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A relação entre mulheres, economia e a pandemia de Covid-19.

Mulher com cartaz com um ponto de interrogação na frente do rosto. Crédito: Getty images.

O Brasil começou o ano de 2020 com indícios e fatos reverberantes sobre uma crise econômica crescente, marcada, entre outros fatores, por uma grande quantidade de pessoas desempregadas, mais de 12,9 milhões de pessoas, destas, quase 65% são mulheres (IBGE, 2020). A pandemia de covid-19 apenas expôs de forma mais nítida a carência social presente no país, bem como a importante participação das mulheres no enfrentamento dessa doença.

Não diferente do já observado no decorrer da trajetória social, o ser feminino carrega consigo uma “obrigação” em realizar inúmeras atividades para atender as demandas que este novo cenário requer. Diante de diversas ações a serem analisadas, que perpassam desde a vulnerabilidade econômica, a sobrecarga de trabalho doméstico e a exposição à violência, as mulheres estão no centro das atividades motriz de uma família.

As mulheres estão à frente da maior parte do trabalho doméstico, por vezes não remunerado; quando em home office devem conciliar o trabalho remunerado com as atividades de cuidado com a casa e família. Ademais, representam a maioria em algumas categorias profissionais informais (faxineiras e diaristas) e nos cuidados sanitários (áreas da saúde e assistência social), estando econômico e socialmente mais vulneráveis aos efeitos da pandemia. Devido essas especificidades que circundam o ser feminino, a Organização das Nações Unidas – ONU – Mulheres apontou a necessidade de políticas públicas com atenção às mulheres (ONU, 2020).

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – nas últimas 07 décadas a participação das mulheres em idade ativa na força de trabalho passou de 13%, em 1950, para cerca 45%, em 2000, sendo crescente a participação feminina nas atividades economicamente remuneráveis nos últimos anos (IBGE, 2020). Ao observar esses dados, a participação masculina ainda é maior que a feminina, o que pode indicar uma dependência econômica das mulheres, principalmente nas populações mais pobres e, sobretudo quando se consideram as mulheres pretas e pardas.

Mãe e filha usam máscaras para se proteger contra o coronavírus em um centro de saúde em Adidjan, Costa do Marfim. Crédito: UNICEF/Frank Dejongh.

Quando se relaciona à covid-19 mais de 60% dos empregos considerados de grande risco são ocupados por mulheres (IBGE, 2020). Conforme a Organização Mundial de Saúde – OMS –, no mundo 70% dos trabalhadores da área da saúde e do terceiro setor (Associações e Entidades sem fins lucrativos) são mulheres (OMS, 2020). No Brasil, 85% dos empregos na enfermagem são ocupados por mulheres. Os profissionais e profissionais da saúde enfrentam além do risco de contaminação, um elevado grau de estresse acometido por esse novo vírus, que pode interferir em todas as suas relações sociais.

Profissional da saúde com semblante de esgotamento físico. Crédito: Wachter health care solutions.

A crise econômica do país tem atenuado a transição entre trabalho formal para informal, mais de 82% destes postos de trabalho foram ocupados por mulheres negras, principalmente no emprego doméstico, deste, cerca de 70% são trabalhadoras informais. Outro ponto que merece destaque é que mais de 45% dessas mulheres são responsáveis pelo sustento da família. A perda de rendimentos afetam filhos e dependentes, podendo levar famílias inteiras à miséria.

Há uma preocupação global com a violência doméstica no período de quarentena. A estimativa da OMS é que a cada três mulheres no mundo, uma sofre violência física ou sexual, e na maior parte dos casos, essa violência é cometida por alguém do seio familiar. Na pandemia, as mulheres estão mais sujeitas a violência e a decisão de ficar em casa para não se contaminar significa ficar a mercê do agressor (OMS, 2020).

Violência contra mulher. Crédito: Getty images.

Por outro lado, as mulheres que buscam empreender também sentem os efeitos da crise econômica. Segundo pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – as empresárias possuem mais dificuldades em obter acesso a crédito que os empresários. A pesquisa apontou que as mulheres empresárias possuem média de escolaridade 16% superior que à dos homens, são mais modernas, ágeis e recorrem em menor proporção a financiamentos para prosseguir com as atividades empreendedoras, entretanto, são as mais afetadas pela pandemia, cerca de 50% dos negócios foram afetados temporariamente ou definitivamente (SEBRAE, 2020).

Mulher com máscara: coronavírus, Covid-19. Crédito: Goffkein.pro/Shutterstock.

Com a recomendação da OMS em manter o isolamento social, se faz necessário políticas públicas federais destinadas a essa população. Contudo, o que se verifica na realidade, são medidas que não conseguem alcançar toda a população que carece de ajuda financeira para conseguir passar por esse delicado período. Momentos como o atual, são mais difíceis para o gênero feminino, uma vez que mesmo quando as mulheres não fazem parte do grupo de risco, elas são do grupo que cuidam de pessoas.

Assim, a pandemia de covid-19 tem impactos diretos na saúde, na renda, nas relações familiares, na educação e nos serviços públicos. Essas áreas são mais ou menos sentidas conforme a renda, localização, sexo, raça e idade dos indivíduos. Sendo assim, se faz interessante que os governos pensem em respostas coerentes e responsáveis com as diversas situações e que ajam com veemência para reduzir o tamanho dos danos que podem ocorrer. Enquanto o novo normal não ocorre, o ser feminino continuará a ser resistência na manutenção de sua família e de sua renda.

Referências:

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

OMS. Organização Mundial de Saúde. Disponível em: <https://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

ONU. Organização das Nações Unidas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/>. Acesso: 28 de maio de 2020.

SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae>. Acesso: 28 de maio de 2020.

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Como crianças brancas e não-brancas associam o estereótipo de “excepcionalidade” com relação a inteligência a pessoas brancas e negras?

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Pesquisa mostra que estereótipo de “inteligência excepcional” é mais associado a homens brancos que mulheres brancas, e que homens negros não são associados a este estereótipo

Fonte da imagem: https://pixabay.com/photos/people-group-children-boy-3137670/

 

Você sabia que a aquisição de estereótipos de gênero ocorre bem cedo no desenvolvimento? Existem evidências de que, a partir dos dois anos de idade, crianças já tem alguma noção sobre estereótipos de gênero, como cores consideradas apropriadas para cada sexo (e.g., Liben & Bigler, 2002). Com o tempo, essa habilidade se expande para coisas mais abstratas, de modo que, na segunda série, crianças já tem uma maior probabilidade de associar habilidades matemáticas com meninos do que com meninas (Cvencek et al., 2011).

Dentre estes muitos estereótipos, a noção de talento intelectual inato – de acreditar que certas pessoas são brilhantes ou gênios – é mais relacionada aos homens que às mulheres. Já foi evidenciado, por exemplo, que esse estereótipo de “excepcionalidade” (brilliance, em inglês) com relação a inteligência já é endossado diferencialmente em crianças de apenas seis anos de idade, as quais passam a acreditar que meninos sejam mais brilhantes que meninas, embora aos cinco anos as crianças, independentemente do gênero, tendam a escolher a pessoa do mesmo gênero que ela como mais excepcional (Bian et al., 2017).

A maioria dos estudos, no entanto, se foca na análise de participantes e/ou de alvos brancos, o que impede verificar efeitos conjuntos de raça e gênero, por exemplo. Pensando nisso, Jilana Jaxon, Ryan Lei, Reut Shachnai, Eleanor Chestnut e Andrei Cimpian conduziram um estudo avaliando como crianças americanas de uma maioria racial (brancas) e de minorias raciais (negras, latinas e asiáticas) associavam imagens de homens e mulheres brancos e negros com o estereótipo da inteligência excepcional.

Para o experimento, 203 crianças (105 garotas e 98 garotos), com idades entre 5 e 6 anos foram recrutadas em duas escolas públicas da cidade de Nova Iorque. Dentre as informações demográficas dadas pelos pais e/ou cuidadores de 80% da amostra, 37% delas era branca, 30% latina, 6% asiática, 5% negra, e 22% foram classificadas como multirraciais. A tarefa consistia de duas etapas. A primeira serviu para garantir que as crianças sabiam o que “muito, muito inteligente” significava. Na segunda tarefa, as crianças viam uma foto com dois adultos em ambientes naturais, como em uma casa ou no trabalho. Em cada foto, aparecia sempre um homem e uma mulher da mesma raça. No total, oito fotografias eram mostradas, e a cada foto, os experimentadores diziam que uma das pessoas na foto era “muito, muito inteligente”, e então pediam para a criança dizer qual ela achava que era. Raça e gênero não eram salientados. Além disso, outras tentativas com distratores foram utilizadas para diminuir as chances de as crianças perceberem o objetivo da tarefa (dizer, diante de outras quatro fotografias, qual pessoa era “muito, muito legal”).

O experimento buscou responder duas perguntas. Em primeiro lugar, as associações de excepcionalidade variam de acordo com a raça do alvo? Em segundo lugar, crianças brancas e não-brancas avaliam essas fotos de pessoas da mesma maneira? Os resultados mostraram que crianças brancas tenderam a associar a excepcionalidade com seus próprios gêneros de modo similar, independentemente do gênero, aos cinco anos de idade. Entretanto, aos seis anos de idade, ouve uma redução nesse escore de excepcionalidade atribuída ao próprio gênero para as meninas, mas não para os meninos. Nas crianças não-brancas de cinco e seis anos não houve mudança no número de associações entre a excepcionalidade e alvos de seus próprios gêneros. De acordo com os autores, esse dado sugere que esse estereótipo de gênero possui um caráter de intersecionalidade desde quando é adquirido, ou seja, leva em consideração gênero e raça dentre as primeiras aprendizagens.

