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“Guerra justa” e abolicionismo (ou, por quê precisamos estudar mais história africana)

A historiografia dedicada à escravidão negra e ao tráfico transatlântico de escravos continua crescendo e aportando novos conhecimentos sobre essa parte tão importante da história das Américas. Por um lado, historiadores que pesquisam o passado colonial do continente americano têm sucedido em demonstrar que, de norte a sul, a colonização e o desenvolvimento de impérios coloniais dependeu da presença de africanos (escravizados, livres e libertos), forçando-nos a reconhecer as contribuições geralmente silenciadas desses sujeitos históricos. Por outro lado, avançou-se muito no entendimento acerca do funcionamento do tráfico de escravos, desde o financiamento do tráfico transatlântico até as rotas internas do tráfico americano (para além dos portos principais de chegada dos navios negreiros). Uma área que ainda merece mais atenção, no entanto, diz respeito ao funcionamento da escravidão no continente africano. Pouco se sabe sobre as rotas internas do tráfico humano de pessoas escravizadas no interior da África, já que, não raro, ao serem vendidas para comerciantes europeus, essas pessoas eram descritas nos documentos de acordo com os portos atlânticos de embarque (por exemplo, “da Guiné,” termo genérico utilizado pelos europeus para se referir a uma região do oeste africano que, na realidade, correspondia a vários reinos e impérios africanos).

A legalidade do tráfico negreiro (e da escravidão de modo geral, inicialmente) assentou-se no princípio da guerra justa e na ideia de que o(s) vencedor(es) tinha(m) o direito de escravizar o(s) perdedor(es). Herança do Código Justiano, uma compilação de leis romanas segundo a qual a escravização era vista como uma alternativa (positiva) ao assassinato dos perdedores de uma guerra, o princípio da guerra justa foi amplamente utilizado para justificar o contínuo comércio de escravos entre africanos e europeus que se produziu durante mais de três séculos. Mas como era possível garantir que as guerras lançadas no interior do continente africano eram realmente “justas”? Podia-se de fato garantir a legalidade da escravização dos seres humanos apreendidos nessas guerras e transplantados para os litorais para serem vendidos como escravos? Esse era o tipo de pergunta que os abolicionistas levantavam quando formulavam suas críticas à escravidão. E essas críticas constituem o objeto de análise do artigo de Jeffrey Glover publicado recentemente na revista The William and Mary Quarterly.[i]

Glover, professor do Departamento de Inglês da Universidade Loyola, em Chicago, analisou uma série de escritos publicados por abolicionistas ingleses que lançaram dúvidas a respeito da validade ou mesmo existência de guerras justas na África que pudessem sustentar o tráfico de escravos. Autores como Alexader Falconbridge questionaram a legitimidade do status legal dos milhares de homens, mulheres e crianças vendidos como escravos. Falconbridge havia sido um comerciante de escravos, mas se converteu à causa abolicionista após notar que a carga humana que comerciava não parecia exibir nenhum sinal de combate, fato que o levou a cogitar que talvez nunca houvessem estado em uma guerra, já que o mais natural seria terem algum tipo de ferimento ou cicatriz. Se não haviam estado em uma guerra, não poderiam ser legalmente escravizados, e seu comércio seria, portanto, ilegal.[ii] Ao longo do artigo, Glover nos introduz a uma série de outros autores abolicionistas, como Anthony Benezet e Thomas Clarkson, que coletaram relatos de viajantes e testemunhos, e Ottobah Cugoano, que havia sido escravizado e relatou em primeira mão sua experiência. Esses escritos contribuíram significativamente para o ímpeto do movimento abolicionista inglês, e merecem sem dúvida mais atenção.

No entanto, essas publicações estão longe de constituir as primeiras críticas à escravidão africana. Como é comum entre os pesquisadores que manejam exclusivamente as fontes em inglês, Glover ignora a trajetória do pensamento abolicionista para além do mundo anglo-saxão. Existe, porém, uma larga tradição intelectual antiescravista no mundo ibérico. Já no século XVII, o capuchinho aragonês Francisco José de Jaca produziu uma ferrenha defesa da abolição da escravidão com sua Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos.[iii] Resultado de sua passagem por Caracas, Cartagena de Índias, e Havana (três dos maiores portos importadores de escravos africanos durante o período colonial), o tratado de Jaca argumentava que a escravização dos africanos tal como estava sendo praticada era ilegal, pois não obedecia aos princípios da guerra justa; portanto, o tráfico transatlântico deveria ser abolido, os senhores de escravos punidos, e os escravos introduzidos por essa via ilegal, manumitidos. Suas críticas encontraram eco no também capuchinho Epifanio de Moirans, que Jaca conheceu em Havana, onde ambos estavam detidos justamente por conta da oposição àquela que era a instituição mais rentável do império espanhol.

Em nenhum caso, porém—nem nos tratados antiescravistas de Jaca e Moirans, nem nos escritos abolicionistas ingleses—ilumina-se os pormenores da escravidão no interior do continente africano. E, se tanto no universo ibérico quanto no anglo-saxão existiram vozes dissonantes que apontam para a ilegalidade da escravidão durante o período colonial, é bem possível que tivessem algo de razão. Faz-se portanto necessário examinar mais a fundo a questão. É aí, então, que a chamada historiografia do mundo atlântico deveria fazer o maior investimento, com pesquisas de campo que resultem em publicações de peso e substância.

Referências:

[i]                   GLOVER, Jeffrey. “Witnessing African War. Slavery, the Laws of War, and Anglo-American Abolitionism” IN The William and Mary Quarterly Vol. 74 N. 3, 2017.

[ii]                  FALCONBRIDGE, Alexander. An Account of the Slave Trade on the Coast of Africa. Londres, 1788.

