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Nas ruínas da sociedade, a literatura faz humanos: a pesquisa de doutorado de Melissa Sá sobre distopias femininas.

Arte de Renee Nault para a adaptação de The Handmaid’s Tale para graphic novel (2019)

A relação entre literatura e sociedade – tanto a sociedade que a produz como a que a lê, nem sempre coincidentes – é uma questão basilar dos estudos literários e também uma resposta possível para a eterna e incômoda pergunta “para que serve literatura?”. A tese de doutorado “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”[1], defendida pela professora Melissa Cristina Silva de Sá na Universidade Federal de Minas Gerais em 2020, oferece dois caminhos muito interessantes para pensarmos aquela relação a partir de um só gênero literário.

A proposta de Melissa Sá é buscar entender de que forma o ato de narrar uma história está associado com aquilo que nos torna humanos, e como essa questão aparece em romances distópicos escritos por mulheres a partir dos anos 2000. Os três romances selecionados por Sá para traçar características comuns do tema foram The Telling (2000), de Ursula K. Le Guin, ainda não traduzido no Brasil, The Stone Gods (2007 – em português, Deuses de Pedra), de Jeanette Winterson, e MaddAddam (2013 – em português, MaddAdão), de Margaret Atwood, a qual ficou muito conhecida por aqui depois do sucesso do seriado The Handmaids’ Tale (O conto da Aia), baseado em seu romance de mesmo título. Além desses três títulos, Sá traz muitos outros exemplos de romances distópicos escritos por mulheres para embasar suas análises e reforçar seus argumentos, mantendo, porém, um recorte de obras em língua inglesa. Apesar de a maioria das autoras estudadas serem norte-americanas ou canadenses (Winterson é a única britânica) e brancas, há também o multiculturalismo que se reflete, por exemplo, nas obras de Nalo Hopkinson, de origem jamaicana, e Nnedi Okorafor, de família nigeriana. Desta última, vale destacar o romance Who Fears Death (Quem Teme a Morte, 2010), o qual retrata uma sociedade dividida violentamente entre duas etnias, remetendo-se ao massacre de Ruanda de 1994 e o conflito entre as etnias Hutu e Tutsi.  

Ursula K. Le Guin e sua obra The Telling

Para Sá, esses romances selecionados continuam uma tradição da ficção científica feminina, como visto em outras obras de Atwood e Le Guin, ou ainda em Octavia Butler, de questionar e descartar características “tradicionais” desse gênero literário solidificadas nos romances escritos por homens, mas vão além ao direcionarem seu foco para a questão da narração e para o compartilhamento de experiências via narração como características não só humanas mas também humanizantes. Ou seja, ao invés de propor que a narração tem a capacidade de tornar as pessoas mais humanas – algo que o sempre relevante Antonio Candido já propôs em “O Direito à Literatura” (1988) –, essas obras vão humanizar criaturas não-humanas, como aliens, robôs e seres criados geneticamente, exatamente pela sua capacidade de se apropriar do ato de narrar e de compartilhar experiências.

Outro ponto em comum nas obras estudadas por Sá é a forma como a narração tem um grande poder de impactar aquela sociedade que está “perdida”. As distopias normalmente trabalham com um cenário negativo, como pós-apocalíptico, autoritário, violento, de desesperança, etc., mas a narração traz em si a possibilidade de se criar um novo mundo ou de alterar significativamente aquele já existente. Nas palavras de Sá, “esses romances enfatizam de maneira contundente como o ato de narrar cria e molda não só indivíduos mas também sociedades. A linha que divide ficção realista e não-realista é borrada nesses romances selecionados porque, em alguns, histórias literalmente mudam o mundo, assim como personagens, ao reescreverem um livro, também reescrevem a história e a memória de uma sociedade (…). Histórias e suas consequências são uma constante na ficção distópica escrita por mulheres, e elas são os meios para a mudança”[2] (p.33, tradução minha).

Jeanette Winterson e seu romance Deuses de Pedra

E por que isso é importante? Distopias, afirma Sá, são baseadas ou trabalham com medos coletivos específicos da sociedade em que o autor vive – esses medos são colocados em prática nessas obras no pior cenário possível, obrigando os leitores a experimentá-los. Dessa forma, podemos dizer que a literatura tem raízes profundas na sociedade que a produz, mesmo que essa relação não seja sempre óbvia. Como consequência, a ficção científica distópica, para falar desse gênero em específico, também é um lugar privilegiado de reflexão sobre aquela sociedade e, por que não, um instrumento de transformação. Leitores, confrontados com realidades aterrorizantes, são desafiados a se questionarem, a enfrentarem os problemas que aquela obra apresenta, e a tentarem mudar a sua própria realidade. Os romances estudados por Melissa Sá, por tratarem da narração como possibilidade criativa, humanizadora e produtora, são eles próprios, portanto, exemplos de como se dá a relação entre literatura e sociedade. Ainda mais, a pesquisa de Sá tem o valor de levantar as questões propostas por cada uma das obras estudadas, questões atuais e que nos dizem respeito, e nos forçar a pelo menos tentar respondê-las.

Para compreender melhor a pesquisa de Melissa Sá, esse gênero literário tão intenso e também as pesquisas acadêmicas na área de Estudos Literários, realizei uma breve entrevista com a autora, que reproduzo a seguir. Espero que muitos fãs de ficção científica confiram a tese de Sá, disponível no repositório da UFMG, e que muitos outros se tornem fãs desse gênero depois de ver um estudo tão cuidadoso e instigante. Caso a língua inglesa seja uma barreira, ao final há indicações de outras publicações de Sá sobre o assunto. E, obviamente, fica a dica para a leitura dos romances citados nesse artigo e na tese.

Margaret Atwood e a edição brasileira de MaddAdão

Entrevista:

CF: Por que você escolheu fazer um recorte de distopias escritas apenas por mulheres? Haveria uma relação entre a experiência do gênero feminino na atualidade com essa preocupação central com a narração, ou com o ato de narrar/contar?

MS: Escolhi trabalhar distopias escritas por mulheres como uma forma de mapear essas autoras e analisar a visão social apresentada em seus romances. Meu foco é esse desde minha iniciação científica em 2010 e essa pergunta sobre o recorte feminino sempre aparece, de diversas formas. Engraçado porque, muitas vezes, um recorte exclusivamente masculino não provoca nenhuma necessidade de justificativa. Isso diz muito do que socialmente é aceito como uma amostra literária de um gênero.

Distopias estão sempre entrelaçadas com as questões contemporâneas do tempo em que foram escritas e acredito que no século XXI existe uma inquietação narrativa. Em meio a tantas narrativas possíveis, fake news e histórias fabricadas, há uma necessidade de se contar a própria história, de se narrar o que se viveu; uma busca pelo “autêntico”. Para as mulheres, mostrar a validade de suas experiências sempre foi algo central no movimento feminista, mas acredito que nos últimos vinte anos essa necessidade de contar sua própria experiência, narrar a si mesma, tem se tornado mais latente. Temos como exemplos movimentos como o Me Too, que abriu as portas para relatos de abusos na indústria do cinema, algo que sempre foi conhecido, mas até então essas histórias não tinham rostos, não tinham protagonistas. No Brasil, a Lei Maria da Penha de 2006 deu forma e nome à violência contra a mulher. Essas narrativas contribuem para balancear o jogo do poder da narrativa dominante, que, como se sabe, ainda é predominantemente masculina, branca, heterossexual e elitizada. Assim, não é surpreendente que as distopias escritas por mulheres nesse século estejam tão ligadas a essa questão. É uma inquietação do nosso tempo.

CF: Você define distopia como um retrato de uma sociedade que é pior que aquela em que o leitor/autor vive, baseada em medos coletivos. Quais medos você acredita que estão por trás dessa preocupação com a narração?

MS: O medo de ter sua experiência de vida desvalidada, ser silenciada, ter justificado o abuso com seu corpo. Mas acredito que, principalmente, o medo de que as coisas fiquem as mesmas, que as mesmas vozes continuem a ser ouvidas e que não haja mudança social radical.

CF: Você considera possível extrapolar a questão da narração e pensar a arte como um todo na definição do que nos faz humanos? Como essas distopias abordam, se abordam, outras formas de arte que não a literatura?