Outra análise que foi feita é sobre o número de vezes que homens brancos seriam associados com excepcionalidade nas crianças brancas e não-brancas de seis anos de idade, em comparação com mulheres brancas. Como esperado, os homens brancos foram mais associados com essa característica, independentemente de gênero e raça das crianças. Além disso, os homens negros, apesar de serem homens, não foram associados a excepcionalidade, embora esse seja um estereótipo de gênero considerado masculino.

Esses resultados mostram a importância de se utilizar uma abordagem interseccional quando analisamos fenômenos sociais; nesse caso, estereótipos de gênero. Uma pergunta que o estudo suscita é: é possível chamar essa e outras características de estereótipos de gênero, uma vez que, de acordo com esse e outros estudos, não é só o gênero que determina as associações feitas? Eu, particularmente, não tenho resposta para essa questão, mas sugiro uma leitura que analisa como o homem negro (entre outros de raça não–branca) não é considerado homem em uma sociedade racista como a que vivemos (Franz Fannon – Pele negra, máscaras brancas).

Ficou curioso? Quer saber mais?

O artigo:

Jaxon, J., Lei, R. F., Shachnai, R., Chestnut, E. K., & Cimpian, A. (2019). The acquisition of gender stereotypes about intellectual ability: Intersections with race. Journal of Social Issues, 75,(4), 1192—1215. https://doi.org/10.1111/josi.12352

Referências:

Bian, L., Leslie, S. J., & Cimpian, A. (2017). Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests. Science, 355, 389–391. https://doi.org/10.1126/science.aah6524

Cvencek, D., Meltzoff, A. N., & Greenwald, A. G. (2011). Math–gender stereotypes in elementary school children. Child Development, 82, 766–779. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01529.x

Liben, L. S., & Bigler, R. S. (2002). The developmental course of gender differentiation: Conceptualizing, measuring, and evaluating constructs and pathways. Monographs of the Society for Research in Child Development, 67, 1–147. https://doi.org/10.1111/1540-5834.t01-1-00187

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Astronomia para Todas e Todos (Astronomia Inclusiva)

Esse texto pode até parecer um pouco fora do contexto atual mas é justamente pra isso. Em meio a uma época tão difícil eu precisava sentir uma esperança de futuros melhores.

Diante de situações complexas o ser humano consegue muitas vezes adaptar-se, vemos agora a nossa luta diária para enfrentar novos cenário do cotidiano mas o que pra nós é apenas uma sitação passageira, para muitos é o rotineito.

Algumas iniciativas têm ajudado pessoas que possuem alguma necessidade especial a aprender ciências e em especial a astronomia. Todos nos beneficiamos quando a astronomia e outras ciências são desconstruídas e reimaginadas sob uma luz diferente para criar atividades acessíveis a todos.

A astronomia é, para muitos, o primeiro amor por um universo chamado ciência. Respostas para perguntas como “de onde viemos?” e “para onde vamos?” são encontradas neste vasto campo. Se considerarmos este caminho realmente crucial para o desenvolvimento humano, devemos então nos perguntar: esse conteúdo é acessível para a todos, independente da idade, status socieconômico, capacidade mental ou física?

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Image credit: NASA/JPL-Caltech/ESA/Harvard-Smithsonian CfA

De acordo com o World Health Organização, cerca de um bilhão de pessoas, 15% da população mundial atual, têm algum tipo de deficiência, como alcança-las?
Os recursos podem ser escaços mas o entusiamos é grande. Clubes de astronomia, sociedades e esforços institucionais, principalmente realizados por voluntários, estão entre os melhores proliferadores de ciência no mundo, produzindo e oferecendo divulgação e materiais educacionais.

Programas de estudo escolarem em todo o mundo incluem principalmente temas sobre astronomia, uma enorme resposta tendo em vista que cidadãos com deficiência são menos prováveis para iniciar ou concluir a escola formal, eles também são condenado a um nível mais alto de pobreza, e sua participação como cidadãos é restrita devido à falta de apoio apropriado, infraestrutura e barreiras adicionais .

Um dos benefícios mais generalizados de imaginar, projetar e implementar ferramentas e atividades para cidadãos com alguma forma de deficiência é a necessidade de desconstruir a complexidade conceitual inerente de um idéia ou problema astronômico em sua forma mais componentes básicos. Este exercício fornece uma ponto de partida universal que é benéfico para comunicar astronomia de forma mais eficaz e claramente.

Para a comunidade com problemas visuais mais agravados, é cortada fora as fascinantes imagens astronômicas, esforços especiais foram desenvolvidos para décadas para tornar a astronomia acessível em formas alternativas e complementares. Livros em baixo-relevo e pôsteres de fenômenos cósmicos existem há décadas, juntamente com um quantidade limitada de literatura disponível em Braille. Modelos artesanais da posição constelações na esfera celeste trouxe as estrelas para os deficientes visuais.

Mais construções sofisticadas, por exemplo, um esfera oca aquecida semelhante ao sol,com ventiladores cuidadosamente colocados em seu interior, produz uma analogia térmica tátil de resfriador regiões – conhecidas como manchas solares – em nosso estrela-mãe, permita uma exoperência sensoriais imersiva.

Tendo consciência da importancia da acessibilidade deste universo oficinas para pessoas com deficiência intelectual foram projetados em torno do uso do sentidos, especialmente toque, ou através do uso de expressões artísticas.

Poderosamente impulsionado pelo Ano Internacional da Astronomia 2009, esforços globais foram feito para criar, montar e padronizar linguagem de sinais para fenômenos cósmicos, como como buracos negros, supernovas e planetas nomes. Essa linguagem permite uma comunicação muito mais clara e eficaz de idéias. Tais esforços fazem passeios em instituições, museus e exposições mais fáceis para se comunicar, permitindo uma método de educação. O observatório McDonald no Texas, por exemplo, projetou uma cadeira de rodas telescópio acessível para cidadãos com comprometimento da mobilidade.

Existem dois passos adicionais negligenciados de extrema importância para tornar a ciência verdadeiramente acessível. Primeiro, é a necessidade de divulgar e compartilhar livremente desenvolvimentos, procedimentos e implantação experiências. Poucos periódicos, se considerarmos aqueles com abertura acesso,é acessível a população. Em segundo, os departamentos e as comunidades científicas precisam projetar e implementar políticas públicas que fornecem recursos para, desenvolvimento e acesso à ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) para todos os cidadãos. Pessoas que podem abordar e usar a ciência em sua vida diária através dessas ferramentas pode alcançar uma melhoria qualidade de vida.

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Embora os recursos sejam limitados em nosso país, existem muitos esforços para aumentar a acessibilidade, algumas universidades públicas tem direcionados grupos que trabalhem desevolvendo ciencia para aproximação deste público.

Na UFRJ criaram uma réplica da Lua, assim os estudantes e visitantes puderam imagina-la a partir do toque. Esta criação tardou um ano em ser terminada, contou com materiais de baixo custo, como miçangaas e papelão. Este trabalho desenvolvido por meio dos pesquisadores não parou por ai, para efetivar uma cultura de acessibilidade, o grupo criou um material didático específico para esses alunos, um material que auxilie no desenvolvimento intelectual e facilite sua inclusão no meio social.

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Outra dificuldade é o ensino e aprendizagem pela comunidade surda, bem como no ensino tradicional, os professores dificilmente são capacitados para lidar de maneira professionais alunos que com essa necessidade. A Astronomia em LIBRAS possibilita ao Surdo não apenas o conhecimento de diferentes disciplinas, mas sintetiza ao demonstrar à comunidade cientifica uma nova abordagem para aprendizagem, ao desenvolver uma ferramenta de interação que possibilita uma melhor compreensão da metodologia proposta em sala de aula. É desafiador e instigante o trabalho com o ensino de Astronomia na comunidade Surda, ao analisarmos o interesse apresentado pelas crianças Surdas e ouvintes sobre a importância do conhecer a vastidão do Universo. É imprescindível ao professor que ensina Astronomia ter ao alcance material didático apropriado, de forma tátil, visual e auditiva; jogos didáticos e atividades lúdicas. Alguns canais no youtube tem auxiliado na difusão dos sinais relarivos a astronomia.

https://www.youtube.com/watch?v=q5N9bKbo6iA

Quando pensamos em acessibilidade temos de pensar em impactos causados em cenários em que um deficiente ocupe espaço de produção cientifica para deficientes, cenário ideal para criação de metodos educacionais mais próximos da realidade dos que têm essa demanda. A National Science Foundation menciona que em 2012, independente do campo, cerca de 11% dos estudantes de graduação relataram uma deficiência, enquanto cerca de 7% dos estudantes de pós-graduação relataram também.

Referências

[1] De Leo-Winkler, M.A. The universal Universe or making astronomy inclusive. Nat Astron 3, 576–577 (2019). https://doi.org/10.1038/s41550-019-0837-5

[2] http://www.ibc.gov.br/noticias/980-lua-criada-pelo-observatorio-do-valongo-e-aprovada-pelos-alunos-do-ibc

[3] https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/13/astronomos-criam-projetos-para-deficientes-visuais-conhecerem-universo.htm

[4] Marilia Rios Nunes. Possibilidades e Desafios no Ensino de Astronomia pela Língua Brasileira de Sinais. Dissertação apresentada ao Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo

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Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

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Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012

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Coronavirus, Pós-Graduação e Maternidade no Brasil: um difícil diálogo.

