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Pequeno conto sobre Ciências Humanas no Brasil

No Brasil, um a cada quatro pós-graduados está desempregado [1] e menos de dois por cento da população possui doutorado [2], boa parte dos quais reside nas capitais federais.

Embora cortes na pasta da educação não sejam novidade, o discurso do governo atual é de desprezo para com a Ciência [4], algo sem precedentes na nossa História [3]. A sua alta taxa de reprovação [5], porém, indica instabilidade política para os próximos anos.

Nesse cenário, trago um pequeno conto para ilustrar a diferença entre o valor de alguém que pesquisa na área das Ciências Humanas e essa constante desvalorização social e no mercado de trabalho sofrida por tantos pesquisadores. Espero, com isso, que possamos refletir mais sobre a importância desses profissionais nos dias atuais.

 

Vitória, Espírito Santo, maio de dois mil e dezenove.

Estava, como de costume, colocando leitura em dia no meio da tarde, o calor amenizado pelo ar condicionado recém-consertado no laboratório de pesquisa no prédio da pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal onde estudo. Eis que se aproxima de mim uma professora do Departamento, e pergunta se sou “aquela aluna que pesquisa refugiados”. Sabendo que sou uma das poucas pesquisadoras sobre o tema naquele ano, então, respondo que sim. Ela sorri com certo alívio e, pedindo desculpas pelo incômodo, pede uma ajuda em um ‘caso de imigração’. Em seguida, narra como lhe foi contado o que se passa com uma pessoa imigrante que seria ‘conhecida de uma amiga’. Ocorria que a imigrante em questão não conseguia receber algo pelo que já havia pago, mas desejava obter com urgência. Tratava-se do comprovante da conclusão de um curso em uma escola particular, que aceitara sua matrícula no meio do ano letivo. A referida instituição de ensino alegava não poder emitir o certificado enquanto a regularização migratória da aluna estivesse pendente, mesmo que cumprido e quitado o curso dentro da normalidade. A aluna dependia desse, entre outros papéis, a fim de regularizar a sua situação migratória no território nacional. Sem mais detalhes, a professora pergunta se eu saberia “resolver o caso”. Embora totalmente fora de meu alcance, estudar o tema fez com que eu soubesse que a assistência jurídica aos estrangeiros constitui prerrogativa da Defensoria Pública da União, órgão presente em todos os Estados da federação. Assim, eu recomendei que as pessoas interessadas buscassem a unidade mais próxima ao seu local de residência habitual para pleitear a defesa do seu direito líquido e certo. A professora agradeceu afinal a esta aluna, transmitindo o comunicado à sua amiga, prometendo que me manteria a par do desenrolar desse caso.

 

Até o momento, não tive notícia deste, como de tantos outros casos para os quais apenas indiquei um possível caminho de uma eventual solução, sempre recebendo em retorno alguma demonstração de gratidão pela ‘ajuda’. Esta ausência de retorno, todavia, não importa tanto para uma relação interpessoal, como deveria importar se o caso referido fosse com relação a uma instituição pública. No Brasil, todavia, poucos são os órgãos aos quais as pessoas imigrantes podem recorrer em busca de informação ou ajuda, e quase todos estão revestidos de um caráter securitário, como é o caso da Polícia Federal.

Esse episódio, em suma, apenas ilustrar o quanto estudar um tema em particular pode vir a tornar a pessoa, cedo ou tarde, uma “referência” para quem a conhece e deseja informações específicas sobre o assunto. Poderia ser a consequência inevitável de todos os dados reunidos no começo desse texto, ou seja: fruto de que outras instituições, além das universidades, raramente empregam em seus quadros pessoas com alto grau de titulação, mas não possuo dados mais conclusivos nesse sentido.

Nesse pequeno texto, quero apenas convidar à reflexão aquelas pessoas que desprezam tanto os pesquisadores da área, quanto ao mesmo tempo lhes buscam em situações que os afligem no cotidiano, para uma “opinião sobre um assunto” ou uma “ajuda rápida”. Sei que a situação da pesquisa científica no Brasil está cada dia mais grave, mas não quero pensar que seja algo definitivo, ou que seu rumo seja algo impossível de mudar.

 

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Aula ministrada em ONG (São Paulo, 2015). Acervo pessoal da autora.

 

Sobre a autora:

Sou Doutoranda em Psicologia, tenho trinta e um anos e sou fruto de todos os esforços, privilégios e acasos que me levaram a ocupar uma vaga de doutorado numa universidade federal. Apesar de estar entre as primeiras da família a buscar esse título, não desejo ser as última com chances reais de obtê-lo com nada além de impostos do povo brasileiro. Toda a minha produção está disponível para consulta [6] e, enquanto puder, lutarei pela educação pública universal, de qualidade e gratuita.

Referências:

[1] Correio Braziliense [10/03/2019]

[2] Nexo Jornal [23/10/2017]

[3] Jornal O Tempo [14/05/2019]

[4] Correio Braziliense [10/06/2019]

[5] Jornal O Globo [07/04/2019]

[6] Plataforma Lattes (Beatriz de Barros Souza)

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A Comandante Desobediente

1. Dos fatos

Carola Rackete (31, alemã) foi detida no sábado (29 de junho) após desobedecer lei que a proibia de ancorar no porto de Lampedusa com 42 indivíduos, resgatados do mar, a bordo. Na segunda (01 de julho), a Alemanha intercedeu no caso [1], e na quarta-feira (03 de julho) foi solta pela juíza italiana Alessandra Vella [2]. O caso ainda está pendente de sua audiência perante os tribunais, que deveria ocorrer dia 11 de julho, mas foi adiada por conta de uma greve [3].

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Carola Rackete (Imagem: EBC)

2. Dos equívocos

Além das tentativas de desqualificação da sentença, o caso desvela equívocos muito comuns quando se trata de mobilidade humana. Neste ensaio, buscaremos elucidar três dos mais presentes nas reportagens lidas previamente.

