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Museus e pinturas: Como aprender a nomear obras de vários autores

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/grafite-mural-arte-de-rua-pintura-508272/

É provável que vocês, leitores, em algum momento da vida tiveram a oportunidade de ir a um museu de arte. E que apesar de admirar várias pinturas, vocês tenham tido dificuldade de responder adequadamente quando alguém questiona quem foi o pintor de determinada obra (exceto talvez os que estudam arte ou tópicos relacionados). Você pode até ter aprendido algumas obras e artistas durante a escola, mas não se lembra mais de (quase) nada, não é mesmo?

A maneira tipicamente utilizada para memorizar autores e obras é fazer cartões com vários nomes e pinturas e tentar agrupá-los, mas isso pode ser demorado e não garante o aprendizado. Nesse sentido, maneiras alternativas de ensinar (e aprender) categorias de elementos têm sido desenvolvidas. Na Psicologia, existe um modelo cuja eficácia tem sido cientificamente provada há muitos anos. Esse modelo se chama “equivalência de estímulos” (e.g., Sidman & Tailby, 1982; Sidman, 1994) e é, grosso modo, uma maneira de aprender a tratar estímulos fisicamente dissimilares como se fossem substitutos uns dos outros (em certas ocasiões), ou, no contexto da categorização, a tratarmos certos estímulos em uma categoria A (e não B ou N), e outros na categoria B (e não A, ou N).

Esse modelo tem sido utilizado para ensinar, por exemplo, uma segunda língua, estatística, neuroanatomia, entre outros tópicos academicamente relevantes. Recentemente, os pesquisadores Paulo Ferreira e seus colaboradores utilizaram o modelo para ensinar indivíduos a reconhecer pinturas de Gauguin, Botticelli, Monet e Picasso. Dois experimentos foram realizados e ambos contavam com o mesmo procedimento e número de participantes, mudando apenas um dos pintores trabalhados (Gauguin, Botticelli e Monet no estudo 1, e Botticelli, Monet e Picasso no estudo 2).

No estudo 1, 10 participantes (três mulheres e sete homens) foram ensinados, inicialmente, a reconhecer as pinturas de cada um dos pintores. Diante da foto de uma entre 10 pinturas de um mesmo autor, os participantes tinham que selecionar, entre as três alternativas (Gauguin, Botticelli e Monet), qual era a correta. Um feedback informava os participantes, após a escolha, se suas respostas estavam certas ou erradas. Nessa fase, foram realizados três blocos, um para cada autor. Os participantes tinham que acertar 6 tentativas em sequência para avançar para a próxima fase.

Na fase seguinte, os participantes deveriam, diante de uma entre 30 pinturas dos três autores, escolher uma de três figuras abstratas. Cada figura foi arbitrariamente considerada o par correto para 10 pinturas do mesmo autor, e os participantes recebiam feedback após suas respostas. Para avançar para a fase seguinte, os participantes deveriam acertar 18 tentativas seguidas em um bloco com 30 tentativas.

Na terceira fase, os participantes deveriam relacionar as figuras abstratas aos nomes dos pintores. Ou seja, diante de cada símbolo abstrato, eles deveriam selecionar o pintor que foi considerado arbitrariamente o par correto para tal símbolo abstrato. Nessa fase, havia 18 tentativas, e os participantes deveriam acertar 6 tentativas consecutivas para avançar para a fase de testes.

Revisando, os participantes aprenderam, até o momento, a 1) reconhecer 30 pinturas de cada um dos três autores, 2) relacionar cada um dos três pintores com três figuras abstratas, arbitrariamente consideradas os pares corretos para cada pintor, e 3) relacionar cada uma das três figuras abstratas com 10 pinturas de cada um dos três autores.

Atingindo o critério dessa fase de treino, havia a fase de testes. Os participantes deveriam, diante de cada pintura, selecionar o pintor correto. Veja que, nessa metodologia, não se aprende diretamente a relacionar as pinturas com os pintores; isso ocorre de maneira indireta, como resultado do procedimento de treino. Além das pinturas utilizadas na fase de treino, também apareciam 15 novas pinturas, 5 de cada pintor, como uma medida de generalização. Assim, havia 60 tentativas, duas de uma mesma pintura, sem feedback de acerto ou erro, embora os participantes fossem instruídos a continuar respondendo como haviam aprendido nas fases anteriores.

