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Eu vou de Taxi… Aéreo (?!)

Nos últimos tempos ouvimos falar sobre carros autônomos com mais e mais frequência. Inclusive, temos uma publicação aqui no blog sobre eles. A principal proposta dos veículos autônomos é oferecer conforto e segurança aos passageiros, que podem aproveitar para trabalhar, descansar e relaxar enquanto atravessam cidades e seus engarrafamentos. Essa tecnologia, porém, não tem previsão de diminuir a quantidade de carros nas ruas ou o tempo de viagem. Para isso é necessário ir um passo além. E assim surgiram os “air taxis” (ou taxis aéreos), prometendo não só conforto para os passageiros, mas também a possibilidade de viajar maiores distâncias em um menor tempo.

O termo “taxi aéreo” já é utilizado há anos para descrever pequenas aeronaves que transportam poucos passageiros a destinos próximos (normalmente por valores altos, inacessíveis à maior parte da população). Neste texto vamos falar sobre os novos taxis aéreos, que são conceitos de aeronaves individuais, ou com capacidade para até cerca de 6 passageiros, e possam trafegar acima dos engarrafamentos das grandes cidades, mais ou menos como helicópteros. A proposta das empresas do ramo é simples: direto do seu celular você terá acesso a aplicativos como o do Uber, mas ao invés de solicitar um carro, você solicitará um taxi aéreo do ponto de partida mais próximo da sua localização. Estas empresas prometem preços acessíveis e comparáveis ao preço atual do Uber, e dizem que isto está bem próximo de ser realidade, com algumas planejando sistemas completamente operacionais até o ano de 2025 [1].

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Conceito de taxi aéreo apresentado pela empresa alemã Volocopter. Fonte

Alguns dos conceitos de aeronaves desenvolvidos recentemente até lembram helicópteros, mas a maioria parece mais com drones gigantes. O princípio de funcionamento destas aeronaves também se assemelha mais ao de drones, sendo quase ou totalmente elétrico. Também conhecidas como “eVTOL” (electric Vertical Take Off and Landing, decolagem e pouso vertical elétrico), estas aeronaves normalmente dependem de baterias para funcionar, e de tecnologias que viabilizem a decolagem e o pouso de maneira vertical, fazendo com que elas possam ser operadas de heliportos existentes ou de novos pontos a serem construídos, mas sem ocupar grandes áreas, não sendo necessários grandes investimentos em infraestrutura para futura operação. O plano atual da maioria destas empresas é começar com aeronaves com pilotos, mas para o futuro é previsto que elas sejam autônomas, não sendo necessário um piloto, e aumentando a capacidade de transporte em 1 pessoa.

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Taxi aéreo da empresa alemã Lilium durante o seu primeiro vôo. Assista ao vídeo aquiFonte

Assim como em veículos elétricos, um dos grandes desafios no desenvolvimento desta tecnologia é a capacidade das baterias que existem atualmente, que limitam bastante a distância que estas aeronaves podem percorrer com uma carga. Alguns dos conceitos que já foram desenvolvidos até o momento possuem autonomia de apenas cerca de 80 km [2], enquantos outros já prometem serem capazes de percorrer até 300 km por carga [1]. Cientistas da NASA recentemente realizaram um estudo comparando diversos conceitos de aeronaves para taxi aéreo, chegando a 3 conceitos iniciais: um de uso individual com propulsão elétrica, um para 6 passageiros com propulsão híbrida, e um para até 30 passageiros com propulsão turbo-elétrica. [3]

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Conceito de área de decolagem e pouso feito pela empresa alemã Lilium. Fonte

 

Apesar da maioria das empresas desenvolvendo estas tecnologias atualmente ter surgido nos últimos 5 anos, é bem possível que esse já seja um meio de transporte disponível nos próximos 5 a 10 anos. Entre as vantagens de utilizar este meio de transporte, além da facilidade e agilidade em viagens de curtas distâncias, existe a possibilidade de diminuir engarrafamentos em grandes cidades, e diminuir a emissão de gases poluentes, já que estes funcionam com energia elétrica. Você gostaria de poder se transportar em um taxi aéreo desses? Conte pra gente nos comentários!

Referências

[1] https://lilium.com/mission/

[2] https://www.dezeen.com/2018/02/02/airbus-self-piloted-vahana-air-taxi-takes-completes-first-test-flight/

[3] Johnson W, Silva C, Solis E, “Concept Vehicles for VTOL Air Taxi Operations,” presented at the AHS Technical Conference on Aeromechanics Design for Transformative Vertical Flight, San Francisco, CA, January 16-19, 2018. Disponível em: https://rotorcraft.arc.nasa.gov/Publications/files/Johnson_2018_TechMx.pdf

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Pílulas do festival Mulheres do Mundo: feminismo e ciência na veia

Por Renata Fontanetto e Rebeca Bayeh

Durante os dias 16 a 18 de novembro, a praça Mauá foi sacudida pelo festival Mulheres do Mundo (WoW, na sigla em inglês). Nós duas, Renata e Rebeca, fomos selecionadas pelo British Council (BC) para participar do início do programa Mulheres na Ciência e integrar o treinamento em divulgação científica oferecido pelo BC. Foram dois dias intensos de aprendizados e troca de vivências. Depois, tivemos que cobrir o WoW nos três dias de festival. Separamos pequenos momentos que observamos para compartilhar no Cientistas Feministas. Vem junto!

