_consoantes.php

Para saber um pouco mais sobre essas mudanças no português (e de sobra descobrir por que é possível falar em um “português brasileiro”), sugiro ouvir os episódios 2 e 3 do podcast Linguística Vulgar https://anchor.fm/lingustica-vulgar-podcast

Aqui tem um vídeo muito interessante do canal Vox (em inglês) sobre as pronúncias de chineses e japoneses e suas representações na cultura pop https://www.youtube.com/watch?v=2yzMUs3badc

Um vídeo muito importante da Sissi, chinesa que vive há 9 anos no Brasil, sobre as piadas geralmente feitas com a pronúncia de chineses e como é para ela emitir esse som https://www.youtube.com/watch?v=ezyZMvZzhkI

Referências

DA SILVEIRA, Regina Célia Pagliuchi. Estudos de fonologia portuguesa. Cortez Editora, 1986.

ESPÍRITO SANTO, Julia Maria França. Entre o campo e a cidade: rotacismo em São Miguel Arcanjo. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Departamento de Linguística. 2019.

MARCHESAN, Irene Queiroz. Frênulo de língua: classificação e interferência na fala. Rev Cefac, v. 5, n. 4, p. 341-5, 2003.

MASSI, Giselle. A dislexia em questão. São Paulo: Plexus Editora, 2007.

MENYUK, Paula. Children with language problems. What’s the problem: Georgetown University roundable on language and linguistics. Washington, DC: George Town University Press, 1975.

MIRANDA, Ana Ruth M. A aquisição do “r”: uma contribuição à discussão sobre seu status fonológico. Porto Alegre: Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1996.

NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

TAYLOR, Steven. The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease. Cambridge Scholars Publishing, 2019.

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O vírus do medo e a xenofobia

Desde as primeiras semanas desse ano, um medo vinha se alastrando pelo mundo sob o nome de coronavírus. Ainda não se sabe a causa [1] (e quem disser “sopa de morcego” provavelmente apenas se enganou por notícias falsas [2]), mas já impera o medo do vírus que se alastra antes mesmo de que apareçam sintomas [3], [4]. À medida que esses casos se acumulam – só no Brasil, já beiram os dois mil [5] -, precisamos dar um passo atrás para compreender melhor de onde viemos e para onde caminhamos.

No dia 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde oficializou que se trata de uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” segundo o Regulamento Sanitário Internacional (2007), um status conferido até então a apenas cinco epidemias [6],[7]. Acerca dessa mudança de postura, Deisy Ventura, docente na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), destacou aspectos tanto positivos, como o potencial aumento de “investimentos em pesquisa”, quanto negativos, tais como o “pânico” junto à população, pois, a seu ver:

“Todas as manchetes sobre o coronavírus que estão alarmando as populações mundo afora fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência. Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.” Deisy Ventura, USP [7]

Longe de mera “retórica”, a ênfase da professora quanto à importância da saúde pública para combater epidemias desse nível consiste em um consenso internacional. Segundo especialistas da OMS: “Em epidemias contagiosas graves, é necessário acompanhar os contatos dos pacientes registrados para assegurar a identificação de todos os casos e limitar a disseminação da doença” (Bonita et. al., 2010, p. 126). Impossível pensar que planos de saúde privados poderiam dar conta dessa totalidade de casos sem o auxílio dos Estados, inclusive em áreas como alimentação e fisco [8], [9].

Na contramão desse auxílio, porém, ainda se fala muito em “corte de gastos” [10], [11], por um lado, e se testemunha muita xenofobia, pelo outro. Segundo o New York Times: “Em países da Ásia, empresas chegam a postar cartazes dizendo que chineses não são bem-vindos e pessoas chegam a assinar petições para proibir a entrada de cidadãos do país em seus territórios” [12]. Em São Paulo, o vírus da xenofobia não poupa sequer os descendentes de asiáticos, como a jovem escritora Fernanda Yumi, que sofreu um ataque no seu local de trabalho na maior cidade do país [13].

O fato de a China estar fazendo a sua parte a um ritmo impressionante [14], sem negar apoio material [15] e humano [16] a diversos países, já começa a mostrar resultados [17]. Resta a residentes em outras partes do mundo cobrarem de seus governos investimentos em saúde, ciência e tecnologia se quiserem ter igual segurança de um tratamento eficaz e gratuito para esta ou qualquer outra emergência que possa vir a surgir no futuro.

Quanto a nós, não teremos dúvidas na hora de escolher entre cobrar os governantes ou transmitir o preconceito. Esperamos de nossos leitores apenas o mesmo bom senso.

Referências

[1] Mercado de frutos do mar em Wuhan não foi origem do coronavírus, dizem cientistas (28.01.2020)
[2] Sopa de morcego exemplifica a desinformação e xenofobia no caso coronavírus (04.02.2020)
[3] Com casos confirmados em 13 países, coronavírus é transmissível antes dos sintomas aparecerem (26.01.20)
[4] Maioria dos casos de Covid-19 pode vir de pacientes assintomáticos, sugere estudo (16.03.2020)
[5] Worldometer – Coronavirus (Brazil) (Acesso em 23.03.2020)
[6] Coronavírus: o que significa a OMS declarar emergência global de saúde pública (30.01.2020)
[7] Coronavírus: não existe segurança sem acesso universal à saúde (31.01.2020)
[8] Covid-19: Criada Rede de Emergência Alimentar para população mais carenciada (20.03.2020)
[9] Com coronavírus, Itália anuncia suspensão de impostos e outras medidas de alívio (11.03.2020)
[10] Capes recua e diz que não cortará bolsas de estudantes no exterior por causa de coronavírus (19.03.2020)
[11] Governo facilita reduzir jornada e salário de funcionários e permite antecipação de feriados (18.03.2020)
[12] Sentimento anti-China se espalha com a propagação do Coronavírus (31.01.2020)
[13] Mulher borrifa álcool em jovem: “Você é o coronavírus” (19.03.2020)
[14] China construirá segundo hospital para tratar pacientes com coronavírus (25.01.2020) 
[15] Niterói declara guerra contra o coronavírus e limpa a cidade com tecnologia chinesa (23.03.2020)
[16] China envia médicos especialistas para Itália por pandemia (17.03.2020)
[17] China zera transmissão local do novo coronavírus pela 1ª vez (18.03.2020)

Bibliografia

Bonita, R.; Beaglehole, R.; Kjellström, T. (2010). Epidemiologia Básica. Santos, 2a ed. IN: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43541/9788572888394_por.pdf;sequence=5