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De vilão a aliado! O uso do zika vírus no tratamento de alguns tipos de Cânceres

O zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, e é geralmente associado a problemas de saúde, principalmente por causar danos neurodegenerativos em recém-nascidos. No entanto, o Journal  Cancer Research- uns dos mais prestigiado da área- publicou uma pesquisa que aponta o uso do zika vírus como um potencial tratamento para câncer que atingem as células do sistema nervoso central.

A pesquisa está sendo realizada pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), segundo o artigo o zika vírus tem uma muita afinidade com o cérebro de recém nascidos, caso a gestante esteja infectada com o vírus, pode ocorrer que no início da fecundação o zika vírus infecte as células células tronco responsáveis pela formação do  sistema nervoso do bebê, aumentando o potencial destrutivo do vírus e causando danos cerebrais graves como microcefalia. No caso das células tumorais, algumas possuem suas próprias células-tronco, que fazem os tumores se multipliquem e se espalharem pelo organismo. Os pesquisadores observaram semelhanças entre as células-tronco tumorais presentes no sistema nervoso com as células neurais saudáveis, e resolveram  investigar se o zika vírus seria capaz de infectar as células de câncer da mesma forma que infectam as células neurais saudáveis.

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Mosquito Aedes aegypti, que transmite dengue, zika e chikungunya

Fonte: Pref. de Pontal do Paraná/PR

Primeiramente foi realizado um estudo in vitro em diferentes tipos de células tumorais como células de câncer de mama, próstata e intestino, além de células tumorais do sistema nervoso central. Os pesquisadores notaram que o zika vírus apenas infecta as células tumorais  do sistema nervoso central.  O próximo passo foi infectar com o zika vírus células saudáveis do sistema nervoso e células tumorais do mesmo sistema. Nessa etapa os pesquisadores observaram que zika possui uma afinidade maior pelas tumorais, o que torna o resultado bastante animador, visto que o intuito da pesquisa e destruir as células de câncer presente no sistema nervoso central. Por último, foi realizado um ensaio in vivo, onde foi avaliado o efeito do zika vírus em animais. O câncer regrediu presente nos ratos que foram infectados zika vírus. Em  alguns casos, de ratos em estado de metástases (onde a doença acaba se espalhando para diferentes órgãos) as células pararam de se espalhar, estagnado o câncer. Outro fator positivo foi que os ratos tratados não apresentaram efeitos colaterais ao tratamento com o zika vírus.

Apesar dos ensaios em ratos serem promissores, os pesquisadores alertam que ainda é cedo para afirmar o zika teria o mesmo benefício em humanos. Além disso, embora 80% dos casos dos humanos infectados pelo vírus não apresentem sintomas, ele pode ser perigoso para gestantes. Para minimizar riscos  os cientistas estudam possíveis alterações no código genético do vírus para potencializar seu efeito e reduzir ao máximo seus possíveis danos e assim ter um tratamento eficaz para o tratamento do câncer presente do sistema nervoso central, uns dos mais difíceis de serem tratados.

 

Referências:

Zika Virus Selectively Kills Aggressive Human Embryonal CNS Tumor Cells In Vitro and In Vivo:  http://cancerres.aacrjournals.org/content/78/12/3363

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cientistas-da-usp-mostram-que-virus-da-zika-pode-ser-usado-para-eliminar-cancer-cerebral,70002285012

 

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Analogia entre chocolates e ciência é pura leviandade

Já não era novidade para ninguém que o governo brasileiro pretendia efectuar mudanças controversas no sector da educação. Já tinham sido anunciados cortes de verbas no ensino universitário e a intenção de acabar com cursos como sociologia e filosofia porque, no seu entender não geram “renda para a pessoa e bem-estar para a família”, nem melhoram “a sociedade em sua volta” [1]. Mas, no dia 9 de Maio, em directo na Bolsonaro TV, o Ministro da Educação e o Presidente tiveram uma conversa perfeitamente surreal, ao que parece fazendo uma analogia entre chocolate e ensino superior em que este último afirma que gosta de comer chocolates, “ainda mais de graça”[2]. Pois é, não restam dúvidas que o presidente do Brasil possa gostar de chocolates, até porque como Dave Barry referiu há algum tempo “sua mão e sua boca concordaram há muitos anos que, no que diz respeito ao chocolate, não há necessidade de envolver seu cérebro.” Aquilo que o presidente não sabe é que, para fazer um curso superior em ciências sociais, o cérebro é indispensável. Ou talvez saiba, porque afinal, ele tem um acesso fácil ao chocolate e fica bem longe das ciências sociais…

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Foto: Helena Ferreira

Na verdade, todos os holofotes se viraram agora para o Brasil, porque foi daqui que vieram as últimas ameaças às ciências sociais, apesar de não ser caso único. Como refere Irene Pimentel “qualquer nacional-populista de extrema-direita actual considera supérfluos os livros, a arte e a cultura” e salienta que “a história mostra que qualquer candidato a ditador procura também eliminar a voz de intelectuais, das elites, de profissionais e cientistas” [3]. E é por este motivo que, neste momento, todas e todos sentimos uma absoluta necessidade e responsabilidade, direi até, de defender as Universidades e as Ciências, sobretudo as Sociais e Humanas que são o principal alvo dos que detêm o poder, porque as acusam de estar a ser usadas com motivações ideológicas.

