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Mulher pelo Direito ao Conhecimento: A industria das Publicações Científicas e a luta de Alexandra

Atualmente, a lógica capitalista tem influenciado a forma de produção de conhecimento dos cientistas, “publish-or-perish” , em português “publique ou pareça”. As/os cientistas de hoje são avaliados pela quantidade de publicações em revistas científicas. Estas, tem uma nota, que colabora para a avaliação do artigo publicado.

 

Professor McWit, Didn't Publish, So Perished.

Figura 1 : Publish or Perished. Fonte: cartoonstock.com

A publicação é importantíssima para disseminar o conhecimento entre a sociedade que o financiou, além disso, as publicações, influenciam no avanço da carreira de cientistas e ajudam na obtenção de recursos para projetos e eventos, ou seja, dificilmente um grupo de pesquisa terá dinheiro para financiar a sua pesquisa, se não houver uma grande cientista-publicadora entre eles. Logo, cientistas tem carregado consigo uma grande pressão para publicar resultados com uma grande frequência. Fazer ciência não é um conto de fadas , feito por insights. A academia não espera 40 anos para publicar um resultado, por mais relevante que seja, há grandes chances da pesquisadora perder financiamentos ao longo da pesquisa.

Mesmo a sociedade, como um todo, contribuindo financeiramente nas pesquisas do país, nem todo mundo terá acesso aos artigos científicos resultantes.

A industria de publicação tem crescido, mas o processo de publicação em uma revista não é nada glamouroso. Quando uma/um pesquisador vai publicar em alguma revista internacional, isso é cobrado…”ah tá a cientista ganha da revista já que vão publicar o trabalho dele…” NÃO!! A cientista que deve pagar a revista, caso aceitem o seu trabalho, para ser publicado. No Brasil, temos um cenário mais animador, pois a maioria das revistas são de acesso livre e não há taxas para publicar porém as revistas nacionais não tem o mesmo prestígio para a evolução na carreira do que as internacionais.

Beleza, então quando sair, você vai ficar famosa, todo mundo vai ler o seu trabalho…” NÃO!! As Universidades para terem acesso a essas revistas devem pagar uma anuidade (uma assinatura).

Ahh mas deve ser um valor para publicar a revista e tal…” algumas assinaturas custam mais de 5 milhões por ano, para a Universidade.

Mas nem o seu artigo você terá acesso?” terei, se pagar aproximadamente 35 dólares.

Então, no Brasil, a sociedade paga para os cientistas trabalharem, pagam para que a Universidade tenha acesso aos periódicos mas se uma pessoa não estiver ligada a alguma instituição de ensino que tem acesso, ela não terá acesso ao trabalho que ajudou a financiar!

Bem, mas essa revistas tem custo, não existe almoço grátis…” Sim, mas a parte de avaliação dos artigos, que são feito por pesquisadores da área antes de ser publicado, não há repasse de verba algum! Não há uma/um cientista que receba para ajudar nas publicações!

Mas brasileiros são mortos de fome que reclamam de tudo…” Harvard, recentemente, não renovou a assinatura de uma das maiores revistas científicas, justamente devido ao altíssimo valor cobrado. Logo, se países ricos como os EUA tem tido dificuldade para pagar os valores cobrados por revistas científicas, pensem em países pobres que não tem como arcar com essa despesa.

Como países pobres fazem pesquisa?” duas opções: não fazem ou burlam o sistema. Foi assim que aconteceu com a pesquisadora Alexandra Elbakyan, de 28 anos. Alexandra após voltar para o Cazaquistão, depois de um período de estudo em outras partes do mundo, se deparou com a grande barreira de acesso a artigos para dar continuidade ao seu trabalho em neurociência.

No começo, Alexandra, pirateou artigos para si mesma e para colegas pesquisadores. Ela recebeu tantos pedidos que decidiu automatizar o processo, usou suas habilidades de programadora, e fundou o Sci-Hub em 2011, uma plataforma com mais de 60 MILHÕES de artigos, para quem quiser baixar.

O SciHub é conectado a uma base de dados de artigos “roubados”. Caso um usuário solicite um artigo que não está no banco de dados, a Sci-Hub usará senhas de biblioteca que coletou para encontrar o artigo, fornece-o ao pesquisador e, em seguida, despeja-o no banco de dados.

Em 2006, o site teve mais de 75 milhões de downloads pelo mundo, principalmente de países como China , Índia e Irã. Por mais que isso pareça ilegal, muitas pessoas acreditam que os artigos deveriam ser livres para leitura e consultas.

Em 2015, a gigante no mercado de publicação , Elsevier, entrou com um processo contra a Sci-Hub. em um tribunal federal em Nova York, alegando violação de direitos autorais e fraude informática. A empresa disse que Alexandra e outros operavam “uma rede internacional de pirataria e violação de direitos autorais por contornar os meios legais e autorizados de acesso”.

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Figura 2 : Alexandra Elbakyan. Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Elbakyan

 

Alexandra escreveu uma carta para o tribunal dizendo ” se você não enviar dinheiro (para a Elsevier) , você não lerá artigos. No meu site, qualquer pessoa pode ler artigos de graça, e enviar doações se quiserem. Por que Elsevier não pode trabalhar assim, eu me pergunto? “. Um juiz emitiu uma liminar contra SciHub. Elbakyan simplesmente mudou de domínio, mantendo o banco de dados disponível.

Apesar de perder o processo, Alexandra recebeu diversas mensagens de apoio, e alguns suportes financeiros para dar continuidade ao Sci-Hub. Alexandra sente uma responsabilidade moral com os usuários que dependem das publicações disponibilizadas pelo site. Por isso, ela irá manter as atividades do site mesmo com a indústria de publicações tentando derrubar, e garantiu que está instruindo pessoas para poderem manter o site mesmo sem ela.