MS: O Brian Boyd, um dos teóricos que utilizo em minha pesquisa, trabalha com essa premissa: de que a arte nos faz humanos e que a narração é uma forma de arte. Apesar da narrativa ter proeminência nos romances selecionados para minha pesquisa, outras formas de arte também estão presentes. É o caso da trilogia MaddAddam, da Margaret Atwood, em que os seres geneticamente modificados a partir de humanos, os Crakers, começam a desenvolver formas de arte como a representação imagética, a dança e a música. Essa relação com a arte os faz ser considerados humanos não apenas pela leitora, mas também pelos demais personagens do romance.

CF: Pensando na conexão inescapável entre raça, classe e gênero, você encontrou nos romances escolhidos essa inter-relação? Se sim, ela se relaciona com a questão da narração?

MS: Apesar de o foco principal ser o questionamento daquilo que é humano, raça, classe e gênero atravessam os romances. Até mesmo porque o humano tradicionalmente foi associado ao masculino, branco, heterossexual e culto/elitizado durante séculos. O que se desvia dessa norma é frequentemente considerado mais próximo ao animal, à natureza, ao que é selvagem. Os romances selecionados muitas vezes se utilizam dessa crítica à categoria humano justamente para mostrar o quanto ela é construída com base nesses preconceitos e nesse pequeno recorte do que na verdade é a humanidade e em como essa ideia de “humano” desumanizou pessoas ao longo dos séculos para justificar genocídio e escravidão.

As escritoras Nalo Hopkinson, Nnedi Okorafor e N. K. Jemisin

Alguns romances fazem a crítica a raça, classe e gênero de uma forma mais contundente, como é o caso de Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor, em que uma mulher preta e pobre, considerada menos humana pelo povo que subjuga o seu, usa sua própria história e seus poderes mágicos para contestar a cultura dominante. O mesmo acontece com a trilogia A Terra Partida, de N.K. Jemisin, em que a narrativa que literalmente irá moldar o mundo é feita a partir de uma pária social que desafia o discurso dominante e propõe ideias e valores mais igualitários para uma sociedade futura.

CF: Para além da intenção do autor ao escrever o romance, você aponta para a importância do papel do leitor na recepção da obra, em especial no processo de reconhecimento da sociedade distópica como uma extrapolação, ou exagero, de um medo que ele, o leitor, também tem. Nesse sentido, distopias podem ficar “datadas”?

MS: Seguindo essa perspectiva, sim. A distopia como a conhecemos hoje ainda é um gênero recente, fruto do século XX, e muitas questões propostas por obras no início desse século ainda são medos coletivos muito presentes na nossa sociedade como o medo da perda de direitos, do apagamento do indivíduo, do autoritarismo, da desigualdade social e da escassez de recursos naturais. Talvez, num futuro, esses medos não sejam mais uma preocupação presente e leitores das próximas décadas ou séculos possam ter dificuldade de entender a trilogia MaddAddam, de Margaret Atwood, ou mesmo Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Essa é uma visão esperançosa.

CF: Por último, para ajudar aqueles leitores que querem entrar no mundo da pesquisa acadêmica na área de Literatura, você pode explicar um pouco como foi o processo para criar o seu projeto de pesquisa de doutorado, do surgimento da ideia até a concepção de um objetivo e problema de pesquisa?

MS: Minha trajetória com esse tema começou em 2010, ainda na Iniciação Científica, quando pesquisei o romance Oryx e Crake, de Margaret Atwood. A partir daí, continuei os estudos da utopia e da distopia, o que culminou na minha dissertação de mestrado que foi sobre como a narrativa se constitui uma estratégia de sobrevivência nos romances Oryx e Crake e O ano do dilúvio, de Margaret Atwood.

Para o doutorado, foquei em uma questão que me deixou inquieta na conclusão da minha dissertação, que era a ideia de que a narrativa talvez fosse um assunto proeminente em obras distópicas escritas por mulheres no século XXI. Comecei, então, a ler distopias recentes e prestar atenção se a questão da narrativa aparecia de alguma forma e me deparei com cada vez mais e mais livros escritos por mulheres que tinham esse tema como algo central. No entanto, tudo ainda estava em um caráter observacional e não muito consolidado.

Para montar o projeto de doutorado, tive que levantar uma hipótese que poderia ou não estar errada. Simplesmente dizer que a narrativa era uma questão presente nessas obras não era o suficiente para sustentar um argumento acadêmico, então comecei a pensar com o que a narrativa se relacionava, para que fins era usada dentro dessas obras. Foi assim que me deparei com a questão de desafiar aquilo que é humano.

Com essa proposição formulada montei meu projeto e me amparei muito no trabalho de Ildney Cavalcanti, que mapeou as distopias das décadas de 80 e 90 em sua relação com a linguagem. Foi quando decidi que precisava de um volume maior de romances para dar corpo ao meu argumento. Diferente do meu mestrado, onde foquei na análise de duas obras, com esse projeto eu estava tentando definir uma tendência dentro de um gênero e para isso precisava de um corpus mais extenso. Cheguei ao número de trinta e oito romances distópicos publicados em língua inglesa entre os anos 2000 e 2018 selecionados para a tese. Para compor esse corpus, escolhi obras de literatura infanto-juvenil, jovem adulto e adulto que tivessem como tema central a questão da narrativa para questionar o que é humano.

Eu me deparei então com a impossibilidade que é analisar profundamente trinta e oito romances. Então decidi, já no projeto inicial, focar em três livros: The Telling, de Ursula K. Le Guin, Os deuses de pedra, de Jeanette Winterson, e MaddAddamm, de Margaret Atwood. Esses três livros delimitam as três pontas do triângulo dessa tendência de usar a narrativa para questionar o que é humano: histórias fazem os humanos melhores, histórias definem os humanos e histórias são a fundação de uma nova humanidade. A escolha desses romances se deu porque eles mais explicitamente exemplificam essas ideias e os demais livros foram agrupados de acordo com essas categorias e analisados pontualmente.

Ao longo da escrita da tese, novas ideias foram surgindo, bem como novas perspectivas de análises, mas esse foi o alicerce no qual me baseei desde a concepção do projeto inicial.

CF: A sua tese está escrita em língua inglesa. Além das publicações listadas abaixo em língua portuguesa, têm outras indicações para interessados no tema?

MS: Indico o trabalho do grupo Literatura e Utopia, que tem vídeos de seu último evento online no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Uuf7HRep7Ls

Também dá para acompanhar o trabalho do grupo de estudos que faço parte, o Neufic – Núcleo de Estudos de Utopismos e Ficção Científica. Para saber das datas dos encontros, basta assinar a Newsletter:

Referências

CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura” (1988) in Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017, p.169-1941.

SÁ, Melissa Cristina Silva de. “Stories that make us humans: Twenty-First-Century dystopian novels by women”. Tese de Doutorado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/34288

SÁ, Melissa C. S.. O duplo como paródia em O Ano do Dilúvio. EM TESE (BELO HORIZONTE. ONLINE), v. 23, p. 275, 2018. Disponível em http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/11764

SÁ, Melissa C. S.. Corpo e violência em Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood. In: Luciana Calado Deplagne; Ildney Cavalcanti. (Org.). Utopias sonhadas / Distopias anunciadas: feminismo, gênero e cultura queer na literatura. 1ed.João Pessoa: UFBP, 2019, v. , p. 131-148.


[1] “Histórias que nos fazem humanos: distopias do século XXI escritas por mulheres” – a tese foi redigida em inglês porque foi desenvolvida na área de concentração de Literaturas de Língua Inglesa no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da FALE/UFMG.

[2] No original: “these novels strongly emphasize how storytelling creates and shapes not only individuals but societies too. The line between realistic and non-realistic fiction is blurred in the selected novels, because in some of them stories literally change the world, as characters, by rewriting a book, also rewrite the history and memory of a society using unexplained magical powers. Stories and their aftermaths seem a trend in women’s dystopian fiction, and they are the means of change”

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A circulação forçada de trabalhadores e o grande número de casos de Covid-19 nas periferias

O núcleo “Direito à Cidade” do LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade – FAU/USP), coordenado pelas professoras Raquel Rolnik e Paula Santoro, publicou recentemente uma pesquisa inovadora sobre a relação entre o deslocamento para trabalho dentro da cidade de São Paulo e a disseminação do Covid-19 nas periferias.

