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08 de março de 2021

Está tudo muito difícil, sabemos. A pandemia causou mais impactos na vida das mulheres brasileiras, que sofrem ainda mais violência doméstica e sobrecarga de trabalho. O desemprego também afetou mais a elas, e sem o auxílio emergencial, muitas chefes de família estão em situação de vulnerabilidade social.

São as mulheres, também, as principais profissionais na linha de frente do combate ao coronavírus. Há um ano, elas enfrentam jornadas exaustivas, em casa e no trabalho, somadas ao medo de se contaminar e levar o vírus para seus entes queridos.

No meio acadêmico, a produtividade das mulheres despencou, reflexo das desigualdades de gênero e também de raça. Uma pesquisa mostrou que os grupos mais impactados foram os das mulheres negras (com ou sem filhos) e das mulheres brancas (com filhos de até 12 anos).

O dia internacional das mulheres sempre foi uma data de lutas e neste 08 de março de 2021, fazemos coro à Maria Bethânia: queremos vacina, respeito, verdade e misericórdia.

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A coluna de ciências humanas e sociais em 2021

Nos últimos anos, no Brasil, as ciências humanas e sociais têm sofrido ataques ideológicos e cortes de verbas. Por exemplo, em março de 2020, o governo federal excluiu essas áreas do edital de bolsas de iniciação científica do CNPq para priorizar as “tecnológicas”, consideradas como áreas que dão suposto “retorno imediato”. Tal pensamento, errôneo e simplório, não é capaz de perceber a extrema importância das pesquisas de humanas e sociais para a sociedade brasileira. Mesmo agora, enquanto aguardamos a tão esperada vacinação possibilitada pelos esforços de milhares de cientistas mundo afora, percebemos que as humanas e sociais são sim fundamentais. Por exemplo, muitos procuraram na história respostas para o momento em que vivemos. As pesquisas sobre outras pandemias, em especial a da gripe espanhola em 1918, nos mostram que esta também vai passar e comemoraremos o próximo carnaval de forma ainda mais intensa do que em 1919. Já a sociologia aponta o papel central que o SUS tem, não só no combate à pandemia, mas no sistema de saúde como um todo, principalmente em um país tão desigual quanto o Brasil.

A pandemia de covid-19 nos mostrou, também, que precisamos de arte. As lives de artistas, os livros, os filmes têm nos ajudado a suportar esse período tão difícil com mais leveza. Além disso,as pesquisas sobre esses produtos culturais são essenciais para compreender como as sociedades produzem e consomem esses bens.

Precisamos, mais do que nunca, de saúde mental. Pesquisas têm mostrado como houve aumento e agravamento no número de transtornos mentais durante a pandemia. Mapear e pensar estratégias é imprescindível e as ciências humanas e sociais têm papel central na análise e resolução desses problemas.

Estes foram apenas alguns exemplos de como as ciências humanas e sociais são importantes durante a pandemia, mas essa importância se estende muito além. Nas palavras de Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências: “As ciências humanas e sociais têm um alcance amplo e importante para o futuro do país, muito além de um retorno imediato: ensinam a pensar, condição necessária para a construção de uma sociedade ilustrada, democrática e produtiva.”

Por tudo isso, decidimos que, neste ano de 2021, aqui no blog das Cientistas Feministas, a coluna de ciências humanas e sociais vai privilegiar as pesquisas recentes desenvolvidas no país por jovens pesquisadoras, em universidades públicas. Embora maioria nessas áreas, as mulheres, com bastante frequência, ainda não têm seu trabalho reconhecido e as pesquisas feitas pelos pares masculinos acabam recebendo mais destaque. Assim, durante todo o ano de 2021, as leitoras e leitores do blog poderão descobrir pesquisas recentes feitas por cientistas brasileiras durante seus mestrados e doutorados em instituições de ensino e pesquisa públicas, tão fundamentais para o desenvolvimento de nossa ciência.