Judith Butler, filósofa, escritora e professora da Universidade de Berkeley, foi uma das primeiras a refutar este despautério, criando um manifesto contra a redução de recursos para as faculdades de ciências sociais, através da Gender International, à semelhança do que já tinha feito no ano passado, quando o presidente da Hungria, Viktor Orbán, proibiu os Estudos de Género nas universidades do país. Assinado por mais de mil académicos de Universidades de todo o mundo, este documento defende que “as ciências sociais e as humanidades não são um luxo” e que “pensar sobre o mundo e compreender as nossas sociedades não deve ser privilégio dos mais ricos” [4]. Os sociólogos de Harvard que também se expressaram através de um manifesto que já foi assinado por mais de 15 000 intelectuais nesta área, de todo o mundo, rejeitam a premissa de que “uma educação universitária é valiosa apenas na medida em que é imediatamente lucrativa” e defendem que o principal “objectivo do ensino superior não é produzir ‘retornos imediatos’ a partir de investimentos”, mas sim “produzir uma sociedade que se beneficie do esforço colectivo para criar o conhecimento humano” [5].

O movimento de solidariedade português surge através de uma carta aberta proposta por académicos de diversas áreas, subscrita pelas principais associações nacionais de investigadores em ciências sociais e humanas: a Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), a Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e a Associação de Portuguesa de Antropologia (APA) e disponível para subscrição pública. Esta carta frisa que “não há sociedades livres sem pensamento livre e não há pensamento livre limitando, condicionando ou vigiando a actividade científica das Ciências Sociais e Humanas” e apelam às autoridades responsáveis no Brasil para que interrompam o processo de “asfixia moral, política e financeira em curso das actividades docentes, de investigação e de transferência de conhecimento nas áreas científicas das Ciências Sociais e Humanas” [6].

Tive a tentação de expor aqui alguns dos contributos das Ciências Sociais para o conhecimento das nossas sociedades sobre elas próprias, mas isso já foi feito, e bem, por muitos antes de mim, como o comprova uma rápida e simples busca no google [7], [8], [9], [10]. Por outro lado, considero triste e desgastante que, em pleno século XXI, sociedades democratas, livres e pensantes não tenham como absolutamente prioritário o ensino das ciências sociais e das humanidades e não tenham percebido o quão importante é o seu contributo para o desenvolvimento, qualificação e valorização das populações e para a sua economia. De facto, já em 2010, Boaventura Sousa Santos [11] tinha afirmado que a dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais e os seus retornos já não faz sentido nenhum, porque existe um novo paradigma que, entre outras coisas, adianta que “todo o conhecimento científico-natural é científico-social.”

Foram os próprios avanços das ciências ditas naturais ou puras, como a física e a biologia, que rechaçaram tal dualismo quando introduziram “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Desta forma, as ciências sociais e as humanidades assumiram total protagonismo. Para além disso, o conhecimento não se guia por um único método científico, utiliza todos os meios metodológicos que tem ao seu alcance e é total. E se é total, é também local, porque é útil àquela pequena população daquela pequena comunidade. Por outro lado, se é local é, de certa forma, total porque os projectos de conhecimento locais podem ser reconstituídos em outros espaços cognitivos. Este novo paradigma terá que agregar sempre o social ao científico, porque na era pós-moderna o diálogo entre a ciência e a sociedade é necessário para construir sociedades mais justas, mais equitativas, mais livres e mais democráticas. O mundo será, concomitantemente, natural e social e será observado como um texto, um jogo, um palco, ou uma autobiografia, ou seja, de forma clara e com sentido, apesar de, por vezes, surpreendente e enigmático.

Para terminar, servimo-nos das palavras de Judith Butler, porque nunca poderíamos dizer melhor:

“É impossível entender nosso mundo sem entender as histórias e as imagens, a interpretação e a argumentação. Precisamos das Ciências Humanas e Sociais para desenvolver uma compreensão bem informada da história, da sociedade e da imaginação. Negar essas disciplinas é negar tanto a memória quanto a esperança, e nos deixa à deriva em um mundo impulsionado apenas por forças económicas. Como poderíamos responder à questão sobre o que vivemos e em que tipo de mundo queremos viver se negarmos a filosofia? Como entenderíamos como o mundo é organizado se erradicarmos a sociologia? Pode-se ter qualquer posicionamento político e ainda valorizar esses campos de estudo” [12]

Aqui, pedimos licença à autora para acrescentar que se existe alguém que, devido ao seu posicionamento político, não consegue valorizar estas áreas de investigação e estes conceitos, por favor, que se limite a comer chocolates. O mundo agradece!

