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Moon Girl, uma heroína dos quadrinhos para conhecer e se inspirar

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capa do volume #13 por Amy Reeder.

Lunella Lafayete é uma heroína negra de nove anos, protagonista da história em quadrinhos ‘Moongirl and the Devil Dinosaurs’. Com inteligência superior a de crianças da sua idade, Lunella não se interessa muito pelos assuntos estudados na escola, por isso, ganhou o apelido de ‘Moon Girl’ entre os colegas, por viver no mundo da lua e inventar ‘esquisitices’.

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Quarto de Lunella Lafayete e sua paixão por astronomia.

A garota adquiriu o gene alienígena Kree, depois que uma nuvem de produtos químicos surgiu na cidade, que poderá, no futuro, conceder diversos superpoderes. Com todas essas características que a tornam singular, ela tem poucos amigos e se incomoda por não ser comum, tenta construir um aparelho que possa impedir que seus superpoderes se desenvolvam e evitar novas mudanças radicais em sua vida.

Seu parceiro é um dinossauro vermelho, que surge na cidade em que mora depois que Lunella abre por acidente um portal do tempo em um de seus experimentos científicos. The Devil Dinosaurs, um personagem que já apareceu em histórias dos anos 70, ajuda a menina a lidar com o sentimento de inadequação.

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Algumas das pessoas mais divertidas que conheço são cientistas” — Mae Jemison, primeira mulher negra astronauta a ir ao espaço. Todos os números trazem referências a cientistas importantes.

A criação da personagem por Amy Reeder, Brandon Montclare e Natacha Bustos representa uma mudança nos quadrinhos  mais populares (ou da cena comercial atual) na busca de incluir diversidade e representatividade, diminuindo um cenário histórico de hegemonia de personagens brancos, homens, heterossexuais e adultos, o que só era possível encontrar apenas em produções independentes. Uma das motivações da editora é conquistar novos leitores, que se identifiquem com as personagens. Outra heroína criada recentemente que faz parte dessa mudança é Kamala Kahn, uma adolescente muçulmana que protagoniza a série Ms. Marvel, uma das mais elogiadas do ano passado.

E por que escrever sobre esse quadrinho em um blog sobre ciência e feminismo? Além da importância da presença de uma heroína menina e negra no sentido de representatividade, a paixão de Lunella por pelo universo científico é inspiradora. Lunella é uma grande inventora e entende de engenharia e computação, e parte dos atos heroicos da menina envolvem seus experimentos,  inteligência e habilidade científica.

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Uma cientista em seu laboratório não é uma mera técnica: é também uma criança confrontando fenômenos que impressionam como se fossem contos de fada” — Mare Curie, Lunella e seu amigo dinossauro.

O ponto forte desse quadrinho é a possibilidade de incentivar meninas a se interessarem por ciências e áreas que historicamente foram estimuladas apenas para meninos. A arte e o roteiro tem uma série de referências às ciências e frases de cientistas importantes.

Recentemente foi anunciado oficialmente que Lunella é a heroína mais inteligente do Terra. O que rendeu a ela esse título foi a solução de desafios científicos que outros heróis considerados inteligentes não conseguiram resolver, e a solução desses problemas também salvou o mundo.

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“Moon Girl, a pessoa mais inteligente do Universo Marvel?!” Uma das criadoras da personagem, Amy Reeder, comomera no twitter.

A série, lançada em 2015, conta quinze volumes, mas ainda não há previsão do lançamento do quadrinho no Brasil. Foi eleita pelo site heroic girls uma das melhores hqs para crianças e adolescentes de 2016. Aguardamos ansiosamente para admirar a beleza do traço e acompanhar as aventuras da pequena heroína no mundo científico.

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Arte linda de Amy Reeder para a capa do volume #16.

Referências:

Moon Girl and the Devil Dinosaur – Amy Reeder , Brandon Montclare e Natacha Bustos
Ms. Marvel –  Adrian Alphona, Gwendolyn Willow Wilson

 

 

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Justiça Reprodutiva ou Direitos Reprodutivos, o que as mulheres negras querem?

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Foto: Claudia Ferreira, E-book Marcha das Mulheres Negras

O movimento de mulheres negras vem ao longo dos anos apresentando na luta por direitos humanos e na busca por correções de injustiças sociais, conceitos e teorias que deem conta dessa dinâmica forjada pela intersecção do racismo e do sexismo.

A Justiça Reprodutiva é um dos conceitos que se apresenta com a finalidade de ampliar o olhar sobre os direitos reprodutivos porque traz conjuntamente os direitos humanos e a justiça social para o exercício pleno da saúde reprodutiva.

Vista como uma teoria interseccional, a Justiça Reprodutiva emerge das experiências de mulheres negras que vivenciam um conjunto complexo de opressões e hierarquias reprodutivas. Baseia-se no entendimento de que os impactos das opressões de raça, classe, gênero e de orientação sexual não são aditivos, mas integrativos, produzindo esse paradigma de interseccionalidade (Trust Black Women).

O conceito Justiça Reprodutiva foi criado em 1994, logo após a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, que aconteceu no Cairo, e foi o movimento de mulheres afro-americanas que cunharam o conceito, partindo do entendimento que a justiça reprodutiva fornece um ambiente político para um conjunto de ideias, aspirações e visões que engloba todas as questões relacionadas à justiça social e aos direitos humanos.

