1

Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

imagempost

Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

zexe

Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.

 

Anúncios
0

“A mulherada está na rua/pela democracia/Contra o machismo/a nossa luta é todo dia!” – 13º. Mundos de Mulheres e o 11º. Fazendo Gênero

De 30 de julho a 4 de agosto, aconteceram os eventos internacionais 13º Mundos de Mulheres e o 11º Fazendo Gênero, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O Mundos de Mulheres é um evento trienal, que conta com mulheres de várias partes do mundo, tanto acadêmicas quanto militantes, para discutir os vários feminismos. Pela primeira vez ele foi sediado em um país da América do Sul. O Fazendo Gênero, por sua vez, é um evento que ocorre, geralmente, a cada dois anos e é sediado na UFSC. Ele também discute feminismos e questões de gênero. Este ano, mais de oito mil pessoas participaram de ambos os eventos.

O tema deste ano, para ambos os eventos, foi “Transformações, Conexões e Deslocamentos”, e contava com conferências ministradas por renomadas acadêmicas e/ou militantes, mesas redondas, fóruns de debates, simpósios temáticos, sessões de pôster, minicursos, oficinas, lançamento de livros, mostras audiovisuais e fotográficas, entre outras atividades.

Um momento especial, que fez parte do evento, foi a Marcha Mundos de Mulheres por Direitos, que aconteceu dia 2 de agosto, no final da tarde. Representantes de diversos movimentos, como o Movimento Sem Terra, o Movimento de Mulheres Camponesas, indígenas, quilombolas, entre muitos outros, estavam presentes. A marcha tem, como um de seus objetivos, mostrar a diversidade das mulheres do mundo, algo que justifica o uso do termo “feminismos” em vez de “feminismo” no singular. Durante a marcha, palavras de ordem, marchinhas e apresentações ocorreram. As paródias mostravam reivindicações das mulheres (como, por exemplo, “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente com a roupa que escolhi, e poder me assegurar, que de burca ou de shortinho, todos vão me respeitar”; “a nossa luta é todo dia, somos mulheres, e não mercadoria”). Este ano, participaram 10.000 pessoas.

Um tema presente em várias apresentações foi a interseccionalidade, ou seja, a discussão das questões de gênero permeadas por outros marcadores sociais, como a sexualidade, a raça e a classe social. Levando em consideração a pluralidade do ser e de formas de opressão como o racismo e o sexismo, é absolutamente necessário abrir espaços para a discussão de como os diferentes marcadores sociais se inter-relacionam nos diferentes contextos, possibilitando ou limitando a capacidade de agência dos atores sociais. Além da interseccionalidade, outra característica bastante presente em muitas apresentações foram questionamentos como: quem faz a ciência?, faz para quem?. Nesses debates, foram evidenciados conceitos como a colonialidade[1] do poder, do saber e do ser[2], que, de forma bastante geral, podem ser entendidos como modos de tornar certas práticas e conhecimentos legítimos e abjetar qualquer forma de conhecimento que está fora desse tido como “legítimo”.

Apesar de discutir feminismos, direitos sexuais e reprodutivos, questões de gênero e temáticas relacionadas, alguns temas apareceram apenas de maneira marginal. Por exemplo, os termos “bissexualidade” e “bissexual” não apareceram no título de nenhuma apresentação e a “assexualidade” apareceu em apenas uma. A necessidade de dar visibilidade aos bissexuais foi apontada em algumas das mesas nas quais eu estava presente, o que mostra que, mesmo dentro de um contexto no qual a discussão de gênero e sexualidade é bastante prolífica, ainda existem grupos que podem estar situados em posições inferiorizadas e/ou sendo invisibilizados. Tais grupos demandam, portanto, visibilidade e representatividade.

De maneira geral, o evento possibilitou a discussão de temáticas de interesse para todas e todos que desejam e lutam por uma sociedade mais igualitária e justa, especialmente para a população brasileira, levando em consideração os retrocessos que vem acontecendo em esferas como a saúde e a educação.

Quer saber mais?

O caderno de programação do evento: http://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/download/download?ID_DOWNLOAD=58

Em breve, os anais do evento, com os textos completos das apresentações, estarão disponíveis para consulta.

Acompanhe as notícias no site: http://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/site/capa

[1] “Colonialidade” é um termo distinto de “colonianismo”. O primeiro se refere a uma forma de poder característica do capitalismo moderno, enquanto o segundo indica uma forma de política imperialista na qual se utiliza da invasão física de territórios. O post da Raquel Galvão, publicado semana passada na coluna em off, fala um pouco sobre os descolonianismos.

[2] Para saber mais sobre esses termos e seus significados, ler autores como Aníbal Quijano, María Lugones e Boaventura dos Santos. Por exemplo:

Lugones, M. (2010). Toward a Decolonial Feminism. Hypatia, 25(4):742–759.

Quijano, A. (2001). Colonialidad del poder, cultura y conocimiento en América Latina. In: Mignolo, W. (Ed.). Capitalismo y geopolítica del conocimiento: El eurocentrismo y la filosofía de la liberación en el debate intelectual contemporáneo. Buenos Aires: Ediciones del Signo, p. 117–131.

Santos, B. S. (2007). Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo.

