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Marchar pela Ciência: sem perceber, vivemos dela todos os dias!

Se hoje você acordou quando seu despertador tocou, acendeu a luz do quarto, foi ao banheiro e deu descarga, a água saiu limpa da torneira (‘bendito’ tratamento de água!), tomou um paracetamol (ou aspirina ou outro remédio), pegou seu smartphone e deu uma olhada nas redes sociais, gostaria de te dizer que: todas essas ações só foram possíveis após pesquisas científicas. Se você olhar para cada eletrodoméstico da sua casa, se contar cada remédio ou vacina que já tomou – e por isso está viva(o) – vai entender porque lutar pela ciência é tão importante.

Para quem não é cientista, parece que a ciência é uma coisa inatingível, que aparece somente em filmes, mas a verdade é que ela está no nosso dia a dia e nós nem sempre nos damos conta. A ciência é o que move o desenvolvimento de tecnologias, o que nos faz viver mais e com mais qualidade de vida, porém estamos ameaçados pelas posturas que alguns governos estão tomando em relação a este assunto.[1]

Infelizmente, temos vivenciado cortes financeiros em ciência e tecnologia que atingem os Estados Unidos[2] e, principalmente, o Brasil. Somente neste ano, a ciência do Brasil sofreu uma redução de 44% do seu orçamento – uma perda de 2,2 bilhões de reais – o que configura o menor orçamento recebido nos últimos 12 anos (Figura 1). A notícia é tão assombrosa que foi parar na Nature, uma das mais antigas e respeitadas revistas científicas do mundo.[3,4]

Alguns dos nossos dedicados cientistas deram o seu recado em relação a esta situação. A Pesquisadora Dra. Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), escreveu cartas ao presidente em exercício, Michel Temer, e ao Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, advertindo sobre o impacto negativo que esses cortes ocasionarão na ciência e tecnologia brasileiras. O físico Dr. Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, e o pesquisador Dr. Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também destacaram o grande prejuízo que esses cortes causarão no desenvolvimento do Brasil.[3,4]

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Figura 1. Cortes drásticos no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). (Crédito da imagem: Nature) [3]

Por razão do desmantelamento da ciência brasileira e mundial, esta semana (22 a 29 de abril) é especial para todos nós. No dia 22 de abril, tivemos a Marcha pela Ciência, motivada principalmente pelos cortes de orçamento propostos à ciência dos Estados Unidos e anunciados em março pelo governo Trump. A comunidade científica mundial saiu às ruas para protestar contra os cortes de orçamento e demonstrar a importância da ciência no desenvolvimento, bem estar e saúde do planeta.

De acordo com o site Vox[7], dezenas de milhares de pessoas marcharam pela ciência em mais de 6 continentes e 600 cidades. No Brasil, a comunidade também mandou o seu recado e marchou em 23 cidades. Nossas colaboradoras do Cientistas Feministas participaram da Marcha pela Ciência e contam o que viram.

 San Diego, California, EUA (por @carmensandiego )

O descaso do presidente Trump em relação à existência do efeito estufa foi um dos grandes motivadores para muitos participantes da Marcha pela Ciência que ocorreu no dia da Terra (22 de abril). San Diego abriga diversas pequenas empresas de biotecnologia, grandes indústrias farmacêuticas, universidades e institutos de pesquisas e dessa forma, há inúmeros cientistas. Muitos destes aderiram à marcha juntamente com familiares e pessoas que dão suporte à ciência e tecnologia. Estima-se que 15.000 pessoas participaram da Marcha pela Ciência em San Diego [9]. Os temas mais comuns abordados pelas faixas e pôsteres foram as inovações e descobertas realizadas por cientistas. Dois temas apresentados foram o advento das vacinas e questão preocupante do efeito estufa, fato que pode causar grandes impactos no clima da Terra.

Figura 2. Imagens da Marcha pela Ciência em San Diego, EUA. Na foto da esquerda, um casal nos alerta que “nós temos apenas uma casa” (o planeta Terra) e, na foto da direita, um cachorro saudável agradece a ciência e nos avisa que foi vacinado. (Fotos: @carmensandiego)

Curitiba, Paraná, Brasil (por Bárbara Camargo)

Em Curitiba, a convocação para a marcha pela ciência foi um pouco tardia, mas reuniu cerca de 120 pessoas na praça Santos Andrade, sendo em sua maioria professores e pós-graduandos das Universidades Federal do Paraná (UFPR) e Tecnológica (UTFPR). Por causa dos cortes de verbas, cientistas temem que projetos de pesquisas e institutos sejam fechados e diversos bolsistas de pesquisa possam ter suas bolsas cortadas. Em vista disso, vários pesquisadores discursaram sobre as dificuldades em fazer ciência no Brasil, muitos relataram situações onde tiveram que tirar do próprio bolso a verba para dar continuidade às pesquisas científicas. Notou-se a baixa participação da comunidade e dos alunos da graduação, inferindo que muitos desses não compreendem como a população será afetada diretamente com o baixo investimento em ciência e tecnologia. Traçou-se assim uma meta: divulgar e debater sobre a importância da pesquisa científica em nosso país com toda a população!

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Figura 3. Marcha pela Ciência em Curitiba, Paraná, Brasil. Foto: Rudá Pereira.