Os pesquisadores envolvidos propõem uma nova maneira de entender o avanço da pandemia na capital que contraria a associação, pouco evidenciada, entre pobreza, densidade populacional e contágio. Ou seja, a ideia de que as zonas mais pobres da cidade são as mais atingidas devido às condições precárias de habitação, por exemplo – a máxima “onde tem favela, tem pandemia” (Marino et al, 2020) – não se sustenta. Ao contrário, o resultado do estudo do LabCidade aponta para uma outra causa: a circulação da população periférica em transporte público para outras regiões pela necessidade de trabalhar.

O método da pesquisa envolveu o cruzamento de dados de várias fontes: registros do SUS de hospitalizações por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda e Grave) não identificada e Covid-19 até o dia 18 de maio, que incluíam o CEP de residência dos internados; a Pesquisa Origem Destino (2017) do Metrô; e dados da SPTrans a partir de GPS dos ônibus para identificar o ponto de origem e destino de cerca de 3 milhões de viagens realizadas apenas no dia 5 de junho de 2020. Dentre essas viagens, os pesquisadores identificaram aquelas pessoas que usam o transporte púbico como forma primeira de chegar ao local de trabalho, buscando o perfil de pessoas sem ensino superior e em cargos não executivos. A justificativa para essa seleção é a probabilidade alta de que as pessoas com ensino superior em cargos executivos ou profissionais liberais estejam trabalhando de casa, no sistema de “home office”.

O resultado foi a produção do mapa abaixo, que indica uma grande equivalência entre as zonas com a maior incidência de internações e as zonas com maior número de residentes circulando pela cidade para ir ao trabalho.

Os pesquisadores ressaltam que ainda não foi possível determinar onde teria ocorrido o contágio desses casos: se na origem (área de residência), no percurso (transporte público) ou se no destino (área do trabalho). Contudo, a conclusão evidente é que “quem está sendo mais atingido pela Covid-19 são as pessoas que tiveram que sair para trabalhar” (Marino et al, 2020).

Parece alarmante, portanto, que as prefeituras e governos estaduais baseiem seus planos de reabertura a partir de dados de zoneamento que não levam em conta nem esse fluxo diário interno de trabalhadores, nem o fluxo diário de trabalhadores para as cidades menores do entorno. A reabertura do comércio, das escolas e de outros serviços acarretaria o aumento de pessoas utilizando o transporte público, seja para trabalho, seja para consumo, o que provavelmente levará ao aumento do contágio e colocará em risco maior inclusive os profissionais da saúde tão necessários nesse contexto. Sendo assim, os pesquisadores concluem: “Se o maior número de óbitos está nos territórios que tiveram mais pessoas saindo para trabalhar durante o período de isolamento, temos que pensar tanto em políticas que as protejam em seus percursos como ampliar o direito ao isolamento paras as pessoas que não estão envolvidas com serviços essenciais mas precisam trabalhar para garantir seu sustento, o que reforça a importância de políticas de garantia de renda e segurança alimentar, subsídios de aluguel e outras despesas, e ações articuladas a coletivos e organizações locais para a proteção dos que mais estão ameaçados durante a pandemia.” (Marino et al, 2020).

Fonte:

MARINO, A., KLINTOWITZ, D., BRITO, G., ROLNIK, R., SANTORO, P. e MENDONÇA, P. “Circulação para trabalho explica concentração de casos de Covid-19”, Página do Labcidade, 30 de junho de 2020. Disponível em: http://www.labcidade.fau.usp.br/circulacao-para-trabalho-inclusive-servicos-essenciais-explica-concentracao-de-casos-de-covid-19/

Página do Labcidade: http://www.labcidade.fau.usp.br/

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Joana D’Arc visita o Brasil. Ou pelo menos podemos imaginar como seria

Desde 2 de julho até 25 de agosto está aberta a exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc na cidade de Serro-MG, depois de um mês em Diamantina-MG. Infelizmente não se trata de uma visita oficial da heroína francesa a uma das mais célebres mulheres brasileiras do século XVIII, mas de uma igualmente interessante proposta de comparar a trajetória dessas duas personagens instigantes. O Cientistas Feministas conversou com a pesquisadora responsável por essa exposição, a historiadora Flávia Aparecida Amaral, professora da UFVJM, sobre a proposta dessa exposição, como Chica da Silva e Joana D’Arc podem ser comparadas, como esse tipo de abordagem auxilia a pesquisa no Brasil, especialmente na área de Estudos Medievais, e também sobre a sua pesquisa sobre a construção da imagem heroica de Joana D’Arc.

Exposição-Chica-da-Silva-recebe-Joana-Darc

Você poderia explicar como surgiu a ideia de estabelecer um diálogo entre Chica da Silva e Joana D’Arc?

F.A: A exposição Chica da Silva recebe Joana d’Arc é parte das ações planejadas dentro do projeto Caminho Saint Hilaire, da prefeitura de Diamantina, cujo objetivo é desenvolver um corredor cultural, histórico, gastronômico, ambiental e medicinal, na região que liga três cidades: Conceição do Mato Dentro, Serro e Diamantina. O naturalista francês Auguste Saint-Hilaire percorreu essa região, descrevendo sua flora, relevo e cultura no início do século XIX. O objetivo da exposição foi homenagear a cidade francesa de Orléans, onde nasceu Saint-Hilaire, no mês de comemoração dos 590 anos da libertação dessa cidade por Joana d’Arc. A irmanação das cidades do Serro, Diamantina, Conceição do Mato Dentro e Orléans, proposta pelo projeto Caminho Saint-Hilaire, nos deu a oportunidade de vislumbrar aspectos que aproximam esses municípios de grande importância histórica para seus países. Um dos pontos mais interessantes é o fato dessas cidades contarem com duas personagens femininas que protagonizam a construção da memória local nessas regiões. Mulheres com percursos improváveis, que ocuparam espaços não destinados a elas e que até hoje provocam reflexões e polêmicas na interpretação das suas trajetórias de vida.

De que forma vocês traçaram esses diálogos em termos de temas e objetos selecionados para a exposição?

F.A: A exposição foi pensada em torno de uma ideia central: Chica da Silva recebendo Joana d’Arc para uma visita, visto que o evento, em Diamantina, ocorreu na Casa da Chica onde, atualmente, funciona o Escritório Técnico do Iphan na cidade. Dessa forma, em um primeiro momento, o objetivo era apresentar a Donzela de Orléans à dona daquela casa e aos moradores da cidade a partir de alguns documentos históricos. No primeiro ambiente da exposição, trouxemos testemunhos documentais do século XV cujo objetivo principal é desvendar a verdadeira personalidade de Joana d’Arc. Em De quadam puella, texto anterior à vitória em Orléans, a pergunta essencial é “Quem é essa jovem”? Já na obra Sibilla Francica – “Sibila Francesa” – o autor proclama Joana como uma profetisa pertencente a um grupo reconhecido pelo cristianismo como as mulheres que profetizaram, além dos destinos de gregos e romanos, a Encarnação de Jesus – as Sibilas.

A partir do reconhecimento de Joana d’Arc como uma sibila, tem início a conexão entre a heroína francesa e a história do Tijuco (antigo nome de Diamantina). Diamantina é o único local de colonização portuguesa na América a contar com representações das sibilas em véus quaresmais e na abóbada de uma de suas Igrejas, a de Nosso Senhor do Bonfim. Na mostra expusemos a representação de um desses belos véus quaresmais como forma de aproximar Joana d’Arc da história do Tijuco.

Dentro do contexto da exposição, a apresentação de Joana d’Arc a seus anfitriões – Chica da Silva e o povo de Diamantina – teria o seguinte percurso.

  • Uma pergunta inicial “Quem é essa Donzela, quem é Joana d’Arc?” A partir dos documentos apresentados o público poderia construir sua resposta. Além dos trechos dos dois documentos já apresentados DE QUADAM PUELLA e SIBILA FRANCICA, foi colocado à disposição do público um livreto com trechos do processo que condenou Joana d’Arc à morte, na fogueira, em 1431, do processo que anulou a condenação, em 1456, e do processo que a beatificou, tornando-a santa em 1920.
  • A apresentação de Joana d’Arc como uma sibila pela obra SIBILA FRANCICA aproxima essa personagem histórica dos anfitriões. Familiarizados com suas sibilas, Chica da Silva e os diamantinenses passam a ter condições de decifrar a personalidade da visitante.

