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De vilão a aliado! O uso do zika vírus no tratamento de alguns tipos de Cânceres

O zika vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, e é geralmente associado a problemas de saúde, principalmente por causar danos neurodegenerativos em recém-nascidos. No entanto, o Journal  Cancer Research- uns dos mais prestigiado da área- publicou uma pesquisa que aponta o uso do zika vírus como um potencial tratamento para câncer que atingem as células do sistema nervoso central.

A pesquisa está sendo realizada pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), segundo o artigo o zika vírus tem uma muita afinidade com o cérebro de recém nascidos, caso a gestante esteja infectada com o vírus, pode ocorrer que no início da fecundação o zika vírus infecte as células células tronco responsáveis pela formação do  sistema nervoso do bebê, aumentando o potencial destrutivo do vírus e causando danos cerebrais graves como microcefalia. No caso das células tumorais, algumas possuem suas próprias células-tronco, que fazem os tumores se multipliquem e se espalharem pelo organismo. Os pesquisadores observaram semelhanças entre as células-tronco tumorais presentes no sistema nervoso com as células neurais saudáveis, e resolveram  investigar se o zika vírus seria capaz de infectar as células de câncer da mesma forma que infectam as células neurais saudáveis.

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Mosquito Aedes aegypti, que transmite dengue, zika e chikungunya

Fonte: Pref. de Pontal do Paraná/PR

Primeiramente foi realizado um estudo in vitro em diferentes tipos de células tumorais como células de câncer de mama, próstata e intestino, além de células tumorais do sistema nervoso central. Os pesquisadores notaram que o zika vírus apenas infecta as células tumorais  do sistema nervoso central.  O próximo passo foi infectar com o zika vírus células saudáveis do sistema nervoso e células tumorais do mesmo sistema. Nessa etapa os pesquisadores observaram que zika possui uma afinidade maior pelas tumorais, o que torna o resultado bastante animador, visto que o intuito da pesquisa e destruir as células de câncer presente no sistema nervoso central. Por último, foi realizado um ensaio in vivo, onde foi avaliado o efeito do zika vírus em animais. O câncer regrediu presente nos ratos que foram infectados zika vírus. Em  alguns casos, de ratos em estado de metástases (onde a doença acaba se espalhando para diferentes órgãos) as células pararam de se espalhar, estagnado o câncer. Outro fator positivo foi que os ratos tratados não apresentaram efeitos colaterais ao tratamento com o zika vírus.

Apesar dos ensaios em ratos serem promissores, os pesquisadores alertam que ainda é cedo para afirmar o zika teria o mesmo benefício em humanos. Além disso, embora 80% dos casos dos humanos infectados pelo vírus não apresentem sintomas, ele pode ser perigoso para gestantes. Para minimizar riscos  os cientistas estudam possíveis alterações no código genético do vírus para potencializar seu efeito e reduzir ao máximo seus possíveis danos e assim ter um tratamento eficaz para o tratamento do câncer presente do sistema nervoso central, uns dos mais difíceis de serem tratados.

 

Referências:

Zika Virus Selectively Kills Aggressive Human Embryonal CNS Tumor Cells In Vitro and In Vivo:  http://cancerres.aacrjournals.org/content/78/12/3363

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cientistas-da-usp-mostram-que-virus-da-zika-pode-ser-usado-para-eliminar-cancer-cerebral,70002285012

 

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Analogia entre chocolates e ciência é pura leviandade

Já não era novidade para ninguém que o governo brasileiro pretendia efectuar mudanças controversas no sector da educação. Já tinham sido anunciados cortes de verbas no ensino universitário e a intenção de acabar com cursos como sociologia e filosofia porque, no seu entender não geram “renda para a pessoa e bem-estar para a família”, nem melhoram “a sociedade em sua volta” [1]. Mas, no dia 9 de Maio, em directo na Bolsonaro TV, o Ministro da Educação e o Presidente tiveram uma conversa perfeitamente surreal, ao que parece fazendo uma analogia entre chocolate e ensino superior em que este último afirma que gosta de comer chocolates, “ainda mais de graça”[2]. Pois é, não restam dúvidas que o presidente do Brasil possa gostar de chocolates, até porque como Dave Barry referiu há algum tempo “sua mão e sua boca concordaram há muitos anos que, no que diz respeito ao chocolate, não há necessidade de envolver seu cérebro.” Aquilo que o presidente não sabe é que, para fazer um curso superior em ciências sociais, o cérebro é indispensável. Ou talvez saiba, porque afinal, ele tem um acesso fácil ao chocolate e fica bem longe das ciências sociais…

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Foto: Helena Ferreira

Na verdade, todos os holofotes se viraram agora para o Brasil, porque foi daqui que vieram as últimas ameaças às ciências sociais, apesar de não ser caso único. Como refere Irene Pimentel “qualquer nacional-populista de extrema-direita actual considera supérfluos os livros, a arte e a cultura” e salienta que “a história mostra que qualquer candidato a ditador procura também eliminar a voz de intelectuais, das elites, de profissionais e cientistas” [3]. E é por este motivo que, neste momento, todas e todos sentimos uma absoluta necessidade e responsabilidade, direi até, de defender as Universidades e as Ciências, sobretudo as Sociais e Humanas que são o principal alvo dos que detêm o poder, porque as acusam de estar a ser usadas com motivações ideológicas.

