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Atualidades sobre a Lua e Exomoons

Recentemente a missão Apollo 11, responsável pelo primeiro pouso na Lua, completou 50 anos e um novo plano está em ação para o retorno. A missão Artemis levará pela primeira vez uma mulher até o solo lunar, sendo um projeto de autoria da NASA, ESA e algumas instituições privadas.

A versão atual do programa Artemis incorpora vários componentes principais de outros projetos cancelados da NASA, tais como o Projeto Constellation (uma nova geração de naves para voos espaciais com humanos) e o Asteroid Redirect Mission (uma futura missão espacial que iria de encontro com um grande asteroide próximo da Terra e usaria braços robóticos com pinças de fixação para recuperar uma pedra de aproximadamente 4 metros do asteroide).

 

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Figura 1: Lua. Créditos: NASA/GSFC/Arizona State University

 

A missão Artemis sofreu vários golpes orçamentários nos últimos anos o que fez com que o projeto adiasse seu cronograma algumas vezes com previsão atual de chegada à Lua em 2024 .

Recentemente uma notícia curiosa chamou a atenção, a sonda israelense Beresheet foi feita para ser a primeira sonda privada a pousar na Lua. E tudo estava indo bem até que os controladores da missão perderam contato em abril enquanto a nave robótica descia. Além de toda a tecnologia que foi perdida no acidente, Beresheet tinha uma carga incomum: alguns milhares de tardígrados conhecidos como ursos-d’água. Muito resistentes, os tardígrados podem sobreviver a temperaturas variando desde pouco mais do que o zero absoluto (-272,15 °C) até os 150°C, pressões altíssimas e grandes níveis de radiação, cerca de 1000 vezes mais que um ser humano pode suportar!

Como a Lua é considerada sem vida, o escritório de proteção planetária da Nasa não desaprova as missões que derramam organismos terrestres em sua superfície. Afinal, astronautas já deixaram para trás seus próprios micróbios nos 96 sacos de lixo humano que aguardam algum futuro limpador na Lua. Se a espaçonave tivesse derramado sua carga viva em Marte, a história poderia ser diferente.

Dentro do sistema Solar sabemos que diversos planetas têm “luas”, satélites naturais, como pode ser visto mais detalhadamente nessa série de artigos da nossa página . Fora do nosso sistema temos as Exomons, “luas” de planetas orbitando estrelas que não se encontram no Sistema Solar. No final de 2018 pesquisadores apresentaram novas observações de uma candidata a “lua” associada ao Kepler-1625b usando o Telescópio Espacial Hubble.

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Figura 2: Impressão artística do planeta Artist’s do planeta Kepler-1625b orbitando sua estrela com a possível exomoon.Créditos:Dan Durda/Science

 

O sistema Kepler-1625 se encontra a mais de 8 mil anos-luz do nosso sistema e contém uma estrela bem similar ao Sol, o planeta Kepler-1625b é um gigante gasoso com cerca de 10 massas da Júpiter. As evidências em favor da hipótese da “lua”, foi baseada em decréscimos de fluxo de luz da estrela consistente com uma grande exomoon em trânsito (passando na frente da estrela). Como todo o trabalho foi feito apenas com os dados do Hubble, os pesquisadores defendem o monitoramento futuro do sistema para verificar as previsões do modelo e confirmar a existência da “lua”.

 

Referências:

[1] Evidence for a large exomoon orbiting Kepler-1625b; Alex Teachey and David M. Kipping; Sci Adv 4 (10), eaav1784. DOI: 10.1126/sciadv.aav1784

[2] https://apod.nasa.gov/apod/ap190716.html

[4] https://www.nasa.gov/artemis/

[3]https://www.theguardian.com/science/2019/aug/06/tardigrades-may-have-survived-spacecraft-crashing-on-moon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A Comandante Desobediente

1. Dos fatos

Carola Rackete (31, alemã) foi detida no sábado (29 de junho) após desobedecer lei que a proibia de ancorar no porto de Lampedusa com 42 indivíduos, resgatados do mar, a bordo. Na segunda (01 de julho), a Alemanha intercedeu no caso [1], e na quarta-feira (03 de julho) foi solta pela juíza italiana Alessandra Vella [2]. O caso ainda está pendente de sua audiência perante os tribunais, que deveria ocorrer dia 11 de julho, mas foi adiada por conta de uma greve [3].

