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Métodos alternativos para o estudo do preconceito

Como a Psicologia tem estudado os preconceitos uma vez que este e outros temas socialmente sensíveis estão sujeitos à desejabilidade social?

Psicólogos e pesquisadores de outras áreas interessados em estudar temas sociais relevantes, como o preconceito, se deparam com problemas inerentes a algumas medidas amplamente utilizadas em pesquisa. Os questionários, por exemplo, podem ser utilizados para identificar preferências, valores e concepções das pessoas sobre determinado produto, objeto, animal ou pessoa. Em muitos casos, o questionário pode ser muito útil, como quando se descobre preferência por determinada cor em rótulos de alimentos, ou por determinada marca de roupa. Entretanto, quando se avalia preferência por “raças”[1], biótipos corporais (e.g., gordo ou magro), homens ou mulheres em determinados cargos, e outros temas socialmente sensíveis, a possibilidade de que os participantes da pesquisa mintam, ou não revelem suas concepções de maneira acurada é muito alta, uma vez que suas respostas podem ser consideradas preconceituosas e, portanto, sujeitas à punição social. O que fazer nesses casos? Desistir de pesquisar temas como o preconceito? Claro que não!

O que os pesquisadores começaram a fazer foi pensar em alternativas, ou seja, formas que possibilitassem que um indivíduo pudesse revelar o que realmente pensa, mesmo em se tratando de um tema socialmente sensível. Uma dessas alternativas são as chamadas medidas implícitas, ou seja, medidas obtidas sem que o participante tenha consciência que uma atitude está sendo medida, ou as quais os respondentes não podem controlar deliberadamente o que “dizem”/pensam sobre o assunto (de Hower, 2006). Enquanto nas medidas explícitas, como os questionários, os participantes têm liberdade para responder as questões pensando calmamente em como responder cada questão, nas medidas implícitas, os participantes tem que responder rapidamente a questionamentos, o que os impossibilita de “filtrar” seus pensamentos e responder de modo socialmente aceito.

O Procedimento de Avaliação Relacional Implícita (Implicit Relational Assessment Procedure – Barnes-Holmes, Barnes-Holmes, Power, Hayden, Milne, & Stewart, 2006), é um exemplo de medida implícita que está sendo bastante utilizado em algumas áreas da Psicologia. Ele é um procedimento que apresenta para os participantes frases ou figuras, exigindo que os participantes respondam rapidamente “verdadeiro” ou “falso”. Em um IRAP de raça, por exemplo, os participantes devem responder se “branco e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso, e também se “negro e um atributo positivo” é verdadeiro ou falso. O mesmo ocorre para as relações “branco e atributo negativo” e “negro e atributo negativo”. O interessante desse instrumento é que o participante não deve dizer o que ele pensa, mas obedecer a uma regra dada pelo experimentador (e.g., agora o negro deve ser considerado positivo e o branco negativo). Em um bloco de tentativas, usa-se relações consideradas consistentes com a história de vida do participante (e.g., branco-positivo e negro-negativo), e em outro, relações inconsistentes, ou seja, muda-se a regra (e.g., negro-positivo e branco-negativo). Parte-se do pressuposto de que os participantes respondem mais rápido às relações que eles concordam, ou seja, consistentes com suas histórias de vida, do que às relações inconsistentes.

Os participantes fazem, inicialmente, alguns blocos de treino para aprender a tarefa, devendo responder a cada relação (e.g., branco-positivo), geralmente, em até dois segundos, e acertando pelo menos 80% das tentativas de um bloco. Quando isso é obtido em dois blocos consecutivos, os participantes fazem mais seis blocos de teste, com o mesmo tipo de tarefa utilizado na fase de treino, alternando sempre um bloco consistente com um inconsistente. Com isso, obtém-se um escore que revela se o participante, no caso do IRAP de raça, possui viés positivo para faces negras e/ou brancas, viés negativo para faces negras e/ou brancas, ou ausência de viés positivo ou negativo para as faces negras e/ou brancas. Dessa forma, é possível verificar a demonstração de viés positivo para uma raça, sem que tenhamos, necessariamente, viés negativo para outra raça. Isso é importante porque tem-se difundida a ideia de que sempre valorizamos o que nos diz respeito, e desvalorizamos o que é do outro, mas isso nem sempre é verdade.

Para exemplificar uma pesquisa com o instrumento, veja o estudo de Power, Harte, Barnes-Holmes e Barnes-Holmes (2017): Com o objetivo de estudar vieses raciais de pessoas brancas e negras, eles recrutaram participantes norte-irlandeses de ambas as raças. No instrumento, aparecia inicialmente “Eu acho que pessoas brancas são” ou “Eu acho que pessoas negras são”, junto com as opções “amigável”, “honesto”, “trabalhador”, “pacífico”, “bom” e “inteligente, consideradas positivas, e “hostil”, “enganador”, “preguiçoso”, “violento”, “ruim” e “burro”, consideradas negativas. Só um adjetivo aparecia por vez, mas todos foram usados. Os participantes tinham que responder “verdadeiro” e “falso” em até dois segundos para cada tentativa. Nessa pesquisa, os participantes negros demonstraram vieses pró-negro, mas também pró-branco. Os participantes brancos também demonstraram vieses pró-branco, mas, quando as fotos eram de negros, eles responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas positivas, mas também responderam “verdadeiro” quando negro foi relacionado com coisas negativas, ou seja, eles mostraram vieses pró e anti-negro! Interessante, não?

Esse tipo de resultado é importante, pois mostra que as preferências e os vieses raciais não funcionam sempre de maneira dualista ou binária, ou seja, a preferência por uma dada raça (ou tipo corporal, por exemplo) não significa necessariamente que tenhamos antipatia por outra, mas que o modo como nós avaliamos as pessoas são múltiplas, o que exige análises complexas, envolvendo diversas variáveis.

Quer saber mais?