Toda essa militância de Alexandra a fez uma das 10 pessoas mais importantes do ano de 2016, segundo a revista Nature. Alexandra afirma que “ dividir livros e artigos científicos não deveriam ser ilegal!” “ que todo conteúdo deveria ser copiado sem restrição , mas no caso de educação e pesquisa, as leis de direitos autorais são especialmente danosas”.

Muitos acadêmicos, bibliotecários universitários e defensores de longa data da pesquisa acadêmica aberta estão acompanhando de perto os esforços de Elbakyan. Eles pensam que ela está finalmente dando aos editores seu momento Napster (em alusão ao programa de compartilhamento de dados, como músicas, que foi fundado em 1999) , os obrigando a se modernizar como a indústria da música e do cinema tem feito.

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Figura 3: Plataforma do Sci-Hub.  Fonte: sci-hub.cc

Pela lógica da lei de direitos autorais, os maiores prejudicados seriam os autores, mas uma pesquisa recente feita por bibliotecários da Universidade do Sul da Califórnia e da Universidade Estadual da Califórnia de mais de 250 acadêmicos descobriu que 41% “não se importam” com os direitos autorais e 30% acham que “a informação deve ser livre”.

A história de Alexandra e o Sci-Hub, nos remete a outra história, a de Aaron Swartz. Diferente dela, Aaron, não chegou a compartilhar publicamente todos os milhões de artigos que ele “furtou” da biblioteca JSTOR (sistema online de arquivamento de periódicos acadêmicos dos Estados Unidos) dentro do MIT.

Aaron foi um programador estadunidense, escritor, articulador político, ativista na Internet, co-autor da criação do RSS e um dos fundadores do Reddit. Em 2011, Swartz foi acusado pelo governo dos EUA de crime de invasão de computadores sujeito ao cumprimento de até 35 anos de prisão mais multa de mais de um milhão de dólares , devido ao fato de ter usado formas não convencionais de acesso ao repositório da revista e baixado vários artigos científicos. Ele já havia sido processado antes por publicar gratuitamente informações de domínio público que tinham seu acesso tarifado, logo restrito, mas as acusações foram retiradas.

A condenação levou Aaron a uma depressão profunda e em 2013, ele cometeu suicídio em seu apartamento no Brooklyn. Após a sua morte, a promotoria federal de Boston retirou as acusações contra ele.

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Figura 4 : Aaron Swartz. Fonte:  publico.pt

familiares, a maior decepção no caso do Aaron, foi a posição do MIT, no caso. Várias celebridades da área de tecnologia também quebraram as regras do MIT, porém nunca foram punidos ou denunciados pela instituição. Aparentemente a única diferença no caso de Aaron é que ele quebrou as regras pensando em não ganhar dinheiro com isso.

Como vários meios, as revistas científicas devem se atualizar às novas tecnologias, e é até irônico por parte delas, se recusarem a se adequar aos novos tempos e difundir democraticamente o conhecimento.

Referências e Recomendações: 

[1] https://www.washingtonpost.com/local/this-student-put-50-million-stolen-research-articles-online-and-theyre-free/2016/03/30/7714ffb4-eaf7-11e5-b0fd-073d5930a7b7_story.html?utm_term=.9ad0fcdb20db

[2] http://simetriadegauge.blogspot.com.br/2015/12/um-monstro-que-pega-o-seu-dinheiro-o.html

[3] http://www.nature.com/news/nature-s-10-1.21157

[4] https://www.publico.pt/2013/01/14/tecnologia/noticia/mit-investiga-responsabilidade-na-morte-de-aaron-swartz-1580668

[5] wikipedia.org/

[6] Documentário The Internet’s Own Boy, The Story of Aaron Swartz

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Desmistificando a criptografia

Desde as revelações do Snowden sobre o programa de espionagem do governo americano, a criptografia tem sido tema de debate em diversos espaços e não mais apenas dentro do círculo de especialistas em segurança da informação. Em muitos desses debates, a criptografia é tratada como a única solução possível tanto para a garantia da privacidade no uso da Internet quanto para se proteger da espionagem. Porém, ainda há muitas dúvidas sobre o que ela seria e o quais são as suas limitações.

A palavra criptografia vem de palavras gregas que significam “escrita secreta”. O primeiro esquema de criptografia data de antes de Cristo e é conhecida como a cifra de César. Nessa cifra, cada letra era substituída por outra que estivesse algumas posições a frente. Por exemplo, todas as letras “As” do texto eram substituídas por “Ds”, todos os “Bs” por “Es”, e assim por diante. É um algoritmo bastante simples e descobrindo-se a regra é facilmente desvendada a mensagem.

Pode-se dizer que a criptografia é o estudo dos princípios e técnicas pelas quais a informação pode ser transformada da sua forma original para outra ilegível, de forma que possa ser conhecida apenas por seu destinatário (detentor da “chave secreta”), o que a torna difícil de ser lida por agentes não autorizados. Assim sendo, só o receptor da mensagem pode ler a informação com facilidade.

De acordo com Tanembaum e Wetherall (2011), as mensagens a serem criptografadas, denominadas como texto simples, são transformadas por meio de uma função parametrizada por uma chave. Em seguida, a saída do processo de criptografia, conhecida como texto cifrado, é transmitida. Stallings (2015) diz que o processo de converter um texto claro em um texto cifrado é conhecido como cifração ou encriptação, enquanto a restauração do texto claro a partir do texto cifrado é chamada de decifração ou decriptação.

Atualmente, existem diversas técnicas e algoritmos para cifração. Uma das formas de classificar sistemas criptográficos se refere ao número de chaves utilizadas no processo. Se tanto o emissor quanto o receptor utilizarem a mesma chave, o sistema é classificado como encriptação simétrica; já se o emissor e o receptor usarem chaves diferentes, o sistema é classificado como encriptação assimétrica ou de chave pública (STALLINGS, 2015).