MAIO 11,2020| @ianycosta

Imagem 1: https://www.eucurtosermae.com.br/2016/12/vida-de-mae-academica.html. Acesso em: 14/04/2020.

O Coronavírus está fazendo sua escala ascendente de vítimas no Brasil e no mundo [1]. Muito se tem dito sobre sua origem, embora não haja um consenso entre os cientistas. Sabemos que esse vírus sofreu mutação, apresentando significativa letalidade e o seu contágio é rápido. Como não existe um tratamento eficaz comprovado para enfrentar a pandemia, o isolamento social é a única alternativa para conter o contágio. No Brasil, entre brigas de poder e de ego, estamos vivenciando os embates entre os entes federativos, alguns embasados pela ciência e outros pelos fakes news para sabermos se continuamos ou não com isolamento. Felizmente para a maior parte dos nossos governantes e sanitaristas estamos em isolamento social até a segunda ordem.

Deste modo, em meio a um isolamento necessário se levantam muitas questões e incertezas, nunca em nossa história recente tivemos que nos recolher, estar em casa com os nossos (quando se têm casa). O que denota o grande abismo social brasileiro que em meio à pandemia torna-se cada vez mais evidente [3]. Por essa razão nunca foi tão urgente se efetivar a política de renda básica universal [4], não apenas um atenuante provisório como o concedido pela lei 13.982/20.

Neste cenário, onde estão as universidades públicas do Brasil? Em sua maioria integram a frente da pesquisa sobre a doença e medidas de segurança em diferentes formas [5]. E os discentes? Da graduação à pós-graduação estão em casa (na medida do possível/impossível), com a suspensão das aulas, algumas universidades tem adotado a suspensão do Calendário Acadêmico 2020 para a Graduação [6]. E a pós onde entra? Não entra, na verdade, a pós nunca para e com isso os prazos também não. É bem sabido que nós pós-graduandas e cientistas brasileiras nunca vivemos um momento tão ruim, não apenas por conta do vírus, mas também por uma política que se estabeleceu na Educação do qual não fazemos ciência, fazemos balbúrdia!

E como boas balburdiadoras que somos, estamos remando contra a maré, mas como continuar com laboratórios fechados e pesquisas paradas? O espaço do lar é para todas lugar de produção científica? Estas perguntas são latentes frente a mais um corte de bolsas de pesquisa [7]. Como seguir produzindo sem bolsas, em casa e para muitas com filhas/os precisando de atenção? Para as mães na pós-graduação como prosseguir produzindo e ao mesmo tempo dar conta dos filhos/as?

Em um cenário de incertezas, a única certeza são os prazos, pois a pós-graduação no Brasil não é mãe, ela é carrasca. Então, para muitas mães como a que vos escreve, estamos vivenciando a difícil tarefa de conciliar prazos e cuidados d@s filh@s, é certo que nessas horas a sobrecarga e medo de não dar conta são companheiras de escrita e pesquisa.

Uma situação que se soma a “via crucis” da bolsa de pesquisa no Brasil, que para as que são bolsistas a luta é para não perder, mas para aquelas que não conseguiram a bolsa a possibilidade deste fomento está cada vez mais distante. Deste modo, em um momento necessário de isolamento social por conta da COVID-19, sustentar a pisada de se manter na pós, sem deixar a maternidade de lado torna-se um balé equilibrista. Quem poderá socorrer a nossa saúde mental?

E a posição das agências de fomento qual é? [8] estendem prazos de defesa para bolsistas, juntamente com a prorrogação das bolsas por igual período [9], mas não contemplam as não bolsistas e continuam a pressionar por produtividade. Por isso a necessidade de nos unirmos para resistir a mais uma avalanche. Li recentemente um artigo sobre o direito a procrastinar na quarentena [10], temática relevante mas que na pós-graduação não tem espaço, assim como ser mãe e pós-graduanda também não.

Com isso, nunca foi tão necessário discutir como tem se pautado as políticas da pós-graduação no Brasil. Em um momento em que o século XXI está ruindo [11], muito tem se falado de como será o mundo pós-COVID-19. Eu me pergunto como ficam as nossas pesquisas e prazos hoje? Quem der conta do recado receberá um singelo “parabéns” e aquelas que ficarem no caminho?

Em tempos de Coronavírus, nunca foi tão importante resistir, ou melhor, r-existir e lutar para permanecer na pós-graduação brasileira, não só por nós, mas por noss@s filh@s, por outra forma de sociedade, outra forma de pós-graduação onde o sujeito seja visto para além dos prazos. O Coronavírus veio para trazer muitas dúvidas, medos, mas importantes lições e a primeira delas é que a vida é o bem mais precioso. Por isso, se somos nós mulheres que geramos a vida, então que lutemos para que a nossa vida e nossa saúde mental dentro das pós-graduações brasileiras, sejam valorizadas além dos muros que a pontuação no Sucupira insiste em estabelecer!

Referências

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-17/ao-vivo-ultimas-noticias-sobre-o-coronavirus-no-brasil-e-no-mundo.html. (17/04/2020).

[2] https://www.nature.com/articles/s41591-020-0820-9 (14/04/2020).

[3] https://www.brasildefato.com.br/2020/04/05/preocupacao-de-bolsonaro-com-o-combate-a-fome-e-falsa (07/04/2020).

[4] https://www.cartacapital.com.br/politica/precisamos-garantir-renda-basica-para-todos-os-brasileiros-defende-suplicy/ (05/04/2020).

[5] https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2020/04/de-norte-a-sul-a-corrida-das-universidades-publicas-contra-a-covid-19/ (02/04/2020)

[6] http://portais.univasf.edu.br/seac-gr/noticias-seac-gr/univasf-mantem-suspensao-do-calendario-academico-devido-a-pandemia-da-covid-19 (06/04/2020).

[7] https://www.andes.org.br/conteudos/noticia/portaria-da-capes-corta-bolsas-de-diversos-programas-de-pos-graduacao1 (01/04/2020).

[8] http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-36-de-19-de-marco-de-2020-249026197 (12/04/2020).

[9] https://www.capes.gov.br/36-noticias/10295-capes-prorroga-a-duracao-das-bolsas-de-mestrado-e-doutorado (30/04/2020).

[10] https://medium.com/@rntpincelli/quarentena-porque-vc-deveria-ignorar-toda-a-pressao-para-ser-produtivo-agora-3f4f0b8378ae (15/04/2020).

[11] https://jornal.usp.br/artigos/covid-19-o-nascimento-de-um-novo-seculo-e-os-laboratoriossociais/?fbclid=IwAR3Q3UAUAC2gcbUN_e12MoV7PRKk4I_zY_nCiZhUVL7sx0rxX3nx2W1Pnw (16/04/2020).

BRASIL. Decreto 10.316/2020.  http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/D10316.htm  (08/04/2020). 

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Aplicação da Biologia Molecular no Diagnóstico da COVID-19

Vamos continuar falando sobre o novo coronavírus responsável pela pandemia que estamos vivendo agora? E se ao invés de falarmos de medidas sociais e políticas de contenção da propagação do vírus, e manifestações clínicas da doença, aprendermos um pouco sobre como funciona uma técnica molecular conhecida por RT-qPCR utilizada para o diagnóstico da doença COVID-19?

Essa técnica é capaz de identificar o material genético do vírus SARS-CoV-2 em amostras coletadas da nasofaringe e orofaringe de pacientes com suspeita de infecção pelo vírus. Ela baseia-se na detecção de regiões presentes em alguns genes que são conservadas no vírus, ou seja, regiões que praticamente não tem mudanças na sua constituição. Essas regiões devem ainda ser diferentes de sequências encontradas em outros organismos para que ao serem detectadas tenhamos garantia que estamos detectando especificamente o vírus SARS-CoV-2 e não outro vírus, como o H1N1, por exemplo.

A técnica utilizada para a detecção dessas regiões gênicas conservadas é conhecida como PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) e baseia-se na reprodução em laboratório de uma reação que ocorre normalmente em nossas células antes delas se dividirem para renovação de tecidos, crescimento, cicatrização ou formação dos gametas sexuais. Sempre antes de uma célula se dividir, seja por mitose ou meiose, ela precisa duplicar o seu material genético, processo conhecido como replicação.

Para entender o processo precisamos lembrar que no núcleo das nossas células encontra-se o DNA que é composto por duas fitas constituídas cada uma por uma sequência de nucleotídeos, as unidades básicas do DNA e RNA. No DNA, os nucleotídeos são formados por 3 moléculas: uma base nitrogenada (guanina, citosina, timina ou adenina), um açúcar desoxirribose e um grupo fosfato (Figura 1). Para que o DNA seja duplicado, é preciso que as suas duas fitas separem-se, função realizada no nosso organismo pela enzima helicase que atua junto a uma outra enzima denominada topoisomerase. Após a separação das fitas, pequenas sequências de nucleotídeos, os primers, irão se ligar nas duas fitas determinando onde uma outra enzima, a DNA polimerase, irá começar a gerar uma nova fita de DNA (Figura 2). Os primers são responsáveis por orientar o local no DNA em que a enzima DNA polimerase deve se ligar e começar a adicionar novos nucleotídeos para dar origem a nova fita em formação. 