Os resultados mostraram que seis dos 10 participantes aprenderam a relacionar as pinturas com os pintores correspondentes. Esses seis participantes também generalizaram, ou seja, acertaram as tentativas mesmo quando as pinturas apresentadas não foram treinadas anteriormente. No estudo 2, outros 10 participantes (quatro mulheres e seis homens) foram expostos à mesma sequência de treinos e testes supracitada, sendo a única diferença que em vez de utilizar como estímulos “Gauguin” e suas pinturas, foi utilizado “Picasso” e suas pinturas. No estudo 2, oito dos 10 participantes passaram a categorizar as pinturas de acordo com os pintores de maneira adequada, mesmo quando as pinturas não tinham sido utilizadas na fase de treino (generalização).

Esse estudo mostrou como metodologias alternativas de ensino podem ser utilizadas na aprendizagem de categorização e, especialmente, na categorização de pinturas e seus autores. Uma possível limitação (não apontada pelos autores) foi o uso de estilos diferentes nas três categorias: pós-impressionismo com Gauguin, impressionismo com Monet, renascentismo com Botticelli e cubismo com Picasso. Isso possibilita que características comuns das obras possam ter sido utilizadas como base para a categorização, além do treino. De qualquer modo, essa possibilidade deve ser verificada empiricamente. Levando em consideração que existe uma ampla produção utilizando o que chamamos de equivalência de estímulos para ensinar diversas habilidades, não é surpresa que a categorização de pinturas seja também possível com o uso dessa metodologia.

Ficou interessado?

O artigo: Ferreira, P. R. S., Cruz, S. A., Sampaio, W. M., Teodoro, J. V., Correia, L. L., & Santos, E. L. (2018). Interaction between equivalence and categorization in the recognition of paintings. The Psychological Record, 68(4), 477-488. doi: 0.1007/s40732-018-0291-2

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A financeirização do espaço urbano e o que você tem a ver com isso

Referências:

As cidades vêm crescendo em ritmo acelerado pelo mundo todo. Atualmente, mais da metade da população mundial vive em cidades, com estimativa de que este percentual chegue perto dos 70% em 2050, segundo estudo da Organização das Nações Unidas.

Neste cenário,também vêm crescendo os interesses capitalistas sobre as cidades, no duplo sentido de adaptá-las às necessidades produtivas em geral e aos interesses e formas de acumulação financeirizadas.

A financeirização pode ser definida como uma forma de acumulação que se tornou dominante, no capitalismo, a partir dos anos 70/80. Ela é baseada na circulação de títulos que garantem o direito de propriedade de seu detentor a rendas futuras (como as ações de empresas, os títulos representativos de produção agrícola, etc). A grande novidade é que o preço destes títulos não obedece,necessariamente, a qualquer critério da realidade na esfera produtiva. São, na realidade, fixados com base em percepções subjetivas de agentes do mercado,altamente sujeitos à especulação e à manipulação. Esse descolamento entre a realidade e a precificação desses títulos aumenta as possibilidades de fortes crises financeiras, como a que vivenciamos em 2008.

Não são poucos os exemplos de processos de financeirização no espaço urbano: criação de títulos negociáveis em bolsa lastreados em empreendimentos urbanos (CEPACS,LCIs, etc), abertura de capitais de construtoras, número crescentes de fundos de investimentos que, por sua vez, adquirem cada vez mais imóveis na cidade,entre outros.

Pois bem: mas se você não é investidor de bolsa de valores ou trabalha no mercado imobiliário,porque este texto pode te interessar? Simples: porque você provavelmente mora e/ou trabalha em uma cidade e convive com os impactos desses processos diariamente, mesmo sem se dar conta.

Os processos de financeirização do espaço urbano têm afetado de forma direta e indireta a vida de todos os habitantes. De forma direta, os exemplos devem ser casuísticos, mas,de maneira geral, podemos falar de intervenções no espaço urbano voltadas para a instalação de infraestruturas voltadas para as necessidades tecnológicas desta forma de acumulação financeirizada (cabos de fibra ótica, centros de comunicação, etc), além de outras intervenções para a valorização de determinadas áreas da cidade, conforme os interesses de fundos de investimento,construtoras de capital aberto, entre outros agentes financeiros.

De forma indireta, temos a dominância de uma nova lógica na produção urbana: a da valorização acionária. A cidade como um todo, bem como intervenções específicas, passam a ser direcionadas por essa lógica que visa primordialmente à valorização dos espaços, seja por meio de intervenções diretas (profundas ou de “maquiagem”) ou de medidas de marketing urbano.

A grande questão que se apresenta a partir da dominância da lógica da valorização acionária tem por base a consideração de que a cidade não é um empreendimento ou uma empresa,mas sim um grande espaço de troca, convivência e reprodução da classe trabalhadora. Sua importância vem crescendo junto com a população que a habita,conforme visto no início deste texto.