Stallings (2015) afirma que não existe algoritmo de encriptação que seja incondicionalmente seguro. O que se pode obter é um esquema de encriptação considerado computacionalmente seguro, em que o algoritmo atende a pelo menos um dos critérios: (1) o custo para quebrar uma cifra ultrapassa o valor da informação encriptada e (2) o tempo exigido para quebrar a cifra supera o tempo útil da informação. Ou seja, em princípio se você tiver tempo e poder computacional infinitos é possível quebrar qualquer algoritmo criptográfico e descobrir a informação.

Uma das formas mais conhecidas para se descobrir uma informação cifrada de forma não autorizada, como por exemplo senhas de usuários, é o ataque por força bruta. Esse ataque consiste em utilizar o processamento computacional para descobrir a informação por meio de tentativas e erros. O tempo necessário para a descoberta pode variar de acordo com a quantidade possível de tentativas por segundo (capacidade computacional) e a probabilidade de acerto (número de combinações diferentes possíveis) (CERT.BR, s.d.).

Apesar do que se possa pensar inicialmente, Tanembaum e Wetherall (2011) enfatizam a importância do caráter não sigiloso do algoritmo de encriptação a ser utilizado. A estratégia, conhecida como “segurança pela obscuridade”, em que se tenta manter o algoritmo secreto, não é aconselhada. Ao tornar o algoritmo público, inúmeros criptólogos podem tentar decodificar o sistema e caso muitos tenham tentado isso durante cinco anos após a sua publicação e nenhum tenha conseguido, há uma grande probabilidade de que o algoritmo seja sólido (TANEMBAUM E WETHERALL, 2011). Na verdade, o sigilo deve estar na chave, e seu tamanho é uma questão muito importante no projeto de um algoritmo de encriptação. De forma geral, quanto maior for o tamanho da chave, mais segura estará a informação cifrada.

Outra vantagem do algoritmo criptográfico ser aberto é a de que se pode verificar que não há a existência de backdoors. Uma backdoor é um método, muitas vezes secreto, de transpor a autenticação normal para um produto, sistema de computador, criptosistema ou algoritmo etc. Backdoors são freqüentemente usadas para assegurar acesso remoto não autorizado a um computador ou obter acesso a textos em sistemas criptográficos. Um cenário em que pode ser útil é na espionagem de pessoas e/ou instituições. Porém, a sua utilização fragiliza o mecanismo de segurança da informação e é desencorajada, pois pode ser explorada por atacantes para diversos fins, como roubo e alteração de dados, etc.

Com o advento de aplicativos de comunicação via celular, o uso de algoritmos criptográficos migrou para essa plataforma a fim de garantir uma comunicação sigilosa ponta a ponta. Nesse cenário, há um grande desafio que é a distribuição segura das chaves através da Internet. Segundo Stallings (2015), a força de qualquer sistema criptográfico está na técnica de distribuição de chave, um termo que se refere aos meios de entregar uma chave a duas partes que querem trocar dados, sem permitir que outros vejam a chave. Isso porque para que a encriptação simétrica funcione, as duas partes precisam compartilhar a mesma chave, que precisa ser protegida contra o acesso por outras partes sem permissão.

A distribuição de chave pode ser feita de várias maneiras, sendo que o uso de um centro de distribuição de chaves (CDC) tem sido bastante adotado (STALLINGS, 2015). Ele é responsável por distribuir chaves a pares de usuários conforme a necessidade. Cada usuário precisa compartilhar uma chave exclusiva com o CDC, para fins de distribuição delas. De acordo com Stallings (2015), a utilização de um CDC é baseada no uso de uma hierarquia de chaves com, no mínimo, dois níveis. A comunicação entre as pontas é encriptada usando uma chave temporária, normalmente referenciada como uma “chave de sessão”, que normalmente é usada pela duração de uma conexão lógica e depois descartada. Cada chave de sessão é obtida a partir do CDC e transmitida em formato encriptado, usando uma chave mestra exclusiva, que é compartilhada pelo centro e o usuário final (STALLINGS, 2015). Pode-se adicionar mais um nível na hierarquia de chaves, em que a encriptação de chave pública é usada apenas para atualizar a chave mestra entre um usuário e o CDC. O acréscimo dessa camada oferece um meio seguro e eficiente de distribuir chaves mestras. Esse esquema de CDC é usado, por exemplo, em aplicativos como o WhatsApp.

Apesar da criptografia ser uma área de estudo consolidada, ela é bastante dinâmica. A todo momento são lançados novos algoritmos criptográficos para serem testados por criptólogos a fim de descobrirem falhas, enquanto algoritmos já consolidados se tornam obsoletos devido ao aumento do poder de processamento dos computadores. Os estudos mais atuais dentro dessa área são os de criptografia pós-quântica que se refere a algoritmos criptográficos considerados seguros contra um ataque de um computador quântico.

Os algoritmos de chave pública mais populares atualmente podem ser quebrados de modo eficiente por um computador quântico grande o suficiente. A segurança dos algoritmos atuais se baseia em um dos três problemas matemáticos difíceis de serem solucionados pelos computadores eletrônicos: o problema de fatoração de inteiros, o problema de logaritmo discreto ou o problema de logaritmo discreto de curva elíptica. Porém, todos eles podem ser facilmente resolvidos em um computador quântico potente o suficiente executando o algoritmo de Shor, que é um algoritmo para fatoração de números inteiros (informalmente ele resolve o seguinte problema: dado um número inteiro N, encontre os fatores primos dele). Ainda que os computadores quânticos atuais conhecidos sejam muito pequenos para atacar qualquer algoritmo criptográfico real, muitos criptólogos estão projetando novos algoritmos para se preparar para quando a computação quântica se torne uma realidade e uma ameaça.

Bibliografia

CERT.BR. Cartilha de Segurança para a Internet. Disponível em: < http://cartilha.cert.br/ataques/ >. Acessado em 26 mar. 2017.