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A falta de inclusão nos eventos acadêmicos online: a explosão das lives só com homens

Por Mariana Candido*

Como eu escrevi anteriormente, a pandemia provocou uma expansão das lives acadêmicas, uma iniciativa louvável. Em um momento em que estamos todos trancados em nossas casas e em busca de atividades de nos ajudem a passar bem o tempo, professores universitários ocuparam o espaço virtual. De repente, ex-alunos, pais de universitários, avós, estudantes mais jovens e o público excluído do ensino superior teve a oportunidade de assistir o que acontece na universidade. Os eventos online trouxeram a pesquisa e o ensino universitário para o interior das nossas casas, desde que pudéssemos contar com tempo e internet que desse conta de tanta demanda.

Os eventos online prometiam democratizar o acesso ao conhecimento e aproximar as pessoas que estavam isoladas em suas casas. Depois da explosão de lives de artistas que entretiveram as pessoas, professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos começaram a discutir suas pesquisas e experiências profissionais com um público mais amplo, que, muitas vezes, desconhece o que faz um historiador profissional. Foi uma explosão tão grande ao ponto que já não sabemos se estamos vivendo ou só vendo lives! E eu, uma brasileira que saiu do Rio de Janeiro em 1997 para estudar história da África no México e no Canadá, pude escutar, de longe, colegas que, em geral, só encontro em eventos. Associações profissionais e departamentos começaram a divulgar debates e aulas públicas em várias plataformas e sobre assuntos variados, seja a ditadura no Cone Sul, a memória da escravidão no Rio de Janeiro, a história dos movimentos fascistas e o patrimônio cultural em Pernambuco, entre vários outros. Devido à minha área de pesquisa e ensino, assisti a vários eventos sobre escravidão e história da África e aprendi muito, mesmo estando tão longe do Brasil. Conheci o trabalho de novos pesquisadores, pós-graduandos e recém doutores, e pude escutar velhos amigos, a quem admiro e estimo devido a suas trajetórias acadêmicas. Os eventos online me aproximaram da discussão acadêmica no Brasil e assisti, como muito pesar, os ataques racistas a colegas respeitadíssimos.

Eu leio, ensino e cito os estudos sobre escravidão e presença africana feitos e publicados no Brasil porque a pesquisa é referência para os historiadores no exterior. Não é bairrismo meu por ser brasileira. É a pura constatação que a pesquisa feita no Brasil é sólida, metodologicamente criativa e séria. Eu sempre me surpreendo como os estudos publicados em inglês que ignoram a produção intelectual disponível em outra língua, principalmente aquela feita pelos colegas que estão no chamado “Sul Global”. Claro que há exceções, mas é fato que a historiografia anglófona tende a ser insular e ignorar a contribuição intelectual de latino-americanos, africanos e asiáticos. Perdemos todos quando não lemos o que é publicado em outras línguas e em outros contextos acadêmicos.

A convite da Mariana Armond Dias Paes, com quem colaboro em um projeto de pesquisa, fiz a minha estreia nas lives no Instagram das @cientistas feministas. Assisti outras conversas e foi uma oportunidade maravilhosa para me conectar com pesquisadoras que conhecia de eventos ou de leituras. Aprendi muito e vi, com grande satisfação, que amigos e familiares que não são professores universitários também entravam nessas lives. Conversei com a minha mãe e minhas irmãs, que não estão no mundo acadêmico, sobre as lives das professoras Fernanda Thomaz, Fernanda Bretones e Patrícia Melo, o que sugere que há um apetite do público em geral pela história, quando bem contada e acessível. E assisti a várias lives organizadas pelo Núcleo Escravidão e Sociedade na Época Moderna, da UFAL, organizadas pelo professor Gian Carlos.