[iii]             JACA, Francisco José de. Resolución sobre la libertad de los negros y sus originarios, en estado de paganos y después ya cristianos: la primera condena de la esclavitud en el pensamiento hispano. Ed. Miguel Anxo Pena González. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2003.

 

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A democracia e seus déficits democráticos: ausência de mulheres em espaços representativos

Recentemente a PEC 181[1] foi aprovada em uma Comissão Especial na Câmara dos Deputados brasileira. A PEC, que inicialmente tratava sobre licença maternidade, incluiu a proibição do aborto, inclusive em casos previstos por lei, como estupro, risco de vida para a mãe a anencefalia do feto, e ainda vai tramitar em outras instâncias para que sua aprovação seja, de fato, confirmada. No entanto, para além da sensibilidade da temática, que fere frontalmente os direitos humanos, liberdade e autonomia das mulheres (BIROLI, 2014), apenas para citar alguns exemplos, uma evidência de exclusão política foi, mais uma vez, evidenciada e publicizada nas redes sociais.

A Comissão especial foi composta por 19 pessoas. Dentre estas, 18 deputados federais e apenas uma deputada. O resultado da votação da proposta seguiu a mesma tendência: 18 votos favoráveis e um voto contrário à aprovação da PEC. O único voto em desfavor foi conferido pela Deputada Federal Erika Kokay, única mulher integrante da Comissão. Como este exemplo bem ilustra, a ausência de mulheres nestes espaços decisórios pode impactar na representação de perspectivas das mulheres, que não estão devidamente representadas em termos de presença, ideias e interesses (YOUNG, 2006).

Este não é um problema democrático recente e já vem sendo debatido por cientistas políticas feministas há muito tempo. A ausência de mulheres em espaços representativos eleitorais, e os consequentes problemas desta ausência, já foram evidenciados em diferentes instituições e arenas da política brasileira, como o Legislativo e Executivo (ARAÚJO, 2009; BROLLO e TROIANO, 2015; entre muitas outras autoras importantes) e, também, em comissões e conselhos internos a estas arenas (REZENDE, 2015). E, também em representações não eleitorais, caso do Poder Judiciário (MARONA, 2016).

Desde o período da redemocratização, a Câmara dos Deputados brasileira nunca contou com mais de 10% de mulheres eleitas. Já nos municípios brasileiros, as prefeituras comandas por mulheres nunca passaram de 11%. Vereadoras, por sua vez, nunca ultrapassaram o teto de 12%, em média, nos municípios brasileiros. Com relação a este último, o gráfico abaixo é ilustrativo da ausência de mulheres neste cargo representativo da política brasileira. Como é possível ver pela escala de cores dos mapas, homens são a imensa maioria nas câmaras municipais de todo o país.

gráficoLuciana

Fonte: MEIRELES e ANDRADE, 2017

Em artigo recente[2], nos debruçamos a entender, justamente, a eleição de mulheres para o nível municipal, em cargos de vereadoras. Especificamente, examinamos se aumentar o número de cadeiras nas câmaras municipais – um tipo de reforma eleitoral frequentemente mencionado na literatura sobre o tema que poderia facilitar a eleição de mulheres, diminuindo o número necessário de votos e gastos de campanha para minorias se elegerem – também aumentaria o número de mulheres eleitas vereadoras no Brasil.

A importância de estudar esta instância representativa diz respeito ao fato de os municípios brasileiros se constituírem em uma importante arena de atuação política para as mulheres. Por um lado, a inserção nesta arena se dá de forma mais fácil, e com custos reduzidos, dada a aproximação das mulheres com o público eleitor, a partir de movimentos sindicais, de bairros e igrejas, entre outros. Assim como há a redução do dispêndio de tempo com a campanha, em que não há a necessidade de deslocamento para outros territórios, possibilitando que as mulheres consigam continuar administrando a vida doméstica e outros trabalhos, já que, comumente, muitas acumulam duplas ou triplas jornadas de trabalho (MATOS & RAMALHO, 2010). Por outro lado, a atuação destas mulheres em políticas focalizadas, que possam produzir efeitos diretos na vida das mulheres e crianças nos municípios, é possibilitada sobremaneira na atuação municipal, já que elas se envolveriam mais em temas sociais, e também nos relacionados à educação e saúde (MASSOLO, 2005).

De fato, nossos resultados indicam que uma cadeira a mais aumenta o número de vereadoras eleitas nas câmaras municipais brasileiras – em até mesmo 20 pontos percentuais na probabilidade de eleger ao menos uma mulher. De forma geral, isto fez com que a representação de mulheres nas câmaras municipais brasileiras aumentasse cerca de 40%, em média, entre as eleições de 2004 e 2008.

Mas o que explica que simplesmente aumentar o número de vagas numa câmara de município ajude tanto a eleição de mulheres? Como dito acima, na literatura sobre o tema supõe-se geralmente que isso decorreria da diminuição da competição eleitoral: se existem mais vagas, e se o número de pessoas votantes permanece o mesmo, menos votos seriam necessários para se eleger – e também menos recursos para fazer campanha. Por essa razão, continua o argumento, quanto mais cargos eletivos disponíveis, mais fácil seria para minorias se elegerem.

No caso dos municípios brasileiros, contudo, com o aumento de uma cadeira para as câmaras municipais mais homens se candidataram a vereador, e não mais mulheres. Trocado em miúdos, isto significa que, mesmo sendo mais fácil para mulheres se elegerem com uma cadeira a mais, apenas mais homens decidiram tentar a sorte. O problema para eles, contudo, é que isso foi ruim para eles: a competição entre eles aumentou, mas os votos das candidatas mulheres não sofreram alteração. Como as candidaturas femininas permaneceram nos mesmos patamares, portanto, mais mulheres foram eleitas, já que o desempenho médio dos homens foi pior.