Neste sentido, sobre a questão do aborto e a sua legalização, Angela Davis em seu livro Mulheres, Raça e Classe (2016) diz o seguinte: “Quando as mulheres negras e latinas recorriam ao aborto em tão grande número, as histórias que contavam não eram sobre o seu desejo de se verem livre das suas gravidezes, mas antes sobre as miseráveis condições que as dissuadiam de trazer novas vidas ao mundo.” Ou seja, para exercitar o direito reprodutivo, na decisão pelo aborto por exemplo, há necessidade de que outros direitos sejam garantidos, assim como o ambiente precisa ser livre das opressões racistas e sexistas, isso é o que defende a Justiça Reprodutiva.

Sobre a gravidez na adolescência, muitos estudos evidenciam que a maior ocorrência é em jovens negras, de menor renda e escolaridade e de periferia, e podendo desta forma ser observado que as questões de ordem social interferem na saúde reprodutiva e no exercício do seu direito.

Essas adolescentes iniciam a vida sexual mais cedo e na maioria das vezes a gravidez ocorre próxima a primeira relação sexual (Menezes, 2006) (Heilborn; Bozon, 2009). Uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro evidenciou que o intervalo entre estes os dois eventos é, em média, 2,3 anos para as mulheres do interior e 3,7 anos para as da capital, apresentando as diferenças de acordo com o contexto em que as mulheres estejam inseridas (Heilborn et al., 2009).

A educação precária e falta de oportunidades para a comunidade nas diversas agendas sociais e políticas, ou seja, sem um ambiente saudável em que possibilidades sejam lançadas, as jovens não poderão tomar decisões, planejar a sua reprodução e exercitar a sua sexualidade com liberdade e autonomia.

Relembrando o movimento de mulheres negras que elaborou  um documento preparatório para a Conferência Mundial de População e Desenvolvimento de Cairo/94, a “Declaração de Itapecerica da Serra”, no qual apontava a liberdade reprodutiva como essencial para raças discriminadas e reivindicava do Estado brasileiro a garantia dos direitos reprodutivos, assegurando condições para a manutenção da vida, com condições necessárias para que as mulheres negras pudessem exercer a sua sexualidade e seus direitos reprodutivos, controlando a sua própria fecundidade e decidindo se querem ter ou não ter os filhos. Esta declaração se aproxima do que chamamos de Justiça Reprodutiva.

Ao falar sobre a legalização do aborto em uma entrevista, Angela Davis diz que “os direitos ao aborto são fundamentais para as mulheres e a democracia. Mas eles não podem ser considerados separadamente de outros direitos reprodutivos, como o de ser livre do abuso da esterilização, do direito de ter filhos. Também não se pode assumir que uma vitória nesse campo para as mulheres ricas, que são capazes de arcar com os custos do aborto, seja uma vitória para as pobres”, Ela estava se referindo ao contexto Estadunidense.

Bem, este texto ainda é um ensaio sobre Justiça Reprodutiva, para que possamos ampliar nossos debates e fortalecer a agenda dos direitos reprodutivos sobre a égide das justiças no Brasil para as mulheres negras, principalmente. Durante este ano de 2017 tentarei escrever mais focada nos temas relacionados a reprodução: opressões reprodutivas, hierarquias reprodutivas, parto humanizado, medicalização da reprodução, tecnologias reprodutivas e gravidez na adolescência sobre o viés da Justiça Reprodutiva e do Racismo.

Vamos às demandas, que venha 2017 ♥ !!!

Referencias

Davis, Angela. Mulheres, Raça e Classe. Editora Boitempo, São Paulo. (2016)

Heilborn, M. L.; Bozon, M. Iniciação à Sexualidade: Modos de Socialização de Gênero e Trajetórias Individuais. In: O aprendizado da sexualidade: reprodução e trajetórias sociais de jovens brasileiros. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2009. p. 155–216.

Heringer, R. Desigualdades raciais no Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das políticas públicas. Cadernos de Saúde Pública, v. 18, p. S57–S65, 2002.

Menezes GMS. Aborto, juventude e saúde: um estudo em três capitais brasileiras [Tese de Doutorado]. Salvador: Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia; 2006.

Declaração de Itapecerica da Serra das Mulheres Negras Brasileiras. Geledés, 1993.

Understanding Reproductive Justice – http://www.trustblackwomen.org/our-work/what-is-reproductive-justice/9-what-is-reproductive-justice

Brasil e EUA fracassaram em abolir escravidão, afirma Angela Davis -http://racismoambiental.net.br/2016/09/27/brasil-e-eua-fracassaram-em-abolir-escravidao-afirma-angela-davis/

 

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Livro “A guerra não tem rosto de mulher” conta a trajetória de mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial através da História Oral

Embora muitas vezes se diga que a História é contada pelos vencedores, pesquisadoras e pesquisadores tem tentado, já há algum tempo, mudar esse cenário. Histórias de pessoas comuns, de trabalhadores, de mulheres, de minorias étnicas, vem ganhando espaço nas pesquisas acadêmicas. (Às vezes os resultados demoram para chegar ao público geral, e iniciativas como o blog Cientistas Feministas tem justamente a intenção de aproximar universidade e sociedade.)

Um dos campos historiográficos que tem possibilitado contar essas outras histórias é a História Oral. Segundo o CPDOC, a História Oral começou a ser utilizada na década de 1950 nos Estados Unidos, México e Europa e difundiu-se desde então. No Brasil, foi a partir dos anos setenta que começaram os trabalhos com entrevistas como fontes de pesquisa. Nessa mesma década, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch começou a colher depoimentos de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. O resultado foi “A guerra não tem rosto de mulher”, o primeiro livro da jornalista.