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Carola Rackete (Imagem: EBC)

2. Dos equívocos

Além das tentativas de desqualificação da sentença, o caso desvela equívocos muito comuns quando se trata de mobilidade humana. Neste ensaio, buscaremos elucidar três dos mais presentes nas reportagens lidas previamente.

2.1 Direito ou Política?

Nem todos estão felizes pela liberação da comandante Rackete, mas a Associação Nacional de Magistrados (ANM) garante que o processo corre dentro do devido trâmite legal, e criticou Matteo Salvini, ministro do Interior e vice-premier da Itália, por dizer que a sentença teria sido “vergonhosa” e “política” [4]. Este foi o mesmo Salvini que, ano passado, “fechou todos os portos do país a deslocados internacionais resgatados no Mediterrâneo”, o que propiciou, entre outros, o drama das pessoas no navio Aquarius [5]. Ainda que alguém discorde da juíza de que a Itália seria o “porto seguro mais próximo” nesse caso, no entanto, os especialistas independentes a serviço voluntário das Nações Unidas criticam o decreto proposto por Salvini para coibir esse tipo de iniciativa, sobretudo, por violar o direito à vida tal como é concebido internacionalmente [6].

2.2 Imigrantes ou Refugiados?

Em que pesem reportagens que se referem às pessoas resgatadas na Sea Watch 3, por Carola Rackete, como “refugiadas” [7], para o Direito dos Refugiados, nesse estágio, ainda podem ou não ser “solicitantes de refúgio”. Só então, após um (longo) processo de determinação do status de pessoa refugiada, que inicia com a solicitação formal a autoridades estatais, o status de “refugiado” pode ser obtido segundo a Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado (1951) e seu Protocolo Adicional (1967). A confusão dos termos pode, segundo o Alto das Nações Unidas Comissariado para Refugiados (ACNUR), trazer “graves consequências” para essas pessoas [8].

2.3 Legais ou Ilegais?

Em se tratando de seres humanos, vale a máxima dos movimentos sociais de migrantes pela qual “Ninguém é ilegal” [9]. Migrar é um direito humano, em especial para buscar asilo ou refúgio, e compreender que nesse ato não há um delito é fundamental para essas discussões. Os delitos nos Estados de Direito devem ser, sempre que possível, apurados na via judicial, garantidos o contraditório e a ampla defesa. Ao se referir a essa atitude em particular, faça como a Associated Press, e utilize o “imigração irregular”, ou “migrante em situação irregular” [10], evidenciando que devem haver vias de regularização e não de proibição do direito de migrar.

3. Considerações Finais

Na sua contagem mais recente, o ACNUR (2019) estimou a existência de mais de 70 milhões de deslocados à força. Dessas, quase dois terços (41,3 milhões) estariam deslocados internamente, ou seja, próximos ao local de origem dos conflitos, e pouco mais de um terço (quase 26 milhões) teria sido reconhecido como “refugiados” por algum país do mundo. Se contados “apenas” os refugiados, mais de 85% estariam fora de países ditos desenvolvidos (como os da União Europeia).

Se olharmos para a história recente dos países de origem da maioria dessas pessoas, veremos muita gente culpada por essa situação sem vontade alguma de “arcar com as consequências”. E se olharmos mais de perto, veremos muita gente com medo de que guerras durem, e muito mais gente ainda com medo de que elas acabem.

4. Referências

ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (2019). Global Trends 2018. Disponível: <https://www.unhcr.org/5d08d7ee7.pdf>

Notas

[1] EFE. Alemanha pede à Itália que esclareça acusações contra capitã de navio de ONG. [01/07/19]. Disponível: <site>

[2] RFI. Desfecho de caso SeaWatch com libertação de Carola Rackete. [03/07/19]. Disponível: <site>

[3] El País. “Voltaria a fazer exatamente a mesma coisa”, diz a capitã presa por salvar refugiados no mar. [11/07/2019]. Disponível: <site>

[4] Bol. Salvini ataca juíza que libertou capitã Carola Rackete. [03/07/19]. Disponível: <site>

[5] JB. França nega autorização para navio com 58 migrantes. [25/09/2018]. Disponível: <site>

[6] ONU. Italy: UN experts condemn bill to fine migrant rescuers. [20/05/19]. Disponível: <site>

[7] DW. A capitã que desafiou autoridades para salvar refugiados. [30/06/19]. Disponível: <site>

[8] ACNUR. “Refugiados” e “Migrantes”: Perguntas Frequentes. [22/03/2016]. Disponível: <site>

[9] Rede 8M. Manifesto 8M. [08/03/2019]. Disponível: <site>

[10] AP. ‘Illegal immigrant’ no more. [02/04/13]. Disponível: <site>

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O que está por trás do Telegram?