Isto nos apresenta dois caminhos possíveis de análise. Um, que desenvolvemos em nosso artigo, é o da ausência de coordenação entre os candidatos homens, o que veio a fragmentar o eleitorado. Por outro lado, isto também indica que os partidos não recebem incentivos para aumentarem o número de candidatas mulheres para além do que é estabelecido pelas cotas eleitorais. Quando o percentual mínimo exigido é preenchido, líderes partidários (normalmente homens) não enxergam as candidaturas femininas como competitivas eleitoralmente, dando preferência aos candidatos homens. Em qualquer um dos casos, entretanto, mais homens competindo entre si facilitou a entrada de mais mulheres nas câmaras municipais entre 2004 e 2008.

De toda forma, mesmo com o aprimoramento de regras eleitorais e do sistema político brasileiro, a ausência de mulheres eleitas continua sendo um grave problema democrático brasileiro. É preciso enfrentá-lo em diferentes frentes de atuação: na capacitação de mais mulheres candidatas e com intenção de se candidatarem, aumento de recursos partidários para as candidaturas de mulheres – o que envolve tanto recurso financeiro quanto tempo em campanhas eleitorais, por exemplo –, cumprimento da cota eleitoral pelos partidos, organização da lista partidária de forma a favorecer que mais mulheres possam se eleger, dentre tantos mais. A representação das mulheres diz respeito à ampliação do Estado Democrático de Direito, diz respeito à Justiça.

 

[1] Para mais informações sobre a PEC, ver: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITO-E-JUSTICA/547896-COMISSAO-APROVA-LICENCA-MAIOR-PARA-A-MAE-DE-BEBE-PREMATURO-E-DEFINE-QUE-A-VIDA-COMECA-NA-CONCEPCAO.html

[2]  Para acesso ao artigo, ver link:              http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782017000300079&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Referências
ARAÚJO, Clara. Gênero e acesso ao poder legislativo no Brasil: as cotas entre as instituições e a cultura. Revista Brasileira de Ciência Política, 2(2), pp.23-59, 2009
BIROLI, Flávia. Autonomia e justiça no debate sobre aborto: implicações teóricas e políticas. Revista Brasileira de Ciência Política, v. 15, p. 37, 2014.
Brollo, F. & Troiano, U. What Happens When a Woman Wins an Election? Evidence from Close Races in Brazil. Journal of Development Economics, 122, pp.28-45, 2015
MARONA, Marjorie Corrêa. Representação Política e Poder Judiciário: dos viéses do recrutamento e perfil da magistratura brasileira. Anais do 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, 2016.
Massolo, A. Gobiernos locales y mujeres: nuevos cambios y desafíos en América Latina. Observatório América Latina Genera: Gestion del Conocimiento para la Equidad de Géner, 2005
Matos, M. & Ramalho, I. Mais mulheres no poder: contribuição à Formação Política das Mulheres. Brasília: Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010
MEIRELES, Fernando; ANDRADE, Luciana Vieira Rubim. Magnitude eleitoral e representação de mulheres nos municípios brasileiros. Revista de Sociologia e Política, v. 25, n. 63, p. 79-101, 2017.
Rezende, Daniela L. Qual o lugar reservado às mulheres? Uma análise generificada de comissões legislativas na Argentina, no Brasil e no Uruguai. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2015
YOUNG, Iris Marion. Representação política, identidade e minorias. Lua Nova, n. 67, 2006.

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Turismo Negro – Entrevista a Belmira Coutinho

No final do ano passado, um jantar organizado no Panteão Nacional pela Founders Summit para assinalar o encerramento da Web Summit gerou imensa controvérsia nas redes sociais e na comunicação social [1, 2, 3, 4]. O jantar, onde só participaram algumas dezenas de pessoas, seleccionadas pela organização decorreu no espaço central do Panteão, junto aos túmulos de algumas personalidades portuguesas. Na verdade, este não foi o primeiro jantar que ali se realizou, mas foi este que se transformou numa notícia bombástica que indignou a grande maioria dos portugueses, desde figuras públicas a figurantes não tão públicos assim… Inicialmente supus que esta indignação teria mais a ver com a defesa dos monumentos nacionais, mas não, toda a tinta que se gastou neste assunto teve a ver com “a grande falta de respeito” pelos ilustres mortos. Isto encontra-se relacionado com a forma como encaramos a morte, assunto que, já agora, evitamos a todo o custo. Considera-se, portanto, pertinente falar com a Belmira Coutinho, que investiga o turismo como mediador de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea.

Belmira

Belmira Coutinho -Dark Tourism researcher 

Helena Ferreira (HF) – Como explicas toda a polémica que se gerou em torno dos jantares que se realizaram no Panteão Nacional, junto dos túmulos das personalidades portuguesas?