STALLINGS, W. Criptografia e Segurança de Redes: Princípios e Práticas – 6ª edição. São Paulo: Pearson. 2015. ISBN 978-8543005898.

TANENBAUM, A. S.; WETHERALL, D.  Redes de Computadores – 5ª Edição. São Paulo: Pearson. 2011. ISBN  857605924X.

WIKIPEDIA. Criptografia. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Criptografia >. Acesso em: 26 mar. 2017.

WIKIPEDIA. Post-quantum cryptography. Disponível em: < https://en.wikipedia.org/wiki/Post-quantum_cryptography &gt;. Acesso em: 26 mar. 2017.

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Operação “carne fraca”: como evitar o papelão

A operação denominada “Carne Fraca”, investigação da Polícia Federal com a finalidade de desmascarar um esquema de corrupção entre o Ministério da Agricultura e alguns frigoríficos em Goiás, Minas Gerais e Paraná, agitou o país na última semana. Além de mostrar mais um triste episódio de propinas e irresponsabilidade, fez muitas pessoas se perguntarem o que realmente estamos consumindo no nosso dia-a-dia.

Para quem não pôde acompanhar o assunto, a investigação mostrou uma série de irregularidades cometidas por frigoríficos brasileiros a fim de burlar a fiscalização e garantir o repasse de produtos “mascarados”, tanto para merenda escolar, como para o consumidor. Entre as práticas, destacou-se o uso de ácido ascórbico e outros aditivos em quantidades acima do permitido e em produtos fora da validade e a presença de papelão no meio da carne. Muitas notícias também circularam ligando o acido ascórbico ao aparecimento de câncer. Mas o que é mito e o que é real?

Aditivos alimentares são “substâncias intencionalmente adicionadas aos alimentos com o objetivo de conservar, intensificar ou modificar suas propriedades, desde que não prejudiquem seu valor nutritivo” (1). O uso de aditivos alimentares é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e tem seu limite de ingestão estabelecido por esse órgão. O ácido ascórbico está na lista de aditivos permitidos e é popularmente conhecido como vitamina C (nos rótulos de alimentos pode estar descrito como INS 300). É usado rotineiramente pela indústria como antioxidante em diversos tipos de alimentos(1). No caso das carnes, a vitamina C tem o papel de preservar a cor vermelha. Quando há consumo excessivo, a vitamina C é excretada pelos rins (2) e o principal risco é a formação de cálculos renais (a famosa pedra nos rins). Entretanto, nenhum estudo comprova seu papel como agente causador de câncer. Aliás, devido a suas propriedades antioxidantes, ela tem sido estudada como parte do tratamento antitumoral – dados ainda preliminares (2, 3). Assim, o consumo de acido ascórbico nos alimentos, desde que usado na quantidade segura, não causa dano a saúde.

Entretanto, não é de hoje que os aditivos alimentares são foco de pesquisas científicas. Existem evidências de que o consumo dessas substâncias pode trazer perigos à saúde, tais como alergias, alterações no comportamento e, em longo prazo, carcinogenicidade, ou seja, se tornar um agente causador de câncer. É importante considerar que o câncer é uma doença multifatorial, que depende de fatores genéticos e de estilo de vida. A presença de efeitos deletérios do consumo de aditivos alimentares dependem da maturidade e individualidade fisiológica (faixa etária e como cada organismo reage a diferentes agentes), da frequência e da quantidade por kg de alimentos consumido (4).

Entre os aditivos considerados potencialmente carcinogênicos encontram-se os nitratos e os nitritos. Um dos mecanismos propostos para o aparecimento de tumores por essas substãncias envolve a formação de N-nitroso, composto que causa danos e mutações no DNA (5). Porém, os resultados dos estudos são contraditórios e a sua adição é considerada segura. Além disso, o N-nitroso é formado durante outros processos térmicos de preparação dos alimentos, principalmente na fritura e grelha de carne vermelha e na produção e defumação de carnes processadas, como linguiça e salsicha. Em uma metanálise incluindo mais de 800 estudos e 22 especialistas de 10 países diferentes publicado em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) – instituição especializada nesta doença da Organização Mundial da Saúde (OMS) – classificou o consumo de carne vermelha como ‘provavelmente carcinogênica para humanos’. Já a carne processada foi classificada como ‘diretamente carcinogênica para humanos’, principalmente relacionada ao câncer colorretal (6). Portanto a recomendação é moderar o consumo de carne vermelha e reduzir o consumo de carne processada.

Em relação ao papelão, as notícias divulgadas se mostraram sensacionalistas e realmente não existe papelão no meio da carne. O papelão é utilizado como material para embalagem, e não pode entrar na chamada área limpa onde os alimentos são preparados. O trecho apresentado pela polícia se refere a entrada do material na área limpa, o que não seria permitido. A seguir, o funcionário menciona que se isso acontecer, irá condenar o produto, ou seja descartá-lo (7). Além disso, não há menção do uso de papelão em alimentos em nenhum artigo científico.

Apesar de as notícias divulgadas trazerem informações equivocadas, o consumidor deve sim ficar atento. Existe um programa internacional proposto pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da OMS com o objetivo de estabelecer normas na área de alimentos, incluindo padrões, diretrizes e guias sobre Boas Práticas e de Avaliação de Segurança e Eficácia conhecido como Codex Alimentarius . Sobre os aditivos alimentares, o Codex Alimentarius recomenda que não sejam utilizados aditivos intencionais em alimentos destinados a crianças menores de um ano, uma vez que poderiam ser mais vulneráveis aos possíveis efeitos deletérios, como explicado acima. Apesar dessa orientação, existem vários produtos no mercado, como iogurtes, gelatinas, refrigerantes, biscoitos e balas, que são consumidos tanto por crianças como por adultos, e não estão sujeitos à referida normatização (4). No Brasil, com o objetivo alertar a população sobre o consumo de alimentos industrializados, o Ministério da Saúde lançou uma edição revisada do Guia Alimentar para a População Brasileira e apresenta um conjunto de informações e recomendações sobre alimentação (8).

