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Para melhores dias, mude a sua energia!

Energia é o combustível do universo, sabe-se que é através dela que tudo se transforma, de forma física aos materialistas e de forma espiritual para os mais esotéricos. Ela se faz tão presente a todos os instantes que poucos param para pensar se as energias que nos rodeiam são transformadas de forma mais sustentável, ou não. Muitos focam bastante em como é administrado o dia a dia e “gasta-se” essa energia: ter uma alimentação saudável, beber bastante água, praticar exercícios, enfim, manter mente e corpo saudável. Já a energia que chega nas tomadas é simplesmente aceita. Todo mês vem a conta e as pessoas se limitam a questionar o quanto foi gasto, e não como está sendo produzido. O Brasil, por ser um país continental, possui uma malha energética complexa composta de energias renováveis e não renováveis. Considera-se energia renovável aquela que não produz resíduos na sua geração, e não o impacto de instalação considerado. Assim o país computa uma malha onde mais de 85% de energia é renovável por conta de uma característica muito particular que é a presença da hidrelétricas, conforme observada na figura 1.

Figura 1- Distribuição da Energia Interna do Brasil em 2019. Créditos: EPE (2019).

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética – EPE (BRASIL, 2019), o país produziu nesse ano 651,3 TWh de energia no total. As fontes limpas que comp~eo 85% desse valor são eólica, biomassa, solar, nuclear e hidrelétrica. Um comparativo feito pela Empresa de Pesquisa Energética para o ano de 2016 compara a geração renovável da Matriz Energética Elétrica do Brasil  com todo o mundo.

Figura 2 – Comparação de energia elétrica renovável e não renovável. Crédito: EPE, 2016.

Esses dados podem gerar uma certa comodidade na população vendo o quão superior na produção limpa o país é. Então por que devemos nos preocupar? E a resposta desta pergunta é simples.

Por uma característica geológica, nossa principal fonte de energia limpa vem das usinas hidrelétricas. Em comparação com outras fontes, essa era a forma menos custosa e prática para geração de energia. A ideia de preservação do meio ambiente e a não-geração de resíduos não citam o passivo das suas construções. Inclusive há controvérsias de informações, pois enquanto alguns dizem que ela é totalmente limpa, há um enorme passivo ambiental nas construções das barragens e o impacto irreversível no deslocamento das populações ribeirinhas, além de alagamentos de imensas florestas, processo de eutrofização das represas e seus efeitos sobre a qualidade da água e a emissão de carbono. (Bursztyn, 2020).

A energia hidrelétrica é limpa, porém não é infinita; dependemos dos rios e seus potenciais para que haja luz nas residências, indústrias, cidades. E nos últimos anos o país tem sofrido muito com a falta de chuva: seca de quase sete anos no Nordeste, escassez de água em São Paulo, e neste ano no estado do Paraná, local da 2ª maior usina hidrelétrica do mundo, a quantidade de chuvas foi muito abaixo do nível normal. Sem chuva não há reabastecimento nas represas que foram planejadas por séries históricas (calcula-se o período de maior seca e planeja a barragem para suprir essa deficiência). Mas se a crise hídrica atual é maior do que a para qual a usina foi calculada, ela não terá água para gerar energia. É também por isso que precisamos pensar se a energia escolhida no século passado é suficiente para suprir as demandas atual e futura.

Pensando dessa maneira devemos avaliar entre outras formas de produzir energia renovável  quais têm mais potencial para serem desenvolvidas hoje com as novas tecnologias.  Uma das respostas está, literalmente, em cima das nossas cabeças: o Sol.

Como foi visto na figura 1, o Brasil explora pouco a energia solar se comparada às demais energias instaladas e a razão é porque ela depende mais do interesse de cada consumidor do que do governo em si. Usinas solares têm valores de instalações muito elevados em comparação à eólica, por exemplo, e acaba não sendo viável para investir neste tipo de negócio a curto prazo. Mas ela pode transformar uma residência em sua própria usina, não gastando mais para ter luz. É desta maneira que 75% da geração distribuída de energia solar no país é produzida em residências (Moreira Jr. e Souza, 2018).

Uma instalação residencial traz independência da Matriz Energética, ou seja, em casos como o que ocorreu recentemente no Amapá onde o estado ficou 22 dias sem energia elétrica, quem tinha instalação de painéis fotovoltaicos não ficou sem energia.

Algumas pessoas têm dúvida com relação a capacidade de produção, pois a eficiência dos painéis raramente chega a mais de 20%. i Parece pouco, mas a energia solar é abundante e gratuita, além de não prejudicar o meio ambiente, não faltar em outro sistema, e continuar presente, se não for utilizada.

Outra dúvida frequente é a questão de instalação em locais que tem inverno mais rigoroso, com baixas temperaturas por três, quatro meses no ano. A geração de energia fotovoltaica não depende do quanto o Sol pode esquentar uma placa, e sim do uso da incidência do raio eletromagnético que transformará essa onda em energia elétrica. Um exemplo é a Alemanha que segundo Moreira Jr. e Souza (2018) recebe 40% menos incidência solar média que o lugar com incidência mais baixa no Brasil. E mesmo assim lá o investimento em geração fotovoltaica é tão estimulado que eles já detêm mais de 13% de todas as placas solares fotovoltaicas do mundo (figura 3).

Figura 3 – Painéis solares na Alemanha. Crédito: Portal solar (2017).

Usando como base a capital considerada mais fria do país durante o inverno, que é Curitiba, a radiação de plano inclinado, que é o valor usado para cálculo de capacidade de geração, é mostrada na figura 4.

Figura 4 – Incidência solar no plano inclinado em Curitiba 2019. Crédito: Atlas Solar Paraná.

            Já em Fortaleza, conhecida como a Capital da Luz, a incidência é a demonstrada na figura 5.

Figura 5 – Incidência solar no plano inclinado em Fortaleza 2019. Crédito: Cresesb.

 Apesar de haver nitidamente uma irradiação muito maior no verão na cidade nordestina do que em Curitiba, o importante é que a irradiação mínima nos dois casos não é muito diferente, indicando que, apesar do frio, a incidência solar em Curitiba continua viável para a instalação de painéis fotovoltaicos.

Aotimização das placas fotovoltaicas também depende da instalação na residência. A posição e inclinação das placas é fundamental, e para isso o local é fundamental para que o projeto seja eficiente. Posicioná-las voltadas ao Norte e na ausência de sombras são condições ideais, como mostrado na figura 6. Desta maneira a captação ocorrerá da forma mais eficiente, ou seja, aproximando daqueles 20%, falados anteriormente.

Figura 6 – Posição ideal da placa fotovoltaica. Crédito: eletronica-pt.com

       A quantidade de placas instaladas determinará o quanto de energia elétrica será produzida, se o suficiente ou maior do que a casa necessita. Para isso é interessante levantar um histórico de consumo de energia elétrica e observar qual a demanda necessária para a residência. Tendo este valor, e a área do espaço que há possibilidade de instalação, a incidência de plano inclinado e a capacidade de produção da placa por metro quadrado, conseguimos calcular quantas placas são possíveis de instalar e quanto irão produzir.

 Outra decisão importante é a escolha do sistema: on grid ou off grid (figura 7).

Figura 7- Sistema on grid e off grid. Crédito: Diamont Renewables.

       No sistema off grid a instalação é autônoma, independente da rede. A produção, consumo e armazenamento ocorre em um sistema fechado. Sistema ideal para locais remotos de difícil acesso à rede elétrica. O sistema on grid  é ligado à rede elétrica que fica com a sua produção excedente, que pode ser “devolvida” quando o seu sistema produz pouco. Essa “devolução” não envolve dinheiro, mas  funciona com um crédito energético válido por 60 meses que, dependendo do tipo de instalação, o proprietário pode consumir ou transferir para outros consumidores. Muitos usuários utilizam esse crédito para momentos em que a placa não produz, como nos períodos noturnos, geralmente momentos em que o consumo da casa é maior.

       Os custos de compra e instalação dos painéis solares fotovoltaicos estão barateando ao longo dos anos por conta do aumento da demanda. Assim o payback do investimento, ou seja, a compensação entre custo e economia que será feita, que já foi de 10 anos está atualmente em torno de 3 a 4 anos. Depois desse período o sistema gerará energia sem gerar gastos até finalizar a vida útil do equipamento que gira em torno de 25 anos, considerando que a manutenção seja realizada de forma adequada.

       A energia solar fotovoltaica além de se mostrar bastante viável no Brasil é uma forma realmente sustentável de produção: desafoga as linhas hidrelétricas e evita o uso das termelétricas, que são mais poluentes. É uma medida que não traz benefícios somente para o proprietário, mas uma ação humanitária considerando que o planeta é responsabilidade de todos nós.

       Então, quem puder, aproveite, porque o Sol é de todos.

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Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Resolução Normativa n. 687, de 24 de novembro
de 2015. Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2015687.pdf. Acesso em: 26 nov 2020.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Resolução Normativa n. 482, de 17 de abril de 2012.
Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2012482.pdf. Acesso em: 26 nov 2020.

BRASIL. Empresa de pesquisa energética. Balanço Covid-19 – Impactos nos mercados de energia no Brasil: 1º semestre de 2020. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-covid-19-impactos-nos-mercados-de-energia-no-brasil-1-semestre-de-2020. Acesso em: 26 nov 2020.

BURSZTYN, M. Energia solar e desenvolvimento sustentável no Semiárido: o desafio da integração de políticas públicas. Estudos Avançados. [online], vol.34, n.98, pp.167-186, 2020.

MOREIRA JR, O.; SOUZA, C.C. Aproveitamento fotovoltaico, análise comparativa entre Brasil e Alemanha. Revista INTERAÇÕES, Campo Grande, MS, v. 21, n. 2, p. 379-387, abr./jun. 2020.