Figura 1 – O DNA e suas unidades fundamentais – A. E. B. Andrade et al.

Para realizar a PCR (Figura 3) no laboratório fazemos com que essa reação que ocorre no interior das células ocorra dentro de um tubo onde são adicionados os reagentes necessários: uma enzima DNA polimerase adaptada para resistir a altas temperaturas, os nucleotídeos que irão constituir a nova fita de DNA, os primers que irão determinar o local do gene onde a duplicação deve ser iniciada e um DNA molde que no caso de SARS-CoV-2 é obtido através da coleta de material presente nas vias respiratórias do paciente. A enzima polimerase utilizada na PCR só é capaz de duplicar DNA e já vimos que o vírus SARS-CoV-2 apresenta RNA como material genético. Portanto, precisamos extrair o RNA do vírus e realizar inicialmente uma etapa denominada transcrição reversa que irá produzir um DNA a partir do RNA. Devido a essa etapa a PCR passa a ser então chamada de RT-PCR (Transcrição Reversa seguida de PCR). Uma vez obtido esse DNA pode-se então iniciar a PCR propriamente dita. Após acrescentar todos os reagentes, o tubo é inserido em um equipamento chamado termociclador que é capaz de promover aumentos e reduções de temperatura. Se você prestou bastante atenção reparou que não acrescentamos as enzimas helicase e topoisomerase responsáveis pela separação das duas fitas de DNA. Essa separação é realizada graças ao aumento de temperatura: quando o termociclador atinge uma faixa de temperatura entre 94°C e 96°C, a fitas de DNA se desnaturam e separam-se. Essa etapa é conhecida como etapa de desnaturação. As fitas precisam ser separadas para que os primers se liguem e as novas fitas sejam formadas pela ação da DNA polimerase. Na etapa de anelamento, os primers irão se ligar a suas regiões alvo em temperaturas próximas a 60°C, a depender do seu tamanho e constituição. Na etapa final, conhecida por etapa de extensão, irá ocorrer a formação da nova cadeia de DNA a partir da adição de nucleotídeos pela enzima DNA polimerase que apresenta temperatura ótima de 72°C. Após a adição dos nucleotídeos a nova cadeia é formada e o ciclo se reinicia na etapa de desnaturação, seguida pela de anelamento e por último pela de extensão. Essas etapas irão se repetir por várias vezes até que no final de vários ciclos tenhamos bilhares de novas moléculas que serão então capazes de ser detectadas. Essa é a principal função da PCR, fazer com que uma pequena quantidade de moléculas de DNA incapazes de serem detectadas inicialmente origine bilhões de moléculas ao final do processo que serão capazes de serem detectadas. Dizemos, portanto, que a PCR é uma reação de amplificação pois há um aumento na quantidade de DNA ao final do processo.

Figura 3 – Reagentes e Etapas da PCR convencional. Disponível em: https://www.bosterbio.com/protocol-and-troubleshooting/molecular-biology-principle-pcr

Até aqui descrevemos como funciona a PCR convencional e a RT-PCR, mas se você é um ótimo observador reparou que logo no início do texto citei que a técnica molecular utilizada para diagnóstico da doença se chama RT-qPCR. Esse “q” refere-se a “quantitativo”, uma vez que nessa reação o produto da PCR é medido (quantificado)/analisado em tempo real, diferente da reação de PCR convencional em que só ao final da reação podemos visualizar se houve ou não amplificação da sequência de interesse. Para que possamos observar em tempo real essa amplificação precisamos então adicionar no tubo de reação, além de todos os reagentes já citados, um reagente de extrema importância: a sonda. Assim como os primers, as sondas são oligonucleotídeos, ou seja, também são formadas por uma sequência pequena de nucleotídeos que irá se ligar à sequência alvo de interesse na fita de DNA. Mas as sondas possuem uma característica especial, apresentam em sua estrutura um agente fluorescente capaz de emitir cor que é detectada por um sistema acoplado ao termociclador toda vez que ocorre amplificação da região de interesse (Figura 4). Quanto mais DNA amplificado maior será o sinal de fluorescência detectado. Podemos utilizar várias sondas em uma mesma reação de PCR com capacidades de emitir fluorescência em diferentes cores podendo assim detectar várias regiões do DNA diferentes ao mesmo tempo.

Figura 4 – Emissão de fluorescência por uma sonda na PCR em tempo real. Disponível em: https://kasvi.com.br/pcr-em-tempo-real-qpcr-diagnostico-doencas/

Em relação ao SARS-CoV-2, existe atualmente uma série de protocolos disponíveis para sua detecção validados pela Organização Mundial da Saúde e que utilizam como alvos diferentes genes. Os genes virais escolhidos durante o desenvolvimento desses testes foram o N (codifica a proteína do nucleocapsídeo), E (codifica a proteína do envelope), S (codifica a proteína espícula) e RdRp (codifica a enzima RNA polimerase dependente de RNA) (Figura 5). O protocolo inicialmente sugerido pelo Ministério da Saúde foi o Charité que detectava a presença de regiões dos genes “N”, “E” e “RdRp” (Figura 6). Observe que eu escrevi “regiões dos genes”, isso porque são detectadas regiões mais conservadas dentro de cada um desses genes, os genes completos possuem um tamanho muito grande sendo a detecção de apenas parte deles já suficiente para o diagnóstico. Posteriormente, a detecção da região do gene “N” que era utilizada apenas como teste de triagem foi removida do protocolo, mantendo-se a detecção apenas de regiões do gene “E” e “RdRp” utilizadas como teste confirmatório (Figura 7). Os primeiros testes começaram a ser desenvolvidos antes de se ter disponível o sequenciamento do genoma de SARS-CoV-2 baseando-se apenas nos dados que existiam do sequenciamento de SARS-CoV humano e SARS-CoV isolado de morcegos. Portanto, ao detectar a presença do material genético poderia ser tanto devido a infecção por SARS-CoV-2 quanto também poderia ser por SARS-CoV. Como a SARS, Síndrome Respiratória Aguda Grave causada por SARS-CoV, já foi eliminada em humanos, os casos suspeitos que apresentassem resultado positivo no teste de RT-qPCR deveriam ser considerados infectados por SARS-CoV-2. Atualmente acrescentou-se a detecção de uma região específica de SARS-CoV-2 localizada dentro do gene RdRp tornando, portanto, o teste diagnóstico discriminatório, ou seja, capaz de afirmar que a detecção daquela região é devido a contaminação especificamente pelo vírus SARS-CoV-2 e não outro coronavírus relacionado a SARS. Podemos observar na figura 8 que a sonda RdRp_SARSr-P2, representada por pontinhos marcados em verde, é capaz de ligar apenas em SARS-CoV-2 uma vez que a sua sequência é a mesma encontrada nas 6 sequências disponíveis de SARS-CoV-2 (as 6 primeiras sequências) e não é a mesma das sequências de SARS-CoV isolado de humanos ou morcegos (as 3 últimas sequências).  Os pontinhos representam nucleotídeos idênticos comparados a sequência de SARS-CoV-2 “WH_Human_1” enquanto as letras representam os nucleotídeos diferentes encontrados. E aí, gostou de aprender um pouquinho mais de biologia molecular aplicada à detecção do vírus SARS-CoV-2?

Figura 5 – Estrutura do coronavírus responsável pela síndrome respiratória. Adaptado de Shereen et al.
Figura 6 – Posições relativas das regiões detectadas inicialmente pela reação de RT-qPCR no genoma de SARS-CoV e SARS-CoV-2. V. M. Corman et al.
Figura 7 – Posições relativas das regiões detectadas pela reação de RT-qPCR no genoma de SARS-CoV e SARS-CoV-2. V. M. Corman et al.
Figura 8 – Alinhamento parcial das regiões em que os nucleotídeos se ligam em coronavírus relacionados a SARS (n=9). Adaptado de V. M. Corman et al.

Referências:

Biologia Molecular Básica, A. Zaha, H. B. Ferreira, L. M. P Passaglia, Artmed, 5ª edição.

Biologia Molecular da Célula, A. E. B. Andrade, C. V. Bizarro, G. Renard, Artmed, 6ª edição.

Detection of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) in suspected human cases by RT-PCR. Disponível em: https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/peiris-protocol-16-1-20.pdf?sfvrsn=af1aac73_4.

Diagnostic detection of 2019-nCoV by real-time RT-PCR using Charité, Berlin Germany protocol. Disponível em: https://www.solisbiodyne.com/images/2020%2003%2025_Charite%20protocol_Solis%20BioDyne.pdf.

M. A. Shereen et al., COVID-19 infection: Origin, transmission, and characteristics of human coronaviruses, Journal of Advanced Research, , https://doi.org/10.1016/j.jare.2020.03.005.

Técnicas Básicas em Biologia Molecular, M. T. De-Souza, M. M. Brigido, A. Q. Maranhão, Editora UnB, 2ª edição.

V. M. Corman et al., Detection of 2019 novel coronavirus (2019-nCoV) by real-time RT-PCR, Euro Surveill, https://doi.org/10.2807/1560-7917.

https://pt.khanacademy.org/science/biology/biotech-dna-technology/dna-sequencing-pcr-electrophoresis/a/polymerase-chain-reaction-pcr.

https://www.bosterbio.com/protocol-and-troubleshooting/molecular-biology-principle-pcr.

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Tecnologia em tempos de Pandemia: o que está sendo usado na área tecnológica para combater o COVID 19.