2.1 Direito ou Política?

Nem todos estão felizes pela liberação da comandante Rackete, mas a Associação Nacional de Magistrados (ANM) garante que o processo corre dentro do devido trâmite legal, e criticou Matteo Salvini, ministro do Interior e vice-premier da Itália, por dizer que a sentença teria sido “vergonhosa” e “política” [4]. Este foi o mesmo Salvini que, ano passado, “fechou todos os portos do país a deslocados internacionais resgatados no Mediterrâneo”, o que propiciou, entre outros, o drama das pessoas no navio Aquarius [5]. Ainda que alguém discorde da juíza de que a Itália seria o “porto seguro mais próximo” nesse caso, no entanto, os especialistas independentes a serviço voluntário das Nações Unidas criticam o decreto proposto por Salvini para coibir esse tipo de iniciativa, sobretudo, por violar o direito à vida tal como é concebido internacionalmente [6].

2.2 Imigrantes ou Refugiados?

Em que pesem reportagens que se referem às pessoas resgatadas na Sea Watch 3, por Carola Rackete, como “refugiadas” [7], para o Direito dos Refugiados, nesse estágio, ainda podem ou não ser “solicitantes de refúgio”. Só então, após um (longo) processo de determinação do status de pessoa refugiada, que inicia com a solicitação formal a autoridades estatais, o status de “refugiado” pode ser obtido segundo a Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado (1951) e seu Protocolo Adicional (1967). A confusão dos termos pode, segundo o Alto das Nações Unidas Comissariado para Refugiados (ACNUR), trazer “graves consequências” para essas pessoas [8].

2.3 Legais ou Ilegais?

Em se tratando de seres humanos, vale a máxima dos movimentos sociais de migrantes pela qual “Ninguém é ilegal” [9]. Migrar é um direito humano, em especial para buscar asilo ou refúgio, e compreender que nesse ato não há um delito é fundamental para essas discussões. Os delitos nos Estados de Direito devem ser, sempre que possível, apurados na via judicial, garantidos o contraditório e a ampla defesa. Ao se referir a essa atitude em particular, faça como a Associated Press, e utilize o “imigração irregular”, ou “migrante em situação irregular” [10], evidenciando que devem haver vias de regularização e não de proibição do direito de migrar.

3. Considerações Finais

Na sua contagem mais recente, o ACNUR (2019) estimou a existência de mais de 70 milhões de deslocados à força. Dessas, quase dois terços (41,3 milhões) estariam deslocados internamente, ou seja, próximos ao local de origem dos conflitos, e pouco mais de um terço (quase 26 milhões) teria sido reconhecido como “refugiados” por algum país do mundo. Se contados “apenas” os refugiados, mais de 85% estariam fora de países ditos desenvolvidos (como os da União Europeia).

Se olharmos para a história recente dos países de origem da maioria dessas pessoas, veremos muita gente culpada por essa situação sem vontade alguma de “arcar com as consequências”. E se olharmos mais de perto, veremos muita gente com medo de que guerras durem, e muito mais gente ainda com medo de que elas acabem.

4. Referências

ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (2019). Global Trends 2018. Disponível: <https://www.unhcr.org/5d08d7ee7.pdf>

Notas

[1] EFE. Alemanha pede à Itália que esclareça acusações contra capitã de navio de ONG. [01/07/19]. Disponível: <site>

[2] RFI. Desfecho de caso SeaWatch com libertação de Carola Rackete. [03/07/19]. Disponível: <site>

[3] El País. “Voltaria a fazer exatamente a mesma coisa”, diz a capitã presa por salvar refugiados no mar. [11/07/2019]. Disponível: <site>

[4] Bol. Salvini ataca juíza que libertou capitã Carola Rackete. [03/07/19]. Disponível: <site>

[5] JB. França nega autorização para navio com 58 migrantes. [25/09/2018]. Disponível: <site>

[6] ONU. Italy: UN experts condemn bill to fine migrant rescuers. [20/05/19]. Disponível: <site>

[7] DW. A capitã que desafiou autoridades para salvar refugiados. [30/06/19]. Disponível: <site>

[8] ACNUR. “Refugiados” e “Migrantes”: Perguntas Frequentes. [22/03/2016]. Disponível: <site>

[9] Rede 8M. Manifesto 8M. [08/03/2019]. Disponível: <site>

[10] AP. ‘Illegal immigrant’ no more. [02/04/13]. Disponível: <site>

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Joana D’Arc visita o Brasil. Ou pelo menos podemos imaginar como seria

Desde 2 de julho até 25 de agosto está aberta a exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc na cidade de Serro-MG, depois de um mês em Diamantina-MG. Infelizmente não se trata de uma visita oficial da heroína francesa a uma das mais célebres mulheres brasileiras do século XVIII, mas de uma igualmente interessante proposta de comparar a trajetória dessas duas personagens instigantes. O Cientistas Feministas conversou com a pesquisadora responsável por essa exposição, a historiadora Flávia Aparecida Amaral, professora da UFVJM, sobre a proposta dessa exposição, como Chica da Silva e Joana D’Arc podem ser comparadas, como esse tipo de abordagem auxilia a pesquisa no Brasil, especialmente na área de Estudos Medievais, e também sobre a sua pesquisa sobre a construção da imagem heroica de Joana D’Arc.

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Você poderia explicar como surgiu a ideia de estabelecer um diálogo entre Chica da Silva e Joana D’Arc?

F.A: A exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc é parte das ações planejadas dentro do projeto Caminho Saint Hilaire, da prefeitura de Diamantina, cujo objetivo é desenvolver um corredor cultural, histórico, gastronômico, ambiental e medicinal, na região que liga três cidades: Conceição do Mato Dentro, Serro e Diamantina. O naturalista francês Auguste Saint-Hilaire percorreu essa região, descrevendo sua flora, relevo e cultura no início do século XIX. O objetivo da exposição foi homenagear a cidade francesa de Orléans, onde nasceu Saint-Hilaire, no mês de comemoração dos 590 anos da libertação dessa cidade por Joana d’Arc. A irmanação das cidades do Serro, Diamantina, Conceição do Mato Dentro e Orléans, proposta pelo projeto Caminho Saint-Hilaire, nos deu a oportunidade de vislumbrar aspectos que aproximam esses municípios de grande importância histórica para seus países. Um dos pontos mais interessantes é o fato dessas cidades contarem com duas personagens femininas que protagonizam a construção da memória local nessas regiões. Mulheres com percursos improváveis, que ocuparam espaços não destinados a elas e que até hoje provocam reflexões e polêmicas na interpretação das suas trajetórias de vida.

De que forma vocês traçaram esses diálogos em termos de temas e objetos selecionados para a exposição?