Os eventos online deixaram evidente que quem tem destaque no mundo acadêmico é o homem branco, com raras exceções, como os eventos que mencionei anteriormente. Isso é verdade para o Brasil, para os Estados Unidos, onde trabalho, ou para o México e o Canadá, dois países onde me formei, ou, ainda, Portugal e Angola, lugares que frequento com certa regularidade devido ao meu ofício. Como eu expliquei num outro texto, os manels, como são chamados os all-male panels, os painéis onde todos os oradores são homens, são alvo de críticas duras nos Estados Unidos. Jornalistas, pesquisadoras, professoras denunciam esses eventos corriqueiramente. E, como a Brigid Schulte, autora de um artigo publicado em 2017, argumentou: não há desculpas para organizar eventos sem mulheres. Historiadoras inclusive organizaram uma base de dados que, ironicamente, ajuda homens a identificar uma especialista mulher em determinado assunto. Women also know history virou um slogan e hashtag nas redes sociais. Outro site oferece ajuda a colegas homens como o juramento de jamais aceitar participar de manels. O movimento #AbajoLosManeles, organizado por estudantes da faculdade de economia da Universidad de Los Andes, tem destaque nas redes sociais e denuncia eventos acadêmicos sem mulheres. Inclusive analisa como as mulheres tendem a ser interrompidas pelos homens quando participam de eventos profissionais.

Apoiar a existência de painéis mais diversos é uma causa fácil. O diretor do National Institute of Health, nos Estados Unidos, o médico geneticista Francis Collins, já declarou publicamente que se recusa a participar desse tipo de painéis. Seria importante que os intelectuais e pesquisadores brasileiros fizessem esforços semelhantes. Infelizmente, esse não é um problema que afeta somente os eventos online durante a pandemia, mas as conferências em geral, assim como os dossiês especiais de revistas e livros organizados que não incluem uma só autora. Mulheres tendem a ser excluídas dos espaços que consagram especialistas, inclusive da lista de autores que sempre citamos ou recomendamos para os nossos estudantes.

Foto Candido

Foto: Woman working on a laptop – Creative Commons http://rawpixel.com/

A ausência de mulheres, particularmente de mulheres negras, nos eventos online, é algo preocupante e que deveria causar constrangimento a todos. E, infelizmente, não é um evento isolado. Não é o caso de um seminário, de um tema específico ou, ainda, de uma palestrante que não pôde participar de última hora. É uma invisibilidade sistemática da produção intelectual feita por mulheres em geral, e por intelectuais negrxs e indígenas, sistematicamente silenciadas. Eventos excludentes e monocromáticos sempre aconteceram nas universidades e foram normalizados, como se o espaço acadêmico fosse naturalmente branco e masculino. Lives sobre O que produz o historiador, por exemplo, parecem não compreender que há mais historiador que o homem branco. Inclusive, as lives que se propõem a discutir o fascismo caem no mesmo problema e reúnem somente homens, sem se interrogar que debate é esse que exclui tanta gente. Como pode, em um país com uma população majoritariamente parda, negra, feminina e com forte presença indígena, justificar a ausência desses grupos em eventos acadêmicos? Até em lançamentos de livros as mulheres estão excluídas. Independentemente da universidade, departamento ou associação que organiza o evento, como justificar que nenhuma professora, branca, negra ou indígena, seja considerada uma interlocutora válida? É importante estarmos atentos à inclusão regional, já que no Brasil também podemos observar uma marginalização recorrente de pesquisadores que estão fora do eixo Sul-Sudeste. Porém, essa questão não pode servir como desculpa para excluir vozes de grupos historicamente silenciados no Brasil e que constituem parcela importante das populações dessas regiões. Por exemplo, a live “Como a escravidão influenciou a organização do trabalho no passado e no presente? foi interessante, contou com um público expressivo, mas foi marcada pela ausência feminina e negra. Muitas mulheres assistiram, comentaram e interagiram com os palestrantes, no entanto, sua participação se restringiu ao live chat. Foi inevitável refletir como a dinâmica de gênero nesses eventos reproduzem o discurso de que mulheres devem ser recatadas e silenciosas.

Essa discussão sobre a falta de diversidade nos eventos online me remete ao debate sobre as cotas universitárias, quando vários ex-professores e alguns colegas de faculdade que hoje são professores universitários argumentavam que implementar as cotas nas universidades brasileiras seria importar ideias americanas. Mais grave: alguns diziam que a qualidade do ensino nas universidades públicas iria cair, afinal, como “adaptar” o alto nível de ensino das universidades públicas a um corpo discente que não estava preparado? Incluir várias vozes no debate acadêmico e na vida universitária deveria estar na agenda de todos e não ser visto como uma “moda americana”.