LIRA, M.A.T.; MELO, M.L.S.; RODRIGUES, L.M.; SOUZA, T.R.M. Contribuição dos Sistemas Fotovoltaicos Conectados à Rede Elétrica para a Redução de CO2 no Estado do Ceará. Revista Brasileira de Meteorologia, v. 34, n. 3, 389 397, jun. 2019


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Ferramentas Virtuais: estamos vivendo ou só vendo lives?

Videoconferencia

Despertador do celular toca. Inúmeras notificações marcadas na Agenda do Google e você já se assusta. Você tem que levantar, há reuniões marcadas para quase o dia todo, você tem que trabalhar, as crianças têm aula para assistir: mesmo em casa a vida continua intensamente.

Você dá uma passada de água na cara, faz um café, põe alguma roupa decente da cintura pra cima, e vai. 

E assim começa. Procura o link da reunião, acha o errado, clica, estranha que mesmo atrasada ninguém está ali. Procura no email, de novo, encontra e finalmente consegue achar o link do Google Meet. Entra quietinha na reunião, ainda estão nos bom dia, deixa a câmera e som desligados, até que alguém resolve te chamar, e você tem que falar, e sem querer liga a câmera junto, e nem sua cara, nem seu pano de fundo estão ideais para o ambiente institucional, mas segue mesmo assim. Participa, desliga tudo e volta para o modo “observação”, alguém esquece o microfone ligado e boceja alto, todos ouvem e riem, afinal, esse é o novo normal, com suas anormalidades.

Acaba a primeira reunião, agora uma aula de especialização, a plataforma agora é o Jitsi. A nova sala de aula é uma tela cheia de bolinhas, o professor estranha o silêncio, provoca participações, e alguns alunos mais corajosos respondem. O cachorro do professor late no fundo, o do aluno responde, e leva uns cinco minutos para que tudo se torne audível novamente. Já para o final da aula você percebe que entrou com o registro do seu filho, e seu nome está João na aula, e quando vai falar ninguém reconhece. E fica por isso mesmo.

A manhã acaba, você corre para arrumar o almoço, e as atividades da tarde pipocando no celular. Lá vem mais uma atividade digital: agora é você que dará aula no Microsoft Teams que é bom para ensino. Os alunos entram. A aula toda planejada segue até o fim, poucas dúvidas surgem. Quando termina lembra que esqueceu de gravar para aqueles que não estão podendo ter acesso síncrono. E, por isso, terá que transcrever tudo. Os alunos sem acesso não têm culpa, você também não, mas devemos amenizar ao máximo as diferenças, e poder assistir aula é a principal delas. Posta tudo no Google Classroom, faz atividades no Google Forms, salva tudo no Google Drive. E assim as aulas seguem.

Agora você corre para auxiliar seus filhos: o Moodle da escola é o link da vez. Seu filho esquece a senha, você esquece em qual email foi cadastrado, liga para escola, o técnico de informática tenta explicar calmamente, nada dá certo. Ele te acalma, os dois reclamam da pandemia, e finalmente resolve-se a questão. Para não esquecer ele recomenda que anote em algum lugar na nuvem, e você, nas nuvens, não faz ideia do que ele está falando, ele diz que o Keep ajuda, dá para por no celular, melhor anotar em um papel, e deixar na tela do computador, junto às outras dezoito senhas já registradas. Seu filho entrou no moodle da escola.  A professora pede um mapa mental, sugere que seja usado o Cmaptools, que é gratuito, é só instalar. Seu filho percebe sua angústia, e em cinco minutos resolve o problema. Diz que pode ser útil para suas aulas, e é, e você presta atenção nele te ensinando, e alguma coisa dentro de você se acalma. A esperança que seu filho realmente não esteja tendo tanta dificuldade é um alívio no fim do dia, e você relaxa.

O estômago lembra que o dia está acabando. Mais um encontro, de profissionais da sua área, algo mais descontraído, e agora é pelo Cisco Webex, mas nunca usou. Você grita perguntando a senha, seu marido da cozinha diz que não lembra. E você já atrasada faz outro cadastro gratuito, e entra no encontro. Agora as câmeras estão ligadas, e você com um pré-pijama dos ursinhos carinhosos, mas agora já é tarde. Você observa que a plataforma é interessante, com as câmeras ligadas dá para ver as casas das pessoas, é o máximo de novas paisagens que você consegue ver nos últimos meses. Os microfones também estão ligados, e alguém grita “mãe”, outras duas respondem de suas casas “a mãe está ocupada”, todos riem, todos compreendem. 

Há outro encontro ainda hoje do grupo de estudo de inglês, e lá vai você. O link vem pelo Whats, a plataforma é a Zoom, você muda o plano de fundo para fazer uma graça, também pode interagir nas postagens do professor. Para trabalhar um assunto específico usa o Jamboard, a aula é mais relaxante e divertida, não poderia ser diferente para o fim do dia, mas é nítido o cansaço de todos. Acabamos a aula antes, desabafamos as inseguranças deste tempo tão diferente. E a vida segue.

E os novos dias continuam, nem sempre em um ritmo tão intenso, mas ainda assim continuam os encontros virtuais em vários meios. Mais ferramentas surgem: Padlet, Kahoot, Twitch, Trello, Slack.

Você achou que no começo da pandemia teria tempo, iria aproveitá-lo em casa para pequenas reformas, ficar com a família, aprender um prato novo, assistir séries e lives, e percebe que o tempo se foi. E sem querer você olha o calendário e vê que passaram cinco meses de pandemia e você pensa afinal: Estou vivendo ou só vendo lives?

No glossário abaixo, opino sobre cada ferramenta, entendendo que cada pessoa tem a predileção de acordo com sua adaptação. O objetivo é pontuar as principais vantagens de cada item a seguir:

Agenda do Google

Aplicativo disponível para os usuários do Gmail que organiza os eventos em forma de agenda diária, semanal ou mensal. Pode ser instalado ao celular vinculado ao email e notifica, de acordo com a programação do usuário, todos eventos agendados.

Google meeting

Existe uma versão gratuita para os usuários do Gmail, é uma ferramenta que faz reuniões online, de fácil agendamento pela Agenda do Google que envia o link para todos os participantes. Podem até 250 pessoas, tem filtro de ruídos que identificam barulhos externos e os diminuem. Disponibiliza display com até 16 participantes e pode fazer layout personalizado. É necessário que o anfitrião da reunião tenha conta no Gmail, todos os integrantes podem compartilhar arquivos. Quando o vídeo é gravado, uma cópia vai direto ao email de quem agendou a reunião e também salva em pasta no Google Drive, o que facilita o acesso posterior. O arquivo já fica em *.mp4, que é fácil de abrir. O chat é limitado a todos os participantes, não tem opção de troca de plano de fundo, então antes de usar é bom pensar em um legal. Existem empresas que estão simulando fundos de papelão com a estampa que desejarem desde livros, que é o mais desejado, até fundo com gatos, vai do gosto do cliente.

Jitsi

Totalmente gratuita, essa ferramenta tem todos os recursos básicos das demais de videoconferência, e algumas opções diferenciadas como desfocamento do plano de fundo das pessoas, o que pode esconder um pouco a bagunça naqueles dias que você está com mais pressa. Também tem como diferencial a possibilidade de “erguer a mão” para que o interlocutor veja sem ser interrompido. Se a internet está ruim, há a opção de alterar a qualidade do vídeo e do áudio para melhorar a transmissão, e pode ser transmitido direto ao Youtube transformando apresentações em lives. Outra vantagem é que as pessoas podem acessar a reunião sem necessariamente instalar o programa em seu computador ou celular, o que torna o acesso rápido e prático. Existe um diferencial que qualquer pessoa pode silenciar alguém que tiver com o áudio atrapalhando a reunião, ou pode até silenciar todos incluindo o apresentador, assim ruídos indesejáveis (conversa paralela, trânsito, cachorro, televisão) podem ser desligados.

 

Microsoft Teams

A maior vantagem desta plataforma, que tem todos os requisitos básicos que as demais têm, é o acesso ao pacote Office para trabalho online. Os grupos podem ter acesso aos documentos e modificá-los durante a reunião. Também têm um ótimo acesso a ferramentas de apresentação quando o interlocutor está compartilhando algo. Todas as pessoas podem compartilhar documento sem autorização, o que torna o processo mais rápido. O limite de participantes por evento é de 500 mil pessoas, ou seja, praticamente ilimitado para uma reunião institucional. Ele possui versão gratuita, mas o arquivamento de dados da reunião somente nas versões pagas.

Google Classroom

Ferramenta vinculada ao Gmail que cria salas de aulas virtuais que permitem compartilhamento de materiais entre professores e alunos, grupos de pesquisa e demais fim didáticos. O professor cria uma turma (sala de aula) onde, por meio de uma senha, os alunos se inscrevem. E lá ele pode colocar, de forma organizada, materiais para consulta e, também, criar atividades incluindo avaliações. Pois há o recurso de rubrica que mostra todos os critérios que o professor analisa na atividade enviada, e pontua cada um deles conforme o planejamento do professor. As aulas podem ser agendadas pela Agenda do Gmail, e a própria ferramenta cria uma pasta no Google Drive onde são armazenados todos os arquivos compartilhados. Geralmente é necessário que haja uma inscrição da instituição de ensino para que se tenha acesso a esta plataforma, mas agora na pandemia esta estrutura foi liberada.

Google Forms

Ferramenta que possibilita fazer questionários com perguntas em vários formatos: múltipla escolha, dissertativas etc. E as respostas podem ser organizadas em formas de gráfico depois. Também oferece a possibilidade de feedback individual por questão, e pontuação em cada uma das questões. O acesso ao questionário é feito por meio de um link compartilhado pelo autor, e pode escolher a opção de uma só resposta por e-mail vinculado, ou várias. Também pode limitar o tempo das respostas fechando o acesso ao formulário quando desejar.