F.A: A exposição foi pensada em torno de uma ideia central: Chica da Silva recebendo Joana d’Arc para uma visita, visto que o evento, em Diamantina, ocorreu na Casa da Chica onde, atualmente, funciona o Escritório Técnico do Iphan na cidade. Dessa forma, em um primeiro momento, o objetivo era apresentar a Donzela de Orléans à dona daquela casa e aos moradores da cidade a partir de alguns documentos históricos. No primeiro ambiente da exposição, trouxemos testemunhos documentais do século XV cujo objetivo principal é desvendar a verdadeira personalidade de Joana d’Arc. Em De quadam puella, texto anterior à vitória em Orléans, a pergunta essencial é “Quem é essa jovem”? Já na obra Sibilla Francica – “Sibila Francesa” – o autor proclama Joana como uma profetisa pertencente a um grupo reconhecido pelo cristianismo como as mulheres que profetizaram, além dos destinos de gregos e romanos, a Encarnação de Jesus – as Sibilas.

A partir do reconhecimento de Joana d’Arc como uma sibila, tem início a conexão entre a heroína francesa e a história do Tijuco (antigo nome de Diamantina). Diamantina é o único local de colonização portuguesa na América a contar com representações das sibilas em véus quaresmais e na abóbada de uma de suas Igrejas, a de Nosso Senhor do Bonfim. Na mostra expusemos a representação de um desses belos véus quaresmais como forma de aproximar Joana d’Arc da história do Tijuco.

Dentro do contexto da exposição, a apresentação de Joana d’Arc a seus anfitriões – Chica da Silva e o povo de Diamantina – teria o seguinte percurso.

  • Uma pergunta inicial “Quem é essa Donzela, quem é Joana d’Arc?” A partir dos documentos apresentados o público poderia construir sua resposta. Além dos trechos dos dois documentos já apresentados DE QUADAM PUELLA e SIBILA FRANCICA, foi colocado à disposição do público um livreto com trechos do processo que condenou Joana d’Arc à morte, na fogueira, em 1431, do processo que anulou a condenação, em 1456, e do processo que a beatificou, tornando-a santa em 1920.
  • A apresentação de Joana d’Arc como uma sibila pela obra SIBILA FRANCICA aproxima essa personagem histórica dos anfitriões. Familiarizados com suas sibilas, Chica da Silva e os diamantinenses passam a ter condições de decifrar a personalidade da visitante.

E de que forma essa comparação pode auxiliar os estudos e as interpretações sobre essas duas mulheres aqui no Brasil?

F.A: O ponto chave da exposição foi trabalhar a questão da construção e dos usos da memória e a importância desse debate na formação das identidades. Quem foi Chica da Silva, quem foi Joana d’Arc? Poucos se atrevem a dar uma resposta definitiva, mas todos temos que concordar que as memórias construídas em torno dessas duas figuras femininas moldaram e continuam moldando o imaginário de seus países de origem. Brasil e França lançam sobre essas personagens históricas luzes e sombras na interpretação de seu próprio passado buscando nessas mulheres algo que possa conduzir esses países na encruzilhada de seus desafios ao longo do tempo.

Em termos mais gerais sobre a área de História Medieval, você poderia falar um pouco sobre a presença dos Estudos de Gênero nessa área?

F.A: Especialmente na década de 1990 o recorte dos estudos de gênero fez sucesso entre os medievalistas, sobretudo na historiografia norte-americana. Há um livro que se tornou referência para o assunto, escrito pelo professor R. Howard Bloch, da Universidade de Yale: Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental, de 1991. Na obra o autor traça um panorama da aversão à figura feminina construída pelos textos cristãos do início da Idade Média, discutindo a importância desse modelo que influenciou a literatura medieval e a construção da ideia de amor romântico no Ocidente. A partir de então houve uma proliferação desses estudos que conheceu seu auge naquele período.

Finalmente, pode nos explicar um pouco do seu trabalho a respeito das imagens construídas de Joana D’Arc?

F.A: No meu doutorado investiguei as condições historiográficas e intelectuais que permitiram a construção de Joana d’Arc como uma heroína laica e republicana no século XIX francês. Esse processo esteve associado à construção do discurso nacionalista e ao nascimento da História enquanto uma disciplina científica. Agora, no pós-doutorado, estou trabalhando com textos do período em que Joana d’Arc surge no cenário político francês, em 1429. Naquele momento houve muita dúvida em relação à verdadeira natureza de suas inspirações, se elas teriam uma origem divina ou diabólica. Tenho estudado alguns desses textos com o objetivo de discutir a partir de Joana d’Arc as visões sobre o profetismo feminino no final da Idade Média.

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Após o período em Serro, a exposição Chica da Silva recebe Joana D’Arc seguirá para Conceição do Mato Dentro-MG. Não deixem de conferir!

 

Referências:

BLOCH, Howard Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental São Paulo: Editora 34, 2000.

AMARAL, Flávia A. História e ressignificação: Joana d’Arc e a historiografia francesa da primeira metade do século XIX São Paulo. Universidade de São Paulo. Tese de Doutorado. 2012.

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Em trabalho inédito, pesquisador brasileiro aborda a audiodescrição de histórias em quadrinhos

Na última quinta-feira, 20 de junho, o blog Cientistas Feministas entrevistou o pesquisador Victor Hugo Cruz Caparica, que recentemente defendeu sua tese de doutorado. Nela, Victor discutiu como audiodescrever histórias em quadrinhos a partir da semiótica e ofereceu inclusive um roteiro experimental da graphic novel Turma da Mônica Laços. A pesquisa inédita e de grande importância social foi o tema da entrevista:

Imagem: capa da graphic novel Turma da Mônica Laços

– Muito obrigada por conversar com a gente, Victor. Você poderia falar um pouco sobre sua pesquisa?