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Cientistas Feministas marcando presença no WoW: na foto, Rebeca Bayeh, Renata Fontanetto, Meghie Rodrigues e Josephine Rua com participantes da sessão “Converse com uma cientista”. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

O protagonismo é das mulheres, a luta é da sociedade como um todo

“Aprendi a ser feminista sem ser feminista”. A frase foi de Avanildo Silva, agrônomo e gestor de projetos da ActionAid, na roda de conversa “A conversa aqui é eles com elas pela igualdade de gênero”. Segundo Silva, os homens deveriam conhecer os princípios, filosofia, métodos e abordagens do dia a dia do feminismo, mas sem roubar o protagonismo e a luta, que sempre será das mulheres. Reconhecendo que as mulheres estão em condição de desigualdade, os homens poderiam ser empáticos à causa e lutar por um mundo mais justo e igualitário impedindo, por exemplo, aquele “brother” machista (racista, homofóbico…) de reproduzir piadas e comportamentos que constrangem individualidades e coletividades. Não vamos conseguir sozinhas porque não vamos e não queremos lutar sem nossos pais, filhos, amigos, familiares e amores. Se for preciso, seguiremos sozinhas. Mas queremos os homens ao nosso lado também! A sociedade como um todo precisa estar engajada.

Um mundo sem “mordidinhas de mosquito”

A física Márcia Barbosa, em fala na discussão “Mulheres na ciência e a potência do trabalho realizado em rede”, disse que as frases que as mulheres ouvem todos os dias, que muitas pessoas na sociedade veem como inofensivas (“mordidinhas de mosquito”, em suas palavras), machucam, expõem, constrangem, isolam e podem causar adoecimento. São frases inoportunas que falam sobre a inteligência de uma mulher, o “absurdo” de ser mãe e querer seguir carreira científica, estereótipos femininos e toda sorte de barbaridades que podem calar uma mulher e prejudicar seu desempenho acadêmico. Para impedir que essas mordidas continuem a nos machucar, é preciso que as universidades e instituições estimulem alunas e docentes a denunciar, criando um ambiente acolhedor e seguro.

Tesoura de repicar

Márcia Barbosa também compara os recortes opressivos às tesouras de repicar, explicando que mulheres são sempre sub-representadas nas ciências, mas que conforme analisamos recortes mais profundos como raça, maternidade e região, as proporções de mulheres que pertencem a minorias são ainda menores.  “O problema é geral, mas é agravado pelas circunstâncias e pelo grupo social do qual você faz parte”, concorda Josephine Rua, também física, que participou da sessão de tutoria “Converse com uma Cientista”, do WoW. Josephine conta sobre um workshop do qual participou no International Center of Theoretical Physics, que reuniu mulheres físicas do mundo todo. “Você vê as diferenças dos típicos casos latino-americanos, os típicos casos africanos, os típicos casos de países africanos que são muçulmanos”, adicionando que alguns passaportes sequer dão acesso a países na Europa e aos EUA, onde a maioria dos congressos científicos acontece.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

As mulheres na divulgação científica precisam se unir!

A jornalista Flávia Oliveira, na mesa “As mulheres precisam conquistar o campo da comunicação”, levantou reflexões sobre a presença feminina no jornalismo e, por tabela, refletimos sobre a presença da mulher na divulgação científica. Entendemos a divulgação científica (DC) como uma área que dialoga fortemente com a comunicação, sendo o jornalismo científico uma das áreas que a integram. Segundo levantamento sobre o perfil do jornalista brasileiro (2012), da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 64% dos profissionais atuantes no país são mulheres, mas os homens continuam sendo maioria nos cargos de chefia. Se mergulharmos num recorte racial, a realidade é ainda mais grave. “Aqui na sala vocês estão vendo 100% das colunistas negras do jornal O Globo”, disse Oliveira, referindo-se a ela e Ana Paula Lisboa, outra palestrante da sessão. A divulgação científica ainda precisa de dados mais sólidos que explorem a questão da presença feminina no campo, mas durante o festival pudemos perceber que isso também precisa ser discutido pela área. Um exemplo que defende o nosso ponto de vista é a presença de mulheres em canais do ScienceVlogs Brasil: ao todo, há 39 canais, sendo que apenas três são de mulheres. Mulheres da divulgação científica, UNI-VOS!

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Na sessão “Converse com uma cientista’, o público podia escolher sua cientista e tirar dúvidas durante 15 minutos. (Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Representatividade importa

“Se você não pode ver, não pode ser”, repetiu a física e jornalista britânica Sue Nelson ao longo do Festival, no qual participou falando sobre mulheres nas ciências espaciais. Sue, que trabalhou como correspondente da BBC e hoje trabalha na Agência Espacial Europeia produzindo vídeos de divulgação científica, conta que havia apenas três mulheres em sua turma e que todas ouviram ao longo da vida comentários como “você não deveria estar fazendo física”. Ela acrescenta que aprendeu a ignorar comentários misóginos ao longo de sua carreira e a focar em suas ambições profissionais. Ela é entusiasta da ficção científica porque acredita que mulheres podem se inspirar em personagens cientistas. “Se você vê uma mulher fazendo o trabalho, você pensa ‘eu também posso fazer isso’”. E também observa que fora da ficção há cada vez mais representantes femininas na ciência para que as meninas se inspirem. “Felizmente hoje há muito mais mulheres que têm modelos femininos na ciência, porque há mais mulheres fazendo comunicação científica, mais mulheres nas ciências e organizações como Go Science Girl”.