Judith Butler, filósofa, escritora e professora da Universidade de Berkeley, foi uma das primeiras a refutar este despautério, criando um manifesto contra a redução de recursos para as faculdades de ciências sociais, através da Gender International, à semelhança do que já tinha feito no ano passado, quando o presidente da Hungria, Viktor Orbán, proibiu os Estudos de Género nas universidades do país. Assinado por mais de mil académicos de Universidades de todo o mundo, este documento defende que “as ciências sociais e as humanidades não são um luxo” e que “pensar sobre o mundo e compreender as nossas sociedades não deve ser privilégio dos mais ricos” [4]. Os sociólogos de Harvard que também se expressaram através de um manifesto que já foi assinado por mais de 15 000 intelectuais nesta área, de todo o mundo, rejeitam a premissa de que “uma educação universitária é valiosa apenas na medida em que é imediatamente lucrativa” e defendem que o principal “objectivo do ensino superior não é produzir ‘retornos imediatos’ a partir de investimentos”, mas sim “produzir uma sociedade que se beneficie do esforço colectivo para criar o conhecimento humano” [5].

O movimento de solidariedade português surge através de uma carta aberta proposta por académicos de diversas áreas, subscrita pelas principais associações nacionais de investigadores em ciências sociais e humanas: a Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), a Associação Portuguesa de Sociologia (APS) e a Associação de Portuguesa de Antropologia (APA) e disponível para subscrição pública. Esta carta frisa que “não há sociedades livres sem pensamento livre e não há pensamento livre limitando, condicionando ou vigiando a actividade científica das Ciências Sociais e Humanas” e apelam às autoridades responsáveis no Brasil para que interrompam o processo de “asfixia moral, política e financeira em curso das actividades docentes, de investigação e de transferência de conhecimento nas áreas científicas das Ciências Sociais e Humanas” [6].

Tive a tentação de expor aqui alguns dos contributos das Ciências Sociais para o conhecimento das nossas sociedades sobre elas próprias, mas isso já foi feito, e bem, por muitos antes de mim, como o comprova uma rápida e simples busca no google [7], [8], [9], [10]. Por outro lado, considero triste e desgastante que, em pleno século XXI, sociedades democratas, livres e pensantes não tenham como absolutamente prioritário o ensino das ciências sociais e das humanidades e não tenham percebido o quão importante é o seu contributo para o desenvolvimento, qualificação e valorização das populações e para a sua economia. De facto, já em 2010, Boaventura Sousa Santos [11] tinha afirmado que a dicotomia entre ciências naturais e ciências sociais e os seus retornos já não faz sentido nenhum, porque existe um novo paradigma que, entre outras coisas, adianta que “todo o conhecimento científico-natural é científico-social.”

Foram os próprios avanços das ciências ditas naturais ou puras, como a física e a biologia, que rechaçaram tal dualismo quando introduziram “os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de autodeterminação e até de consciência” nas ciências naturais. Desta forma, as ciências sociais e as humanidades assumiram total protagonismo. Para além disso, o conhecimento não se guia por um único método científico, utiliza todos os meios metodológicos que tem ao seu alcance e é total. E se é total, é também local, porque é útil àquela pequena população daquela pequena comunidade. Por outro lado, se é local é, de certa forma, total porque os projectos de conhecimento locais podem ser reconstituídos em outros espaços cognitivos. Este novo paradigma terá que agregar sempre o social ao científico, porque na era pós-moderna o diálogo entre a ciência e a sociedade é necessário para construir sociedades mais justas, mais equitativas, mais livres e mais democráticas. O mundo será, concomitantemente, natural e social e será observado como um texto, um jogo, um palco, ou uma autobiografia, ou seja, de forma clara e com sentido, apesar de, por vezes, surpreendente e enigmático.

Para terminar, servimo-nos das palavras de Judith Butler, porque nunca poderíamos dizer melhor:

“É impossível entender nosso mundo sem entender as histórias e as imagens, a interpretação e a argumentação. Precisamos das Ciências Humanas e Sociais para desenvolver uma compreensão bem informada da história, da sociedade e da imaginação. Negar essas disciplinas é negar tanto a memória quanto a esperança, e nos deixa à deriva em um mundo impulsionado apenas por forças económicas. Como poderíamos responder à questão sobre o que vivemos e em que tipo de mundo queremos viver se negarmos a filosofia? Como entenderíamos como o mundo é organizado se erradicarmos a sociologia? Pode-se ter qualquer posicionamento político e ainda valorizar esses campos de estudo” [12]

Aqui, pedimos licença à autora para acrescentar que se existe alguém que, devido ao seu posicionamento político, não consegue valorizar estas áreas de investigação e estes conceitos, por favor, que se limite a comer chocolates. O mundo agradece!