Foram vários os manels nos últimos meses. O debate Decadência, Atraso e Modernidade na História de Goiás: uma desconstrução reuniu seis homens que jamais se perguntaram a ironia de discutir atraso em 2020 sem incluir um interlocutor negro, indígena ou mulher. Esse não foi o único debate monocromático.Revistas em Debates: co-autoria na pesquisa de história, por exemplo, reuniu quatro editores de várias revistas especializadas: todos homens e brancos. Isso evidencia que são os homens que decidem quem publica e onde se publica, um problema que não é exclusivo do mundo acadêmico brasileiro. Não podemos fingir que esses eventos são exceções e devemos reconhecer que eles são a realidade nas universidades brasileiras, nas quais o corpo docente é majoritariamente branco e masculino. Para quem não frequenta a universidade e só assiste as lives parece que não há pesquisa feita por mulheres. Aqui, repito o título de um texto de 2018: as mulheres também sabem história!

Nas últimas semanas, eventos mais diversos pipocaram, talvez em reação aos manels. A Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros organizou uma jornada de história das mulheres negras e o História Indígena Hoje criou um espaço para a participação dos intelectuais indígenas. No dia 29 de julho, o CACH da Unicamp reuniu as professoras Lucilene Reginaldo, Debora Jeffrey, Maria Luiza Nogueira e Letícia Parks em uma conversa fantástica sobre o papel das mulheres negras no combate ao racismo. Ou seja, espaços menos excludentes começam a aparecer como, por exemplo, o curso “Emancipações e pós-abolição: por uma outra história do Brasil” e o Ciclo de Debates, História da África – Desafios e perspectivas para a pesquisa e o ensino.

Como já escrevi anteriormente, a ausência feminina dos eventos online não é um “problema de mulher”. Além disso, a falta de palestrantes negros não afeta somente os intelectuais negros. Afeta a todos nós que naturalizamos a produção acadêmica e os espaços de debate intelectual como essencialmente masculinos e brancos. A composição étnico-racial e de gênero desses eventos influencia como meninas e meninos são socializados e aspiram a carreiras. A representatividade (ou a falta dela) é algo que deveria preocupar qualquer cidadão que tenha um compromisso com a democracia e a inclusão social. Não dá para defender uma sociedade mais justa nas redes sociais ou nas ruas sem se perguntar como eu, Mariana Pinho Candido, beneficiei-me da existência de uma sociedade brasileira racista. Ou, ainda, como continuo a me beneficiar de uma imigração racista e classista, nos Estados Unidos, o que me permitiu ter um emprego de professora universitária hoje.

Perdemos todos com eventos excludentes. A exclusão feminina e/ou negra dos eventos online está alinhada com as políticas do governo atual: é retrograda e revela a falta de um compromisso sério com a inclusão. No Brasil e nos EUA, não devemos aceitar como normal departamentos de história sem historiadores negros. Ou departamentos que tenham somente um ou dois professores negros e nenhum professor indígena. Precisamos de departamentos que representem a real população brasileira e não uma população imaginada pelo grupo que está no poder.

Um dos argumentos para justificar os painéis nos quais somente homens brancos figuram ou departamentos sem a presença de intelectuais negros e indígenas é a ausência desses grupos entre os historiadores profissionais. Esse argumento é velho e foi utilizado para questionar a necessidade de implementar cotas raciais nas universidades. É o mesmo argumento utilizado para justificar a falta de contratação de professores negros nos concursos. Assim como no debate sobre as cotas raciais, o argumento é que a realidade brasileira é diferente da dos Estados Unidos e que qualquer política de ação afirmativa é uma tentativa de copiar os americanos. Qualquer mudança é desconfortável e exige repensar privilégios e nosso papel na perpetuação das desigualdades. E, assim, mobilizando esses discursos, o assunto é empurrado com a barriga e as desigualdades continuam como estão, como se fossem naturais e incapazes de serem modificadas.