São Paulo, SP, Brasil (por Bruna)

Em São Paulo, algumas centenas de pessoas, em sua maioria pós-graduandas(os) e professores universitários, se reuniram debaixo de chuva no Largo da Batata, na zona Oeste de São Paulo. Além do enfoque político e de discursos de importantes cientistas brasileiros, a “marcha” (que se manteve no largo) contou também com uma feira de Ciências. Stands de diversos laboratórios e centros de pesquisa do estado buscaram aproximar o público da Ciência desenvolvida no Brasil, através da exposição de materiais produzidos, como bioplásticos, e de objetos de estudo (ex. animais fixados e réplicas de crânios de hominídeos). Os discursos de pesquisadores importantes como Helena Nader, Carlos Menck, Hernan Chaimovich, Walter Neves e Eleonora Trajano foram inspiradores e destacaram a gravidade da situação de descaso que a Ciência vem sofrendo no Brasil e no mundo, com diversos cortes de investimentos e até questionamentos sobre sua relevância. A ideia de que “Ciência não é gasto, é investimento” foi ponto comum em quase todas as falas, assim como a discussão sobre importância do papel do cientista como multiplicador e divulgador de ciência. Quando a população não reconhece a importância da ciência (e de nós, cientistas), lutamos sozinhos, e a sociedade caminha para o obscurantismo e para a fragilidade da democracia.

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Figura 4. A Marcha pela Ciência em Amsterdã, Holanda, contou também com a presença de crianças segurando cartazes dizendo que “a ciência é o nosso futuro”. (Foto: Simon E. Fisher)

 

Especialmente durante esta semana, convido vocês a passar pelo site da “March for Science” onde outras ações colaborativas estão descritas para ajudar na divulgação e na conscientização da importância da ciência para a população mundial.

Referências:

[1] https://www.washingtonpost.com/opinions/the-war-on-science-doesnt-just-hurt-scientists-it-hurts-everyone/2017/04/21/dd243fe0-26ba-11e7-bb9d-8cd6118e1409_story.html?utm_term=.a3e9f85a0e59

[2] http://www.nature.com/news/us-science-agencies-face-deep-cuts-in-trump-budget-1.21652

[3] http://www.nature.com/news/brazilian-scientists-reeling-as-federal-funds-slashed-by-nearly-half-1.21766#/Drastic

[4] http://ciencianautas.com/cortes-na-ciencia-no-brasil-viram-assunto-na-revista-nature/

[5] https://www.marchforscience.com/blog

[6] http://www.sciencemag.org/news/2017/04/march-science-live-coverage?utm_source=newsfromscience&utm_medium=facebook-text&utm_campaign=marchliveblog-12588

[7] http://www.vox.com/2017/4/23/15395786/march-for-science-world

[8] http://veja.abril.com.br/ciencia/marcha-pela-ciencia-23-cidades-do-brasil-protestam-neste-sabado/

[9] http://www.sandiegouniontribune.com/news/environment/sd-me-science-march-20170422-story.html

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Como uma bactéria pode influenciar o oceano, o clima global e até a evolução?

As cianobactérias são bactérias com capacidade de fazer fotossíntese, e são encontradas em ambientes aquáticos. Representantes do gênero Prochlorococcus são os seres unicelulares fotossintetizantes mais abundantes nos oceanos: estima-se que sejam responsáveis por fazer 5% de toda a fotossíntese que ocorre no planeta. Essa significativa contribuição pode ter influenciado o processo de explosão de vida nos oceanos e o aumento do O2 atmosférico em torno de 400 milhões de anos atrás, favorecendo a transição da vida aquática para a terra.

Apesar de seu pequeno tamanho, estudos apontam que algumas espécies desse gênero possuem um genoma composto por 80 mil genes, isso equivale a um genoma 4 vezes maior que o da espécie humana. Essa grande variabilidade genética ocorre devido à presença de “ilhas” (conjuntos de genes) que podem ser expressos ou não, de acordo com o habitat em que a bactéria se encontra, conferindo maiores chances de adaptações em resposta às mudanças ambientais. Essa variabilidade lhes proporciona a capacidade de ocupar diversos habitats marinhos, desde regiões de superfície até regiões onde a disponibilidade de luz é reduzida. Além disso, sua distribuição ocorre em locais desde o hemisfério sul até o norte, em todos os oceanos. Devido a essa “onipresença”,esses organismos favorecem o surgimento de outras espécies em locais com condições desfavoráveis para a vida, uma vez que servem como fonte de alimento em regiões pobres de nutrientes.

As principais descobertas sobre a importância ecológica e a biologia do gênero Prochlorococcus foram feitas ao longo dos 35 anos de carreira da Dra. Penny Chisholm e sua equipe. No início de sua carreira, no departamento de engenharia civil do MIT em Cambridge, ela passou por diversos obstáculos científicos e culturais, por ser a única mulher e bióloga no departamento. Esses obstáculos a levaram a ser militante, participando ativamente, em 1995, na criação de um comitê responsável por coletar dados referentes à discrepância de salários entre gêneros, tamanho de laboratório e cargos ocupados por pesquisadoras, levando recomendações para a administração do MIT com o intuito de reduzir a discriminação.

A carreira de Chisholm mostra os desafios que as mulheres encontram dentro do ambiente acadêmico. Apesar disso, suas descobertas foram pioneiras na oceanografia, como o seqüenciamento genético de microrganismos quando isso era inédito, sua paixão por esses microrganismos  e a forma como a pesquisadora conseguiu conciliar o desenvolvimento de sua pesquisa, aliada ao ativismo são fonte de inspiração.