 

[1] https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/26/bolsonaro-diz-que-mec-estuda-descentralizar-investimento-em-cursos-de-filosofia-e-sociologia.ghtml

[2] https://www.youtube.com/watch?time_continue=9&v=5KOPjSV81J4

[3] https://www.publico.pt/2019/05/11/culturaipsilon/opiniao/elogio-historia-historiadores-esquecer-filosofia-arte-cultura-1871274?fbclid=IwAR1RrAmuBqh9Fq8AKCe6VP1fVoRnNw4S2hHyO00sUuICmZ5LmyNAQsgCMaM

[4] https://www.lemonde.fr/idees/article/2019/05/06/bresil-les-sciences-sociales-et-les-humanites-ne-sont-pas-un-luxe_5458932_3232.html

[5] https://sites.google.com/g.harvard.edu/brazil-solidarity

[6] https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT92978

[7]http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5273/3/Artigo%5b1%5d.Infert.AISO.final.pdf

[8] http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/20393/1/Artigo%20-%20An%C3%A1lise%20Social%20%28Jo%C3%A3o%20Areosa%29.pdf

[9]https://www.academia.edu/38311905/O_contributo_das_ci%C3%AAncias_sociais_para_a_exegese_contempor%C3%A2nea

[10] http://www.redalyc.org/pdf/4815/481547173029.pdf

[11] http://www.scielo.br/pdf/ea/v2n2/v2n2a07.pdf

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/negar-as-ciencias-humanas-nos-deixa-deriva-num-mundo-movido-por-forcas-economicas-diz-judith-butler-23647897?fbclid=IwAR0-y6EmS16NruTq9P5CPZEwtSBBK8KFU8F94Nlhq-cYbQX2_3pxlVJ1Ino

 

 

 

 

 

 

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Uma adolescente astronauta

Girls, vamos conversar?! Diz aí qual é o seu maior sonho de vida? Consegue entender o que você precisa fazer para realizá-lo? (Isso já é um mega passo!) E identificar quais são os maiores limitadores? Se você é mulher já deve saber que naturalmente a cultura patriarcal, machista e sexista interfere e molda muitas de nossas vontades, desejos e perspectivas de vida. Ela pode até interferir nos sonhos de meninas e mulheres, a não ser que elas (nós!) se atrevam a ultrapassar essa barreira e lutem pelos seus sonhos mais bravamente que muitos dos meninos por aí. Agarrem a bandeira do feminismo e vamos à luta! Perceba que nem estamos falando aqui de um outro limitador muito agressivo, que é a desigualdade social. Só essa questão traria muitos outros artigos para refletirmos e conversarmos no blog das CsFs.

Vamos falar aqui de uma adolescente e um sonho: ela é Alyssa Carson, uma adolescente norte-americana de 17 anos que nasceu em Hammond, no Louisiana. E seu sonho surgiu aos 3 anos de idade quando assistia um episódio de The Backyardigans onde os personagens faziam uma missão em um planeta que está há 55 milhões de quilômetros de distância da Terra: o planeta Marte!

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Imagem do episódio de The Backyardigans visto por Carson aos 3 anos de idade. Créditos: TV TIME.

Pois é, ela quer ser astronauta e realizar uma missão no planeta vermelho! Agora vem a melhor parte da história: Carson já está sendo treinada pela NASA para, possivelmente, ser a primeira mulher a fazer uma expedição em Marte!!! [1]

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Alyssa Carson, a menina astronauta.Créditos: NASA Blueberry.

Com o apoio de sua família, aos 8 anos Carson foi registrada no United States Space Camp. Ela também foi a primeira pessoa a participar dos treinos da NASA na totalidade dos seus Space Camps, já que participou das formações no Space Camp de Laval (no Quebec) e no Space Camp de Esmirna (na Turquia). Alyssa Carson visitou os 14 Centros de Visitantes da NASA nos EUA e por isso foi a primeira pessoa a completar o Passaporte da NASA. A jovem astronauta frequenta a Baton Rouge International High School, onde aprende as disciplinas escolares em 4 línguas: chinês, inglês, francês e espanhol.  E se tornou embaixadora do projeto de vôos privados Mars One, que pretende estabelecer a primeira colônia de humanos em Marte. Teoricamente a NASA não aceita candidaturas de menores de 18 anos para participarem de seu Programa Espacial, porém Carson já se formou na Advanced Possum Academy, visto que sua missão acontecerá em 2030 e, por isso, há muito o que se fazer para sua preparação.

Em sua missão, será responsável com sua equipe por construir os primeiros módulos habitacionais em Marte e iniciar culturas que sustentem os humanos. Além disso, na missão da NASA para Marte em 2014, foram encontradas pequenas esferas no solo com vestígios orgânicos, podendo ser uma pista de vidas que já passaram por lá. Será que há mais vestígios orgânicos em Marte? Alyssa Carson poderá fazer estudos dentro desse tema. [2]

Com todo esse cenário ainda desigual nos dias atuais, podemos olhar para Alyssa Carson e encher o peito para falar que representatividade importa sim! Ver uma menina sonhar e viver a vida para realizar seu sonho precisa ser enfatizado para incentivarmos outras meninas.

O objetivo do compartilhamento dessa história é você abraçar a sua menina hoje e dizer bem firme a ela:

– Você pode ser astronauta, querida!