E de que forma essa comparação pode auxiliar os estudos e as interpretações sobre essas duas mulheres aqui no Brasil?

F.A: O ponto chave da exposição foi trabalhar a questão da construção e dos usos da memória e a importância desse debate na formação das identidades. Quem foi Chica da Silva, quem foi Joana d’Arc? Poucos se atrevem a dar uma resposta definitiva, mas todos temos que concordar que as memórias construídas em torno dessas duas figuras femininas moldaram e continuam moldando o imaginário de seus países de origem. Brasil e França lançam sobre essas personagens históricas luzes e sombras na interpretação de seu próprio passado buscando nessas mulheres algo que possa conduzir esses países na encruzilhada de seus desafios ao longo do tempo.

Em termos mais gerais sobre a área de História Medieval, você poderia falar um pouco sobre a presença dos Estudos de Gênero nessa área?

F.A: Especialmente na década de 1990 o recorte dos estudos de gênero fez sucesso entre os medievalistas, sobretudo na historiografia norte-americana. Há um livro que se tornou referência para o assunto, escrito pelo professor R. Howard Bloch, da Universidade de Yale: Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental, de 1991. Na obra o autor traça um panorama da aversão à figura feminina construída pelos textos cristãos do início da Idade Média, discutindo a importância desse modelo que influenciou a literatura medieval e a construção da ideia de amor romântico no Ocidente. A partir de então houve uma proliferação desses estudos que conheceu seu auge naquele período.

Finalmente, pode nos explicar um pouco do seu trabalho a respeito das imagens construídas de Joana D’Arc?

F.A: No meu doutorado investiguei as condições historiográficas e intelectuais que permitiram a construção de Joana d’Arc como uma heroína laica e republicana no século XIX francês. Esse processo esteve associado à construção do discurso nacionalista e ao nascimento da História enquanto uma disciplina científica. Agora, no pós-doutorado, estou trabalhando com textos do período em que Joana d’Arc surge no cenário político francês, em 1429. Naquele momento houve muita dúvida em relação à verdadeira natureza de suas inspirações, se elas teriam uma origem divina ou diabólica. Tenho estudado alguns desses textos com o objetivo de discutir a partir de Joana d’Arc as visões sobre o profetismo feminino no final da Idade Média.

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Após o período em Serro, a exposição Chica da Silva recebe Joana D’Arc seguirá para Conceição do Mato Dentro-MG. Não deixem de conferir!

 

Referências:

BLOCH, Howard Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental São Paulo: Editora 34, 2000.

AMARAL, Flávia A. História e ressignificação: Joana d’Arc e a historiografia francesa da primeira metade do século XIX São Paulo. Universidade de São Paulo. Tese de Doutorado. 2012.

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Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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Conselhos para as jovens em tempos de “pós” – feminismo

Todos os dias, entre as enxurradas de opiniões compartilhadas contra os diversos movimentos feministas nas redes sociais, é frequente nos depararmos com aqueles que se colocam como mais “moderados” argumentando que o feminismo foi, sim, algo necessário em um determinado momento histórico, mas que hoje não serve para mais nada: afinal, as mulheres já votam, já trabalham, já tomam pílula, já têm os mesmos direitos que os homens, não é verdade?

Como mais um esforço para mostrar o contrário, para evidenciar o fato de que a nossa sociedade está muito longe de ter igualdade total de gênero e que o feminismo continua extremamente necessário, hoje falamos da pesquisa de mestrado defendida, em agosto de 2017, por Bruna Ximenes Corazza, na área de Linguística Aplicada da UNICAMP. O seu estudo foi baseado em uma comparação entre os conselhos dados às jovens leitoras em  duas revistas brasileiras: os artigos e colunas da revista feminina Jornal das Moças, da década de 1950, e as matérias voltadas às adolescentes dos anos 2000 na revista Capricho, uma das mais populares de seu segmento. A sua conclusão? Muito mudou em cinquenta anos, mas as duas revistas apresentaram fórmulas muito parecidas de prescrição de comportamentos adequados para suas leitoras. Uma análise mais profunda dos conselhos indicou, ainda, que o ideal de feminilidade pregado por essas duas revistas não apresentou significativas alterações.

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Capas da revista Jornal das Moças (setembro de 1956) e Capricho (março de 2000). Fonte: CORAZZA, Bruna X. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Unicamp: 2017, pp.43 e 46)

À primeira vista, as diferenças podem parecer grandes. O Jornal das Moças, por exemplo, estava muito preocupado em ensinar às jovens o comportamento adequado para se conquistar um marido e realizar seu objetivo principal: ser mãe. Uma mulher, por exemplo, deveria manter sua aparência bem cuidada para despertar o interesse masculino, realçando seu corpo feminino, mas nunca colocando em risco seu “ar de respeito”. Corazza relaciona esse discurso à moda da época, que realçava a figura da “ampulheta” do corpo da mulher, como na criação da “Linha Corola” ou “New Look” de Christian Dior, cuja barra da saia deveria estar a exatos 40 cm do chão – uma maneira de sensualizar parte da perna sem perder aquele “respeito”.

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Fonte: CORAZZA, Bruna X., op.cit., p.20

A Capricho, por outro lado, não trazia nenhum tipo de conselho que assumisse como “natural” aqueles papeis sociais destinados às mulheres pelo Jornal das Moças (esposa e mãe), mas também apresentava um silêncio perturbador sobre recomendações para a vida profissional futura das suas jovens leitoras. Isso é ainda mais significativo se tomarmos o público-alvo da Capricho nos anos 2000, as adolescentes entre 15 e 19 anos, jovens em fase de começar a pensar em carreira, em universidades, em vestibular, etc.

Há ainda mais: a Capricho vendia o slogan “Seja diferente, seja você” como forma de se contrapor à ideia de que todas as adolescentes eram iguais, supostamente valorizando a diferença e a autenticidade. Contudo, seu discurso, nas colunas analisadas, indicava que essa valorização do diferente era parcial e contraditória. Em uma reportagem sobre a música Punk feita por mulheres, por exemplo, a revista colocava garotas feministas como “encrenqueiras” e implicantes, usando a expressão “anti-chapinha”. Nessa mesma reportagem, a revista se referia à cantora Avril Lavigne, que fez grande sucesso nessa década, como a “princesinha do Pop Punk” (Corazza, 2017, p.94).

Corazza observou, também, que a Capricho promovia um “engajamento fabricado pela indústria de consumo, com uma roupagem de liberdade e conquista pessoal” (idem, p.95). A “escolha” do que comprar de acordo com o seu “estilo” criava uma falsa sensação de liberdade: as jovens se sentiam empoderadas ao consumir, acreditando estarem “sendo diferentes”. No entanto, elas também não poderiam ser “elas mesmas”. Na transcrição a seguir, sobre como agir em uma paquera por mensagens de texto via celular, vemos como isso fica claro:

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Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.96

Corazza chama a atenção para o item 4, cuja orientação não é no sentido de que a jovem seja ela mesma, mas no de que ela demonstre uma autenticidade planejada, construída, ou seja, falsa. Nas palavras da autora, “não se trata de ser autêntica, mas de agir como se fosse” (idem, p.96). Além disso, vemos o reforço de um ideal de beleza que, da mesma forma como nos anos 1950, não permite a aparência real. Nos anos 2000, contudo, ao invés da aparência ampulheta planejada nos últimos detalhes, as meninas precisavam dominar o “desarrumado arrumado”, já que, como é anunciado em uma das capas da Capricho, os meninos não gostam de meninas que usam muita maquiagem.

A Capricho também apresentava, com muita frequência, artigos sobre boa forma e como emagrecer, reforçando os discursos de gordofobia para um público-alvo extremamente sensível a esse tipo de questão. Na tabela abaixo, Corazza elenca alguns exemplos:

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Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.97

Para as adolescentes, a mensagem estava clara: seja você, seja diferente, mas não seja gorda, não seja muito produzida, não seja tão diferente, não seja feminista, não seja… Isso pode até não ser o mesmo discurso do Jornal das Moças, que insistia “seja esposa e mãe”, mas não significa, de jeito nenhum, que uma revista produzida na sociedade teoricamente “pós-feminismo” dos anos 2000 deixou de controlar o que significava ser adolescente, jovem e mulher. Para nós, que temos filhas, irmãs ou primas mais novas, a pesquisa de Corazza levanta uma questão muito importante: a quais tipos de discursos sobre feminilidade estamos expondo as novas gerações, sem nem sequer percebermos?