Fonte:
Meet the obscure microbe that influences climate, ocean ecosystems, and perhaps even evolution

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Fístula Obstétrica e a violação de direitos

A fístula obstétrica consiste num orifício entre e a vagina e a bexiga e/ ou reto, resultante da necrose dos tecidos por compressão da cabeça do feto numa circunstância de trabalho de parto demorado (UNFPA, 2013).  Esta complicação ocorre devido ao acesso precário aos serviços de saúde no parto, sendo que mulheres que moram em zona rural, sem serviços e sem transporte são as mais expostas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a fístula obstétrica afeta mais de 2 milhões de mulheres no mundo, principalmente nos países localizados na África e na Ásia. O perfil de mulheres mais afetadas inclui mulheres e meninas em situação de pobreza, com baixa escolaridade e que na maioria das vezes vivenciam o casamento forçado e a gravidez prematura.

Mulheres e o isolamento social

São várias as consequências, desde incontinência urinária e/ou fecal constante através da vagina, causando um odor desagradável e podendo gerar ulcerações ou queimaduras nas pernas, ou até mesmo consequências mais graves como a morte materna, pois a situação pode levar a uma septicemia (infecção generalizada). Após a complicação, as mulheres e meninas com fístula obstétrica vivenciam o isolamento social.

As mulheres também são afetadas psicologicamente por conta dos danos causado pela fístula e da rejeição social e isolamento. Muitas acabam por ser abandonadas pelos maridos, pela família e pela comunidade, que as discriminam por não aguentar o odor constante da urina e das fezes.

Os maridos abandonam as mulheres/meninas para procurar outra mulher “saudável”, e essas não podem retornar à família de origem porque dentro deste contexto cultural as mulheres pertencem ao marido após o casamento, e o destino delas é determinado por ele.

O filme “Dry”

Dry é um filme nigeriano que trata sobre o assunto da fístula obstétrica e tudo que cerca esta complicação: o casamento forçado de meninas, a gravidez precoce, a solidão e a discriminação, assim como o ativismo pelos direitos humanos de mulheres e meninas que estão nesta situação.

O filme narra a história de uma menina de 13 anos de idade, cujos pais pobres, sem escolaridade, a oferecem para casar com um homem de 60 anos, que constantemente a estupra. A garota fica grávida e sofre fístula obstétrica após o parto. Consequentemente, é abandonada pelo marido e discriminada pela sociedade. A médica, outra personagem que também sofreu na adolescência, salva outras mulheres jovens sob as mesmas circunstâncias.

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Imagem: Cartaz do Filme Dry

São muitas as questões que merecem ser discutidas no filme, mas duas passagem destaco aqui. Primeira: quando a menina está sozinha, uma das esposas do marido que a abandonou leva comida pra ela, a encontra chorando e pergunta o que ela quer: “quero minha infância de volta, queria sorrir novamente, cantar, sentar com meu pai e minha mãe, você pode me dar isso?” indaga a menina. A segunda passagem que vale a pena ser destacada é quando a medica nigeriana que foi vítima da fístula obstétrica diz, ao denunciar a situação de descaso/violência/violação no parlamento: “antes de ser mulher somos seres humanos, não somos objetos e queremos viver nossa infância de forma plena”.

Destaco estas duas passagens no diálogo com o texto para evidenciar o quanto as violências causadas pelas desigualdades de gênero expõem as mulheres desde sua infância, com o destino traçado por culturas machistas e patriarcais.

Medidas de Erradicação da Fístula Obstétrica

Estima-se que existam pelo menos dois milhões de mulheres afetadas por esta condição, e a cada ano há entre 50 mil e 100 mil novos casos, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas. A fístula obstétrica pode ser considerada um indicador de desigualdade de gênero, de saúde e de pobreza.

São necessários investimentos de diversas ordens para a erradicação da fístula obstétrica, incluem medidas relacionadas aos serviços de saúde, como ampliação de serviços de saúde reprodutiva, serviços especializados e treinamentos de profissionais de saúde e dos médicos para a realização da cirurgia (que tem mais de 90% de sucesso). A cirurgia para tratamento da fístula obstétrica consiste em fechar o orifício criado durante o longo parto, possibilitando que a bexiga volte ao seu funcionamento normal.

A garantia da igualdade de gênero e equidade de direitos para mulheres e meninas, com a erradicação do casamento forçado e do analfabetismo e a eliminação da pobreza. Segundo as Nações Unidas o número de mulheres e meninas casadas durante suas infâncias poderá chegar a 1 bilhão em 2030. Neste sentido, a eliminação do casamento infantil faz parte da meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (2015-2030), juntamente com a eliminação de outras práticas nocivas às mulheres.

Desta forma, é importante relembrar das agendas de Cairo (Conferencia Internacional sobre População e Desenvolvimento, 1994), que asseguram a integridade à saúde sexual e reprodutiva de mulheres e meninas, e de Pequim (Conferência Mundial sobre as Mulheres, 1995) com vistas às correções de injustiças sociais e reprodutivas.

Visibilidade a todo tipo de violência e violação das Mulheres no Mundo. Se a tradição, a cultura, ou qualquer outra coisa neste sentido, viola o direito à vida e a dignidade humana, contradizendo direitos humanos fundamentais de mulheres e meninas, estes devem ser erradicados. E se nós vendamos os olhos para situações como estas estamos extinguindo a humanidade.

Referencia

UNFPA. Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento de Fístula Obstétrica. Moçambique. 2013.

UNFPA. Mensagem por ocasião do Dia Internacional pelo Fim da Fístula Obstétrica. 2015.