O Telegram tem ganhado destaque nos últimos acontecimentos nacionais. Mas você conhece a tecnologia envolvida no aplicativo?

Desde a sua criação, em 2013, o Telegram usa de criptografia em suas mensagens, ou seja, transforma todas em um arquivo com códigos. Além disso, diferentemente do WhatsApp, as mensagens ficam salvas em nuvens, em servidores em vários pontos do mundo, assim é possível manter mais de um canal de conversa independente do aparelho celular, sendo este fator marcante para a popularização do aplicativo. Os aplicativos com sistemas de armazenamento em nuvem dialogam com a tendência de mobilidade, característica fundamental para o público jovem, conforme estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que ainda salienta que alguns escândalos sobre vazamentos de dados podem desestimular o uso da tecnologia.

A empresa garante sigilo absoluto dos dados e ainda convoca um desafio: 300 mil dólares para quem conseguir quebrar a barreira de segurança da empresa!  Seus dados estão realmente bem seguros, pois diferente do concorrente, o Telegram não possui inteligência artificial que lê suas conversas para oferecer serviços (sabe quando você conversa com um amigo sobre uma próxima viagem e quando entra no Facebook estão oferecendo um hotel naquela cidade?). O objetivo de seus fundadores foi construir cuidadosamente um aplicativo para descentralizar a comunicação digital, permitindo integrações com bots e compartilhamento de vídeos ou imagens de qualquer tamanho, aspecto que só é viável pelo uso da tecnologia em nuvem.

Há diferentes tipos de implementação de um serviço em nuvem: privada, pública, comunidade e compartilhada. No caso de aplicações como o Telegram, o serviço é privado, ou seja, a infraestrutura de nuvem é utilizada exclusivamente por uma organização, sendo esta nuvem local ou remota e administrada pela própria empresa ou por terceiros. Para garantir a segurança das informações armazenadas, ocorre o processo de criptografia. A criptografia é um meio assertivo de proteção de dados. As mensagens a serem criptografadas são transformadas por uma função parametrizada por uma chave (“string”) que pode ser modificada quando necessário. Em seguida, passa por um processo de criptografia, transformando-se em texto cifrado.

A distribuição dos servidores em nuvem ao redor do mundo possibilita as aplicações individuais de exercerem um controle local sobre os dados, ou seja, torna ainda mais confiável, pois garante multiplicidade e autonomia em suas partes, podendo armazenar os dados de maneira distribuída. A vulnerabilidade acontece nos aparelhos móveis em redes sem fio, a troca de mensagens é passível de captura por alguém não autorizado, já que as ondas de rádio circulam abertas pela atmosfera, podendo ser violadas e utilizadas. 

Para proteger seu aparelho móvel, as dicas são: coloque senhas mais complexas na tela de desbloqueio, instale apenas aplicativos confiáveis, não clique em links ou correntes enviadas por terceiro, evite o acesso de wi-fi pública e formate seu aparelho antes de vendê-lo ou doá-lo.

 

Referência

 Gerenciamento de Dados em Nuvens: Conceitos, Sistemas e Desafios.

Banco de Dados Móveis: uma análise de soluções propostas para gerenciamento de dados.

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Precisamos falar sobre o Nióbio!

Nos últimos dias nossa Jóia do Infinito esteve de novo nos principais meios de comunicação e redes sociais, e junto uma série de notícias que nos fazem perguntar: se o Nióbio é tão maravilhoso por que ele é tão mal explorado?

Para responder essa questão antes precisamos falar o que é o Nióbio? Com número atômico 41 e massa de 92,9 unidades atômicas, esse elemento pertence ao Grupo e Período de número 5, na área dos metais de transição. Suas principais características são a leveza e a resistência, principalmente em condições extremas de temperatura. Realmente é um elemento completo, o metal dos sonhos.

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Figura 1: Nióbio na tabela periódica.