Google Drive

A principal função do Google Drive é a de nuvem, onde há armazenamento dos arquivos lá postados sem ocupar a memória do dispositivo do usuário. Mas também uma excelente opção é trabalhar com documentos online, onde este documento é salvo o tempo todo e você pode acessá-lo de vários computadores. Outra ferramenta é de várias pessoas compartilharem o mesmo documento e poderem trabalhar nele simultaneamente. É uma ferramenta Google, vinculada a um e-mail Gmail, gratuita.

Moodle

Essa ferramenta é semelhante ao Google Classroom, mas geralmente direcionada a instituição que a registrou. Bastante comum nas escolas, principalmente agora nos ensinos remotos da pandemia, onde os professores montam cursos inteiros, com as matérias separadas, e todo material e atividades é posto neste site.

Keep

É uma das minhas ferramentas preferidas, vinculada a uma conta do Gmail, ela é um bloquinho de notas onde você pode guardar informações em forma de lista ou mosaico, como preferir. Lá são armazenados desde lista de compras, senhas pouco relevantes até contas de casa. É um acesso rápido de informações que também pode ser instalado no celular como aplicativo, mas pode acessar através da conta do Google no computador. Armazena também imagens, caso necessite arquivá-las para acesso rápido posteriormente.

Cmaptools

Ferramenta gratuita para confecção de Mapas Mentais ou Conceituais. É bastante útil para estudos, fichamentos e memorização, pois usa o artifício visual para guardar informações. O uso é bastante intuitivo, fácil e prático. Pode ser usado como forma de avaliação nas aulas, os alunos compreendem rápido, pode ser salvo em *.pdf e enviado como imagem se for necessário.

Cisco Webex

Ferramenta de videoconferência semelhante às demais, a versão gratuita tem apresentação visual personalizada, para até 100 participantes, também com opção de chamar o interlocutor por raise hand, tela interativa, uma ótima opção que é o quadro branco onde todos podem colocar ideias (só tem nele). As reuniões gratuitas são limitadas a 50 minutos, podendo ser renovada e agendadas, mas é necessário instalar o aplicativo. O que eu mais gostei, particularmente, foi a qualidade de som e áudio que se mostrou superior aos demais, principalmente na questão de sincronicidade.

WhatsApp

Dispensa apresentações, o WhatsApp tem sido uma ferramenta exaustivamente usada na pandemia, mas o que eu quero destacar aqui é que, na minha opinião, é a ferramenta mais fácil para videoconferências com pessoas mais próximas. Não necessita de link, nem de acesso por e-mail. É só discar videochamada e pronto, você está pronto para além de conversar, ver seus pais, sua avó, sua irmã. Então, apesar das inúmeras opções, o bom e nem tão velho Whats ainda é uma excelente opção.

Zoom

Muito rapidamente na pandemia o Zoom virou a menina dos olhos das videoconferências, isso porque ela já era uma ferramenta bastante conhecida nos meios corporativos, e foi migrada para a vida comum. Há uma versão gratuita que traz alguns diferenciais interessantes como interação digital por qualquer integrante nas apresentações compartilhadas, escolha de qualquer imagem como pano de fundo, e além do raise hand há também as palmas que você pode enviar para alguém. Mas particularmente a minha observação que diferencia o Zoom das demais é que ele usa imagem HD e eu desconfio, não tenho provas, que é usado algum filtro na imagem que deixa as pessoas mais harmoniosas. Pode ser impressão minha, mas observem. Outra opção interessante, aí já para versão paga, é poder criar várias salas numa mesma reunião, e assim trabalhar com grupos. Função que é excelente para aulas por exemplo.

Jamboard

Ferramenta da Google Education, vinculada ao Gmail, é um quadro branco interativo, compartilhado através de link, onde todos os participantes podem usar caneta virtual, post its, e emoticons para reagir a ideias ou imagens apresentadas. O anfitrião pode montar uma apresentação de base, com questões que devem ser respondidas pelos participantes. Ótima ferramenta para projetos de pesquisa, brainstorms.

Padlet

É uma ferramenta educacional que consiste em um painel virtual, como se fosse um scrapbook onde várias pessoas podem postar na mesma tela. Assim você tem um painel com “colagens” de todos sobre um determinado assunto. Além das imagens, podem ser postados vídeos também, e todos podem contribuir nas postagens dos colegas com comentários naquela imagem, e podem correlacionar por meio de linhas assuntos semelhantes. É bem didático, a desvantagem é que qualquer pessoa pode editar a edição do outro, e pode inclusive apagar. Mas se o grupo for bem integrado dá para realizar excelentes trabalhos.

Kahoot

O kahoot é uma ferramenta que possibilita o professor a criar questionários divertidos, onde os alunos vão responder as perguntas e o próprio programa adiciona a parte áudio visual semelhante a um vídeo game. Além disso os alunos ao responderem podem ver, através de um ranking, seu desempenho naquela atividade. Também envia para quem organizou o questionário uma planilha com o desempenho de cada participante. Achei bem útil para desenvolver quiz com os alunos de forma mais lúdica e divertida.

Twitch

Canal que transmite eventos, ao vivo, e que proporciona interação dos participantes incluindo votações. Voltado para o público gamer, agora está sendo bem visto para os participantes de eventos de iniciação científica.

Trello

Excelente ferramenta para organizar fluxo de projetos. No meu caso utilizo para projetos de pesquisa onde as metas podem ser agendadas, com notificações informam os prazos, e pode servir como depósito de todos os arquivos pesquisados, independente do formato. Também há espaços bem organizados para discussão por assunto ou etapa.

Slack

Semelhante ao WhatsApp, é uma ferramenta em forma de Chat onde os integrantes interagem entre si por meios de conversas, vídeo chamadas, imagens. Também podem ser criados grupos específicos, e a vantagem é que o usuário tem o domínio do que vai participar. As pessoas só terão acesso a você, pelo Slack, se você permitir, o que não ocorre no caso do WhatsApp. Ideal para grupos de pesquisa.

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Estudando Evolução Humana com Bioinformática

Chimpanzé comum no zoológico de Leipzig, Alemanha. Créditos: Thomas Lersch.

Você já parou para pensar no que nos torna humanos, ou então o que nos diferencia de outras espécies, como os chimpanzés? Biólogos e outros cientistas têm trabalhado nessas questões há muito tempo, comparando humanos com outras espécies  e usando o método científico. Anteriormente, as abordagens giravam em torno de observar as características físicas e comportamentais das espécies para entender as especialidades de cada uma. A pesquisadora Jane Goodall contribuiu imensamente para a ciência estudando chimpanzés, e permanece hoje como uma das grandes cientistas da história.

Pesquisadora Jane Goodall. Créditos: Franz Johann Morgenbesse/wikimedia.

Desde o sequenciamento do genoma humano em 2002, a humanidade recebeu uma importantíssima fonte extra de informações, que nos permitiu atacar essas mesmas questões com uma abordagem complementar àquelas mais tradicionais. Agora é possível estudar as espécies a nível molecular. Atualmente, temos sequenciados os genomas não só da espécie humana, mas também de diversos outros primatas, como chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas. Dessa forma, podemos comparar os genomas e genes diretamente e entender como a evolução agiu em cada espécie.

Nesse artigo, vou apresentar a você a minha contribuição para esse tema científico. Minha pesquisa foi feita durante o meu Doutorado, realizado no Laboratório de Bioinformática da Universidade de Leipzig, Alemanha, pelo programa brasileiro Ciência sem Fronteiras. Essa pesquisa foi feita em bioinformática com um time multi-disciplinar de Biologia e Ciência da Computação.

Quais genes nos diferenciam de espécies evolutivamente próximas, como os chimpanzés e bonobos? Para responder a essa pergunta nós estudamos famílias de genes de primatas para descobrir quais genes têm funções humano-específicas. Para isso usamos técnicas avançadas de bioinformática. A bioinformática é uma área relativamente nova da ciência, que aplica o imenso poder de processamento e análise da ciência da computação nos problemas existentes em biologia.

Nuvem de palavras de bioinformática. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Genes podem ser classificados em dois grandes grupos igualmente importantes: as proteínas e os menos conhecidos RNAs não codificadores (ncRNAs). Esses últimos estão envolvidos na regulação e manutenção das células do nosso corpo. No meu trabalho publicado na revista científica BMC Bioinformatics em 2019, apresentei o SSS-test (test for Selection on Secondary Structure), primeiro programa da comunidade científica mundial capaz de analisar famílias de ncRNAs e reportar o grau evolutivo de cada espécie. 

Árvore evolutiva de cinco espécies de primatas (à esquerda) em contraste com a evolução de um ncRNA (um tipo de gene) com estrutura humano-específica (direita). O novo programa de bioinformática SSS-test encontra tais genes, nos ajudando a entender o que exatamente nos diferencia de outras espécies. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Como isso é feito? Primeiro, construímos um algoritmo teórico com os seguintes passos: 

  • (i) recebe como entrada as sequências de genes tipo ncRNAs,
  • (ii) detecta as diferenças entre as espécies e 
  • (iii) constrói modelos estatísticos de impacto estrutural. 

Após definir esse novo algoritmo, nós o implementamos por meio de uma linguagem de programação. Dessa forma, traduzimos as teorias e fórmulas estatísticas em um programa, o qual o computador entende e processa. 

Parte do programa SSS-test. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa

Com o programa SSS-test finalizado, processamos todas as 15 mil famílias de ncRNAs conhecidas de primatas (Walter Costa, LGBio) e encontramos um pequeno grupo de 110 ncRNAs com sinais humano-específicos. Um deles é o MIAT, ilustrado na figura acima da árvore evolutiva de primatas. O MIAT e mais alguns desses ncRNAs estão ativos no nosso cérebro, o que pode levar a descobertas futuras ainda mais intrigantes sobre a nossa biologia e o que nos difere de outras espécies próximas, como os chimpanzés e bonobos.