Alguns estudos que utilizaram o IRAP no estudo de vieses raciais, de gênero e de biotipos corporais:

Barnes-Holmes, D., Murphy, A., Barnes-Holmes, Y., & Stewart, I., (2010). The Implicit Relational Assessment Procedure: Exploring the impact of private versus public contexts and the response latency criterion on pro-white and anti-black stereotyping among white Irish individuals. The Psychological Record, 60, 57-80.

Farrell, L., & McHugh, L. (2017). Examining gender-STEM bias among STEM and non-STEM students using the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP), Journal of Contextual Behavioral Science, http://dx.doi.org/10.1016/j.jcbs.2017.02.001

Ritzert, T., Anderson, L. M., Reilly, E. E., Gorrell, S., Forsyth, J. P., & Anderson, D. A. (2016). Assessment of weight/shape implicit bias related to attractiveness, fear, and disgust. The Psychological Record 66, 405–417, doi: https://doi.org/10.1007/s40732-016-0181-4

Referências

Barnes-Holmes, D.; Barnes-Holmes, Y., Power, P.; Hayden, E., Milne, R., & Stewart, I. (2006). Do you know what you really believe? Developing the Implicit Relational Assessment Procedure (IRAP) as a direct measure of implicit beliefs. The Irish Psychologist, 32(7), 169-177.

De Houwer, J. (2006). What are implicit attitudes and why are we using them? In R. W. Wiers & A. W. Stacy (Eds.), The Handbook of Implicit Cognition and Addiction (pp. 11–28). Thousand Oaks, CA: Sage.

Power, P. M., Harte, C., Barnes-Holmes, D., & Barnes-Holmes, Y. (2017). Exploring racial bias in a European country with a recent history of immigration of Black Africans. The Psychological Record. Advanced online publication. doi: 10.1007/s40732-017-0223-6

[1]O termo “raça” foi usado aqui apenas por ser corrente na literatura, não implicando concordância com teorias raciais ou afins, uma vez que só existe uma raça, a humana. Desse modo, ele representa a cor dos indivíduos.

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Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

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Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

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Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.

 

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“Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

“- Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico.”(Afonso Cruz in “O cultivo das flores de plástico”, p. 53)

Sim. Andamos a regar flores de plástico e por isso não cheiram a coisas boas. Andamos a regar as mesmas flores de plástico desde a segunda década do século vinte. Regamo-las com o saudosismo de um Império que usurpamos e nunca foi, nem Império, nem nosso, com o orgulho dos heróis que não o sendo, morreram como se o fossem, com o respeito por uns “descobrimentos” que nunca foram descobertas, mas sim chegadas, com a negação das barbaridades cometidas contra o povo negro e indígena, em nome de uma ambição individual e colectiva desmedida, com a ilusão de que “nós, portugueses”, em nome de Deus e do Império, fomos os benfeitores que levamos a cultura, educamos e convertemos, quando na realidade aculturamos, escravizamos, torturamos e chacinamos povos inteiros que possuíam a sua própria cultura, religião e educação. Sim, andamos a regar flores de plástico, porque não discutimos publicamente o período da colonização e porque os programas das escolas públicas continuam a falar dos “descobrimentos”, dos bondosos e valentes heróis portugueses, que não são nem nunca foram racistas e apenas beneficiaram as colónias e o mundo.

racismo

Capa do livro “Racismo em Português, O lado esquecido do colonialismo”

Mas existem excepções, há quem se recuse a regar flores de plástico e procure aquilo que é real, autêntico, na esperança que um dia o nosso pequeno país (Portugal) cheire mesmo a coisas boas. É o caso da Joana Gorjão Henriques que, para além de desconstruir todos os absurdos que se apontaram anteriormente, deu voz a quem não a tinha na sua obra “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo” (Tinta da China), publicado em Portugal em Junho de 2016 e no Brasil em Julho do corrente ano, na 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Esta obra é o resultado de cinco reportagens e mais de cem entrevistas nos cinco países africanos colonizados por Portugal: Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique. O objectivo principal do livro é perceber se existiu ou não racismo durante a colonização portuguesa e revelar as marcas deixadas pelos portugueses nos territórios ocupados. A autora ouviu o outro lado da história colonial, o africano, e ficou claro que o racismo é fruto da relação colonial. Até aos dias de hoje, a discriminação nas antigas colónias, não é mais do que a reprodução de tudo o que foi feito e transmitido pelos portugueses brancos. O facto deste livro ser de jornalismo de investigação, faz dele o instrumento ideal para todos aqueles que possuem uma visão crítica sobre o colonialismo e pós-colonialismo, tanto no meio académico, como na sociedade civil, uma vez que aborda os assuntos de forma profunda, mas acessível.

Já em 1963, Charles R. Boxer tinha desmistificado a ideia surreal que surge constantemente nas discussões sobre o colonialismo português, de que muitos portugueses acreditavam convictamente que o seu país não tolerava discriminações raciais nas suas colónias e que existia um ameno convívio entre todos os seus habitantes [1]. Se este discurso ainda hoje persiste, são resquícios “salazarentos [2]” de um regime ditatorial imperialista, nacionalista com ideais de autarcia que via as colónias como as suas “jóias da coroa”. Sabe-se que foram escravizados e mortos milhares de negros e que foram massacrados, saqueados e humilhados outros tantos indígenas. Na verdade, para nós, os “desenvolvidos” e “sofisticados” colonizadores, os nativos africanos e indígenas não passavam daquilo que nós tínhamos sido no passado, animais em estado de evolução, que teriam que ser educados, formados, civilizados e aculturados. Instaurou-se, desta forma, o domínio e a exploração sobre esta população, usando a força, que sempre é o melhor meio para demonstrar e impor a nossa grande superioridade cultural em termos económicos, científicos e culturais. Como é evidente, este projecto colonizador impiedoso e espoliador necessitava de uma máscara que o fizesse passar por ilustre e benemérito e passaram a vender a ideia de que os seus objectivos primordiais eram “civilizar”, “evangelizar”, “educar”, “levar a paz” e “cuidar” dos indígenas e negros que até se terem cruzado com estes “bons samaritanos, salvadores das suas tribos e nações” eram uns “animais que praticavam costumes bárbaros de escravidão, canibalismo e sacrifícios humanos”. Os colonialismos impulsionados pela ideia de superioridade dos povos ocidentais tinham como único alvo a assimilação, ou seja, no nosso caso, “aportuguesar” os colonos. É necessário que tudo isto se diga e se diga bem alto, que se debata, que se analise e que se assumam responsabilidades até porque essa é a única forma de lutar contra o eurocentrismo – cultura que se apresenta como universal no sentido que propõe ou impõe, de alguma forma, a todos os povos a imitação do modelo ocidental como única solução aos desafios do nosso tempo [3]. Esta cultura parte do princípio que a modernidade que caracteriza o Ocidente é, sem dúvida, a única que realmente importa e, como tal, todas as outras formas posteriores de modernidade desenvolvidas ou que o poderão vir a ser noutras partes do globo terrestre são, com toda a certeza, ou o resultado da disseminação do centro (Ocidente) para as periferias ou não possuem interesse nenhum. A este nível, existem depoimentos tão ridículos que parecem anedóticos. João Carlos Silva conta na obra da Joana Gorjão Henriques que em São Tomé e Príncipe:

Os nossos professores mandavam fazer redacção sobre os frutos. E os frutos que nós conhecíamos eram: manga, cajamanga, mamão, abacate, jaca, anona… Mas se puséssemos esses frutos os professores riscavam, tínhamos de pôr uvas, maçã, pêra, coisas que nunca tínhamos visto. Era uma espécie de negação que levava a negarmos a nossa própria cultura [4].

Para Blaut [5] esta cultura que caracteriza como um “conjunto de crenças” desenvolveu-se no século XIX no colonialismo europeu e ganhou força com a hegemonia dos Estados Unidos da América que se verificou no século XX. Nestas crenças não entram ideias de que o Ocidente poderia alguma vez ter ido buscar, ou aprender alguma coisa com as sociedades africanas, indígenas, islâmicas, chinesas e outras. Aliás, é de todo, inacreditável que necessitasse de o fazer, uma vez que o Ocidente é muito mais desenvolvido que todas as outras sociedades e porque possui características intrínsecas que lhe permitiram o grande desenvolvimento do período da modernidade.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos finais dos anos oitenta assistimos a um período de descolonização que assumiu diversas formatos, conforme as políticas dos colonizadores. O que importa aqui ressaltar é que os movimentos anti-coloniais ou movimentos de libertação apenas conseguiram a independência dos países, mas perpetuaram as estruturas de relações de poder e práticas coloniais, como muito bem salienta Killa-Z de São Tomé e Príncipe, no seu depoimento em “Racismo em Português…”:

Temos uma independência política, mas em muitos casos foi feito copy-paste da Europa para cá. Quando África se afirmar no seu todo vai-se fazer a reviravolta da história – de certeza que isso é uma das grandes preocupações dos países de primeiro mundo que preparam os destinos de África para que eles fiquem sempre assim [6].

Segundo Krishna, designa-se este fenómeno de “ansiedade pós-colonial [7]” e caracteriza-se pela intenção por parte das elites estatais e intelectuais e pelas classes média e alta dos países periféricos de construírem os seus Estados (passado, presente e futuro) à semelhança de outros locais que constituem o modelo, no Ocidente, ou melhor dizendo, na Europa. A colonialidade do poder e do saber geradas no colonialismo persistiram, fazendo perdurar a condição subalterna das sociedades dos países colonizados, como Boaventura de Sousa Santos [8] e Anibal Quijano [9]  tão bem demonstram nas suas investigações.

Os negros e os indígenas são os Outros diferentes e ocupam os lugares inferiores na hierarquia. A descolonização, na realidade, não ocorreu porque se perpetuou a dominação dos descendentes dos colonizadores e porque os direitos dos negros e dos indígenas continuam a ser negados, como tão bem é relatado no “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo”.

[1] Boxer, Charles R.. “Race Relations in the Portuguese Colonial Empire (1415-1825)”. London: Oxford University Press, 1963.

[2] Referência a apoiantes do regime ditadorial “Estado Novo” de António de Oliveira Salazar que durou de 1933 a 1974.

[3] Amin, Samir. Eurocentrismo: crítica de uma ideologia. Lisboa: Dinossauro, 1994.

[4] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 160.

[5] Blaut, J. M.. The Colonizer’s Model of the World: Geographical Diffusionism and Eurocentric History. New York: Guilford Press, 1993.

[6] Henriques, Joana Gorjão. Racismo em Português. O lado esquecido da Colonização. Lisboa: Edições Tinta da China, p. 145.

[7] Krishna, S.. Postcolonial Insecurities: India, Sri Lanka, and the Question of Nationhood. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999.

[8] Santos, Boaventura de Sousa. “Boaventura: a Europa será capaz de aprender?” [online]. Outras Palavras, 6 de Março de 2017. < http://outraspalavras.net/destaques/boaventura-a-europa-sera-capaz-de-aprender/&gt;. [6 março 2017].

[9] Quijano, Aníbal. “La colonialidad del poder: eurocentrismo y América Latina”. In Edgardo Lander (ed.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas, Buenos Aires: Clacso, 2000.

 

 

 

 

 

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A semente do ódio

Diversos estudos tem buscado compreender melhor o que leva nascidos em países desenvolvidos e distantes dos atuais conflitos armados que engendram grupos considerados terroristas a integrarem esses mesmos grupos, com destaque para as teorias no campo das ciências psicológicas e comportamentais.

Em esforço de campo considerável para subsidiar essas teorias, a equipe liderada por Milan Obaidi (Uppsala University, Suécia) publicou recentemente estudo em que buscou confrontar dois grupos: de um lado, imigrantes muçulmanos nascidos na Dinamarca ou sem experiência direta com intervenções militares no país de origem; de outro, afegãos que residiam no país de origem à época da intervenção militar da OTAN nesse país em 2001. No primeiro grupo, cerca de 93% tinha idade entre 18 e 34 anos — a faixa etária da maioria dos suspeitos de terrorismo [1]. No segundo, eram cerca de 66% de 20 a 30 anos [2].