Em 2013 eu descobri que os parâmetros de audiodescrição, as diretrizes de boas práticas, os principais manuais de audiodescrição, tanto no Brasil quanto lá fora, não cobriam as histórias em quadrinhos – na verdade não falavam nada sobre histórias em quadrinhos. Os poucos que tocavam no assunto colocavam dentro de audiodescrição de imagens estáticas, o que simplesmente não funciona. Eu percebi isso notando nenhuma oferta de audiodescrição de quadrinhos, por mais que a oferta em outras áreas seja pequena ela existe. E aí conversando com pesquisadores e audiodescritores eu descobri que nenhum nunca havia tentado trabalhar com isso porque não sabia como. Eu comecei o doutorado em educação especial e, após um semestre, percebi que o meu problema de pesquisa – que era desenvolver parâmetros, diretrizes, uma espécie de protomanual de audiodescrição de quadrinhos – que isso não era um problema de educação especial especificamente, era muito mais um problema de linguagem, de linguística, de tradução. E que eu poderia depois aplicar essas diretrizes em pesquisas na área de educação especial. Então eu fui pro doutorado em linguística na UNESP, em Araquara.

– Sua metodologia incluiu a semiótica, é isso mesmo? Como que foi?

Eu tive a ideia de tentar resolver esse problema usando a semiótica discursiva, de matriz francesa, e a partir dessa ideia eu soube quem procurar e fui atrás do Arnaldo [orientador]. Então a gente passou a trabalhar com autores franceses e brasileiros em cima de semiótica geral do discurso, quanto de autores específicos da semiótica de quadrinhos. Então a gente usou principalmente autores da semiótica para trabalhar análise do texto das histórias em quadrinhos. E, a partir dessa análise, tentar estabelecer um entendimento de como traduzir essa estrutura em palavras.

– Foi um trabalho totalmente inédito, não havia nada parecido.

Não. Embora existam tentativas anteriores pontuais de tentar audiodescrever quadrinhos para pessoas cegas, eram sempre de historinhas curtas, normalmente tirinhas. Nada parecido com tentar descrever uma graphic novel, por exemplo.

– E você conseguiu elaborar um método de tradução?

Com bastante dificuldade, mas consegui. Eu falo na tese que a gente mais conseguiu oferecer um ponto de partida. Eu apresento um conjunto de parâmetros, de diretrizes de audiodescrição semioticamente embasada de histórias em quadrinhos e com um roteiro experimental de uma graphic novel demonstrado a viabilidade, a aplicação experimental dessas diretrizes. No caso, a gente escolheu a graphic novel Turma da Mônica Laços, que agora virou filme inclusive.

– Quais as diferenças da história em quadrinhos para outras mídias?

Uma das coisas que a gente trabalhou foi o que aproveitar de outras diretrizes de audiodescrição, e foi pouca coisa, na verdade. As histórias em quadrinhos são uma linguagem, uma forma de expressão muito peculiar nas suas características. Por exemplo: as histórias em quadrinhos utilizam muito conhecimento técnico e principalmente estético do cinema. Então é muito comum usar técnicas de enquadramento, de angulação do cinema. Mesmo estéticas de cor. Há muito do cinema que as histórias em quadrinhos absorveram. Então dá pra entender um pouco disso a partir das diretrizes de audiodescrição pro cinema? Não, não dá. Porque no cinema você não tem o grande problema das histórias em quadrinhos que é o tempo. Na audiodescrição de um filme, o filme está passando, o tempo de decorrência de um filme é impositivo, o filme não vai pausar para ser audiodescrito, porque a ideia é que pessoas que enxergam assistam junto com as que não enxergam. Então um filme audiodescrito corre no tempo normal do filme e encaixa as descrições nos espaços entre os diálogos. Não há isso nas histórias em quadrinhos. Então em tese não há nada que me diga quanto tempo eu devo ficar descrevendo um mesmo quadro. E a gente sabe que se eu quiser me aprofundar em minúcias, dependendo do autor, eu posso passar uma hora olhando para uma página só. Qual é o tempo? Quando é o momento de virar a página e continuar? Qual é o limite de detalhe? É uma decisão que gastou algumas páginas de reflexão na tese. Ao mesmo tempo, se for comparar os quadrinhos com uma linguagem de imagem estática. Não é cinema, então eu vou descrever um quadro por vez. Isso também é uma discussão que a gente faz na tese. Não é conveniente para o leitor, para a tradução, descrever um quadro por vez, como se fosse só uma sucessão de imagens estáticas. Como dizem praticamente todos os pesquisadores da área e artistas, a história em quadrinhos não acontece nos quadros. A imensa maioria da história em quadrinhos acontece entre os quadros, no que não foi desenhado, no que é pressuposto entre dois estados de ação. Os quadros, em si, são instantes congelados muito pequenos. O ponto é: grande parte da história em quadrinhos ocorre na imaginação. Ocorre no preenchimento mental das lacunas entre um quadro e outro, entre uma página e outra. E isso você não captura descrevendo cada página. Isso requer subjetividade, requer leitura por parte do tradutor. Requer muita reflexão, muita discussão teórica sobre qual a melhor maneira de fazer isso sem incorrer em arbitrariedades do tipo “tem que ser dessa maneira porque eu gosto mais assim”, porque aí você não está fazendo ciência.

– O que te motivou a pensar em audiodescrição para as histórias em quadrinhos? É uma linguagem que você gosta?

Demais. Foi principalmente pela falta que eu sentia e ainda sinto da oferta de material audiodescrito em quadrinhos. Há uma oferta, ainda que pequena, para cinema, séries de televisão, mesmo para teatro, artes plásticas, fotografias. Mas para quadrinho simplesmente não tinha. Eu sou deficiente visual há dezesseis anos, e até então eu consumia muito esse tipo de literatura e passei a sentir muita falta. Então também é uma forma de preencher uma lacuna que me causa muito desconforto.

– Você foi bolsista durante o doutorado?

Fui bolsista da CAPES.

– E você tem planos de continuar com a pesquisa?

Eu adoraria. Gostaria muito de começar um núcleo de audiodescrição no estado de São Paulo, que não tem nenhum. A UFMG, a UFBA, a UFPA e a UECE são algumas universidades que tem núcleos muito legais de pesquisa em audiodescrição e em São Paulo não tem. Seria muito legal iniciar um aqui e produzir mais pesquisa.

– E como você está falando, ainda tem muita coisa a ser estudada…

Muita mesmo.

– Você acha que a academia é um ambiente capacitista?