Belmira Coutinho (BC) – Em primeiro lugar, importa clarificar que no local onde se realizou o jantar (corpo central do Panteão) não existem túmulos, apenas cenotáfios. Mas, indo ao que interessa: a resposta a esta pergunta dava para uma tese! Há muitos factores que contribuem para que tenha havido uma reacção pública tão enfática à realização deste evento. Resumidamente: temos um evento com carácter recreativo num local a que são atribuídas características de sagrado e que contém sepulturas de pessoas vistas como importantes para o país. A forte influência católica no nosso país impõe uma postura de reverência e pesar em face da morte e de túmulos. Em Portugal não existem sepulturas fora de locais religiosos (cemitérios, igrejas, etc.). Então, aqui, qualquer actividade em cemitérios e outros locais de enterramento além daquelas ligadas à religiosidade ou as visitas a sepulturas de familiares e amigos pode ser vista como “falta de respeito”, como algo que vai deturpar o carácter sagrado daquele espaço. A minha pesquisa mostrou-me como noutros países, mais seculares e/ou onde o catolicismo tem menos peso, esta postura é diferente. Além disso neste caso trata-se de um local onde estão sepultadas ou têm monumentos funerários “pessoas com destaque na História de Portugal”, ou seja, que são reconhecidas por grande parte da população. Então a “falta de respeito” não é só para com os indivíduos sepultados e eventualmente as suas famílias, é para com o país inteiro! Ainda por cima o evento destinou-se maioritariamente a um público estrangeiro, que desconhece estas figuras, então é visto como incapaz de prestar o devido respeito à sua memória. Ao mesmo tempo, existe uma retirada quase total da morte da vida quotidiana. Enquanto sociedade só nos permitimos contactar com a morte “real”, personalizada, em momentos e circunstâncias excepcionais. Lidamos com essa morte em funerais, nas visitas a moribundos ou mortos nos hospitais e morgues, nos rituais religiosos de visitas a cemitérios. Quando tem mesmo de ser. De resto, não queremos sequer lembrar-nos de que ela existe. Trazer os mortos para uma actividade tão mundana como um jantar, ainda por cima festivo, é algo que nos causa muita impressão.

HF –Consideras que houve, no mundo ocidental, uma evolução nas atitudes perante a morte, ao longo do tempo?

BC – Claro que sim. Sensivelmente a partir do Romantismo a morte foi assumindo um carácter cada vez mais extraordinário na sociedade ocidental. Até então ela era encarada como algo triste, claro, mas que fazia parte da vida. A morte não interrompia a vida. Quando alguém morria seguiam-se os devidos rituais religiosos e civis, mas as outras actividades do quotidiano aconteciam paralelamente. Da mesma forma, os locais de enterramento não eram vistos como cidades dos mortos, eles pertenciam às cidades dos vivos, eram locais de comércio, habitações, e até actividades lúdicas. Mas progressivamente fomos encarando a morte como uma ruptura com as regras do quotidiano, como algo que não deve fazer parte dele. Para isto contribuiu, entre outras coisas, o avanço da Medicina. À medida que mais doenças e ferimentos se tornaram tratáveis, a morte passou de natural a algo que devia ser combatido; em alguns momentos chega a ser vista como uma falha da medicina. Também nos fomos preocupando cada vez mais com a nossa morte, em vez de a encararmos como um destino colectivo. Conforme a nossa sociedade se foi dessacralizando e os indivíduos foram ficando mais e mais isolados, os tradicionais ritos e crenças que ajudavam a lidar com a morte foram perdendo importância, deixando-nos sozinhos a lidar com a nossa finitude. O que torna mais difícil querermos pensar nela. Como disse atrás, só lidamos com a morte quando somos obrigados. Ao mesmo tempo acontece uma coisa paradoxal: a morte entra-nos em casa todos os dias. É raro o dia em que não vemos imagens de pessoas mortas ou ouvimos relatos de mortes. Basta ligarmos a televisão ou entrarmos na internet para termos notícias de crimes e desastres. Ou ouvirmos música, vermos um filme, uma série, ou lermos um livro. A morte está muito presente na cultura popular. Mas ela é abstracta, despersonalizada. Suavizada.

HF – O que se entende por turismo negro? E turismo cemiterial? Queres dar como exemplo alguns locais?

BC – O Turismo Negro pode ser encarado – ou pelo menos eu encaro-o assim – como a actividade turística em locais que têm alguma ligação com a morte e com o sofrimento. Isto inclui, claro os cemitérios. Então, o Turismo Cemiterial, que diz respeito ao turismo desenvolvido em cemitérios, é Turismo Negro, mas o Turismo Negro engloba muito mais coisas. Podemos pensá-lo como um conceito guarda-chuva que abrange a actividade turística em locais que pouco ou nada mais têm em comum do que a sua ligação a morte e a sofrimento. Digo actividade turística porque não se trata apenas de uma fenómeno de oferta ou de procura, mas de algo muito mais complexo que envolve locais de elevada importância cultural e política para comunidades e nações, e com implicações éticas e económicas que devem ser tidas em conta, e que são visitados por pessoas nas quais vão causar algum impacto. Um exemplo facilmente identificável são os campos de concentração nazis, como Auschwitz, que no ano passado recebeu 2 milhões de visitantes. Mas há muitas atracções dentro deste tipo de turismo: campos de batalha, antigas prisões, exposições como a que está actualmente no CCB (sobre os portugueses em campos de concentração nazis), circuitos turísticos como o do Jack O Estripador, em Londres, antigos hospitais, entre tantas outras. A maior parte das pessoas já fez Turismo Negro sem ter pensado nisso.

HF – Segundo a tua investigação, o turismo negro e o turismo cemiterial assumem algum papel relevante para os indivíduos e a sociedade?

BC – Sim, assumem. Como já disse, na nossa sociedade não lidamos directamente com a morte e com o sofrimento. Precisamos de mediadores. E o Turismo Negro é um dos mais importantes mediadores de morte e de sofrimento na sociedade ocidental contemporânea. É importante salientar que muitas das atracções deste tipo de turismo constam dos principais guias e roteiros de visita da maioria das cidades. Locais como o Cemitério do Père Lachaise (Paris), Pompeia, o Ground Zero. Em todos estes locais os visitantes podem contactar com a morte e o sofrimento sem serem afectados pessoalmente. Podem elaborar as suas construções e reflexões sobre aqueles acontecimentos ou sobre a finitude num local pensado para ser visitado, para ser consumido.

HF – O que podes ainda acrescentar sobre a tua investigação?