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Imagem: três guerrilheiras soviéticas em ação durante a II Guerra. Fonte: The Atlantic

Publicado primeiro em uma edição curta em uma revista soviética em 1984 e no ano seguinte no formato de livro, o texto foi traduzido para o português e lançado no Brasil somente no ano passado. “A guerra não tem rosto de mulher” intercala trechos de depoimentos com comentários da autora. Nesses espaços, Svetlana reflete sobre o próprio fazer de sua obra e da dificuldade de trabalhar com esse tipo de material.

Uma das preocupações acerca da História Oral é como ela se aproxima do que “de fato aconteceu”. Mesmo com outros tipos de documento como suporte, no entanto, tal tarefa é impossível: não existe a verdade absoluta sobre o passado. Nas palavras do historiador David Lowenthal:

Não há verdade histórica absoluta à espera de ser descoberta; por mais diligente e imparcial que o historiador seja, ele, assim como nossas lembranças, não estará apto a relatar o passado “como ele realmente foi”. Nem por isso a história fica invalidada; persiste a crença de que o conhecimento histórico venha a lançar alguma luz sobre o passado, e que componentes da verdade ainda nele permaneçam (LOWENTHAL, 1998, p.143-4).

Svetlana Aleksiévitch coletou depoimentos de mais de quinhentas mulheres. Ouviu histórias de tanquistas, franco-atiradoras, enfermeiras, médicas, pilotas, cozinheiras, lavadeiras, comandantes, partisans… Ela explica porque quis ouvir mulheres que exerceram atividades tão diferentes:

Depois de classificar os endereços que tinha, formulei assim: tentar entrevistar mulheres de diferentes profissões militares. Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta… Cada uma delas esteve na guerra que existia em seu raio de visão: a de uma era a mesa de cirurgia: “Vi tantos braços e pernas amputados… Já nem acreditava que em algum lugar havia um homem inteiro. Parecia que todos estavam feridos ou mortos…” (A. Diémtchenko, primeiro-sargento, enfermeira); de outra, os caldeirões da cozinha de campanha: “Depois de um combate às vezes não sobrava ninguém… Você cozinhava caldeirões de mingau, caldeirões de sopa, e não havia para quem dar…” (I. Zínina, soldado, cozinheira); a da terceira era a cabine de piloto: “Nosso acampamento ficava na floresta. Cheguei do voo e decidi entrar na floresta; já estávamos no meio do verão, os morangos estavam no ponto. Passava por uma trilha quando vi um alemão no chão… Ele já estava escuro… Me deu medo. Até aquele momento ainda não tinha visto mortos, e já combatia na guerra havia um ano. Lá no alto era diferente… Quando você está voando, só pensa em uma coisa: encontrar o alvo, bombardear e voltar. Não chegávamos a ver os mortos. Não tínhamos esse medo…” (A. Bóndarieva, tenente da guarda, piloto).

Nos trechos selecionados pela autora para o livro, percebe-se uma preocupação que ela mesma afirma ter:

Estou escrevendo uma história dos sentimentos… Uma história da alma… Não é a história da guerra ou do Estado, e não é a hagiografia dos heróis, mas a história do pequeno ser humano arrancado da vida comum e jogado na profundeza épica de um acontecimento enorme. Na grande História.

Os depoimentos trazem o dia a dia na guerra, os cheiros e cores do conflito. Trazem também a dureza de ser mulher em um ambiente masculino:

Não havia algodão e ataduras suficientes para os feridos… Para outros usos, então… Roupa de baixo feminina só apareceu uns dois anos depois, talvez.
Maria Semiónovna Kaliberdá, sargento, comunicações

Ainda sobre menstruação, uma outra mulher contou:

E, por causa da sobrecarga, deixamos de ser mulheres… Se transformou, a nossa… Perdemos nosso ciclo biológico… Dá para entender? Foi terrível. Era terrível pensar que você nunca mais vai ser mulher…
Maria Nésterovna Kuzmenko, primeiro-sargento, armeira

Quando a guerra finalmente acabou, as mulheres que lutaram achavam que finalmente iam ter paz, mas “depois da guerra ainda tivemos mais uma guerra. Terrível também”. Elas contam que foram hostilizadas pelas mulheres que não foram à guerra e pelos homens, que as abandonaram.

Depois de trinta anos começaram a nos homenagear… Convidavam para encontros… No começo nos escondíamos, não usávamos nem as medalhas. Os homens usavam, as mulheres não. Os homens eram vencedores, heróis, noivos, a guerra era deles; já para nós, olhavam com outros olhos. Era completamente diferente… Vou lhe dizer, tomaram a vitória de nós.
Valentina Pávlovna Maksimtchuk, operadora de artilharia antiaérea

Lendo os relatos, tem-se a certeza de que essa história precisa ser contada, ainda que seja difícil. Nas palavras de uma delas: “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Rememorar a violência, as mortes, o cotidiano duro e transformar isso em palavras é o mais próximo que conseguimos chegar do que essas mulheres passaram:

Será que alguém que não esteve lá consegue entender? E como contar? Com que rosto? Bom, me responda você: com que rosto isso deve ser recordado?
Tamara Stiepánovna Umniáguina, terceiro-sargento da guarda, enfermeira-instrutora

Referências:

ALESKIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

LOWENTHAL, David, “Como conhecemos o passado”, Projeto História, [v.]17, 1998. Disponível em:
< http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/11110/8154 >. Acesso em: 16 mai. 2016.