Quem deseja estudar fora precisa se unir e resistir

Na mesa “Sem fronteiras: mulheres que se aventuram a pesquisar fora do Brasil”, pesquisadoras de diferentes áreas compartilharam as experiências que tiveram em temporadas de estudo fora do país. Viver longe da família, estudar um idioma novo e conhecer costumes de uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que se escreve dissertação ou tese, pode ser um desafio e tanto. Separamos três conselhos que ouvimos por lá. Para a psicóloga Enoe Isabela de Moraes, que estudou na Inglaterra e é colaboradora no Núcleo de Estudos Afrodescendentes e Indígenas da Universidade Federal de Goiás, é fundamental conhecer os próprios limites para saber o que você está disposto a fazer, bem como entrar em contato com histórias de outras pessoas para observar o que elas passaram e como enfrentaram questões diversas em outro país. A professora de biologia e pesquisadora paraibana Ana Cláudia Gonçalves conta que sentiu a Síndrome do Impostor em todas as suas vivências enquanto fez intercâmbio na Austrália e mestrado no Reino Unido. “Procurem por redes de apoio dentro da universidade para que vocês se fortaleçam”, sugeriu. A física mineira Zélia Ludwig, que passou por temporadas na Alemanha e Estados Unidos, defendeu que é preciso divulgar para outras mulheres a própria experiência. “Quando um já foi e conta para o outro, este outro já vai muito mais destemido. É uma forma de incentivar outras mulheres”.

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(Museu do Amanhã Fotos: AMaréVê / Suzane Santos / Divulgação Festival Mulheres do Mundo)

Estratégias de luta

É unanimidade que mulheres cientistas lidam com problemas que seus pares homens não enfrentam. Mas as perspectivas sobre causas, consequências e estratégias – legítimas em suas respectivas realidades – são diversas. Sue Nelson advoga pelo foco: “Na vida sempre haverá pessoas dizendo que você não deveria estar lá, que você não deveria estar fazendo o que faz, que aquilo não é para você. Você tem que se acostumar com isso, ignorá-los e fazer o que você quer fazer”. Timandra Harkness, escritora, comediante e jornalista científica britânica, conta que já usou o fato de entrevistados subestimarem seu conhecimento científico a seu favor. “Como jornalista, é muito útil que não esperem que você saiba algo, porque isso significa que você pode perguntar ‘o que é um gene?’[…] meu trabalho é conseguir respostas, a audiência quer respostas […]. Você também pode começar com questões pequenas e básicas e então os pegar de surpresa. Eles não estão esperando isso”, compartilha Timandra com humor. Duília de Mello, astrofísica brasileira que também participou do WoW, propõe uma estratégia diante da situação política: “seja uma pessoa positiva em um ambiente negativo […] encontre sua felicidade, porque isso pode mudar a realidade a sua volta”. Duília propõe que se realizar um sonho não é possível agora, o caminho da adaptação e resiliência podem possibilitar sua realização futura ou sua transformação em algo novo. A química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, vencedora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais, é uma das mulheres cientistas que conta ter passado por isso, ao narrar sua transição entre sonhar pesquisar nos EUA, mas se ver forçada a voltar para o Brasil e lecionar em uma escola técnica. Ao contar sobre sua trajetória, destaca alguns conselhos-chave. “Você não pode ter vergonha de pedir quando você precisa”, aconselha. Joana advoga pela persistência e compartilha que o preconceito que sofreu serviu como combustível para suas conquistas. “O preconceito pode ser utilizado como ferramenta para formação de cérebros pensantes”.

 

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O papel das mulheres que rompem o teto de vidro na manutenção deste fenômeno

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Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/colorido-pir%C3%A2mide-3d-2253141/

O teto de vidro é um fenômeno bastante conhecido nos meios feministas e denota a dificuldade das mulheres em ascender nas áreas consideradas de maior prestígio em seus campos profissionais. Nesse contexto, muitas pesquisas têm demonstrado o fenômeno ao evidenciar a porcentagem de mulheres e homens em posições “subordinadas”, “juniores” e “sêniores”. Os resultados têm mostrado que quanto mais alta determinada posição, menor a chance de uma mulher atingi-la. Isso acontece, inclusive, nos campos em que as mulheres são maioria, como, por exemplo, a psicologia. Nessas áreas, os cargos de maior prestígio (por exemplo, pesquisadores da área experimental) são dominados por homens.

Apesar da imensa dificuldade, algumas mulheres conseguem romper o teto de vidro. ‘Isso é ótimo’, você deve estar pensando. Outra ideia que pode estar passando por sua cabeça é: ‘Essas mulheres podem auxiliar outras a ascenderem, pois suas posições de prestígio possibilitam que elas lutem pela implementação de ações afirmativas que beneficiem outras mulheres no início de carreira’. Seria maravilhoso se isso acontecesse, não? Mas não é bem isso que tem ocorrido.