BC – A minha investigação procura pensar o Turismo Negro na realidade portuguesa a partir de um caso prático. A maior parte da teoria sobre este tema vem de um contexto anglocêntrico, então há coisas que não se podem transpor directamente para a nossa realidade. Por exemplo, as atracções relacionadas com a Segunda Guerra Mundial são consideradas o pináculo do Turismo Negro, mas em Portugal não as temos nem tivemos batalhas recentes no nosso território. O que é que nós temos de mais “negro” neste sentido? Eu creio que são os locais relacionados com a ditadura, como o Forte de Peniche e o Museu do Aljube, que hoje funcionam como museus de Resistência. São atracções turísticas e são locais onde a morte e o sofrimento aconteceram, embora isso não seja muito falado. Acho que é importante percebermos que histórias se estão a contar nestes locais, e quem é que as conta.

[1] http://observador.pt/2017/11/11/o-jantar-exclusivo-da-web-summit-foi-no-panteao-nacional/

[2] http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/paddy-cosgrave-pede-desculpa-por-jantar-no-panteao-nacional

[3] http://observador.pt/2017/11/11/governo-diz-que-jantar-da-web-summit-no-panteao-nacional-e-absolutamente-indigno-e-ofensivo/

[4] https://sol.sapo.pt/artigo/588526/web-summit-jantar-no-panteao-nacional-gera-revolta

 

 

 

 

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Métodos alternativos para o estudo do preconceito

Como a Psicologia tem estudado os preconceitos uma vez que este e outros temas socialmente sensíveis estão sujeitos à desejabilidade social?

Psicólogos e pesquisadores de outras áreas interessados em estudar temas sociais relevantes, como o preconceito, se deparam com problemas inerentes a algumas medidas amplamente utilizadas em pesquisa. Os questionários, por exemplo, podem ser utilizados para identificar preferências, valores e concepções das pessoas sobre determinado produto, objeto, animal ou pessoa. Em muitos casos, o questionário pode ser muito útil, como quando se descobre preferência por determinada cor em rótulos de alimentos, ou por determinada marca de roupa. Entretanto, quando se avalia preferência por “raças”[1], biótipos corporais (e.g., gordo ou magro), homens ou mulheres em determinados cargos, e outros temas socialmente sensíveis, a possibilidade de que os participantes da pesquisa mintam, ou não revelem suas concepções de maneira acurada é muito alta, uma vez que suas respostas podem ser consideradas preconceituosas e, portanto, sujeitas à punição social. O que fazer nesses casos? Desistir de pesquisar temas como o preconceito? Claro que não!

O que os pesquisadores começaram a fazer foi pensar em alternativas, ou seja, formas que possibilitassem que um indivíduo pudesse revelar o que realmente pensa, mesmo em se tratando de um tema socialmente sensível. Uma dessas alternativas são as chamadas medidas implícitas, ou seja, medidas obtidas sem que o participante tenha consciência que uma atitude está sendo medida, ou as quais os respondentes não podem controlar deliberadamente o que “dizem”/pensam sobre o assunto (de Hower, 2006). Enquanto nas medidas explícitas, como os questionários, os participantes têm liberdade para responder as questões pensando calmamente em como responder cada questão, nas medidas implícitas, os participantes tem que responder rapidamente a questionamentos, o que os impossibilita de “filtrar” seus pensamentos e responder de modo socialmente aceito.

O Procedimento de Avaliação Relacional Implícita (Implicit Relational Assessment Procedure – Barnes-Holmes, Barnes-Holmes, Power, Hayden, Milne, & Stewart, 2006), é um exemplo de medida implícita que está sendo bastante utilizado em algumas áreas da Psicologia. Ele é um procedimento que apresenta para os participantes frases ou figuras, exigindo que os participantes respondam rapidamente “verdadeiro” ou “falso”. Em um IRAP de raça, por exemplo, os participantes devem responder se “branco e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso, e também se “negro e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso. O mesmo ocorre para as relações “branco e atributo negativo” e “negro e atributo negativo”. O interessante desse instrumento é que o participante não deve dizer o que ele pensa, mas obedecer a uma regra dada pelo experimentador (e.g., agora o negro deve ser considerado positivo e o branco negativo). Em um bloco de tentativas, usa-se relações consideradas consistentes com a história de vida do participante (e.g., branco-positivo e negro-negativo), e em outro, relações inconsistentes, ou seja, muda-se a regra (e.g., negro-positivo e branco-negativo). Parte-se do pressuposto de que os participantes respondem mais rápido às relações que eles concordam, ou seja, consistentes com suas histórias de vida, do que às relações inconsistentes.

Os participantes fazem, inicialmente, alguns blocos de treino para aprender a tarefa, devendo responder a cada relação (e.g., branco-positivo), geralmente, em até dois segundos, e acertando pelo menos 80% das tentativas de um bloco. Quando isso é obtido em dois blocos consecutivos, os participantes fazem mais seis blocos de teste, com o mesmo tipo de tarefa utilizado na fase de treino, alternando sempre um bloco consistente com um inconsistente. Com isso, obtém-se um escore que revela se o participante, no caso do IRAP de raça, possui viés positivo para faces negras e/ou brancas, viés negativo para faces negras e/ou brancas, ou ausência de viés positivo ou negativo para as faces negras e/ou brancas. Dessa forma, é possível verificar a demonstração de viés positivo para uma raça, sem que tenhamos, necessariamente, viés negativo para outra raça. Isso é importante porque tem-se difundida a ideia de que sempre valorizamos o que nos diz respeito, e desvalorizamos o que é do outro, mas isso nem sempre é verdade.