A condição particular que agrega a si grande resistência faz dele um produto de excelente uso em diversas áreas como indústria aeroespacial, máquinas de tomografia, supercondutores eletrônicos, caldeiras, usinas nucleares, estruturas metálicas, construções marítimas, oleodutos, gasodutos e outras diversas opções.

Conhecido inicialmente como Columbio, o Nióbio foi confundido com o Tântalo durante algum tempo. Foi descoberto no Brasil na década de 20, mas somente nos anos 60 é que realmente despertou interesse para seu uso. Possuímos 98,2% de todo Nióbio do mundo, somos detentores praticamente únicos deste elemento tão coringa. A maior quantia fica na cidade de Araxá – MG, 70% aproximadamente, depois na Região Amazônica e em Catalão – GO. Além de nós, os outros quase 2% pertencem aos Canadá, EUA, Gabão, Tanzânia e Austrália. Ao custo hoje de 26 dólares o quilo, o Brasil produz em torno de 1 bilhão de dólares ao ano, com uma extração que recebe 2% de commodities de indústrias que o exploram. Isso significa que a exploração deste material é particular e quem realiza este processo paga ao país somente 2% do que recebe ao exportá-lo. Para uma comparação, a exploração de Petróleo beira os 10%, assim como outros minérios.

O Nióbio está para o Brasil assim como o Vibranium está para Wakanda, cidade fictícia do filme Pantera Negra produzido pela Marvel, onde esse material é o mais eficiente existido e transforma Wakanda, a cidade, em um lugar extremamente tecnológico, inexistente em qualquer lugar do mundo. Ela se mantém escondida para evitar exploração desenfreada.

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Figura 2: Cidade Wakanda do filme Pantera Negra.

A diferença básica é o desenvolvimento tecnológico necessário para potencializarmos o uso desse material como ele merece. Os produtos aonde ele é utilizado são altamente tecnológicos, e com demandas limitadas. O mercado de foguetes no mundo é muito restrito, vale lembrar que são somente partes das turbinas e não o material estrutural que ele compõe. Assim como a indústria de construção de tomógrafos, ou de construção de usinas nucleares é reduzida. Além disso, a demanda é pouca perto da quantia que temos no país, rapidamente saturaríamos o mercado e o valor ficaria muito elevado, pois supriríamos itens específicos. Ganharíamos dinheiro por pouco tempo e depois ficaríamos com estoque “encalhado”. Mas o que mais atrapalha nossa fantástica evolução a partir do uso deste material é a semelhança dele com outros materiais muito mais disponíveis como: titânio, tungstênio, vanádio, tântalo, molibidênio. Metais com maior disponibilidade e menor custo de obtençãono mercado internacional.

A forma mais comercializada é a liga Fe-Nb que é constituída de 65% Nb, 30% Fe e 5% de outros elementos. A coloração é cinza metálico e pode ficar azulada dependendo do tratamento térmico.

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Figura 3: Liga Fe-Nb.

O processo de obtenção é bem complexo, são ao menos 15 etapas para que a partir do mineral Columbita para chegarmos ao Nióbio puro.

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Figura 4: Mineral Columbita.

Além disso, cada 1 quilo de minério columbita produz 25 gramas de Nióbio, o que torna a eficiência econômica do processo muito baixa. Por isto, é muito mais atrativo para o país extrair outros minerais rentáveis. Na frente há a extração da ferrita e do ouro, que praticamente brota da terra durante o garimpo. Assim, o Brasil investe naquilo que realmente gera muito mais lucro. O grama do ouro custa, em média, R$ 170,78. Enfim, extrair, qual seja o material, só será interessante se realmente for rentável.

Algumas pesquisas no país têm avançado, principalmente nas universidades de Minas Gerais, para abranger a utilização como materiais compósitos de bagaço de cana enriquecido com nióbio, tratamentos superficiais e fotocatálises.

Concluindo, o Nióbio é sim um material metálico de propriedades muito interessantes, utilidade em áreas tecnológicas avançadas, o temos em abundância e quase em exclusividade. Para explorar o potencial econômico do Nióbio é necessário continuar avançando na sua pesquisa e em possíveis aplicações industriais, e isso requer investimento, estratégia e colaborações entre setores de tecnologia e industriais. E quem sabe um dia seremos a real potência sonhamos de que o Brasil seja finalmente “Wakanda forever” !