Neste cenário, a gestão da cidade deve ser dirigida ao equacionamento de conflitos e ampliação de acesso a direitos de seus habitantes, conforme estabelecido por tratados internacionais e pela Constituição Federal do Brasil. Este tipo de gestão exige o engajamento público em investimentos em áreas com menor infraestrutura, para garantir o maior nível de equidade possível entre os moradores, o que vai de encontro aos investimentos realizados sob a lógica da valorização acionária,que tendem a reforçar os privilégios de áreas já valorizadas, em um ciclo de aumento da segregação socioespacial.

Esta seletividade de investimentos e atuação do poder público, que cria círculos viciosos de valorização em determinadas áreas da cidade já valorizadas em detrimento de áreas precarizadas, aumenta exponencialmente o volume o impacto de graves problemas urbanos como a mobilidade, a violência, o acesso à saúde e à educação, entre outros.

Você já parou para pensar sobre como teríamos uma cidade mais justa, solidária e, possivelmente,pacífica se os hospitais e escolas de qualidade estivessem igualmente espalhados pelo território? E se os investimentos públicos permitissem que os deslocamentos se tornassem menores, mais baratos e eficientes para milhões de trabalhadores? E ainda se houvesse investimentos e políticas para a integração social nas cidades e não a retirada de moradores mais pobres de territórios valorizados em nome de mais valorização?

São muitos os mecanismos que tornam essas perguntas apenas o roteiro de uma ficção, mas,atualmente, o principal deles é a financeirização do espaço urbano, que se espalha pelo mundo com consequências mais graves em cidades de países em desenvolvimento. Conhecer os mecanismos por trás dos fenômenos é o primeiro passo para a mudança. Vamos junt@s mudar a lógica de construção das cidades?

Para saber mais sobre pesquisas que envolvem esta temática, confira as referências abaixo!

CENTRO REGIONAL DE INFORMAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Relatório da ONU mostra população mundial cada vez mais urbanizada, mais de metade vive em zonas urbanizadas ao que se podem juntar 2,5 mil milhões em 2050. Acesso em 10 de novembro de 2018.

DE MATTOS, Carlos A. “Financiarización, mercantilización y metamorfosis planetaria: lo  urbano  en  la  valorización  del  capital”. Sociologias, Porto Alegre, v. 18, n. 42, p. 24-52, mai./ago.

PAULANI, Leda. “Não há saída sem a reversão da financeirização”. Estudos Avançados, 31 (89), 2017.2016. Acesso em 08 de novembro de 2018.

ROLNIK, Raquel. A Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.

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As mulheres livres, ontem e hoje

Entre 1936 e 1939 ocorreu um evento na Europa que é constantemente esquecido por conta do impacto da Segunda Guerra Mundial: a Guerra Civil Espanhola. De um lado, os militares liderados pelo General Francisco Franco, que depois iria assumir o governo do país de forma ditatorial até 1975. Do outro, republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas lutando contra o fascismo pela liberdade. Estes últimos, especialmente na região da Catalunha industrializada, transformaram a luta contra Franco também na construção de uma nova sociedade. Em pouquíssimo tempo, os trabalhadores coletivizaram e assumiram a administração de fábricas, terras, serviços públicos, etc. Era o início da Revolução Espanhola, da qual poucos ouviram falar até hoje.

Foi nesse contexto, na cidade de Barcelona, que nasceu o grupo anarquista Mujeres Libres. Fundado pela advogada Mercedes Comaposada, pela jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil e pela médica Amparo Poch y Gascón, seu objetivo era lutar por questões relativas ao universo das mulheres, como aborto e prostituição, que não recebiam espaço para debate e ação nos sindicatos. No seu auge, o Mujeres Libres contou com mais de 20 mil afiliadas, e oferecia palestras, cursos, creches e até casas de apoio para receber, educar, capacitar e promover a libertação das mulheres da cultura patriarcal que também existia de maneira muito forte entre os trabalhadores e operários. Suas atividades e o posterior envolvimento com a guerra contra o franquismo eram divulgados através da revista de mesmo nome, até hoje um documento muito importante para registrar não só a experiência da Revolução Espanhola, mas a participação ativa das mulheres nesse período, que acabam sendo deixadas de lado pelo viés mais tradicionalista da História.

