0

Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

Anúncios
0

Conselhos para as jovens em tempos de “pós” – feminismo

Todos os dias, entre as enxurradas de opiniões compartilhadas contra os diversos movimentos feministas nas redes sociais, é frequente nos depararmos com aqueles que se colocam como mais “moderados” argumentando que o feminismo foi, sim, algo necessário em um determinado momento histórico, mas que hoje não serve para mais nada: afinal, as mulheres já votam, já trabalham, já tomam pílula, já têm os mesmos direitos que os homens, não é verdade?

Como mais um esforço para mostrar o contrário, para evidenciar o fato de que a nossa sociedade está muito longe de ter igualdade total de gênero e que o feminismo continua extremamente necessário, hoje falamos da pesquisa de mestrado defendida, em agosto de 2017, por Bruna Ximenes Corazza, na área de Linguística Aplicada da UNICAMP. O seu estudo foi baseado em uma comparação entre os conselhos dados às jovens leitoras em  duas revistas brasileiras: os artigos e colunas da revista feminina Jornal das Moças, da década de 1950, e as matérias voltadas às adolescentes dos anos 2000 na revista Capricho, uma das mais populares de seu segmento. A sua conclusão? Muito mudou em cinquenta anos, mas as duas revistas apresentaram fórmulas muito parecidas de prescrição de comportamentos adequados para suas leitoras. Uma análise mais profunda dos conselhos indicou, ainda, que o ideal de feminilidade pregado por essas duas revistas não apresentou significativas alterações.

capas

Capas da revista Jornal das Moças (setembro de 1956) e Capricho (março de 2000). Fonte: CORAZZA, Bruna X. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Unicamp: 2017, pp.43 e 46)

À primeira vista, as diferenças podem parecer grandes. O Jornal das Moças, por exemplo, estava muito preocupado em ensinar às jovens o comportamento adequado para se conquistar um marido e realizar seu objetivo principal: ser mãe. Uma mulher, por exemplo, deveria manter sua aparência bem cuidada para despertar o interesse masculino, realçando seu corpo feminino, mas nunca colocando em risco seu “ar de respeito”. Corazza relaciona esse discurso à moda da época, que realçava a figura da “ampulheta” do corpo da mulher, como na criação da “Linha Corola” ou “New Look” de Christian Dior, cuja barra da saia deveria estar a exatos 40 cm do chão – uma maneira de sensualizar parte da perna sem perder aquele “respeito”.

Dior

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op.cit., p.20

A Capricho, por outro lado, não trazia nenhum tipo de conselho que assumisse como “natural” aqueles papeis sociais destinados às mulheres pelo Jornal das Moças (esposa e mãe), mas também apresentava um silêncio perturbador sobre recomendações para a vida profissional futura das suas jovens leitoras. Isso é ainda mais significativo se tomarmos o público-alvo da Capricho nos anos 2000, as adolescentes entre 15 e 19 anos, jovens em fase de começar a pensar em carreira, em universidades, em vestibular, etc.

Há ainda mais: a Capricho vendia o slogan “Seja diferente, seja você” como forma de se contrapor à ideia de que todas as adolescentes eram iguais, supostamente valorizando a diferença e a autenticidade. Contudo, seu discurso, nas colunas analisadas, indicava que essa valorização do diferente era parcial e contraditória. Em uma reportagem sobre a música Punk feita por mulheres, por exemplo, a revista colocava garotas feministas como “encrenqueiras” e implicantes, usando a expressão “anti-chapinha”. Nessa mesma reportagem, a revista se referia à cantora Avril Lavigne, que fez grande sucesso nessa década, como a “princesinha do Pop Punk” (Corazza, 2017, p.94).

Corazza observou, também, que a Capricho promovia um “engajamento fabricado pela indústria de consumo, com uma roupagem de liberdade e conquista pessoal” (idem, p.95). A “escolha” do que comprar de acordo com o seu “estilo” criava uma falsa sensação de liberdade: as jovens se sentiam empoderadas ao consumir, acreditando estarem “sendo diferentes”. No entanto, elas também não poderiam ser “elas mesmas”. Na transcrição a seguir, sobre como agir em uma paquera por mensagens de texto via celular, vemos como isso fica claro:

excerto25

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.96

Corazza chama a atenção para o item 4, cuja orientação não é no sentido de que a jovem seja ela mesma, mas no de que ela demonstre uma autenticidade planejada, construída, ou seja, falsa. Nas palavras da autora, “não se trata de ser autêntica, mas de agir como se fosse” (idem, p.96). Além disso, vemos o reforço de um ideal de beleza que, da mesma forma como nos anos 1950, não permite a aparência real. Nos anos 2000, contudo, ao invés da aparência ampulheta planejada nos últimos detalhes, as meninas precisavam dominar o “desarrumado arrumado”, já que, como é anunciado em uma das capas da Capricho, os meninos não gostam de meninas que usam muita maquiagem.