Link

Dia Internacional pelo fim da Fístula Obstétrica

 

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Soldados negros no Caribe inglês

     Faz tempo que historiadores dos impérios espanhol e francês nas Américas escrevem sobre a participação de afrodescendentes nos exércitos coloniais. Sabe-se, por exemplo, que os espanhóis fomentaram milícias de “pardos y morenos” em várias de suas colônias, notadamente nas do Caribe, onde a população afrodescendente era expressiva. Igualmente, nas colônias francesas, homens livres de cor compunham a quase totalidade da polícia e exército coloniais. Durante as guerras de independência na América espanhola, homens escravizados foram recrutados tanto por revolucionários quanto por monarquistas para lutarem, em um e outro lado dos confrontos, em troca de liberdade. Também no império do Brasil a liberdade a escravos e a indenização a seus antigos senhores foi utilizada como tática para arregimentar homens para lutar na Guerra do Paraguai. [i] Já para o caso do império britânico, pouco ou quase nada se tinha escrito sobre o assunto – até agora.

     No artigo “‘Of equal or of more service’: black soldiers and the British Empire in the mid-eighteenth-century Caribbean”, publicado em novembro último na revista Slavery & Abolition, Maria Alessandra Bollettino oferece uma análise detalhada acerca da participação de afrodescendentes—escravizados, libertos e livres—no exército colonial britânico durante as guerras caribenhas do século XVIII.[ii] Mais especificamente, Bollettino examina dois conflitos que tiveram lugar na primeira metade do século XVIII: a Guerra da Orelha de Jenkins (1739-1748) e a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), para provar que, desde o início dos setecentos, colonos ingleses no Caribe reconheceram as vantagens em utilizar soldados negros em suas empreitadas imperiais. A maior parte dos estudiosos acreditava que os colonos ingleses das ilhas caribenhas eram mais céticos do que os espanhóis, franceses e portugueses quando se tratava de armar a população escravizada; a narrativa dominante era que, antes das revoluções Estadunidense e Francesa—portanto, antes dos anos 1770—, os britânicos apenas armaram a população afrodescendente em momentos críticos e emergenciais.

     Segundo a autora, esse consenso historiográfico deriva de uma interpretação equivocada que adotou a visão dos senhores de escravos do que viria a ser o Sul dos Estados Unidos e, de forma acrítica, a trasladou para o resto do império britânico. Esses senhores eram notadamente contrários à ideia de armar escravos, a quem descreviam como inimigos internos, e, segundo Bollettino, essa retórica foi utilizada por outros historiadores no passado para explicar a ausência de milícias organizadas nas colônias inglesas de modo geral, tanto na América do Norte quanto no Caribe, o que contrastava com as espanholas e francesas, nas quais, conforme se mencionou acima, milícias e tropas regulares compostas por afrodescendentes eram mais a norma do que a exceção.

    Utilizando diários de oficiais militares e correspondência de governadores e secretários de estado, a pesquisadora narra como os britânicos reconheceram a necessidade de engrossar seu contingente com soldados negros ao serem confrontados com derrotas para rivais franceses e espanhóis que utilizavam não-brancos em suas forças defensivas. Em campanhas importantes durante a Guerra da Orelha de Jenkins, tais como as ofensivas contra a Martinica (francesa) e Cartagena (espanhola), as tropas tradicionais inglesas saíram perdendo. Gradualmente, tanto pelo número escasso de soldados brancos, quanto pelo “aprendizado” adquirido nesses confrontos, oficiais ingleses começaram a recrutar afrodescendentes livres ou libertos, e os governantes passaram a solicitar que senhores cedessem ou emprestassem seus escravos para batalhas. Já durante a Guerra dos Sete Anos, soldados negros foram essenciais para o sucesso de campanhas importantes, como a ocupação e conquista de Havana em 1762.[iii]

     A pesquisa revela que, ao contrário do que a historiografia pressupunha, governantes e súditos britânicos não evitaram que a população afrodescendente pegasse em armas antes da segunda metade do século XVIII. Pelo contrário, os resultados apontam para o reconhecimento da utilidade e importância de armar essa população para o sucesso das guerras imperiais que dominaram o início dos setecentos. E revela, inclusive, um esforço deliberado para fazê-lo. Consequentemente, Bollettino desaconselha tomar a opinião de um grupo específico de súditos escravistas ingleses (no caso, senhores da Virgínia e da Carolina do Sul) como representativa dos senhores ingleses no império de modo geral. Aliás, a historiadora conclui que um ajuste espacial e temporal faz-se necessário para entender a incorporação de afrodescendentes nas tropas coloniais britânicas: olhar para o Caribe da primeira metade do século XVIII, e não para a Guerra de Independência Estadunidense na segunda metade do mesmo.

Referências:

[i]Para o caso espanhol, veja-se: Jane Landers, “Transforming Bondsmen into Vassals: Arming Slaves in Colonial Spanish America”, in: Christopher L. Brown, Philip D. Morgan (eds.) Arming Slaves from Classical Times to the Modern Age. New Haven: Yale University Press, 2006; Ben Vinson, Bearing Arms for His Majesty: The Free-Colored Militia in Colonial Mexico. Stanford: Stanford University Press, 2002; BLANCHARD, Peter. Under the Flags of Freedom: slave soldiers and the wars of independence in Spanish South America. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2008.   Para o caso francês: DUBOIS, Laurent. “Citizen Soldiers: Emancipation and Military Service in the Revolutionary French Caribbean”. IN: Arming Slaves from Classical Times to the Modern Age; GARRIGUS, John, Before Haiti: Race and Citizenship in French Saint Domingue. New York: Palgrave Macmillan, 2006. Para o império do Brasil: SALLES, Ricardo, Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; MOREIRA, Paulo Roberto Moreira, Voluntários Negros da Pátria: O recrutamento de escravos e libertos na Guerra do Paraguai. In: POSSAMAI, Paulo Cesar. Gente de guerra e fronteira. Pelotas: Aires, UFPEL, 2010; Maria Odila Silva Dias, André Rebouças Diário. A Guerra do Paraguai (1866). São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros da USP, 1973.