Esse estudo, entre outros resultados relevantes, indicou que muçulmanos nascidos na Dinamarca comparados aos de primeira geração (aqueles que imigraram para a Dinamarca, tanto os com quanto sem experiência direta com a intervenção da OTAN)  [3]:

  • sentem-se mais identificados com muçulmanos pelo mundo;
  • acham menos justa a política externa ocidental;
  • sentem mais ódio coletivo;
  • pensam mais em apoiar a comunidades muçulmanas por meios não-violentos;
  • ressentem mais as intervenções militares da OTAN em um país no qual não foram nascidos.

Algo acontece, portanto, nos países que acolhem esses muçulmanos que os ali nascidos sentem mais “ódio” do que os pais e mais do que quem ficou no local de origem destes, mesmo a milhas de distância do conflito a que veementemente repudiam [4].

Mais ressentidas, as novas gerações nascidas longe dos conflitos estariam ainda mais propensas à violência do que os inseridos nesses contextos e de quem, por sua maior proximidade geográfica, poderia se esperar um envolvimento mais direto com os grupos ditos terroristas.

Para os autores, essas conclusões são exemplo de “resposta psicológica por substituição”, a qual poderia se agravar em casos de isolamento e exclusão em comunidades étnicas como ocorre com a muçulmana na Europa. A esse respeito, vale citar um entrevistado da segunda geração, para quem outros dinamarqueses os veriam como: “(…) elementos indesejáveis na sociedade dinamarquesa, e nós nunca seremos ‘dinamarqueses’ a seus olhos. Para eles, nós sempre seremos um grupo indesejável e excluído.” [5]

A semente do ódio, afinal, muito mais do que em uma ou outra religião, pode ser encontrada simplesmente naquela velha inimiga: a exclusão social. Essa semente, definitivamente, não “nasce” com as pessoas.


Notas:

[1] OBAIDI et. al.; 2017; p. 10. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 16 to 74, with the majority between 18-34-age (i.e., 93.6% of the total sample). Importantly, the age of these participants matches the distribution of those who join terrorist organizations in Europe (e.g., Bakker, 2006). All participants identified as either first (56.7%) second (34.9%) or third (1.9%) generation Muslim immigrants to Denmark.” Trad. livre.

[2] OBAIDI et. al.; 2017; p. 17. No original e na íntegra: “Respondent ages ranged from 18 to 65, with the majority between 20-30-age (i.e., 65.9% of the total sample). All participants identified as either first (63.9%), second (27.7%) or third (1.3%) generation Muslim immigrants in Denmark.” Trad. livre.

[3] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Beyond the path models, additional results from Study 1 showed that native-born participants were more strongly identified with Muslims, perceived Western foreign policies as more unjust, felt more group-based anger and showed stronger intentions to support Muslims by non-violent means. In study 2 we found the same trends.” Trad. livre; grifos no original.

[4] OBAIDI et. al.; 2017; p. 22. No original e na íntegra: “Overall, an important lesson from this inquiry is that the current focus on the relation between Muslims and non-Muslims in the Middle East must be complemented with a stronger focus on the intergroup dynamics within Western societies.” Trad. livre.

[5] OBAIDI et. al.; 2017; p. 23. No original e na íntegra: “As one interviewee put it “many Danes [ethnic Danes] see us as an undesirable element in the Danish society, although we are born and raised here. We speak Danish, we think Danish and we feel Danish, but we will never be ‘Danes’ in the Danes’ eyes. For them we will always be an unwanted and excluded group of people” (Translated from Danish; Obaidi, 2017).” Trad. livre.

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– Bibliografia –

OBAIDI, Milan; BERGH, Robin; SIDANIUS, Jim; THOMSEM, Lotte. The Mistreatment of My People: Victimization by Proxy and Behavioral Intentions to Commit Violence Among Muslims in Denmark. IN: Political Psychology, jun 2017. Disponível: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/pops.12435/abstract>

Free version (for review only):<www.academia.edu/32662712/The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark_The_Mistreatment_of_My_People_Victimization-by-proxy_and_Behavioral_Intentions_to_Commit_Violence_among_Muslims_in_Denmark>

 

Ver também:
Journalists Resource. “Muslims in Europe: Considering anger among immigrants’ children” [26 Jul 2017]. Disponível: <https://journalistsresource.org/studies/international/conflicts/muslims-europe-radicalism-immigrants-children-jihad?utm_source=JR-email&utm_medium=email&utm_campaign=JR-email>

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Jane Austen conquista também o Brasil

EWeekly

Jane Austen representada pela Revista Entertainment Weekly, em 1995, pelo sucesso das adaptações de cinema e TV de suas obras.

Em 18 de julho de 2017, a morte da escritora inglesa Jane Austen completou 200 anos. Em todos os países anglófonos, nos quais Austen tem garantido um lugar no cânone literário ao lado de Shakespeare, muitos eventos foram realizados para comemorar uma data tão significativa, sendo que o lançamento da nova nota de dez libras pelo Banco da Inglaterra em homenagem à autora teve grande repercussão internacional (ironicamente, porém, o retrato utilizado é uma adaptação “melhorada” do rosto de Austen, feita em 1870 por um artista que nunca a conheceu). Toda essa movimentação em torno de uma escritora tão relevante para a história da literatura inglesa não é de se estranhar, mas surpreendente mesmo foi a repercussão desse aniversário, a divulgação de notícias sobre e os eventos realizados aqui no Brasil para celebrá-lo, indicando que a popularidade de Austen já está solidificada também aqui nos trópicos. Por exemplo, a editora Nova Fronteira – uma das muitas que disponibilizam os romances da autora em seu catálogo – lançou uma nova caixa comemorativa dos 200 anos da morte de Austen e promoveu palestras de seu tradutor Ivo Barroso e da presidente da “Jane Austen Sociedade do Brasil” Adriana Sales.

 

Nota

Nova nota de 10 libras da Inglaterra

 

Aquarela

Aquarela original de Jane Austen feita por sua irmã Cassandra (circa 1810). É o único retrato da autora reconhecido oficialmente. National Portrait Gallery, Londres.