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A academia e o tapinha nas costas

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Detalhe de uma propaganda veiculada pela cerveja Ballantine Ale, na década de 1950.

Diversas vertentes do feminismo criticam a dualidade artificial entre o público e o privado, ressaltando seu papel fundamental na reprodução cotidiana do machismo e das opressões de gênero. A construção da dicotomia entre esfera pública e esfera privada é histórica e, portanto, sua naturalidade deve ser contestada. A essa dualidade, corresponde a ideia largamente disseminada de que a política se desenrola na esfera pública, enquanto determinadas situações, temas e experiências são relegados à esfera privada, tida como “apolítica”. O que acontece na esfera privada teria, então, um caráter eminentemente pessoal e íntimo.

Contudo, os papéis de poder na esfera privada e na pública estão vinculados. As relações de poder na esfera pública reproduzem, a seu próprio modo, relações estabelecidas na esfera privada. Por isso, contestar a naturalidade da dualidade entre o “público” e o “privado” é um passo importante para visualizarmos – e combatermos – uma das sutilezas do machismo e da hierarquização de gênero no âmbito acadêmico: os grupos de “amigos” entre pesquisadores homens.

Já há muito, o machismo, no âmbito acadêmico, é criticado e são cada vez mais contestadas, por exemplo, mesas de eventos compostas apenas por homens, bancas cujos membros são todos homens, grupos de pesquisa formados só por homens e por aí vai. Em muitos casos, esses arranjos exclusivamente masculinos acontecem porque os organizadores e coordenadores são abertamente machistas e misóginos, menosprezando a capacidade científica das mulheres. Outras vezes, mobiliza-se o argumento de que não há – ou há muito poucas – mulheres na área. Em grande parte das vezes, no entanto, a ausência de mulheres pode ser reflexo da ausência de problematização da separação artificial entre o público e o privado pelos pesquisadores. Para ilustrar esse argumento, vou descrever um acontecimento recente.

No final do ano passado, em meio às diversas comemorações de fim de ano, um grupo de professores e pesquisadores de esquerda, apoiadores dos feminismos, contrários ao machismo e etc. se reuniram em um jantar só de homens pesquisadores e denominaram seu grupo de “Confraria”. As fotos do jantar da “Confraria” foram publicadas no Facebook de vários deles, alguns até mesmo usando a legenda “a nata da área X”.

Imediatamente, os “confrades” foram criticados por mulheres da mesma área, que apontaram o fato de que, no jantar, só estavam presentes homens e que isso era mais uma expressão da exclusão das mulheres dos espaços acadêmicos. A essas críticas, alguns dos “confrades” responderam que as mulheres estavam confundindo as coisas. Aquele jantar não era um espaço acadêmico. Não estavam debatendo nenhuma pesquisa. Era apenas um encontro de amigos. Aconteceu de ser um jantar, mas poderia ter sido um jogo de futebol ou qualquer outra situação cotidiana e supostamente privada.

O que os “confrades” que reagiram às críticas não perceberam – ou não quiseram perceber – é que não existe essa separação óbvia entre evento acadêmico (público) e jantar de amigos (privado). Como já argumentei acima, esse tipo de separação é artificial e, no caso específico da academia, os laços criados em espaços tidos como privados têm impactos diretos na predominância dos homens nos espaços acadêmicos tidos como públicos.

Ao pensar em pessoas para compor uma mesa de congresso ou em um grupo para iniciar um projeto de pesquisa conjunto, por exemplo, os primeiros nomes que vêm à cabeça dos organizadores são os dos pesquisadores mais próximos, com quem se tem um diálogo mais aberto. Porém, essa “aproximação” ocorre muito mais em momentos “privados” entre colegas – bares pós-congressos, por exemplo – do que nos momentos de debate “público”. Como um pesquisador homem pode ter facilidade para se lembrar da existência de uma pesquisadora mulher na hora de compor um grupo ou organizar um evento se essa relação não foi cultivada em diferentes espaços?

Na maioria dos casos, esse tipo de seleção de gênero não caracteriza uma prática institucionalizada de favoritismo. É bem mais sútil do que isso. Trata-se de socialização, de networking. Trata-se, enfim, de dar um tapinha nas costas. E é nesse processo de socialização que os pesquisadores cotidianamente alijam as pesquisadoras da inserção no meio acadêmico. A maneira como pesquisadores homens socializam entre si é fechada, exclui as mulheres, é feita por meio de códigos que as mulheres não costumam dominar, dominam com custos mais altos ou não são valorizados quando dominados por mulheres. Para uma mulher conseguir entrar nesses ambientes de socialização masculina, são necessários grandes esforços. E, frequentemente, sequer a possibilidade de entrada está disponível. Como no caso dos “confrades”, cujo nome do jantar já indicava a vedação à presença de qualquer mulher.

Ademais, é importante ressaltar que, frequentemente, a exclusão das mulheres dos espaços “privados” de convivência implica um esforço extra para as pesquisadoras nos espaços profissionais, exigindo delas um nível de qualidade de produção que não é exigido dos homens para a obtenção dos mesmos benefícios, uma vez que os pesquisadores contam, para sua ascensão profissional, com um empurrão propiciado pela socialização que exercem com seus pares em ambientes supostamente privados.