Referências Imagens

Figura 1: depositphotos_102907792-stock-photo-niobium-symbol-nb-element-of

Figura 2: https://glitched.africa/south-africa-could-get-a-wakanda-themed-amusement-park/

Figura 3: https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/o-que-e-niobio-e-como-ele-pode-cair-no-vestibular/

Figura 4: https://all.biz/br-pt/coltan-columbita-tantalita-niobio-g112526

Referências Vídeos:

Superinteressante:https://www.youtube.com/watch?v=1DV9TJOSuk0

Fatos Desconhecidos:https://www.youtube.com/watch?v=bR_u6mSC1Qw

Canal do Pirula:https://www.youtube.com/watch?v=RqohMBQfWvk

Referências Bibliográficas:

A. Cuervo, J. E. Munoz, J. S. Pantoja, F. F Vallejo Bastidas, J. J. Olaya Flórez. (2015). Recubrimentos de carburos de Nb-V-Cr depositados mediante el processo de difusión termorreactiva (TDR). Ciencia e Ingeniería Neogranadina, 25, pp. 5-20.

Lopes, O. F.; Mendonça, V. R.; Silva, F. B. F.; Paris, E. C.; Ribeiro, C. Óxidos de Nióbio: uma visão sobre a síntese do Nb2O5 e sua aplicação em fotocatálise heterogênea. Química Nova, vol. 38, No. 1, 106-117, 2015.

Melo, N. P. A. Nióbio do Brasil: um estudo sobre a variação do valor das exportações do minério (1999-2016). Trabalho de conclusão de curso em bacharel em relações internacionais. Universidade Federal de Uberlândia. Julho, 2017.

 

 

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Uma nova esperança no combate à malária

A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido para os seres humanos através da picada de mosquitos do gênero Anopheles. A malária é a doença transmitida por vetores que mais recebe investimentos para sua eliminação, US$ 3.1 bilhões de dólares foram investidos para a eliminação da doença no ano de 2017. Estima-se que 219 milhões de casos de malária ocorreram nesse mesmo ano , totalizando 435 mil mortes. Cerca de 90% das mortes por malária ocorreram nos países da África Sub-Saariana, acometendo principalmente crianças menores que 5 anos.

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Países com casos de malária em 2000 e seu status em 2017 – em vermelho as regiões mais afetada pela doença. Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Devido à implementação de diversas técnicas para o controle da malária, as mortes pela doença caíram 60% desde os anos 2000. As estratégias de controle são baseadas no uso de mosquiteiros tratados com inseticidas e pulverização de inseticidas dentro dos domicílios. Além do uso de testes rápidos para o diagnóstico da doença e tratamento derivados da artemisinina (artesunato + mefloquina). Apesar dos avanços no controle da doença, muitas comunidades ainda não conseguem ter acesso à essas intervenções, e é por isso que cientistas estão desenvolvendo uma vacina que seja efetiva contra a doença. Cabe ressaltar que a malária causa um importante impacto negativo na economia de países africanos.

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Plasmodium vivax se multiplicando nos glóbulos vermelhos do sangue. Fonte: Public Health Image Library (PHIL).

A vacina, que recebe o nome científico RTS,S representando sua composição ou MosquirixTM, foi desenvolvida em 1987 e de lá pra cá passou por diversos testes para testar sua eficácia. Essa vacina espera ativar o sistema imune quando o Plasmodium falciparum infecta a corrente sanguínea por meio da picada do mosquito Anopheles. A vacina foi desenvolvida para prevenir o parasita de infectar as células do fígado do paciente (período de incubação da doença). 

A vacina tem sido rigorosamente testada por uma série de testes clínicos. Na fase 3, a vacina foi testada quanto a sua segurança e efetividade, em um teste clínico envolvendo 15.459 crianças africanas. Os testes mostraram que a vacina preveniu aproximadamente 4 em 10 (39%) casos de malária e 3 em 10 (29%) casos de malária severa em um período de 4 anos.

 

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Fonte: Pixabay

Essa é a primeira vacina que proveu proteção parcial contra a malária em crianças menores de 5 anos. Após anos de testes, a vacina está pronta para ser implementada em um programa de imunização piloto que ocorrerá em três países africanos, Gana, Quênia e Malawi. Estima-se que aproximadamente 360 mil crianças receberão a vacinação junto com suas vacinas da infância. A vacina será implementada em quatro doses, uma vez por mês durante três meses e a quarta dose após 18 meses.