 

O mais interessante, porém, é o espaço que Austen vem ganhando dentro das universidades brasileiras. Com um significativo número de cursos de Letras com habilitação em língua inglesa – que exigem pesquisas sobre obras nessa língua – e dada a importância da autora para a consolidação do gênero do romance moderno e para a própria história da literatura das mulheres, parece-me inevitável que a transformação da sua obra de objeto de admiração para objeto de pesquisa só aumente. Mas é também muito importante notar que esse aumento da presença de Austen nos estudos de mestrado e doutorado está bastante associado ao crescimento da sua popularidade fora dos muros da academia, com o surgimento da chamada “Austenmania” a partir dos anos da década de 1990. Nessa década, foram produzidas pelo menos sete adaptações dos romances da autora para cinema e TV, algumas mais criticadas, como a de Patricia Rozema para Mansfield Park (1999), mas a maioria de sucesso avassalador, como o seriado da BBC de Orgulho e Preconceito (1995) e o filme Razão e Sensibilidade, do mesmo ano, escrito e estrelado pela famosa atriz Emma Thompson. As adaptações são responsáveis por divulgar a obra da autora aqui no Brasil, já que não há tradição de se estudar seus romances no Ensino Fundamental ou Médio, por exemplo, e por isso são a porta de entrada mais comum – porém não a única – para muitos alunos brasileiros que decidiram pesquisar a autora.

Alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nos últimos anos podem ser citados para ilustrar os temas mais comuns em pesquisas sobre Austen no Brasil (no final do post há as referências completas dos trabalhos já concluídos): Ricelly Jáder, da UFCE, estudou, em seu mestrado, a forma como a personagem Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, foi transformada no filme de 1940 produzido em Hollywood. O argumento de Jáder é que Austen, em sua obra, constrói uma crítica sutil a padrões socioculturais da sua época que colocam a mulher em uma posição inferior em relação ao sexo masculino. A personagem de Elizabeth Bennet, por exemplo, é apresentada como uma mulher inteligente, irônica, decidida e ousada, qualidades que não eram associadas ao comportamento feminino durante o século XIX. Porém, no filme de 1940, ao ser traduzida para as telas, a personagem é reestruturada e a crítica de Austen é apagada para ceder lugar a uma narrativa cômica e romântica.

Em 2016, na UFMT, Ivoneide Soares Jesus estudou outro tipo de adaptação da obra de Austen, o gênero do “mash-up”, a partir do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, o qual funde o texto de Austen com uma temática contemporânea em um processo de reescrita (ou zumbificação) do romance original. Soares leva em consideração, além disso, o papel do mercado na produção dessa obra híbrida, já que a ideia inicial surgiu de uma editora.

Esse também é o tema da tese de doutorado de Adriane Ferreira Veras, defendida em 2015 na UFRGS, a qual reflete ainda sobre a questão da autoria de uma obra, interligando questões sobre adaptações, colagens, apropriações e direitos autorais.

Ainda na UFRGS, a pesquisa em andamento de Bianca Rossato analisa o seriado do Youtube The Lizzie Bennet Diaries, a sua adaptação dos tipos sociais que aparecem em Orgulho e Preconceito, especialmente no que se refere à representação da mulher, e a forma como a narrativa transmídia interfere/contribui nesse processo adaptativo. Esse seriado/vlog fictício também foi analisado por Isabella Sabbatini na USP (2017) a partir de teorias de tradução e adaptação.

A popularidade atual de Austen foi tema do mestrado de Priscila Kinoshita (Uniandrade, 2012), que procura explicar a continuidade do interesse do público em geral na obra da escritora após dois séculos de sua publicação, defendendo uma hipótese de que esses romances apresentam questões socioculturais do período Georgiano da Inglaterra que seriam semelhantes a problemas atuais, possibilitando o estabelecimento de um diálogo entre as duas épocas.

Austen foi tema também da tese de doutorado de Maria Clara Biajoli (Unicamp, 2017), que analisa o fenômeno da “Austenmania” a partir da produção de fan fiction inglesa e norte-americana. Seu argumento é que a leitura mais comum da obra de Austen, demonstrada pelos textos de fanfics bem aceitos pelos fãs atuais, transforma os seus romances em histórias românticas inocentes, em contos de fadas regenciais e apagam toda a crítica social que Austen deixou registrada ali, especialmente em relação ao seu descontentamento com o lugar da mulher naquela sociedade. Aliás, a visão de que Jane Austen era uma observadora astuta de sua época não é contestada em nenhuma dessas pesquisas, indicando que a imagem de uma autora isolada ou apolítica está, finalmente, em desuso. A pesquisa em andamento de Natália Carvalho, na Unifesp, por exemplo, propõe analisar de que forma o enredo de Persuasão dialoga com o contexto sócio-histórico de Austen e de que forma a autora ficcionalizou aspectos de sua realidade.

Todos os exemplos acima, que listam apenas algumas das pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, indicam o reconhecimento da importância da obra de Austen também dentro das universidades brasileiras. Enquanto a imagem de uma escritora inocente ainda parece circular entre o grande público, alimentada, principalmente, pelas adaptações cinematográficas que focam apenas na trama amorosa, é muito positivo observar que as qualidades da sua obra literária estão ganhando cada vez mais espaço dentro da academia em geral e promove a esperança de que, em breve, o rótulo cor-de-rosa da autora de “romances para mulheres” seja descartado para sempre.

Trabalhos citados disponíveis:

  • BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Orgulho e Preconceito no Século XXI: A Austenmania e a Fantasia do Final Feliz. Tese de Doutorado. Unicamp, 2017.
  • JÁDER, Ricelly. A Tradução da Personagem Elizabeth Bennet, de Pride & Prejudice, Para o Cinema. Dissertação de Mestrado. UFCE, 2014.
  • JESUS, Ivoneide Soares dos Santos. Literatura e Necropsia: Um Exame Crítico em Pride and Prejudice and Zombie. Dissertação de Mestrado. UFMT, 2016.
  • KINOSHITA, Priscila Maria Menna Gonçalves. Do Século XVIII ao Século XXI: “Why Jane (Austen), Why Now?”. Dissertação de Mestrado. Uniandrade, 2012.
  • VERAS, Adriane Ferreira. Pride and Proliferation: Jane Austen meets Zombies in a Mash-up. Tese de Doutorado. UFRGS, 2016.