Assim como nas relações sociais em geral, a separação entre público e privado não deve ser naturalizada no âmbito acadêmico. Não existe algo como eventos acadêmicos não vinculados a programas “sociais”, “íntimos”, “entre amigos”. Esses diferentes tipos de interações estão intrinsecamente relacionados à vida profissional, contribuem para a reprodução de relações de poder neste último espaço e, assim, levam as opressões de gênero da vida “privada” para a vida “pública”. O tapinha nas costas não é “inocente”. Ele é a materialização do machismo cotidiano em determinada linguagem, justificada pela dicotomia público-privado.

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As nanomáquinas no Nobel de 2016 (ou como um episódio de Liga da Justiça me fez escolher essa carreira)

Quando eu estava no ensino médio a minha rotina era a seguinte: ir à escola de manhã, voltar pra casa, preparar um copão de Nescau que eu deixava gelando, almoçar assistindo Liga da Justiça no SBT, tomar o Nescau que já estava gelado e fazer o que eu tinha que fazer pra escola ou as minhas obrigações lá de casa. Em dias mais felizes, eu só jogava The Sims mesmo.

Aí no meio a gente percebe que eu fiz uma escolha muito errada e uma muito certa. A errada, obviamente, era beber 300mL de leite depois do almoço. A certa,assistir Liga da Justiça. Foi nesse desenho que eu ouvi pela primeira vez a palavra “nanotecnologia” e mesmo sem entender direito o que era aquilo, eu achei lindo demais.

Em um episódio de Liga da Justiça – Sem Limites chamado Coração Negro (Dark Heart, para as bilíngues) um organismo/máquina autorreplicante começa a se desenvolver no alto de uma montanha e tenta “engolir” um estado inteiro dos EUA. Mas tinha um herói da Liga, o Eléktron, que sabia lidar com esse tipo de tecnologia e conseguiu salvar todo mundo. E, olha, no fim nem era essa alegria toda o dia ser salvo pelas Meninas Super Poderosas pelo Eléktron, sabe? Lá pelo meio do episódio eu já estava totalmente apaixonada pela máquina nanotecnológica e nem queria que ela “morresse”.

Voltando a narrativa sobre a minha linda juventude ♪ página de um livro bom ♫, eu usei muitos do meus minutos nas lan houses da época pesquisando sobre o que era nanotecnologia e como isso podia mudar o mundo. Sinceramente, eu não entendi muito na época mas ficou na minha cabeça e eu queria entender mais sobre isso. Trilhando os caminhos que eu trilhei, cá estou eu no mestrado estudando a físico-química dos processos moleculares e fazendo aquela menina de 16 anos ter um pouco de orgulho de mim (principalmente porque eu parei de tomar leite depois do almoço, argh).

Pequenos frascos, melhores perfumes

Pra entender o que é uma nanomáquina e o que é esse BOOM! da nanotecnologia, precisamos entender primeiro o que é um nanomaterial, a matéria nanoparticulada e o que é a escala nanométrica.

Um nanômetro é uma unidade de 1×10-9 metro, ou seja, 0,000000001 metro. É, é muito pequeno mesmo. Pra você ter ideia, a espessura média de um fio de cabelo humano é 60μm (60×10-6m = 0,00006 metros) um sextilhão de vezes maior que um nanômetro! Mentira, é só 10 mil vezes maior.

A matéria nanoparticulada é “uma coleção de partículas com pelo menos uma dimensão menor que 100nm”.  Partículas nanométricas são criadas em inúmeros processos físicos, inclusive processos naturais, como a erosão e a combustão. E os nanomateriais são materiais compostos por essas matéria nanoparticulada.

Até aqui, tudo bem, mas você deve estar aí no seu computador pensando “ata, mas como que um negocinho desse tamanho muda a minha vida?”.

Bom, a questão é que uma estrutura com essas dimensões, do tamanho da nossa paciência quando macho pergunta “se essa raiva toda é TPM”, é pequena o suficiente pra entrar dentro de uma célula humana e interagir com as estruturas que estão lá. Até mesmo com o DNA! Esta capacidade permite penetrar barreiras fisiológicas e se movimentar dentro dos sistemas circulatórios de um hospedeiro, por exemplo. O tamanho dessas nanopartículas são comparáveis ao tamanho dos vírus, cujo os menores têm dimensões de dezenas de nanômetros. Uma partícula de HIV (vírus da imunodeficiência humana) tem cerca de 100nm de diâmetro, o que na ciência da nanotecnologia pode ser chamado de “nanoorganismo”.

Juntando as informações acima, vem a pergunta: então uma nanoestrutura poderia ter a função específica de inativar um vírus, por exemplo? É, na teoria pode sim, claro. Mas até algum tempo atrás, isso era uma realidade muito distante. No entanto, o trabalho de alguns cientistas mudaram esse cenário e transformaram a hipótese em algo muito mais palpável.

Palpável não, né?

Porque tem 1.10-9 metro.

Ok.

Vocês entenderam.

As nanomáquinas de Jean-Pierre Sauvage, Fraser Stoddart e Bernard Feringa

Em 5 de outubro de 2016 os químicos Jean-Pierre Sauvage, Fraser Stoddart e Bernard Feringa foram laureados com o Prêmio Nobel de Química de 2016 “pela a concepção e síntese de máquinas moleculares”. Cabe esclarecer que o Nobel, geralmente, é concedido pela obra do cientista. Então são várias pesquisas, artigos e trabalhos que esses três pesquisadores vêm desenvolvendo desde os anos 1980 que os levaram à essa honraria.