Para exemplificar uma pesquisa com o instrumento, veja o estudo de Power, Harte, Barnes-Holmes e Barnes-Holmes (2017): Com o objetivo de estudar vieses raciais de pessoas brancas e negras, eles recrutaram participantes norte-irlandeses de ambas as raças. No instrumento, aparecia inicialmente “Eu acho que pessoas brancas são” ou “Eu acho que pessoas negras são”, junto com as opções “amigável”, “honesto”, “trabalhador”, “pacífico”, “bom” e “inteligente, consideradas positivas, e “hostil”, “enganador”, “preguiçoso”, “violento”, “ruim” e “burro”, consideradas negativas. Só um adjetivo aparecia por vez, mas todos foram usados. Os participantes tinham que responder “verdadeiro” e “falso” em até dois segundos para cada tentativa. Nessa pesquisa, os participantes negros demonstraram vieses pró-negro, mas também pró-branco. Os participantes brancos também demonstraram vieses pró-branco, mas, quando as fotos eram de negros, eles responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas positivas, mas também responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas negativas, ou seja, eles mostraram vieses pró e anti-negro! Interessante, não?

Esse tipo de resultado é importante, pois mostra que as preferências e os vieses raciais não funcionam sempre de maneira dualista ou binária, ou seja, a preferência por uma dada raça (ou tipo corporal, por exemplo) não significa necessariamente que tenhamos antipatia por outra, mas que o modo como nós avaliamos as pessoas são múltiplas, o que exige análises complexas, envolvendo diversas variáveis.

Quer saber mais?

Alguns estudos que utilizaram o IRAP no estudo de vieses raciais, de gênero e de biotipos corporais:

Barnes-Holmes, D., Murphy, A., Barnes-Holmes, Y., & Stewart, I., (2010). The Implicit Relational Assessment Procedure: Exploring the impact of private versus public contexts and the response latency criterion on pro-white and anti-black stereotyping among white Irish individuals. The Psychological Record, 60, 57-80.

Farrell, L., & McHugh, L. (2017). Examining gender-STEM bias among STEM and non-STEM students using the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP), Journal of Contextual Behavioral Science, http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.02.001

Ritzert, T., Anderson, L. M., Reilly, E. E., Gorrell, S., Forsyth, J. P., & Anderson, D. A. (2016). Assessment of weight/shape implicit bias related to attractiveness, fear, and disgust. The Psychological Record 66, 405–417, doi: https://doi.org/10.1007/s40732-016-0181-4

Referências

Barnes-Holmes, D.; Barnes-Holmes, Y., Power, P.; Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you know what you really believe? Developing the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32(7), 169-177.

De Houwer, J. (2006). What are implicit attitudes and why are we using them? In R. W. Wiers & A. W. Stacy (Eds.), The Handbook of Implicit Cognition and Addiction (pp. 11–28). Thousand Oaks, CA: Sage.

Power, P. M., Harte, C., Barnes-Holmes, D., & Barnes-Holmes, Y. (2017). Exploring racial bias in a European country with a recent history of immigration of Black Africans. The Psychological Record. Advanced online publication. doi: 10.1007/s40732-017-0223-6

[1]O termo “raça” foi usado aqui apenas por ser corrente na literatura, não implicando concordância com teorias raciais ou afins, uma vez que só existe uma raça, a humana. Desse modo, ele representa a cor dos indivíduos.

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Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

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Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

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Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.

 

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“Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

“- Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico.”(Afonso Cruz in “O cultivo das flores de plástico”, p. 53)

Sim. Andamos a regar flores de plástico e por isso não cheiram a coisas boas. Andamos a regar as mesmas flores de plástico desde a segunda década do século vinte. Regamo-las com o saudosismo de um Império que usurpamos e nunca foi, nem Império, nem nosso, com o orgulho dos heróis que não o sendo, morreram como se o fossem, com o respeito por uns “descobrimentos” que nunca foram descobertas, mas sim chegadas, com a negação das barbaridades cometidas contra o povo negro e indígena, em nome de uma ambição individual e colectiva desmedida, com a ilusão de que “nós, portugueses”, em nome de Deus e do Império, fomos os benfeitores que levamos a cultura, educamos e convertemos, quando na realidade aculturamos, escravizamos, torturamos e chacinamos povos inteiros que possuíam a sua própria cultura, religião e educação. Sim, andamos a regar flores de plástico, porque não discutimos publicamente o período da colonização e porque os programas das escolas públicas continuam a falar dos “descobrimentos”, dos bondosos e valentes heróis portugueses, que não são nem nunca foram racistas e apenas beneficiaram as colónias e o mundo.

racismo

Capa do livro “Racismo em Português, O lado esquecido do colonialismo”

Mas existem excepções, há quem se recuse a regar flores de plástico e procure aquilo que é real, autêntico, na esperança que um dia o nosso pequeno país (Portugal) cheire mesmo a coisas boas. É o caso da Joana Gorjão Henriques que, para além de desconstruir todos os absurdos que se apontaram anteriormente, deu voz a quem não a tinha na sua obra “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo” (Tinta da China), publicado em Portugal em Junho de 2016 e no Brasil em Julho do corrente ano, na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Esta obra é o resultado de cinco reportagens e mais de cem entrevistas nos cinco países africanos colonizados por Portugal: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique. O objectivo principal do livro é perceber se existiu ou não racismo durante a colonização portuguesa e revelar as marcas deixadas pelos portugueses nos territórios ocupados. A autora ouviu o outro lado da história colonial, o africano, e ficou claro que o racismo é fruto da relação colonial. Até aos dias de hoje, a discriminação nas antigas colónias, não é mais do que a reprodução de tudo o que foi feito e transmitido pelos portugueses brancos. O facto deste livro ser de jornalismo de investigação, faz dele o instrumento ideal para todos aqueles que possuem uma visão crítica sobre o colonialismo e pós-colonialismo, tanto no meio académico, como na sociedade civil, uma vez que aborda os assuntos de forma profunda, mas acessível.