A sociedade é um ambiente capacitista e a academia faz parte dela. No meu círculo acadêmico há uma preocupação progressista maior. Eu fiz minha parte, ajudei eles [UNESP] a conhecer melhor os déficits de acessibilidade do campus. Não posso reclamar de maneira alguma da questão da boa vontade. Sempre que eu levei qualquer problema foi prontamente atendido, prontamente resolvido na medida do possível. O problema, como sempre, é: qual é a medida do possível? Sobretudo dentro das limitações materiais. Da mesma maneira como é barato projetar um lugar, uma instituição, um conteúdo, vai custar proporcionalmente mais caro depois de feito, de pronto, adequá-lo. É sempre muito mais eficiente projetar para ser acessível do que adaptar. Adaptar custa dinheiro e estamos vivendo um dos períodos mais sombrios de investimento público na ciência brasileira, então isso afeta inclusive a capacidade das instituições serem acessíveis e inclusivas.

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Você já ouviu falar sobre uma forma de violência conhecida como Psychological Gaslighting?

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/handcuffs-trouble-police-arrest-2102488/

Embora seja um termo de difícil tradução, ele se refere a um tipo de manipulação psicológica que faz com que a vítima questione suas percepções, levando até ao questionamento da própria sanidade, em casos mais graves. Esse termo é baseado no filme Gaslight (1994), no qual o personagem Gregory manipula sua esposa Paula, com o objetivo de hospitalizá-la e assim obter riqueza por meio da obtenção das joias da esposa. Sempre que Gregory vai ao sótão procurar as joias, as luzes (gaslight) dos outros cômodos da cama escurecem. Quando a esposa começa a perceber a mudança das luzes e conta para Gregory, ele desmente e diz que são coisas de sua imaginação. Isso vai se repetindo e Gregory leva a esposa a pensar que essa “falsa percepção” é um indicio de que ela está enlouquecendo.

Talvez vocês tenham visto esse termo ser utilizado em casos de violência contra a mulher, como quando o homem diz para a mulher que suas impressões (sempre ou quase sempre) estão incorretas, que ele tem boas intenções em tudo que faz, apesar de os resultados, muitas vezes, serem negativos para a esposa/parceira. E esse ciclo ir se repetindo até que a parceira se sente totalmente invalidada e pode até passar a duvidar de suas próprias percepções, sempre acreditando nas justificativas do parceiro. Entretanto, essa forma de violência pode ser vista em outros contextos. Isso foi o que os pesquisadores Heston Tobias e Ameil Joseph, da província de Ontário, no Canadá, descobriram.

Esses pesquisadores analisaram 27 notícias midiáticas publicadas em 2015 e 2016 sobre uma prática policial controversa, o “carding”. Outra palavra de difícil tradução, carding é o termo utilizado para descrever a prática de abordar pessoas nas ruas sem ter mandato ou denúncia e anotar informações dela em um cartão (card), como a raça, o gênero, idade, altura, e quaisquer outras informações pessoais que o policial achar relevante. Essas informações são depois transferidas para o banco de dados da polícia e ficam permanentemente armazenadas. Apesar de ser uma prática cujo objetivo declarado é proteger a comunidade, dados estatísticos mostram que em Hamilton, uma cidade de Ontário com altos índices de crimes de ódio contra pessoas negras, negros são desproporcionalmente mais abordados pela polícia do que cidadãos brancos (12% das pessoas abordadas são negras), embora sejam apenas 3,2% da população.

Esses pesquisadores estavam interessados em saber qual era o discurso da mídia local sobre a prática de “carding”, além de investigar a relação já estabelecida entre o carding e o chamado perfil racial (racial profiling), uma prática considerada racista, por se basear em comportamentos ou características observadas ou assumidas de um grupo racial/étnico. Os pesquisadores perceberam, ao analisar os dados, que os discursos midiáticos sobre o carding se assemelhavam à prática de psychological gaslighting.

Em primeiro lugar, essas notícias não definiam claramente o que é racismo, omitindo informações importantes que fazem parte dos argumentos de vários grupos que são contra a prática. Os autores afirmam que essa omissão pode ser vista como um apagamento do racismo institucional contra negros, indígenas e outros grupos marginalizados presente na polícia de Hamilton. Uma vez que parte dos argumentos contra a prática é baseado na existência do racismo institucional, histórico e atual, tais argumentos podem ser menos efetivos ou até questionados diante de leitores que estão alheios ao conhecimento sócio histórico das relações raciais no local.

Em segundo lugar, a definição dada pela polícia do que é a prática de carding não é clara e têm constantemente mudado: por exemplo, street checks (abordar pessoas nas ruas, porém sem armazenas dados sobre elas) e carding são vistos como coisas distintas, porém relacionadas. Há denúncias que ambas as práticas são, na verdade, violações da carta de direitos humanos (onde proíbe-se abordar pessoas ou deter pessoas sem razão, e discriminação baseada na raça), mas a falta de uma definição precisa impede que a polícia seja acusada de racismo institucional. Quando se pede por uma definição clara, há relatos de policiais dizendo abertamente que há múltiplas definições e que isso “vai depender de quem fizer a declaração”.

Quando a população descobriu que a raça era uma das características armazenadas nos cartões e começou a questionar a prática, o governo anunciou uma reunião para revisar os critérios, e foi estabelecido que a prática seria baseada em uma série de princípios (e.g., minimizar efeitos negativos para as pessoas abordadas, garantir que as abordagens tenham, como objetivo, um policiamento efetivo, garantir conformidade com a carta de direitos humanos, especialmente com relação a proteção contra detenções arbitrárias e a liberdade de discriminação baseada na raça e em outros marcadores sociais, e garantir conformidade com o Ato de Proteção da Privacidade). Entretanto, isso não modificou a prática, ou seja, pessoas marginalizadas continuaram a reclamar pelas abordagens indevidas, e o número de pessoas negras e indígenas abordadas continuou desproporcional, em comparação ao número de pessoas brancas abordadas.

Os argumentos a favor da prática de carding envolvem afirmar que essa prática é essencial para o trabalho da polícia, negando que qualquer pessoa inocente será afetada pela prática (ou seja, ignorou-se reclamações de diversas pessoas inocentes que são abordadas pela polícia diariamente, ao ponto de ficarem traumatizadas, e também se colocou a prática como algo acima da carta de direitos humanos). Além disso, a polícia nega a existência de racismo institucional, apesar dos dados mostrarem que os alvos da prática são desproporcionalmente pessoas negras, indígenas e pobres. Em outros momentos, a evidência de racismo institucional é colocada como um problema individual, de alguns poucos policiais e não uma questão estrutural, ao afirmar que a prática de carding nunca foi oficialmente implementada em um documento da organização.