Para que a gente entenda a dimensão desse avanço, podemos ter em mente as palavras de David Leigh em seu artigo “Genesis of the Nanomachines: The 2016 Nobel Prize in Chemistry”:

“Talvez a melhor maneira de apreciar o potencial tecnológico das máquinas moleculares é reconhecer que elas estão no cerne de cada processo biológico significativo. Em contraste com a biologia, nenhuma das tecnologias atuais da humanidade explora de forma alguma o movimento a nível molecular controlado: todo catalisador, todo material, todo polímero, todo produto farmacêutico, todo reagente, funciona através de suas propriedades dinâmicas, estáticas ou de equilíbrio. Quando aprendemos a construir estruturas artificiais que podem controlar e explorar o movimento a nível molecular e interagir suas finalidades diretamente com outras subestruturas a nível molecular e com o mundo exterior, certamente impactará em todos os aspectos da modelagem funcional e do design de materiais.”

Vocês ficaram arrepiados/emocionados com a explicação do Leigh? Eu fiquei.

Neste mesmo texto, Leigh comenta ainda que grande parte dos progressos realizados na maquinaria molecular é resultado da invenção de vias sintéticas eficazes para moléculas mecanicamente interligadas: os catenanos e rotaxanos.

Estruturas dos catenanos e roxatanos, respectivamente

Essas estruturas – que são conhecidas como estruturas moleculares entrelaçadas (porque elas são entrelaçadas umas às outras mesmo, confere lá) – possuem propriedades como a criação de eixos de rotação intermolecular. Antes do início dos anos 80, os rotaxanos e os catenanos só podiam ser feitos em quantidades minúsculas e através de longas rotas sintéticas. Em 1983, um golpe de gênio de Sauvage iniciou uma revolução na síntese de moléculas interligadas.

O grupo de Stoddart sintetizou “interruptores moleculares” usando catenanos e roxatanos.

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Primeiro interruptor molecular, desenvolvido por Stoddart e colaboradores (Bissel at all, 1994)

Esses interruptores foram aplicados a áreas como a eletrônica molecular e sistemas de liberação de “nanocontainers”. Além disso, também foram sintetizadas estruturas moleculares que se assemelham a um “elevador molecular”.

Já em 1999, o grupo de Bernard Feringa produziu o primeiro motor molecular rotativo, usando um overcrowded alkene.

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Primeiro motor molecular rotativo, usando overcrowded alkene, conduzido por luz (Feringa et al, 1990)

Os motores moleculares mais rápidos, desenvolvidos no laboratório de Feringa, foram usados para executar tarefas complexas como girar uma barra de vidro em uma película cristalina líquida e o principal: impulsionar as rodas de um nanocarro em uma superfície.

Sim.

Um carro.

Um nanocarro.

Isso mesmo.

Tenho certeza que se vocês não ficaram arrepiados/emocionados ali em cima, agora ficaram!

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[sussurro] Nanocarro… [\sussurro]

Ainda usando as palavras de David Leigh:

“Este Prêmio Nobel [de 2016] não é sobre curar o câncer (ainda não) […] nem sobre coletar a energia do sol (ainda não). É um Prêmio Nobel dado para a enorme criatividade científica, para ciência inspiradora, ciência que faz você sonhar “e se?”. É um Prêmio Nobel sobre o que o futuro pode trazer e uma convocação para todos aqueles que desejam aceitar o desafio de inventar.”

Nós não temos (ainda não, haha) nanomáquinas capazes de se replicar ou de engolir um estado inteiro mas é muito bonito ver o caminho que esse assunto está seguindo e pensar nas aplicações que ele pode ter. Sempre que uma curiosidade científica passar por sua cabeça, não deixe de persegui-la e tentar compreendê-la. São esses e outros “e se?” que nos tiraram da Idade do Fogo e nós trouxeram à Idade dos Memes.

eu-tive-a-leve-impress-o-de-que-voc-tentou-se-engra-ado

#DesculpaDrauzio 😦

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O caso de Céspedes: o “gênero fluído” de um(a) liberto(a) na Espanha do século XVI

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(RIZI, Francisco. Auto de Fe en la plaza Mayor de Madrid. 1683. Óleo sobre lienzo, 277 x 438 cm. Museo Nacional del Prado)

No último número do Bulletin for Spanish and Portuguese Historical Studies, as pesquisadoras Aurelia Martín Casares e Magdalena Díaz Hernándes apresentaram uma pesquisa que se propõe a abordar novos aspectos do caso de Elena/Eleno de Céspedes. O artigo publicado se intitula “Nuevas reflexiones sobre ‘Elena, alias Eleno de Céspedes’, transgénero, redes sociales y libertad en la España del siglo XVI”.

Céspedes nasceu de mãe escrava, na Espanha do século XVI. Ela/ele recebeu o nome de Elena e, ao que tudo indica, durante a infância, serviu a família dos senhores de sua mãe. Parece ter sido libertada(o) por volta de seus 15 ou 16 anos, adotando o sobrenome da família à qual havia servido: Céspedes. Nessa mesma época, casou-se com Cristóbal Lombardo, um pedreiro, com quem teve um filho.