O programa de imunização durará seis anos. O objetivo do programa de imunização é colher o máximo de informação na efetividade e quaisquer efeitos colaterais associados ao uso da vacina, para assim poder ser implementada em um contexto mais amplo.

Apesar da eficácia da vacina ser de apenas 40%, o que não é alto em comparação a outras vacinas, ainda assim é um grande avanço rumo ao controle da malária e sua subsequente eliminação. Com menos pessoas doentes, os mosquitos terão menos oportunidades de serem infectados e carregar os parasitos e com isso infectarão menos pessoas.

Referências

Organização Mundial da Saúde – Perguntas e Respostas sobre a implementação da vacina.

Organização Mundial da Saúde – Relatório sobre a vacina contra a malária.

PATH – Explicação sobre a implementação da vacina.

 

Notícia em português

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/oms-anuncia-primeiro-teste-em-grande-escala-de-vacina-contra-malaria.ghtml

Mais sobre a malária no blog

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/18/malaria-novas-complicacoes-para-velhos-problemas/

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/25/malaria-de-macacos-infectando-humanos-na-mata-atlantica/

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De vilão a aliado! O uso do zika vírus no tratamento de alguns tipos de Cânceres

O zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, e é geralmente associado a problemas de saúde, principalmente por causar danos neurodegenerativos em recém-nascidos. No entanto, o Journal  Cancer Research- uns dos mais prestigiado da área- publicou uma pesquisa que aponta o uso do zika vírus como um potencial tratamento para câncer que atingem as células do sistema nervoso central.

A pesquisa está sendo realizada pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), segundo o artigo o zika vírus tem uma muita afinidade com o cérebro de recém nascidos, caso a gestante esteja infectada com o vírus, pode ocorrer que no início da fecundação o zika vírus infecte as células células tronco responsáveis pela formação do  sistema nervoso do bebê, aumentando o potencial destrutivo do vírus e causando danos cerebrais graves como microcefalia. No caso das células tumorais, algumas possuem suas próprias células-tronco, que fazem os tumores se multipliquem e se espalharem pelo organismo. Os pesquisadores observaram semelhanças entre as células-tronco tumorais presentes no sistema nervoso com as células neurais saudáveis, e resolveram  investigar se o zika vírus seria capaz de infectar as células de câncer da mesma forma que infectam as células neurais saudáveis.

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Mosquito Aedes aegypti, que transmite dengue, zika e chikungunya

Fonte: Pref. de Pontal do Paraná/PR

Primeiramente foi realizado um estudo in vitro em diferentes tipos de células tumorais como células de câncer de mama, próstata e intestino, além de células tumorais do sistema nervoso central. Os pesquisadores notaram que o zika vírus apenas infecta as células tumorais  do sistema nervoso central.  O próximo passo foi infectar com o zika vírus células saudáveis do sistema nervoso e células tumorais do mesmo sistema. Nessa etapa os pesquisadores observaram que zika possui uma afinidade maior pelas tumorais, o que torna o resultado bastante animador, visto que o intuito da pesquisa e destruir as células de câncer presente no sistema nervoso central. Por último, foi realizado um ensaio in vivo, onde foi avaliado o efeito do zika vírus em animais. O câncer regrediu presente nos ratos que foram infectados zika vírus. Em  alguns casos, de ratos em estado de metástases (onde a doença acaba se espalhando para diferentes órgãos) as células pararam de se espalhar, estagnado o câncer. Outro fator positivo foi que os ratos tratados não apresentaram efeitos colaterais ao tratamento com o zika vírus.

Apesar dos ensaios em ratos serem promissores, os pesquisadores alertam que ainda é cedo para afirmar o zika teria o mesmo benefício em humanos. Além disso, embora 80% dos casos dos humanos infectados pelo vírus não apresentem sintomas, ele pode ser perigoso para gestantes. Para minimizar riscos  os cientistas estudam possíveis alterações no código genético do vírus para potencializar seu efeito e reduzir ao máximo seus possíveis danos e assim ter um tratamento eficaz para o tratamento do câncer presente do sistema nervoso central, uns dos mais difíceis de serem tratados.