Referência:

CORAZZA, Bruna Ximenes. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2017.

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As mulheres livres, ontem e hoje

Entre 1936 e 1939 ocorreu um evento na Europa que é constantemente esquecido por conta do impacto da Segunda Guerra Mundial: a Guerra Civil Espanhola. De um lado, os militares liderados pelo General Francisco Franco, que depois iria assumir o governo do país de forma ditatorial até 1975. Do outro, republicanos, socialistas, comunistas e anarquistas lutando contra o fascismo pela liberdade. Estes últimos, especialmente na região da Catalunha industrializada, transformaram a luta contra Franco também na construção de uma nova sociedade. Em pouquíssimo tempo, os trabalhadores coletivizaram e assumiram a administração de fábricas, terras, serviços públicos, etc. Era o início da Revolução Espanhola, da qual poucos ouviram falar até hoje.

Foi nesse contexto, na cidade de Barcelona, que nasceu o grupo anarquista Mujeres Libres. Fundado pela advogada Mercedes Comaposada, pela jornalista e poetisa Lucía Sanchez Saornil e pela médica Amparo Poch y Gascón, seu objetivo era lutar por questões relativas ao universo das mulheres, como aborto e prostituição, que não recebiam espaço para debate e ação nos sindicatos. No seu auge, o Mujeres Libres contou com mais de 20 mil afiliadas, e oferecia palestras, cursos, creches e até casas de apoio para receber, educar, capacitar e promover a libertação das mulheres da cultura patriarcal que também existia de maneira muito forte entre os trabalhadores e operários. Suas atividades e o posterior envolvimento com a guerra contra o franquismo eram divulgados através da revista de mesmo nome, até hoje um documento muito importante para registrar não só a experiência da Revolução Espanhola, mas a participação ativa das mulheres nesse período, que acabam sendo deixadas de lado pelo viés mais tradicionalista da História.

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                 Reunião da Federação Mujeres Libres  na cidade de Valência           (in RAGO e BIAJOLI, 2017, p.89)

 

Em 2017, porém, Margareth Rago (Unicamp) e Maria Clara Biajoli, duas historiadoras brasileiras, reeditaram o livro Mujeres Libres da Espanha, uma coletânea de artigos traduzidos da Revista Mujeres Libres, deixando essa documentação e a história dessas mulheres mais acessíveis para outros pesquisadores e o público em geral do Brasil. O livro é resultado de uma pesquisa conjunta desenvolvida entre os anos de 2002 e 2007 com financiamento CNPq e FAPESP, divulgada em diversos artigos e na dissertação de mestrado de Biajoli, e traz documentos coletados em arquivos na Espanha e em acervos pessoais de mulheres que participaram do ML tanto durante a Guerra Civil quanto depois, no exílio na França (a grande maioria das Mujeres Libres, assim como milhares de outras pessoas, fugiram da Espanha após a vitória de Franco). Os assuntos abordados incluem política e guerra, anarquismo, reflexões sobre o próprio grupo, feminismo, moral sexual e amor livre, etc., e indicam a qualidade progressista e libertária dessas mulheres em meio à opressão de classe, gênero e, também, religião – não podemos esquecer o peso da Igreja Católica na Espanha naquela época.

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Capa da coletânea organizada por Rago e Biajoli (2017)

 

Além desses documentos do período, a coletânea também traz algo inédito, relatos de memória de algumas dessas mulheres coletados em entrevistas e cartas. Essa seção em especial é muito interessante porque há uma tendência em estudos sobre guerras de ignorar ou diminuir autobiografias e memórias de mulheres sobre esses conflitos, já que são vistos sempre como algo eminentemente masculino. Contudo, abrir espaço para a experiência da mulher pode mudar toda a nossa percepção sobre esses eventos. A historiadora Patricia Greene, por exemplo, argumenta que “autobiografias de mulheres ativistas da esquerda espanhola frequentemente apresentam uma narrativa com uma voz dupla que integra, textualmente, a complexa relação entre a pessoa pública e a mulher privada, entre a história oficial e a história pessoal, enquanto, simultaneamente, constrói uma contra-narrativa que desafia a versão franquista fraturada da história” (334).

A experiência das Mujeres Libres, no final da década de 1930, foi de resistência, luta e solidariedade e mostrou como as mulheres, unidas, conseguem atingir objetivos antes considerados impossíveis. A divulgação da sua história e de suas memórias também é um ato de resistência à História masculina tradicional dos vencedores, que apagou a Revolução Espanhola e o Mujeres Libres. Mas é também um incentivo para nós, mulheres, para procurarmos as nossas próprias formas de união e de resistência hoje aos novos fascismos que se aproximam.

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                    Alguns exemplares da Revista Mujeres Libres                (in BIAJOLI, 2007, p.157)

Referências:

RAGO, Margareth e BIAJOLI, Maria Clara P. Mujeres Libres da Espanha. Documentos da Revolução Espanhola. São Paulo: Biblioteca Terra Livre, 2017.

BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Narrar Utopias Vividas: Memória e Construção de Si nas Mujeres Libres da Espanha. Dissertação de Mestrado. UNICAMP, 2007.

GREENE, Patricia V. “Federica Montseny: Chronicler of an anarcho-feminist genealogy” in Letras Peninsulares, Outono de 1997.

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“Para que feminicídio se já existe homicídio?” – Pesquisa da Demografia traz uma resposta

“Para que feminicídio se já existe homicídio” é uma pergunta que ouço com frequência desde a aprovação da lei brasileira de 2015, que qualifica o assassinato de mulheres motivados por uma questão de gênero: sua condição de mulher associada ao status de esposa / namorada / mãe, etc. Geralmente, a pergunta é feita por homens. Casos como o recente feminicídio de Tatiane Sptizner, 29 anos, tornam necessária uma resposta definitiva.

As imagens da violência que Tatiane sofreu nas mãos do marido chocaram o país e também circularam o mundo, encontrando espaço em muitos jornais internacionais. Contudo, a sua morte é uma exceção apenas pela divulgação que recebeu da imprensa nacional e estrangeira, já que diversas organizações feministas e páginas no Facebook como a 8M Brasil ajudam a divulgar muitos outros casos esquecidos e que chegam a números alarmantes. A morte dessas mulheres, na maioria das vezes, é a consequência direta de relacionamentos abusivos permeados por violência doméstica, psicológica e sexual, também criminalizados no Brasil através da Lei Maria da Penha desde 2006.

O conceito de feminicídio é importante para a sociedade e o próprio Estado enxergarem um tipo de crime muito comum, que tende a desaparecer nas estatísticas generalistas de “homicídios”. É o que mostra a pesquisa de doutorado desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas por Jackeline Aparecida Ferreira Romio, “Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde” (IFCH, 2017, bolsista CAPES #minhapesquisacapes #existepesquisanobr). Romio busca fazer um levantamento dos casos de mortes de mulheres, no Brasil, que poderiam ser considerados feminicídios, entre os anos de 1996 e 2014, ou seja, anteriormente à lei. A tese, da área da Demografia, inova ao tomar como fontes documentos da área da saúde que fazem parte do SUS, como as Declarações de Óbito (DO) disponíveis no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). Para a pesquisadora, voltar-se para esses registros possibilita preencher os “buracos” deixados pelos tradicionais Boletins de Ocorrência e outras fontes jurídicas normalmente utilizadas em pesquisas sobre violência por conta da “sub-notificação dos casos de agressão contra mulheres”, motivada, entre outras questões, pela “naturalização das mortes de mulheres por razões de gênero, a invisibilidade institucional dos efeitos de determinadas leis na vida das mulheres [e] o viés andrógeno dos meios de coleta de informação que não favorecem a interpretação direta da violência contra a mulher” (p.88). Um caso contundente apontado por Romio é o feminicído da jovem Eloá Pimentel em 2008, mantida em cativeiro durante 4 dias pelo seu ex-namorado Limdemberg. Para Romio e outras estudiosas do caso, os “oficiais cometeram sucessivas falhas e declaravam à imprensa sua vontade de preservar a vida e integridade moral do sequestrador que, na opinião deles, era apenas um jovem apaixonado” (p.56), o que possibilitou o feminicídio da jovem. E não é só no Brasil. Em um importante estudo de 1992, as pesquisadoras Jill Radford e Diana Russell já tinham apontado para a banalização no tratamento das mortes das mulheres tanto pela justiça quanto pela mídia nos EUA, Reino Unido e Índia: “Nos casos de agressão contra a mulher há uma tendência em transformá-la na própria responsável pela agressão que sofreu” (p.42).