 

[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/26/bolsonaro-diz-que-mec-estuda-descentralizar-investimento-em-cursos-de-filosofia-e-sociologia.ghtml

[2] https://www.youtube.com/watch?time_continue=9&v=5KOPjSV81J4

[3] https://www.publico.pt/2019/05/11/culturaipsilon/opiniao/elogio-historia-historiadores-esquecer-filosofia-arte-cultura-1871274?fbclid=IwAR1RrAmuBqh9Fq8AKCe6VP1fVoRnNw4S2hHyO00sUuICmZ5LmyNAQsgCMaM

[4] https://www.lemonde.fr/idees/article/2019/05/06/bresil-les-sciences-sociales-et-les-humanites-ne-sont-pas-un-luxe_5458932_3232.html

[5] https://sites.google.com/g.harvard.edu/brazil-solidarity

[6] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT92978

[7]http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5273/3/Artigo%5b1%5d.Infert.AISO.final.pdf

[8] http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/20393/1/Artigo%20-%20An%C3%A1lise%20Social%20%28Jo%C3%A3o%20Areosa%29.pdf

[9]https://www.academia.edu/38311905/O_contributo_das_ci%C3%AAncias_sociais_para_a_exegese_contempor%C3%A2nea

[10] http://www.redalyc.org/pdf/4815/481547173029.pdf

[11] http://www.scielo.br/pdf/ea/v2n2/v2n2a07.pdf

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/negar-as-ciencias-humanas-nos-deixa-deriva-num-mundo-movido-por-forcas-economicas-diz-judith-butler-23647897?fbclid=IwAR0-y6EmS16NruTq9P5CPZEwtSBBK8KFU8F94Nlhq-cYbQX2_3pxlVJ1Ino

 

 

 

 

 

 

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Usando o cérebro para entender o próprio cérebro: um novo tipo de modelo teórico para descrever nossa atividade cerebral

Em 1952 os pesquisadores Alan Lloyd Hodgkin e Andrew Huxley (foto na Fig. 1) desenvolveram um modelo matemático baseado em circuitos elétricos com capacitores e resistores para  descrever os sinais elétricos medidos em um experimento eletrofisiológico no neurônio da lula. O objetivo do estudo era encontrar uma equação matemática que descrevesse da melhor maneira possível o comportamento do potencial elétrico dentro da célula nervosa ao longo do tempo. Na Fig. 1 podemos comparar um gráfico com a curva do potencial em função do tempo medida experimentalmente em um neurônio real e a curva obtida através das equações propostas por Hodgkin e Huxley. A semelhança entre as curvas teóricas e experimental permitem que usemos o modelo de Hodgkin e Huxley como um bom modelo para descrever o neurônio e garantiu que em 1963 eles recebessem o prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina por este trabalho.

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Figura 1: Esquerda: Os pesquisadores Hodgkin e Huxley medindo a atividade elétrica de neurônios no laboratório (imagem modificada deste site). Direita no topo: potencial de membrana da célula nervosa em função do tempo obtido através do experimento e abaixo curva similar obtida com o modelo teórico proposto por eles.

Diversos modelos em física biológica foram desenvolvidos seguindo uma receita parecida. Temos algumas medidas experimentais, gráficos que representam como certas grandezas variam no tempo, e procuramos uma equação matemática que descreva bem aquela curva. Em especial tentamos comparar cada parâmetro da equação com algum componente do mundo real. E com isso, é possível fazer predições teóricas que possam ser testadas experimentalmente. Por exemplo, na equação que descreve o modelo de Hodgkin e Huxley o potencial de membrana do neurônio depende de um somatório de correntes iônicas de sódio e potássio que atravessam a membrana celular. Então, podemos usar o modelo para fazer uma predição. Por exemplo, o que acontece se bloquearmos a entrada de sódio na célula? Se anularmos o termo da corrente de sódio na equação do modelo obteremos uma nova curva do potencial em função do tempo. Se agora refizermos o experimento, bloqueando a corrente sódio através do neurônio, podemos comparar se a curva experimental ainda se parece com a curva teórica. Em caso afirmativo, nosso modelo continua sendo considerado um bom modelo mesmo nessa nova condição (sem sódio) e podemos seguir fazendo novas previsões.
Desde os anos 50, diversos modelos biológicos foram desenvolvidos para descrever a atividade elétrica de neurônios de diversos tipos, sinapses, grupos de  neurônios, regiões corticais, tálamo, hipocampo, etc. Em particular, um tipo de modelo chamado neural mass (massa neural em tradução livre) usa poucas equações diferenciais para descrever a atividade oscilatória de regiões corticais formada por milhares de neurônios. Conectando várias dessas regiões é possível representar a atividade elétrica do cérebro como um todo. Na Fig. 2 podemos ver um exemplo de cérebro em que cada região está sendo representada por um nó da rede e está conectada a várias outras regiões.

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Figura 2: Representação do cérebro como uma rede complexa. Cada bolinha representa umaregiao e os links as conexões sinápticas entre estas regiões. Modificada das referências [1] e [2].