A Capricho também apresentava, com muita frequência, artigos sobre boa forma e como emagrecer, reforçando os discursos de gordofobia para um público-alvo extremamente sensível a esse tipo de questão. Na tabela abaixo, Corazza elenca alguns exemplos:

tabela 9

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.97

Para as adolescentes, a mensagem estava clara: seja você, seja diferente, mas não seja gorda, não seja muito produzida, não seja tão diferente, não seja feminista, não seja… Isso pode até não ser o mesmo discurso do Jornal das Moças, que insistia “seja esposa e mãe”, mas não significa, de jeito nenhum, que uma revista produzida na sociedade teoricamente “pós-feminismo” dos anos 2000 deixou de controlar o que significava ser adolescente, jovem e mulher. Para nós, que temos filhas, irmãs ou primas mais novas, a pesquisa de Corazza levanta uma questão muito importante: a quais tipos de discursos sobre feminilidade estamos expondo as novas gerações, sem nem sequer percebermos?

Referência:

CORAZZA, Bruna Ximenes. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2017.

0

As mulheres livres, ontem e hoje

Entre 1936 e 1939 ocorreu um evento na Europa que é constantemente esquecido por conta do impacto da Segunda Guerra Mundial: a Guerra Civil Espanhola. De um lado, os militares liderados pelo General Francisco Franco, que depois iria assumir o governo do país de forma ditatorial até 1975. Do outro, republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas lutando contra o fascismo pela liberdade. Estes últimos, especialmente na região da Catalunha industrializada, transformaram a luta contra Franco também na construção de uma nova sociedade. Em pouquíssimo tempo, os trabalhadores coletivizaram e assumiram a administração de fábricas, terras, serviços públicos, etc. Era o início da Revolução Espanhola, da qual poucos ouviram falar até hoje.

Foi nesse contexto, na cidade de Barcelona, que nasceu o grupo anarquista Mujeres Libres. Fundado pela advogada Mercedes Comaposada, pela jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil e pela médica Amparo Poch y Gascón, seu objetivo era lutar por questões relativas ao universo das mulheres, como aborto e prostituição, que não recebiam espaço para debate e ação nos sindicatos. No seu auge, o Mujeres Libres contou com mais de 20 mil afiliadas, e oferecia palestras, cursos, creches e até casas de apoio para receber, educar, capacitar e promover a libertação das mulheres da cultura patriarcal que também existia de maneira muito forte entre os trabalhadores e operários. Suas atividades e o posterior envolvimento com a guerra contra o franquismo eram divulgados através da revista de mesmo nome, até hoje um documento muito importante para registrar não só a experiência da Revolução Espanhola, mas a participação ativa das mulheres nesse período, que acabam sendo deixadas de lado pelo viés mais tradicionalista da História.

ml1

                 Reunião da Federação Mujeres Libres  na cidade de Valência           (in RAGO e BIAJOLI, 2017, p.89)

 

Em 2017, porém, Margareth Rago (Unicamp) e Maria Clara Biajoli, duas historiadoras brasileiras, reeditaram o livro Mujeres Libres da Espanha, uma coletânea de artigos traduzidos da Revista Mujeres Libres, deixando essa documentação e a história dessas mulheres mais acessíveis para outros pesquisadores e o público em geral do Brasil. O livro é resultado de uma pesquisa conjunta desenvolvida entre os anos de 2002 e 2007 com financiamento CNPq e FAPESP, divulgada em diversos artigos e na dissertação de mestrado de Biajoli, e traz documentos coletados em arquivos na Espanha e em acervos pessoais de mulheres que participaram do ML tanto durante a Guerra Civil quanto depois, no exílio na França (a grande maioria das Mujeres Libres, assim como milhares de outras pessoas, fugiram da Espanha após a vitória de Franco). Os assuntos abordados incluem política e guerra, anarquismo, reflexões sobre o próprio grupo, feminismo, moral sexual e amor livre, etc., e indicam a qualidade progressista e libertária dessas mulheres em meio à opressão de classe, gênero e, também, religião – não podemos esquecer o peso da Igreja Católica na Espanha naquela época.

capa livro ml

Capa da coletânea organizada por Rago e Biajoli (2017)

 

Além desses documentos do período, a coletânea também traz algo inédito, relatos de memória de algumas dessas mulheres coletados em entrevistas e cartas. Essa seção em especial é muito interessante porque há uma tendência em estudos sobre guerras de ignorar ou diminuir autobiografias e memórias de mulheres sobre esses conflitos, já que são vistos sempre como algo eminentemente masculino. Contudo, abrir espaço para a experiência da mulher pode mudar toda a nossa percepção sobre esses eventos. A historiadora Patricia Greene, por exemplo, argumenta que “autobiografias de mulheres ativistas da esquerda espanhola frequentemente apresentam uma narrativa com uma voz dupla que integra, textualmente, a complexa relação entre a pessoa pública e a mulher privada, entre a história oficial e a história pessoal, enquanto, simultaneamente, constrói uma contra-narrativa que desafia a versão franquista fraturada da história” (334).