Romio apresenta os dados de sua pesquisa em uma classificação de feminicídios divididos em 3 sub-categorias: feminicídio doméstico, ou seja, a “violência letal por agressão física contra a mulher no contexto domiciliar, conjugal ou familiar registrados no sistema de saúde”; o feminicídio sexual, a “violência letal por agressão física contra a mulher por meio sexual”; e inova, novamente, ao incluir o conceito de feminicídio reprodutivo, “vinculado às políticas de controle do corpo e da sexualidade da mulher, cuja expressão mínima são as morte por aborto registradas nos sistema de saúde” (p.71), este último essencial para fortalecer, por exemplo, a recente discussão no STF sobre a descriminalização do aborto e combater a triste derrota da mesma proposta no Senado da Argentina. Para Romio, essas sub-categorias são importantes para tentar contornar um problema apontado pela pesquisadora Wânia Pasinato de que agrupar todos os assassinatos de mulheres em uma única categoria pode silenciar questões relativas ao contexto em que o crime ocorre e prejudicar a atuação do Estado e o desenvolvimento de políticas públicas para combater a prática.

Mesmo para quem não entende muito de Demografia ou Estatística, os resultados apontados por Romio são muito preocupantes. Por exemplo, em uma comparação de mortes de homens e mulheres decorrentes de agressão sexual, a pesquisadora chega ao gráfico abaixo, dividido por 3 faixas etárias:

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Gráfico apresentado por Romio, p.133

Os números mostram que a maioria esmagadora dos casos de violência sexual afeta meninas e mulheres até 49 anos, porém indica também a violência sexual contra meninos e homens, um dado que não pode ser ignorado. Basta lembrarmos, por exemplo, os casos de pedofilia abafados pela Igreja Católica e a perseguição à comunidade LGBT.

Romio conclui que o trabalho com as fontes da saúde possui muitas vantagens, por exemplo, por ela ter conseguido localizar dois casos de tráfico interno de seres humanos e cárcere privado que levaram ao feminicídio das vítimas, o que poderia ser, com um estudo mais aprofundado, outro tipo de sub-categoria. Contudo, Romio também aponta para os possíveis problemas dessas fontes, o principal seria a característica binária do formulário da área da saúde na categoria “sexo”, o qual leva apenas em consideração a característica biológica, ou seja, classifica as pessoas em “masculino” e “feminino”. Dessa forma, a pesquisadora aponta para um grande “empecilho para buscar informações sobre mulheres transgêneras” (p.122). De qualquer forma, sua pesquisa ilumina um pouco mais a questão da violência de gênero contra as mulheres e reforça a importância da lei do feminicídio, respondendo definitivamente à pergunta que deu título a esse texto.

Referências:

PASINATO, Wânia. Justiça e violência contra a mulher. O papel do Sistema Judiciário na solução dos conflitos de gênero. Dissertação de mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 1997.

RADFORD, Jill e RUSSELL, Diana E. H. Femicide: The Politics of Woman Killing. Great Britain: Open University Press: 1992.

ROMIO, Jackeline Aparecida Ferreira. Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde. Tese de Doutorado. IFCH, Unicamp, 2017. Disponível aqui.

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Um espaço acadêmico todo seu – e seguro

[Contém spoilers, se é que alguém ainda não viu 13 Reasons Why]

Aproveitei as férias e terminei, muito atrasada, de assistir ao seriado meio adolescente, meio super-pesado-na-verdade, 13 Reasons Why. Ao longo do ano, desde o seu lançamento, muitas foram as polêmicas envolvendo a questão do suicídio juvenil: alguns diziam que o seriado aumentava a consciência para o problema, outros condenavam a aparente forma simplista em que tudo foi construído. Eu, infelizmente, confesso que não fui tão absorvida por essa questão – sem querer diminuir sua importância –, porque eu já tinha sido totalmente hipnotizada, chocada, profundamente incomodada por dois dos 13 motivos apresentados no seriado pelos quais a adolescente Hannah Baker tira sua própria vida: tanto a personagem principal quanto uma colega são estupradas pelo mesmo rapaz, aquele típico aluno privilegiado que aparece com frequência em filmes (atleta, popular, branco, de família rica, etc). Tanto as meninas quanto o rapaz, pelo o que eu entendi, tinham apenas 17 anos na história.

E ainda que esse jovem seja uma personagem um tanto estereotipada, eu sabia que a história que estava sendo contada ali não tinha nada de fictício. Eu sei disso, na verdade, porque fiz parte da minha pesquisa de doutorado em uma universidade no Canadá, que convidava todas as alunas a participar de um curso de defesa pessoal. Mas não era um curso de defesa em geral. Era um curso específico para defesa contra tentativas de estupro, o que eu só descobri quando cheguei lá. E eu descobri também que, enquanto estávamos fazendo esse curso, a universidade promovia palestras para os meninos ingressantes para explicar que “não é não”. E por quê? Nas universidades da América do Norte (EUA e Canadá apenas), ocorre 1 estupro por dia. A grande maioria é feita em grupos por meninos populares, estilo atleta, que moram naquelas fraternidades tradicionais. Eles convidam calouras ingênuas e tímidas, fazem uma bebida muito doce com muito álcool e, depois, cada menino leva a sua “presa” previamente escolhida para o seu quarto. O modus operandi padrão é o rapaz apoiar o seu braço na garganta da menina enquanto a estupra, ou seja, ele também a asfixia e a impede, assim, de lutar. Infelizmente, a média de tempo que essa vítima demora para denunciar ou falar sobre o que aconteceu é de cinco anos. Não há mais provas, não há punição. Então a universidade começou um trabalho de prevenção: as meninas se defendem, e os meninos vão para a sala de aula aprender que eles não podem fazer isso.

O curso foi muito chocante, não só pelos dados dessa realidade absurda ou pelas aulas de como chutar, dar soco, golpe aqui e ali, como reagir e controlar o pânico (essa parte foi tensa, mesmo sendo uma simulação). Mas as dicas e conselhos, isso foi triste. Coisas como, se você for a uma festa e souber que vai voltar sozinha de noite, vá de calça e sapato baixo (ou leve um tênis na bolsa). Você corre melhor assim e pode ser que não seja escolhida pelo agressor já que eles preferem mulheres de salto (elas não conseguem correr) e arrancar a saia é mais fácil. Não basta a mulher não poder usar a roupa que quiser por medo de ser julgada – puta, frígida, hippie suja, etc. –, ela ainda tem que pensar que, naquela noite mesmo, pode ser atacada: então vamos colocar um tênis. Algumas colegas manifestaram descontentamento com essa dica em especial como sendo muita submissão, e a professora disse, com um olhar muito triste, “a gente só quer que vocês sobrevivam”. De certa forma, eu entendi a professora, mesmo com um gosto amargo na boca: ela não estava, de nenhuma maneira, tentando colocar a culpa dos estupros nas mulheres por terem usado saia, por exemplo, apenas relatando informações e estatísticas, coletadas em entrevistas com estupradores condenados, para entendermos como eles escolhiam suas vítimas exatamente para evitarmos ser uma delas. Mesmo assim, deixar o medo ditar o seu guarda-roupa é também uma forma de violência, tornada ainda pior quando as próprias autoridades usam esse argumento no velho discurso de que a mulher “estava pedindo” para ser atacada. A revolta com esse tipo de discurso levou, por exemplo, à criação do movimento Marcha das Vadias em Toronto e que hoje é um evento mundial.