Nesta nova edição, além dos passos para seguir uma alimentação saudável, o Guia classifica os alimentos de acordo com seu processamento, definindo como: 1) “alimento in natura”: aquele obtido direto da natureza (ex: peixe fresco ou couve fresca); 2) “minimamente processado”: alimento retirado da natureza e submetido a processos simples como cortar, picar ou secar (ex: peixe congelado, couve picada, feijão seco); 3) “alimento processado”: alimento in natura ou minimamente processado essencialmente com a adição de sal ou açúcar (ex: atum em lata, legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães); 4) “alimento ultraprocessado”: aquele que cuja fabricação envolve diversas etapas e técnicas de processamento e vários ingredientes, principalmente os de uso exclusivamente industrial (ex: refrigerantes, biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote” e “macarrão instantâneo”). Assim, a recomendação é clara: produtos industrializados podem fazer parte da nossa alimentação, mas não devem ser a base dela (8).

Guia

Tipos de alimento segundo seu grau de processamento (9).

Portanto, apesar do lamentável cenário mostrado pelas investigações, este episódio trouxe à tona importantes reflexões sobre o impacto da alimentação e da industrialização no nosso cotidiano. É preciso continuar o debate e a investigação desses processos para garantir a informação correta e para dar às pessoas o poder de cobrar mais transparência e respeito por parte da indústria alimentícia. E fica a lição: tanto na divulgação de informações, como na escolha alimentar, vale o ditado “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”… mas sem muito processamento….

(1) Consolidado da legislação brasileira de aditivos alimentares organizada por aditivo, disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/388779/Comp%25C3%25AAndio%2B-%2BJUNHO%2B2015_em%2Batualiza%25C3%25A7%25C3%25A3o2.pdf/a87d0498-d814-4378-81e3-9293f79eb4a9

(2) Du J, Cullen JJ, Buettner GR. Ascorbic acid: chemistry, biology and the treatment of cancer. Biochim Biophys Acta. 2012 Dec;1826(2):443-57. doi: 10.1016/j.bbcan.2012.06.003. Epub 2012 Jun 20.

(3) Fritz et al. Intravenous Vitamin C and Cancer: A Systematic Review. Integr Cancer Ther. 2014 Jul;13(4):280-300. doi: 10.1177/1534735414534463.

(4) Polônio ML, Peres F. Food additive intake and health effects: public health challenges in Brazil. Cad Saude Publica. 2009 Aug;25(8):1653-66.

(5) Dellavalle et al. Nitrate and nitrite intake and risk of colorectal cancer in the Shanghai Women’s Health Study. Int J Cancer. 2014 Jun 15;134(12):2917-26. doi: 10.1002/ijc.28612.

(6) http://dx.doi.org/10.1016/S1470-2045(15)00444-1

(7) http://www.bbc.com/portuguese/brasil-39317738

(8) Guia Alimentar para a População Brasileira, disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

(9) Guia Alimentar para a População Brasileira pág. 51, disponível em: http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/novembro/05/Guia-Alimentar-para-a-pop-brasiliera-Miolo-PDF-Internet.pdf

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Em nome de Alan

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Mural em homenagem ao menino Alan realizado pelos artistas Oguz Sen e Justus Becker. Frankfurt, Alemanha (2016). Fonte: http://bit.ly/2nhZiQ4

Em 2015, a foto de Alan Kurdi, de apenas três anos de idade, às margens do Mediterrâneo tornou-se “símbolo da tragédia dos refugiados sírios”, para citar uma reportagem do The Guardian. Em seu nome e de seus conterrâneos, muitas reportagens foram escritas. Essa semana, um artigo publicado na Vogue confirma que o tema dos refugiados está na moda, literalmente.
Para Rosi Braidotti (2002): “o estado de crise tem se tornado o modus vivendi dos filósofos ocidentais: nós nos comprazemos com isto, escrevemos interminavelmente sobre isso, e se a crise não existisse, provavelmente teríamos que inventá-la” (Op. Cit., p. 3). Pensar a dita “crise” dos refugiados desde uma perspectiva crítica, portanto, constitui um dos maiores desafios de nosso tempo.
Assim faz, por exemplo, Chiara Pussetti (2017) em artigo publicado recentemente acerca dos “paradoxos do assistencialismo e os mártires do Mediterrâneo”. Como síntese das mais terríveis estatísticas, ela afirma que: “Nos últimos seis anos, mais de quarenta mil pessoas perderam a vida tentando chegar às costas europeias: destas, mais de metade foram deixadas no fundo do mar” (Op. Cit., p. 264).
As proporções desse cemitério de pessoas não-identificadas também soam alarmantes em outros setores, como entre a sociedade civil. Dentre esta última, a organização UNITED – European Network against nationalism, racism, fascism and in support of migrants and refugees destaca-se pelo pioneirismo em organizar, desde 1993, uma lista das pessoas que vieram a óbito no decurso migratório para o continente europeu.
Como seria possível imaginar, a maioria dos mortos por afogamento nessa lista não pôde ser identificada. A identificação do nome é basilar do princípio da dignidade humana, como lembra C. Pussetti (2017): “Quando a história é esquecida, a biografia e a identidade individual são negadas, o que resta é o corpo. Corpos (…) que, (…), podemos esquecer no fundo do mar, sem uma sepultura digna, onde alguém os possa chorar.” (Idem ibidem).
Alan Kurdi é o outro extremo dessa tendência e se parece muito, portanto, com o “célebre” naufrágio de Lampedusa (2013), quando:

“O Primeiro Ministro Italiano Enrico Letta decidiu honrar as vítimas com pomposos funerais de Estado e concedeu, aos defuntos, a glória da cidadania italiana honorária, (…). Os que sobreviveram a esta terrível odisseia ficaram fechados nos campos, segregados em asilos, limbos entre prisão e hospital nos confins do estado-nação, à espera de serem expulsos do país. A lei italiana concedeu direitos aos corpos, mas não aos sujeitos destes corpos.” (PUSSETTI, Op. Cit., p. 266, grifo meu).