A experiência das Mujeres Libres, no final da década de 1930, foi de resistência, luta e solidariedade e mostrou como as mulheres, unidas, conseguem atingir objetivos antes considerados impossíveis. A divulgação da sua história e de suas memórias também é um ato de resistência à História masculina tradicional dos vencedores, que apagou a Revolução Espanhola e o Mujeres Libres. Mas é também um incentivo para nós, mulheres, para procurarmos as nossas próprias formas de união e de resistência hoje aos novos fascismos que se aproximam.

revistas ml

                    Alguns exemplares da Revista Mujeres Libres                (in BIAJOLI, 2007, p.157)

Referências:

RAGO, Margareth e BIAJOLI, Maria Clara P. Mujeres Libres da Espanha. Documentos da Revolução Espanhola. São Paulo: Biblioteca Terra Livre, 2017.

BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Narrar Utopias Vividas: Memória e Construção de Si nas Mujeres Libres da Espanha. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, 2007.

GREENE, Patricia V. “Federica Montseny: Chronicler of an anarcho-feminist genealogy” in Letras Peninsulares, Outono de 1997.

0

“Para que feminicídio se já existe homicídio?” – Pesquisa da Demografia traz uma resposta

“Para que feminicídio se já existe homicídio” é uma pergunta que ouço com frequência desde a aprovação da lei brasileira de 2015, que qualifica o assassinato de mulheres motivados por uma questão de gênero: sua condição de mulher associada ao status de esposa / namorada / mãe, etc. Geralmente, a pergunta é feita por homens. Casos como o recente feminicídio de Tatiane Sptizner, 29 anos, tornam necessária uma resposta definitiva.

As imagens da violência que Tatiane sofreu nas mãos do marido chocaram o país e também circularam o mundo, encontrando espaço em muitos jornais internacionais. Contudo, a sua morte é uma exceção apenas pela divulgação que recebeu da imprensa nacional e estrangeira, já que diversas organizações feministas e páginas no Facebook como a 8M Brasil ajudam a divulgar muitos outros casos esquecidos e que chegam a números alarmantes. A morte dessas mulheres, na maioria das vezes, é a consequência direta de relacionamentos abusivos permeados por violência doméstica, psicológica e sexual, também criminalizados no Brasil através da Lei Maria da Penha desde 2006.

O conceito de feminicídio é importante para a sociedade e o próprio Estado enxergarem um tipo de crime muito comum, que tende a desaparecer nas estatísticas generalistas de “homicídios”. É o que mostra a pesquisa de doutorado desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas por Jackeline Aparecida Ferreira Romio, “Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde” (IFCH, 2017, bolsista CAPES #minhapesquisacapes #existepesquisanobr). Romio busca fazer um levantamento dos casos de mortes de mulheres, no Brasil, que poderiam ser considerados feminicídios, entre os anos de 1996 e 2014, ou seja, anteriormente à lei. A tese, da área da Demografia, inova ao tomar como fontes documentos da área da saúde que fazem parte do SUS, como as Declarações de Óbito (DO) disponíveis no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). Para a pesquisadora, voltar-se para esses registros possibilita preencher os “buracos” deixados pelos tradicionais Boletins de Ocorrência e outras fontes jurídicas normalmente utilizadas em pesquisas sobre violência por conta da “sub-notificação dos casos de agressão contra mulheres”, motivada, entre outras questões, pela “naturalização das mortes de mulheres por razões de gênero, a invisibilidade institucional dos efeitos de determinadas leis na vida das mulheres [e] o viés andrógeno dos meios de coleta de informação que não favorecem a interpretação direta da violência contra a mulher” (p.88). Um caso contundente apontado por Romio é o feminicído da jovem Eloá Pimentel em 2008, mantida em cativeiro durante 4 dias pelo seu ex-namorado Limdemberg. Para Romio e outras estudiosas do caso, os “oficiais cometeram sucessivas falhas e declaravam à imprensa sua vontade de preservar a vida e integridade moral do sequestrador que, na opinião deles, era apenas um jovem apaixonado” (p.56), o que possibilitou o feminicídio da jovem. E não é só no Brasil. Em um importante estudo de 1992, as pesquisadoras Jill Radford e Diana Russell já tinham apontado para a banalização no tratamento das mortes das mulheres tanto pela justiça quanto pela mídia nos EUA, Reino Unido e Índia: “Nos casos de agressão contra a mulher há uma tendência em transformá-la na própria responsável pela agressão que sofreu” (p.42).