Dentre as principais diferenças entre nós e nossos primos genéticos, estão as nossas habilidades únicas de fala, cognição e linguagem. Outro exemplo dos ncRNAs que estudamos, denominado HAR1, está ativo no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação, e pode estar relacionado à cognição. As descobertas do meu Doutorado juntamente com nosso novo software, o SSS-test, ajudam a compreender melhor todas essas complicadas questões sobre o que nos torna humanos.

Referências

Conversa com a Dra Maria Beatriz Walter Costa pelo LGBio. “Pesquisa em Bioinformática: Evolução e Seleção Adaptativa de ncRNAs”. Youtube. 2020   https://www.youtube.com/watch?v=7wC2dL3QadM 

Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Dunjić, Marko; Stadler, Peter e Nowick, Katja. “SSS-test: a novel test for detecting positive selection on RNA secondary structure”. BMC Bioinformatics. 2019 https://bmcbioinformatics.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12859-019-2711-y

Nowick, Katja; Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Stadler, Peter. “Selection Pressures on RNA Sequences and Structures”. Evolutionary Bioinformatics 2019  https://doi.org/10.1177/1176934319871919 


Walter Costa, Maria Beatriz. Tese de Doutorado (Doctor rerum naturalium) em Ciência da Computação. “Adaptive Evolution of Long Non-Coding RNAs”. Universidade de Leipzig, Alemanha. Programa Ciência sem Fronteiras – CNPq/Brasil 2018  https://nbn-resolving.org/urn:nbn:de:bsz:15-qucosa2-323898

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Tecnologia em tempos de Pandemia: o que está sendo usado na área tecnológica para combater o COVID 19.

Não é preciso lembrar a todos que o momento que estamos é bastante singular na história da humanidade, porém não é o único. Em 1918 tivemos a famosa Gripe Espanhola que recomendava ao povo medidas como bons hábitos de higiene, toque de recolher, evitar aglomerações e cuidados maiores com pessoas idosas entre outros conselhos como mostrado na figura 1.

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Figura 1: Conselhos na gripe espanhola. Fonte: O Globo (2020)

Apesar das semelhanças nas medidas, a luta no combate é muito diferente. Falamos de 102 anos de diferença e de muita tecnologia desenvolvida nesse período. Incluindo, por exemplo, o desenvolvimento dos computadores, controle, automação, materiais e muita aplicação na área hospitalar. E é sobre essas tecnologias que falaremos a seguir.

Temos ouvido falar muito nos últimos dias que temos que usar máscaras para nossa proteção, que é preciso saber higienizá-las ou descartá-las de forma adequada. Além disso, sabemos que muitas pessoas estão usando respiradores pulmonares em casos graves e que novas invenções brasileiras estão amenizando o tempo de internamento. Mas muitas dúvidas ficam no ar: qual a melhor máscara? Onde o respirador realmente atua? O que temos feito para amenizar os riscos? Então agora vamos explicar!

Segundo os Médicos Sem Fronteiras (2020) o vírus COVID 19 (SARS-CoV2, coronavirus desease 2019) – mais conhecido como coronavírus – é da mesma família da Síndrome Aguda do Oriente Médio (MERS-CoV) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV), e apresenta desde característica comuns de uma gripe até crise respiratórias graves levando à óbito por insuficiência respiratória.

 Não há vacina nem cura  até o momento, então o que pode ser feito é o tratamento para amenizar os sintomas.

A transmissão ocorre por meio físico, não pelo ar. Para isso é necessário que haja contato com quem tem a doença ou com algo que essa pessoa tocou. No entanto é necessário que o vírus tenha contato com as mucosas da pessoa: olhos, nariz, boca. Por isso nossas mãos são o agente transmissor mais provável. E para isso destaca-se a necessidade de higienizá-la sempre, seja com água e sabão ou álcool em gel,  já que levamos muito as mãos ao rosto. Para evitar esse processo o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras quando saem de casa.

O uso de máscaras se faz necessário para evitar que gotículas da saliva de alguém contaminado possam  atingir outra pessoa seja em um espirro ou mesmo em uma conversa. A máscara também evita que as pessoas contaminadas transmitam o vírus. Por isso é essencial que saibamos qual máscara devemos usar.

O ideal seria que todos pudessem usar as máscaras cirúrgicas, feitas de TNT (Tecido Não Tecido), PFF (Peça Semifacial Filtrante), N95, N99 ou N100 (o número indica a Eficiência de Filtragem de Partículas).

A TNT seria melhor para uso comum em ambientes hospitalares, além de ser descartável (figura 2).

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Figura 2: Máscara de TNT. Fonte: Pixabay.

Ela seria a ideal para o uso pelas pessoas nas ruas, no entanto como o coronavírus é uma pandemia mundial, e a maioria das máscaras deste material eram exportadas pela China (primeiro epicentro de contágio), há uma escassez nesse produto. No Brasil elas estão sendo direcionadas principalmente para os locais de atendimento às pessoas com suspeita de contaminação.

Desta maneira o Ministério da Saúde tem recomendado que as pessoas usem máscaras caseiras (figura 3), feitas de pano, que têm um grau de eficiência de filtragem baixa, mas que protegem de forma razoável, brandamente. 

As máscaras de panos são fáceis de fazer, mas alguns cuidados são necessários como: usar no máximo por 2 horas se o usuário falar durante o uso, e por 4 horas em caso contrário, além da higienização assim que deixar de usá-la que pode ser 20 minutos em água sanitária e depois lavar com água e sabão esfregando bem. Também jamais colocar as mãos na parte externa da máscara e evitar ficar ajustando-a ao rosto. Especialistas da UFSC mostram aqui como é possível fazer a máscara com as medidas e tecidos certos.

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Figura 3: Máscara caseira. Fonte: Pixabay.

Para população em geral as duas máscaras citadas acima já são o suficiente, no entanto, os profissionais da saúde necessitam de mais proteção que o normal, pois estão em contato direto com as pessoas contaminadas. Nesses casos eles usam as máscaras PFF2 ou N95 (figura 4) mais comumente, estas máscaras podem ser reutilizadas se forem usadas somente como máscara normal, mas em qualquer contato com gotículas elas devem  ser descartadas.

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Figura 4: Máscara N95. Fonte: Bisturi Material Hospitalar (2020).

Estas máscaras têm elementos filtrantes bastante eficientes e por isso oferecem mais proteção ao profissional da saúde que realmente necessita devido ao contato com pacientes com Covid-19. Algumas também possuem respiradores que facilitam o uso contínuo e dão mais conforto ao usuário. Pessoas infectadas também devem usar este tipo de máscara, assim evitam contagiar outras pessoas (lembrando que o isolamento integral também é indicado para os pacientes que não estão em casos graves).

Estas máscaras podem ser desinfectadas e reutilizadas, mas é necessário que sejam usados métodos confiáveis, uma vez que o vírus não pode ser visto. Pensando nisso a USP – Universidade de São Paulo, através do Instituto de Física de São Carlos,  fez uma Câmara de Ozônio (figura 5) que desinfecta 1000 máscaras em 2 horas. Inicialmente as máscaras são colocadas em sacos de poliéster e submetidas a um ambiente de vácuo e depois é injetado ozônio (O3), este ciclo é repetido várias vezes, pois o ozônio deve penetrar nas tramas das máscaras. A ação do ozônio é microbiocida, ele consegue destruir a cápsula proteica (envelope do vírus) e destruí-lo.

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Figura 5: Câmara de Ozônio. Fonte: Jornal da USP (2020)

Outro tipo de proteção muito usado que evita ainda mais o contágio nos profissionais de saúde são as máscaras tipo Face Shield, que protegem todo o rosto do usuário (figura 6).

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Figura 6: Máscara tipo Face Shield. Fonte: Governo de São Paulo (2020).

Essas máscaras estavam em falta no mercado, “estavam” pois, várias pessoas que possuem impressoras 3D estão se unindo em prol da saúde do país e estão produzindo milhares de máscaras e doando para os hospital e postos de atendimento. Alguns grupos disponibilizaram o projeto (figura 7) na Internet de forma gratuita. Para quem tem interesse o grupo de Pernambuco Hardware PE abriu aqui no seu site. É necessário filamento para impressão 3D usado no fixador e base de acrilato transparente para proteção.

 

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Figura 7: Projeto Face Shield. Fonte: Pernambuco Hardware (2020).

Além destes equipamentos, outros fundamentais para recuperação dos pacientes são os respiradores, ou Ventiladores Pulmonares (figura 8), como são mais conhecidos.

 

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Figura 8: Ventilador Pulmonar. Fonte: Emitec (2020) 

Um dos sintomas mais graves do Covid-19 é a falta de ar, isso significa que o paciente não consegue realizar atividades simples como levantar-se ou tomar banho. Nesses casos é necessário que a pessoa procure imediatamente o sistema de saúde. Desta forma, observando a gravidade da situação o paciente será necessário o uso desse equipamento. Em alguns casos mais brandos a ventilação externa, com inalador pode ser o suficiente. Em outros somente a ventilação mecânica ajudará o paciente a respirar. Segundo Button (2002), na maioria dos ventiladores uma fonte de pressão positiva entrega ar para os pulmões do paciente que faz a troca gasosa, e então retira a pressão para que ocorra a expiração. A ventilação artificial pode ainda ser feita pela via nasal, oral ou por tubo de traqueostomia. O processo que o equipamento trabalho é explicado na figura 9.

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Figura 9: Ventilador mecânico. Fonte: Button (2002)

O processo consiste em controlar três parâmetros importantes: pressão, volume e ciclo (tempo). Assim será controlado o fluxo de entrada do ar nos pulmões, na quantidade certa e respeitando o ciclo respiratório do paciente. São fatores que devem trabalhar em sincronia perfeita. A diferença entre a respiração pulmonar comum e a com o ventilador está representada nos gráficos da figura 10 a seguir.

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Figura 10: (a) Ventilação espontânea; (b) Ventilação mecânica. Fonte: Button (2002).