Queen Bee, ou Abelha Rainha, é o nome dado à “tendência de algumas mulheres, que investiram no sucesso de suas carreiras, de serem mais críticas com relação às suas colegas mulheres em posições inferiores e menos inclinadas a defender medidas que apoiem as mulheres como um grupo” (tradução minha)[1]. Três características estão presentes nessas mulheres em posições de chefia: um distanciamento das mulheres em posições “juniores”, a assimilação a um grupo de maior status, que ocorre, por exemplo, quando as abelhas rainhas se classificam com traços considerados mais masculinos, e a legitimação do status quo, por exemplo, ao rechaçar políticas direcionadas a desigualdade de gênero.

Com o objetivo de entender porque as mulheres, especialmente as que estão em uma posição de prestígio, não estão inclinadas a apoiar cotas para mulheres, Klea Faniko e colaboradores fizeram dois estudos correlacionais, publicados em 2017 no Personality and Social Psychology Bulletin.

No estudo, 1.222 mulheres da Suíça responderam a um questionário. Oitenta e sete trabalhavam em posições de prestígio (cargos de gestão) e 135 em posições consideradas subordinadas. trabalhavam, em média, há mais de 15 anos em seus campos de atuação. O questionário avaliava os seguintes itens: sacrifícios pessoais para alcançar sucesso profissional; percepção do comprometimento com a carreira (seu próprio e de mulheres em posição acima ou abaixo delas); autodescrição, em termos de traços considerados masculinos e femininos; e percepções acerca do outro grupo de mulheres.

Além disso, no final do questionário, havia um pequeno texto dizendo que várias organizações tendem a adotar ações afirmativas para aumentar a representação de mulheres em posições de gerenciamento no país. Esse texto era seguido pela proposição de uma política que beneficiava: 1) mulheres sêniores, 2) mulheres juniores, ou a própria respondente. Assim, era possível descobrir se haveria diferença no apoio, dependendo do “alvo”.

Os resultados mostraram que as mulheres em posições de gerência relataram ter feito mais sacrifícios pelas suas carreiras do que suas colegas em posições consideradas subordinadas. Essas mulheres também afirmaram ter um maior comprometimento com suas carreiras do que suas colegas em posições inferiores e se descreveram como mais masculinas que suas pares de posições subordinadas. Além disso, as mulheres em posições de destaque foram menos favoráveis às cotas direcionadas às mulheres juniores do que às mulheres no mesmo nível que elas.

O distanciamento das mulheres em posições mais altas foi calculado a partir da diferença entre a percepção do comprometimento de suas carreiras e traços de masculinidade auto atribuídos com a percepção do comprometimento e grau de masculinidade de suas colegas em posições inferiores. Os resultados mostraram que a relação entre a posição hierárquica e o distanciamento do outro grupo foi mediado pelos sacrifícios relatados, ou seja, as abelhas rainhas que relatavam terem feito mais sacrifícios também foram o grupo que obteve o maior índice de distanciamento.

Uma vez que as mulheres em posições superiores mostraram apoio às cotas para suas pares de mesmo nível hierárquico, apoiando em menor grau as cotas direcionadas às mulheres em posições inferiores, o estudo de Faniko e colaboradores aponta que o fenômeno da Abelha Rainha não é guiado por um senso de competitividade com outras mulheres. Isso só seria possível se elas se mostrassem contra cotas para suas pares de mesmo nível, mas isso não aconteceu. Assim, foram suas percepções de sacrifício feitos, junto com o distanciamento das mulheres em posições inferiores que fez com que as mulheres em posições de prestígio se considerassem diferentes das mulheres em posições juniores. O problema é que isso acaba, em última instância, reforçando o teto de vidro já existente.

Uma limitação do Estudo 1 foi o fato de que o distanciamento só foi avaliado em relação às mulheres em posições inferiores e não em relação às pares de mesmo nível hierárquico. Já o Estudo 2 foi feito com uma amostra de 156 mulheres da Albânia e os resultados foram replicados. Ou seja, ao que tudo indica, a percepção de que mulheres em níveis inferiores se sacrificam menos do que as mulheres em posições de alto prestígio leva as segundas a serem menos favoráveis à adoção de cotas para mulheres em posições subordinadas.

Como mudar isso?

O artigo de Faniko e colaboradores argumenta que as intervenções que busquem remediar esse efeito devem se pautar em medidas que diminuam o distanciamento entre as mulheres em posições superiores e inferiores. Isso poderia ser alcançando mostrando às mulheres de nível hierárquico superior que as mulheres de nível hierárquico inferior se sacrificam como elas, tendo o mesmo comprometimento em suas carreiras.

Quer saber mais?

Faniko, K., Ellemers, N., Derks, B., & Lorenzi-Cioldi, F. (2017). Nothing changes, really: Why women who break through the glass ceiling end up reinforcing it. Personality and Social Psychology Bulletin, 43(5), 638-651. doi: 10.1177/0146167217695551

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5414903/

[1] Faniko, Ellemers, Derks, & Lorenzi-Cioldi (2017).