Atualmente, das 34 mil pessoas que se deslocam forçosamente a cada dia, oito perecem no trajeto para países ditos ‘mais desenvolvidos’. Tristemente, escreve-se mais a respeito desses mortos do que das razões subjacentes a esse deslocamento dos vivos, quando um fato é cada vez mais notável: a guerra não tem geração espontânea, e onde quer que ela ocorra, sempre há alguém lucrando com isso.


Bibliografia

BRAIDOTTI, Rosi. Diferença, Diversidade e Subjetividade Nômade. Tr. Br. Roberta Barbosa, 2002.

PUSSETTI, Chiara. “O silêncio dos inocentes”. Os paradoxos do assistencialismo e os mártires do Mediterrâneo. IN: Interface (Botucatu). 2017; pp. 21(61):263-72. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/icse/v21n61/1414-3283-icse-21-61-0263.pdf> [22 mar 17]

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Crise dos antibióticos e superbactérias: como nos proteger? – Parte 1.

No mês passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma lista monster-426994.jpgde bactérias resistentes para as quais necessitamos urgentemente de novos antibióticos. Essas bactérias resistentes, também conhecidas como superbactérias, tornaram-se resistentes à maioria (ou a todos) os antibióticos disponíveis no momento. No caso de uma infecção por alguma superbactéria, não temos atualmente tratamento suficiente para controlar a infecção, o que pode causar a morte do doente. [1]

Quando pensamos nessas superbactérias entramos em pânico e começamos a procurar meios de nos proteger dessa ameaça. Em geral, nossa primeira atitude é entrar no supermercado e comprar sabonetes, produtos de higiene pessoal e de limpeza doméstica com antibacterianos (por vezes chamados de antimicrobianos ou antissépticos). Estes produtos possuem compostos químicos que prometem reduzir ou prevenir infecções e matar 99,9% das bactérias. Porém, mal sabemos que esse é um dos erros graves que cometemos e, com esta atitude,  promovemos o aumento da quantidade das temidas superbactérias. [2]

E como isso acontece? É simples. Quando lavamos as mãos com um sabonete antibacteriano, exterminamos as bactérias que são sensíveis a este composto químico, mas deixamos para trás as bactérias que são resistentes a ele. Estas bactérias sobreviventes – que antes eram uma minoria – multiplicam-se, e assim se forma uma população maior de bactérias resistentes.

De acordo com a FDA (agência reguladora dos alimentos e dos medicamentos nos EUA), cientistas comprovaram que os sabonetes com antibacterianos (ex. triclosan ou triclocarban) não possuem maior eficiência na prevenção de doenças quando comparados aos sabonetes comuns. Além disto, estes dois compostos químicos podem trazer riscos à saúde quando usados diariamente. [2]

A FDA alerta que estudos com animais demonstraram que o triclosan altera os níveis de hormônios tireoidianos e pesquias em andamento investigam o potencial carcinogênico dessa substância. [3] Outros trabalhos científicos demonstraram que o triclosan é tóxico especialmente para espécies aquáticas, as quais apresentaram alterações hormonais, neurais e inflamações após longa exposição ao produto. Estudos epidemiológicos mostraram a presença do triclosan em tecidos do corpo humano, no leite materno, na urina e no plasma sanguíneo, porém não se sabe ao certo quais são os efeitos desta substância a longo prazo. [4]

Por conta dos ricos à saúde, a FDA proibiu em setembro de 2016 o uso do triclosan e de mais 18 compostos químicos usados como antibacterianos em fórmulas de sabonetes, produtos de higiene pessoal e limpeza. [5] Para quem se perguntou sobre os desinfetantes para as mãos a base de álcool (mínimo de 60%), respirem aliviados, apenas observem se antimicrobianos não foram adicionados à fórmula. [6]

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Para finalizar, a FDA aconselha a higienização das mãos e do corpo com sabonete comum (e água) e enfatiza que este é o melhor método para evitar doenças e prevenir a propagação de bactérias. [2]

(No próximo texto – parte 2 – falarei de outras atitudes que podemos tomar para evitar a resistência microbiana e nos proteger das superbactérias).

Por Aline R.S.

 

Referências:

[1] http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/bacteria-antibiotics-needed/en/

[2] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm378393.htm

[3] https://www.fda.gov/ForConsumers/ConsumerUpdates/ucm205999.htm

[4] http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10937404.2017.1281181

[5] http://www.npr.org/sections/health-shots/2016/09/02/492394717/fda-bans-19-chemicals-used-in-antibacterial-soaps

[6] http://www.businessinsider.com/do-hand-sanitizers-cause-antibiotic-resistance-2014-4?international=true&r=US&IR=T

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Igualdade de gênero na ciência brasileira

Texto escrito em colaboração com @pedroivo000

Recentemente foi publicada uma reportagem na Forbes com o título “Surprising New Study: Brazil Now A Global Leader In Gender Equality In Science” [1] (“Surpreendente novo estudo: Brasil é um líder mundial em igualdade de gêneros em Ciência”, tradução livre), que afirma que o Brasil é um líder em igualdade de gêneros na produção científica do país, já que 49% das publicações científicas brasileiras entre 2011 e 2015 são de autoras femininas. A reportagem se baseia em um relatório intitulado “Gender in the Global Research Landscape” (“Gênero no Cenário Científico Mundial”, tradução livre) [2] publicado pela editora Elsevier, uma das maiores provedoras de publicações científicas do mundo. O relatório é uma extensa análise do estado da igualdade de gêneros na pesquisa científica mundial nas últimas décadas, baseado no banco de dados Scopus, que possui mais de 55 milhões de publicações com respectivas informações sobre os autores de cada publicação. Apesar de um dos resultados principais da pesquisa já ter sido apresentado na reportagem da Forbes, gostaríamos de discutir o relatório da Elsevier mais a fundo, já que levar em consideração apenas a proporção total de publicações científicas do gênero feminino para concluir que realmente existe igualdade de gêneros na pesquisa brasileira pode acabar escondendo desigualdades históricas em algumas áreas de pesquisa.