A polícia também leva a entender que a prática é essencial e alega que, se descontinuada, pode afetar a segurança da comunidade. Ou seja, afirma-se que o desconforto de um grupo de pessoas é um preço justo a se pagar pela segurança da comunidade. Contudo, não há evidências de que a prática de carding é efetiva.

Por fim, a prática ocorre mais na região central da cidade, que é onde o número de pessoas negras, indígenas e LGBTs é superior ao da média da população. A polícia justifica a prática nestes locais dizendo que esta é uma das áreas de foco e reiterando que a prática é benéfica para a comunidade. Portanto, há uma tentativa de naturalizar os locais-alvo para a prática, que são justamente os locais onde grupos marginalizados vivem.

De acordo com Roberts e Andrews (2013, citado por Tobias e Joseph, 2018), o processo de gaslighint possui 5 componentes:

  • Perpetrador da violência;
  • Vítima;
  • Objeto da manipulação;
  • Consequências experienciadas pela vítima, como a invalidação
  • Recompensa para o perpetrador.

Nesse sentido, os perpetradores da violência seriam o serviço policial de Hamilton. As vítimas, pessoas negras e outros grupos marginalizados da cidade. O objeto da manipulação seria a prática de carding. As consequências negativas para as vítimas seriam abordagens injustificadas, possíveis abordagens com abuso de poder por parte dos policiais, possíveis sentimentos de ansiedade e medo diante de policiais, invalidação dos sentimentos negativos e das experiências traumáticas por quem foi abordado, possíveis detenções injustas, entre outros. A recompensa para os perpetradores seria a execução de uma prática nitidamente racista e que não tem evidência que é efetiva, o que possibilita manter tanto o racismo institucional, quando uma imagem positiva da polícia, que justifica a prática dizendo que é para o bem da população.

Por fim, é importante salientar que, apesar do gaslighting ser uma manipulação, os autores afirmam que nem sempre essa manipulação é algo planejado; muitas vezes o perpetrador não está conscientemente tentando fazer com que a vítima se sinta invalidada ou louca. Ou seja, esse ciclo pode começar como algo não-intencional, com o intuito de fugir da responsabilização por algo. Não é possível afirmar se a polícia de Hamilton usa estratégias como o uso de ambiguidade e da negação plausível (afirmar desconhecimento por abuso de poder por parte de policiais ou outra prática considerada criminosa ou indesejada) de maneira intencional ou não, mas independentemente da intencionalidade, as consequências negativas para a população afetada pela prática são sérias e debilitantes, o que seria motivo suficiente para revisar as técnicas utilizadas.

Quer saber mais?

Tobias, H., & Joseph, A. (2018). Sustaining systemic racism through psychological gaslighting: Denials of racial profiling and justifications of carding by police utilizing local news media. Race and Justice, 1-32. Online First Publication. doi: 10.1177/2153368718760969

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Conselhos para as jovens em tempos de “pós” – feminismo

Todos os dias, entre as enxurradas de opiniões compartilhadas contra os diversos movimentos feministas nas redes sociais, é frequente nos depararmos com aqueles que se colocam como mais “moderados” argumentando que o feminismo foi, sim, algo necessário em um determinado momento histórico, mas que hoje não serve para mais nada: afinal, as mulheres já votam, já trabalham, já tomam pílula, já têm os mesmos direitos que os homens, não é verdade?

Como mais um esforço para mostrar o contrário, para evidenciar o fato de que a nossa sociedade está muito longe de ter igualdade total de gênero e que o feminismo continua extremamente necessário, hoje falamos da pesquisa de mestrado defendida, em agosto de 2017, por Bruna Ximenes Corazza, na área de Linguística Aplicada da UNICAMP. O seu estudo foi baseado em uma comparação entre os conselhos dados às jovens leitoras em  duas revistas brasileiras: os artigos e colunas da revista feminina Jornal das Moças, da década de 1950, e as matérias voltadas às adolescentes dos anos 2000 na revista Capricho, uma das mais populares de seu segmento. A sua conclusão? Muito mudou em cinquenta anos, mas as duas revistas apresentaram fórmulas muito parecidas de prescrição de comportamentos adequados para suas leitoras. Uma análise mais profunda dos conselhos indicou, ainda, que o ideal de feminilidade pregado por essas duas revistas não apresentou significativas alterações.

capas

Capas da revista Jornal das Moças (setembro de 1956) e Capricho (março de 2000). Fonte: CORAZZA, Bruna X. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Unicamp: 2017, pp.43 e 46)

À primeira vista, as diferenças podem parecer grandes. O Jornal das Moças, por exemplo, estava muito preocupado em ensinar às jovens o comportamento adequado para se conquistar um marido e realizar seu objetivo principal: ser mãe. Uma mulher, por exemplo, deveria manter sua aparência bem cuidada para despertar o interesse masculino, realçando seu corpo feminino, mas nunca colocando em risco seu “ar de respeito”. Corazza relaciona esse discurso à moda da época, que realçava a figura da “ampulheta” do corpo da mulher, como na criação da “Linha Corola” ou “New Look” de Christian Dior, cuja barra da saia deveria estar a exatos 40 cm do chão – uma maneira de sensualizar parte da perna sem perder aquele “respeito”.

Dior

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op.cit., p.20

A Capricho, por outro lado, não trazia nenhum tipo de conselho que assumisse como “natural” aqueles papeis sociais destinados às mulheres pelo Jornal das Moças (esposa e mãe), mas também apresentava um silêncio perturbador sobre recomendações para a vida profissional futura das suas jovens leitoras. Isso é ainda mais significativo se tomarmos o público-alvo da Capricho nos anos 2000, as adolescentes entre 15 e 19 anos, jovens em fase de começar a pensar em carreira, em universidades, em vestibular, etc.

Há ainda mais: a Capricho vendia o slogan “Seja diferente, seja você” como forma de se contrapor à ideia de que todas as adolescentes eram iguais, supostamente valorizando a diferença e a autenticidade. Contudo, seu discurso, nas colunas analisadas, indicava que essa valorização do diferente era parcial e contraditória. Em uma reportagem sobre a música Punk feita por mulheres, por exemplo, a revista colocava garotas feministas como “encrenqueiras” e implicantes, usando a expressão “anti-chapinha”. Nessa mesma reportagem, a revista se referia à cantora Avril Lavigne, que fez grande sucesso nessa década, como a “princesinha do Pop Punk” (Corazza, 2017, p.94).