 

Referências:

[1]https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/07/menina-de-17-anos-pode-ser-primeira-pessoa-pisar-em-marte.html

[2]https://bit2geek.com/2018/07/09/blueberry-alyssa-carson/

 

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Nicho recém descoberto de células-tronco nos ossos longos pode explicar como crescemos

Nossos ossos são formados por dois processos principais chamados de ossificação intramembranosa e ossificação endocondral. A ossificação intramembranosa origina os ossos chatos do crânio, parte da mandíbula e clavículas. Essa ossificação ocorre quando células embrionárias com alta capacidade de migração e diferenciação,  chamadas de células mesenquimais, se agregam nas regiões onde os ossos irão se formar e se diferenciam diretamente em osteoblastos (células que produzem a matriz óssea) (Figura 1). A ossificação endocondral, por sua vez, dá origem aos ossos da base do crânio, vértebras e aos ossos longos (como o fêmur – o maior osso do corpo humano!). Esse processo é mais lento que a ossificação intramembranosa, pois as células mesenquimais primeiramente se diferenciam em condrócitos, os quais produzem um molde de cartilagem que é posteriormente utilizado para deposição da matriz óssea (Figura 1). A ossificação endocondral se inicia durante o desenvolvimento embrionário e continua durante a infância e adolescência, o que permite o crescimento longitudinal dos ossos. Esse processo de crescimento tem despertado a curiosidade de pesquisadores por muitos anos. Mais especificamente, estudos têm buscado entender a origem das células que permitem que os ossos longos continuem crescendo por tantos anos após o nascimento.

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Figura 1: Imagens de microscopia mostrando osteoblastos e osteoclastos. Na imagem da esquerda pode-se observar osteoblastos (em roxo), na superfície externa de um osso em desenvolvimento (região rosa no centro da imagem). Normalmente, osteoblastos são organizados em grupos de células conectadase enquanto sintetizam a matriz ossea (https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19552608). Na imagem da direita pode-se observar a morfologia dos condrócitos, os quais produzem todas as moléculas que dao suporte ao tecido cartilaginoso (http://medcell.med.yale.edu/histology/connective_tissue_lab/chondrocytes.php).

Durante a ossificação endocondral os condrócitos se organizam em diferentes zonas dentro do molde cartilaginoso, dependendo de seu estado de maturação (Figura 2). Condrócitos mais imaturos se localizam nas extremidades (que formarão as epífises), enquanto condrócitos mais maduros se localizam na região central do molde cartilaginoso (que formará a diáfise). Condrócitos mais imaturos, pequenos e arredondados formam a zona de reserva, que se diferenciam em condrócitos achatados e estão organizados em colunas na direção do eixo longitudinal do osso formando a zona proliferativa. Ao longo do tempo, condrócitos proliferativos param de se proliferar e aumentam de tamanho, formando a zona hipertrófica. Os condrócitos hipertróficos, por sua vez, morrem por apoptose permitindo a entrada de vasos sanguíneos na região central do molde cartilaginoso formando o centro primário de ossificação. Os vasos sanguíneos trazem células que auxiliam na remoção da matriz cartilaginosa (condroclastos) e células que depositam matriz óssea (osteoblastos), além de outras células que formarão a medula óssea (Figura 2).

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Figura 2: Ossificação endocondral. (A)  células mesenquimais se agregam em regiões que formarão ossos. (B) células mesenquimais se diferenciam em condrócitos e formam um molde cartilaginoso. (C) Após proliferação condrócitos passam por um processo progressivo de maturação, formando as zonas de reserva, proliferação e hipertrofia. (D) condrócitos hipertróficos, morrem por apoptose permitindo a entrada de vasos sanguíneos, degradação da matriz cartilaginosa e deposição da matriz óssea (Adaptado de Fanxin Long and David M. Ornitz, 2013).

Após a formação do centro primário de ossificação, a maioria do molde de cartilagem na diáfise é degradado ou substituído por matriz óssea. Com o passar do tempo, ocorre a formação de centros de ossificação secundários (COS) nas epífises, e regiões de cartilagem se mantém apenas na placa de crescimento (ou placa epifisária). A placa de crescimento, assim como o molde cartilaginoso inicial, é dividida em zonas de reserva, proliferação e hipertrofia (Figura 3) e mesmo sendo formada durante o período embrionário, é responsável pelo crescimento longitudinal dos ossos na infância e adolescência.
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Figura 3: (A) zonas de reserva, proliferação e hipertrofia se restringem à epífise após a invasão do molde cartilaginoso por vasos sanguíneos e deposição da matriz óssea – 3 dias após o nascimento. (B) Em estágios mais avançados de desenvolvimento (30 dias após o nascimento), centros secundários de ossificação se formam nas epífises, restringindo a área da placa de crescimento. (Adaptado de: Newton et al 2019)

De acordo com a teoria proposta para explicar o crescimento longitudinal dos ossos, os condrócitos da zona de reserva, são consumidos gradualmente quando recrutados para a zona proliferativa, onde se proliferam antes de se tornarem hipertróficos e morrerem. Essa teoria, porém, nunca foi observada na prática. Em um artigo publicado na revista Nature em março de 2019, cientistas no Karolinska Institutet, Stockholm, na Suécia investigaram essa teoria. Com o intuito de encontrar as células que possibilitam o crescimento longitudinal dos ossos, os pesquisadores criaram uma linhagem de camundongos transgênicos denominada de Col2-creert:R26R-Confetti. Esses camundongos tem a incrível habilidade de expressar variadas proteínas fluorescentes em diferentes condrócitos. Quando um condrócito expressa uma das proteínas fluorescentes, todas as suas células filhas após divisão celular expressam a mesma proteína, o que permite acompanhar toda a linhagem celular proveniente de condrócitos individuais ao longo do desenvolvimento (Figura 4).