Normalmente nesta situação o paciente ficará sedado para não sentir qualquer incômodo ao processo, no entanto, mesmo com esse procedimento muitas pessoas estão vindo a óbito. Portanto a melhor indicação ainda é prevenir, manter os grupos de risco longe de contágio, e ficar em casa o máximo possível, seguindo todas as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde.

Nem todo leito de UTI possui ventilador mecânico, o Ministério da Saúde recomenda que haja um ventilador para cada dois leitos. No entanto, nesse momento, o uso deste equipamento será de grande demanda, assim muitas pessoas querem inventar equipamentos de baixo custo para auxiliar nessa necessidade urgente. Devemos ficar alertas ao seguinte: a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é que aprova se esses equipamentos poderão ser utilizados, e os parâmetros sobre a segurança do paciente são super rigorosos. Então mesmo que alguns pareçam bastante eficientes, só serão aprovados após muitos testes de validação que duram meses, até anos. Por isso é bom ficarmos alertas a soluções milagrosas.

Outras soluções estão sendo propostas e uma que tem dado resultados positivos é a manutenção dos ventiladores que estão em desuso em todo país. Universidades, Senai’s e o Exército Brasileiro formaram grupos para colocarem esses equipamentos em funcionamento, já que se estima que haja no país aproximadamente 3500 respiradores parados por falta de manutenção. Um desses grupos é o Médico de Máquinas formado na UFPR (Universidade Federal do Paraná) que começou com alunos do curso de Especialização em Manutenção 4.0 e agora já conta com mais de 180 profissionais em sua maioria da área de engenharia. Em alguns casos o ventilador consertado é o único disponível na cidade e que estava parado. A iniciativa começou na cidade de Curitiba, agora é vista por todo o estado do Paraná e outros estados têm entrado em contato para poderem replicar essa experiência em suas regiões.

E assim é o brasileiro, não desiste de lutar. E foi observando a situação dos pacientes nos leitos e nas condições de tratamento que a Samel Health Tech através do Instituto Transire de Tecnologia e Biotecnologia do Amazonas criaram a Cápsula Vanessa (figura 11).

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Figura 11: Cápsula Vanessa. Fonte: Folha (2020).

Ela é composta de uma proteção revestida de vinil transparente, armação de pvc e um exaustor para troca de ar que cobre a cabeça e a região torácica do paciente. Desta maneira, evita mais contaminação externa, além de proteger melhor os profissionais da saúde. Os resultados foram apresentados pela Rede Samel que afirmam que com 80 pacientes em internamento nenhum precisou de ventilação mecânica, além de reduzir o tempo de internamento em unidade intensiva para 6 ou 7 dias. Essa alternativa foi desenvolvida em Manaus, onde o Covid 19 está em grau elevado de contaminação, mas já está sendo estendida para outros estados. Entendendo a gravidade da situação, eles mantiveram a patente aberta e disponibilizam aqui o manual de construção. O custo fica em torno de R$ 200,00. Ainda não há estudos mais aprofundados que atestem a eficiência, mas não possui nenhuma contra indicação, só cuidados na montagem e desinfecção.

O brasileiro mostra, nesse momento, que além de muito solidário é bastante criativo. Várias pessoas ajudando como podem: confeccionando máscaras caseiras e distribuindo, face Shields para hospitais, câmaras de ozônio, câmara Vanessa como foi descrito. Ainda estão fazendo álcool gel, distribuindo comida para os mais necessitados, ajudando o vizinho que faz parte do  grupo de risco a fazer suas compras sem se expor, e tantas outras ações. Se você quer ajudar e não sabe como têm vários grupos que precisam de voluntários, rapidamente você conseguirá achar algo onde pode ser útil. E não vamos esquecer que em algum momento todas as áreas serão necessárias. Senão agora, depois da pandemia certamente. O melhor que podemos fazer sem dúvida é ficar em casa, não somente para não nos contaminarmos, mas também para não transmitirmos o vírus caso sejamos assintomáticos. Fiquem em casa!

A tecnologia hoje nos mostra um cenário muito diferente da época da gripe espanhola, temos acesso à informação em casa pela televisão e pelos celulares. Sabemos quase em tempo real a situação atual, mas também podemos nos estressar com excesso de informação. Então vamos usar os recursos de forma útil, e desconectar também é importante. Para que a saúde mental se mantenha bem.

Tecnologia e proteção temos, é só usar com responsabilidade.

 

Referências

ttps://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/coronavirus-resgata-recomendacoes-e-medidas-restritivas-da-epidemia-de-gripe-espanhola.html

Batista, F. Você conhece um ventilador pulmonar? Saiba o seu funcionamento e as principais falhas. https://blog.arkmeds.com/2018/02/23/saiba-o-funcionamento-e-as-principais-falhas-de-um-ventilador-pulmonar/ Acesso em 15 de abril de 2020

Button, V. L. S. N. Equipamentos médico hospitalares e gerenciamento da manutenção. Ministério da Saúde, Brasília, 2002.

https://www.myminifactory.com/object/3d-print-faceshield-hardware-pe-flat-protetor-facial-116206

https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/covid-19-orientacoes-sobre-o-uso-de-mascaras-de-protecao/

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/como-fazer-sua-mascara-de-protecao-em-casa.html

https://ciclovivo.com.br/covid19/aprenda-a-fazer-uma-mascara-caseira-segura/

https://www.folhadelondrina.com.br/tags/coronavirus

https://www.segurancadopaciente.com.br/protocolo-diretrizes/mascaras-n95-recomendacoes-para-uso-prolongado-e-reutilizacao/

https://jornal.usp.br/ciencias/camara-de-ozonio-criada-na-usp-descontamina-ate-mil-mascaras-em-duas-horas/

https://www.samel.com.br/wp-content/uploads/2020/04/samel-cabine-de-protecao-passo-a-passo.pdf

https://bncamazonas.com.br/municipios/samel-esclarece-capsula-vanessa/

https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/coronavirus?utm_source=adwords_msf&utm_medium=&utm_campaign=covid-19_comunicacao&utm_content=_epidemias_brasil_39923&gclid=CjwKCAjwhOD0BRAQEiwAK7JHmDjMZqxn3qUvtD2bbBXqkDJmv4THPTlI_xTQ-OY_DL04ST3ebcxB6RoCn8sQAvD_BwE

https://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/engenheiros-da-ufpr-criam-grupo-para-consertar-e-fazer-a-manutencao-em-respiradores-hospitalares/

 

 

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Brasil à Frente no Sequenciamento e Estudo do Coronavírus

A ciência brasileira é bastante respeitada no cenário mundial, em grande medida devido ao comprometimento e trabalho árduo dos nossos cientistas. Um exemplo inspirador foi o sequenciamento em somente 48 horas do coronavírus (SARS-CoV-2) do primeiro paciente registrado na América Latina, que foi contaminado na Itália. Como referência, outros países levam em média 15 dias para fazer o mesmo. Duas cientistas de destaque nesse projeto são a Dra Ester Sabino e a Dra Jaqueline de Jesus. Elas observaram que o vírus sequenciado no Brasil possui muitas semelhanças com o vírus sequenciado na Alemanha. Isso pode ser explicado a partir das pesquisas de cientistas italianos, que mostraram que o vírus chegou na Itália a partir da Alemanha.

Dra Ester Sabino (esquerda) e Dra Jaqueline de Jesus (direita). Crédito: USP Imagens e Currículo Lattes.

Mas o que é sequenciamento e o que podemos descobrir a partir dele? Todos os organismos, desde os vírus até os mamíferos têm material genético, ou genoma. O genoma é como um livro de receitas para a vida. Cada parágrafo desse livro contém uma instrução para o funcionamento celular. No caso do SARS-CoV-2, por exemplo, alguns capítulos (ou genes) são responsáveis pela produção da estrutura viral, outros pelos meios de infecção. Além de determinar as funções celulares, quando um vírus se reproduz, o genoma é passado adiante. Sequenciamento é a decodificação do genoma.

Isso tudo é feito a partir de uma pequena amostra de mucosa do paciente, do nariz ou boca. O genoma do vírus é extraído a partir da amostra por meio de técnicas de biologia molecular e enviado para um aparelho de sequenciamento. Essa tecnologia tem se desenvolvido enormemente nas últimas décadas. A técnica utilizada por Ester e Jaqueline, chamada MinION é portátil e barata, o que facilita o monitoramento de epidemias de diferentes organismos. É importante salientar que além da tecnologia avançada e relativamente barata, a experiência da equipe de pesquisa brasileira com estudos prévios de dengue e zika foram determinantes para o sucesso do sequenciamento do SARS-CoV-2. Isso mostra a importância do financiamento e apoio à pesquisa no nosso país.

Além das informações obtidas do aparelho de sequenciamento e do laboratório de biologia molecular, nós precisamos de técnicas de bioinformática e ciência da computação para compreender o significado do genoma. Com uma técnica de bioinformática denominada anotação, podemos descobrir onde estão os genes, e que funções eles têm. Também podemos comparar as sequências com outras cepas (variações) de coronavírus, e saber com quais delas o SARS-CoV-2 humano se assemelha. A partir dos genes, podemos também desenvolver tratamento e vacinas para a doença causada pelo vírus. Além dos estudos do genoma em si, os cientistas também aplicam simulações matemáticas para estudar como o vírus se propaga, e quais seriam as consequências de se aplicar diferentes políticas de quarentena para contenção do vírus. Essas simulações de propagação são muito bem explicadas nesse vídeo do canal 3Blue1Brown (que tem legendas em português disponíveis).