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Corpo feminino, primeiro território violado: estupro como ferramenta de tortura e genocídio

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Imagem da Internet

Começo este texto trazendo fragmentos do artigo da Veronique Nahoum-Grappe (2011), intitulado Estupros: uma arma de guerra, “os estupros sistemáticos em tempos de guerra visam destruir até populações martirizadas. É no ventre das mulheres que se encarna a loucura genocida dos homens. Violências extremas, gestações não desejadas, transmissões do HIV.” E ela cita exemplos da ex-Iugoslávia e de Ruanda, eu cito o estupro das mulheres negras no Brasil como ferramenta do genocídio da população negra.

O intelectual negro Abdias do Nascimento nos explica sobre isso em seu livro “O Genocídio do Negro Brasileiro” (que teve sua primeira edição lançada em 1977 e com nova edição em 2017), e em um dos capítulos ele vai tratar sobre estratégias de branqueamento da população brasileira. Segundo ele, o processo de miscigenação, fundamentado na exploração sexual da mulher negra, foi erguido como um fenômeno de puro e simples genocídio. O problema seria resolvido pela eliminação da população afrodescendente. Com o crescimento da população mulata, a raça negra iria desaparecendo sob a coação do progressivo clareamento da população do país.

A programação deliberada dos estupros, chamados de “estupros sistemáticos” define seu sentido genocida, ao considerar que tocar o gene no lugar em que esse se reproduz, no ventre das mulheres, permite eliminar, na imaginação, toda a comunidade inimiga ou não desejada em sua essência coletiva (Veronique, 2011).

Com isso, o texto tem como proposito dialogar com a ideia do corpo feminino como primeiro território violado em zonas de guerra, conflitos e operação militar. As estruturas de opressão, no qual atravessam, o racismo, sexismo e o patriarcalismo, identificam os corpos das mulheres territórios repletos de identidades, com marcas de uma população, um povo ou uma etnia/raça. Neste sentido, os estupros realizados têm como princípio a violação do corpo da mulher e a negação da vida, estendida à comunidade, o corpo não está só, ele carrega histórias.

Ao pensar no corpo como território, resgato um texto da feminista Silvia Camurça e nele ela diz “a ideia de ‘nosso corpo, nosso território’, propomos tomar o corpo como território onde nossa vida habita, algo inseparável da própria vida que se realiza através e pelo corpo, nossa base material de existência humana: meu corpo sou eu”. Com isso essa insígnia “nosso corpo, nosso território” mantém o centro da demanda e da denúncia colocada em público nos anos 1970 (‘nosso corpo nos pertence’) e vincula à luta contra a expropriação de outros territórios, lugares de existência coletiva, luta travada por mulheres e homens, quilombolas e de populações tradicionais do Brasil e de outros países da América Latina (Nosso corpo, nosso primeiro território!).

Afunilando o diálogo, trago alguns exemplos recentes, o caso amplamente divulgado, das meninas e mulheres da Nigéria que foram sequestradas e estupradas pelo grupo extremista Boko Haram, segundo o relatório das (Nações Unidas) ONU, o grupo utiliza da violência sexual como tática de guerra, além de levar as mulheres e meninas para o casamento forçado e escravidão sexual, segundo estimativa da ONU são cerca de 7.000 envolvidas neste ambiente de violência (Estado Islâmico e Boko Haram usam estupro como tática de guerra, diz ONU).

No México, mulheres foram estupradas por policiais, durante uma operação policial que reprimiu duramente uma manifestação em San Salvador Atenco, no Estado do México, no centro do país em 2006. O país foi acusado de tortura sexual na Corte Interamericana de Direitos Humanos, este caso foi relatado recentemente pela BBC News (‘Fui estuprada por vários policiais’: as mulheres que acusam o México de tortura sexual).

A Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro recebeu relatos, agora em 2018,  de uma série de violações praticadas por militares desde o início da intervenção federal na segurança pública do Estado e que meninas estão sendo estupradas por policiais durante a intervenção, além disso, as meninas também sofrem abuso sexual durante a abordagem da polícia ao serem revistadas por Policiais Militares homens, o que contraria a lei — o artigo 249 do Código de Processo Penal afirma que a busca em mulher será feita por outra mulher, se não importar retardamento ou prejuízo da diligência (Policiais estupraram meninas durante intervenção no Rio, aponta relatório da Defensoria Pública).

Para Veronique (2011) o estupro é, por excelência, o crime de profanação contra o corpo feminino e, por meio dele, contra toda a promessa de vida do conjunto da comunidade. Neste sentido, a feminista negra Kimberlé Crenshaw critica a ausência do olhar pela ótica da discriminação interseccional sofrida pelas mulheres vítimas dos estupros “sistemáticos” em Ruanda e na Bósnia, em seu artigo “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero” (2002) ela evidencia que a denúncia e a indignação dos estupros “sistemáticos” se apresentam relacionadas a discriminação racial, pois foi considerado que a motivação da violência sexual ocorreu por questões étnicas. É evidente que são as mulheres as mais atingidas, pois elas são percebidas como representantes da honra simbólica da cultura e como guardiãs genéticas da comunidade. Se por um lado, o ataque à comunidade tenha sido execrado como genocídio étnico, por outro, essa indignação não sinalizou preocupações com suas vítimas diretas, que sofreram discriminação e violência de gênero, as mulheres.