1

O masculino como neutro: a normalização da masculinidade

É provável que nenhuma outra frase proveniente da teoria feminista tenha se tornado tão famosa e motivo de tanta polêmica quanto “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, retirada da obra O Segundo Sexo (1949/2014), de Simone De Beauvoir. As discussões a respeito da socialização feminina e a negação da subjugação das mulheres como característica própria da natureza[1] humana se tornam cada dia mais expressivas em diversos âmbitos da sociedade. Trocando em miúdos, muito tem sido discutido sobre as regras explícitas e implícitas ensinadas às mulheres desde os primeiros anos de vida[2] e qual a relação desses construtos com a condição de subjugação. Parte-se do pressuposto de que, para combater a desigualdade, é necessário desestabilizar (destruir, de preferência) a crença de que mulheres são de determinada maneira e se encontram em condições sociais específicas porque assim nasceram para ser. Porém, em contrapartida às crescentes discussões sobre as que ocupam o lugar de subjugação em um sistema de desigualdade de gênero, pouco se debate sobre os que ocupariam nele o lugar de dominação e privilégio, os homens.

Cabe dizer, antes de tudo, que este texto não pretende relativizar a importância de manter as mulheres como foco de debate no feminismo. Muito ainda precisa ser conquistado para a emancipação das mulheres ao redor de todo o mundo e é de extrema urgência que nos organizemos em torno dessas questões, sendo nós mesmas agentes de transformação. Nesse sentido, o objetivo aqui não consiste em direcionar ao movimento feminista a responsabilidade pelo debate das questões relativas aos homens, mas sim destacar como, apesar da discussão a respeito do feminismo aos poucos vir conquistando lugar no espaço público, o silêncio a respeito das construções da masculinidade é sintoma da noção de masculino como sinônimo de neutro. Afinal de contas, diferente da mulher, que “não nasce”, mas “torna-se”, já nasceria o homem pronto?

Em seu livro Sexo e Temperamento (1935/1999), a antropóloga Margaret Mead trata de sua pesquisa em três das mais antigas sociedades da Nova Guiné: os arapesh, os mundugumor e os tchambuli.  Dentre os arapesh não existia muita diferença entre o temperamento dos gêneros, homens e mulheres eram dóceis, cooperativos, não agressivos e “maternais”. Os mundugumor também não apresentavam grande contraste de temperamento entre os gêneros, sendo ambos violentos e agressivos. Já dentre os tchambuli, havia uma diferença temperamental bastante marcada: a mulher era dominadora e impessoal, responsável pela administração da vida social, e o homem dependente e encarregado das atividades de cuidado. Diante dos achados de sua pesquisa, Mead chega então à conclusão de que os comportamentos tidos como femininos ou masculinos não são determinados por aspectos inatos, mas definidos e organizados na vida social.

Nesse sentido, a masculinidade, assim como a feminilidade, seria uma invenção. Esta invenção, contudo, não pode ser definida como algo criado do nada, absolutamente novo e sem uma história por trás. Ao longo do desenvolvimento das sociedades humanas a masculinidade foi construída de diferentes formas e trazer luz às suas mudanças de configuração é de crucial importância para entender tanto seu papel na organização social, quanto para superar uma visão essencialista que entende a definição do que é “ser homem” como algo estanque, homogêneo e “natural”.

Figura 1: o ex-presidente estadunidense Franklin Roosevelt,
por volta de 1884. Assim como vários outros garotos de sua época,
Franklin usa um vestido.
roosevelt
Fonte: Smithsonian Mag

Em seu artigo “A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia”, o antropólogo Daniel Welzer-Lang argumenta que a estruturação do masculino se dá mediante a ideia de que, para ser um “(verdadeiro) homem”, os rapazes devem desde a infância eliminar todos os traços que poderiam associá-los às mulheres. Em suas palavras:

É verdade que na socialização masculina, para ser um homem, é necessário não ser associado a uma mulher. O feminino se torna até o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de ser também assimilado a uma mulher e ser (mal) tratado como tal (p. 6).

Tal socialização se daria principalmente nos espaços que Welzer-Lang vai chamar de “casa dos homens”. A expressão é advinda de um estudo realizado por Maurice Godelier (1982/1996) dentre os Baruya, povo da Nova Guiné. “Casa dos homens” consiste em um espaço proibido para as mulheres onde os mais jovens e fracos são associados ao feminino e, por isso, violentados de diversas maneiras. Nesse local os homens constroem a si mesmos e ao feminino (ali encarnado pelos mais novos) submetido por meio de violência ao masculino. Esse processo tem função pedagógica e é depois transposto para as relações entre os homens e mulheres, de modo que as mulheres passam a ser submetidas às regras de relação entre homens e mulheres definidas sem sua participação, em que “o masculino e os homens e o feminino e as mulheres aparecem como construídos por relações de violência entre homens” (CLIMACO, 2008).

Welzer-Lang considera que tal conceito é também útil para pensar as sociedades ocidentais, compostas por rituais de iniciação masculina em diversos espaços com dinâmicas similares àquelas descritas por Godelier. Esses espaços iriam desde os grupos de meninos na infância, em que ocorrem as primeiras compreensões sobre sexualidade e poder (como nas brincadeiras de “troca-troca”, em que um menino penetra o outro e aquele que, por ventura, for apenas penetrado é tido como inferior e em situação de desvantagem, pois a penetração já se apresenta como uma forma de exercício de poder), até os prostíbulos, bares, a relação entre os homens da família, a prisão, a política, dentre outros. Nesses espaços de socialização monossexual (em que só homens participam definindo seu funcionamento), os homens considerados desviantes das normas de masculinidade e, portanto, semelhantes em alguma medida ao feminino, são punidos com violência simbólica e física. Entretanto, mesmo os homens que passam por essas punições são ensinados a reproduzir esse sistema em suas relações com as mulheres, evidenciando que “o masculino é, ao mesmo tempo, submissão ao modelo e obtenção de privilégios do modelo” (WELZER-LANG, p. 5).