Não é preciso lembrar a todos que o momento que estamos é bastante singular na história da humanidade, porém não é o único. Em 1918 tivemos a famosa Gripe Espanhola que recomendava ao povo medidas como bons hábitos de higiene, toque de recolher, evitar aglomerações e cuidados maiores com pessoas idosas entre outros conselhos como mostrado na figura 1.

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Figura 1: Conselhos na gripe espanhola. Fonte: O Globo (2020)

Apesar das semelhanças nas medidas, a luta no combate é muito diferente. Falamos de 102 anos de diferença e de muita tecnologia desenvolvida nesse período. Incluindo, por exemplo, o desenvolvimento dos computadores, controle, automação, materiais e muita aplicação na área hospitalar. E é sobre essas tecnologias que falaremos a seguir.

Temos ouvido falar muito nos últimos dias que temos que usar máscaras para nossa proteção, que é preciso saber higienizá-las ou descartá-las de forma adequada. Além disso, sabemos que muitas pessoas estão usando respiradores pulmonares em casos graves e que novas invenções brasileiras estão amenizando o tempo de internamento. Mas muitas dúvidas ficam no ar: qual a melhor máscara? Onde o respirador realmente atua? O que temos feito para amenizar os riscos? Então agora vamos explicar!

Segundo os Médicos Sem Fronteiras (2020) o vírus COVID 19 (SARS-CoV2, coronavirus desease 2019) – mais conhecido como coronavírus – é da mesma família da Síndrome Aguda do Oriente Médio (MERS-CoV) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV), e apresenta desde característica comuns de uma gripe até crise respiratórias graves levando à óbito por insuficiência respiratória.

 Não há vacina nem cura  até o momento, então o que pode ser feito é o tratamento para amenizar os sintomas.

A transmissão ocorre por meio físico, não pelo ar. Para isso é necessário que haja contato com quem tem a doença ou com algo que essa pessoa tocou. No entanto é necessário que o vírus tenha contato com as mucosas da pessoa: olhos, nariz, boca. Por isso nossas mãos são o agente transmissor mais provável. E para isso destaca-se a necessidade de higienizá-la sempre, seja com água e sabão ou álcool em gel,  já que levamos muito as mãos ao rosto. Para evitar esse processo o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras quando saem de casa.

O uso de máscaras se faz necessário para evitar que gotículas da saliva de alguém contaminado possam  atingir outra pessoa seja em um espirro ou mesmo em uma conversa. A máscara também evita que as pessoas contaminadas transmitam o vírus. Por isso é essencial que saibamos qual máscara devemos usar.

O ideal seria que todos pudessem usar as máscaras cirúrgicas, feitas de TNT (Tecido Não Tecido), PFF (Peça Semifacial Filtrante), N95, N99 ou N100 (o número indica a Eficiência de Filtragem de Partículas).

A TNT seria melhor para uso comum em ambientes hospitalares, além de ser descartável (figura 2).

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Figura 2: Máscara de TNT. Fonte: Pixabay.

Ela seria a ideal para o uso pelas pessoas nas ruas, no entanto como o coronavírus é uma pandemia mundial, e a maioria das máscaras deste material eram exportadas pela China (primeiro epicentro de contágio), há uma escassez nesse produto. No Brasil elas estão sendo direcionadas principalmente para os locais de atendimento às pessoas com suspeita de contaminação.

Desta maneira o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras caseiras (figura 3), feitas de pano, que têm um grau de eficiência de filtragem baixa, mas que protegem de forma razoável, brandamente. 

As máscaras de panos são fáceis de fazer, mas alguns cuidados são necessários como: usar no máximo por 2 horas se o usuário falar durante o uso, e por 4 horas em caso contrário, além da higienização assim que deixar de usá-la que pode ser 20 minutos em água sanitária e depois lavar com água e sabão esfregando bem. Também jamais colocar as mãos na parte externa da máscara e evitar ficar ajustando-a ao rosto. Especialistas da UFSC mostram aqui como é possível fazer a máscara com as medidas e tecidos certos.

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Figura 3: Máscara caseira. Fonte: Pixabay.

Para população em geral as duas máscaras citadas acima já são o suficiente, no entanto, os profissionais da saúde necessitam de mais proteção que o normal, pois estão em contato direto com as pessoas contaminadas. Nesses casos eles usam as máscaras PFF2 ou N95 (figura 4) mais comumente, estas máscaras podem ser reutilizadas se forem usadas somente como máscara normal, mas em qualquer contato com gotículas elas devem  ser descartadas.

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Figura 4: Máscara N95. Fonte: Bisturi Material Hospitalar (2020).

Estas máscaras têm elementos filtrantes bastante eficientes e por isso oferecem mais proteção ao profissional da saúde que realmente necessita devido ao contato com pacientes com Covid-19. Algumas também possuem respiradores que facilitam o uso contínuo e dão mais conforto ao usuário. Pessoas infectadas também devem usar este tipo de máscara, assim evitam contagiar outras pessoas (lembrando que o isolamento integral também é indicado para os pacientes que não estão em casos graves).

Estas máscaras podem ser desinfectadas e reutilizadas, mas é necessário que sejam usados métodos confiáveis, uma vez que o vírus não pode ser visto. Pensando nisso a USP – Universidade de São Paulo, através do Instituto de Física de São Carlos,  fez uma Câmara de Ozônio (figura 5) que desinfecta 1000 máscaras em 2 horas. Inicialmente as máscaras são colocadas em sacos de poliéster e submetidas a um ambiente de vácuo e depois é injetado ozônio (O3), este ciclo é repetido várias vezes, pois o ozônio deve penetrar nas tramas das máscaras. A ação do ozônio é microbiocida, ele consegue destruir a cápsula proteica (envelope do vírus) e destruí-lo.

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Figura 5: Câmara de Ozônio. Fonte: Jornal da USP (2020)

Outro tipo de proteção muito usado que evita ainda mais o contágio nos profissionais de saúde são as máscaras tipo Face Shield, que protegem todo o rosto do usuário (figura 6).

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Figura 6: Máscara tipo Face Shield. Fonte: Governo de São Paulo (2020).

Essas máscaras estavam em falta no mercado, “estavam” pois, várias pessoas que possuem impressoras 3D estão se unindo em prol da saúde do país e estão produzindo milhares de máscaras e doando para os hospital e postos de atendimento. Alguns grupos disponibilizaram o projeto (figura 7) na Internet de forma gratuita. Para quem tem interesse o grupo de Pernambuco Hardware PE abriu aqui no seu site. É necessário filamento para impressão 3D usado no fixador e base de acrilato transparente para proteção.

 

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Figura 7: Projeto Face Shield. Fonte: Pernambuco Hardware (2020).

Além destes equipamentos, outros fundamentais para recuperação dos pacientes são os respiradores, ou Ventiladores Pulmonares (figura 8), como são mais conhecidos.

 

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Figura 8: Ventilador Pulmonar. Fonte: Emitec (2020) 

Um dos sintomas mais graves do Covid-19 é a falta de ar, isso significa que o paciente não consegue realizar atividades simples como levantar-se ou tomar banho. Nesses casos é necessário que a pessoa procure imediatamente o sistema de saúde. Desta forma, observando a gravidade da situação o paciente será necessário o uso desse equipamento. Em alguns casos mais brandos a ventilação externa, com inalador pode ser o suficiente. Em outros somente a ventilação mecânica ajudará o paciente a respirar. Segundo Button (2002), na maioria dos ventiladores uma fonte de pressão positiva entrega ar para os pulmões do paciente que faz a troca gasosa, e então retira a pressão para que ocorra a expiração. A ventilação artificial pode ainda ser feita pela via nasal, oral ou por tubo de traqueostomia. O processo que o equipamento trabalho é explicado na figura 9.

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Figura 9: Ventilador mecânico. Fonte: Button (2002)

O processo consiste em controlar três parâmetros importantes: pressão, volume e ciclo (tempo). Assim será controlado o fluxo de entrada do ar nos pulmões, na quantidade certa e respeitando o ciclo respiratório do paciente. São fatores que devem trabalhar em sincronia perfeita. A diferença entre a respiração pulmonar comum e a com o ventilador está representada nos gráficos da figura 10 a seguir.

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Figura 10: (a) Ventilação espontânea; (b) Ventilação mecânica. Fonte: Button (2002).

Normalmente nesta situação o paciente ficará sedado para não sentir qualquer incômodo ao processo, no entanto, mesmo com esse procedimento muitas pessoas estão vindo a óbito. Portanto a melhor indicação ainda é prevenir, manter os grupos de risco longe de contágio, e ficar em casa o máximo possível, seguindo todas as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde.

Nem todo leito de UTI possui ventilador mecânico, o Ministério da Saúde recomenda que haja um ventilador para cada dois leitos. No entanto, nesse momento, o uso deste equipamento será de grande demanda, assim muitas pessoas querem inventar equipamentos de baixo custo para auxiliar nessa necessidade urgente. Devemos ficar alertas ao seguinte: a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é que aprova se esses equipamentos poderão ser utilizados, e os parâmetros sobre a segurança do paciente são super rigorosos. Então mesmo que alguns pareçam bastante eficientes, só serão aprovados após muitos testes de validação que duram meses, até anos. Por isso é bom ficarmos alertas a soluções milagrosas.