 

Referências:

Zika Virus Selectively Kills Aggressive Human Embryonal CNS Tumor Cells In Vitro and In Vivo:  http://cancerres.aacrjournals.org/content/78/12/3363

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cientistas-da-usp-mostram-que-virus-da-zika-pode-ser-usado-para-eliminar-cancer-cerebral,70002285012

 

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Analogia entre chocolates e ciência é pura leviandade

Já não era novidade para ninguém que o governo brasileiro pretendia efectuar mudanças controversas no sector da educação. Já tinham sido anunciados cortes de verbas no ensino universitário e a intenção de acabar com cursos como sociologia e filosofia porque, no seu entender não geram “renda para a pessoa e bem-estar para a família”, nem melhoram “a sociedade em sua volta” [1]. Mas, no dia 9 de Maio, em directo na Bolsonaro TV, o Ministro da Educação e o Presidente tiveram uma conversa perfeitamente surreal, ao que parece fazendo uma analogia entre chocolate e ensino superior em que este último afirma que gosta de comer chocolates, “ainda mais de graça”[2]. Pois é, não restam dúvidas que o presidente do Brasil possa gostar de chocolates, até porque como Dave Barry referiu há algum tempo “sua mão e sua boca concordaram há muitos anos que, no que diz respeito ao chocolate, não há necessidade de envolver seu cérebro.” Aquilo que o presidente não sabe é que, para fazer um curso superior em ciências sociais, o cérebro é indispensável. Ou talvez saiba, porque afinal, ele tem um acesso fácil ao chocolate e fica bem longe das ciências sociais…

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Foto: Helena Ferreira

Na verdade, todos os holofotes se viraram agora para o Brasil, porque foi daqui que vieram as últimas ameaças às ciências sociais, apesar de não ser caso único. Como refere Irene Pimentel “qualquer nacional-populista de extrema-direita actual considera supérfluos os livros, a arte e a cultura” e salienta que “a história mostra que qualquer candidato a ditador procura também eliminar a voz de intelectuais, das elites, de profissionais e cientistas” [3]. E é por este motivo que, neste momento, todas e todos sentimos uma absoluta necessidade e responsabilidade, direi até, de defender as Universidades e as Ciências, sobretudo as Sociais e Humanas que são o principal alvo dos que detêm o poder, porque as acusam de estar a ser usadas com motivações ideológicas.

Judith Butler, filósofa, escritora e professora da Universidade de Berkeley, foi uma das primeiras a refutar este despautério, criando um manifesto contra a redução de recursos para as faculdades de ciências sociais, através da Gender International, à semelhança do que já tinha feito no ano passado, quando o presidente da Hungria, Viktor Orbán, proibiu os Estudos de Género nas universidades do país. Assinado por mais de mil académicos de Universidades de todo o mundo, este documento defende que “as ciências sociais e as humanidades não são um luxo” e que “pensar sobre o mundo e compreender as nossas sociedades não deve ser privilégio dos mais ricos” [4]. Os sociólogos de Harvard que também se expressaram através de um manifesto que já foi assinado por mais de 15 000 intelectuais nesta área, de todo o mundo, rejeitam a premissa de que “uma educação universitária é valiosa apenas na medida em que é imediatamente lucrativa” e defendem que o principal “objectivo do ensino superior não é produzir ‘retornos imediatos’ a partir de investimentos”, mas sim “produzir uma sociedade que se beneficie do esforço colectivo para criar o conhecimento humano” [5].

O movimento de solidariedade português surge através de uma carta aberta proposta por académicos de diversas áreas, subscrita pelas principais associações nacionais de investigadores em ciências sociais e humanas: a Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), a Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e a Associação de Portuguesa de Antropologia (APA) e disponível para subscrição pública. Esta carta frisa que “não há sociedades livres sem pensamento livre e não há pensamento livre limitando, condicionando ou vigiando a actividade científica das Ciências Sociais e Humanas” e apelam às autoridades responsáveis no Brasil para que interrompam o processo de “asfixia moral, política e financeira em curso das actividades docentes, de investigação e de transferência de conhecimento nas áreas científicas das Ciências Sociais e Humanas” [6].