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                 Reunião da Federação Mujeres Libres  na cidade de Valência           (in RAGO e BIAJOLI, 2017, p.89)

 

Em 2017, porém, Margareth Rago (Unicamp) e Maria Clara Biajoli, duas historiadoras brasileiras, reeditaram o livro Mujeres Libres da Espanha, uma coletânea de artigos traduzidos da Revista Mujeres Libres, deixando essa documentação e a história dessas mulheres mais acessíveis para outros pesquisadores e o público em geral do Brasil. O livro é resultado de uma pesquisa conjunta desenvolvida entre os anos de 2002 e 2007 com financiamento CNPq e FAPESP, divulgada em diversos artigos e na dissertação de mestrado de Biajoli, e traz documentos coletados em arquivos na Espanha e em acervos pessoais de mulheres que participaram do ML tanto durante a Guerra Civil quanto depois, no exílio na França (a grande maioria das Mujeres Libres, assim como milhares de outras pessoas, fugiram da Espanha após a vitória de Franco). Os assuntos abordados incluem política e guerra, anarquismo, reflexões sobre o próprio grupo, feminismo, moral sexual e amor livre, etc., e indicam a qualidade progressista e libertária dessas mulheres em meio à opressão de classe, gênero e, também, religião – não podemos esquecer o peso da Igreja Católica na Espanha naquela época.

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Capa da coletânea organizada por Rago e Biajoli (2017)

 

Além desses documentos do período, a coletânea também traz algo inédito, relatos de memória de algumas dessas mulheres coletados em entrevistas e cartas. Essa seção em especial é muito interessante porque há uma tendência em estudos sobre guerras de ignorar ou diminuir autobiografias e memórias de mulheres sobre esses conflitos, já que são vistos sempre como algo eminentemente masculino. Contudo, abrir espaço para a experiência da mulher pode mudar toda a nossa percepção sobre esses eventos. A historiadora Patricia Greene, por exemplo, argumenta que “autobiografias de mulheres ativistas da esquerda espanhola frequentemente apresentam uma narrativa com uma voz dupla que integra, textualmente, a complexa relação entre a pessoa pública e a mulher privada, entre a história oficial e a história pessoal, enquanto, simultaneamente, constrói uma contra-narrativa que desafia a versão franquista fraturada da história” (334).

A experiência das Mujeres Libres, no final da década de 1930, foi de resistência, luta e solidariedade e mostrou como as mulheres, unidas, conseguem atingir objetivos antes considerados impossíveis. A divulgação da sua história e de suas memórias também é um ato de resistência à História masculina tradicional dos vencedores, que apagou a Revolução Espanhola e o Mujeres Libres. Mas é também um incentivo para nós, mulheres, para procurarmos as nossas próprias formas de união e de resistência hoje aos novos fascismos que se aproximam.

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                    Alguns exemplares da Revista Mujeres Libres                (in BIAJOLI, 2007, p.157)

Referências:

RAGO, Margareth e BIAJOLI, Maria Clara P. Mujeres Libres da Espanha. Documentos da Revolução Espanhola. São Paulo: Biblioteca Terra Livre, 2017.

BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Narrar Utopias Vividas: Memória e Construção de Si nas Mujeres Libres da Espanha. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, 2007.

GREENE, Patricia V. “Federica Montseny: Chronicler of an anarcho-feminist genealogy” in Letras Peninsulares, Outono de 1997.

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A História que sobreviverá ao Museu

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Quase nada se salvou da catástrofe que acometeu neste 2 de setembro o Museu Nacional, sendo muitos danos irreparáveis. Com este lugar, não apenas o povo brasileiro, como ainda pesquisadores do mundo inteiro, possuem dívidas históricas que sobreviverão à sua queda.

Algumas dessas dívidas constam de revista do próprio Museu Nacional (PPGAS/UFRJ) [1]. Em artigo recente sobre uma delas [*], o antropólogo Manuel Ferreira Lima Filho [3] afirma que pretendia: “(…) buscar conexões entre os itinerários dos atores e personagens relacionados à constituição da coleção, que pudessem revelar as representações sobre o desenvolvimento da antropologia enquanto disciplina nos Estados Unidos (…) e no Brasil, (…).” (FILHO, 2017, p. 475).

Entre essas personagens, afirma que a antropóloga Heloísa Alberto Torres, sua diretora no século passado (1938-1955): “(…) fez da necessidade da formação de novos antropólogos, fossem eles estadunidenses ou brasileiros, a sua meta mestra enquanto diretora do Museu Nacional (…).” (FILHO, 2017, p. 477). Dessa meta do Museu, nascia o melhor Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Brasil, ministrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/UFRJ).