Recentemente, um estudo liderado pela pesquisadora alemã Petra Ritter* [1] deu um passo importante no desenvolvimento de um modelo matemático que busca descrever a atividade  cerebral como um todo. A grande novidade deste trabalho foi a inclusão de medidas experimentais como parte do modelo teórico (ver Fig. 3A). Pessoas saudáveis que se voluntariaram para participar nas pesquisas tiveram a atividade do seu cérebro gravada simultaneamente através de dois métodos bastante utilizado em neurociência: eletroencefalograma (EEG) e ressonância magnética funcional (fMRI). As curvas azuis e pretas na Fig. 3B mostram o sinal obtido com EEG (filtrado para uma certa componente de frequência) e com fMRI. Assim como no exemplo do neurônio, em que queríamos um modelo que reproduzisse a curva do potencial elétrico no tempo (ver Fig. 1), aqui queremos um modelo que reproduza a curva experimental preta. E de fato, o grupo mostrou que incluindo o dados de EEG como um dos termos do modelo chamado neural mass eles conseguem obter a curva vermelha: bastante similar a curva preta! Na Fig. 3C podemos ver que outros modelos (que não levam em conta o EEG) não reproduzem tão bem a curva experimental.

Esta nova abordagem abre inúmeras possibilidades para combinar dados experimentais com modelos teóricos na busca de entender melhor a atividade cerebral. No futuro, este tipo de modelo híbrido poderá ser útil, por exemplo, para predizer certas atividades que só poderiam ser medidas de maneira invasiva (através de cirurgias e implante de eletrodos intracranianos) utilizando apenas o EEG dos pacientes. Além disso, será possível fazer novas predições e testes sobre os mecanismos responsáveis por determinados tipos de atividades cerebrais. Com este método, também poderá ser possível caracterizar particularidades de cada indivíduo, o que pode vir a ser útil no tratamento de doenças em pacientes que são mais vulneráveis que a média.

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Figura 3: A) Sinal de EEG(esquerda) utilizado no modelo híbrido (centro) para predizer o sinal obtido com a ressonância magnética (direita). B) Série temporal com um exemplo do sinal de EEG (azul), sinal obtido com o fMRI (preto)  medido simultaneamente ao EEG e resultado obtido utilizando o modelos híbrido (vermelho) de neural mass e EEG. C) Comparando o fMRI experimental com o modelo híbrido e outros modelos.  Modificada da referência [1].

Referências

[1] Schirner, M., McIntosh, A. R., Jirsa, V., Deco, G., & Ritter, P. (2018). Inferring multi-scale neural mechanisms with brain network modelling. Elife, 7, e28927.

Nota da autora: essa revista (Elife) torna público o comentário dos revisores que recomendaram a publicação do artigo e a resposta dos autores. Vale a pena dar uma lida nos pontos levantados pelos especialistas da área e nas respostas dos autores!

[2] Deco, G., Kringelbach, M. L., Jirsa, V. K., & Ritter, P. (2017). The dynamics of resting fluctuations in the brain: metastability and its dynamical cortical core. Scientific reports, 7(1), 3095.

*Petra Ritter é médica, terminou o doutorado em 2004, é a pesquisadora chefe do grupo Berlin Neuroimaging Center e em 2007 recebeu o prêmio Unesco-L’Óreal para jovens cientistas e mães. Saiba mais sobre ela aqui ou aqui.

Para ler mais sobre o modelo de Hodgkin e Huxley, sobre EEG e fMRI é só clicar.

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Smart Cities: sobre o que precisamos refletir

Fonte: UNICAMP

Nos últimos tempos, assistimos a um aumento de notícias, palestra e trabalhos acadêmicos sobre o tema das “smart cities” que, acionadas em sua concepção mais básica – da utilização de tecnologias em prol de uma governança melhor para as cidades – parece desejável e mesmo necessária no que nos é vendido diariamente como um completo descontrole urbano nas cidades brasileiras.

No entanto, pensar sobre o tema exige ir um pouco mais a fundo na sua definição e nas suas possíveis implicações em nossas cidades.

Uma simples busca na wikipedia vai retornar o seguinte conceito para smart cities: são “projetos nos quais um determinado espaço urbano é palco de experiências de uso intensivo de tecnologias de comunicação e informações sensíveis ao contexto, de gestão urbana e ação social dirigidos por dados (Data-Driven Urbanism). Esses projetos agregam, portanto, três áreas principais: Internet das Coisas (objetos com capacidades infocomunicacionais avançadas), Big Data (processamento e análise de grandes quantidades de informação) e Governança Algorítmica (gestão e planejamento com base em ações construídas por algoritmos aplicados à vida urbana).

Ao mesmo tempo, instituições como a Fundação Getúlio Vargas – FGV – tratam do tema sob as seguintes bases: “o conceito de Smart City já se consolidou como assunto fundamental na discussão global sobre  o desenvolvimento sustentável e movimenta um mercado global de soluções tecnológicas, que é estimado a chegar em US$ 408 bilhões até 2020. Atualmente, cidades de países emergentes estão investindo bilhões de dólares em produtos e serviços inteligentes para sustentar o crescimento econômico e as demandas materiais da nova classe média.  Ao mesmo tempo, países desenvolvidos precisam aprimorar a infraestrutura urbana existente para permanecer competitivos.”

O texto da mencionada fundação nos leva ao que parece ser o ponto de reflexão mais importante sobre o tema no Brasil: de que forma o investimento de recursos, sabidamente escassos, em tecnologia que serve aos interesses das classes média e alta, bem como da competitividade interurbana, pode ajudar na redução do drástico cenário de desigualdade socioespacial que domina nossas cidades?