A socialização masculina, portanto, atua como um sistema de violência e submissão dentre os próprios homens, trazendo, por vezes, intenso sofrimento na construção de suas identidades. Todavia, ela é ainda mais violenta em seu direcionamento às mulheres, definidas de antemão como seres que devem existir em situação de subjugação em relação aos homens.

Nesse sentido, pensando nos homens que honestamente costumam interpelar suas amigas feministas sobre como poderiam contribuir no combate ao machismo, esboço aqui um apelo: para além da resposta óbvia de que não sejam abusivos com suas companheiras, não sejam violentos, não objetifiquem as mulheres, considerem-nas seres tão capazes de raciocínio quanto quaisquer outros, sugiro que os homens que se pretendem pró-feministas saiam de sua posição de conforto e passem a questionar a masculinidade, a historicizem, relativizem e a tornem não mais blindada.  Uma vez compreendendo-se como parte do sistema de dominação, é de essencial importância que os homens se assumam como atores de transformação de sua categoria e desafiem de dentro as estruturações da socialização em profundidade – não fundando um novo tipo de “clube dos homens”, e sim se abrindo ao verdadeiro diálogo com as mulheres, que foram historicamente excluídas desse processo, mas que, ao contrário dos homens, vêm há um amontoado de décadas repensando a si mesmas, então certamente terão algo a contribuir.

Referências e indicações

CLIMACO, Danilo. Das transformações da dominação masculina. Cad. Pagu,  Campinas,  n. 30, p. 437-443,  June  2008 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332008000100024&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 24 jul. 2017.

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 2014. (1949).

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento em três sociedades primitivas. Editora Perspectiva: São Paulo, 1999. (1935).

SESC TV. Filosofia pop: masculinidade. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=M8WgYfzxYaI&gt;. Acesso em: 25 jul. 2017.

SMITHSONIAN. When Did Girls Start Wearing Pink? Every generation brings a new definition of masculinity and femininity that manifests itself in children’s dress. Disponível em: <http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/when-did-girls-start-wearing-pink-1370097/>. Acesso em: 24 jul. 2017.

WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.2, pp.460-482.

GODELIER, Maurice. La production des Grands Hommes. Paris: Fayard, 1982. (1996).

[1]                      É importante dizer que não tenho qualquer intenção de definir “natureza” e “sociedade” como duas instâncias totalmente separadas, mas sim me refiro ao discurso hegemônico (presente em diversos setores e com muitas nuances) que “explica” a condição de subjugação feminina por meio do argumento do “instinto”.

[2]                      Parto do pressuposto de que não existe uma socialização, mas socializações que ocorrem em diferentes momentos da vida de cada mulher, interseccionadas com seu contexto amplo (classe, raça/etnia, dentre outras características). Ainda nesse sentido, mulheres trans também passariam por socializações femininas.

1

Marcha das Mulheres: ativismo além do movimento feminista

Conhecem aquela história de que se cada um fizer a sua parte as coisas vão pra frente? Pois foi assim que a aposentada Theresa Shook, do Havaí (EUA), pensou quando criou um evento para mobilizar mulheres um dia após a eleição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Sua ideia era a de que mulheres marchassem em Washington D.C. no dia seguinte à posse do presidente, para mostrar o descontentamento frente à eleição de um candidato sabidamente machista, misógino e sobre quem pesam alegações de abuso sexual.

Sua vontade era a de mobilizar mulheres a mostrar que seus direitos não seriam esquecidos. Só não imaginava que o evento se tornaria viral e que com tanta repercussão, a coordenação teria de passar às mãos de ativistas veteranas de Nova Iorque (Tamika D. Mallory, Carmen Perez, Linda Sarsour e Bob Bland) . Com um time de mulheres entendidas do assunto à frente, os primeiros passos para a consolidação da marcha foram tomados, também foi criado um site onde todas as informações pertinentes à marcha podiam ser acessadas, incluindo a inscrição para a participação no evento. Essa inscrição serviu apenas como modo de saber quantas pessoas participariam para a organização da logística.

Embora o site fosse voltado para a marcha em Washington, mulheres de outros países também se inscreveram. Excursões de outras partes dos EUA começaram a ser organizadas ao mesmo tempo em que marchas em outras cidades foram marcadas. Aos poucos, cidades em todo o mundo entraram no mapa das marchas e foram chamadas de “sister marches” (marchas irmãs). O que começou como um protesto contra Trump acabou mobilizando mulheres no mundo todo, lutando pelos mesmos direitos.

Com o nome de “Women’s March on Washington” (Marcha das mulheres em Washington) ela teve uma abrangência muito maior do que apenas a pauta feminista. Um dos motes do protesto é “Direitos das mulheres são Direitos humanos e Direitos humanos são Direitos das mulheres”. Ele veio com uma nova visão sobre o feminismo a partir do momento em que englobou pautas de grupos que também sofrem preconceitos e desafios no dia-a-dia como afro-americanos, a comunidade LGBTQIA, imigrantes, e refugiados. A demanda da intersecção de causas cresce e torna a inclusão de outras pautas uma necessidade, como forma de fortalecer o movimento e aumentar seu alcance.

Apesar de liderada por ativistas de diferentes causas, o movimento chama a atenção pela ausência de agenda partidária e por abraçar outros movimentos. Um dos pontos chave de sua missão é reconhecer que a defesa de grupos mais marginalizados é defender a todos e que a marcha é o primeiro passo para a unificação das diferentes comunidades, com o objetivo de gerar mudanças. Esse é um dos motivos que tornou a marcha tão bem sucedida: a participação é aberta a todos que lutam por direitos humanos, independente de sua visão político-partidária. A defesa por uma sociedade mais justa é o que foi capaz de unir milhares de pessoas numa única manifestação.