Ainda na época de Heloísa: “Havia um acordo informal entre o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Universidade de Columbia para a realização de pesquisas e a formação de etnólogos.” (FILHO, 2017, p. 477). Ao longo do tempo, acordos similares continuaram a ser firmados, como atesta o próprio Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) [3], até os últimos dias desta importante instituição.

Essa história, entre mil outras, serve para ilustrar como esse lugar, abandonado em tantas instâncias, serviu à cooperação entre os povos e ao avanço científico de nosso país ao longo de sua existência. Quiçá possa também servir para demonstrar uma parte das contribuições de museus que, atualmente, correm risco de ter o mesmo triste fim.

Que suas histórias sejam sempre recontadas, para que não se tenha apenas uma ideia desses locais como pontos turísticos, e sim como guardiães das verdadeiras riquezas de uma nação.

 


[*] Referências:

LIMA FILHO, M. F. “Coleção William Lipkind do Museu Nacional: Trilhas Antropológicas Brasil-Estados Unidos”. IN: MANA 23(3): pp. 473-509, 2017. PPGAS/UFRJ, Rio de Janeiro – DOI http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n3p473 <03/set/2018>

Notas:

[1] http://ppgas.biblioteca.ufrj.br/index.php/mana <03/set/2018>

[2] http://lattes.cnpq.br/9114125597206149 <03/set/2018>

[3] http://www.museus.gov.br/tag/cooperacao/page/2/

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“Para que feminicídio se já existe homicídio?” – Pesquisa da Demografia traz uma resposta

“Para que feminicídio se já existe homicídio” é uma pergunta que ouço com frequência desde a aprovação da lei brasileira de 2015, que qualifica o assassinato de mulheres motivados por uma questão de gênero: sua condição de mulher associada ao status de esposa / namorada / mãe, etc. Geralmente, a pergunta é feita por homens. Casos como o recente feminicídio de Tatiane Sptizner, 29 anos, tornam necessária uma resposta definitiva.

As imagens da violência que Tatiane sofreu nas mãos do marido chocaram o país e também circularam o mundo, encontrando espaço em muitos jornais internacionais. Contudo, a sua morte é uma exceção apenas pela divulgação que recebeu da imprensa nacional e estrangeira, já que diversas organizações feministas e páginas no Facebook como a 8M Brasil ajudam a divulgar muitos outros casos esquecidos e que chegam a números alarmantes. A morte dessas mulheres, na maioria das vezes, é a consequência direta de relacionamentos abusivos permeados por violência doméstica, psicológica e sexual, também criminalizados no Brasil através da Lei Maria da Penha desde 2006.

O conceito de feminicídio é importante para a sociedade e o próprio Estado enxergarem um tipo de crime muito comum, que tende a desaparecer nas estatísticas generalistas de “homicídios”. É o que mostra a pesquisa de doutorado desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas por Jackeline Aparecida Ferreira Romio, “Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde” (IFCH, 2017, bolsista CAPES #minhapesquisacapes #existepesquisanobr). Romio busca fazer um levantamento dos casos de mortes de mulheres, no Brasil, que poderiam ser considerados feminicídios, entre os anos de 1996 e 2014, ou seja, anteriormente à lei. A tese, da área da Demografia, inova ao tomar como fontes documentos da área da saúde que fazem parte do SUS, como as Declarações de Óbito (DO) disponíveis no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). Para a pesquisadora, voltar-se para esses registros possibilita preencher os “buracos” deixados pelos tradicionais Boletins de Ocorrência e outras fontes jurídicas normalmente utilizadas em pesquisas sobre violência por conta da “sub-notificação dos casos de agressão contra mulheres”, motivada, entre outras questões, pela “naturalização das mortes de mulheres por razões de gênero, a invisibilidade institucional dos efeitos de determinadas leis na vida das mulheres [e] o viés andrógeno dos meios de coleta de informação que não favorecem a interpretação direta da violência contra a mulher” (p.88). Um caso contundente apontado por Romio é o feminicído da jovem Eloá Pimentel em 2008, mantida em cativeiro durante 4 dias pelo seu ex-namorado Limdemberg. Para Romio e outras estudiosas do caso, os “oficiais cometeram sucessivas falhas e declaravam à imprensa sua vontade de preservar a vida e integridade moral do sequestrador que, na opinião deles, era apenas um jovem apaixonado” (p.56), o que possibilitou o feminicídio da jovem. E não é só no Brasil. Em um importante estudo de 1992, as pesquisadoras Jill Radford e Diana Russell já tinham apontado para a banalização no tratamento das mortes das mulheres tanto pela justiça quanto pela mídia nos EUA, Reino Unido e Índia: “Nos casos de agressão contra a mulher há uma tendência em transformá-la na própria responsável pela agressão que sofreu” (p.42).