Romio apresenta os dados de sua pesquisa em uma classificação de feminicídios divididos em 3 sub-categorias: feminicídio doméstico, ou seja, a “violência letal por agressão física contra a mulher no contexto domiciliar, conjugal ou familiar registrados no sistema de saúde”; o feminicídio sexual, a “violência letal por agressão física contra a mulher por meio sexual”; e inova, novamente, ao incluir o conceito de feminicídio reprodutivo, “vinculado às políticas de controle do corpo e da sexualidade da mulher, cuja expressão mínima são as morte por aborto registradas nos sistema de saúde” (p.71), este último essencial para fortalecer, por exemplo, a recente discussão no STF sobre a descriminalização do aborto e combater a triste derrota da mesma proposta no Senado da Argentina. Para Romio, essas sub-categorias são importantes para tentar contornar um problema apontado pela pesquisadora Wânia Pasinato de que agrupar todos os assassinatos de mulheres em uma única categoria pode silenciar questões relativas ao contexto em que o crime ocorre e prejudicar a atuação do Estado e o desenvolvimento de políticas públicas para combater a prática.

Mesmo para quem não entende muito de Demografia ou Estatística, os resultados apontados por Romio são muito preocupantes. Por exemplo, em uma comparação de mortes de homens e mulheres decorrentes de agressão sexual, a pesquisadora chega ao gráfico abaixo, dividido por 3 faixas etárias:

grafico romio

Gráfico apresentado por Romio, p.133

Os números mostram que a maioria esmagadora dos casos de violência sexual afeta meninas e mulheres até 49 anos, porém indica também a violência sexual contra meninos e homens, um dado que não pode ser ignorado. Basta lembrarmos, por exemplo, os casos de pedofilia abafados pela Igreja Católica e a perseguição à comunidade LGBT.

Romio conclui que o trabalho com as fontes da saúde possui muitas vantagens, por exemplo, por ela ter conseguido localizar dois casos de tráfico interno de seres humanos e cárcere privado que levaram ao feminicídio das vítimas, o que poderia ser, com um estudo mais aprofundado, outro tipo de sub-categoria. Contudo, Romio também aponta para os possíveis problemas dessas fontes, o principal seria a característica binária do formulário da área da saúde na categoria “sexo”, o qual leva apenas em consideração a característica biológica, ou seja, classifica as pessoas em “masculino” e “feminino”. Dessa forma, a pesquisadora aponta para um grande “empecilho para buscar informações sobre mulheres transgêneras” (p.122). De qualquer forma, sua pesquisa ilumina um pouco mais a questão da violência de gênero contra as mulheres e reforça a importância da lei do feminicídio, respondendo definitivamente à pergunta que deu título a esse texto.

Referências:

PASINATO, Wânia. Justiça e violência contra a mulher. O papel do Sistema Judiciário na solução dos conflitos de gênero. Dissertação de mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 1997.

RADFORD, Jill e RUSSELL, Diana E. H. Femicide: The Politics of Woman Killing. Great Britain: Open University Press: 1992.

ROMIO, Jackeline Aparecida Ferreira. Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde. Tese de Doutorado. IFCH, Unicamp, 2017. Disponível aqui.

0

Um espaço acadêmico todo seu – e seguro

[Contém spoilers, se é que alguém ainda não viu 13 Reasons Why]

Aproveitei as férias e terminei, muito atrasada, de assistir ao seriado meio adolescente, meio super-pesado-na-verdade, 13 Reasons Why. Ao longo do ano, desde o seu lançamento, muitas foram as polêmicas envolvendo a questão do suicídio juvenil: alguns diziam que o seriado aumentava a consciência para o problema, outros condenavam a aparente forma simplista em que tudo foi construído. Eu, infelizmente, confesso que não fui tão absorvida por essa questão – sem querer diminuir sua importância –, porque eu já tinha sido totalmente hipnotizada, chocada, profundamente incomodada por dois dos 13 motivos apresentados no seriado pelos quais a adolescente Hannah Baker tira sua própria vida: tanto a personagem principal quanto uma colega são estupradas pelo mesmo rapaz, aquele típico aluno privilegiado que aparece com frequência em filmes (atleta, popular, branco, de família rica, etc). Tanto as meninas quanto o rapaz, pelo o que eu entendi, tinham apenas 17 anos na história.