[ii]Maria Alessandra Bollettino (2016): “‘Of equal or of more service’: black soldiers and the British Empire in the mid-eighteenth-century Caribbean”. IN: Slavery & Abolition, 2016. DOI: 10.1080/0144039X.2016.1251057 Última consulta em 18/abril/2017.

[iii]Sobre a ocupação inglesa de Havana, veja-se também: PARCERO TORRE, Celia. La pérdida de La Habana y las reformas borbónicas en Cuba (1760-1773). Valladolid: Consejería de Educación y Cultura, 1998; HART, Francis R. The Siege of Havana, 1762. Cranbury: Scholar’s Bookshelf, 2005; VÁZQUEZ CIENFUEGOS, Sigfrido. “La Habana británica: Once meses claves em la historia de Cuba.” IN: MARTÍN ACOSTA, Emelina; PARCERO TORRE, Celia; SAGARRA GAMAZO, Adelaida, (Coords), Metodología y nuevas líneas de investigación de la Historia de América. Universidad de Burgos, 2001, pp. 131-147. Disponível online em: http://digital.csic.es/bitstream/10261/18230/1/La%20Habana%20Brit%C3%A1nica.pdf

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A Rainha do Carbono: um conto de fadas de luta e sororidade

No dia 20 de fevereiro de 2017 Mildred Dresselhaus respirou pela última vez na superfície do nosso planeta. Ela, conhecida como “rainha do carbono”, morreu aos 86 anos ao lado da família, na cidade de Boston. Mas nesse texto não quero lamentar a morte e sim celebrar a vida e a carreira dessa deusa maravilhosa.

“Mildred S. Dresselhaus, célebre e amada professora do MIT, cuja pesquisa ajudou a desvendar os mistérios do carbono, o mais fundamental dos elementos orgânicos – que lhe valeu o apelido de “rainha da ciência do carbono” – morreu aos 86 anos.”

– Massachusetts Institute of Technology (MIT) News

Tudo começou há um tempo atrás, na ilha do sol no Bronx

Eu poderia começar essa parte com “Mildred nasceu em 1930 no Bronx em Nova Iorque. Era filha de imigrantes poloneses que viajaram para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades” mas eu vou começar com: não estava sendo fácil pra nossa princesa.

Em 1930 o bicho estava pegando MESMO nos Estados Unidos porque era o início da Grande Depressão. E nossa heroína não começou a vida estudando em grandes escolas, ok? Ela estudou em escolas simples, de bairro mesmo, talvez com pichações de “Mary, I love you” de corretivo branco nas paredes do banheiro (só que em 1940 ainda não existia corretivo. O corretivo líquido foi inventado em 1951 por uma secretária norte americana chamada Bette Graham que não curtia muito aquele negócio de lápis-borracha).

O irmão de Mildred recebeu uma bolsa de estudos para uma escola de música e ela pensou  “O QUÊ?! Como assim ele vai estudar mais que eu?!”. Aí ela estudou muito e conseguiu uma bolsa de estudos aos 13 anos na “Hunter College High School for girls” que era, como dizemos hoje em dia, TOP. Faustop talvez. Topster, eu diria.

livro do ano

Livro do ano de Mildred Spiewak: 
Qualquer equação ela pode solucionar
Todos os problemas ela pode resolver
Mildred iguala cérebro e diversão
Em matemática e ciência, ela é inigualável
(uma querida, né? Queria que ela fosse minha amiga)

Ela estudava muito, muito mesmo. Dava aulas particulares para as alunas ricas, etc. Mas vocês imaginem que, se em 2017 a gente tem que enfrentar esse mar de chorume, em meados dos anos 1940 a vida de uma moça pobre e imigrante não era fácil. Os professores falaram com Mildred “nossa, você é tão inteligente, se continuar assim pode ATÉ conseguir trabalhar como secretária”. Aí vai chover hater aqui falando que eu tenho alguma coisa contra o emprego de secretária e não é o caso. A questão é que Mildred queria seguir uma carreira diferente, uma carreira na ciência. E se isso é difícil de imaginar pra muitas meninas até hoje… Imagina naquela época.

                Mas como todas as princesas têm uma fada madrinha, a nossa não poderia ser diferente.  E nessa história a fada madrinha era ninguém menos que Rosalyn Yalow, ganhadora do Nobel de Fisiologia e Medicina pelo desenvolvimento da técnica de radioimunoensaio. E o vestido de baile era um jaleco. E os sapatinhos de cristal eram luvas de segurança. E vocês já entenderam a analogia. Rosalyn, que era física e estudava fenômenos da área médica, percebeu que Mildred era muito talentosa e a incentivou a continuar seus estudos.

Rosalyn Yalow

Rosalyn Yalow torcendo pra nada explodir no laboratório, como todas nós.

(Sabe quando o filme passa um pouco rápido para contar o desenvolvimento da história e não cansar ninguém? Chegou esse momento.)