 

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Contra o mito da quantidade: produção intelectual feminina no dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”.

            Apesar de não ser alguém lá muito fluente em números, decidi, há pouco tempo, aventurar-me por um exercício quantitativo. Reuni todos os livros, fotocópias e arquivos digitais que utilizei ao longo do curso de graduação em Direito na Universidade Estadual de Maringá ainda guardados nas prateleiras das minhas estantes físicas e digitais. No total, contei algo como 40 livros, 1.300 páginas fotocopiadas e 45 arquivos .pdf. Separei, dentre esse material, tudo aquilo que de alguma forma foi produzido por mulheres: autorias, co-autorias, edições, organizações e traduções entraram na conta. Ainda que eu certamente não tenha chegado perto de consultar todos os textos que deram suporte à minha formação ou a de qualquer outro estudante que passou pela Faculdade de Direito ao longo daqueles cinco anos, os resultados desse pequeno experimento — limitados, é claro, à simplicidade do método que os produziu — foram bastante sugestivos. Isso porque a esmagadora maioria dos livros e textos que consegui agrupar foram escritos, editados ou traduzidos exclusivamente por…homens. Apenas 17% deles traziam nomes de mulheres em seus cabeçalhos, o que sugere que boa parte da bibliografia preferida por meus professores e professoras, ou tida como referência para o estudo de uma determinada área do direito de uma forma mais geral, é masculina.

          Imagino que esses números devem variar muito conforme o período, o país, o curso, a universidade, as bibliotecas à disposição e o perfil dos professores e professoras que formulam e implementam os planos de ensino. A questão é que a conclusão de fundo desse exercício pessoal — a sub-representação do conhecimento produzido por mulheres — vem sendo repetidamente sugerida por diversos estudos[1]. Seja nas “ciências duras”, “biológicas”, nas “humanidades”, ou, sob uma ótica menos acadêmica, na literatura, no jornalismo ou na política, não é necessário muito esforço para perceber que a produção intelectual feminina, apesar de crescentes iniciativas em contrário, foi, e continua sendo, marginalizada. E isso não se deve à ausência ou ao baixo volume de escritos, que costuma ser o principal argumento por trás do mito de que “não há mulheres” em uma determinada área do conhecimento. O problema, como bem sabemos, é outro.

           O dicionário ilustrado “Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX”, lançado ano passado pela editora Autêntica, é mais um recurso que ajuda a reforçar a tese de que quantidade não é o problema quando se trata de produção intelectual feminina no Brasil. Organizado por Constância Lima Duarte, ele reúne mais de 140 jornais redigidos por mulheres e/ou direcionados ao “público feminino” no Brasil entre os anos de 1827 e 1885. No livro, cada uma dessas publicações é objeto de um verbete, em que podemos encontrar o título, o período de circulação, a identidade visual e algumas informações sobre o contexto de surgimento e o escopo do periódico.

 

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Fonte: site Editora Autêntica

 

           Embora formatado para consultas rápidas e pontuais, o dicionário segue uma tradição de revisionismo histórico da produção intelectual feminina, inaugurada, no Brasil, por autoras como Dulcília Buitoni (Imprensa Feminina e A mulher de Papel – este, aliás já indicado aqui no Cientistas Feministas) e June E. Hahner (A mulher no Brasil e A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937) no início da década de 80. Sob disciplinas e orientações teóricas distintas, essas e outras pesquisadoras[2] buscaram — e encontraram — fontes primárias que atestaram a participação feminina na história do periodismo brasileiro, tema que até então vinha sendo preterido pela historiografia nacional. Em suas pesquisas, elas apresentaram tanto documentos que fixaram representações e ditames conservadores sobre os papéis que a mulher deveria ocupar na “sociedade moderna”, quanto registros da resistência feminina à imposição desses padrões. Verbete a verbete, é a essa história — a da formação, aglutinação, divulgação e das resistências que marcaram o surgimento de uma produção intelectual feminina no Brasil — que somos apresentados ao longo do dicionário.

           Sobretudo na primeira metade do século XIX, uma boa parte dos periódicos reunidos no livro aparece nitidamente alinhada à simbologia patriarcal dominante no período: eram folhas ou folhetins editados por homens, que desejavam oferecer “instrução e entretenimento para as mulheres de nossa côrte (sic)”. Falavam de moda, família, lar e, em alguns casos menos recorrentes, de educação feminina (inspirada pela chamada “querelle des femmes” francesa, também já tratada aqui no blog). A própria escolha do título já dava indícios de como as mulheres vinham por eles representadas: nomes de flores (A Violeta, O Jasmin, A Camelia), pequenas aves e insetos (O Beija-flor, A Borboleta) e objetos associados à feminilidade (O Brinco das Damas, A Grinalda, O Leque) predominavam. Como diz Constância Duarte, eram publicações que se posicionavam “acima das mulheres e como guias responsáveis pela mudança de seu status quo” (p.21).

           Mas o que chama atenção são exatamente as exceções a essa regra — ou seja, os periódicos integralmente redigidos por mulheres, ou cujos redatores e colunistas de maior destaque eram mulheres –, que começaram a se multiplicar a partir de 1870. Esse é o caso do Echo das damas (1879-88), do Republica das Moças (1879) e d’O Corymbo (1884-1944). Chefiados por mulheres, os três periódicos, além de “entreter e informar”, funcionavam como veículo de advocacia pela inserção política e social feminina. Ladeando anúncios de espetáculos teatrais e dicas de moda e beleza, artigos de opinião sobre direito e política ganhavam espaço e projeção cada vez maiores. Se para apoiar ou criticar a república, combater ou justificar a escravidão, endossar ou rechaçar o direito ao voto feminino, a organizadora sugere que as iniciativas encabeçadas por essas mulheres contribuíram para aproximar possibilidades até então muito remotas: “o protagonismo feminino adentra as redações e toma para si a direção política e ideológica de muitas das folhas destinadas às mulheres. De leitoras a redatoras, abrem espaço às vozes femininas antes reclusas às alcovas, e empreendem a transformação hoje perceptível no perfil dessa imprensa: de ‘revistas de moda’ a órgãos de reflexão” (p. 26).