Pussyhat

Outra maneira que as participantes encontraram para se manifestar foi usar uma touca cor de rosa com orelhas de gato. O nome é trocadilho com “pussycat”, que significa “gatinho”. Em inglês a palavra “pussy” também é usada pejorativamente para designar a genitália feminina e foi proferida por Trump em 2005 numa frase em que ele dizia que atualmente é possível pegar as mulheres por sua genitália e fazer o que quiser. O “Pussyhat Project”, além de criar uma identidade visual única para a marcha, permitiu que pessoas em qualquer lugar do mundo demonstrassem seu apoio aos direitos das mulheres. Valorizando as artes manuais, as fundadoras do projeto (Krista Suh e Jayna Zweiman) disponibilizaram em seu site o modelo para a confecção das toucas (tricô, crochê e costura). Estimulando que cada mulher confeccionasse seu próprio “pussyhat”, a iniciativa empodera mulheres artesãs ao mesmo tempo em que fortalece a individualidade criativa de cada uma.

pussyhats

Mulheres usando seus “pussyhats”. (Foto retirada do twitter de @rmayersinger)

Impacto

Contabilizando a participação de cerca de dois milhões de pessoas nos EUA e o total de cinco milhões de pessoas em todo o mundo em 914 marchas (653 só nos EUA), ela é considerada a maior de toda a história norte-americana a ocorrer num mesmo dia. Além disso, fotos mostram que mais pessoas participaram na marcha do que na inauguração de Trump. Inclusive informes oficiais do metrô na cidade de Washington avisavam sobre a superlotação dos trens, que ocasionaram atrasos nas viagens.

metrotrail-tweet

“Estejam preparados, possíveis atrasos no sistema devido a multidão. Cartões SmartTrip devem ser utilizados para entrada e saída do sistema.”

Uma marcha-irmã ocorreu inclusive em Paradise Bay, na Antártica, onde cerca de 30 mulheres e homens se reuniram num navio com sinais de protesto.

womenantarctic-linda-zunas

Manifestantes em navio de pesquisa em Pirate Bay, Antártica. (Foto de Linda Zunas)

A maior marcha registrada ocorreu em Los Angeles na Califórnia com 750 mil participantes, seguida por Washington, D.C. com 500 mil, Nova Iorque (Nova Iorque) com 450 mil, Chicago (Illinois) com 250 mil e Seattle (Washington), Boston (Massachusetts), Oakland e San Francisco (Califórnia) contabilizando entre 100 e 200 mil participantes.

Ciência > Opinião

A veterinária Isabelle Tancioni, moradora de San Diego (Califórnia), participou da marcha que começou no Civic Center. Com a estimativa de 30 a 40 mil participantes, Isabelle conta que estudantes preocupados com as políticas do novo governo com relação à ciência também compareceram.

Um dos primeiros atos de Trump foi apagar todos os dados referentes ao aquecimento global da página da Casa Branca, além de proibir que cientistas da EPA (Agência de Proteção Ambiental) falem publicamente sobre suas pesquisas sem que antes os resultados passem por uma avaliação interna. A preocupação é tanta que já foi criada uma página com o intuito de organizar uma marcha de cientistas, que busca mostrar a importância da ciência baseada em fatos.

ciencia-e-real-san-diego

Cartazes durante a Marcha das Mulheres em San Diego: à esquerda “Ciência é real”; à direita “Ciência > Opinião”. (Fotos de Isabelle Tancioni)

É possível que nenhuma das organizadoras da marcha tenha imaginado tamanha repercussão do movimento. O que inicialmente eram páginas de evento agora se tornam grupos públicos e páginas com a finalidade de manter o movimento vivo e forte por todo os EUA. A força que o movimento mostrou ao mobilizar diferentes causas num mesmo protesto pode inspirar uma nova fase do ativismo não só nos EUA, mas em todo o mundo. Entramos numa nova fase de mobilização coletiva. Teremos ainda muitos frutos a colher.

Para saber mais:

Dados sobre o número de participantes nas marchas: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1xa0iLqYKz8x9Yc_rfhtmSOJQ2EGgeUVjvV4A8LsIaxY/htmlview?sle=true#

Marcha para a ciência: https://www.marchforscience.com/

Pussyhat Project: https://www.pussyhatproject.com/

Marcha das Mulheres: https://www.womensmarch.com/ e https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcha_das_Mulheres_em_Washington

1

Para lembrar quando faltar coragem

[Aviso: O sexismo enfrentado por mulheres tem aspectos distintos e agravantes dependendo da sua classe social, meio cultural, raça, religião, orientação sexual, restrições físicas e/ou psicológicas. Nesse texto, entretanto, por simplicidade, tratamos da questão de gênero na ciência, em particular, na área de física, de maneira binária: mulheres e homens. E, além de poucas citações superficiais, também não estão representadas questões raciais e religiosas.]

Ao contrário do que se imagina, numa sociedade com o mesmo recorte cultural, o machismo não diminui quanto maior o nível educacional dos indivíduos, e, sim, transfigura-se em formas mais elaboradas de discriminação. A vivência dentro da academia não é imune às suas construções sociais e reflete a estrutura patriarcal na qual as ciências foram concebidas. Nós, mulheres, enquanto cientistas, devemos nos enquadrar em sistema feito por homens e para homens. Isso cria desafios particulares para mulheres que desejam seguir carreiras científicas, que já começam em desvantagem com relação as dos seus colegas do sexo masculino.