Sabemos sobre o genoma do SARS-CoV-2, a semelhança entre vírus de diferentes países e rotas de propagação. Mas de onde veio esse vírus originalmente, ele foi fabricado em laboratório? Um trabalho importantíssimo publicado na revista Nature Medicine estudou a origem do SARS-CoV-2 e mostrou que ele evoluiu em ambiente natural, e não surgiu em laboratório (ambiente artificial). A origem exata ainda é desconhecida, com duas hipóteses prováveis: evoluiu primeiro em humanos e foi passada a animais posteriormente, ou evoluiu primeiro em animais e foi passada a humanos posteriormente. Para obter esses conhecimentos, os autores deste trabalho compararam as cepas de coronavírus humana e de outros animais com uma técnica de bioinformática chamada alinhamento de sequências, na qual as sequências são agrupadas de acordo com similaridade (ilustrado na figura abaixo). O sequenciamento de mais amostras, tanto de animais quanto de humanos irá ajudar a descobrir a origem exata do vírus.

Genoma do coronavírus humano e comparações com sequências de outras espécies animais. Crédito: Andersen e colaboradores, revista Nature Medicine

É importante ressaltar que a comunidade científica e a indústria biomédica mundial estão trabalhando com afinco no desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2. Não existem medicamentos específicos contra SARS-CoV-2 no momento, e por isso medicamentos não tão eficazes estão sendo usados em casos mais graves. Apesar de todos os esforços, tais pesquisas são extremamente difíceis e delicadas, e não são imediatas. Cálculos atuais prevêem uma vacina para no mínimo o meio do ano de 2021. Para diminuir a taxa de contágio, governos e instituições do mundo inteiro estão aplicando políticas de quarentena. Atualmente, o distanciamento social é a principal medida de combate ao coronavírus.

Todos os estudos científicos do SARS-CoV-2 tem um valor imenso para os serviços de saúde e consequentemente para a população. Os cientistas estão nos apoiando diretamente nesse momento, assim como os profissionais da saúde. Mesmo se nós não somos da área de pesquisa ou saúde, podemos ajudar também no combate à pandemia ao praticar o distanciamento social o máximo possível, lavar as mãos com frequência e cuidar do nosso equilíbrio emocional e da nossa saúde física e mental.

Referências

[1] Primeiro Sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil (29.02.2020)

[2] Brasileiras que lideraram o time de sequenciamento do SARS-CoV-2 (01.03.2020)

[3] Origem do SARS-CoV-2 no mundo (17.03.2020)

[4] Desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2 (02.04.2020)

[5] Coronavírus: cancelaram as aulas! E agora? (16.03.2020)

[6] Simulação de propagação viral (18.03.2020)

[7] Simulando uma epidemia (com legendas em português, 27.03.2020)

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A moeda do momento: suas informações

O mundo gira pela roda do capitalismo, o consumo é a base da sociedade atual, ela que molda seu trabalho e até suas relações pessoais e é claro que as empresas sabem disso.

Já algum tempo as empresas utilizam dos seus desejos mais secretos para fazê-lo consumir mais. Antigamente você ia até uma loja e lá um funcionário lhe ajudaria a achar o que mais lhe agradasse, hoje o tempo que você passa vendo uma propaganda na internet, um like em um artista, uma pesquisa num buscador é muito mais do que o suficiente para traçar o seu perfil e enviar marketing personalizado para você. Por um lado pode até facilitar a sua vida quando necessário mas e quando isso extrapola a necessidade? Milhões de pessoas se endividam devido a um consumo exagerado e essas propagandas direcionadas tem colaborado fortemente para isso.

O Customer Relationship Management (CRM) é um termo em inglês que pode ser traduzido para a língua portuguesa como Gestão de Relacionamento com o Cliente. Foi criado para definir toda uma classe de sistemas de informações ou ferramentas que automatizam as funções de contato de empresas com os clientes.

Por um tempo essa relação entre os clientes e as empresas eram feitas de outras formas, muitas vezes também não muito honestas como em caso de compras de dados telefônicos e cpf ou a famosa abordagem aos aposentados pelas empresas de empréstimos. Agora a coleta de dados é automatizada e quem está disponibilizando as nossas informações somos nós mesmo.

As ferramentas que utilizam o CRM ajudam a montar campanhas específicas para certos públicos e manter um bom relacionamento com seus clientes armazenando e inter-relacionando de forma inteligente, informações sobre suas atividades e interações com a empresa.

Os dados são a nova força vital do capitalismo.O fluxo de dados agora contribui mais para o PIB mundial do que o fluxo de bens físicos.

Em outras palavras, há mais dinheiro na movimentação de informações entre fronteiras do que movendo soja e refrigeradores.

A circulação global de dados é realmente sobre a circulação global de capital. E tem enormes consequências para a organização global da riqueza e do trabalho.

Os fluxos de dados permitem que os empregadores em países com salários mais altos terceirizem mais tarefas para trabalhadores em países com baixos salários. Eles ajudam as empresas a coordenar cadeias de fornecimento complexas que empurram empregos de manufatura para os lugares com os custos de mão de obra mais baratos.

O quanto é irresponsável para o planeta esse consumo desenfreado com o modelo capitalista que virá a causar uma catástrofe ambiental em nome do lucro. Mas a coleta de dados não são apenas para o consumo, suas informações podem ser usadas para definir governos.

Recentemente o Facebook aceitou pagar multa de 500 mil libras pelo caso Cambridge Analytica, uma grande empresa de mineração de dados nas redes.

A empresa britânica Cambridge Analytica foi acusada de coletar e explorar sem consentimento os dados pessoais de milhões de usuários, que foram disponibilizados pelo Facebook, com uma finalidade política, sobretudo para fazer o Brexit ganhar no Reino Unido e Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2016.

O documentário “Privacidade Hackeada” mostra os bastidores desse escândalo. A empresa britânica utilizava dados pessoais de usuários do Facebook para traçar perfis da população americana e criar anúncios segmentados para grupos de indecisos. Essa prática teria exercido uma influência decisiva na corrida eleitoral do EUA, mas não somente lá.

Em Trindad e Tobago a estratégia foi outra, minimizar a atuação política dos jovens, em especial dos jovens caribenhos de forma que o partido de maioria afro-caribenha, Movimento Nacional do Povo (PNM), cedesse o lugar ao partido indiano UNC.

A campanha teve traços perversos, um slogan “Do So” (Não Vote) e impulsionou os jovens nas redes e nas ruas de maneira que parecia um movimento genuíno da juventude mas que foi justamente programado para tal.

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Pôster da campanha “Do so”, promovida pelo UNC. Foto: Kierron Yip Ngow/ Facebook

Vimos recentemente o grande efeito das fake news, divulgadas nas redes sociais, nas questões políticas no Brasil mostrando que também estamos suscetíveis a esse tipo de interferência cibernética. Tudo que compartilhamos e recebemos nas redes tem impactado cada vez mais em questões que extrapolam a internet, economia e governo. Não existe mais uma separação entre vida real e virtual, tudo está conectado.

Referências

1)Documentário “Privacidade Hackeada”, Karim Amer e Jehane Noujaim, 2019.

2)https://news.harvard.edu/gazette/story/2019/03/harvard-professor-says-surveillance-capitalism-is-undermining-democracy/

3)https://exame.abril.com.br/negocios/facebook-aceita-pagar-multa-de-500-mil-libras-por-caso-cambridge-analytica/

4)https://www.theguardian.com/technology/2018/jan/31/data-laws-corporate-america-capitalism

5)https://www.smartdatacollective.com/ways-big-data-changing-capitalism-centuries-come/

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Será que os apps de saúde chegaram pra revolucionar nossas vidas?

marathon-2346948_1920Créditos: Composita/Pixabay

Em 2015, uma pesquisa mostrou que mais da metade da população norte-americana que tem um smartphone tem pelo menos um app de saúde instalado no dispositivo. A maior parte desses apps se propõe a incentivar o usuário a praticar mais atividades físicas, ou a melhorar a dieta, ou também pra ajudar na auto-gestão de doenças crônicas como o diabetes ou a hipertensão arterial. Esse artigo de 2012, de uma pesquisa realizada também nos Estados Unidos, mostra que os apps têm potencial de melhorar a aderência ao tratamento dessas doenças, mas mostra também que ainda existem barreiras pro seu uso e ainda é difícil mostrar categoricamente se eles são eficazes ou não.

Pra tentar identificar essas barreiras e avaliar o potencial de mudança de comportamento dessas ferramentas, algumas pesquisas avaliaram a presença das chamadas Técnicas de Mudança de Comportamento (Behaviour Change Techniques, BCT, em inglês), que são as menores partes de uma intervenção em saúde com o objetivo de mudar ou adaptar comportamentos – como sessões de educação terapêutica, por exemplo. Uma taxonomia foi criada em 2013, no Reino Unido, pra propor uma estrutura com nomes e categorizar 93 dessas técnicas em 16 grupos. Exemplos: no primeiro grupo, chamado “Objetivos e planejamento” (Goals and planning, em inglês), tem técnicas como “Definição de objetivo” (Goal setting), “Resolução de problemas” (Problem solving), “Planejamento de ação” (Action planning), entre outras.

Em 2014, um estudo feito também nos Estados Unidos avaliou os apps de atividade física considerados como “TOP”, e os resultados mostraram que um total de apenas 26 BCTs estava presente na amostra de apps, e a mais comum era relacionada a prover instruções sobre como realizar determinados exercícios. Esse outro, da Nova Zelândia, avaliou apps de dieta e de atividade física, mostrando de maneira muito similar que poucas BCTs são implementadas. Esse estudo feito na França e publicado em 2019 mostrou que, em 46 apps de auto-gestão de doenças crônicas (doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, câncer e diabetes) disponíveis na Google Play store e selecionados a partir de 704 apps “TOP” na categoria “Medicina”, mais 5 apps encontrados em uma pesquisa na literatura científica disponível, apenas 20 BCTs foram utilizadas, no total. Pior ainda, numa avaliação de nível de compreensibilidade a média foi de 42% e mais da metade dos apps não tinha nenhuma sugestão de ação em relação a estados de saúde do usuário (indicar a necessidade de procurar serviços de urgência, por exemplo). As duas últimas análises foram feitas usando a Ferramenta de Avaliação de Material de Educação do Paciente para materiais audiovisuais (Patient Education Material Assessment Tool, PEMAT-A/V, em inglês) e os itens avaliados incluem legibilidade, uso de voz ativa, explicação de termos médicos usados, uso de gráficos e tabelas visualmente claros, presença de ações sugeridas ao usuário, etc. Tudo isso significa que não somente poucas técnicas comprovadamente eficazes são implementadas nesses apps, mas também que o conteúdo deles não é compreensível pra maior parte das pessoas.