E ainda que esse jovem seja uma personagem um tanto estereotipada, eu sabia que a história que estava sendo contada ali não tinha nada de fictício. Eu sei disso, na verdade, porque fiz parte da minha pesquisa de doutorado em uma universidade no Canadá, que convidava todas as alunas a participar de um curso de defesa pessoal. Mas não era um curso de defesa em geral. Era um curso específico para defesa contra tentativas de estupro, o que eu só descobri quando cheguei lá. E eu descobri também que, enquanto estávamos fazendo esse curso, a universidade promovia palestras para os meninos ingressantes para explicar que “não é não”. E por quê? Nas universidades da América do Norte (EUA e Canadá apenas), ocorre 1 estupro por dia. A grande maioria é feita em grupos por meninos populares, estilo atleta, que moram naquelas fraternidades tradicionais. Eles convidam calouras ingênuas e tímidas, fazem uma bebida muito doce com muito álcool e, depois, cada menino leva a sua “presa” previamente escolhida para o seu quarto. O modus operandi padrão é o rapaz apoiar o seu braço na garganta da menina enquanto a estupra, ou seja, ele também a asfixia e a impede, assim, de lutar. Infelizmente, a média de tempo que essa vítima demora para denunciar ou falar sobre o que aconteceu é de cinco anos. Não há mais provas, não há punição. Então a universidade começou um trabalho de prevenção: as meninas se defendem, e os meninos vão para a sala de aula aprender que eles não podem fazer isso.

O curso foi muito chocante, não só pelos dados dessa realidade absurda ou pelas aulas de como chutar, dar soco, golpe aqui e ali, como reagir e controlar o pânico (essa parte foi tensa, mesmo sendo uma simulação). Mas as dicas e conselhos, isso foi triste. Coisas como, se você for a uma festa e souber que vai voltar sozinha de noite, vá de calça e sapato baixo (ou leve um tênis na bolsa). Você corre melhor assim e pode ser que não seja escolhida pelo agressor já que eles preferem mulheres de salto (elas não conseguem correr) e arrancar a saia é mais fácil. Não basta a mulher não poder usar a roupa que quiser por medo de ser julgada – puta, frígida, hippie suja, etc. –, ela ainda tem que pensar que, naquela noite mesmo, pode ser atacada: então vamos colocar um tênis. Algumas colegas manifestaram descontentamento com essa dica em especial como sendo muita submissão, e a professora disse, com um olhar muito triste, “a gente só quer que vocês sobrevivam”. De certa forma, eu entendi a professora, mesmo com um gosto amargo na boca: ela não estava, de nenhuma maneira, tentando colocar a culpa dos estupros nas mulheres por terem usado saia, por exemplo, apenas relatando informações e estatísticas, coletadas em entrevistas com estupradores condenados, para entendermos como eles escolhiam suas vítimas exatamente para evitarmos ser uma delas. Mesmo assim, deixar o medo ditar o seu guarda-roupa é também uma forma de violência, tornada ainda pior quando as próprias autoridades usam esse argumento no velho discurso de que a mulher “estava pedindo” para ser atacada. A revolta com esse tipo de discurso levou, por exemplo, à criação do movimento Marcha das Vadias em Toronto e que hoje é um evento mundial.

Como tudo isso ocorreu em um ambiente universitário, comecei a pensar em Virginia Woolf. No ensaio “Um teto todo seu” (1929), ela defende que, para produzir literatura, é necessário uma paz específica, um tipo de tranquilidade em que você não se sente pressionada com questões tão irritantes como, por exemplo, pagar suas contas. É necessário segurança emocional, por assim dizer, representada por esse “teto todo seu” e uma renda de 500 libras por mês. Substitua agora a palavra “literatura” por “pesquisa científica”. Um dos motivos pelo qual as mulheres demoraram a entrar no território da literatura, diz Woolf, é que elas não tinham dinheiro, não tinham paz, não tinham um teto todo seu, um quarto privado onde elas poderiam se trancar para produzir sem serem questionadas sobre o que faziam. E eu pensei, então, que no topo de todos os problemas que as cientistas mulheres precisam enfrentar na carreira acadêmica, há, ainda, um problema real de segurança. Pelo o que eu escutei naquele curso no Canadá, nem as melhores universidades do mundo conseguiram ainda construir ambientes seguros para as mulheres. O que me leva à minha última lembrança. Ainda naquele mesmo ano, um cientista inglês, Sir Tim Hunt, ganhador do prêmio Nobel, declarou que apoiava que laboratórios contratassem apenas pesquisadores de um só gênero porque, quando homens e mulheres se misturavam, três problemas ocorriam: “elas se apaixonam por você, você se apaixona por elas, e quando elas são criticadas, elas choram” (veja no Cientistas Feministas).

Ainda bem que a gente não perde o humor. Na época, a hashtag #distractinglysexy foi uma das respostas mais divertidas que eu já vi a um caso de machismo na academia (veja aqui alguns exemplos). Ah, e o tal pesquisador prêmio Nobel pediu demissão. Sim, eu entendo que o comentário dele não chega nem perto da gravidade de uma experiência de violência sexual, mas, voltando ao início desta coluna, se você assistir a 13 Reasons Why, vai ficar muito claro o poder das palavras, como elas constroem e reforçam imagens que resultam em casos extremos – ou seja, como comentários como o de Hunt contribuem para a perpetuação da cultura do estupro em nossa sociedade em geral e dentro até das próprias instituições de ensino.