O Brasil está atualmente na décima quarta posição em número de publicações científicas de acordo com a SCImago Journal & Country Rank [3]. Para se ter uma ideia melhor da contribuição científica brasileira, é interessante olhar as áreas nas quais o Brasil possui maior produção. De acordo com o banco de dados Scopus, as áreas de Saúde e Ciências Biológicas são as áreas que possuem mais publicações no Brasil (Figura 1). Além disso, essas áreas são as que a pesquisa brasileira possui mais impacto, se levarmos em consideração o Index-H, uma medida do impacto de um determinado artigo científico ou pesquisador. O Index-H é calculado a partir do número de citações de um artigo, ou seja, quanto mais citações, maior o valor do Index-H e, por consequência, maior o impacto da pesquisa. Como podemos ver na Figura 2, publicações brasileiras em Medicina e Ciências Biológicas possuem maior impacto do que publicações em Engenharia e outras áreas (o h-index no gráfico é representado pelo diâmetro dos círculos). Em média, os artigos científicos do Brasil são citados 8.96 vezes por artigo, o que corresponde a mais da metade (53.75%) da produção científica da América Latina mas somente 2.37% da produção científica mundial.

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Figura 1. Total de publicações científicas em algumas áreas no Brasil em 2000 e 2015. Medicina e Ciências Biológicas são as áreas que o Brasil mais publicou em 2015, e o número de publicações teve um aumento de mais de 300% e 500% respectivamente, entre 2000 e 2015. Dados do Scopus.

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Figura 2. Visão detalhada das publicações em subáreas da Medicina, Ciências Biológics e ds Agricultura, Engenharia e Física. o diâmetro dos círculos represdnta o Index-H, uma medida de impacto de publicações científicas. No eixo vertical temos o número de citações por artigo. É possível ver que publicações em Medicina possuem um alto percentual de citações, mesmo que a produção científica em algumas subáreas, como a Oncologia, não seja muito alta. Dados do Scopus.

Quantificando a contribuição de cada gênero no total de publicações científicas no Brasil, o relatório da Elsevier constatou que, assim como já foi discutido na reportagem da Forbes, 49% das publicações brasileiras são de pesquisadoras femininas, como podemos ver na Figura 3. Quando comparamos a distribuição de gêneros entres as diferentes áreas de pesquisa no Scopus, vemos que a maioria  dos pesquisadores do gênero feminino estão presentes em Medicina e Ciências Biológicas, enquanto Engenharia e Ciências da Terra e Exatas são campos predominantemente masculinos (Figura 4).

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Figura 3. Proporção total de mulheres e homens entre os autores de artigos científicos presentes no Scopus. O Brasil está na frente dos Estados Unidos e da União Europeia no número de pesquisadoras que publicaram entre 2011 e 2015, o que corresponde a um aumento de 11% no número de autoras brasileiras entre 1996 e 2000.

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Figura 4. Proporção de cada gênero em publicações em diferentes áreas do conhecimento presentes no Scopus. Medicina e Ciências Biológicas são áreas predominantemente representadas por autoras do gênero feminino, enquanto Engenharia e Ciências da Terra e Exatas são áreas predominantemente representadas por autores do gênero masculino.

Historicamente, Ciências Exatas, da Terra e Engenharia são áreas dominadas pelo gênero masculino. Segundo os dados dos pesquisadores registrados na plataforma Lattes, um registro online de pesquisadores e grupos de pesquisa brasileiros mantido pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) [5,6], cerca de 70% dos doutores em Engenharia e 60% dos doutores em Ciências Exatas e da Terra são homens, independente da faixa etária (Figura 5). Por outro lado, mais da metade dos doutores entre 25-65 anos em Ciências Biológicas e Saúde são do gênero feminino. Além disso, 49% das recém-formados doutoras em 2016 (doutoras com idade entre 25-29 anos) são de Ciências Biológicas ou de Saúde, enquanto 44% dos doutores homens recém-formados são de Engenharia ou Ciências Exatas e da Terra.

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Figura 5. Proporção de doutores em diferentes áreas do conhecimento por gênero e faixa etária, de acordo com dados dos currículos presentes atualmente na Plataforma Lattes.

Estereótipos sociais sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade e quais as áreas que homens ou mulheres têm mais chances de sucesso devido a “características e qualidades inerentes” a um determinado gênero tem um papel fundamental na criação e perpetuação da disparidade de gênero na pesquisa brasileira. As chances de uma menina se tornar uma Engenheira ou uma Física no futuro são menores se ela crescer ouvindo comentários negativos sobre a habilidade matemática das mulheres, quando comparadas às chances de uma outra criança, que cresceu em um ambiente sem a presença desses estereótipos negativos [7]. A educação tem um papel crucial na diminuição da desigualdade de gêneros no Brasil nas áreas de Engenharia e Ciências Exatas. A presença de mulheres em profissões de tecnologia na mídia e em filmes também é um fator que pode influenciar na formação de futuras cientistas, como explicado em uma pesquisa do Google [8]. Precisamos lutar para que a sociedade veja que não existe nenhuma razão biológica para uma melhor performance ou preferência de um gênero em uma determinada área de pesquisa, mas sim razões culturais e sociais para este problema.