É preciso ampliar a lente a partir do olhar interseccional da discriminação, pois o estupro é uma ferramenta multifuncional da opressão, que funciona como mecanismo de tortura ficando à disposição da misoginia e do patriarcado e como arma de guerra serve de meios para a realização do genocídio e a eliminação dos indesejáveis, a interações destas opressões (racismo e sexismo) atingem os corpos das mulheres negras, indígenas e de outros grupos marginalizados de forma redobrada.

Outros casos:

Grécia: ocorre um estupro por semana no campo de refugiados em Moria, segundo ONG

Unicef: 75% das crianças refugiadas sofrem espancamento e estupro na Líbia

Referencias:

Veronique Nahoum-Grappe. Estupro: uma arma de guerra. Org: Sandrine Treiner, Christine Ockrent, Nicia Adan Bonatti. Editora: Bertrand Brasil, 2011

Abdias Nascimento. O Genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. Perspectiva: São Paulo, 2017

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Qual a importância do Ministério do Trabalho?

Em tempos de defesa das instituições o Ministério do Trabalho e Emprego vem tendo sua importância questionada. O MTE, criado para mediar as relações de empregado e empregador, tem sido responsabilizado por parte da população por burocratizar e  enrijecer as leis trabalhistas. Porém, em uma país de diversas nuances sociais, é importante ressaltar que a lei deve atender desde o seringueiro da região amazônica ao profissional pejotizado da startup paulistana. A condução destas discussões de modernização dos ambientes de trabalho e, consequentemente suas leis, deve ser feita por órgãos especializados sobre o assunto.
Dentre estas entidades do Ministério do Trabalho, há a FUNDACENTRO, Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, criada oficialmente em 1966. A fundação tem como objetivo a realização de estudos e pesquisas referentes aos problemas de segurança, higiene, meio ambiente e medicina do trabalho, atuando basicamente em três frentes:
Desenvolvimento de pesquisas relacionados à saúde e segurança do trabalhador;
Difusão do conhecimento através de cursos de pós graduação, congressos e seminários. Além de produção de material didático, publicações periódicas científicas e informativas;
Prestação de serviço à comunidade.
A importância da atuação da FUNDACENTRO fica evidente  dada a posição do Brasil no ranking de acidentes de trabalho, perdendo apenas para China, Índia e Indonésia. A partir da década de 70, após o início das atividades da Fundação, a taxa de acidentes de trabalho vem reduzindo, conforme gráfico abaixo. Porém, podemos observar, aumento na letalidade dos acidentes, o que pode ser um indicativo de sub notificação dos acidentes de trabalho.
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As pesquisas da FUNDACENTRO são as diretrizes para determinação, por exemplo, dos limites de tolerância de insalubridade, presentes na Norma Regulamentadora – 15, além das Normas de Higiene Ocupacional e Recomendações Técnicas de Procedimentos, e estão em acervo público para consulta da população. A NR-15 não citava em seus agentes químicos os quimioterápicos antineoplásicos, um medicamento oncológico. Então, em Comissão Tripartite Paritária Permanentes, na qual estão presentes representantes das empresas, trabalhadores e governo, o Conselho Federal de Farmácia apresentou a necessidade de incluir a manipulação do medicamento na Norma e determinar os riscos à exposição do agente.
Neste caso, a FUNDACENTRO emitiu o parecer, declarando que a NR-15 já contempla os agentes cancerígenos, como comprovadamente as substâncias quimioterápicas antineoplásicas são, mas não há a necessidade de diferenciá-las dentro da norma e que não há justificativa de um trabalhador exposto ao agente não receber a insalubridade de grau máximo. (Consulte o Parecer Técnico aqui).
Frente ao desenvolvimento de pesquisas e conhecimento sobre segurança e saúde do trabalhador e aos elevados índices de acidente de trabalho que ainda ocorre no país, é negligência tratar o Ministério do Trabalho como um assunto inserido nas demais pastas de governo. Não podemos perder o ritmo da modernização das relações de trabalho, isto inclui trazer para o presente os trabalhadores dependentes de uma fiscalização séria e constante nas periferias do país, o que pode ser gravemente afetado. Não pode existir tecnologia em um futuro próximo sem produção e acesso ao conhecimento e pesquisa.

Conheça as demais publicações no acervo digital da FUNDACENTRO

Acidentes do trabalho no Brasil entre 1994 e 2004: uma revisão.

 

Mais sobre o debate do impacto de um possível fim do Ministério do Trabalho: https://www.huffpostbrasil.com/2018/11/08/fim-do-ministerio-do-trabalho-o-que-pode-mudar-para-o-trabalhador_a_23583997/

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Imunoterapia contra o câncer: O tratamento que vem de dentro

Todos acompanham ou já acompanharam o caso de alguém que foi diagnosticado com câncer. Infelizmente, muitos ainda acompanharão, mas, para os casos futuros, novas abordagens terapêuticas surgem como esperança.

A exemplo dos cientistas que ganharam o Prêmio Nobel de Medicina em 2018, pesquisadores têm procurado a cura que vem de dentro. Não, não é nada místico, é ciência mesmo!