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Figura 4. Exemplos de placas de crescimento de camundongos. (A) coloração com hematoxilina e eosina de uma placa de crescimento de uma tíbia de camundongo, onde é possível observar em roxo as colunas com condrócitos proliferativos (Adaptado de Arita et all., 2017). (B) Imagem de uma placa de crescimento dos camundongos Col2-creert:R26R-Confetti 28 dias após seu nascimento. Diferentes colunas de condrócitos proliferativos são observadas em diferentes cores. Cada coluna apresenta apenas uma cor, indicando que todos os condrócitos naquela coluna são provenientes de um precursor original.

Utilizando os camundongos transgênicos em diferentes pontos do desenvolvimento, os pesquisadores conseguiram demonstrar que durante o período fetal e neonatal os condrócitos da zona de proliferação se originam de múltiplos clones, ou seja, diferentes células da zona de reserva são recrutadas para formar a zona proliferativa (Figura 5 A e B). Essa observação corrobora a teoria inicial de que as células da zona de reserva são consumidas gradualmente quando utilizadas para o crescimento longitudinal dos ossos. Surpreendentemente, após 30 dias de seu nascimento, as colunas de condrócitos proliferativos passam a ser monoclonais, ou seja, cada coluna passa a se originar de apenas uma célula precursora, por isso apresenta só uma cor (Figura 5 C e D). Esses resultados indicam que há uma mudança entre as células que participam no alongamento dos ossos durante o período fetal e neonatal e as células que participam nesse alongamento em estágios mais tardios do desenvolvimento.

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Figura 5: Rastreamento de condrócitos de camundongos Col2-creert:R26R-Confetti nos períodos neonatal e juvenil mostram diferentes células participando do alongamento dos ossos. Placas de crescimento de camundongos. (A) Rastreamento de condrócitos desde o nascimento até 10 dias de vida mostra uma epífise com uma ampla zona de reserva, onde cada clone (cada condrócito) é marcado com uma proteína fluorescente. (B) Ampliação da zona de proliferação mostra que as colunas se originam de múltiplos clones (múltiplos condrócitos da zona de reserva) que se dividem aumentando as colunas. (C) Placa de crescimento de camundongos juvenis (após 30 dias de nascimento), possuem uma menor zona de reserva. (D) Ampliação da zona de proliferação mostra que colunas passam a ser monoclonais, ou seja, se originam de apenas uma célula precursora, apresentando apenas uma cor (Adaptado de Newton et all., 2019).

Essa mudança na zona proliferativa, antes formada por vários precursores e depois formado por um precursor com maior capacidade de proliferação, sugere que a população de condrócitos progenitores na zona de reserva diminui com o passar do tempo. Entretanto, após a formação da placa de crescimento, os condroprogenitores (células que dão origem aos condrócitos) restantes adquirem a capacidade de auto-renovação, necessária para a continuidade do crescimento longitudinal dos ossos. A aquisição da capacidade de auto-renovação dos condroprogenitores ocorre ao mesmo tempo em que um centro de ossificação secundário (COS) está se formando na região das epífises (Figura 3B). A formação do COS muda o microambiente próximo a placa de crescimento, com a invasão de vasos sanguíneos, reorganização da matriz extracelular, entre outros fatores. Curiosamente, os pesquisadores sugeriram que esse microambiente é um dos fatores para que os condroprogenitores adquiram uma capacidade de auto-renovação que eles não tinham antes.

A auto-renovação é uma das características que definem uma célula-tronco, mas para comprovar que os condroprogenitores restantes são de fato células-tronco, células individuais foram isoladas por captura a laser, e os genes expressos foram analisados. Os condroprogenitores expressaram marcadores típicos de células-tronco como CD73, CD49e, ativação de mTORC1, e quando cultivados em placas de cultura foram capazes de se diferenciar em outros tipos celulares. Todas essas características demonstram que os condroprogenitores são, na verdade, células-tronco. A descoberta de um nicho de células-tronco na epífise é animadora, pois a presença de tais nichos já havia sido demonstrada em outros tecidos que apresentam uma necessidade de regeneração contínua, como a pele, o sangue e o intestino, mas nunca havia sido demonstrada nos ossos.

Em resumo, um nicho de células-tronco se forma após o nascimento na placa de crescimento dos ossos longos. Esse nicho facilita a auto-renovação dos condroprogenitores e possibilita que haja um contínuo suprimento de condrócitos para o crescimento dos ossos (Figura 6). O conhecimento desse nicho e de como as células agem permitindo o crescimento ósseo nos auxilia no entendimento do processo de formação de nosso esqueleto, mas também pode ser usado para entender como doenças se originam. É importante ressaltar que esse estudo foi conduzido em camundongos, e ainda não é claro se esses mecanismos são conservados em humanos. Caso isso seja confirmado, estudos futuros podem focar em estratégias para modular o crescimento ósseo, incluindo exercícios físicos, dietas e administração de moléculas que podem auxiliar no tratamento de crianças com desordens de crescimento.

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Figura 6: Resumo ilustrativo dos mecanismos de crescimento dos ossos longos com o passar do tempo. Durante o período fetal e neonatal, diferentes células da zona de reserva são recrutadas para a zona proliferativa, levando ao crescimento ósseo. Após a formação do COS, células de reserva diminuem e os condroprogenitores restantes adquirem a capacidade de auto-renovação, assim como outras características de células-tronco (sc). Essas células-tronco por sua vez, passam a ser responsáveis pelo crescimento longitudinal dos ossos.

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O laboratório e o dia-a-dia: O que é o método científico e por que ele é o maior inimigo das fake news?