           Além desses exemplos, pelo menos outras 50 publicações citadas no dicionário poderiam ser classificadas sob o mesmo perfil. Folhas e folhetins imaginados por médicas, jornalistas, poetisas e professoras, que expressavam as concepções de um grupo que, embora longe de representar “As Mulheres” daquele período, deu voz e agência a pessoas que costumavam ser excluídas das arenas sociais. Uns mais politizados que outros, mais ou menos alinhados ao que se começava a reconhecer como “feminismo”, esses jornais convergem, portanto, para o desmantelamento do mito da quantidade no Brasil do século XIX; havia, sim, um volume considerável de produção intelectual feminina naquela época.

           Com essa afirmação, é possível retornar à incursão pela bibliografia indicada durante minha passagem pela Faculdade de Direito. Talvez o método que utilizei para constatar o quão masculinas, ou o quão não-femininas, costumam ser as referências bibliográficas nessas circunstâncias, não tenha sido o mais adequado. Ao invés de ressaltar a disparidade entre a presença de homens e mulheres, melhor teria sido proceder como Constância Lima Duarte e tantas outras pesquisadoras engajadas na organização, análise e divulgação do pensamento feminino: levantar o volume de escritos femininos por área e sub-área[3], para então confrontá-lo com a quantidade de indicações e referências. Quem sabe, assim nesses termos, o argumento de que “não há mulheres na área” soasse ainda mais paradoxal do que já parece ser.

[1] Para alguns exemplos, ver: http://www.jstor.org/stable/3096963?seq=1#page_scan_tab_contents; https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2303311;

[2] Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes (Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — Século XIX) e Elizabete Siqueira (Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco) também são importantes nomes desse movimento.

[3] A plataforma “Mulheres também sabem” tem desenvolvido projeto nesse sentido para a área de humanidades: https://www.mulherestambemsabem.com/

Referências

BERNARDES, Maria Thereza C. C. Mulheres de ontem? Rio de Janeiro — século XIX. São Paulo: T.A. Queiroz, 1989.

BUITONI, Dulcilia H. S. Mulher de papel: a representação da mulher pela imprensa feminina brasileira. São Paulo: Summus, 2009.

__________. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1986.

DUARTE, Constância Lima. Imprensa feminina e feminista no Brasil — século XIX. São Paulo: Autêntica, 2016.

HAHNER, June E. A mulher no Brasil. São Paulo: Civilização Brasileira, 1978.

__________. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850 – 1937. São Paulo: Brasiliense, 1981.

SIQUEIRA, Elizabete. Um discurso feminino possível: pioneiras da imprensa em Pernambuco. Recife: Editoria Universitária UFPE, 1995.

 

 

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Como palavras podem “causar” medo?

Há aproximadamente 30 anos, um artista muito famoso cuspiu na bandeira do Brasil durante um show que fazia. Após o ocorrido, várias colunas de jornais avaliaram o fato, dizendo, por exemplo, que foi um absurdo ele ter cuspido na bandeira, o símbolo do nosso país. Mas por que ocorreram tantas críticas diante de um ato em um “pedaço de pano”? Se fosse em outro pano qualquer, haveria tantas críticas assim? Por que nós sentimos raiva ou podemos ficar indignados por algo que aconteceu com um pedaço de pano?

“Por que esse pedaço de pano significa algo”, alguém me diz. Esse pano, com essas cores, com essa configuração impressa (da bandeira), representa a nação brasileira. Cuspir na bandeira nacional é como cuspir em cada um de nós, brasileiros.

Críticas à parte[1], não é impressionante como um símbolo pode gerar tantos sentimentos na gente?! Olhar uma foto pode nos causar o maior prazer; ver a imagem de um bolo pode evocar a famosa “barriga roncando”; ouvir alguém falando mal do artista que mais gostamos pode nos fazer desgostar de uma pessoa, mesmo sem saber quase nada sobre ela…

Que os símbolos, como as palavras, podem nos causar os mais diversos sentimentos (e comportamentos), nós temos inúmeros exemplos, não é mesmo? Mas você já parou para pensar em como é que essas relações podem ser estabelecidas? É sobre isso que o post de hoje vai falar!

Os pesquisadores Dougher, Hamilton, Fink e Harrington realizaram um experimento bastante interessante no ano de 2007 (Estudo 1): eles recrutaram 15 estudantes universitários (8 no grupo experimental, e os demais no controle), que receberam choques (!!!), os quais foram selecionados individualmente, de modo que cada participante indicasse quando um choque era forte e incômodo o suficiente, porém sem causar dor. Os experimentadores mediram a reação galvânica da pele (característica da reação de medo) dos participantes diante do choque escolhido, pois isso seria importante nas próximas etapas do experimento. Em seguida, os participantes do grupo experimental faziam uma tarefa onde aprendiam a relacionar estímulos.

Na tela do computador aparecia, sempre, uma figura sem sentido (entre três) na parte superior, e três círculos idênticos, exceto pelo seu tamanho, na parte inferior: havia sempre um círculo pequeno, um médio e um grande. A figura na parte de cima deveria ser relacionada com uma das três debaixo, de modo que sempre havia uma única resposta correta: a figura 1 deveria ser relacionada ao menor círculo, a figura 2 com o círculo médio e, por fim, a figura 3 combinava com o círculo maior (vide Figura 1). A cada tentativa, o computador avisava os participantes se suas escolhas estavam corretas ou erradas.

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Figura 1. Esquema mostrando como cada participante deveria responder na tarefa. Retirado de: de Almeida & Perez (2016).