A mentoria, por exemplo, é extremamente importante para todo jovem cientista, seja como forma de obter treinamento na sua área de especialização, como para ter acesso a rede de colaborações. Ela é, principalmente, o mecanismo pelo qual se aprender toda a parte não escrita sobre o funcionamento do mundo acadêmico: negociar com outros cientistas, apresentar trabalhos, pleitear verbas, oportunidades em projetos, etc, fundamentais para o avanço da carreira. Poucas mulheres usufruem dessa rede de oportunidades através de mentoria, enquanto o engajamento, histórico e estrutural, entre os homens leva-os a carreiras mais bem sucedidas.

Foi pensando em um ambiente que proporcionasse troca de experiências entre jovens mulheres cientistas que a Dra. Elizabeth Simmons da Universidade Estadual de Michigam (E.U.A.) e Dra. Shobhana Narasimhan do Centro de Pesquisa Cientifica Avançada Jawaharial Nehru (Índia) idealizaram um workshop focado no desenvolvimento das carreiras das jovens pesquisadoras na área de física. As duas foram colegas de pós-graduação durante o doutorado na Universidade de Harvard (E.U.A.), entre o final da década de oitenta e o início dos anos noventa. Das conversas entre as duas amigas, elas perceberam que mulheres cientistas, sendo poucas, enfrentam um certo isolamento e possuem poucos espaços para networking, troca de experiências e meios de adquirir certas habilidade não-acadêmicas, as quais seus colegas homens têm acesso tão facilmente através do “clube dos meninos”.

E, assim, foi criado o “Workshop para Desenvolvimento das Carreiras de Mulheres em Física”, com duas edições realizadas num dos institutos de física teórica mais respeitado do mundo, o Centro Internacional de Física Teórica. A última edição, em 2015, contou com 16 palestrantes, a maioria absoluta de mulheres e físicas, e 45 participantes vindas de 26 países e, sim, vou listar porque só a lista de países por si só já é linda: Alemanha, Armênia, Argentina, Benim, Bielorrúsia, Botswana, Brasil, Camarão, Canadá, Cuba, Egito, Gabão, Gana, Índia, Itália, Irã, México, Nigéria, Palestina, Paquistão, Quênia, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Turquia e Ucrânia. Imagina só: você entra num auditório. Tem mais de 40 cientistas em física. TodAs mulheres! E a maioria absoluta não é branca! Com muçulmanas, cristãs, atéias trabalhando juntas! Você nem consegue imaginar, não é? Eu vi! Eu vi, gente! Eu estava lá! *_*

Nessa atmosfera multicultural, multirracial, multirreligiosa, nós tivemos a oportunidade de discutir sobre as melhores formas de apresentar currículos, negociar financiamento de pesquisa, escrever propostas, entre outros tópicos. E, também, pudemos tratar sobre aspectos diretamente ligados com as dificuldades de sermos mulheres enquanto cientistas (e vice versa!). As organizadoras convidaram ainda cientistas reconhecidas internacionalmente como Dama Dra. Jocelyn Bell Burnell, que descobriu as primeiras estrelas de nêutrons e Dra. Sossina Haile, uma das pioneiras em células de energia limpa, cujas palestras inspiradoras mesclaram depoimentos pessoais e percurso acadêmico.

—–

Era mais fácil me darem parabéns pelo meu noivado do que pela minha descoberta científica.” — Jocelyn Bell Burnell sobre a época de seu doutorado na Universidade de Cambridge (Inglaterra).

Jocelyn montou o rádio telescópio que detectou as primeiras estrelas de nêutrons, sendo dela a descoberta das quatro primeiras. As características não usuais desses objetos causaram tanta comoção que até o seu supervisor, Antony Hewish, desacreditou os dados. Bell Burnell defendeu a tese (1968) mesmo sem o apoio do seu orientador.

Em 1974, Hewish divide o prêmio Nobel Prize de física com Martin Ryle, ignorando as contribuições de Bell. O prêmio desse ano ficou conhecido como “No Bell” (Sem Bell, em tradução livre)…

—-

“Eu era a única mulher na minha turma. E toda a vez que eu entrava na sala de aula, meus colegas batiam os pés no chão até eu sentar.” — Jocelyn Bell Burnell sobre sua graduação em Glasgow (Escócia) na década de 1960.

—-

“Perdi as contas de quantas vezes eu entrei numa sala de reunião e me pediram para trazer o café.” — Sossina Haile, pioneira na pesquisa com células combustíveis.

—-

“Uma vez um estudante entrou no meu escritório procurando pelo Prof. Haile. Nós começamos a conversar e ficou claro que ele achava que eu era a secretária do Prof. Haile. Em algum momento ele perguntou se o Prof. Haile estaria interessado na supervisão de novos alunos, como ele. Eu disse: “Hum… Eu acho que não…”. (risadas!) “E essa é uma das formas que encontrei de enfrentar situações de sexismo ou racismo.” — Sossina Haile

—–

O clima do evento foi de confissões, desabafos e histórias de superação. Tivemos mesas redondas, dinâmicas de grupo, grupos de trabalho, além de palestras e apresentação dos trabalhos científicos das participantes. Foi um evento para levar para vida toda. Com todas essas mulheres fortes contando como lutam todo o dia para fazer ciência, não tinha como não se emocionar e aprender muito: como fazer ciência quando não acreditam em você e no seu trabalho porque você é mulher, porque você é negra, porque você é muçulmana, porque o seu país está em guerra. Como fazer ciência quando ao seu redor as pessoas esperam que você, antes de tudo, seja mãe e esposa. Como fazer ciência quando você é a responsável pelos familiares doentes. Como fazer ciência quando se é pobre… Como fazer ciência depois do abuso verbal, depois do abuso sexual… Como fazer ciência quando se está só… Uma mulher faz ciência simplesmente porque ela quer, mas ela precisa de coragem para continuar.