Romio apresenta os dados de sua pesquisa em uma classificação de feminicídios divididos em 3 sub-categorias: feminicídio doméstico, ou seja, a “violência letal por agressão física contra a mulher no contexto domiciliar, conjugal ou familiar registrados no sistema de saúde”; o feminicídio sexual, a “violência letal por agressão física contra a mulher por meio sexual”; e inova, novamente, ao incluir o conceito de feminicídio reprodutivo, “vinculado às políticas de controle do corpo e da sexualidade da mulher, cuja expressão mínima são as morte por aborto registradas nos sistema de saúde” (p.71), este último essencial para fortalecer, por exemplo, a recente discussão no STF sobre a descriminalização do aborto e combater a triste derrota da mesma proposta no Senado da Argentina. Para Romio, essas sub-categorias são importantes para tentar contornar um problema apontado pela pesquisadora Wânia Pasinato de que agrupar todos os assassinatos de mulheres em uma única categoria pode silenciar questões relativas ao contexto em que o crime ocorre e prejudicar a atuação do Estado e o desenvolvimento de políticas públicas para combater a prática.

Mesmo para quem não entende muito de Demografia ou Estatística, os resultados apontados por Romio são muito preocupantes. Por exemplo, em uma comparação de mortes de homens e mulheres decorrentes de agressão sexual, a pesquisadora chega ao gráfico abaixo, dividido por 3 faixas etárias:

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Gráfico apresentado por Romio, p.133

Os números mostram que a maioria esmagadora dos casos de violência sexual afeta meninas e mulheres até 49 anos, porém indica também a violência sexual contra meninos e homens, um dado que não pode ser ignorado. Basta lembrarmos, por exemplo, os casos de pedofilia abafados pela Igreja Católica e a perseguição à comunidade LGBT.

Romio conclui que o trabalho com as fontes da saúde possui muitas vantagens, por exemplo, por ela ter conseguido localizar dois casos de tráfico interno de seres humanos e cárcere privado que levaram ao feminicídio das vítimas, o que poderia ser, com um estudo mais aprofundado, outro tipo de sub-categoria. Contudo, Romio também aponta para os possíveis problemas dessas fontes, o principal seria a característica binária do formulário da área da saúde na categoria “sexo”, o qual leva apenas em consideração a característica biológica, ou seja, classifica as pessoas em “masculino” e “feminino”. Dessa forma, a pesquisadora aponta para um grande “empecilho para buscar informações sobre mulheres transgêneras” (p.122). De qualquer forma, sua pesquisa ilumina um pouco mais a questão da violência de gênero contra as mulheres e reforça a importância da lei do feminicídio, respondendo definitivamente à pergunta que deu título a esse texto.

Referências:

PASINATO, Wânia. Justiça e violência contra a mulher. O papel do Sistema Judiciário na solução dos conflitos de gênero. Dissertação de mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 1997.

RADFORD, Jill e RUSSELL, Diana E. H. Femicide: The Politics of Woman Killing. Great Britain: Open University Press: 1992.

ROMIO, Jackeline Aparecida Ferreira. Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde. Tese de Doutorado. IFCH, Unicamp, 2017. Disponível aqui.

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O impacto de vieses raciais na ilusão da mão de borracha

Será que participantes brancos demoram mais tempo para identificar uma prótese negra como sua própria mão em comparação com uma prótese branca na ilusão da mão de borracha?

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Créditos da imagem: https://www.nappy.co (@JOTTANETO)

Para alguns teóricos, o preconceito racial está recionado a uma distinção entre “nós” e “eles” – enquanto grupos de pessoas –, de modo que as representações que temos do endogrupo e do exogrupo podem influenciar a maneira pela qual os tratamos. A nossa consciência corporal também estaria envolvida nessas distinções: nós percebemos como nosso corpo é e o comparamos com os corpos de outras pessoas.

Pensando nessas questões sobre a percepção ou a representação corporal que temos do endo e exogrupo, Marilia Lira e colaboradores realizaram um estudo com o objetivo de verificar como ocorre a percepção de próteses brancas e negras em universitários brancos.  Para tal, eles utilizaram a chamada “ilusão da mão de borracha” (Rubber Hand Illusion – RHI, em inglês). RHI é uma experiência sensorial na qual a estimulação visual e tátil na própria mão do participante, assim como na de uma prótese de borracha, é utilizada para induzir a sensação de que a prótese é a própria mão da pessoa.