O planejamento urbano no Brasil passa por uma visão mercantilizada na qual os investimentos feitos em determinada área devem trazer lucro. Com isso, acabam se concentrando em áreas mais valorizadas, com maior potencial de exploração econômica, em um ciclo infinito de privilégio de certas áreas da cidade em detrimento de outras. O empresariamento da cidade, que se tornou princípio fundamental da administração pública urbana, se mostra como uma máquina de reprodução de privilégios e exclusões, aprofundando os abismos estruturais e simbólicos existentes entre as partes da cidade ocupadas pelas classes média e alta e aquelas ocupadas pelos pobres. O recorte não é apenas econômico, envolvendo verdadeiras fronteiras raciais e jurídicas, evidentes na atualidade a partir dos extermínios institucionalizados, verificados em áreas pobres em nome de um pretenso combate à criminalidade (assunto para outro texto!).

Em um cenário como o nosso, que se reproduz de diferentes formas nas cidades dos países  em desenvolvimento, cabe refletir sobre quem se beneficiaria dos artifícios tecnológicos das smart cities e em que medida eles de fato poderiam ser utilizados para um desenvolvimento integrativo da cidade, realizando o objetivo do alcance de cidades mais justas e solidárias, trazido pela Constituição Federal.

Não podemos esquecer que as cidades abrigam cada vez um percentual maior da humanidade, sendo o espaço por excelência para limitar ou empoderar os indivíduos na busca por seus direitos. Refletir sobre as propostas de políticas e modelos urbanos é condição essencial para nossa individualidade, mas também para o desenvolvimento de nossa sociedade como um todo. A partir dos cenários expostos acima, precisamos nos posicionar sobre que cidades queremos e sobre quais são os melhores meios de se chegar a elas.

As experiências realizadas até então parecem indicar que, antes de pensarmos em tornar nossas cidades mais inteligentes, temos que torná-las minimamente racionas e equilibradas, sob pena de criarmos um extraordinário robô com pés de barro, que não vai a lugar nenhum.

Referências

FGV. O que é uma cidade inteligente? Disponível em: https://fgvprojetos.fgv.br/noticias/o-que-e-uma-cidade-inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

WIKIPEDIA. Cidades inteligentes. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_inteligente. Acesso em 06 de abril de 2019.

VAINER, Carlos B. (2000), “Pátria, empresa e mercadoria: notas sobre a estratégia discursiva do planejamento estratégico urbano”, In: Otília Arantes; Carlos Vainer & Ermínia Maricato, A cidade do pensamento único, Petrópolis, Vozes.

ARCHDAILY. Cidades fabricadas: o caso da primeira smart city do Brasil. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/888323/cidades-fabricadas-o-caso-da-primeira-smart-city-do-brasil. Acesso em 06 de abril de 2019.

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Tal pai, tal filho: como a ciência pode auxiliar na formação de hábitos alimentares

Ter e manter hábitos alimentares saudáveis constituem um dos principais desafios atuais em meio às facilidades do mundo moderno. Os comportamentos e as preferências alimentares individuais são determinadas na infância e têm implicações para o ganho de peso e a saúde ao longo da vida. O que as crianças comem é de grande importância; no entanto, o modo como os pais alimentam seus filhos influencia muito os tipos de alimentos que eles consomem e a quantidade de alimentos que comem na hora das refeições. A literatura científica sobre o assunto apoia a influência dos pais sobre a socialização e o desenvolvimento de comportamentos alimentares infantis, mas a ligação entre a comportamento/alimentação dos pais e das crianças com o ganho de peso na infância, bem como a melhor abordagem a ser utilizada não é clara.

Crianças brincam em escola na cidade de Nookat, no Quirguistão. Foto: OCHA/Eurasia Foundation of Central Asia, T. Jeanneret
A obesidade infantil é considerada uma epidemia mundial pela Organização das Nações Unidas (2).

Uma revisão publicada na revista Current Nutrition Reports em 2018 pelos pesquisadores Hughes & Papaioannou objetivou responder a essas questões e traçar recomendações para os profissionais de saúde e cuidadores, e assim promover um ambiente protetor contra a obesidade infantil (1), considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (2). Os autores reuniram vários estudos publicados a respeito dos hábitos alimentares das famílias e sua relação com o peso e identificaram diferentes tipos de relação pais/alimentação na literatura científica: 1) práticas de alimentação destinadas a fazer com que as crianças façam algo específico, como comer seus vegetais, 2) estilos de alimentação caracterizados por uma atitude mais geral dos pais sobre seus filhos quando socializam os comportamentos alimentares da família, e 3) estilos parentais gerais que englobam comportamentos parentais que influenciam o desenvolvimento geral das crianças. A partir daí, os autores estratificaram os tipos de abordagem e sintetizaram os resultados em três grupos:

1) Práticas de alimentação parental: referem-se às estratégias específicas adotadas para controlar o que as crianças consomem. Incluem restrições, pressão para comer certos tipos de alimentos e a monitorização (os pais estão cientes de quantos lanches e alimentos ricos em gordura são comidos pelas crianças). Os estudos analisados pelos autores mostraram que a restrição foi relacionada ao aumento da preferência da criança pelos alimentos “proibidos”, maior peso corporal, maior consumo na ausência de fome e maior desinibição emocional (comer em resposta a sugestões externas). Por outro lado, a prática de pressionar a criança a comer foi associada a menor peso em diversos estudos transversais. Desta forma, o impacto de como as práticas restritivas afetam o estado nutricional da criança ao longo do tempo permanece a ser esclarecida. Para iluminar essa questão, os autores concluem que a resposta à restrição parece ser diferente de acordo com o contexto, sendo importante considerar os fatores específicos da criança. Por exemplo, os pais que têm filhos com menores índices de massa corporal ou que são mais exigentes na hora de comer podem ter maior probabilidade de usar comportamentos de pressão na tentativa de garantir que a criança consuma alimentos suficientes. Sobre a monitorização, os resultados são inconsistentes, não ficando claro seu benefício. Os autores concluem que práticas parentais restritivas, tipicamente usadas mais cedo na vida de uma criança, podem evoluir para o uso de mais autonomia à medida que as crianças crescem e exercem mais controle sobre suas próprias escolhas alimentares.

2) Estilos de alimentação: referem-se à atitude geral e emocional que pais criam com o filho durante a refeição. Incluem a quantidade de controle que os pais exercem durante as refeições, e a sensibilidade, calor humano, e aceitação que os pais mostram em resposta às necessidades individuais da criança no contexto alimentar. Os estudos mostraram que o estilo de alimentação autoritário (caracterizado pelo controle dos pais mas centrado na criança por meio de demandas nutricionais razoáveis, bem como sensibilidade em relação às necessidades da criança) tem sido associado aos melhores resultados na saúde infantil. Os caminhos pelos quais essa associação surge podem ser a melhor qualidade dos alimentos servidos e consumidos, menor consumo de lanches energéticos e disponibilidade domiciliar de frutas e legumes. Por outro lado, as crianças de pais indulgentes (com falta de regras e limites – criança determina a ingestão alimentar) consomem alimentos com pior qualidade alimentar e exibem comportamentos alimentares problemáticos, além de apresentarem maior peso. Assim, tanto o alto quanto o baixo controle na alimentação é um fator de risco para a obesidade infantil.

3) Estilos parentais gerais: referem-se à atitude e abordagem que os pais empregam para criar seus filhos dentro da família e da sociedade. Os estilos parentais são medidos ao longo de duas dimensões: exigência e responsividade. Exigência na literatura parental geral é definida como a expectativa dos pais, a supervisão e os esforços disciplinares para promover o comportamento adequado ao desenvolvimento em crianças. A receptividade é definida como o grau em que os pais estimulam a individualidade, a autorregulação e a auto-afirmação por serem familiares, apoiadores e aceitarem as necessidades e demandas das crianças. Os pais são categorizados em um dos quatro estilos parentais gerais: 1) aqueles com estilo parental geral autoritário (alta exigência / alta responsividade) se envolvem com seus filhos, fazem demandas maduras, promovem autonomia apropriada e respeitam as diferenças individuais; 2) aqueles com estilo de parentalidade geral autoritário (alta exigência / baixa responsividade) usam comportamentos de poder assertivo com seus filhos e se envolvem em controles e demandas estritos; 3) aqueles com estilo parental geral indulgente (baixa exigência / alta capacidade de resposta) demonstram cordialidade e aceitação, no entanto, carecem de comportamentos adequados de monitoramento necessários para o desenvolvimento infantil; 4) aqueles com estilo parental geral não envolvido (baixa exigência / baixa responsividade) fazem poucas exigências aos seus filhos e mostram pouco envolvimento. A revisão apontou que a parentalidade autoritária está associada a resultados mais positivos para as crianças nos campos acadêmicos, socioemocional e de saúde. Pais com estilo mais autoritário têm crianças que consomem mais frutas e vegetais, menos gorduras e açúcares.

Com isso, os autores concluíram que os pais devem ser sensíveis às necessidades individuais de seu filho ao estabelecer limites no ambiente de alimentação, evitar restringir abertamente os alimentos ou pressionar as crianças a comer. Práticas que são proativas (que antecipem o comportamento da criança), e não reativas (em resposta ao comportamento da criança), maximizam os resultados positivos. Essas práticas benéficas podem ser adotadas por todas as pessoas em contato com as crianças, gerando assim um ambiente propício à alimentação saudável, ao peso saudável e aos comportamentos a serem estimulados durante toda a vida da criança.

Referências do texto e imagem:

  1. Hughes SO & Papaioannou MA. Maternal Predictors of Child Dietary Behaviors and Weight Status. Current Nutrition Reports, 2018.
  2. https://nacoesunidas.org/oms-lanca-novas-diretrizes-de-combate-a-obesidade-infantil-no-mundo/, acesso em 3 de abril de 2019.