Algumas de nós engajadas em projetos voltados para atrair meninas para carreiras em física e matemática. Outras, trabalhando em políticas de inclusão e de incentivo à permanência de mulheres na carreira científica. Outras de nós, abertamente feministas. Outras, nem tanto. Todas, porém, reconhecendo duas razões principais para estar ali, naquele workshop. Primeiramente, para aprender mais sobre como o sistema acadêmico funciona e, assim, ter recursos não apenas para permanecer dentro dele, como também crescer e, eventualmente, ocupar posições de prestígio, na academia ou até mesmo fora dela. E, em segundo lugar, uma vez como cientistas, pesquisadoras e professoras, melhorar o sistema para as garotas que escolham carreiras científicas tenham vidas melhores do que as nossas.

Todas nós, apesar de diferentes culturas, raças e religiões (ou não religiosas), nos vimos unidas enquanto mulheres e cientistas. E, não importa em que lugar do mundo a gente viva, agora nenhuma de nós luta sozinha, no isolamento dos nossos departamentos. Nós lutamos juntas!

“Quando era jovem, eu não me considerava feminista. O meu feminismo surgiu ao longo dos anos. Agora, quanto mais velha eu fico, mais feminista também. Hoje eu sou GRRRR!!! feminista!” — Dame Dra. Jocelyn Bell Burnell

—–

Links interessantes (foi mal, mas é tudo em inglês :/ ):

Se você está no doutorado ou tem doutorado em física, super recomendo que você acompanhe os programas do Centro Internacional de Física Teórica para mulheres.

Gostou da Liz e da Shobhana? Então, dá uma olhada aqui na entrevista que elas deram ano passado.

Mais sobre energia limpa e Sossina Haile na website do The Haile Group.

0

As computadoras

programmers

A história da computação possui muitos personagens que contribuíram para o seu desenvolvimento.Na sua grande maioria, os personagens conhecidos dessa história são homens, dentre os quais podemos citar Babbage, Boole, Turing, Von Neumann dentre outros. E aonde ficam as mulheres nessa história toda? Será que não houve nenhuma contribuição feita por uma mulher? Não digo daquelas mulheres que são tidas como “a primeira mulher engenheira de computação do mundo”, ou seja, a primeira mulher a fazer uma atividade que antes era dominada apenas por homens. Digo uma mulher que tenha sido o primeiro indivíduo, seja homem ou mulher, que contribuiu originalmente com alguma coisa para a computação.

Já nos primórdios da computação moderna houve a primeira contribuição de uma mulher. Seu nome é Ada Byron, filha do conhecido poeta inglês Lord Byron. Também é conhecida como Ada Lovelace, por ter se casado aos 20 anos com o conde de Lovelace. Sua grande contribuição para a história da computação é ter sido a primeira pessoa a descrever completamente o processo que hoje é conhecido como programação de computador [1] [2].

Na época de Ada, também viveu um outro grande contribuinte no desenvolvimento da computação, o cientista Charles Babbage, que é tido como o pai dos computadores modernos. Ada conheceu o trabalho de Babbage e, traduzindo uma de suas teorias, acrescentou notas nas quais descrevia como alimentar a máquina analítica de Babbage com cartões perfurados, sendo tidos como os primeiros programas de computadores. Ada também previu a possibilidade da música computadorizada, afirmando que a música é matemática e, portanto, poderia ser adaptada para ser composta por uma máquina [1].

A máquina descrita por Babbage foi reconhecida como um primeiro modelo de computador e as notas de Ada como a descrição de um software, ainda que não tenha sido possível construir a máquina naquela época por restrições da tecnologia [2].

Mas as contribuições das mulheres na computação não pararam por ai. Na década 40, foi desenvolvido pelo exército um projeto ultrassecreto, o ENIAC. Depois da segunda guerra, foi divulgada a existência dessa máquina que é tida como o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. O ENIAC foi criado pelos cientistas norte-americanos John Eckert e John Mauchly. Porém, uma parte dessa história foi obscura durante muitos anos: quem haveria programado esse máquina para computar trajetórias balísticas? Na década de 80, a pesquisadora Kathy Kleiman decide ir atrás de algumas pistas nesse sentido e descobre que o ENIAC havia sido programado por seis matemáticas mulheres. Seus nomes eram: Betty Jean Jennings, Ruth Lichterman, Kathleen McNulty, Betty Snyder, Marlyn Wescoff e Fran Bilas [3].

Elas foram escolhidas entre um grupo de 100 mulheres que trabalhavam na Universidade da Pensilvânia calculando manualmente as equações diferenciais necessárias para as trajetórias balísticas durante a guerra [3]. O exército chamava a função destas mulheres de “computers” ou computadoras (em uma tradução livre, já que esse termo não existe com a flexão feminina na língua portuguesa).

O ENIAC era programado através da conexão de fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. Havia milhares de chaves, podendo cada uma delas assumir o valor 1 ou 0 conforme estivessem ligadas ou desligadas. [4] A cada tarefa diferente o processo deveria ser refeito. A resposta dos cálculos era dada por uma sequência de lâmpadas.

Essas mulheres não tinham permissão de ver o ENIAC por ele ser um projeto secreto, mas mesmo assim elas o programaram. E para fazer isso, tiverem que estudar os diagramas esquemáticos da máquina e entender como ela poderia ser programada, isso em uma época que não existiam livros que se ensinasse a programar. Ao fazer isso elas fundaram as bases para os programadores e engenheiros de software do futuro [3].