Na ciência, busca-se o tempo todo correlacionar fenômenos com suas causas e consequências, a fim de se compreender como o mundo funciona. Contudo, os tipos de correlação e as dificuldades experimentais que cientistas precisam enfrentar variam de área para área, e evoluem conforme o campo de estudo amadurece.

Por exemplo, se queremos estudar um fenômeno físico, como a relação matemática entre a temperatura e a dilatação de uma barra de metal (o quanto ela varia em comprimento quando aquecido ou resfriado), precisamos realizar uma série de medições de temperatura e do comprimento do objeto, além de levar em conta diferentes tipos de materiais (cada material possui um coeficiente de dilatação diferente, ou seja, diferentes materiais vão dilatar mais ou menos quando sujeitos à mesma variação de temperatura).

Neste caso, chamamos a dilatação do objeto de variável dependente (aquela que depende de outras variáveis que estamos estudando), e a variação de temperatura, o comprimento inicial e o coeficiente de dilatação de variáveis independentes (que são aquelas que estamos controlando a fim de estudar a dilatação). Neste caso termodinâmico, é relativamente simples inferir quais as variáveis dependente e independentes, mas às vezes estas relações não são óbvias a uma primeira vista.

Além disso, estas medições sozinhas não nos fornecem as causas materiais da dilatação, ou seja, as estruturas por trás da mudança de tamanho provocada por alteração da temperatura, mas podem nos fornecer padrões o suficiente para estabelecermos relações matemáticas e podermos prever com boa confiabilidade o quanto determinado material vai dilatar em determinadas circunstâncias (o que culmina em diversas aplicações práticas em várias áreas do conhecimento, por exemplo na engenharia civil).

Quais variáveis têm influência sobre meu objeto de estudo? Créditos: Rebeca Bayeh.

No entanto, ao longo da história da ciência, vários modelos de termodinâmica e de estrutura dos materiais já foram desenvolvidos de forma que seja possível, no caso deste fenômeno, não só prever com boa confiabilidade o comportamento dos materiais estudados em diferentes temperaturas, mas fornecer explicações para as causas do fenômeno da dilatação. Quanto mais suporte teórico e experimental uma teoria científica tem, maior sua credibilidade.

Essa credibilidade passa também pelo quanto determinada afirmação pode ser falseável. O conceito de falseabilidade foi introduzido pelo filósofo Karl Popper, e diz respeito ao quanto uma afirmação ou teoria permitem que sejam realizadas investigações que as refutem.

Por exemplo, no caso dos objetos que dilatam com o calor, alguém poderia observar em laboratório que toda barra de ferro dilata X quando é aquecida em dez graus Celcius. Poderíamos “falsear” essa afirmação fazendo experimentos que medissem a dilatação de diferentes barras de ferro com diferentes tamanhos iniciais e diferentes temperaturas iniciais, sempre variando dez graus.

Caso as barras, dentro de condições controladas de laboratório e utilizando-se estatística apropriada, se comportem de forma semelhante à da afirmação que estamos tentando falsear (o que não aconteceria aqui, pois já sabemos que a dilatação dependeria sim do comprimento inicial da barra), estaríamos fornecendo com isso mais embasamento para uma teoria. Caso contrário, e caso se verifique que não houve falhas sistemáticas na realização do experimento, estamos falseando a afirmação inicial. Quando isso acontece na ciência, surge debate e reflexão sobre quais as variáveis que podem não estar sendo levadas em conta, quais as possíveis falhas experimentais do experimento original (e dos experimentos dele derivados) e quais as causas do fenômeno estudado.

Quando o monge e botânico Gregor Mendel desenvolveu, no século XIX, seus princípios de hereditariedade, que seriam base para os estudos em Genética, ele desconhecia a existência de genes ou mesmo a existência do DNA, e portanto não pôde explicar as causas através das quais as cores das ervilhas que ele estudou dependiam das cores das plantas que foram cruzadas. Contudo, os padrões de hereditariedade verificados experimentalmente por ele em plantas são verificáveis e falseáveis, e seu trabalho serviu como base para o que viria a ser posteriormente a Genética moderna.

Muitas vezes, quando cientistas se depararam com padrões de fenômenos que podiam observar, mas cujas causas eram desconhecidas, foram atribuídos significados místicos e religiosos para estes fenômenos. Quando isso acontece, estamos saindo do campo da ciência. Por exemplo, se eu observo que qualquer barra de ferro dilata sempre proporcionalmente ao seu comprimento inicial e à sua variação de temperatura, eu posso fazer uma afirmação falseável acerca deste fenômeno (se alguém quiser testar minha afirmação, basta aquecer uma barra de ferro em um laboratório com condições controladas e verificar se a minha afirmação se sustenta). Contudo, se eu afirmar que a dilatação se dá por intervenção de um deus do calor que interveio em meu laboratório, esta afirmação não é falseável (não posso provar a existência do deus do calor nem sua presença no meu laboratório, e portanto não posso provar que esta foi a causa da dilatação da barra de ferro).

Além disso, o fato de eu não provar a não-existência do deus do calor não implica na existência do deus do calor. Cabe a quem fez a afirmação de que tal deus existia a comprovação do que está dizendo.