 

Referências:

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. RJ: Nova Fronteira, 1985.

 

2

Jane Austen conquista também o Brasil

EWeekly

Jane Austen representada pela Revista Entertainment Weekly, em 1995, pelo sucesso das adaptações de cinema e TV de suas obras.

Em 18 de julho de 2017, a morte da escritora inglesa Jane Austen completou 200 anos. Em todos os países anglófonos, nos quais Austen tem garantido um lugar no cânone literário ao lado de Shakespeare, muitos eventos foram realizados para comemorar uma data tão significativa, sendo que o lançamento da nova nota de dez libras pelo Banco da Inglaterra em homenagem à autora teve grande repercussão internacional (ironicamente, porém, o retrato utilizado é uma adaptação “melhorada” do rosto de Austen, feita em 1870 por um artista que nunca a conheceu). Toda essa movimentação em torno de uma escritora tão relevante para a história da literatura inglesa não é de se estranhar, mas surpreendente mesmo foi a repercussão desse aniversário, a divulgação de notícias sobre e os eventos realizados aqui no Brasil para celebrá-lo, indicando que a popularidade de Austen já está solidificada também aqui nos trópicos. Por exemplo, a editora Nova Fronteira – uma das muitas que disponibilizam os romances da autora em seu catálogo – lançou uma nova caixa comemorativa dos 200 anos da morte de Austen e promoveu palestras de seu tradutor Ivo Barroso e da presidente da “Jane Austen Sociedade do Brasil” Adriana Sales.

 

Nota

Nova nota de 10 libras da Inglaterra

 

Aquarela

Aquarela original de Jane Austen feita por sua irmã Cassandra (circa 1810). É o único retrato da autora reconhecido oficialmente. National Portrait Gallery, Londres.

 

O mais interessante, porém, é o espaço que Austen vem ganhando dentro das universidades brasileiras. Com um significativo número de cursos de Letras com habilitação em língua inglesa – que exigem pesquisas sobre obras nessa língua – e dada a importância da autora para a consolidação do gênero do romance moderno e para a própria história da literatura das mulheres, parece-me inevitável que a transformação da sua obra de objeto de admiração para objeto de pesquisa só aumente. Mas é também muito importante notar que esse aumento da presença de Austen nos estudos de mestrado e doutorado está bastante associado ao crescimento da sua popularidade fora dos muros da academia, com o surgimento da chamada “Austenmania” a partir dos anos da década de 1990. Nessa década, foram produzidas pelo menos sete adaptações dos romances da autora para cinema e TV, algumas mais criticadas, como a de Patricia Rozema para Mansfield Park (1999), mas a maioria de sucesso avassalador, como o seriado da BBC de Orgulho e Preconceito (1995) e o filme Razão e Sensibilidade, do mesmo ano, escrito e estrelado pela famosa atriz Emma Thompson. As adaptações são responsáveis por divulgar a obra da autora aqui no Brasil, já que não há tradição de se estudar seus romances no Ensino Fundamental ou Médio, por exemplo, e por isso são a porta de entrada mais comum – porém não a única – para muitos alunos brasileiros que decidiram pesquisar a autora.

Alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nos últimos anos podem ser citados para ilustrar os temas mais comuns em pesquisas sobre Austen no Brasil (no final do post há as referências completas dos trabalhos já concluídos): Ricelly Jáder, da UFCE, estudou, em seu mestrado, a forma como a personagem Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, foi transformada no filme de 1940 produzido em Hollywood. O argumento de Jáder é que Austen, em sua obra, constrói uma crítica sutil a padrões socioculturais da sua época que colocam a mulher em uma posição inferior em relação ao sexo masculino. A personagem de Elizabeth Bennet, por exemplo, é apresentada como uma mulher inteligente, irônica, decidida e ousada, qualidades que não eram associadas ao comportamento feminino durante o século XIX. Porém, no filme de 1940, ao ser traduzida para as telas, a personagem é reestruturada e a crítica de Austen é apagada para ceder lugar a uma narrativa cômica e romântica.

Em 2016, na UFMT, Ivoneide Soares Jesus estudou outro tipo de adaptação da obra de Austen, o gênero do “mash-up”, a partir do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, o qual funde o texto de Austen com uma temática contemporânea em um processo de reescrita (ou zumbificação) do romance original. Soares leva em consideração, além disso, o papel do mercado na produção dessa obra híbrida, já que a ideia inicial surgiu de uma editora.

Esse também é o tema da tese de doutorado de Adriane Ferreira Veras, defendida em 2015 na UFRGS, a qual reflete ainda sobre a questão da autoria de uma obra, interligando questões sobre adaptações, colagens, apropriações e direitos autorais.