Mas elas não pararam por ai. Após esse projeto, Jean liderou a equipe que transformou o ENIAC em um dos primeiros computadores eletrônicos com memória de armazenamento do mundo. Já Betty continuou trabalhando na computação ao longo de toda a sua vida profissional, sendo uma pioneira na área ao desenvolver o primeiro conjunto de instruções de máquina, a primeira rotina de ordenação e a primeira aplicação de software [3].

Apesar do papel pioneiro dessas mulheres como primeiras programadoras da computação moderna, elas foram reconhecidas tardiamente pelo que fizeram, sendo que a maioria tinha cerca de 70 anos. Elas receberam prêmios da IEEE Computer Society, do Museu da História da Computação, da associação Women in Technology International e outras organizações [3].

As programadoras do ENIAC foram seguidas por várias mulheres pioneiras na área da ciência da computação, mas essa é uma das áreas em que a representatividade das mulheres ainda é muito baixa. Segundo Moreiras et al (2014), apenas 20,1% dos alunos do curso de Ciência da Computação no Brasil são mulheres. Que essas mulheres da história possam servir de inspiração para as novas gerações, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive programando!

Bibliografia

[1] Rolka, G. M. 100 Mulheres que Mudaram a História do Mundo. Editora Nova Fronteira, 2004.

[3] http://eniacprogrammers.org/

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/ENIAC

[5] Moreiras, J. A. et al. Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação. 18º REDOR, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/1935/853 >.

3

Primavera feminista latino-americana

Buenos Aires, Argentina, junho 2015; São Paulo, Brasil, outubro 2015; Cidade do México, abril 2016; Lima, Peru, agosto 2016—em diversos cantos da América Latina as mulheres estão tomando as ruas para gritar em um coro uníssono: basta!

Você com certeza já leu algo sobre os novos movimentos de mulheres no Brasil que clamam pela igualdade de gênero, pelo fim da violência contra a mulher, pelo direito à escolha. Talvez aqui mesmo no blog, onde publicamos textos sobre a maravilinda hashtag “Meu Amigo Secreto” e, mais recentemente, sobre diversos relatos de abusos machistas que muitas de nós sofremos. Desde que fomos às ruas no ano passado para dizer um categórico “não” ao projeto de lei 5069, de autoria de um ex-deputado deveras questionável cujo nome prefiro nem mencionar, nós, brasileiras, ganhamos novo fôlego para reagir a uma agenda política conservadora que pretende ditar regras sobre nossos corpos e nosso comportamento (homis, cês são tudo bem vindo no rolê, mas vou tomar a liberdade de falar de irmã pra irmã aqui, belê? Não se sintam excluídos não, a gente gosta quando vocês vêm pra somar, mas a gente está construindo sororidade). Inúmeras iniciativas surgiram para dar vazão ao nosso descontentamento com a cultura machista do país, à nossa revolta frente a crimes hediondos de violência contra a mulher e às nossas demandas por políticas públicas que respeitem e protejam nossa vida e nossa saúde.

Mas não é apenas no Brasil que as mulheres têm protagonizado movimentos feministas de rua: nossas hermanas latino-americanas também estão gritando por mais direitos, mais respeito, e menos violência. Essas demandas não são novas—movimentos feministas articulados existem no continente desde, pelo menos, os anos 1960,  e em muitos casos desempenharam inclusive um papel importante na luta contra os regimes autoritários da época.[1] Há também iniciativas transnacionais como o Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe, que desde 1981 promove eventos bi-anuais para discutir a situação da mulher nos vários países da região.[2] Ainda assim, é possível falar em uma primavera feminista latino-americana. O que distingue o momento atual das décadas anteriores é a sincronicidade entre manifestações feministas de massa ao redor da América Latina e o fato de responderem a casos específicos de violência contra a mulher. Para que isso fique mais claro, vejamos abaixo um resumo das causas que têm nos levado a protestar.

 Por que vamos às ruas?

*Estupro e outras formas de assédio sexual. Os dados são reveladores—e chocantes. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (9ª edição, outubro 2015), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Casos recentes e horripilantes de estupros coletivos deixaram essa realidade ainda mais escancarada.  No México, em média 40 mulheres sofrem abuso sexual por dia, e no Peru as autoridades chegam a registrar 53 denúncias diárias de crimes de violência sexual contra mulheres. Números como estes é que nos levam a falar de uma cultura do estupro no continente; isso quer dizer que atentados sexuais de gênero estão tão disseminados que fazem parte da realidade diária de milhares de mulheres, de Tijuana à Ushuaia. Toda mulher latina sabe que se sair de casa com um vestido em um dia quente de verão, vai ouvir pelo menos um assobio. Como sabe que, mesmo encapuzada em um dia frio de inverno, pode ouvir isso, ou mais. Relatos de assédios os mais variados abundam na rede, e ficaram ainda mais visíveis depois de campanhas como #meuprimeiroassédio (em Português) / #miprimeracoso (em Espanhol). E, francamente, nós estamos cansadas. Nós queremos liberdade plena para usar a roupa que quisermos sem que isso seja visto como um convite para cada membro do sexo oposto fazer um “elogio”, um comentário, ou dar aquela olhada que te deixa com a sensação de estar sendo observada em um raio-x. Não queremos que o decote da nossa blusa ou o tamanho da nossa saia levem a culpa se somos estupradas. Queremos poder ocupar os espaços públicos (as praças, os parques, os centros comunitários, os museus, O BUSÃO) sem ter medo de que nossa mera presença nestes lugares coloque nossa integridade ou nossa vida em risco. Queremos que o nosso “não” seja ouvido e respeitado.