Mesmo que ainda se observe uma disparidade de gêneros em algumas áreas, há notícias boas: o número de pesquisadoras mulheres ativas em campos majoritariamente masculinos vem aumentando no decorrer dos últimos anos. Segundo o relatório da Elsevier, um aumento de 22% no número de publicações de autoras femininas em Engenharia ocorreu entre 2011 e 2015. São inúmeros fatores que podem ter contribuído para isso, mas a mudança no pensamento e no comportamento da sociedade em relação às habilidades das mulheres em diferentes profissões é essencial para o futuro da ciência.

Referências

  1. https://www.forbes.com/sites/shannonsims/2017/03/08/surprising-new-study-brazil-now-a-global-leader-in-gender-equality-in-science/#5e92b1626f44
  2. https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf
  3. http://www.scimagojr.com/countryrank.php
  4. https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/2016/world-ranking#!/page/0/length/25/locations/BR/sort_by/scores_overall/sort_order/asc/cols/stats
  5. http://plataformalattes.com.br/
  6. http://estatico.cnpq.br/painelLattes/sexofaixaetaria/
  7. American Association of University Women. Why So Few? Women in Science, Technology, Engineering and Mathematics. 2010 (https://www.aauw.org/files/2013/02/Why-So-Few-Women-in-Science-Technology-Engineering-and-Mathematics.pdf)
  8. https://www.google.com/intl/en/about/main/gender-equality-films/
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Saúde é brincadeira de criança

A Constituição Brasileira de 1988 representa um marco histórico e grande avanço no que tange o direito à saúde e à proteção dos direitos humanos. Considerando a grande extensão e diversidade populacional do país, a organização estrutural de manutenção e efetivação dessas conquistas deve ser feita de modo a contemplar tais diferenças.

Dentro do Sistema único de Saúde (SUS), há diversas normas específicas para o cuidado de acordo com as necessidades envolvidas na condição biopsicossocial dos indivíduos. Desse modo, o planejamento de ações em saúde para um adulto, uma criança ou um idoso são diferentes, pois as demandas de cada um são distintas.

Quando se trata de crianças, um grande desafio é a manutenção da prática de um dos pilares do SUS, que é o de empoderamento e protagonismo do indivíduo dentro de seu processo saúde-doença. Nesse ponto, é preciso considerar que as crianças devem ser ouvidas e envolvidas nas discussões em saúde sobre si mesma.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura o direito à vida e à saúde para a criança e o adolescente, conforme artigo 11:

Art. 11. É assegurado atendimento integral à saúde da criança e do adolescente, por intermédio do Sistema Único de Saúde, garantido o acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde. (Redação dada pela Lei nº 11.185, de 2005.

Desde seu nascimento, a criança deve ser acompanhada pela equipe de saúde que atua mais próximo do local onde mora. Em 2011, foi editada a Portaria Nº 1.459, que institui a Rede Cegonha.

a Rede Cegonha é uma organização estruturada dentro do SUS que tem por objetivo assegurar os direitos reprodutivos da mulher, além do atendimento adequado e humanizado das gestantes, desde o pré-natal. Cabe a essa Rede também se responsabilizar pelo cuidado à criança e promover seu desenvolvimento saudável.

Apenas em 2015, foi implementada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da criança (PNAISC), pela Portaria Nº 1.130. Os eixos norteadores da PNAISC, de acordo com o Artigo 4º são:

I – direito à vida e à saúde;

II – prioridade absoluta da criança;

 III – acesso universal à saúde;

 IV – integralidade do cuidado;

V – equidade em saúde;

VI – ambiente facilitador à vida;

 VII – humanização da atenção;

e VIII – gestão participativa e controle social.

O cenário atual é bastante diferente do que acontecia antes dessas estipulações em normas, e as garantias políticas em saúde da criança já possuem boas perspectivas no campo de estruturação. Mas como viabilizar a prática?

Um estudo feito em 2016 analisou a atuação dos consultores estaduais de saúde da criança no território. Um consultor estadual é especialista no tema a ser desenvolvido, nesse caso, em saúde da criança, e presta o serviço de consultoria à gestão. Os resultados apontaram que os consultores estimularam o fortalecimento do componente saúde da criança em seus territórios, inserindo e promulgando ações relacionadas a todos os eixos da PNAISC.

Outro ponto extremamente importante e que deve estar dentro da concepção e prática de estruturação de políticas públicas é o da participação social. O SUS prevê que a comunidade participe nos processos de tomada de decisão. A representatividade deve ser garantida, inclusive das crianças. Essa participação ativa das crianças beneficia seu desenvolvimento, seu processo de referência pessoal e de construção de seu espaço. Os ambientes precisam estar abertos a elas para que a representatividade seja de fato consolidada, mesmo que exija mecanismos diferentes para articular discussões e encaminhamentos.

Os últimos anos foram significativos para a temática de saúde da criança. No entanto, diversas construções em sociedade ainda precisam ser feitas para que essa população possa ter acesso aos conhecimentos de seus direitos sociais, bem como uma atenção à saúde de qualidade e que promova desenvolvimento saudável.

 

Referências:

Redes de atenção à saúde: a Rede Cegonha/Consuelo Penha Castro Marques (Org.). – São Luís, 2015.

Divulgação em Saúde para debate. Rio de Janeiro, n. 53, p. 85-94, 2016. Sonia Isoyama Venancio, Paulo Germano de Frias, Zeni Carvalho Lamy, Lilian Cordova do Espirito Santo, Ricardo Cesar Caraffa. Os modos de fazer consultoria: o olhar da gestão para o trabalho dos consultores de saúde da criança nos estados brasileiros The ways of doing consultancy: the perspective of management for the work of child health consultants in the Brazilian states.

Saúde em Debate. Rio de Janeiro, v. 37, n. 96, p. 139-147, jan./mar. 2013 141 ROLIM, L. B; CRUZ, R. S. B. L. C.; SAMPAIO, K. J. A. J. Participação popular e o controle social como diretriz do SUS: uma revisão narrativa.