Fica claro a partir do resultado desses estudos que o cenário é um pouco preocupante. A maior parte dos estudos é feito em países anglófonos e com apps em inglês, mas não há razões pra pensar que os apps em português sejam muito melhores. Os desenvolvedores precisam urgentemente usar teorias existentes e também se concentrar em melhorar a acessibilidade do conteúdo. Os profissionais de saúde também precisam ter cuidado ao indicar o uso de apps aos pacientes, e talvez o poder público precise se responsabilizar por avaliar periodicamente as ferramentas existentes… Um dado super alarmante que essa pesquisa mostra é que pouco mais de 3% dos apps que eles avaliaram, extraídos dos apps “TOP” na categoria “Medicina” na Google Play store, eram falsos testes de glicemia, de gravidez, de HIV e de pressão arterial. Que horror, não?!

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Carro elétrico – entre idas e vindas agora veio para ficar.

Quando falamos sobre carro elétrico logo pensamos em meio ambiente, sustentabilidade, emissão zero e preços altos. Hoje muitas pessoas engajadas na pegada ambiental já têm modificado muitas atitudes de consumo e comportamento, mas o carro elétrico sempre é uma dúvida, uma incógnita sobre a sua real contribuição para tudo isso.

Mas antes de qualquer coisa, parafraseando o querido professor Tibúrcio…

… SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!!!

Você sabia que o carro elétrico existe há muito tempo? Antes mesmo do carro à combustão interna, os que usamos atualmente, surgirem?

A primeira tentativa de um carro vem da época de Isaac Newton, mas foi efetivado mesmo em meados de 1770, o carro à vapor. Criado por Nicolas-Joseph Cugnot, inventor francês e sua carroça a vapor.

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Figura: Modelo de carro à vapor. Créditos: Boxonline

Agora imaginem o “conforto” de estar em um carro construído com uma caldeira que necessitava ser abastecida constantemente por lenha ou carvão, e ainda suportar a temperatura de vapor superaquecido da água, algo em torno de 200˚C. Dava para passear e fazer um churrasquinho ao mesmo tempo.

Dado a  inconveniência do calor notou-se que esse método não era o mais eficaz.

Então entre 1832 e 1839, aproveitando já a invenção do motor elétrico, o escocês Robert Anderson e o americano Thomas Davenport construíram as primeiras carroças com propulsão elétrica utilizando pilhas não recarregáveis. Esses equipamentos eram muito caros e tornaram-se objeto de desejo de alta classe da época. Assim devido ao grande sucesso eles começaram a ser construídos em maior escala, e em 1898 a Baker Motor Vehicle Company começou a produzir ao custo de 2 mil dólares, hoje o equivalente custaria 60 mil dólares, ou incríveis 200 mil reais.

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Figura: Baker Car – primeiro carro a ser produzido industrialmente. Créditos: Tricurioso

O primeiro carro também a chegar aos 100 km/h foi um carro elétrico, em 1899.

Então com toda essa tecnologia o que aconteceu para mudar toda história automobilística e hoje sermos tão dependentes do petróleo?

Ao mesmo tempo em que os elétricos estavam sendo desenvolvidos o casal alemão, Bertha e Karl, criavam o primeiro carro à combustão interna. No entanto foram muito desacreditados, pois os carros elétricos se mostravam mais seguros e a invenção deles, que usava um motor com explosões controladas parecia muito perigoso. Karl já não saía mais da cama, em uma depressão grave por conta da falta de sucesso. Mas Berta, a grande mulher da história do automobilismo, não conformada com a frustração do marido pegou seus dois filhos Richard (13 anos) e Eugen (15 anos), em 5 de agosto de 1888, e fez a primeira viagem longa da história, sem autorização do marido, o que para a época é um absurdo. A viagem durou 3 dias, e a própria Bertha resolveu os problemas que foram surgindo,como o entupimento do cano de combustível, e desgaste dos freios.

Isso chamou muito a atenção das pessoas. E ainda havia uma grande diferença de eficiência entre os dois tipos de carros. A autonomia do carro elétrico era de apenas 60 km, o que significava que ele teria que parar e demorar horas para voltar a funcionar, enquanto o carro à combustível líquido só necessitava de reabastecimento para funcionar imediatamente.

Alguns anos se passaram, e Bertha e Karl Benz ganharam essa briga. Logo em seguida Henry Ford surge e modifica toda a História.

Assim, o carro elétrico foi caindo no esquecimento, apesar de ser mais leve e mais silencioso que os à gasolina. E assim a indústria do petróleo veio para ficar, e arcamos com suas consequências ambientais até hoje.

O carro deu liberdade para sociedade, as pessoas foram cada vez mais longe, e as cidades foram crescendo e se desenvolvendo cada vez mais.

E os carros de combustão dominaram o mercado por mais de um século, até agora.

Mas algo mudou. A consequência do conforto do mundo moderno é grave, carros produzem gases, que em excesso, são extremamente nocivos ao meio ambiente e a nós mesmos. E a existência do carro à combustão vem sendo questionada ano a ano.

Não é de hoje que vários cientistas tentam encontrar formas alternativas de energia para os motores automotivos. Muitas invenções incríveis como o Diesel, que era para aproveitar óleo de cozinha, foram desvirtuadas para o uso novamente do petróleo. Seu inventor, Rudolf Diesel, quando estava indo apresentar a novidade nos EUA, fatalmente “caiu” do navio e morreu afogado. E assim outros inventores tiveram destinos semelhantes quando tentaram defender suas ideias, incluindo Nicola Tesla.Essas histórias podem ser vistas no documentário “Power- o poder por trás da energia” exibido pelo History Channel.

O domínio da indústria do petróleo perdurou muito, mas a necessidade de mudar de atitude surgiu nos últimos tempos de forma muito intensa. Pessoas muito ricas decidiram dar um basta e retomar antigos projetos sustentáveis. E assim os carros elétricos voltaram, e junto com eles as pesquisas para solucionar os mesmos problemas que assombraram no século XIX.

Autonomia. Baterias duráveis. Formas de abastecimento. O mundo, ainda, não está pronto. Mas muita coisa mudou.

No Brasil, João Gurgel, nosso engenheiro pioneiro que criou o carro 100% brasileiro, também criou uma alternativa elétrica. E assim surgiu o Gurgel Itaipu Elétrico, que tinha um motor de 11 cv, tinha autonomia de 127 km e chegava a 80 km/h, isso em 1974, em plena crise mundial do petróleo e surgimento do Proálcool.

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Figura: Gurgel Itaipu Elétrico 100% brasileiro. Créditos: Motorshow

No entanto um grande problema atormentou essa criação: ele precisava de tomadas especiais e levava de 6 a 8 horas para carregar suas baterias de chumbo-ácido. E isso foi um imenso inconveniente.

Em 1974, Erlon Musk, o grande milionário e visionário dono da Tesla, tinha somente 3 anos. E hoje ele modificou a história dos veículos elétricos.

Em 2018, após superar os problemas de abastecimento e autonomia, foram vendidos 1 milhão de Teslas em apenas 6 meses! No entanto o preço ainda é salgado para os bolsos brasileiro: um Model 3 custa em torno de 300 mil reais. E ainda temos pouco acesso a postos de abastecimento específico.

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Figura: Tesla Model 3 vendeu 1 milhão de unidades em 6 meses de 2018. Créditos: Olhardigital

Em uma tomada comum, de 220 V, ele ainda leva 8 horas para carregar. Mas há as opções Supercharger, da própria montadora, que leva em torno de 1 hora. Ou seja, ainda é um problema. Uma opção é instalar um ponto de carregamento em casa que custa em torno de 4 mil reais, mas ainda precisando de horas na tomada para carregar. Um ponto positivo é que você economizaria em torno de 3 mil reais em combustível por ano.

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Figura: Estação de abastecimento Supercharger Tesla. Créditos: Olhardigital

Outro inconveniente, a manutenção das baterias pode ser uma dor de cabeça. Baterias, também chamada de células combustíveis para os mais especialistas, podem variar de 10 mil reais em um Prius até 200 mil reais em um BMW, geralmente nos carros híbridos (que funcionam tanto à eletricidade quanto à combustão). Essas baterias duram aproximadamente 8 anos, dependendo da frequência de uso do veículo pode durar menos, já a de carros convencionais duram em torno de 3 anos e seu custo varia de 200 a 500 reais.

E afinal: como funciona o carro elétrico?

O motor que movimenta o eixo é o elétrico, utilizando a energia de um conjunto de baterias armazenadas através de carregamento por tomadas. O sistema é simples, necessita somente de um regulador de alta tensão e regulador de potência. É como um rádio a pilha gigante: a bateria alimenta o motor e necessita ser trocada (recarregada) de tempos em tempos.

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Figura: Estrutura de carro elétrico. Créditos: Pontoscardeais

Nessa imagem o painel de captação solar auxilia, mas não supre toda a necessidade do carro.

As maiores qualidades são que esses carros são silenciosos, tanto que algumas pessoas estranham bastante, e alguns esportivos têm geração de ruído para criar a sensação de “potência” de motor através do som. E são de emissão zero, não geram poluentes, pois não queimam combustíveis. No entanto há uma discussão sobre a emissão indireta, pois se a energia for gerada por energias limpas como hidrelétricas, solares ou eólicas, caracteriza-se que o carro realmente não gere resíduos. No entanto, se a eletricidade que o abastece for proveniente de Usinas Térmicas haverá emissão de gases poluente, e assim a função sustentável entra em questionamento.