Tive a tentação de expor aqui alguns dos contributos das Ciências Sociais para o conhecimento das nossas sociedades sobre elas próprias, mas isso já foi feito, e bem, por muitos antes de mim, como o comprova uma rápida e simples busca no google [7], [8], [9], [10]. Por outro lado, considero triste e desgastante que, em pleno século XXI, sociedades democratas, livres e pensantes não tenham como absolutamente prioritário o ensino das ciências sociais e das humanidades e não tenham percebido o quão importante é o seu contributo para o desenvolvimento, qualificação e valorização das populações e para a sua economia. De facto, já em 2010, Boaventura Sousa Santos [11] tinha afirmado que a dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais e os seus retornos já não faz sentido nenhum, porque existe um novo paradigma que, entre outras coisas, adianta que “todo o conhecimento científico-natural é científico-social.”

Foram os próprios avanços das ciências ditas naturais ou puras, como a física e a biologia, que rechaçaram tal dualismo quando introduziram “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Desta forma, as ciências sociais e as humanidades assumiram total protagonismo. Para além disso, o conhecimento não se guia por um único método científico, utiliza todos os meios metodológicos que tem ao seu alcance e é total. E se é total, é também local, porque é útil àquela pequena população daquela pequena comunidade. Por outro lado, se é local é, de certa forma, total porque os projectos de conhecimento locais podem ser reconstituídos em outros espaços cognitivos. Este novo paradigma terá que agregar sempre o social ao científico, porque na era pós-moderna o diálogo entre a ciência e a sociedade é necessário para construir sociedades mais justas, mais equitativas, mais livres e mais democráticas. O mundo será, concomitantemente, natural e social e será observado como um texto, um jogo, um palco, ou uma autobiografia, ou seja, de forma clara e com sentido, apesar de, por vezes, surpreendente e enigmático.

Para terminar, servimo-nos das palavras de Judith Butler, porque nunca poderíamos dizer melhor:

“É impossível entender nosso mundo sem entender as histórias e as imagens, a interpretação e a argumentação. Precisamos das Ciências Humanas e Sociais para desenvolver uma compreensão bem informada da história, da sociedade e da imaginação. Negar essas disciplinas é negar tanto a memória quanto a esperança, e nos deixa à deriva em um mundo impulsionado apenas por forças económicas. Como poderíamos responder à questão sobre o que vivemos e em que tipo de mundo queremos viver se negarmos a filosofia? Como entenderíamos como o mundo é organizado se erradicarmos a sociologia? Pode-se ter qualquer posicionamento político e ainda valorizar esses campos de estudo” [12]

Aqui, pedimos licença à autora para acrescentar que se existe alguém que, devido ao seu posicionamento político, não consegue valorizar estas áreas de investigação e estes conceitos, por favor, que se limite a comer chocolates. O mundo agradece!

 

[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/26/bolsonaro-diz-que-mec-estuda-descentralizar-investimento-em-cursos-de-filosofia-e-sociologia.ghtml

[2] https://www.youtube.com/watch?time_continue=9&v=5KOPjSV81J4

[3] https://www.publico.pt/2019/05/11/culturaipsilon/opiniao/elogio-historia-historiadores-esquecer-filosofia-arte-cultura-1871274?fbclid=IwAR1RrAmuBqh9Fq8AKCe6VP1fVoRnNw4S2hHyO00sUuICmZ5LmyNAQsgCMaM

[4] https://www.lemonde.fr/idees/article/2019/05/06/bresil-les-sciences-sociales-et-les-humanites-ne-sont-pas-un-luxe_5458932_3232.html

[5] https://sites.google.com/g.harvard.edu/brazil-solidarity

[6] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT92978

[7]http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5273/3/Artigo%5b1%5d.Infert.AISO.final.pdf

[8] http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/20393/1/Artigo%20-%20An%C3%A1lise%20Social%20%28Jo%C3%A3o%20Areosa%29.pdf

[9]https://www.academia.edu/38311905/O_contributo_das_ci%C3%AAncias_sociais_para_a_exegese_contempor%C3%A2nea

[10] http://www.redalyc.org/pdf/4815/481547173029.pdf

[11] http://www.scielo.br/pdf/ea/v2n2/v2n2a07.pdf

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/negar-as-ciencias-humanas-nos-deixa-deriva-num-mundo-movido-por-forcas-economicas-diz-judith-butler-23647897?fbclid=IwAR0-y6EmS16NruTq9P5CPZEwtSBBK8KFU8F94Nlhq-cYbQX2_3pxlVJ1Ino