Alguma vez você já se perguntou por que o corpo não consegue combater as células cancerosa? Comecemos do início. O sistema responsável pela defesa do nosso organismo, seja contra câncer, infecções ou até mesmo traumas físicos, é o sistema imune. Vários tipos de células compõem esse sistema e a maior parte delas pode ser visualizada no sangue. Quando fazemos hemogramas completos elas aparecem como série branca, ou leucograma. O mais interessante do sistema imune é o autocontrole, ou check point, que regula o quanto este sistema vai se ativar diante de uma ameaça ao organismo. Imagine que as células do sistema imune são armadas com bombinhas e granadas. Dependendo da ameaça ao organismo, a célula lança a bombinha ou a granada. O check point serve para as células não lançarem só granadas quando poderiam resolver o problema com as bombinhas.

O autocontrole são moléculas que estão na superfície dos linfócitos T (células que “lançam as bombas”) e recebem o sinal de moléculas presentes na superfície de outras células, que avisam ao linfócito que está acontecendo um (células apresentadoras de antígeno, ou APC*). Na figura abaixo, dois tipos de check points são mostrados em amarelo: o CTLA-4 e o PD-1. As moléculas em azul representam as que estimulam a ativação do linfócito, mas tem seu efeito inibido, pois as moléculas de autocontrole também estão ligadas. Assim, a ativação do linfócito não é suficiente para matar as célula cancerosa.

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Os quadros acima mostram as moléculas CTLA-4 e PD-1 em amarelo se ligando a outras moléculas e, assim, controlando a ativação do sistema imune e impedindo a morte das células cancerosas. APC do inglês – antigen presenting cells. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018)

Baseados nesse sistema, os pesquisadores James Allison da Universidade do Texas, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kioto, tiveram uma ideia: e se fosse possível desligar o autocontrole durante o câncer e permitir que o sistema imune ativasse a “granada”? Baseados nessa premissa, eles começaram os estudos do que chamaram de imunoterapia e verificaram que pessoas com câncer tratadas com anticorpos que bloqueiam o autocontrole conseguiam controlar a doença e, em muitos casos, alcançavam a cura. A imunoterapia já foi eficaz em tratar câncer de pulmão, renal, linfoma e melanoma. Apesar de bastante promissor, como todo tratamento, os autores também observaram efeitos adversos relacionados a super ativação do sistema imune, como reações autoimunes, por exemplo.

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A figura mostra que o tratamento com anticorpos (representado pelos Y verde) inibem a ligação das moléculas de autocontrole, e, assim, as moléculas representadas em azul podem atuar livremente fazendo com que as células do sistema imune possam atacar as células cancerígenas. Figura adaptada do site https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2018/press-release/ acessado em 11 de novembro de 2018.

Hoje em dia esses estudos ganharam desdobramentos que estão ajudando a aperfeiçoar o tratamento. Uma abordagem é juntar a inibição de mais de um tipo de autocontrole no mesmo tratamento (por exemplo, inibir o CTLA-4 e o PD-1 ao mesmo tempo). Outra abordagem é induzir a atividade anti-inflamatória das células do sistema imune. Parece contraditório, mas é um sistema finamente regulado. Os autores notaram que se eles pudessem “desligar” algumas vias de ativação e só deixassem ligadas as vias responsáveis pela morte das células ccancerosas, os danos ao organismo seriam menor. É algo como direcionar para onde a granada vai explodir.

Apesar da imunoterapia já ser uma realidade em muitos países, ela ainda não está amplamente disponível no mercado. Até 2016 só havia um medicamento imunoterápico registrado no Brasil, mesmo assim não estava disponível no SUS. Aguardemos, com esperança, a disponibilização destas terapias e, quem sabe, já com essas melhorias que vêm sendo estudadas.

Referências

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As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: pelos anéis de Saturno

Parte IV

No começo da nossa viagem pelas “luas geladas” conversamos sobre o que elas precisam ter para receber essa definição (aqui). Também falamos sobre Europa, uma das “luas geladas” mais famosas nos últimos anos (aqui), e sobre Ganimedes, Calisto e Io (e aqui). Hoje iremos ainda mais longe no nosso Sistema Solar a fim de explorar as “luas geladas” de Saturno.

Qualquer lua que seja coberta de gelo pode ser uma “lua gelada”?

Como no texto anterior, gostaria de começar resgatando um trechinho do nosso primeiro texto antes de mergulhar nas nossas novas luas. “Luas geladas” são satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, sendo eles Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Para que sejam chamados de “luas geladas” é necessário que esses satélites apresentem três características: (1) a presença de um meio líquido, (2) uma fonte de energia, e (3) condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses quesitos também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Saturno e seus anéis

Comumente vemos Saturno sendo representado, em desenhos e esquemas, envolto por um anel. Porém, se fossemos desenhar o planeta como ele realmente é, ele ficaria muito mais complexo. Saturno possui mais de dez anéis constituídos essencialmente por gelo, poeira e rochas. Além disso, o planeta conta com 62 luas confirmadas até agora. Embora Saturno apresente tantos satélites, apenas duas são classificadas como “luas geladas” e hoje vamos conhecê-las um pouco mais de perto.