Já em 1963, Charles R. Boxer tinha desmistificado a ideia surreal que surge constantemente nas discussões sobre o colonialismo português, de que muitos portugueses acreditavam convictamente que o seu país não tolerava discriminações raciais nas suas colónias e que existia um ameno convívio entre todos os seus habitantes [1]. Se este discurso ainda hoje persiste, são resquícios “salazarentos [2]” de um regime ditatorial imperialista, nacionalista com ideais de autarcia que via as colónias como as suas “jóias da coroa”. Sabe-se que foram escravizados e mortos milhares de negros e que foram massacrados, saqueados e humilhados outros tantos indígenas. Na verdade, para nós, os “desenvolvidos” e “sofisticados” colonizadores, os nativos africanos e indígenas não passavam daquilo que nós tínhamos sido no passado, animais em estado de evolução, que teriam que ser educados, formados, civilizados e aculturados. Instaurou-se, desta forma, o domínio e a exploração sobre esta população, usando a força, que sempre é o melhor meio para demonstrar e impor a nossa grande superioridade cultural em termos económicos, científicos e culturais. Como é evidente, este projecto colonizador impiedoso e espoliador necessitava de uma máscara que o fizesse passar por ilustre e benemérito e passaram a vender a ideia de que os seus objectivos primordiais eram “civilizar”, “evangelizar”, “educar”, “levar a paz” e “cuidar” dos indígenas e negros que até se terem cruzado com estes “bons samaritanos, salvadores das suas tribos e nações” eram uns “animais que praticavam costumes bárbaros de escravidão, canibalismo e sacrifícios humanos”. Os colonialismos impulsionados pela ideia de superioridade dos povos ocidentais tinham como único alvo a assimilação, ou seja, no nosso caso, “aportuguesar” os colonos. É necessário que tudo isto se diga e se diga bem alto, que se debata, que se analise e que se assumam responsabilidades até porque essa é a única forma de lutar contra o eurocentrismo – cultura que se apresenta como universal no sentido que propõe ou impõe, de alguma forma, a todos os povos a imitação do modelo ocidental como única solução aos desafios do nosso tempo [3]. Esta cultura parte do princípio que a modernidade que caracteriza o Ocidente é, sem dúvida, a única que realmente importa e, como tal, todas as outras formas posteriores de modernidade desenvolvidas ou que o poderão vir a ser noutras partes do globo terrestre são, com toda a certeza, ou o resultado da disseminação do centro (Ocidente) para as periferias ou não possuem interesse nenhum. A este nível, existem depoimentos tão ridículos que parecem anedóticos. João Carlos Silva conta na obra da Joana Gorjão Henriques que em São Tomé e Príncipe:

Os nossos professores mandavam fazer redacção sobre os frutos. E os frutos que nós conhecíamos eram: manga, cajamanga, mamão, abacate, jaca, anona… Mas se puséssemos esses frutos os professores riscavam, tínhamos de pôr uvas, maçã, pêra, coisas que nunca tínhamos visto. Era uma espécie de negação que levava a negarmos a nossa própria cultura [4].

Para Blaut [5] esta cultura que caracteriza como um “conjunto de crenças” desenvolveu-se no século XIX no colonialismo europeu e ganhou força com a hegemonia dos Estados Unidos da América que se verificou no século XX. Nestas crenças não entram ideias de que o Ocidente poderia alguma vez ter ido buscar, ou aprender alguma coisa com as sociedades africanas, indígenas, islâmicas, chinesas e outras. Aliás, é de todo, inacreditável que necessitasse de o fazer, uma vez que o Ocidente é muito mais desenvolvido que todas as outras sociedades e porque possui características intrínsecas que lhe permitiram o grande desenvolvimento do período da modernidade.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos finais dos anos oitenta assistimos a um período de descolonização que assumiu diversas formatos, conforme as políticas dos colonizadores. O que importa aqui ressaltar é que os movimentos anti-coloniais ou movimentos de libertação apenas conseguiram a independência dos países, mas perpetuaram as estruturas de relações de poder e práticas coloniais, como muito bem salienta Killa-Z de São Tomé e Príncipe, no seu depoimento em “Racismo em Português…”:

Temos uma independência política, mas em muitos casos foi feito copy-paste da Europa para cá. Quando África se afirmar no seu todo vai-se fazer a reviravolta da história – de certeza que isso é uma das grandes preocupações dos países de primeiro mundo que preparam os destinos de África para que eles fiquem sempre assim [6].

Segundo Krishna, designa-se este fenómeno de “ansiedade pós-colonial [7]” e caracteriza-se pela intenção por parte das elites estatais e intelectuais e pelas classes média e alta dos países periféricos de construírem os seus Estados (passado, presente e futuro) à semelhança de outros locais que constituem o modelo, no Ocidente, ou melhor dizendo, na Europa. A colonialidade do poder e do saber geradas no colonialismo persistiram, fazendo perdurar a condição subalterna das sociedades dos países colonizados, como Boaventura de Sousa Santos [8] e Anibal Quijano [9]  tão bem demonstram nas suas investigações.

Os negros e os indígenas são os Outros diferentes e ocupam os lugares inferiores na hierarquia. A descolonização, na realidade, não ocorreu porque se perpetuou a dominação dos descendentes dos colonizadores e porque os direitos dos negros e dos indígenas continuam a ser negados, como tão bem é relatado no “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

[1] Boxer, Charles R.. “Race Relations in the Portuguese Colonial Empire (1415-1825)”. London: Oxford University Press, 1963.

[2] Referência a apoiantes do regime ditadorial “Estado Novo” de António de Oliveira Salazar que durou de 1933 a 1974.

[3] Amin, Samir. Eurocentrismo: crítica de uma ideologia. Lisboa: Dinossauro, 1994.

[4] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 160.