Depois de treinar por um tempo com os círculos – e também com outras formas geométricas (quadrados, retângulos, etc. que sempre variavam somente no tamanho) – os participantes aprenderam a relacionar cada uma das figuras sem sentido com as formas geométricas de tamanhos variados. Isso foi verificado em um teste, no qual três formas geométricas não utilizadas no treino foram empregadas, e os participantes tinham que responder sem obter feedback sobre as escolhas, ou seja, o computador não avisava mais se os participantes acertavam ou não.

Após demonstrar no teste que tinham aprendido a tarefa anterior, uma nova etapa era iniciada: a tarefa agora requeria que os participantes pressionassem a barra de espaço do computador em uma frequência estável quando a figura 2 (relacionada com a forma de tamanho médio) aparecia na tela do computador. Para auxiliar os participantes, um dos experimentadores mostrava como fazer isso: quando a figura 2 aparecia na tela do computador, ele apertava a barra de espaço uma vez a cada segundo, durante 30 segundos. Depois, foi pedido que os participantes fizessem o mesmo, para ver se haviam entendido a tarefa. Por fim, cada participante foi instruído a pressionar a barra de espaço diante de outras figuras também, na frequência que achassem adequada. Vocês imaginam o que aconteceu?

Quando a figura 1 (relacionada com a forma menor) apareceu, todos os participantes pressionaram a barra de espaço em uma frequência menor que a obtida quando a figura 2 aparecia na tela do computador. Do mesmo modo, quando a figura 3 apareceu (relacionada com a figura maior), todos os participantes apertaram a barra de espaço em uma frequência maior que a obtida quando a figura 2 aparecia. Assim, eles passaram a responder a cada uma das figuras sem sentido como se elas significassem o mesmo que as figuras de tamanho pequeno, médio ou grande. Interessante, não? Mas o melhor ainda está por vir!

Vocês lembram que os experimentadores mediram a resposta da pele de cada participante, diante de um choque que era incômodo, mas não doloroso?! Na última fase da pesquisa, os pesquisadores pediram que os participantes se sentassem e olhassem para a tela do computador. Eles foram avisados que figuras apareceriam na tela do computador, e que eles levariam choques. Depois, a figura 2 aparecia na tela do computador, e, em seguida, os participantes levavam o choque “escolhido” previamente. Isso aconteceu seis vezes, e durante todo o tempo, os experimentadores mediam a resposta eletrodermal de cada participante. Em seguida, a figura 1 apareceu na tela do computador, seguida por um choque com a metade da voltagem apresentada no choque “selecionado”. E diante da figura 3, o participante não recebia choque. A resposta eletrodermal foi medida durante todo o tempo. O que vocês imaginam que aconteceu quando a figura 3 apareceu?

Mesmo não tendo recebido choque algum, a resposta eletrodermal obtida após o aparecimento da figura 3 foi MAIOR que a obtida após o aparecimento da figura 2. Então, mesmo sem receber choque, os participantes sentiram um incômodo como se tivessem levado, de fato, um choque, e um choque maior que o obtido anteriormente. Isso aconteceu somente com os participantes do grupo experimental (os participantes do grupo-controle fizeram todas as etapas, menos a tarefa onde aprendiam a relacionar as diferentes formas geométricas com as figuras sem sentido). Impressionante, não???

Uma vez que os participantes aprenderam a relacionar as figuras 1, 2 e 3 com as formas geométricas pequenas, médias e grandes, respectivamente, e que a figura 2 foi pareada com um choque incômodo, as demais figuras também passaram a evocar respostas eletrodermais (caraterísticas de medo) de acordo com o tamanho da forma que foram relacionadas.

Pesquisas semelhantes têm sido feitas nos últimos anos e replicam e ampliam os dados obtidos nessa pesquisa, mostrando, por exemplo, que o mesmo procedimento pode ser utilizado para evocar respostas de dor em símbolos que nunca foram relacionadas com dor diretamente (e.g., Bennett, Meulders, Bayens, & Vlaeyen, 2015).

Esse tipo de estudo, apesar de ser uma pesquisa básica, tem implicações práticas muito importantes: pensem, por exemplo, em quantas pessoas possuem uma fobia e, mesmo passando por tratamentos, não conseguem identificar sua origem. Saber que você tem medo de barata porque um dia uma barata veio voando e pousou no seu braço facilita muito no tratamento, mas, às vezes, temos medo de algo (e.g. palhaço) sem nunca ter passado por uma história “negativa” com ele (e.g., de Almeida & Perez, 2016). Este estudo mostra, portanto, como podemos ter uma reação negativa diante de um estímulo (e.g., símbolo, palavra, objeto, etc.) mesmo sem nunca termos passado por uma situação aversiva com relação a ele, ou seja, como palavras/símbolos podem nos “causar” medo.

Referências

Bennett, M. C., Meulders, A., Bayens, F., & Vlaeyen, J. W. S. (2015). Words putting pain in motion: The generalization of pain-related fear within an artificial stimulus category. Frontiers in Psychology, 6, 520.

de Almeida, J. H., & Perez, W. F. (2016). Paus e pedras podem machucar, mas palavras… também! – Teoria das Molduras Relacionais. In: Soares, P. G., de Almeida, J. H., & Cançado, C. R. X. Experimentos Clássicos em Análise do Comportamento. Brasília: Instituto Walden 4 (pp. 186-204).

Dougher, M. J., Hamilton, D. A., Fink, B. C., & Harrington, J. (2007). Transformation of the discriminative and eliciting functions of generalized relational stimuli. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 88, 179-197. Recuperado de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1986433/pdf/jeab-88-02-179.pdf

[1] Segue a resposta do artista sobre o incidente: “Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo…. Eu sei muito bem o que é a bandeira do Brasil, me enrolei nela no Rock in Rio junto com uma multidão que acreditava que este país podia realmente mudar. A bandeira de um país é o símbolo da nacionalidade para um povo. Vamos amá-la e respeitá-la no dia em que o que está escrito nela for uma realidade. Por enquanto, estamos esperando”.