O carro elétrico veio para ficar, e muitas montadoras agora estão assumindo seus projetos inovadores e lançando no mercado, mesmo que ainda com alto custo, seus veículos elétricos. A Noruega já anunciou que não permitirá mais a compra de carro à combustão e está mudando toda a sua malha energética para auxiliar no abastecimento. A Alemanha está incentivando suas montadoras e a Mercedez Benz e a VW só investirão em projetos de carros elétricos, assim como a Volvo e a Daimler.

Ainda há os carros híbridos, que funcionam à eletricidade e também à combustível, que prometem diminuir o tempo de recarga, mas ainda geram emissão. E deixaremos essa história para um outro post, dedicando atenção especial.

A tecnologia tem suas idas e vindas, graças às novas invenções que vão melhorando e solucionando os problemas que seriam impossíveis de serem resolvidos em outras épocas.  


Referências

https://boxonline.wordpress.com/2011/09/26/carro-movido-a-vapor/

https://www.tricurioso.com/2017/08/01/qual-foi-o-primeiro-carro-eletrico-do-mundo/

https://dana.com.br/canaldana/2019/01/10/veiculos-eletricos-uma-novidade-que-completou-190-anos/

http://www.in2013dollars.com/1900-dollars-in-2016?amount=1

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Benz

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/galeria/bertha-benz-primeira-viagem-automovel-historia-carro.phtml

https://motorshow.com.br/gurgel-itaipu-e-400-o-primeiro-carro-eletrico-produzido-em-serie-no-brasil/

https://olhardigital.com.br/carros-e-tecnologia/noticia/carro-mais-barato-da-tesla-model-3-pode-custar-mais-de-r-300-mil-no-brasil/77251

https://olhardigital.com.br/carros-e-tecnologia/noticia/carro-mais-barato-da-tesla-model-3-pode-custar-mais-de-r-300-mil-no-brasil/77251

https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2018/09/12/saiba-agora-quanto-custam-baterias-de-carros-eletricos-e-quem-recicla.htm

https://pontoscardeais.com/carro-eletrico-entenda-como-funciona/

https://www.noticiasautomotivas.com.br/mercedes-benz-confirma-o-fim-do-desenvolvimento-de-motor-a-combustao/

Power – o poder por trás da energia. History Channel. Documentário. 2014.

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Deepfakes e a onda de vídeos que mostram o que nunca aconteceu

Todos nós já recebemos pelo menos alguma notícia fake compartilhada em um grupo de família no Whatsapp ou encaminhada em alguma corrente de emails. Tecnologias como aplicativos de mensagem instantânea como o Whatsapp facilitaram a disseminação de notícias falsas e sem fundamento, sendo muitas vezes difícil rastrear suas origens. O mesmo acontece para vídeos, que podem ser alterados, tirados de contexto, manipulados e até fazerem uso de inteligência artificial para criar vídeos que parecem reais, conhecidos como deepfakes.

Circula pela internet um vídeo de um avião da Boeing que “decola a quase 90 graus”. Esse é um exemplo de uma sequência de vídeos e filmagens reais, feitas com as câmeras em certos ângulos que dão a impressão de que o avião está decolando na vertical, enquanto o ângulo não passa de aproximadamente 35 graus, de acordo com esse vídeo do canal do YouTube Aviões e Música: https://www.youtube.com/watch?v=vXj3TL3DzlU.

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Snapshot de vídeo da Presidente da câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, vítima de uma alteração de um vídeo. Fonte: New York Times

No mês passado, foi divulgado um vídeo da democrata Nancy Pelosi, atual presidente da câmara dos Estados Unidos, em que ela parece estar embriagada. Não é difícil de perceber que existe algo de errado com o vídeo, que foi simplesmente alterado para 75% da velocidade original, e que também teve uma alteração no som para soar mais parecido com a voz original. Uma breve análise do Washington Post está no vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=sDOo5nDJwgA

Com a divulgação deste vídeo, políticos de todo o mundo começaram a se preocupar com um tipo de falsificação de vídeo mais sofisticado, chamado de deepfake (combinação de deep, de deep learning, e fake, falso em inglês). Estes vídeos são gerados utilizando dois sistemas de inteligência artificial que competem um com o outro. Enquanto um cria vídeos falsos, o outro analisa o vídeo para decidir se ele é real ou não. Se o sistema decidir que o vídeo é falso, ele dá uma dica do que não fazer para o outro, que então gera uma melhoria no vídeo, e assim segue. Juntos, estes dois sistemas de inteligência artificial criam um sistema chamado de generative adversarial network (GAN). O primeiro passo para estabelecer um sistema GAN é identificar o resultado desejado e criar uma base de dados de treino para o sistema de inteligência que vai gerar o vídeo. Quando vídeos razoáveis começam a ser criados, o outro sistema começa a analisá-los. Enquanto um sistema fica melhor em gerar vídeos falsos, o outro fica melhor em analisá-los e identificar os sinais de que ele é falso. Um exemplo de uso de GAN é para criar imagens. O website This Person Does Not Exist (https://www.thispersondoesnotexist.com/) usa este sistema para criar fotos de pessoas utilizando outras imagens como treino para o algoritmo. Segue mais um exemplo de vídeo, em que deepfake é usado para fazer dois comediantes americanos parecerem o ex-presidente americano Barack Obama e o atual presidente Donald Trump:

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Vídeo alterado com a tecnologia deepfake. Assista em: https://www.youtube.com/watch?v=rvF5IA7HNKc

Com as eleições presidenciais americanas se aproximando (as próximas acontecem em Novembro de 2020), líderes mundiais estão preocupados com a possibilidade de surgirem vídeos falsos dos próximos candidatos criados pela oposição para prejudicar suas imagens. Pesquisadores da UC Berkeley e da University of Southern California nos Estados Unidos recentemente publicaram uma pesquisa em que eles desenvolveram um sistema de inteligência artificial para combater deepfakes (“Protecting World Leaders Against Deep Fakes”, Agarwal, Farid, Gu et al. 2019). Este sistema se baseia em linguagem corporal e pequenos movimentos e gestos individuais de cada pessoa para identificar vídeos falsos. Assim como a inteligência artificial do deepfake, ele utiliza vídeos reais para aprender os gestos típicos de cada pessoa e identificar quando um vídeo falso é criado. Durante testes, mais de 90% dos vídeos falsos foram identificados. Os próximos passos desta pesquisa envolverão outros aspectos dos vídeos, como as características individuais da voz de cada pessoa. No entanto, considerando a velocidade com que os sistemas de inteligência artificial do deepfake estão evoluindo, muito mais pesquisas na área são necessárias para que esta tecnologia não aumente ainda mais a quantidade de fake news espalhadas por aí.

Referência:

“Protecting World Leaders Against Deep Fakes”, Agarwal, Farid, Gu et al. 2019. Link.

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O que está por trás do Telegram?

O Telegram tem ganhado destaque nos últimos acontecimentos nacionais. Mas você conhece a tecnologia envolvida no aplicativo?

Desde a sua criação, em 2013, o Telegram usa de criptografia em suas mensagens, ou seja, transforma todas em um arquivo com códigos. Além disso, diferentemente do WhatsApp, as mensagens ficam salvas em nuvens, em servidores em vários pontos do mundo, assim é possível manter mais de um canal de conversa independente do aparelho celular, sendo este fator marcante para a popularização do aplicativo. Os aplicativos com sistemas de armazenamento em nuvem dialogam com a tendência de mobilidade, característica fundamental para o público jovem, conforme estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que ainda salienta que alguns escândalos sobre vazamentos de dados podem desestimular o uso da tecnologia.

A empresa garante sigilo absoluto dos dados e ainda convoca um desafio: 300 mil dólares para quem conseguir quebrar a barreira de segurança da empresa!  Seus dados estão realmente bem seguros, pois diferente do concorrente, o Telegram não possui inteligência artificial que lê suas conversas para oferecer serviços (sabe quando você conversa com um amigo sobre uma próxima viagem e quando entra no Facebook estão oferecendo um hotel naquela cidade?). O objetivo de seus fundadores foi construir cuidadosamente um aplicativo para descentralizar a comunicação digital, permitindo integrações com bots e compartilhamento de vídeos ou imagens de qualquer tamanho, aspecto que só é viável pelo uso da tecnologia em nuvem.

Há diferentes tipos de implementação de um serviço em nuvem: privada, pública, comunidade e compartilhada. No caso de aplicações como o Telegram, o serviço é privado, ou seja, a infraestrutura de nuvem é utilizada exclusivamente por uma organização, sendo esta nuvem local ou remota e administrada pela própria empresa ou por terceiros. Para garantir a segurança das informações armazenadas, ocorre o processo de criptografia. A criptografia é um meio assertivo de proteção de dados. As mensagens a serem criptografadas são transformadas por uma função parametrizada por uma chave (“string”) que pode ser modificada quando necessário. Em seguida, passa por um processo de criptografia, transformando-se em texto cifrado.

A distribuição dos servidores em nuvem ao redor do mundo possibilita as aplicações individuais de exercerem um controle local sobre os dados, ou seja, torna ainda mais confiável, pois garante multiplicidade e autonomia em suas partes, podendo armazenar os dados de maneira distribuída. A vulnerabilidade acontece nos aparelhos móveis em redes sem fio, a troca de mensagens é passível de captura por alguém não autorizado, já que as ondas de rádio circulam abertas pela atmosfera, podendo ser violadas e utilizadas. 

Para proteger seu aparelho móvel, as dicas são: coloque senhas mais complexas na tela de desbloqueio, instale apenas aplicativos confiáveis, não clique em links ou correntes enviadas por terceiro, evite o acesso de wi-fi pública e formate seu aparelho antes de vendê-lo ou doá-lo.

 

Referência

 Gerenciamento de Dados em Nuvens: Conceitos, Sistemas e Desafios.

Banco de Dados Móveis: uma análise de soluções propostas para gerenciamento de dados.

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