Como tudo isso ocorreu em um ambiente universitário, comecei a pensar em Virginia Woolf. No ensaio “Um teto todo seu” (1929), ela defende que, para produzir literatura, é necessário uma paz específica, um tipo de tranquilidade em que você não se sente pressionada com questões tão irritantes como, por exemplo, pagar suas contas. É necessário segurança emocional, por assim dizer, representada por esse “teto todo seu” e uma renda de 500 libras por mês. Substitua agora a palavra “literatura” por “pesquisa científica”. Um dos motivos pelo qual as mulheres demoraram a entrar no território da literatura, diz Woolf, é que elas não tinham dinheiro, não tinham paz, não tinham um teto todo seu, um quarto privado onde elas poderiam se trancar para produzir sem serem questionadas sobre o que faziam. E eu pensei, então, que no topo de todos os problemas que as cientistas mulheres precisam enfrentar na carreira acadêmica, há, ainda, um problema real de segurança. Pelo o que eu escutei naquele curso no Canadá, nem as melhores universidades do mundo conseguiram ainda construir ambientes seguros para as mulheres. O que me leva à minha última lembrança. Ainda naquele mesmo ano, um cientista inglês, Sir Tim Hunt, ganhador do prêmio Nobel, declarou que apoiava que laboratórios contratassem apenas pesquisadores de um só gênero porque, quando homens e mulheres se misturavam, três problemas ocorriam: “elas se apaixonam por você, você se apaixona por elas, e quando elas são criticadas, elas choram” (veja no Cientistas Feministas).

Ainda bem que a gente não perde o humor. Na época, a hashtag #distractinglysexy foi uma das respostas mais divertidas que eu já vi a um caso de machismo na academia (veja aqui alguns exemplos). Ah, e o tal pesquisador prêmio Nobel pediu demissão. Sim, eu entendo que o comentário dele não chega nem perto da gravidade de uma experiência de violência sexual, mas, voltando ao início desta coluna, se você assistir a 13 Reasons Why, vai ficar muito claro o poder das palavras, como elas constroem e reforçam imagens que resultam em casos extremos – ou seja, como comentários como o de Hunt contribuem para a perpetuação da cultura do estupro em nossa sociedade em geral e dentro até das próprias instituições de ensino.

 

Referências:

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. RJ: Nova Fronteira, 1985.

 

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Jane Austen conquista também o Brasil

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Jane Austen representada pela Revista Entertainment Weekly, em 1995, pelo sucesso das adaptações de cinema e TV de suas obras.

Em 18 de julho de 2017, a morte da escritora inglesa Jane Austen completou 200 anos. Em todos os países anglófonos, nos quais Austen tem garantido um lugar no cânone literário ao lado de Shakespeare, muitos eventos foram realizados para comemorar uma data tão significativa, sendo que o lançamento da nova nota de dez libras pelo Banco da Inglaterra em homenagem à autora teve grande repercussão internacional (ironicamente, porém, o retrato utilizado é uma adaptação “melhorada” do rosto de Austen, feita em 1870 por um artista que nunca a conheceu). Toda essa movimentação em torno de uma escritora tão relevante para a história da literatura inglesa não é de se estranhar, mas surpreendente mesmo foi a repercussão desse aniversário, a divulgação de notícias sobre e os eventos realizados aqui no Brasil para celebrá-lo, indicando que a popularidade de Austen já está solidificada também aqui nos trópicos. Por exemplo, a editora Nova Fronteira – uma das muitas que disponibilizam os romances da autora em seu catálogo – lançou uma nova caixa comemorativa dos 200 anos da morte de Austen e promoveu palestras de seu tradutor Ivo Barroso e da presidente da “Jane Austen Sociedade do Brasil” Adriana Sales.

 

Nota

Nova nota de 10 libras da Inglaterra

 

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Aquarela original de Jane Austen feita por sua irmã Cassandra (circa 1810). É o único retrato da autora reconhecido oficialmente. National Portrait Gallery, Londres.

 

O mais interessante, porém, é o espaço que Austen vem ganhando dentro das universidades brasileiras. Com um significativo número de cursos de Letras com habilitação em língua inglesa – que exigem pesquisas sobre obras nessa língua – e dada a importância da autora para a consolidação do gênero do romance moderno e para a própria história da literatura das mulheres, parece-me inevitável que a transformação da sua obra de objeto de admiração para objeto de pesquisa só aumente. Mas é também muito importante notar que esse aumento da presença de Austen nos estudos de mestrado e doutorado está bastante associado ao crescimento da sua popularidade fora dos muros da academia, com o surgimento da chamada “Austenmania” a partir dos anos da década de 1990. Nessa década, foram produzidas pelo menos sete adaptações dos romances da autora para cinema e TV, algumas mais criticadas, como a de Patricia Rozema para Mansfield Park (1999), mas a maioria de sucesso avassalador, como o seriado da BBC de Orgulho e Preconceito (1995) e o filme Razão e Sensibilidade, do mesmo ano, escrito e estrelado pela famosa atriz Emma Thompson. As adaptações são responsáveis por divulgar a obra da autora aqui no Brasil, já que não há tradição de se estudar seus romances no Ensino Fundamental ou Médio, por exemplo, e por isso são a porta de entrada mais comum – porém não a única – para muitos alunos brasileiros que decidiram pesquisar a autora.

Alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos nos últimos anos podem ser citados para ilustrar os temas mais comuns em pesquisas sobre Austen no Brasil (no final do post há as referências completas dos trabalhos já concluídos): Ricelly Jáder, da UFCE, estudou, em seu mestrado, a forma como a personagem Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, foi transformada no filme de 1940 produzido em Hollywood. O argumento de Jáder é que Austen, em sua obra, constrói uma crítica sutil a padrões socioculturais da sua época que colocam a mulher em uma posição inferior em relação ao sexo masculino. A personagem de Elizabeth Bennet, por exemplo, é apresentada como uma mulher inteligente, irônica, decidida e ousada, qualidades que não eram associadas ao comportamento feminino durante o século XIX. Porém, no filme de 1940, ao ser traduzida para as telas, a personagem é reestruturada e a crítica de Austen é apagada para ceder lugar a uma narrativa cômica e romântica.

Em 2016, na UFMT, Ivoneide Soares Jesus estudou outro tipo de adaptação da obra de Austen, o gênero do “mash-up”, a partir do livro Orgulho e Preconceito e Zumbis, o qual funde o texto de Austen com uma temática contemporânea em um processo de reescrita (ou zumbificação) do romance original. Soares leva em consideração, além disso, o papel do mercado na produção dessa obra híbrida, já que a ideia inicial surgiu de uma editora.

Esse também é o tema da tese de doutorado de Adriane Ferreira Veras, defendida em 2015 na UFRGS, a qual reflete ainda sobre a questão da autoria de uma obra, interligando questões sobre adaptações, colagens, apropriações e direitos autorais.

Ainda na UFRGS, a pesquisa em andamento de Bianca Rossato analisa o seriado do Youtube The Lizzie Bennet Diaries, a sua adaptação dos tipos sociais que aparecem em Orgulho e Preconceito, especialmente no que se refere à representação da mulher, e a forma como a narrativa transmídia interfere/contribui nesse processo adaptativo. Esse seriado/vlog fictício também foi analisado por Isabella Sabbatini na USP (2017) a partir de teorias de tradução e adaptação.

A popularidade atual de Austen foi tema do mestrado de Priscila Kinoshita (Uniandrade, 2012), que procura explicar a continuidade do interesse do público em geral na obra da escritora após dois séculos de sua publicação, defendendo uma hipótese de que esses romances apresentam questões socioculturais do período Georgiano da Inglaterra que seriam semelhantes a problemas atuais, possibilitando o estabelecimento de um diálogo entre as duas épocas.

Austen foi tema também da tese de doutorado de Maria Clara Biajoli (Unicamp, 2017), que analisa o fenômeno da “Austenmania” a partir da produção de fan fiction inglesa e norte-americana. Seu argumento é que a leitura mais comum da obra de Austen, demonstrada pelos textos de fanfics bem aceitos pelos fãs atuais, transforma os seus romances em histórias românticas inocentes, em contos de fadas regenciais e apagam toda a crítica social que Austen deixou registrada ali, especialmente em relação ao seu descontentamento com o lugar da mulher naquela sociedade. Aliás, a visão de que Jane Austen era uma observadora astuta de sua época não é contestada em nenhuma dessas pesquisas, indicando que a imagem de uma autora isolada ou apolítica está, finalmente, em desuso. A pesquisa em andamento de Natália Carvalho, na Unifesp, por exemplo, propõe analisar de que forma o enredo de Persuasão dialoga com o contexto sócio-histórico de Austen e de que forma a autora ficcionalizou aspectos de sua realidade.