Ainda na UFRGS, a pesquisa em andamento de Bianca Rossato analisa o seriado do Youtube The Lizzie Bennet Diaries, a sua adaptação dos tipos sociais que aparecem em Orgulho e Preconceito, especialmente no que se refere à representação da mulher, e a forma como a narrativa transmídia interfere/contribui nesse processo adaptativo. Esse seriado/vlog fictício também foi analisado por Isabella Sabbatini na USP (2017) a partir de teorias de tradução e adaptação.

A popularidade atual de Austen foi tema do mestrado de Priscila Kinoshita (Uniandrade, 2012), que procura explicar a continuidade do interesse do público em geral na obra da escritora após dois séculos de sua publicação, defendendo uma hipótese de que esses romances apresentam questões socioculturais do período Georgiano da Inglaterra que seriam semelhantes a problemas atuais, possibilitando o estabelecimento de um diálogo entre as duas épocas.

Austen foi tema também da tese de doutorado de Maria Clara Biajoli (Unicamp, 2017), que analisa o fenômeno da “Austenmania” a partir da produção de fan fiction inglesa e norte-americana. Seu argumento é que a leitura mais comum da obra de Austen, demonstrada pelos textos de fanfics bem aceitos pelos fãs atuais, transforma os seus romances em histórias românticas inocentes, em contos de fadas regenciais e apagam toda a crítica social que Austen deixou registrada ali, especialmente em relação ao seu descontentamento com o lugar da mulher naquela sociedade. Aliás, a visão de que Jane Austen era uma observadora astuta de sua época não é contestada em nenhuma dessas pesquisas, indicando que a imagem de uma autora isolada ou apolítica está, finalmente, em desuso. A pesquisa em andamento de Natália Carvalho, na Unifesp, por exemplo, propõe analisar de que forma o enredo de Persuasão dialoga com o contexto sócio-histórico de Austen e de que forma a autora ficcionalizou aspectos de sua realidade.

Todos os exemplos acima, que listam apenas algumas das pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, indicam o reconhecimento da importância da obra de Austen também dentro das universidades brasileiras. Enquanto a imagem de uma escritora inocente ainda parece circular entre o grande público, alimentada, principalmente, pelas adaptações cinematográficas que focam apenas na trama amorosa, é muito positivo observar que as qualidades da sua obra literária estão ganhando cada vez mais espaço dentro da academia em geral e promove a esperança de que, em breve, o rótulo cor-de-rosa da autora de “romances para mulheres” seja descartado para sempre.

Trabalhos citados disponíveis:

  • BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Orgulho e Preconceito no Século XXI: A Austenmania e a Fantasia do Final Feliz. Tese de Doutorado. Unicamp, 2017.
  • JÁDER, Ricelly. A Tradução da Personagem Elizabeth Bennet, de Pride & Prejudice, Para o Cinema. Dissertação de Mestrado. UFCE, 2014.
  • JESUS, Ivoneide Soares dos Santos. Literatura e Necropsia: Um Exame Crítico em Pride and Prejudice and Zombie. Dissertação de Mestrado. UFMT, 2016.
  • KINOSHITA, Priscila Maria Menna Gonçalves. Do Século XVIII ao Século XXI: “Why Jane (Austen), Why Now?”. Dissertação de Mestrado. Uniandrade, 2012.
  • VERAS, Adriane Ferreira. Pride and Proliferation: Jane Austen meets Zombies in a Mash-up. Tese de Doutorado. UFRGS, 2016.

 

0

As múltiplas vozes na luta pelos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil

unnamed

A historiadora Gláucia Fraccaro apresenta um exemplar do jornal operário A Plebe. Fonte: Antoninho Perri

06A

Exemplar do santinho da campanha de Bertha Lutz. Fonte: Arquivo Nacional / Antoninho Perri

Quando lemos sobre a história do feminismo e da conquista dos direitos das mulheres aqui no Brasil, inevitavelmente são destacados os nomes de “líderes” famosas como Bertha Lutz (1894-1976, fundadora da Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1919) e Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982, primeira deputada federal do Brasil). Ainda que o desempenho dessas mulheres junto ao governo brasileiro tenha sido, de fato, de uma importância inegável, o foco em suas atuações acaba perpetuando duas ideias muito limitadoras a respeito desse tema: a primeira, de que a história do feminismo no Brasil foi um só movimento, com uma pauta única e igual para todas as envolvidas; e, segundo, a de que foi apenas com a luta de mulheres da classe média e alta que houve avanços nas conquistas dos direitos femininos.