[5] Blaut, J. M.. The Colonizer’s Model of the World: Geographical Diffusionism and Eurocentric History. New York: Guilford Press, 1993.

[6] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 145.

[7] Krishna, S.. Postcolonial Insecurities: India, Sri Lanka, and the Question of Nationhood. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.

[8] Santos, Boaventura de Sousa. “Boaventura: a Europa será capaz de aprender?” [online]. Outras Palavras, 6 de Março de 2017. < http://outraspalavras.net/destaques/boaventura-a-europa-sera-capaz-de-aprender/&gt;. [6 março 2017].

[9] Quijano, Aníbal. “La colonialidad del poder: eurocentrismo y América Latina”. In Edgardo Lander (ed.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas, Buenos Aires: Clacso, 2000.

 

 

 

 

 

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A semente do ódio

Diversos estudos tem buscado compreender melhor o que leva nascidos em países desenvolvidos e distantes dos atuais conflitos armados que engendram grupos considerados terroristas a integrarem esses mesmos grupos, com destaque para as teorias no campo das ciências psicológicas e comportamentais.

Em esforço de campo considerável para subsidiar essas teorias, a equipe liderada por Milan Obaidi (Uppsala University, Suécia) publicou recentemente estudo em que buscou confrontar dois grupos: de um lado, imigrantes muçulmanos nascidos na Dinamarca ou sem experiência direta com intervenções militares no país de origem; de outro, afegãos que residiam no país de origem à época da intervenção militar da OTAN nesse país em 2001. No primeiro grupo, cerca de 93% tinha idade entre 18 e 34 anos — a faixa etária da maioria dos suspeitos de terrorismo [1]. No segundo, eram cerca de 66% de 20 a 30 anos [2].

Esse estudo, entre outros resultados relevantes, indicou que muçulmanos nascidos na Dinamarca comparados aos de primeira geração (aqueles que imigraram para a Dinamarca, tanto os com quanto sem experiência direta com a intervenção da OTAN)  [3]:

  • sentem-se mais identificados com muçulmanos pelo mundo;
  • acham menos justa a política externa ocidental;
  • sentem mais ódio coletivo;
  • pensam mais em apoiar a comunidades muçulmanas por meios não-violentos;
  • ressentem mais as intervenções militares da OTAN em um país no qual não foram nascidos.

Algo acontece, portanto, nos países que acolhem esses muçulmanos que os ali nascidos sentem mais “ódio” do que os pais e mais do que quem ficou no local de origem destes, mesmo a milhas de distância do conflito a que veementemente repudiam [4].

Mais ressentidas, as novas gerações nascidas longe dos conflitos estariam ainda mais propensas à violência do que os inseridos nesses contextos e de quem, por sua maior proximidade geográfica, poderia se esperar um envolvimento mais direto com os grupos ditos terroristas.

Para os autores, essas conclusões são exemplo de “resposta psicológica por substituição”, a qual poderia se agravar em casos de isolamento e exclusão em comunidades étnicas como ocorre com a muçulmana na Europa. A esse respeito, vale citar um entrevistado da segunda geração, para quem outros dinamarqueses os veriam como: “(…) elementos indesejáveis na sociedade dinamarquesa, e nós nunca seremos ‘dinamarqueses’ a seus olhos. Para eles, nós sempre seremos um grupo indesejável e excluído.” [5]

A semente do ódio, afinal, muito mais do que em uma ou outra religião, pode ser encontrada simplesmente naquela velha inimiga: a exclusão social. Essa semente, definitivamente, não “nasce” com as pessoas.


Notas:

[1] OBAIDI et. al.; 2017; p. 10. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 16 to 74, with the majority between 18-34-age (i.e., 93.6% of the total sample). Importantly, the age of these participants matches the distribution of those who join terrorist organizations in Europe (e.g., Bakker, 2006). All participants identified as either first (56.7%) second (34.9%) or third (1.9%) generation Muslim immigrants to Denmark.” Trad. livre.

[2] OBAIDI et. al.; 2017; p. 17. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 18 to 65, with the majority between 20-30-age (i.e., 65.9% of the total sample). All participants identified as either first (63.9%), second (27.7%) or third (1.3%) generation Muslim immigrants in Denmark.” Trad. livre.

[3] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Beyond the path models, additional results from Study 1 showed that native-born participants were more strongly identified with Muslims, perceived Western foreign policies as more unjust, felt more group-based anger and showed stronger intentions to support Muslims by non-violent means. In study 2 we found the same trends.” Trad. livre; grifos no original.

[4] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Overall, an important lesson from this inquiry is that the current focus on the relation between Muslims and non-Muslims in the Middle East must be complemented with a stronger focus on the intergroup dynamics within Western societies.” Trad. livre.

[5] OBAIDI et. al.; 2017; p. 23. No original e na íntegra: “As one interviewee put it “many Danes [ethnic Danes] see us as an undesirable element in the Danish society, although we are born and raised here. We speak Danish, we think Danish and we feel Danish, but we will never be ‘Danes’ in the Danes’ eyes. For them we will always be an unwanted and excluded group of people” (Translated from Danish; Obaidi, 2017).” Trad. livre.

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– Bibliografia –

OBAIDI, Milan; BERGH, Robin; SIDANIUS, Jim; THOMSEM, Lotte. The Mistreatment of My People: Victimization by Proxy and Behavioral Intentions to Commit Violence Among Muslims in Denmark. IN: Political Psychology, jun 2017. Disponível: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pops.12435/abstract>

Free version (for review only):<www.academia.edu/32662712/The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark_The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark>

 

Ver também:
Journalists Resource. “Muslims in Europe: Considering anger among immigrants’ children” [26 Jul 2017]. Disponível: <https://journalistsresource.org/studies/international/conflicts/muslims-europe-radicalism-immigrants-children-jihad?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email>