Analogamente, quando são compartilhadas notícias falsas (“fake news”) com afirmações mirabolantes nas redes sociais, cabe a quem fez as afirmações comprovar que o que está dizendo é verdade. O grande problema destes compartilhamentos é que as notícias costumam envolver um grande peso emocional e, muitas vezes, fazem com que os leitores sintam-se ameaçados por um oponente político que está supostamente prejudicando sua vida, sua família e seu senso de sagrado. É natural que fiquemos impressionados com ideias fortes e emotivas, mas cabe a nós verificar se as pessoas que as estão afirmando (e as que estão compartilhando, já que compartilhar é uma forma de re-afirmar) verificaram ou comprovaram tudo que estão alegando, ou se trata-se apenas de ideias fantasiosas que parecem ser verdadeiras apenas por possuir um vínculo com uma parte da realidade que já conhecemos ou porque elas intuitivamente fariam sentidos.

Muitas ideias científicas se iniciam de forma intuitiva, com um vínculo com a realidade já conhecida, como foi o caso das Leis de Mendel e de muitas outras, como a Teoria da Relatividade do Einstein. Mas as intuições isoladamente não constituem por si só o pensamento científico, e não cabe à ciência fornecer explicações para as causas de todos os fenômenos se estas causas não puderem ser estudadas de maneira criteriosa.

Trata-se de um trabalho colaborativo de longo prazo, que tem compromisso com a consistência, e não com a explicação de todas as verdades, e cujos paradigmas evoluem conforme a tecnologia se desenvolve e conforme são encontradas novas relações entre diferentes áreas dentro da ciência.

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Alerta: o ódio aos Estudos de Gênero (e à educação como um todo)

No fim de 2017, vários posts circularam na internet com a hashtag #Iranprotests mostrando fotos de mulheres iranianas antes e depois da revolução islâmica de 1979. Invariavelmente, as fotos “antes” mostravam mulheres usando roupas ocidentalizadas, coloridas, calças ou saias curtas, e as fotos “depois” eram de mulheres usando burcas ou o véu obrigatório hijab. Essas imagens voltaram a circular também no Brasil durante as eleições de 2018 como um alerta, já que governos conservadores, especialmente aqueles associados a algum tipo de fundamentalismo religioso, têm por norma um ataque aos direitos e liberdades femininas em nome de uma “remoralização” da sociedade. Afinal de contas, pernas (femininas) de fora são claros indícios de que a humanidade vai mal.

Como o exemplo do Irã pode alimentar a ideia errônea de que apenas a religião islâmica fomenta esse tipo de radicalismo contra as mulheres, vale a pena olharmos o atual caso da Hungria. Após dois períodos governados pelo partido socialista, desde 2010 o primeiro-ministro desse país é o líder da extrema-direita Viktor Orbán. Seu governo, marcado por medidas autoritárias e antidemocráticas, vem chamando cada vez mais a atenção da imprensa internacional, inclusive pela invenção do termo “democracia iliberal” para definir a sua proposta (e prática) para a Hungria. Contudo, um decreto do mês de outubro de 2018 trouxe Orbán de volta aos principais jornais da Europa e dos EUA por banir os Estudos de Gênero (Gender Studies) das universidades húngaras e cancelar seus credenciamentos e verbas. O argumento apontado pelo porta-voz do primeiro-ministro, segundo o jornal britânico The Independent, é que “as pessoas nascem ou homens ou mulheres, e nós não consideramos aceitável falar em gêneros socialmente construídos ao invés de sexos biológicos”.

A Central European University (CEU), uma das melhores universidades do leste Europeu e localizada em Budapeste, é uma das instituições que oferece cursos na área de Estudos de Gênero que foi diretamente afetada pelo decreto. Além da questão de gênero, a CEU também vem sofrendo um ataque à sua liberdade de cátedra a respeito de estudos sobre imigração, já que o partido de Orbán, antissemita e xenófobo, explorou à exaustão o medo dos imigrantes e a xenofobia na sua campanha de eleição. Somados ao pacote estão a perseguição pessoal de Orbán a um dos fundadores da CEU, George Soros (judeu sobrevivente da perseguição nazista) e as medidas de seu governo para dificultar o registro internacional da CEU (base de sua missão). O resultado: em 25 de outubro de 2018 a CEU anunciou que vai deixar o país e, a partir do ano letivo de 2019-2020, os alunos que se matricularem em seus cursos internacionais vão estudar em Viena, na Áustria. Para aqueles que têm interesse em demonstrar solidariedade à CEU, o site da universidade explica o contexto de perseguição e os motivos da decisão e pede apoio com a hashtag #istandwithCEU. Ironicamente, a CEU foi criada com o fim da União Soviética exatamente para ajudar na transição da Hungria, e do leste europeu como um todo, para que esses países construíssem nações democráticas e comprometidas com as liberdades individuais, o diálogo e os direitos humanos. Não durou trinta anos.