Assim, os objetivos do estudo foram verificar a latência e a intensidade na qual próteses brancas e negras são sentidas como a própria mão de participantes brancos e se os resultados se correlacionavam também com a existência de viés racial implícito[1].

Noventa e cinco estudantes universitários destros foram recrutados para a pesquisa. Os participantes eram testados com uma prótese branca e outra negra (uma por dia). A primeira tarefa era o Teste de Associação Implícita (IAT), com o objetivo de verificar a existência de vieses raciais implícitos. A tarefa crítica nesse teste envolvia relacionar faces de homens negros e brancos com adjetivos positivos e negativos, em blocos considerados consistentes ou inconsistentes com a história de vida dos indivíduos. Foi presumido que relacionar negro com atributos negativos e brancos com atributos positivos era provavelmente o que os participantes aprenderam durante suas vidas, enquanto que relacionar negros e atributos positivos e brancos com atributos negativos foi considerado inconsistente com a história de vida dos participantes.

Em seguida, os participantes responderam a uma escala de reatividade interpessoal, com o intuito de verificar o nível de empatia dos participantes em quatro esferas: tomada de perspectiva, fantasia, preocupação empática e sofrimento pessoal. Depois, os participantes se sentavam confortavelmente em uma cadeira, apoiando ambos os braços em uma mesa. O braço esquerdo dos participantes era deslocado para a esquerda, uma partição de madeira era colocada entre este braço e o outro (de modo que o participante não visse mais seu braço esquerdo), e a prótese de borracha era alocada na posição que o braço esquerdo estava inicialmente. Foram feitas quatro próteses: mão de mulher negra, mão de homem negro, mão de mulher branca e mão de homem branco, de modo que o participante experienciava uma mão negra e outra branca do seu próprio gênero. Eles tinham que fechar os olhos e sua primeira tarefa era tentar acertar onde estava seu dedo indicador esquerdo (teste de movimento proprioceptivo).

Os participantes foram instruídos a prestar atenção na prótese de borracha, enquanto o equipamento dava pinceladas no braço esquerdo do participante e na prótese. Os participantes deveriam avisar o experimentador quando começassem a sentir que a prótese era o próprio braço do participante. A estimulação durava três minutos, sendo seguida por um segundo teste de movimento proprioceptivo. Por último, os participantes respondiam a um questionário sobre a RHI, com perguntas que indagavam o quanto a prótese foi sentida ou não como a própria mão do participante.

Os resultados mostraram que os participantes demoravam mais para perceber a prótese negra como a própria mão, em comparação com a prótese branca. Além disso, a magnitude, ou seja, o quanto a prótese foi sentida como a própria mão dos participantes foi maior para as próteses brancas do que para as negras. Com relação ao teste de movimento proprioceptivo, os participantes tiveram maior dificuldade de localizar a prótese negra, em comparação com a branca (apesar de serem instruídos a localizar o próprio dedo esquerdo, após a ilusão, os participantes tendem a apontar para a prótese, em vez da própria mão).

Os participantes demonstraram vieses fortes a favor do próprio grupo (viés pró-branco), havendo correlação entre esses vieses e a latência para a percepção da prótese como a própria mão. Ou seja, quanto maior o viés anti-negro, maior o tempo para que o participante percebesse a ilusão com a prótese negra. Não foram encontrados efeitos significativos entre a medida de empatia e a RHI. Um detalhe interessante nesse estudo é que as diferenças encontradas foram significativas somente na condição de sincronia, ou seja, quando as pinceladas na mão esquerda do participante iam no mesmo sentido que as pinceladas na prótese. Quando as pinceladas eram assincrônicas, não houve diferenças significativas nas medidas.

Esse estudo é um importante exemplo de como vieses raciais negativos podem impactar nossas impressões sobre indivíduos, categorizando-os como parte do exogrupo, mesmo em contextos nos quais eles poderiam ser classificados como membros do endogrupo.

O estudo completo foi publicado aqui: Lira, M., Egito, J. H., Dall’Agnol, P. A., Amodio, D. M., Gonçalves, O. F., & Boggio, P. S. (2017). The influence of skin colour on the experience of ownership in the rubber hand illusion. Scientific Reports, 7(15745), 1-13. doi: 10.1038/s41598-017-16137-3

[1] Viés racial implícito se refere a vieses identificados por medidas nas quais o tempo de resposta é a unidade fundamental, de modo que os participantes devem responder às tarefas o mais rapidamente possível. Esses vieses são distintos dos vieses explícitos, os quais são identificados por medidas de autorrelato (e.g, questionários, escalas) que não requerem tempo ou acurácia para serem realizadas.