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Será que estamos de fato sozinhos? Parasitos e os efeitos da microbiota intestinal no corpo humano

O termo microbiota descreve um conjunto de microrganismos que habitam um determinado ecossistema, e a microbiota intestinal é composta por todos aqueles microrganismos que ocorrem no sistema gastrointestinal que coevoluíram com a espécie humana, sendo essencial para a sua saúde. A microbiota é adquirida através da mãe, durante o parto, amamentação, e também após este período durante a introdução a alimentos diversos.

A microbiota intestinal possui diversos papéis que determinam a fisiologia do hospedeiro. Por exemplo são responsáveis pela maturação do sistema imunológico, resposta intestinal a lesões no epitélio celular, e também pelo metabolismo energético. Múltiplos fatores afetam a sua diversidade, como o sexo, idade, fatores genéticos, dieta e histórico de infecções (quem diria que esses seres microscópicos teriam um papel tão importante?).

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Imagem retirada de CC0 Public Domain

Os mamíferos possuem um genoma extenso relacionado aos microrganismos que se localizam no intestino. O metabolismo da microbiota intestinal já foi diretamente  relacionado a patogêneses como obesidade, doenças circulatórias e          inflamações no sistema gastrointestinal. E quais são os principais microrganismos que habitam nossa flora intestinal? Existem 4 filos principais de bactérias no intestino dos mamíferos: Firmicutes; Bacteroidetes; Actinobacterias; Proteobacterias.

A microbiota extrai a energia necessária através da comida ingerida, acumulação de lipídios, e síntese de vitaminas, assim como outras atividades metabólicas. A desregulação destes processos pode resultar em doenças de nível metabólico, já que estes microrganismos têm a habilidade de quebrar componentes que não capazes de serem digeridos, aumentando a absorção de energia. Estas doenças, como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares são um problema de saúde pública, e o entendimento sobre a ligação entre estas doenças e a microbiota é absolutamente necessário. Porém, não são só os componentes de dieta, o sistema imunológico e genético que podem vir a alterar a microbiota intestinal. Diversos estudos têm demonstrado que parasitos podem alterar a microbiota do nicho em que eles habitam, levando a inflamação e alterações metabólicas.

 

Os vermes e a microbiota

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Necator americanus. Fonte: David Scharf / Science Source

 

Mais ou menos um quarto da população humana está infectada por helmintos (sabe a lombriga? Pois é, ela mesma e outras espécies também). Os parasitos de humanos mais comuns são os geohelmintos (que passam parte do ciclo de vida no solo), como a lombriga (Ascaris lumbricoides), Necator americanus, verme que causa a ancilostomíase, e Trichuris trichiura  que causa a tricuríase. Estes endoparasitos comumente residem no aparelho intestinal.

É sabido que os helmintos secretam (cruzes!) uma variedade de produtos que podem alterar o nicho ambiental que eles dividem com os outros microrganismos. A microbiota, em contrapartida, providencia uma barreira robusta contra a colonização destes parasitos. Outros estudos também mostram que a imunidade é induzida e regulada através da microbiota intestinal e células do sistema imune do epitélio intestinal (clique aqui e aqui para ver outros textos sobre o assunto no blog!) . Estes estudos mostram experimentalmente a capacidade de um parasito do camundongo, Trichuris muris, de alterar a colonização bacteriana e eventualmente proteger o intestino de camundongos de uma possível patologia causada por estas bactérias no intestino.

A infecção por helmintos pode afetar a microbiota, porém se estas alterações são benéficas ou não, aí depende dos fatores que estão relacionados a infecção: por exemplo a condição do hospedeiro e sua suscetibilidade, além da coinfecção com outros parasitos. Além disso, uma quantidade grande de vermes no intestino pode também alterar a suscetibilidade do hospedeiro a infecções secundárias.

Porém, estudos experimentais demonstraram que helmintos também podem impactar no metabolismo indiretamente, devido a alteração da microbiota por um longo período de tempo de infecção. Por exemplo, estudos epidemiológicos sugeriram que uma baixa diversidade bacteriana está diretamente relacionada à deposição de gordura e a inflamação à obesidade. A infecção por helmintos pode estar associada a diversidade bacteriana e, portanto, ter um efeito positivo e diminuir a obesidade.

Outras pesquisas conseguiram estabelecer um link entre aterosclerose, microbiota e helmintos. As bactérias comumente encontradas na cavidade oral têm sido encontradas nas placas ateroscleróticas e sua presença é relacionada a aumento da infiltração de leucócitos. Por sua vez, a infecção por helmintos tem uma correlação positiva com a proteção de doenças cardiovasculares, já que a ocorrência de helmintos pode diminuir os níveis de colesterol e a possibilidade de aterosclerose e consequentemente, doenças cardiovasculares. Os estudos mostram que a resposta do sistema imunológico também tem um papel importante assim como os antígenos secretados pelos helmintos.

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Créditos da imagem: http://saude.culturamix.com

Entretanto, ainda assim são necessários mais estudos já que outras pesquisas relacionadas a microbiota e obesidade em camundongos demonstraram que a dieta também tem um papel importante. Nestes estudos camundongos magros colonizados por uma microbiota de indivíduos obesos começaram a apresentar um aumento no tecido adiposo e na gordura total do corpo.  