Em um dado momento de sua vida, “abandonou” seu marido e seu filho e mudou-se para o sul da Espanha, perto da região de Cádiz, onde se envolveu em uma briga com um homem chamado Heredia. As pesquisadoras apontam como causa provável dessa briga questões em torno de alguma mulher. Em razão dessa briga, foi presa(o) pela primeira vez. Por sofrer ameaças dos companheiros de Heredia, Céspedes deixou de usar roupas “de mulher” e passou a vestir-se “como homem”. Também foi a partir daí que passou a desempenhar trabalhos tidos como masculinos como, por exemplo, lavrador e pastor.

Após seis meses, foi acusado(a) de “monfi” (“mouros” que fugiram de Granada, que estava sob domínio dos castelhanos) e foi novamente detido(a). Depois de conseguir a liberdade, Céspedes foi obrigada(o) a vestir-se como mulher. Logo após essa época, começou a ter um caso com a irmã do pároco da região e, após ser descoberto(a), alistou-se voluntariamente para lutar na Rebelião dos Mouriscos de Alpujarras (1568-1571). Nesse momento, voltou a vestir-se como homem. As autoras ressaltam que, nessa rebelião, e em outros conflitos armados do período, algumas mulheres participaram como “soldados mulheres”. Céspedes, no entanto, ao participar como “soldado homem”, teria escapado de estupros e outras violências que essas mulheres que participaram como “soldados mulheres” sofreram ao longo dos conflitos.

Depois de muitos anos de andanças pela Andaluzia, Céspedes se estabeleceu em Ciempozuelos, onde trabalhou como cirurgiã(o). Nessa época, decidiu se casar com María del Caño. Seguindo os ritos da época, os proclamas do casamento foram pregados na porta da igreja local. Nesse momento, Céspedes foi acusado(a) de ser mulher por Isabel Ortíz, uma viúva que também alegava que ele/ela a havia feito promessa de matrimônio. Após receber a denúncia, o vigário de Madrid ordenou um exame de Céspedes e os médicos concluíram que se tratava de um homem. O casamento com María del Caño foi então realizado e o casal se mudou para Ocaña.

Em Ocaña, no entanto, cruzou seu caminho um “alguacil” (uma espécie de oficial de justiça), que o/a tinha conhecido nas guerras contra os “mouros”. O alguacil, então, denunciou Céspedes por ser mulher e andar com roupas de homem e por estar casado/a com uma mulher, não sendo homem. A denúncia gerou um processo que terminou sendo julgado pelo Tribunal da Inquisição. Ao final, Céspedes foi condenado(a), pelo crime de bigamia, a uma pena de duzentos açoites e, em um “auto de fé” (evento de penitência realizado publicamente), teve que aparecer vestido(a) de mulher e, em seguida, de homem.

As pesquisadoras propõem analisar esse caso sob a luz do conceito de “gênero fluído”. Para elas, Céspedes não se encaixaria facilmente em nenhum dos gêneros. Céspedes navegava entre os gêneros: “una parte de Céspedes se adapta y muta con respecto a las circunstancias exógenas que va vivendo, haciendo visible su género fluido” (p. 31). Essa condição de “gênero fluído” teria sido, inclusive, mobilizada por Céspedes durante o processo perante a Inquisição: ela/ele se referia ao tempo em que andava vestida/o e comportando-se como mulher como uma manifestação de seu “hermafroditismo”.

“A pesar de que gran parte de los estudios sobre Céspedes indican que fue obligada por la Inquisición a aceptar su naturaleza de mujer, consideramos que ella adaptó el discurso de su hermafroditismo. Primero porque hablaba en pasado sobre sus capacidades sexuales y actividades como hombre y después por argumentar haber sufrido un supuesto cáncer en sus genitales masculinos. Gracias a sus conocimientos de medicina y su gran capacidad de adaptación a las circunstancias pudo salvarse de una condena más dura de la Inquisición. Ese es el gran valor de Elena de Céspedes, haber aprovechado las circunstancias más duras de su vida para conformar su realidad transgénero, viajando de un género a otro – género fluido – cuando las circunstancias externas lo exigían y construyendo su orientación sexual hacia las mujeres desde su momento no elegido: dar a luz.” (p. 40)

Outro ponto que as autoras ressaltam é a importância das redes sociais que Céspedes foi construindo ao longo de sua vida. Foram essas redes que possibilitaram sua ascensão social, o que contribuiu com a relativa autonomia que ele/ela gozou para exercer seu “gênero fluido”.

Em suma, o que o artigo de Martín Casares e Díaz Hernándes mostra é que Céspedes resistiu reiteradamente a subordinação às categorias de mulher e escravo(a), mobilizando as armas discursivas e performativas que compunham o imaginário político e social da Espanha do século XVI, um mundo marcado pela hierarquização social de gênero.

Referência bibliográfica

DÍAZ HERNÁNDEZ, Magdalena; MARTÍN CASARES, Aurelia. “Nuevas reflexiones sobre ‘Elena, alias Eleno de Céspedes’, transgénero, redes sociales y libertad en la España del siglo XVI”, Bulletin for Spanish and Portuguese Historical Studies, v. 41, n. 1, 2016, pp. 27-41. Disponível em: http://digitalcommons.asphs.net/bsphs/vol41/iss1/2/

* Ao longo do artigo, podem ser encontradas diversas referências a outros trabalhos acadêmicos sobre Céspedes, bem como a pesquisas sobre outras mulheres que viveram conflitos relacionados ao seu gênero durante o período medieval.