Mildred se formou em 1951 na Universidade de Hunter com as honras as mais altas possíveis e passou um ano estudando na Universidade de Cambridge, Inglaterra.

(Aqui vocês imaginem ela bem sorridente com um lenço bonito no pescoço descendo de um avião com óculos de gatinha)

Voltou aos Estados Unidos depois de alguns anos para ganhar seu grau de mestre na Faculdade de Radcliffe em Cambridge, Massachusetts em 1953. Em 1958 obteve seu doutorado Na Universidade de Chicago, Illinois.

(Nessa parte vocês imaginem aí Mildred recebendo diploma atrás de diploma com umas vestes de honra)

Foi no seu doutorado que começou sua pesquisa com supercondutores, um tópico quente na física em Illinois . Essa escolha a conduziu a seu encontro com o físico Gene Dresselhaus, com quem casou em 1958.

(Nessa parte pensem em Mildred trombando com um rapaz alto de óculos nos corredores da universidade e seus livros caindo no chão, ele a ajuda a recolher os livros e eles sorriem um para o outro)

Mas, infelizmente, o chorume dessa história não acabou lá em 1945.

Dois anos depois do casamento, Mildred e Gene foram trabalhar no Laboratório Lincoln do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).  Esse instituto era horrorosamente dominado por homens que achavam que Mildred não ia dar conta do recado. Dessa forma ela acabou estudando um novo campo, a magneto-óptica, em vez de seguir a multidão que investigava os semicondutores. Mildred começou a estudar o – menos competitivo – grafite.

Se você não pode lutar contra eles, faça uma pesquisa muito mais relevante que a deles.

Alguém falou uma vez que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, vocês podem procurar no Google se quiserem. Mas aqui nós sabemos perfeitamente a razão que levou o coração de Mildred pra sua área de estudos. Uma razão que nós conhecemos como:

macho chato

Mas não era um. Era uma cacetada. Um sextilhão. Sabe seu colega de faculdade que falou que mulher tem pouca visão espacial? Sabe aquele  cara que perguntou pro Neil deGrasse Tyson por que existem poucas mulheres da ciência? Pois é. Um departamento cheio desses chorumeiros. Mildred e Gene tiveram quatro filhos e ninguém acreditava que ela, mãe-cientista, seria capaz de guiar uma pesquisa de grande impacto. Dessa forma Mildred focou sua pesquisa no grafite e usou o próprio cabelo pra descer da torre mais alta do castelo mais alto e ganhar o mundo. (Vocês estão cansados das comparações com contos de fadas? Ela é a Rainha do Carbono, não dá pra escapar, ok?)

Todo o descrédito recebido por Mildred acabou quando ela obteve amostras de um novo material de carbono sintético chamado carbono pirolítico. Esse material é semelhante  ao grafite, mas com algumas ligações covalentes entre as suas folhas de grafeno, como resultado de imperfeições na sua produção.

carvão pirolitico
Micrografias de tubos de carvão não-pirolítico e pirolítico respectivamente.

Fonte: Tratamentos para obtenção de TaC em superfície de grafite 

Além de sintetizar o material, ela conseguiu também espectros de alta qualidade e uma compreensão da simetria especial do grafite. Esses avanços fizeram com que Dresselhaus caracterizasse suas estruturas com muito mais precisão do que a havia sido alcançada anteriormente.

O último artigo com a participação de Mildred foi publicado em 25 de janeiro de 2017 e se chama  Electron energy can oscillate near a crystal dislocation em tradução livre: Energia de elétrons podem oscilar perto de uma deslocação (i.e. luxação) de cristal. Neste artigo, Mildred e seus colaboradores tratam de como luxações de cristal governam as propriedades mecânicas plásticas dos materiais e afetam também propriedades elétricas e óticas. Eles apresentam uma teoria de campo quântica unidimensional de uma luxação. Essa teoria possibilita o estudo direto do tempo de relaxação elétron-luxação a partir do cálculo de energia de elétrons, que é redutível a resultados clássicos. Ou seja, como as luxações sofridas por cristais interferem em suas propriedades. Mas o estudo dessas interferências só era possível usando equações e proposições da mecânica quântica e com a teoria de Mildred, a solução pode ser reduzida (entendida) através de proposições da física clássica, o que facilita bastante o estudo.

Continuando a história de nossa heroína e como ela se tornou uma rainha, vamos ao ano de 1966. Naquele ano foi decidido que todos os pesquisadores do Lincoln Lab, onde Mildred e Gene trabalhavam, deveriam começar a trabalhar às oito horas da manhã. E quem criou essa regra, obviamente, não foi uma mãe de sete filhos menores de 7 anos. Mas, felizmente, graças aos estudos com o carbono pirolítico, Mildred se tornava cada vez mais conhecida no meio  acadêmico. Alguns professores e pesquisadores trabalharam à favor de Mildred e ela foi indicada para ao departamento de Engenharia Elétrica do MIT, sob o Fundo Abby Mauze Rockefeller – criado para gerar bolsas para mulheres na ciência e engenharia. Dessa forma Midred foi a primeira mulher a se tornar professora permanente no departamento de engenharia do MIT em 1968.