A tese de doutorado de Gláucia Fraccaro, Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937), defendida em 2016 na Universidade Estadual de Campinas, mostra claramente que é possível contestar essas duas ideias. A sua pesquisa foi baseada tanto na análise de textos legislativos e jurídicos desse período quanto da imprensa operária, sem perder de vista também um interessante viés internacional a partir da forma como a ideia de se defender direitos trabalhistas específicos para as mulheres, como a licença-maternidade, estava sendo pensada em outros países, em especial através da Organização Internacional do Trabalho. Assim, Fraccaro conseguiu mostrar que havia outras vozes em jogo nessas décadas tão importantes para a consolidação das leis do trabalho brasileiras.

Em especial, a historiadora investiga a participação das trabalhadoras paulistas nas organizações sindicais, nas greves e na imprensa operária para indicar que as suas reivindicações, pautadas pelo lema “trabalho igual, salário igual”, precederam em muito tempo as ideias de Lutz e Queiroz. Na verdade, ao iluminar as experiências das operárias nas fábricas de São Paulo, Fraccaro nos mostra que os estudos sobre os conflitos entre as classes dentro do capitalismo abrangem questões muito complexas a partir da permanência de uma mentalidade patriarcal que, no caso das trabalhadoras, obrigava-as, além de lidar com a mesma exploração econômica enfrentada pelos operários, como jornadas de trabalho excessivas, a se organizarem para lutar contra outros problemas sofridos exatamente por serem mulheres, como salários muito menores, nenhuma segurança durante a gravidez ou pós-parto, e abusos sexuais por parte dos capatazes das fábricas. A sua atuação, ao contrário da imagem tradicional de que os movimentos sindicais e operários contavam apenas com homens, foi tão relevante que Fraccaro conseguiu localizar documentos que circulavam entre os donos das fábricas em que se percebe como várias mulheres eram consideradas “agitadoras” e, por isso, deveriam ser demitidas de seus empregos e vigiadas.

A sua luta se fazia ainda mais complicada porque não se dava apenas na relação patrão-empregado: os próprios operários, ainda que concordassem com a defesa de salários iguais, por exemplo, consideravam que o lugar primeiro de atuação das mulheres deveria ser o lar e, por isso, em tempos de desemprego, defendiam que elas deveriam ceder seus postos de trabalho para seus parentes homens. Fraccaro cita, por exemplo, um documento elaborado pela União dos Operários em Fábricas de Tecido que acusava os industriais de preferirem contratar mulheres pois, segundo sua opinião, elas se submetiam com mais resignação a todas as injustiças, e propunha que “os lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente, de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas indústrias”, e que “toda mulher que trabalha na indústria e no comércio possa ser substituída pelo marido, irmão, tio ou pai desempregados da mesma profissão” (apud Fraccaro, 2016, p.55). Tudo isso porque, segundo o mesmo documento, homens desempregados oferecem “assim um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica e o marido em casa cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas para serem amamentadas” (idem, p.54).

Mesmo em relação ao movimento feminista sufragista havia fortes divergências, em especial a partir das mulheres anarquistas, como Maria Lacerda de Moura que, em 1928, escreveu: “Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militarizado e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino” (Moura, apud Fraccaro, p.67). Mas ainda assim é preciso reconhecer que a atuação de mulheres como Lutz foi importante para defender no congresso a necessidade de leis específicas para o trabalho feminino, principalmente a partir do reconhecimento da jornada dupla. Em seu “santinho” da campanha para a Assembleia Constituinte, Lutz defendia, por exemplo, que a “mulher proletária cumpre pena dobrada, acrescentando ao horário da fábrica o trabalho sem horário medido que desempenha no lar” (apud Fraccaro, p.126). O resultado, curiosamente, parece ter sido ao mesmo tempo composto de conquistas e entraves. Por exemplo, a lei que proibia que mulheres trabalhassem no período noturno, salvo algumas exceções – profissionais da saúde, por exemplo – parece indicar que também houve uma legislação “superprotetora” baseada na ideia de que o local primordial da mulher deveria ser o lar, mas que, em nome de salvaguardar uma pretensa fragilidade feminina e seu papel como mãe, acabava por prejudicar sua atuação no mercado de trabalho ao impedir seu acesso a algumas atividades bem remuneradas para a época.

É a partir de interessantes questões como as apresentadas aqui que Gláucia Fraccaro nos mostra como a história do feminismo no Brasil e dos direitos trabalhistas das mulheres não deve ser vista de forma homogênea, silenciando importantes debates a partir de uma versão heroicizada focada em apenas algumas líderes. Seguindo exemplos como a da famosa historiadora francesa Michelle Perrot, Fraccaro indica, portanto, que a categoria de gênero, em especial a partir de um olhar para os vários grupos de mulheres atuantes, tem muito a contribuir para as pesquisas e entendimento da história das relações de trabalho no mundo.

Referências:

FRACCARO, Gláucia Cristina Candian. Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937). Unicamp, 2016. Tese de Doutorado. http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/321562 

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. Bauru: EDUSC, 2005.