Corazza observou, também, que a Capricho promovia um “engajamento fabricado pela indústria de consumo, com uma roupagem de liberdade e conquista pessoal” (idem, p.95). A “escolha” do que comprar de acordo com o seu “estilo” criava uma falsa sensação de liberdade: as jovens se sentiam empoderadas ao consumir, acreditando estarem “sendo diferentes”. No entanto, elas também não poderiam ser “elas mesmas”. Na transcrição a seguir, sobre como agir em uma paquera por mensagens de texto via celular, vemos como isso fica claro:

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Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.96

Corazza chama a atenção para o item 4, cuja orientação não é no sentido de que a jovem seja ela mesma, mas no de que ela demonstre uma autenticidade planejada, construída, ou seja, falsa. Nas palavras da autora, “não se trata de ser autêntica, mas de agir como se fosse” (idem, p.96). Além disso, vemos o reforço de um ideal de beleza que, da mesma forma como nos anos 1950, não permite a aparência real. Nos anos 2000, contudo, ao invés da aparência ampulheta planejada nos últimos detalhes, as meninas precisavam dominar o “desarrumado arrumado”, já que, como é anunciado em uma das capas da Capricho, os meninos não gostam de meninas que usam muita maquiagem.

A Capricho também apresentava, com muita frequência, artigos sobre boa forma e como emagrecer, reforçando os discursos de gordofobia para um público-alvo extremamente sensível a esse tipo de questão. Na tabela abaixo, Corazza elenca alguns exemplos:

tabela 9

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.97

Para as adolescentes, a mensagem estava clara: seja você, seja diferente, mas não seja gorda, não seja muito produzida, não seja tão diferente, não seja feminista, não seja… Isso pode até não ser o mesmo discurso do Jornal das Moças, que insistia “seja esposa e mãe”, mas não significa, de jeito nenhum, que uma revista produzida na sociedade teoricamente “pós-feminismo” dos anos 2000 deixou de controlar o que significava ser adolescente, jovem e mulher. Para nós, que temos filhas, irmãs ou primas mais novas, a pesquisa de Corazza levanta uma questão muito importante: a quais tipos de discursos sobre feminilidade estamos expondo as novas gerações, sem nem sequer percebermos?

Referência:

CORAZZA, Bruna Ximenes. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2017.

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Cancro da mama: É urgente criar uma “onda rosa” nas ciências sociais!

Existem inúmeras mulheres diagnosticadas com cancro de mama que se submeteram a uma mastectomia bilateral e que se recusaram a qualquer reconstrução cirúrgica ou a utilizar próteses mamárias. Isto deve, forçosamente, conduzir-nos, nas ciências sociais, a uma reflexão sobre esta doença e as suas consequências, que ultrapassam as questões ligadas à saúde física. Ora, vejamos, apesar da narrativa dominante ser a da normalidade da reconstrução cirúrgica após uma mastectomia, levando-nos a crer que a reconstrução é a norma – seguindo um padrão de beleza normativo de género estereotipado -, um estudo de 2014, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova Iorque, revelou que 58% das mulheres submetidas a uma mastectomia optam por não fazerem reconstrução cirúrgica, apresentando como principais razões: o desejo de evitar uma cirurgia adicional, o medo de implantes mamários e a sensação de que a reconstrução não era importante. Tendo em conta o facto de que a sociedade actual vive obcecada com a juventude e a beleza, qualquer sinal de doença é para esconder, principalmente quando a doença implica a eliminação de indicadores externos de género.

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Pormenor de “Woman Arranging Her Hair”, de Auguste Renoir (1841-1919), foto de Helena Ferreira, no Hermitage de São Petersburgo

O cancro de mama é o tipo de cancro mais comum nas mulheres, em todo o mundo (Cordero et al, 2014). Para além de agredir o corpo físico, ele tem um elevado impacto na imagem corporal, o que gera amplas consequências nas questões de identidade (Carpenter et al, 1999, Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005) e na auto-estima (Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005). Sobreviventes de cancro podem querer restaurar identidades anteriormente mantidas, desenvolver novas identidades, ou aprender a misturar tudo de forma satisfatória. As mulheres expressam ansiedade acerca da potencial perda de atractividade sexual e da perda de seus companheiros (Santos et al, 2014). Como bem se sabe, a identidade das mulheres tem como base a sua “beleza” física estereotipada, por isso, elas costumam ser vulneráveis à aprovação externa, fazendo com que o seu amor próprio fique exposto a todos e a todas. Ressalve-se que o mito da beleza feminina não tem absolutamente nada a ver com uma suposta essencialidade natural das mulheres, mas sim com construções sociais ligadas às instituições masculinas e ao poder institucional dos homens (Wolf, 1992).

Em nossa sociedade, “o peito, a casa do coração, é um centro importante da pessoa, como ser” (Young , 2005, p.75). Quando falamos de nós mesmos, apontamos para o peito, não para o nosso rosto. No caso das mulheres, quando colocamos as mãos sobre o coração, colocamo-las entre as mamas: elas estão entrelaçadas com o senso que temos de nós mesmas. Para a grande maioria das mulheres, as mamas são um importante componente da imagem que temos de nós próprias e do nosso corpo. Para nós (e para os outros), as mamas são o maior significante visível da nossa feminilidade (Fang et al, 2010; Sischo et al, 2015; Young, 2005), que é maior ou menor conforme o tamanho e a forma dos nossos seios (Young, 2005).

Para Young (2005), as mamas são um objecto fetichizado comparáveis a um falo, porque este é a medida e único símbolo do desejo e da sexualidade. A cultura machista constrói as mamas como objectos, pelo que estas, como símbolo da sexualidade feminina, devem ser como o ideal de falo: grandes, duros e erectos. A mulher experiencia esta objectificação em função do olhar do macho, ou seja, o corpo feminino é para ser visto, julgado e avaliado pelos homens. Mais do que isso, as mamas de uma mulher não lhe pertencem, são pertença do marido, do amante ou do bebé. Segundo Young (2005), as mamas, sem o olhar masculino, são como qualquer outra parte do corpo. As mamas também estão associadas à maternidade – que como é evidente nas mentes do patriarcado – se opõe à sexualidade. Essa dicotomia maternidade/sexualidade conduz a outras dicotomias que jogam com a repressão do próprio corpo: bom/mau, puro/impuro, amor espiritual/amor carnal. Aliás, é por esse mesmo motivo de se encontrarem na fronteira entre a maternidade e a sexualidade que as mamas são um escândalo quando surgem à vista, tanto no mundo real, quanto virtual. Os mamilos são tabu, porque deixam o patriarcado confuso: os homens não sabem se os devem colocar na “gaveta” da maternidade ou da sexualidade. Se os colocam na primeira, associam-nos à pureza e devem estar tapados. Se os colocam na segunda, a associação é à obscenidade e devem continuar tapados.