Outras soluções estão sendo propostas e uma que tem dado resultados positivos é a manutenção dos ventiladores que estão em desuso em todo país. Universidades, Senai’s e o Exército Brasileiro formaram grupos para colocarem esses equipamentos em funcionamento, já que se estima que haja no país aproximadamente 3500 respiradores parados por falta de manutenção. Um desses grupos é o Médico de Máquinas formado na UFPR (Universidade Federal do Paraná) que começou com alunos do curso de Especialização em Manutenção 4.0 e agora já conta com mais de 180 profissionais em sua maioria da área de engenharia. Em alguns casos o ventilador consertado é o único disponível na cidade e que estava parado. A iniciativa começou na cidade de Curitiba, agora é vista por todo o estado do Paraná e outros estados têm entrado em contato para poderem replicar essa experiência em suas regiões.

E assim é o brasileiro, não desiste de lutar. E foi observando a situação dos pacientes nos leitos e nas condições de tratamento que a Samel Health Tech através do Instituto Transire de Tecnologia e Biotecnologia do Amazonas criaram a Cápsula Vanessa (figura 11).

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Figura 11: Cápsula Vanessa. Fonte: Folha (2020).

Ela é composta de uma proteção revestida de vinil transparente, armação de pvc e um exaustor para troca de ar que cobre a cabeça e a região torácica do paciente. Desta maneira, evita mais contaminação externa, além de proteger melhor os profissionais da saúde. Os resultados foram apresentados pela Rede Samel que afirmam que com 80 pacientes em internamento nenhum precisou de ventilação mecânica, além de reduzir o tempo de internamento em unidade intensiva para 6 ou 7 dias. Essa alternativa foi desenvolvida em Manaus, onde o Covid 19 está em grau elevado de contaminação, mas já está sendo estendida para outros estados. Entendendo a gravidade da situação, eles mantiveram a patente aberta e disponibilizam aqui o manual de construção. O custo fica em torno de R$ 200,00. Ainda não há estudos mais aprofundados que atestem a eficiência, mas não possui nenhuma contra indicação, só cuidados na montagem e desinfecção.

O brasileiro mostra, nesse momento, que além de muito solidário é bastante criativo. Várias pessoas ajudando como podem: confeccionando máscaras caseiras e distribuindo, face Shields para hospitais, câmaras de ozônio, câmara Vanessa como foi descrito. Ainda estão fazendo álcool gel, distribuindo comida para os mais necessitados, ajudando o vizinho que faz parte do  grupo de risco a fazer suas compras sem se expor, e tantas outras ações. Se você quer ajudar e não sabe como têm vários grupos que precisam de voluntários, rapidamente você conseguirá achar algo onde pode ser útil. E não vamos esquecer que em algum momento todas as áreas serão necessárias. Senão agora, depois da pandemia certamente. O melhor que podemos fazer sem dúvida é ficar em casa, não somente para não nos contaminarmos, mas também para não transmitirmos o vírus caso sejamos assintomáticos. Fiquem em casa!

A tecnologia hoje nos mostra um cenário muito diferente da época da gripe espanhola, temos acesso à informação em casa pela televisão e pelos celulares. Sabemos quase em tempo real a situação atual, mas também podemos nos estressar com excesso de informação. Então vamos usar os recursos de forma útil, e desconectar também é importante. Para que a saúde mental se mantenha bem.

Tecnologia e proteção temos, é só usar com responsabilidade.

 

Referências

ttps://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/coronavirus-resgata-recomendacoes-e-medidas-restritivas-da-epidemia-de-gripe-espanhola.html

Batista, F. Você conhece um ventilador pulmonar? Saiba o seu funcionamento e as principais falhas. https://blog.arkmeds.com/2018/02/23/saiba-o-funcionamento-e-as-principais-falhas-de-um-ventilador-pulmonar/ Acesso em 15 de abril de 2020

Button, V. L. S. N. Equipamentos médico hospitalares e gerenciamento da manutenção. Ministério da Saúde, Brasília, 2002.

https://www.myminifactory.com/object/3d-print-faceshield-hardware-pe-flat-protetor-facial-116206

https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/covid-19-orientacoes-sobre-o-uso-de-mascaras-de-protecao/

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/como-fazer-sua-mascara-de-protecao-em-casa.html

https://ciclovivo.com.br/covid19/aprenda-a-fazer-uma-mascara-caseira-segura/

https://www.folhadelondrina.com.br/tags/coronavirus

https://www.segurancadopaciente.com.br/protocolo-diretrizes/mascaras-n95-recomendacoes-para-uso-prolongado-e-reutilizacao/

https://jornal.usp.br/ciencias/camara-de-ozonio-criada-na-usp-descontamina-ate-mil-mascaras-em-duas-horas/

https://www.samel.com.br/wp-content/uploads/2020/04/samel-cabine-de-protecao-passo-a-passo.pdf

https://bncamazonas.com.br/municipios/samel-esclarece-capsula-vanessa/

https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/coronavirus?utm_source=adwords_msf&utm_medium=&utm_campaign=covid-19_comunicacao&utm_content=_epidemias_brasil_39923&gclid=CjwKCAjwhOD0BRAQEiwAK7JHmDjMZqxn3qUvtD2bbBXqkDJmv4THPTlI_xTQ-OY_DL04ST3ebcxB6RoCn8sQAvD_BwE

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/engenheiros-da-ufpr-criam-grupo-para-consertar-e-fazer-a-manutencao-em-respiradores-hospitalares/

 

 

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Mulheres Palhaças: que história é essa?

Introdução

Embora a presença das mulheres na comicidade humana seja tão antiga quanto a dos homens, percebe-se que, tanto no cinema, teatro ou na televisão, a presença de mulheres como palhaças ganhou força nos últimos vinte anos. Assim, o destaque para a atuação cômica masculina em relação às femininas por muito tempo ganhou o imaginário  da população ao se falar na arte do palhaço.

Não raro, a comicidade acerca de um imaginário de  grupos marginalizados socialmente, em especial das mulheres, enfatizava e ridicularizava  os corpos e trejeitos femininos a partir da atuação e do olhar masculino.

Assim a construção de uma comicidade feminina em uma história considerada oficial, vem de um olhar masculino sobre os corpos e o imaginário acerca da mulher na sociedade. Na comédia grega Lisístrata, de Aristófanes, por exemplo, as mulheres utilizam a abstenção sexual para interromperem a guerra do Peloponeso. Escrita, e possivelmente atuada por homens, a peça tem uma comicidade relacionada aos corpos e instintos das mulheres. Como é possível perceber no seguinte diálogo (ARISTÓFANES,  2007, p.20-21)

Lisístrata-  Pois bem, vocês terão que se abster daquela pequena parte do homem que mais o classifica como tal. Ué, por que viram as costas? Onde é que vocês vão? Você aí por que morde os lábios? E você, por que balança a cabeça desse jeito? Estão todas pálidas! Até há algumas amarelas. Mudaram todas de cor. Estão chorando? Respondam, ao menos! Vão ou nao cumprir  o que prometeran? Qual é a dificuldade?

Cleonice- Pra mim, total. Eu não  resisto. Que a guerra continue.

Mirrina- Eu também. Que continue a guerra!

Lisístrata- ( para Mirrina). Mas não  era você que estava disposta a comer o próprio braço? 

Mirrina- Estou disposta a sacrificar esse membro, mas não a me privar do outro. Tudo, tudo que você quiser, amada Lisístrata. Menos isso.   

Outro exemplo, encontra-se no Mito de Perséfones, através da personagem  de Baubo que, não possuindo equivalente na mitologia romana, também aponta para a comicidade a partir da questão  corporal-sexual, assim

Vamos comemorar! Nós temos nossos úteros, nossas vulvas, nossa vida. Vamos dançar! Tente… não custa nada, dançar e rir ainda é de graça. Coloque a palma de suas mãos  um pouco abaixo do centro do abdômen ( em cima do útero) e embale- se em uma dança improvisada. Quando estiver pronta, ria alto e o quanto puder. Rir é contagioso, portanto, a partir de hoje, sorria muito e infecte o mundo com a epidemia de seu sorriso ( Felix, 2009).

Mulheres e palhaços no circo.

Em relação à figura do palhaço no ambiente circense, destaca-se que, embora seja possível encontrar a comicidade feminina em diversos papeis, a presença, atuação e, principalmente, o reconhecimento das mulheres nesta arte é considerada uma conquista recente. A história dessa relação aponta para o fato de que, na necessidade de substituir o palhaço do espetáculo, a mulher, em especial, deveria esconder-se sobre as roupas, figurinos e maquiagens dos tipos estabelecidos e reconhecidamente masculinos. 

Em geral, o palhaço é considerado uma figura importante no circo, e sua relação direta com o público garante, em muitos circos, a boa temporada na praça. Ainda que as mulheres participassem de toda estrutura do espetáculo circense (SILVA, 2009), as exigências sociais de comportamento para estas, era a mesma, tanto para o espaço público público quanto para o privado. 

Acrescenta-se que, embora dotada de muito improviso e relação com o público, a comicidade dos palhaços tradicionais girava em torno das relações de submissão de mulheres e grupos socialmente marginalizados em relação ao universo masculino (branco, heteronormativo , rico, fisico e mentalmente aptos,…).Em alguns momentos, a presença de mulheres palhaças deu-se na função de parceiras de cena para o palhaço, destacando- se que este seria, em geral, parente ou marido desta. 