*Feminicídio. Pra falar curto e grosso: nós vamos às ruas por que estão nos matando. No ano passado, na Argentina, após uma adolescente ter sido espancada até à morte pelo namorado e enterrada no quintal com a ajuda da família dele, milhares de pessoas saíram em marcha pelas ruas de Buenos Aires para denunciar o feminicídio no país. Segundo dados de uma ONG local, o país tinha registrado 277 casos de feminicídio no ano anterior ao protesto (2014). O movimento realizou nova passeata este ano, e a hashtag “Ni Uma Menos” teve repercussão no Chile, no Uruguai, e no Peru. No México, onde os dados sobre feminicídio são dos piores no mundo, multidões se uniram via redes sociais, com a hastag “Vivas Nos Queremos”, e tomaram as ruas no último 24 de abril para protestar contra o crime de gênero.

*Impunidade. Outro motivo pelo qual temos ocupado as ruas é que nossas denúncias não dão resultado. Superada a dificuldade tremenda que é reportar um crime de gênero (por vergonha, por falta de apoio, ou por falta de meios apropriados para tal), os resultados não são encorajadores: dos casos de violência sexual denunciados no Peru em 2011, 90% tiveram como resultado a absolvição do réu. Vou repetir: NOVENTA POR CENTO DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL DENUNCIADOS NÃO RESULTARAM EM PUNIÇÃO. As mexicanas que sofrem abusos sexuais também têm bastante dificuldade em ver suas denúncias como efetivas, já que, pelo menos até 2014, 26 entidades do país não puniam com a seriedade devida os crimes dessa natureza.

*Aborto. É inacreditável, mas em pleno 2016 o aborto ainda não é permitido na quase totalidade dos países latino-americanos. Com exceção do Uruguai, onde as mulheres podem decidir interromper a gravidez até a 12ª semana da gestação, e Cuba, primeiro a descriminalizar a prática (1979), via de regra as leis variam de limitadas (caso do Brasil e Argentina, por exemplo, onde até o momento o aborto é legalizado em casos de estupro ou de riscos à vida da gestante[3]) à bastante limitadas (como no Paraguai, onde o aborto apenas é permitido em caso de grave risco à saúde da gestante) ou até mesmo inexistentes (como no Chile, onde a prática ainda está totalmente proibida). Para além dos riscos que essas restrições impõem à saúde da mulher, já que a opção passa a ser  aborto ilegal e inseguro, o aborto legal é uma das bandeiras mais fortes do feminismo porque traz no seu cerne um dos pilares do movimento: o direito de escolher o próprio destino.

 Como estamos nos mobilizando?

Eu sei, o cenário é assustador. A realidade bruta é de deixar qualquer uma sem esperança, descrente na humanidade, revoltada, frustrada, com a dupla sensação de impotência e medo. Mas não precisa ser assim! Como eu disse antes, há um número cada vez maior de mulheres levantando a voz, expressando esses sentimentos, e se mobilizando. As mídias digitais têm sido um diferencial importante com relação aos movimentos anteriores. Hashtags, blogs, e outros fóruns na rede permitem que várias gerações de mulheres se articulem independente de uma estrutura fixa. Assim, feministas de carteirinha e jovens que nunca antes participaram de uma associação formal podem facilmente organizar passeatas, marchas, intervenções e abaixo-assinados.

Além das ruas, temos também ocupado outros espaços, como a imprensa, para que nossas vozes sejam ouvidas. Há poucos meses atrás, as peruanas se mobilizaram para deixar claro que as esterilizações forçadas de mais de 300 mil mulheres pelo governo do Fujimori não serão página virada da história, e a voz delas alcançou o mundo depois que o texto lindo da edição em Espanhol do NY Times foi traduzido. Revistas digitais como a mexicana La Que Arde, e blogs como o #AgoraÉQueSãoElas e esse nosso Cientistas Feministas também são uma ótima estratégia para ressaltar nossas demandas e oferecer uma perspectiva feminina e feminista sobre temas variados. Campanhas de consicentização que visam educar sobre questões de gênero e extirpar o machismo também vieram à tona nos últimos tempos, como o Chega de Fiu Fiu e o Guia Didático para o carnaval.

Em suma, se a realidade ainda é dura, uma coisa é certa: nós não vamos mais tolerar. As mulheres da América Latina dizem: Basta! E com isso semeamos essa primavera feminista, cujo resultado não serão apenas flores, mas mais direitos, igualdade, e respeito.

Notas

[1] Para o caso brasileiro, veja-se: SARTI, Cynthia A. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro.” Cad. Pagu, Campinas, n. 16, p. 31-48, 2001. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003 Último acesso em 15 de set. 2016.

[2] Uma boa síntese dos primeiros anos do Encuentro pode ser vista em: STERNBACH, Nancy Saporta, Navarro-Aranguren Marysa, Chuchryk Patricia, and Alvarez Sonia E. “Feminisms in Latin America: From Bogotá to San Bernardo.” Signs vol. 17, n. 2, p. 393-434, 1992. http://www.jstor.org.proxy.library.vanderbilt.edu/stable/3174469. A 14 ª edição do evento deve ocorrer em novembro de 2017, no Uruguai. Mais detalhes na página do grupo no Facebook: https://www.facebook.com/14EFLACUruguay/

[3] No Brasil, além dessas duas exceções, a prática também é permitida no caso de má formação cerebral do feto, o que não ocorre na Argentina.