Somos todos responsáveis pela falta de diversidade nos departamentos e nas associações profissionais. Somos coniventes quando não citamos mulheres, quando não nos preocupados com a desigualdade de gênero ou étnico-racial nos eventos que organizamos. Somos coniventes quando somente incluímos especialistas do sexo masculino nos programas de nossos cursos de graduação ou pós-graduação, quando o nosso diálogo é somente com homens ou quando somos incapazes de lembrar o nome de especialistas negrxs. Também quando argumentamos, com convicção, que não há mulheres e/ou algum intelectual negro ou indígena que já escreveu sobre o assunto. Se você não conhece uma autora, talvez seja a hora de expandir seus horizontes. Pode começar por aqui, onde poderá encontrar o nome de várias professoras brasileiras.

Os eventos online, seja no Instagram, Facebook ou YouTube são uma oportunidade excelente para incluir mais vozes e democratizar a produção dos historiadores, principalmente em um momento em que a universidade pública está sob ataque. Ao divulgar e participar de eventos só com pesquisadores homens ou brancos nos alinhamos com o atual governo. É preciso agir para aumentar a inclusão de mulheres, negros e indígenas em todas as esferas acadêmicas, como forma de resistência à onda conservadora no Brasil e no mundo. Talvez a exclusão não seja intencional, mas está introjetada de tal modo que quem participa desse sistema de omissão não percebe que, ao fazê-lo, colabora para perpetuar exclusões de gênero e étnico-raciais. Somos todos coniventes com os silenciamentos e omissões.

Todo pesquisador quer que o evento que organizou tenha destaque nas redes sociais. Ao incluir mais nomes e vozes, os comentários serão sobre a qualidade dos palestrantes ou a temática e não sobre a homogeneidade dos oradores.

* Mariana P. Candido é professora (Associate Professor) de história da África na Emory University, em Atlanta (EUA), desde julho de 2020. Anteriormente, deu aulas na University of Notre Dame, University of Kansas, Princeton University e University of Wisconsin-La Crosse. Concluiu o doutorado em história da África na York University, Canadá, e o mestrado em estudos africanos no El Colegio de México, México. Publicou duas monografias:  Fronteras da Escravização (Benguela: Universidade Katyavala Bwila, 2018) e  An African Slaving Port and the Atlantic World: Benguela and its Hinterland (Cambridge University Press, 2013). Organizou, com Adam Jones, African Women in the Atlantic World. Property, Vulnerability and Mobility, 1680-1880 (James Currey, 2019); com Carlos Liberato, Paul Lovejoy e Renée Soulodre-La France, Laços Atlânticos: África e africanos durante a era do comércio transatlântico de escravos (Museu Nacional da Escravatura/ Ministério da Cultura, 2017); e, com  Ana Lucia Araujo e Paul Lovejoy,  Crossing Memories: Slavery and African Diaspora (African World Press, 2011). Em colaboração com Eugénia Rodrigues, organizou o número especial “Cores, classificações e categorias sociais: os Africanos nos impérios ibéricos, séculos XVI a XIX”, na Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, n. 3 (2018) e “African Women’s access and rights to property in the Portuguese Empire”, na African Economic History, vol. 43 (2015). Desde 2016, é uma das editoras da African Economic History e faz parte do conselho editoral da History in Africa.

 

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Vamos falar de política: por que somos #elenão?

43103402_1965589976840185_2460453641367060480_nO primeiro nome deste site já diz: somos cientistas (ou divulgadoras científicas). Somos muitas e somos plurais. Estamos pelo Brasil todo e até mesmo fora do Brasil, estudando ou trabalhando. O segundo nome diz respeito a um valor muito claro: somos feministas. Ser feminista, acima de tudo, como bem já disse a escritora e intelectual negra Chimamanda Ngozie Adichie, é acreditar na igualdade social e econômica entre homens e mulheres na sociedade. É também lutar por esses valores, estudá-los, escrever sobre eles, encorajá-los e praticá-los.