Voltando à reconstrução mamária, as mulheres sabem que tanto a prótese como a cirurgia de reconstrução servem para esconder e negar a suposta perda da feminilidade, criando a sensação diária que voltam a estar no mundo com mamas. Tanto a prótese, como a reconstrução dão primazia à aparência e à reconstituição visual de um corpo de mulher, que tem por obrigação proteger os outros da sua deformidade e, acima de tudo, proteger a si mesma dos olhares de repugnância. Ou seja, existe a cultura de escravizar a mulher a esforçar-se para surgir com o corpo que consideram “normal” após a perda de uma ou das duas mamas (Young, 2005). Isto torna impossível que as mulheres que perderam as mamas aceitem o seu novo corpo e torna a experiência das mulheres completamente invisível, não só para as que não querem pensar sobre o cancro e perda das mamas, mas também para as que o viveram. Tendo em conta, a assustadora frequência do cancro de mama, essa primazia da “normalização” do corpo, silencia e isola inúmeras mulheres. Não se oferece às mulheres a oportunidade de transformar a sua identidade corporal numa mulher sem mamas e a amar-se com esse corpo. Inclusive, estudos revelam que mesmo as mulheres que insistem em que as decisões sobre as suas mamas são apenas delas apresentam, regularmente, noções, valores e expectativas da sociedade (Sischo & Martin, 2015). Na interacção social, ao longo da vida, os indivíduos aprendem o que se espera deles e agem segundo essas expectativas, construindo e, ao mesmo tempo, mantendo o status quo da “normalidade”.

A construção de género ocorre através de rotas discursivas: para ser boa mãe, para ser um heterossexual desejável, para ser uma boa trabalhadora, para ter um corpo perfeito, ou seja, dar múltiplas garantias para responder a uma variedade de requisitos ao mesmo tempo (Butler, 1990). Em todas as suas experiências, os seres humanos constroem o seu género comportando-se como aprendem e é apropriado ou resistindo e rebelando-se contra as normas. Os sujeitos não são livres para se distanciar ou elidir as normas, porque elas constituem o sujeito de maneira retroactiva, mediante a sua repetição. Sendo assim, o sujeito é o efeito dessa repetição. “Ao que poderíamos chamar de ‘capacidade de actuação’, ‘liberdade’, ou ‘possibilidade’ é sempre uma prerrogativa política produzida pelas brechas que se abrem nessas normas reguladoras” (Butler, 1990). Ou seja, a capacidade de actuação, a liberdade e a possibilidade estabelecem-se sempre dentro de uma matriz de relações de poder. Os actos performativos reiteram ou repetem as normas anteriores pelas quais nos constituímos, repetindo-as obrigatoriamente sem as poder descartar por vontade própria. Essas normas que confirmam e delimitam os indivíduos são também os meios através dos quais se cria a resistência e a subversão. A norma pode aumentar a sua hegemonia mediante a sua desnaturalização. Mas, em circunstâncias em que nos podiam aniquilar, converte-se num espaço de resistência, na possibilidade de uma importância social e política efectiva.

É esse o papel das Ciências Sociais: demonstrar, através do debate, que a alteração dos corpos, representa a transgressão de uma norma, que gera uma ordem de valores alternativos. Valores esses que são bem mais importantes que os que existiam, porque têm em conta apenas as expectativas de cada um dos novos corpos sem mamas. Desconstruir os padrões de beleza femininos criados pelo patriarcado e destruir os tabus que existem relativamente às mamas e aos mamilos femininos é também uma tarefa da Psicologia, da Sociologia, dos Estudos de Género, dos Estudos sobre as mulheres, dos Estudos Culturais… Em suma, das Ciências Sociais, seja na “onda rosa” dos meses de Outubro, ou em outros momentos, desde que se abra à comunidade e se “parta a pedra toda”.

Butler, J. (1990). Gender trouble and the subversion of identity. New York: Routledge.

Carpenter J.S., Brockopp D.Y. & Andrykowski M.A. (1999). Selftransformation as a factor in the self-esteem and well-being of breast cancer survivors. Journal of Advanced Nursing, 29, 1402– 1411.

Cordero, M.J.A., Sanchéz, M.N., Villar, N.M., Valverde, E.G., e López, A.M.S. (2014). Percepción de la imagen corporal de la mujer intervenida de cáncer de mama y residente en la ciudad de Granada. Revista Española de Nutrición Comunitaria, 20 (1), 2-6.

Fang, S. Y., Chang, H. T. & Shu, B.C. (2014). Objectified Body Consciousness, Body Image Discomfort, and Depressive Symptoms Among Breast Cancer Survivors in Taiwan, Psychology of Women Quarterly, 1-12.

Santos, D.B., Ford, N.J., Santos, M.A. & Vieira, E.M. (2014). Breast cancer and sexuality: the impacts of breast cancer treatment on the sex lives of women in Brazil. Culture, Health & Sexuality: An International Journal for Research, Intervention and Care, Vol. 16 (3), 246-257.

Sischo, L & Martin, P.Y. (2015). The Price of Femininity or Just Pleasing Myself? Justifying Breast Surgery. Gend. Issues, 32, 77–96.

Takahashi, M. & Kai, I. (2005). Sexuality after breast cancer treatment: Changes and coping strategies among Japanese survivors. Social Science & Medicine, Vol. 61 (6), 1278-1290. Culture, Health & Sexuality, Vol. 16 (3), 246-257.

Wolf, N. (1992). 0 Mito da Beleza, Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco

Young, I. M. (2005). On Female Body Experience, Throwing Like a Girl and Other Essays. Oxford: Oxford University Press, Inc.