As jóias da Coroa

mildred-dresselhaus

Mildred sendo fofa mostrando a estrutura de um nanotubo de carbono

                Como as pesquisas de Mildred eram muito relevantes, ela ganhou o apelido carinhoso de Rainha do Carbono. Ela foi, sem dúvida, modelo e mentora para muitas jovens cientistas. Ela se tornou chefe do Centro de Ciência e Engenharia de Materiais do MIT em 1977, tornou-se Professora de Física em 1983 e Professora do Instituto de Física em 1985. Recebeu várias honrarias como a Medalha Nacional de Ciência dos EUA em 1990 e, em 2014, o Presidente Barack Obama conferiu a Mildred a Medalha Presidencial da Liberdade.  Além disso a Professora Dresselhaus serviu como tesoureira da Academia Nacional de Ciências dos EUA, presidente da American Physical Society e da Associação Americana para o Avanço da Ciência.

medalha da liberdade (Mildred Dresselhaus recebe a Medalha Presidencial da Liberdade do Presidente Barack Obama em 2014.)

Mildred Dresselhaus recebendo a Medalha Presidencial da Liberdade do Presidente Barack Obama em 2014 e sendo fofa mais uma vez

Sobre a vida e morte de Mildred o jornal The New York Times escreveu um grade artigo arrematado pela seguinte frase “Ela publicou mais de 1700 artigos científicos, co-escreveu oito livros e reuniu uma pilha de elogios tão gordos quanto um nanotubo é bom” e, mais do que isso, deixou a certeza que o feminismo funciona. A vida dessa pesquisadora nos mostrou que lugar de mulher é onde ela quiser, seja em casa cuidando de quatro filhos ou à frente de um departamento de pesquisa do MIT.   Mildred ensinou, pelo exemplo, que podemos ser mulheres, mães, cientistas e que nada nem ninguém tem direito de encapsular os nossos sonhos.

Referências

  1. IZARIO Fº, H. J. et al . Tratamentos para obtenção de TaC em superfície de grafite. Parte I: Imersão em solução aquosa de TaF7(2-).Cerâmica,  São Paulo ,  v. 47, n. 303, p. 144-148,  Sept.  2001 .   Available from . access on  14  Apr.  2017.  http://dx.doi.org/10.1590/S0366-69132001000300003.
  2. DRESSELHAUS, Mildred S.; MAVROIDES, John G. The fermi surface of graphite.IBM Journal of Research and Development, v. 8, n. 3, p. 262-267, 1964.
  3. LI, Mingda et al. Electron energy can oscillate near a crystal dislocation. New Journal of Physics, v. 19, n. 1, p. 013033, 2017.
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Fitoterapia no SUS

O Brasil é dono de uma das maiores biodiversidades do mundo: estima-se que 20% do total de espécies do planeta encontram-se em território brasileiro. Essa grande biodiversidade somada à pluralidade étnica e cultural, faz do país uma fonte riquíssima de subsídios para o estudo da farmacognosia, o ramo da farmacologia responsável pelo estudo dos princípios ativos de origem natural, seja ela animal, vegetal, mineral ou de fungos, por exemplo. Dentre esses objetos de estudo da farmacognosia, destacam-se os fármacos de origem vegetal, que são utilizados pela humanidade desde os seus primórdios.

No imaginário popular, substâncias ou preparados retirados de plantas trazem apenas benefícios e, por isso, poderiam ser consumidos sem supervisão de um profissional da saúde.  Essa ideia é equivocada por diversos motivos, por exemplo pela facilidade de se confundir espécies medicinais com espécies venenosas (o filme “Na Natureza Selvagem” traz um ótimo exemplo desse problema), além de dificuldades de dosagem e diagnóstico da doença que se quer tratar. Isso somado a conceitos confusos sobre a utilização/preparação das plantas medicinais, pode causar empecilhos para o desenvolvimento e consumo de medicamentos fitoterápicos. Medicamentos fitoterápicos são obtidos a partir de plantas medicinais e possuem eficácia, segurança e controle de qualidade validados, e tendo em vista a importância das plantas medicinais na medicina popular, a OMS recomenda aos Estados a elaboração de políticas nacionais voltadas para a padronização da produção e uso dos fitoterápicos.

No Brasil, o Ministério da Saúde criou em 2006 a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPICS), em conformidade com as orientações da OMS, trazendo para o SUS sistemas médicos e práticas terapêuticas como a fitoterapia, a acupuntura, a homeopatia, a medicina antroposófica, entre outros. No mesmo ano, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, em conformidade com a PNPICS, torna institucional a necessidade de implantação do uso de fitoterapia nos tratamentos de atenção primária à saúde e prevenção de doenças, com o objetivo de “garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional”. O intuito é promover o fomento da pesquisa sobre plantas medicinais, controle da qualidade e produção dos fitoterápicos, além de promover o uso sustentável e socialmente responsável ao longo da cadeia produtiva, de acordo com o proposto:

  • “Inserir plantas medicinais, fitoterápicos e serviços relacionados à Fitoterapia no SUS, com segurança, eficácia e qualidade, em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS.
  • Promover e reconhecer as práticas populares e tradicionais de uso de plantas medicinais e remédios caseiros.
  • Promover a inclusão da agricultura familiar nas cadeias e nos arranjos produtivos das plantas medicinais, insumos e fitoterápicos.
  • Construir e/ou aperfeiçoar marco regulatório em todas as etapas da cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos, a partir dos modelos e experiências existentes no Brasil e em outros países, promovendo a adoção das boas práticas de cultivo, manipulação e produção de plantas medicinais e fitoterápicos.
  • Desenvolver instrumentos de fomento à pesquisa, desenvolvimento de tecnologias e inovações em plantas medicinais e fitoterápicos, nas diversas fases da cadeia produtiva.
  • Desenvolver estratégias de comunicação, formação técnico-científica e capacitação no setor de plantas medicinais e fitoterápicos.
  • Promover o uso sustentável da biodiversidade.”