Anéis de Saturno

Figura 1. Anéis de Saturno compostos por gelo, poeira e rochas. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

 Um encontro com Titã

Titã é a maior lua de Saturno e a segunda maior do nosso Sistema Solar, perdendo apenas para Ganimedes (vista na parte III). Titã é também o único satélite do Sistema Solar com uma atmosfera densa e evidência de corpos de água líquida e estável (lagos e rios) em sua superfície.

Titã

Figura 2. Vista de Titã pela Cassini. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

Modelos teóricos predizem que uma camada de água líquida poderia existir abaixo do gelo na superfície da lua, desde que houvesse uma quantidade suficiente de amônia misturada à água, reduzindo sua temperatura de congelamento. Dessa forma, acredita-se que Titã seja dividida (da superfície para o centro) em uma camada de gelo, uma camada líquida de água e amônia, outra camada de gelo e um núcleo rochoso.

As informações obtidas até agora sobre o oceano de água no interior de Titã não sugerem que ela seja uma boa candidata para o desenvolvimento de formas de vida. Isso porque a camada de gelo sobre a lua parece ser bastante rígida, o que dificultaria as trocas de material entre a superfície e o oceano. Além disso a segunda camada de gelo sobre a crosta isolaria o oceano do núcleo rochoso, impossibilitando a existência dessa interface considerada de extrema importância para o surgimento da vida.

Ainda assim, o oceano aquoso não é o único ambiente de Titã onde poderíamos procurar formas de vida. Caso a vida tenha surgido lá, o ambiente da lua provavelmente levaria os organismos a desenvolverem características muito diferentes de qualquer um existente na Terra. Enquanto todas as formas de vida terrestre usam água como meio líquido, é concebível que a vida em Titã poderia utilizar outros componentes como metano e etano. Outro fator de interesse na busca por vida em Titã consiste no fato de sua atmosfera ser quimicamente ativa, conhecida por ser rica em compostos orgânicos; o que levou a especulações sobre se precursores químicos da vida poderiam ter sua origem lá.

Dessa forma, o ambiente de Titã, embora muito diferente do terrestre, possuiria os requisitos para a vida: (1) metano e etano na forma líquida encontrados em corpos líquidos na superfície do planeta; (2) provavelmente obtida através da radiação solar, que embora seja muito menor, quando comparada à da Terra, ainda suportaria formas de vida de crescimento lento; (3) proveniente da atmosfera quimicamente ativa e derivadas de metano e etano.

 

Um pulo em Encélado

Encélado é a sexta maior lua de Saturno e é aproximadamente 10 vezes menor do que Titã. Estima-se que a lua seja formada por um núcleo rochoso, envolto por um oceano líquido e uma crosta de gelo na superfície.

Encélado

Figura 3. Vista de Encélado pela Cassini com foco nas plumas de água e gelo no polo sul da lua. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

As primeiras informações sobre Encélado vieram das espaçonaves Voyager Ie II. As mais recentes, porém, foram obtidas pela Cassini em 2005, que revelou mais detalhes sobre a superfície da lua e também confirmou a emissão de plumas de vapor de água e gelo no polo sul da Lua. Cassini também mostrou a existência de uma fina atmosfera ao redor de Encélado e confirmou que sua superfície era composta principalmente por água, gás carbônico e compostos orgânicos simples. O fato de ser totalmente coberta por gelo, torna a lua um dos objetos que mais reflexivos do Sistema Solar. Por refletir a maior parte da luz, a superfície de Encélado é mais fria do que a dos outros satélites de Saturno, podendo atingir -198oC.

Por não possuir água líquida em sua superfície, a existência de vida em Encélado estaria condicionada a presença de água líquida em seu interior. E o movimento da lua em torno de Saturno e a presença das plumas são evidências da presença de um oceano global localizado logo abaixo da camada superficial de gelo.

Um fator de extremo interesse para a astrobiologia é a relativa facilidade de coleta de amostras do oceano de Encélado através das plumas. Coletar material proveniente do oceano diretamente da atmosfera, dispensando missões de pouso e perfuração do gelo da superfície, como se planeja fazer em Europa no futuro, torna a pesquisa de vida em Encélado mais atrativa e economicamente viável com a tecnologia espacial atual.

Então, se olharmos para os nossos critérios de definição de luas geladas teríamos: (1) água existente na forma líquida encontrada logo abaixo da superfície; (2) força de maré originada no oceano interno da lua causada pela interação da lua com Saturno; (3) principalmente suprida pela interação água líquida-núcleo rochoso.

E assim encerramos nosso passeio por Saturno e suas luas! Até a próxima! 🌚❄

Referências:

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GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.

IRWIN, L. N.; SCHULZE-MAKUCH, D. Assessing the plausibility of life on other worlds. Astrobiology, v. 1, n. 2, p.143-160, 2001.

PASACHOFF, Jay M.; FILIPPENKO, Alex. The Cosmos: Astronomy in the new millennium. Cambridge University Press, 2013.

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WORTH, R. J.; SIGURDSSON, S.; HOUSE, C. H. Seeding life on the moons of the outer planets via lithopanspermia. Astrobiology, v. 13, p. 1155-1165, 2013.