Se não tivéssemos que prestar atenção nas questões de gênero e de raça, no mundo e no Brasil, não veríamos que os premiados do Nobel são em sua maioria homens – 97% desde 1901 – e brancos. A diversidade e a representatividade não são a regra no universo acadêmico. Mas há pessoas lutando para que esses valores sejam.

Vamos retroceder alguns dias para cutucar uma ferida: em 30 de julho de 2018, o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro disse em entrevista no programa Roda Viva que não existe pesquisa científica no Brasil. No início de agosto, a hashtag #existepesquisanobr invadiu o Twitter e outras redes sociais, levando milhares de cientistas brasileiros a falar sobre seus projetos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Gente que trabalha e tenta contribuir para que a ciência brasileira avance em nosso país e a nível internacional. O que Bolsonaro disse simplesmente joga o trabalho de muitos profissionais no lixo e demonstra profundo desconhecimento sobre o que o Brasil produz, investe e estuda.

Em um apanhado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que consolidou as propostas de governo de cada candidato para ciência, tecnologia e inovação, vemos que Bolsonaro é o candidato do empreendedorismo, de simpatia pela iniciativa privada em conjunto com universidades, do investimento no ensino básico e na visão de ciência como sinônimo de “produto, negócios, riqueza e oportunidades”. Nada contra o empreendedorismo, a iniciativa privada e o investimento em educação básica. Mas ao focar de forma pesada no espírito empreendedor que as universidades deveriam ter e no produto que a ciência deveria gerar, ele não contempla o contexto social brasileiro.

Hoje, no Brasil, segundo o Censo IBGE de 2010, pouco mais de 12,6 milhões de brasileiros concluíram alguma graduação. Para aumentar esse número, as oportunidades precisam ser apresentadas, inclusive estímulos sociais, a exemplo das cotas para entrada em instituições públicas. Outro ponto: a ciência não é só pesquisa aplicada e produtos que geram riquezas. Há muita gente fazendo pesquisa básica e, no projeto de governo de Bolsonaro, esse item passa batido. Ele também propõe reduzir a quantidade de ministérios, mas não diz, por exemplo, onde encaixará ciência e educação. Bolsonaro, de fato, é uma incógnita.

Mas há pontos em que ele é claro e cristalino. Bolsonaro é abertamente a favor da tortura, da família tradicional que envolve apenas homem e mulher, já foi racista e sexista em muitos discursos e é admirador escancarado de uma das pessoas mais horripilantes da história da Ditadura no Brasil: o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Não adianta colar links para comprovar cada uma dessas coisas porque a verdade é que quem o defende sabe de seus valores e o apoia. Ele não tem vergonha de falar essas coisas. Ele é o que é. Mas nós não somos o que ele é. Quem é feminista nunca vai defender o que Bolsonaro defende.

Por isso, deixando bem claro os valores humanos que a gente quer ver em nosso país. Queremos candidatas e candidatos que apoiem a participação feminina em todos os setores da sociedade. Queremos ver nossas mulheres livres, sendo e exercendo o que elas desejam. Queremos respeito à população gay e trans e que essas pessoas possam andar nas ruas sem medo de serem agredidas. Queremos participação da sociedade na dívida histórica que temos com a população negra e indígena. Queremos entendimento sobre o que são os direitos humanos, além de candidatos que os apoiem. Queremos respeito à individualidade e diferença de cada ser humano. Esse mundo da tortura, do homem e da mulher branca acima de tudo, detentores do conhecimento e das boas educações, já marcou durante muito tempo a nossa história.

A história que queremos é bem diferente e não inclui retrocessos nos direitos humanos e sociais, tão pouco a apologia aberta pra que se cometa ainda mais violência no interior de nossa sociedade, tão débil de perspectiva de futuro. Nos colocamos contra qualquer forma de retrocesso, com avanço de uma ideologia neofascista encabeçada por Bolsonaro. As mulheres sempre estiveram à frente das lutas democráticas e da busca pelo bem comum; seguiremos firmes em nossos objetivos, até a vitória.