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Antarctomyces pellizariae: o futuro da biotecnologia pode estar na Antártica

Já ouviu falar em criosfera? Não? Bem, certamente você já ouviu falar sobre gelo e neve. Criosfera nada mais é do que o conjunto formado por toda a água em estado sólido existente no planeta e inclui icebergs, geleiras, permafrost, calotas de gelo, entre outras formações.

A Antártica, sendo o principal regulador térmico do planeta, é estudada por pesquisadores de todo o mundo. Aqui no Brasil, temos o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), que abriga pesquisadores de diversas instituições brasileiras, formando uma rede multidisciplinar de estudos. Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) integra a equipe e trabalha com a bioprospecção de fungos em ecossistemas antárticos. O trabalho de bioprospecção realizado pela equipe tem como finalidade conhecer a diversidade microbiana antártica e buscar metabólitos de interesse biotecnológico. Foi durante uma visita à Antártica ao final de 2015, que Luiz Henrique Rosa e sua equipe isolaram um fungo filamentoso que apresentou uma coloração azul bastante intensa. Essa coloração chamou a atenção dos pesquisadores, que decidiram por estudar melhor esse fungo a fim de determinar suas características e descobrir a qual espécie pertencia.

Neste estudo, foram coletadas amostras de neve da camada superior do solo na península Coppermine (62°37’941”S; 59°70’400”W), localizada na ilha Robert, no arquipélago de Shetlands do Sul (figura 1). A neve coletada foi derretida e então filtrada, passo necessário para a retenção dos micro-organismos de interesse. Feito isso, as amostras foram colocadas em meio de cultura e incubadas para que os micro-organismos presentes pudessem crescer. Foi assim que os pesquisadores perceberam o fungo de coloração azul, que foi então isolado para ser estudado em detalhes.

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Figura 1 – Mapa da localização da Península Coppermine, Ilha Robert, Arquipélago Ilhas Shetland do Sul (Fonte: Australian Antarctic Data Centre).

Para a identificação de um fungo, uma série de procedimentos deve ser realizada. Tanto suas características físicas como o seu DNA foram analisados e estudados. Com os resultados em mãos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a espécie que haviam isolado fazia parte do gênero Antarctomyces sp., e que se tratava de uma nova espécie, batizada de A. pellizariae (figura 2). O gênero só é encontrado na Antártica e por isso recebeu o nome “Antarctomyces”. Já “pellizariae” é uma homenagem à Dra. Vivian Helena Pellizari, pesquisadora e professora do Instituto Oceanográfico da USP. Ela foi a responsável, na década de 1990, por estabelecer a microbiologia polar no Brasil, tornando-se inspiração para outros microbiologistas seguirem seu caminho.

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Figura 2 – Antarctomyces pellizariae em placa de Petri com meio Sabouraud, após 14 dias de crescimento a 10 ± 2°C (Fonte: Material suplementar do artigo publicado).

Além da coloração bastante distinta, A. pellizariae cresce melhor a temperaturas mais baixas (de 4 a 15 ± 2°C), o que o classifica como um fungo psicrófilo. Micro-organismos psicrófilos são aqueles capazes de crescer e se reproduzir em baixas temperaturas. A temperatura ótima de crescimento é de 15°C ou menos e a temperatura mínima de -20°C. Estes seres possuem biomoléculas capazes de manter sua forma e função a baixas temperaturas, além de produzir substâncias anticongelantes capazes de protegê-los do frio excessivo, permitindo o funcionamento normal de suas células. Acredita-se que o pigmento azulado também confira proteção contra radiação, característica importante quando seu hábitat é a Antártica.

 As pesquisas de bioprospecção são de extrema importância, pois conhecemos muito pouco sobre a biodiversidade microbiana existente no planeta. Os estudos na Antártica se tornam ainda mais importantes pelas condições extremas de seu ecossistema, que atua selecionando organismos capazes de suportar tais condições. São essas características que tornam o continente um local ideal para o isolamento e descrição de novas espécies fúngicas. Ele é também um dos locais onde os efeitos da mudança climática são sentidos com maior intensidade. Conhecer melhor suas espécies endêmicas pode ajudar a compreender melhor o impacto dessas mudanças na biota antártica.

Além de A. pellizariae, os demais fungos isolados também serão descritos e analisados quanto a seu genoma e presença de compostos de interesse biotecnológico de baixo custo. Dentre as possibilidades, estão substâncias que atuam como anticongelantes e que podem ser utilizadas para a conservação de alimentos e órgãos para transplante, proteção de equipamentos eletrônicos, sensores, inibição de corrosão e conservação de combustíveis. O pigmento azul, bem como outros tipos de pigmentos, pode ter função na indústria alimentícia, atuando como corante. Caso tenha a função de proteção contra radiação, pode ser utilizado na indústria farmacêutica, em produtos de fotoproteção.

Essa descoberta faz parte do trabalho de doutorado da pesquisadora Graciéle Menezes, aluna do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia da UFMG, sob orientação do pesquisador Luiz Henrique Rosa.

Para saber mais:

Sobre as pesquisas brasileiras na Antártica

INCT da Criosfera http://www.ufrgs.br/inctcriosfera/index.html

PROANTAR https://www.mar.mil.br/secirm/portugues/proantar.html

Sobre o grupo de pesquisa da UFMG

http://labs.icb.ufmg.br/leblev/index.html

Sobre análise de genoma na micologia

http://www.biotecnologia.com.br/revista/bio14/pcrnamicologia.pdf

Sobre pesquisas e dados históricos da Antártica

https://data.aad.gov.au/