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Por que alguns sons são considerados música e outros não?

O viral e controverso áudio “laurel versus yanny”, dividiu e confundiu os internautas. Este é só um exemplo de como a nossa audição é um fenômeno complexo e de como um mesmo som pode ser interpretado de formas diferentes por pessoas e grupos de pessoas diferentes. Créditos: Pinterest.

De tempos em tempos, novas e velhas ilusões de óptica viralizam nas redes sociais. Ilusões aurais e outros tipos de fenômenos relacionados à percepção auditiva são menos conhecidas, mas o recente e controverso áudio “laurel versus yanny” dividiu e também confundiu as pessoas que o escutaram. O jornal americano The New York Times chegou a publicar uma ferramenta que aplica progressivamente filtros de frequência ao arquivo, que é originalmente uma manipulação do áudio correspondente ao verbete “laurel” do site Vocabulary. Com esta ferramenta é possível comparar com outras pessoas a partir de que ponto a interpretação do áudio passa a ser ambígua.

Estas diferenças de percepção são apenas um exemplo entre muitos fenômenos relacionados à audição que variam entre uma pessoa e outra. Elas se devem às vezes a estruturas biológicas – neste caso diferenças entre os sistema auditivo e nervoso de cada indivíduo – e às vezes a diferenças culturais.

Estabelecer uma linha que divida exatamente onde cada um destes fatores passa a interferir ou deixa de influenciar a resposta a um determinado estímulo é virtualmente impossível. Para estudar este tipo de tendência, cientistas das áreas de psicofísica, neurociências, antropologia, psicologia e muitas outras valem-se de ferramentas estatísticas para estudar as diferenças de resposta em diferentes grupos de pessoas.

Quando falamos sobre nossas reações à música, podemos debater até mesmo o que é considerado um som musical ou não. Esta noção já foi debatida à exaustão por estudiosos da etnomusicologia, que apontam que a cultura musical não é transmitida para pessoas sem contexto prévio algum, e que a percepção de como o som é organizado e significado é sujeita ao sistema simbólico prévio do indivíduo que está escutando, executando ou compondo música [1].

O estudo publicado recentemente por McDerbott et al. [2] foi dedicado ao estudo das diferenças de percepção de dissonância musical em cinco grupos de pessoas (americanos com treinamento musical, americanos sem treinamento musical, bolivianos residentes em La Paz, bolivianos que residem em uma cidade consideravelmente menor que a capital e bolivianos pertencentes ao grupo étnico dos Tsimane’ que não tiveram contato com a música tradicional ocidental).

Figura 1 – Membros do grupo Tsimane’, na Amazônia boliviana – Foto de Piotr Strycharz, licença Creative Commons.

Para isso, os pesquisadores apresentaram aos voluntários de cada um dos grupos uma série de estímulos sonoros, dentre eles sons de risadas, suspiros e uma série de díades e acordes, já classificadas como consonantes ou dissonantes na tradição ocidental.

O estudo demonstrou, entre outras tendências, que os membros do grupo Tsimane’ são capazes de distinguir estímulos que são considerados ou não dissonantes na tradição musical ocidental, mas que não consideram os sons dissonantes menos prazerosos que os consonantes.

Os outros dois grupos bolivianos estudados, que têm mais contato com a música ocidental tonal, apresentaram maior predileção pelos sons considerados consonantes nesta cultura, embora tal preferência demonstre ser mais discreta com relação aos voluntários americanos.

Estes resultados corroboram com a hipótese de que as noções estéticas musicais de um grupo de pessoas é predominantemente determinado pelos seus contextos culturais e que, ao contrário das diferentes percepções do áudio “laurel versus yanny”, pouco reflete nossa estrutura biológica responsável pela audição.

No caso específico da resposta a sons consonantes e dissonantes, o estudo sugere que o julgamento da agradabilidade de um acorde é diretamente determinado pela exposição prévia à estrutura harmônica da música ocidental tonal.

Referências
[1] Moisala, P. (1995) Cognitive study of music as culture — basic
premises for “cognitive ethnomusicology”
, Journal of New Music Research, 24:1,
8-20. Disponível aqui.

[2] McDermott, J.H.; Schultz, A.F.; Undurraga, E.A.; Godoy, R.A. (2016). Indifference to dissonance in native Amazonians reveals cultural variation in music perception. Nature volume 535, pages 547–550. Disponível aqui.