Para alguns circenses, historiadores e pesquisadores, esse papel, secundário, visava “preparar a cena para o palhaço principal que, no final carregaria a graça do espetáculo. Esta função feminina, para alguns pesquisadores, colocaria as mulheres na condição de “bonitinhas, que faziam uma coisinha ou outra”, mas a graça mesmo ficaria com o palhaço ( CASTRO, 2005).

Assim, durante muito tempo esta arte foi vista como um campo de atuação exclusivamente masculino. A possibilidade de criação, atuação, reconhecimento e, sobretudo, reflexão das mulheres palhaças e de outras comicidades  ganhou notoriedade no Brasil e no mundo, com o surgimento das instituições formais de ensino voltadas para a arte circense a partir de 1974, ganhando destaque em 1980, assim, iniciativas como Ringling Bros. & Barnum Clown College (Estados Unidos); L’École de Cirque Annie Fratellini (França), Escuela de Circo Criollo ( Argentina), surgiram a partir de circenses tradicionais e tinham uma inquietação em comum acerca da continuidade do espetáculo.

Percebemos que o circo tinha cada vez menos artistas. Os que tiveram sorte foram para Europa ou Estados Unidos, e decidimos abrir a escola para incorporar sangue novo. Os nossos se opuseram. Estávamos em um momento errado… Acrescento, até meu pai não quis aceitar. Me disse: vai tirar o trabalho dos teus..(INFANTINO, 2016, p. 86)

Assim como a falta de artistas, a preocupação com a continuidade do espetáculo foi um fator motivador e comum ao surgimento de diversos espaços de ensino, a resistência de alguns circenses tradicionais também foi considerada uma preocupação relevante no processo de surgimento dessas escolas. 

No Brasil, algumas escolas que surgiram no final dos anos 70 também tiveram reflexos dessas inquietações  e resistências, tais como Academia Piolin de Artes Circenses (SP); Escola Nacional de Circo, no (RJ) e Circo Escola Picadeiro (SP). 

A presença desses espaços permitiu que outras escolas de circo surgissem  a partir de artistas sem parentesco com a lona, como a Escola Picolino de Artes Circenses (BA), criada por Verônica Tamaoki e Anselmo Serrat, ex- alunos das iniciativas paulistas. Atualmente localizada em Salvador, a escola destina-se à transmissão desta arte à pessoas de fora da lona, mulheres e  socialmente marginalizados. Assim, sem nenhuma necessidade de parentesco ou afetividade com circenses e/ou palhaços, que permitiu o maior acesso e liberdade de criação, sobretudo feminina nesta arte.

A resistência  a estes espaços deve- se ao fato de que, para os artistas considerados tradicionais o aprendizado circense ocorria no dia- a- dia do circo, na observação, treino e repetição cotidiana. Assim, para estes, a ideia de um espaço físico fora da lona seria impensável, além  de criar uma concorrência com os tradicionais.  

Por outro lado, enfrentando a oposição de seus familiares, uma pequena parcela de circenses, viu, nestes ambientes, não  a perda de um espaço de atuação profissional, mas de uma oportunidade, empregabilidade e difusão de suas artes e saberes .

Sobre a arte do palhaço, alguns circenses consideravam, outros ainda consideram, que seu ensino seria inútil, pois haveria o dom, que deveria ser aperfeiçoado. Para o palhaço de rua argentino Tomate, a escola seria um espaço importante de aperfeiçoamento e destaca que não  chegou a ser palhaço apenas pelo dom, mas pela busca constante de melhora de si e de sobrevivência. O circo de rua foi se definindo pela luta, crítica e trangressão (INFANTINO, 2016, p. 92). 

Em outro aspecto, a presença do palhaço, para além dos espaços da lona, e das escolas específicas, alcançou a academia, auxiliando na formação de inúmeros artistas de teatro. Essa outra vertente, cuja presença do palhaço atua nos palcos, está presente desde as origens desse personagem. No séc. XVII, a Commedia Dell’Arte apresenta, a partir de seus personagens, uma comicidade corporal, que dispensava questões  psicológicas. A carcterizaçao de jma comicidade a partir do corporal e da maquiagem também será observada no XIX, através do artista inglês Joseph Grimaldi que caracterizou-se a partir da pantomima e da maquiagem do palhaço, sua iniciativa serviu de inspiração para diversos artistas. Na iniciativa da Antiga União Soviética em 1920, a figura do palhaço foi uma importante ferramenta para o trabalho e aperfeiçoamento da técnica do artista de teatro que deveria servir para a luta do artista. Anos depois, na França, o artista Jacques Lecoq, retoma o trabalho corporal presente na Dell’Arte, para aperfeiçoamento do artista de teatro (SANTOS, 2014). 

Sobre as diferenças entre atuações dos palhaços de circo e de teatro, a artista paulista Cristiane Paoli Quito, cuja formação nesta arte ocorreu a partir da iniciativa de Lecoq, afirma que uma diferença entre os palhaços de circo e de teatro (SANTOS, 2014) estaria na energia destes personagens. Afirmação defendida por Burnier e pelo Lume teatro, escola de formação ligada à Universidade de Campinas.

Na mesma linha de formação, artista, Cida Almeida, baiana cujo contato com a arte do palhaço ocorreu através do curso na Escola de Artes Dramáticas, na Universidade de São Paulo, afirma que o palhaço precisa acompanhar as diversas mudanças sociais, políticas e econômicas de sua realidade (SANTOS, 2014), mas, principalmente, que a busca pelo palhaço seria, na realidade, uma busca pela aceitação pessoal. 

Considerações

Assim, diversos interesses pessoais e sociais norteiam a busca de mulheres por essas iniciativas. Novos tipos de referências, reflexões e construções surgem para os palhaços e palhaças que ultrapassam a construção do personagem a partir do figurino e da maquiagem, atingindo novos patamares e questionamentos: gêneros, cis, trans, politicamente correto, incorreto, tudo passa a ser questionado, vivenciado, regras passam a ser apoiadas em novas estruturas cômicas e mulheres, assim como diversos grupos marginalizados passaram a rir de si mesmas, de seus universos femininos e, principalmente, dos masculinos.

Referências Bibliográficas

AVANZI, Roger; TAMAOKI, Veronica. Circo Nerino: São Paulo: Pindorama Circus: CÓDEX, 2004. 

AVANZI, Roger. La Mínima. In. La Mínima em cena: Registro de Repertório de 1997 a 2012. São Paulo: SESI-SP editora, 2012. Pgs. 17-19.

CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem: Palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Família Bastos, 2005.

FELIX, Helena. Baubo: o poser da alegria. In. Sagrado Feminino, 2009. Disponível  em <<sagrado.feminino.blogspot.com>>, acesso em 12 de abril de 2020.

JARA, Jesús. Los juegos teatrales des clown: navegante de las emociones.Buenos Aires: Centro de publicEducativas

JUNQUEIRA, Mariana Rabelo. Da Graça ao Riso: contribuições de uma palhaça sobre a palhaçaria feminina. Dissertação (Mestrado). Defendida no departamento de Artes cênicas, UNIRIO, Rio de Janeiro. Orientador: Paulo Merísio, em 2012.

LEITE, José Wilson. “La Mínima”. In. La Minima em cena: Registro de Repertório de 1997 a 2012. São Paulo: SESI-SP editora, 2012. 

RÉMY, Tristan. Les femmes-clowns et les femmes-augustes. In: Les Clowns. França: Editíons Grasset & Fasquelle. 1945.

SANTOS, Sarah Monteath. Mulheres Palhaças: Percursos históricos da palhaçaria feminina no Brasil. Dissertação (mestrado). Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”- Instituto de Artes. São Paulo: 2014. Orientadora: Profª.Drª.Erminia Silva.

SILVA, Erminia. Respeitável Público… O Circo em cena. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2009. 

SILVA, Guy. Le Cirque dans tous ses éclats. Paris: Le Castor Astral, 2000.

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O vírus do medo e a xenofobia

Desde as primeiras semanas desse ano, um medo vinha se alastrando pelo mundo sob o nome de coronavírus. Ainda não se sabe a causa [1] (e quem disser “sopa de morcego” provavelmente apenas se enganou por notícias falsas [2]), mas já impera o medo do vírus que se alastra antes mesmo de que apareçam sintomas [3], [4]. À medida que esses casos se acumulam – só no Brasil, já beiram os dois mil [5] -, precisamos dar um passo atrás para compreender melhor de onde viemos e para onde caminhamos.

No dia 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde oficializou que se trata de uma “emergência de saúde pública de interesse internacional” segundo o Regulamento Sanitário Internacional (2007), um status conferido até então a apenas cinco epidemias [6],[7]. Acerca dessa mudança de postura, Deisy Ventura, docente na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP), destacou aspectos tanto positivos, como o potencial aumento de “investimentos em pesquisa”, quanto negativos, tais como o “pânico” junto à população, pois, a seu ver:

“Todas as manchetes sobre o coronavírus que estão alarmando as populações mundo afora fariam melhor serviço se semeassem o pânico quanto ao desmonte dos sistemas públicos de saúde e à desvalorização da ciência. Estes sim são as grandes ameaças à segurança da saúde global.” Deisy Ventura, USP [7]

Longe de mera “retórica”, a ênfase da professora quanto à importância da saúde pública para combater epidemias desse nível consiste em um consenso internacional. Segundo especialistas da OMS: “Em epidemias contagiosas graves, é necessário acompanhar os contatos dos pacientes registrados para assegurar a identificação de todos os casos e limitar a disseminação da doença” (Bonita et. al., 2010, p. 126). Impossível pensar que planos de saúde privados poderiam dar conta dessa totalidade de casos sem o auxílio dos Estados, inclusive em áreas como alimentação e fisco [8], [9].