As doenças metabólicas têm sido um problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento. Muitas variáveis afetam as interações e associações entre a microbiota, o hospedeiro e os parasitos. Ainda, nem todos os parasitos atuam da mesma forma, e pouco se sabe sobre as secreções e sua influência na microbiota. Investigações ainda estão em andamento relacionados a doenças metabólicas e suscetibilidade genética, status imunológico e dieta. Porém, não podemos descartar o entendimento sobre mudanças na microbiota causadas por parasitos.                     

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Créditos: facebook.com/ minhalombriga

 

Será que é tão ruim ter uma lombriguinha na barriga?

 

 

 

 

Referências:

  1. Bhattacharjee, S., Kalbfuss, N., & Prazeres da Costa, C. (2017). Parasites, microbiota and metabolic disease. Parasite immunology, 39(5), e12390.
  2. Kinross, J. M., Darzi, A. W., & Nicholson, J. K. (2011). Gut microbiome-host interactions in health and disease. Genome medicine, 3(3), 14.
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Um bate e volta em Netuno

Parte V

Na nossa série de textos sobre as luas geladas conversamos sobre o que esses satélites são e o que precisam ter para que recebam esse nome (parte I), e falamos sobre as principais luas geladas de Júpiter (partes II e III) e de Saturno (parte IV). Hoje, no nosso último texto, vamos falar brevemente sobre as luas dos nosso último gigante gasoso, Netuno. Embora Urano, o penúltimo planeta do nosso Sistema Solar tenha 27 luas, até o momento, nenhuma delas é de especial interesse para astrobiologia na busca por vida fora da Terra. Por esse motivo, nosso foco será apenas em Netuno.

Características indispensáveis para que a vida possa existir e ser mantida:

Antes de introduzirmos outra lua, vale a pena relembrar o que é necessário para que uma lua gelada seja classificada como tal. Para receberem esse título, os satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar precisam apresentar os três seguintes pré-requisitos:

  •      um meio líquido,
  •      uma fonte de energia e
  •      condições necessárias para a formação de moléculas complexas responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Um close em Tritão

Tritão, a maior das luas de Netuno, é a lua mais distante do nosso planeta que chama a atenção de cientistas na procura por vida fora da Terra. Além disso, Tritão é a única das grandes luas do nosso Sistema Solar a apresentar uma órbita retrógrada, ou seja, que gira na direção oposta à órbita do seu planeta (Netuno), o que a torna também muito interessante no ponto de vista da astronomia e da astrofísica.

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Figura 1. Foto de Tritão com seu planeta Netuno, ao fundo. Créditos da imagem: NASA

Em se tratando do seu potencial para abrigar vida, Tritão depende da existência de água líquida sob a superfície. Um oceano abaixo da crosta de gelo da lua poderia ser mantido pela energia liberada em seu interior pela força da maré originada no oceano interno da lua, causada pela interação de Tritão com Netuno (similar com o que discutimos sobre Encélado – parte IV). Outra fonte de energia para a existência e a manutenção da vida e do oceano abaixo da crosta líquida, se encontra também em seu interior e é proveniente do decaimento radiológico do núcleo.

Apesar de possuírem poucas informações sobre o interior de Tritão, cientistas propuseram modelos em que a lua seria capaz de manter um oceano líquido, e embora a composição deste seja pouco conhecida, a presença de amônia no oceano e a detecção de carbono na superfície poderiam indicar a possibilidade de reações químicas complexas, que poderiam, por sua vez permitir o surgimento da vida. Além disso, o contato desse oceano líquido com o manto do planeta criaria um cenário próximo àquele onde se supõe que a vida tenha surgido na Terra. De qualquer maneira, pela sua órbita e possível origem singulares, Tritão é uma lua de bastante interesse tanto para a astrobiologia como para a astronomia.

Conclusão sobre as luas geladas

Embora possuam uma classificação comum e recebam o título de luas geladas, esses satélites apresentam características distintas e devem ser estudados sempre levando isso em consideração. Dessa forma, ao planejar missões espaciais, é necessário definir bem o objeto a ser estudado, e no caso da busca por vida, principalmente, qual tipo de vida está sendo procurado. Por fim, é de extrema importância ressaltar que há ainda muito a se descobrir e entender sobre essas luas e que o conhecimento científico apresentado aqui é apenas um pouco do que se sabe até o momento. Isso significa que novos avanços e novas tecnologias tem sempre o potencial de gerar novas descobertas e mudar o que sabemos sobre essas luas.

Referências

AGNOR, C. B.; HAMILTON, D. P. Neptune’s capture of its moon Triton in a binary planet gravitational encounter. Nature, v. 441, p. 192-194, 2006.

BROWN, R. H. et al. Triton’s global heat budget. Science, v. 251, p. 1465-1467, 1991.

ĆUK, M.; GLADMAN, B. J. Constraints on the orbital evolution of Triton. Astrophysical Journal, v. 626, p. 113-116, 2005.

GAEMAN, J.; HIER-MAJUMDER, S.; ROBERTS, J. H. Sustainability of a sub- surface ocean within Triton’s interior. Icarus, v. 220, p. 339-347, 2012.

GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.