Todos os exemplos acima, que listam apenas algumas das pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, indicam o reconhecimento da importância da obra de Austen também dentro das universidades brasileiras. Enquanto a imagem de uma escritora inocente ainda parece circular entre o grande público, alimentada, principalmente, pelas adaptações cinematográficas que focam apenas na trama amorosa, é muito positivo observar que as qualidades da sua obra literária estão ganhando cada vez mais espaço dentro da academia em geral e promove a esperança de que, em breve, o rótulo cor-de-rosa da autora de “romances para mulheres” seja descartado para sempre.

Trabalhos citados disponíveis:

  • BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Orgulho e Preconceito no Século XXI: A Austenmania e a Fantasia do Final Feliz. Tese de Doutorado. Unicamp, 2017.
  • JÁDER, Ricelly. A Tradução da Personagem Elizabeth Bennet, de Pride & Prejudice, Para o Cinema. Dissertação de Mestrado. UFCE, 2014.
  • JESUS, Ivoneide Soares dos Santos. Literatura e Necropsia: Um Exame Crítico em Pride and Prejudice and Zombie. Dissertação de Mestrado. UFMT, 2016.
  • KINOSHITA, Priscila Maria Menna Gonçalves. Do Século XVIII ao Século XXI: “Why Jane (Austen), Why Now?”. Dissertação de Mestrado. Uniandrade, 2012.
  • VERAS, Adriane Ferreira. Pride and Proliferation: Jane Austen meets Zombies in a Mash-up. Tese de Doutorado. UFRGS, 2016.

 

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As múltiplas vozes na luta pelos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil

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A historiadora Gláucia Fraccaro apresenta um exemplar do jornal operário A Plebe. Fonte: Antoninho Perri

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Exemplar do santinho da campanha de Bertha Lutz. Fonte: Arquivo Nacional / Antoninho Perri

Quando lemos sobre a história do feminismo e da conquista dos direitos das mulheres aqui no Brasil, inevitavelmente são destacados os nomes de “líderes” famosas como Bertha Lutz (1894-1976, fundadora da Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino em 1919) e Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982, primeira deputada federal do Brasil). Ainda que o desempenho dessas mulheres junto ao governo brasileiro tenha sido, de fato, de uma importância inegável, o foco em suas atuações acaba perpetuando duas ideias muito limitadoras a respeito desse tema: a primeira, de que a história do feminismo no Brasil foi um só movimento, com uma pauta única e igual para todas as envolvidas; e, segundo, a de que foi apenas com a luta de mulheres da classe média e alta que houve avanços nas conquistas dos direitos femininos.

A tese de doutorado de Gláucia Fraccaro, Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937), defendida em 2016 na Universidade Estadual de Campinas, mostra claramente que é possível contestar essas duas ideias. A sua pesquisa foi baseada tanto na análise de textos legislativos e jurídicos desse período quanto da imprensa operária, sem perder de vista também um interessante viés internacional a partir da forma como a ideia de se defender direitos trabalhistas específicos para as mulheres, como a licença-maternidade, estava sendo pensada em outros países, em especial através da Organização Internacional do Trabalho. Assim, Fraccaro conseguiu mostrar que havia outras vozes em jogo nessas décadas tão importantes para a consolidação das leis do trabalho brasileiras.

Em especial, a historiadora investiga a participação das trabalhadoras paulistas nas organizações sindicais, nas greves e na imprensa operária para indicar que as suas reivindicações, pautadas pelo lema “trabalho igual, salário igual”, precederam em muito tempo as ideias de Lutz e Queiroz. Na verdade, ao iluminar as experiências das operárias nas fábricas de São Paulo, Fraccaro nos mostra que os estudos sobre os conflitos entre as classes dentro do capitalismo abrangem questões muito complexas a partir da permanência de uma mentalidade patriarcal que, no caso das trabalhadoras, obrigava-as, além de lidar com a mesma exploração econômica enfrentada pelos operários, como jornadas de trabalho excessivas, a se organizarem para lutar contra outros problemas sofridos exatamente por serem mulheres, como salários muito menores, nenhuma segurança durante a gravidez ou pós-parto, e abusos sexuais por parte dos capatazes das fábricas. A sua atuação, ao contrário da imagem tradicional de que os movimentos sindicais e operários contavam apenas com homens, foi tão relevante que Fraccaro conseguiu localizar documentos que circulavam entre os donos das fábricas em que se percebe como várias mulheres eram consideradas “agitadoras” e, por isso, deveriam ser demitidas de seus empregos e vigiadas.

A sua luta se fazia ainda mais complicada porque não se dava apenas na relação patrão-empregado: os próprios operários, ainda que concordassem com a defesa de salários iguais, por exemplo, consideravam que o lugar primeiro de atuação das mulheres deveria ser o lar e, por isso, em tempos de desemprego, defendiam que elas deveriam ceder seus postos de trabalho para seus parentes homens. Fraccaro cita, por exemplo, um documento elaborado pela União dos Operários em Fábricas de Tecido que acusava os industriais de preferirem contratar mulheres pois, segundo sua opinião, elas se submetiam com mais resignação a todas as injustiças, e propunha que “os lugares ocupados hoje por mulheres nas indústrias fossem, numa porcentagem crescente, de mês a mês, ocupados por homens, até a extinção do total do elemento feminino nas indústrias”, e que “toda mulher que trabalha na indústria e no comércio possa ser substituída pelo marido, irmão, tio ou pai desempregados da mesma profissão” (apud Fraccaro, 2016, p.55). Tudo isso porque, segundo o mesmo documento, homens desempregados oferecem “assim um espetáculo ao mesmo tempo ridículo, vergonhoso e revoltante: o de ver a mulher na fábrica e o marido em casa cuidando dos serviços domésticos e levar as crianças ao portão das fábricas para serem amamentadas” (idem, p.54).

Mesmo em relação ao movimento feminista sufragista havia fortes divergências, em especial a partir das mulheres anarquistas, como Maria Lacerda de Moura que, em 1928, escreveu: “Não sou do progresso feminino pró-voto da senhorita Bertha Lutz e nem do bando militarizado e catequista da Professora Daltro. Voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino” (Moura, apud Fraccaro, p.67). Mas ainda assim é preciso reconhecer que a atuação de mulheres como Lutz foi importante para defender no congresso a necessidade de leis específicas para o trabalho feminino, principalmente a partir do reconhecimento da jornada dupla. Em seu “santinho” da campanha para a Assembleia Constituinte, Lutz defendia, por exemplo, que a “mulher proletária cumpre pena dobrada, acrescentando ao horário da fábrica o trabalho sem horário medido que desempenha no lar” (apud Fraccaro, p.126). O resultado, curiosamente, parece ter sido ao mesmo tempo composto de conquistas e entraves. Por exemplo, a lei que proibia que mulheres trabalhassem no período noturno, salvo algumas exceções – profissionais da saúde, por exemplo – parece indicar que também houve uma legislação “superprotetora” baseada na ideia de que o local primordial da mulher deveria ser o lar, mas que, em nome de salvaguardar uma pretensa fragilidade feminina e seu papel como mãe, acabava por prejudicar sua atuação no mercado de trabalho ao impedir seu acesso a algumas atividades bem remuneradas para a época.

É a partir de interessantes questões como as apresentadas aqui que Gláucia Fraccaro nos mostra como a história do feminismo no Brasil e dos direitos trabalhistas das mulheres não deve ser vista de forma homogênea, silenciando importantes debates a partir de uma versão heroicizada focada em apenas algumas líderes. Seguindo exemplos como a da famosa historiadora francesa Michelle Perrot, Fraccaro indica, portanto, que a categoria de gênero, em especial a partir de um olhar para os vários grupos de mulheres atuantes, tem muito a contribuir para as pesquisas e entendimento da história das relações de trabalho no mundo.

Referências:

FRACCARO, Gláucia Cristina Candian. Os Direitos das Mulheres – Organização Social e Legislação Trabalhista no Entreguerras Brasileiro (1917-1937). Unicamp, 2016. Tese de Doutorado. http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/321562 

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. Bauru: EDUSC, 2005.