Na contramão desse auxílio, porém, ainda se fala muito em “corte de gastos” [10], [11], por um lado, e se testemunha muita xenofobia, pelo outro. Segundo o New York Times: “Em países da Ásia, empresas chegam a postar cartazes dizendo que chineses não são bem-vindos e pessoas chegam a assinar petições para proibir a entrada de cidadãos do país em seus territórios” [12]. Em São Paulo, o vírus da xenofobia não poupa sequer os descendentes de asiáticos, como a jovem escritora Fernanda Yumi, que sofreu um ataque no seu local de trabalho na maior cidade do país [13].

O fato de a China estar fazendo a sua parte a um ritmo impressionante [14], sem negar apoio material [15] e humano [16] a diversos países, já começa a mostrar resultados [17]. Resta a residentes em outras partes do mundo cobrarem de seus governos investimentos em saúde, ciência e tecnologia se quiserem ter igual segurança de um tratamento eficaz e gratuito para esta ou qualquer outra emergência que possa vir a surgir no futuro.

Quanto a nós, não teremos dúvidas na hora de escolher entre cobrar os governantes ou transmitir o preconceito. Esperamos de nossos leitores apenas o mesmo bom senso.

Referências

[1] Mercado de frutos do mar em Wuhan não foi origem do coronavírus, dizem cientistas (28.01.2020)
[2] Sopa de morcego exemplifica a desinformação e xenofobia no caso coronavírus (04.02.2020)
[3] Com casos confirmados em 13 países, coronavírus é transmissível antes dos sintomas aparecerem (26.01.20)
[4] Maioria dos casos de Covid-19 pode vir de pacientes assintomáticos, sugere estudo (16.03.2020)
[5] Worldometer – Coronavirus (Brazil) (Acesso em 23.03.2020)
[6] Coronavírus: o que significa a OMS declarar emergência global de saúde pública (30.01.2020)
[7] Coronavírus: não existe segurança sem acesso universal à saúde (31.01.2020)
[8] Covid-19: Criada Rede de Emergência Alimentar para população mais carenciada (20.03.2020)
[9] Com coronavírus, Itália anuncia suspensão de impostos e outras medidas de alívio (11.03.2020)
[10] Capes recua e diz que não cortará bolsas de estudantes no exterior por causa de coronavírus (19.03.2020)
[11] Governo facilita reduzir jornada e salário de funcionários e permite antecipação de feriados (18.03.2020)
[12] Sentimento anti-China se espalha com a propagação do Coronavírus (31.01.2020)
[13] Mulher borrifa álcool em jovem: “Você é o coronavírus” (19.03.2020)
[14] China construirá segundo hospital para tratar pacientes com coronavírus (25.01.2020) 
[15] Niterói declara guerra contra o coronavírus e limpa a cidade com tecnologia chinesa (23.03.2020)
[16] China envia médicos especialistas para Itália por pandemia (17.03.2020)
[17] China zera transmissão local do novo coronavírus pela 1ª vez (18.03.2020)

Bibliografia

Bonita, R.; Beaglehole, R.; Kjellström, T. (2010). Epidemiologia Básica. Santos, 2a ed. IN: https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43541/9788572888394_por.pdf;sequence=5

 

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Você sabe o que é colorismo?

Estudo mostra as chances de um indivíduo ser preso a depender da cor de sua pele

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Créditos da Imagem: Photo by Yunming Wang on Unsplash

O termo colorismo pode ser conceituado como as consequências sociais diferenciais entre indivíduos brancos e negros, de modo que, quanto mais próximo da pele branca com características eurocêntricas, melhores as consequências. Tais consequências vão desde as chances de estudar, conseguir emprego e obter bons salários, até a probabilidade de ser considerado bonito/desejado e de um indivíduo se casar. Assim, pessoas com pele mais clara possuem chances aumentadas de obter coisas positivas, como educação, emprego e bons salários, e chances menores de obter coisas negativas, como ser abordado por um policial, ser preso ou ser sentenciado a muitos anos de prisão. De modo inverso, quanto mais escura a pele de uma pessoa, maiores as chances de sofrer uma abordagem policial, da pessoa ser presa e sentenciada a muitos anos de prisão, enquanto suas chances de obter educação, saúde e emprego são menores (e.g., Dixon & Telles, 2017).

Um ponto importante quando se fala de colorismo é que tal concepção pode se sobrepor ao conceito de raça e racismo em alguns contextos e/ou em algumas culturas: por exemplo, na sociedade brasileira, onde se utiliza a cor da pele (além de outros traços fenotípicos, como a textura do cabelo e o formato do nariz e da boca) como o principal indicador da raça de um indivíduo, cor e raça são tidos como sinônimos em vários contextos. Em outras culturas, como a estadunidense, onde o principal critério para saber a raça de um indivíduo é a hereditariedade (embora estes outros traços fenotípicos também sejam utilizados em alguns contextos), cor e raça são mais distintos que similares (embora possa haver alguma sobreposição).

Ampliando a literatura sobre o tema, Amelia Branigan, Christopher Wildeman, Jeremy Freese e Catarina Kiefe publicaram um estudo na revista Social Science Research investigando as chances de homens brancos e negros estadunidenses serem presos utilizando um banco de dados para análise. Sendo a pesquisa realizada nos Estados Unidos, é importante ressaltar que, nessa cultura, o conceito de colorismo operando como um contínuo de consequências sociais diferenciais, é geralmente adotado para se referir às minorias (especialmente às pessoas negras), de modo que se assume que a diferença no tom da pele branca não estaria relacionada a essas consequências diferenciais.

Para realizar a análise, utilizou-se dados obtidos no estudo de coorte “Coronary Artery Risk Development in Young Adults” (CARDIA – em português, Risco de Desenvolvimento de Artéria Coronária em Jovens Adultos) de quatro cidades: Birmingham – Alabama, Chicago – Illnois, Minneapolis – Minnesota, Oakland – California. Foram analisados os dados sobre raça, sexo, idade e nível educacional dos respondentes. Na primeira aplicação do questionário (realizada entre 1985 e 1986), os respondentes diziam se tinham sido presos no ano anterior. Na segunda aplicação (1987-1988), a pergunta era repetida, porém sem a limitação temporal.

A medida da cor da pele dos respondentes foi obtida na quarta aplicação (1992-1993), utilizando um espectrofotômetro. Esse instrumento mede a refletância da pele, de modo que, quanto maior a refletância da pele, mais clara ela é (nesse sentido, quanto maior a refletância, a pessoa seria “mais branca” na nossa concepção). O local de aplicação do espectrofotômetro foi a parte interna do antebraço, local onde raramente se pega sol, de modo que, para os experimentadores, refletiria a cor “constitutiva” de cada participante. Uma vez que existe uma correlação entre nível socioeconômico e negritude, o estudo controlou o cargo ocupado pelos respondentes, o nível educacional obtido pelos pais dos respondentes e por eles mesmos, de modo que as diferenças encontradas foram devido a cor do respondente, e não seu nível socioeconômico. Os dados analisados foram de 888 homens brancos e 703 homens negros.

Em resumo, os resultados mostraram que o nível de refletância da pele está associado a probabilidade de ser preso somente para os homens brancos (p<0.01); independentemente da cor, os homens negros tinham a mesma probabilidade de serem presos (uma probabilidade, no entanto, bem mais alta que a dos homens brancos, é importante mencionar). Ao analisar a probabilidade de ser preso pelo percentil de refletância da pele, verificou-se que, entre os homens brancos cuja pele possuía refletância semelhante à do negro de pele mais clara, a probabilidade de prisão se assemelhava a das pessoas negras.

Esses resultados são importantes, uma vez que mostram 1) que o racismo atinge também pessoas brancas, mesmo em um país como os EUA, onde a raça é formalmente classificada mais por conta da hereditariedade do que por meios fenotípicos; 2) que, apesar dessa formulação, em decisões rápidas, como a de uma abordagem policial, os policiais estadunidenses se pautam mais nas características fenotípicas para realizar ou não uma abordagem e/ou prisão e 3) que um indivíduo negro, mesmo de pele clara, tem a mesma chance de ser preso do que um negro retinto. Achados de pesquisas anteriores, que mostraram que brancos com características afrocentradas têm maiores chances de serem presos e de terem maiores sentenças que indivíduos brancos com traços eurocêntricos apoiam tais resultados. Uma das limitações do estudo foi o fato que os dados analisados foram obtidos há 30 anos, duas décadas após a Lei dos Direitos Civis, que eliminou formalmente as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Apesar disso, tais dados são relevantes, uma vez que é nítido que o racismo é um fenômeno presente tanto nos EUA quanto no Brasil, como mostram as inúmeras notícias de agressões verbais e físicas a indivíduos negros/de pele escura quase que diariamente.

Quer saber mais? Leia o estudo na íntegra:

Branigan, A. R., Wildeman, C., Freese, J., & Kiefe, C. I. (2017). Complicating colorism: Race, skin color, and the likelihood of arrest. Socius: Sociological Research for a Dynamic World, 3, 1-17. doi: 10.1177/2378023117725611

Referência

Dixon, A. R., & Telles, E. E. (2017). Skin color and colorism: Global research, concepts, and measurement. Annual Review of Sociology, 43(1), 405–424. doi:10.1146/annurev-soc-060116-053315