A implementação dessas práticas busca ampliar a oferta de serviços e produtos relacionados à fitoterapia no SUS, de forma segura, eficaz, racional e com controle de qualidade, através da mediação de profissionais de saúde, considerando o paciente em sua singularidade e inserção sociocultural. Também verifica-se a importância de favorecer os estudos em torno da biodiversidade, beneficiando as instituições de pesquisa e indústria farmacêutica brasileiras, visando promover o uso sustentável da biodiversidade e assegurando a proteção dos conhecimentos tradicional e popular associados.

Referências:
ANVISA
DI STASI, L. C. Plantas medicinais: arte e ciência
Ministério da Saúde
Portal Saúde


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Desenvolvimento socioeconômico e conservação podem coexistir nas áreas protegidas

As áreas protegidas (AP) são a principal estratégia mundial de preservação dos recursos biológicos, contudo variam consideravelmente em sua eficácia e frequentemente são tidas como causas de impactos negativos a alguns grupos sociais. Esses aspectos contribuíram para um debate intenso e praticamente inconcluso sobre a compatibilidade entre os objetivos de desenvolvimento ambientais e socioeconômicos.

Esclarecer a relação entre os impactos sociais negativos e positivos e os resultados de preservação das APs é essencial para o desenvolvimento de uma estratégia de conservação da natureza mais efetiva e justa socialmente. Diversos cientistas tem se debruçado sobre essa temática na tentativa de esclarecer o debate bem como de demonstrar e analisar experiências exitosas ou fracassadas.

Ano passado (2016) foi publicada na Conservation Biology, uma meta-análise com o objetivo de avaliar como as áreas protegidas afetam o bem-estar das populações locais, as características associadas a esses impactos e, principalmente, a relação entre os resultados socioeconômicos e de conservação biológica dessas áreas.

A particularidade e importância do artigo de Oldekop et al., estão justamente no fato de transcenderem o âmbito local e estrito dos estudos de caso (que é como costumam se desenvolver as pesquisas referentes dessa discussão) propondo uma análise global. Foram utilizados dados de 160 APs (terrestres e marinhas), distribuídas em seis continentes e representativas de todas as categorias de manejo e governança estabelecidas pela IUCN (International Union for Conservation of Nature).

O estudo foi divido basicamente em três etapas: foi quantificado e determinado como as características geográficas físicas e de gestão das áreas protegidas estão associadas aos impactos sociais (tabela abaixo); em seguida foi avaliado como tais fatores são associados nas APs em geral e com seus resultados socioeconômicos e de conservação da biodiversidade; e, por fim, se esses dois tipos de resultados são contrastantes ou se associam positivamente.

Tabela 1: Associação entre as características físicas, geográficas e de gestão das APs com impactos sociais.

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Fonte: Oldekop et al. 2016.

Para compor o arcabouço teórico foi criado um banco de dados de artigos revisados por pares por meio de pesquisa sistemática. A busca inicial partiu de 1635 estudos, que foram submetidos a critérios específicos e precisos de seleção, resultando em uma amostra final de 171 artigos referentes a 160 APs.

Os resultados dos cruzamentos de dados vêm reafirmar a quebra do paradigma da preservação ambiental somente a partir de instituição de ilhas isoladas. Foi verificado que as APs que apresentaram benefícios socioeconômicos para populações habitantes delas ou de seu entorno também eram mais propensas a apresentar resultados positivos de conservação e esses benefícios socioeconômicos eram mais prováveis quando as APs eram administradas em regime de uso sustentável dos recursos, em vez de reforçar a proteção estrita dos recursos biológicos.

O estudo apresentou que a conservação efetiva está ligada aos bons resultados socioeconômicos de forma mais confiável do que às características físicas e de manejo das APs. Estas últimas certamente desempenham um importante papel na determinação dos resultados positivos de conservação, mas os autores demonstram evidências de que a atenção dada a tais características não deve se dar à custa da qualidade do desenvolvimento socioeconômico local.

Outro ponto importante dos resultados está no âmbito da governança estabelecida nas APs.  A pesquisa fornece evidências de que a gestão compartilhada entre comunidade local e órgãos especializados em conservação traz maiores benefícios a essas populações do que quando realizada somente pelas comunidades ou pelo Estado.  Assim, sugerem que as iniciativas de AP que visam produzir resultados socioeconômicos e de conservação conjuntos devem considerar contextos socioeconômicos e políticos regionais específicos, apoiar acordos de co-gestão que promovam a capacitação das populações locais junto a outras instituições, reduzir as desigualdades na distribuição desses benefícios , e ajudar a manter os benefícios culturais e de subsistência das APs locais.

Apesar da escala de análise ser bastante pretensiosa, o estudo desenvolvido traz pontos importantes do debate das áreas protegidas propondo o cruzamento de dados socioeconômicos e de conservação. Isto é, já parte de outro ponto de vista, do novo paradigma: onde a preservação ambiental não se desenvolve somente a partir da natureza intocada; mas que ela está diretamente atrelada às populações locais, questão deve ser considerada para que as estratégias mudem e se construa uma política pública mais eficiente.

Artigo na íntegra:

OLDEKOP, J. A.; HOLMES, G.; HARRIS, W.E.; EVANS, K. L. A global assessment of the social and conservation outcomes of protected areas. Conservation Biology v. 30, n. 1, p. 133–141 , 2016.

Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/cobi.12568/full