CEU

Alunos da CEU protestando contra a perseguição de Órban. No cartaz, uma pergunta essencial: “Sou uma estudante. Eu assusto você também?” . Fonte: https://zmk.blogactiv.eu/2017/04/14/lets-stop-budapest-for-hungary-but-by-hungarians/ 

No Brasil, além do famigerado “kit gay”, que dispensa explicações, já tivemos em 2016 o caso da historiadora e professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Marlene de Fáveri, que foi processada por uma ex-orientanda de mestrado que dizia sofrer perseguição ideológica por ser cristã e antifeminista. Essa ex-aluna acaba de ser eleita Deputada Estadual para Santa Catarina e já publicou um chamado para crianças e adolescentes filmarem seus professores para denunciar casos de “manifestação político-partidárias”. Está claro que os defensores da lei da Escola sem Partido, que ganha força e respaldo com o novo governo de Bolsonaro e com as diretrizes do Ministro da Educação (tanto o atual, Weintraub, quanto o derrubado, Vélez), vão atacar não só disciplinas e professores tachados de “comunistas” ou de “esquerda”, mas obviamente qualquer iniciativa relacionada à questão de gênero, à luta contra a homofobia, etc. A princípio imagina-se que as escolas de Ensino Fundamental e Médio serão as mais afetadas por essa mordaça que se aproxima (e, por consequência, o desenvolvimento de uma sociedade mais tolerante e igualitária), mas os casos da Hungria e da professora Fáveri, além do recente corte de verbas das universidades e institutos federais, indicam que o ensino superior, em especial as universidades públicas, certamente sofrerão com esse tipo de cerceamento, assim como as pesquisas (e pesquisador@s) relacionadas ao Gender Studies e Queer Studies.  As nossas universidades, porém, não têm a possibilidade de fazer como a CEU e realocar seus campi, o que torna a nossa resistência (e espaços como esse blog) essencial.

Ninguém solta a mão de ninguém.

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A trajetória e pesquisa de Katie Bouman

ou Quantas pessoas constroem um cientista?

Existe uma mulher muito sábia na minha vida.

Não, espera.

Vou começar outra vez.

Só existem mulheres muito sábias na minha vida, . Porque as mulheres são, em sua totalidade e não apenas por maioria, sábias. Mas uma mulher muito sábia me falou recentemente, depois que eu me queixei de erros que cometi no passado:

– Mas não tinha como você saber. O conhecimento é um fruto que se colhe maduro.

E essa foi uma lição (muito mas muito) imensa pra mim. Sobre autoperdão, construção de saberes, sobre cada trecho que nós – enquanto cientistas e professores – contribuímos para a pavimentação desse caminho: a educação. E, vocês já vão me desculpando pela emotividade aqui, quero falar sobre a trajetória de uma outra mulher, também sábia, que brilhou recentemente.

(Você achou que eu usei muito a palavra sábia, não foi? Está certo. Usei mesmo. Foi para naturalizá-la no seu coração.)

Se você estava no planeta Terra ou em suas imediações no último mês, provavelmente ouviu falar sobre a primeira imagem de um buraco negro, que foi obtida através de uma grande colaboração de pesquisadores de muitos países. A responsável por liderar a equipe que desenvolveu o algoritmo responsável pelo cruzamento e correção de dados obtidos usando o Event Horizon Telescope foi Katherine Louise Bouman ou Katie Bouman – como já estamos nos sentindo íntimas o suficiente para chamá-la. E, se você ainda está em dúvida de qual imagem estou falando, é essa aqui

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coisa_mais_linda.jpg Créditos: Event Horizon Telescope

 

 

Katie nasceu em 1989 e é professora assistente de ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Sua pesquisa é relacionada a métodos computacionais para geração de imagens (guarde bem essa informação).

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querida.jpg Créditos: Facebook/Katie Bouman

Uma das coisas interessantes sobre uma cientista como Katie é entender como a sua pesquisa evoluiu até o estágio atual. Quando procuramos o perfil com todas as publicações de Katie na ferramenta do Google Scholar, encontramos 40 artigos com sua autoria e/ou cooperação, a maioria de livre acesso. Além disso, existem diversos textos de Katie publicados em revistas de divulgação científica e curiosidades. Entre os artigos acadêmicos, vemos o primeiro deles ser publicado em 2006 com o título: “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns” , Análise forense de imagens digitais através do uso de padrões de referência de ruído, em livre tradução.

Fonte: engineering.purdue.edu

“Rostinho” do primeiro artigo de Katie. Créditos: engineering.purdue.edu

O artigo fala sobre a possibilidade de, através de métodos de reconstrução, verificar se imagens muito modificadas ainda poderiam ser identificadas usando os “defeitos” de uma câmera na forma de um padrão de ruído de referência. Ou seja: se uma foto estiver muito estragada, ainda seria possível descobrir qual câmera tirou aquela foto tendo como base uma bom banco de dados de como as câmeras tiram fotos?

Deu pra sentir o arrepio? Pois prepare-se para ficar ainda mais surpreso.

Eu não vou conseguir abordar aqui todos os artigos científicos da Katie mas gostaria de traçar uma linha do tempo em sua pesquisa. Quem quiser pode ter acesso a todos os outros textos clicando aqui. Em 2010 ela publicou “A low complexity method for detection of text area in natural images” ou Um método de baixa complexidade para detecção de área de texto em imagens naturais. Pode parecer pouco linkado com o trabalho sobre o buraco negro mas neste artigo temos uma pesquisa sobre um método de baixa complexidade para segmentação de regiões de texto em imagens.
E aí? Estão sentindo o impacto?

Créditos: Twitter

sera_que_um_dia_eu_vou_conseguir_abandonar_o_meme_da_Mulher_Pepita_arrepiada?.jpg Créditos: Twitter

Só mais um trabalho antes de falar do nosso queridinho, ok? O trabalho intitulado “IMAGING AN EVENT HORIZON: MITIGATION OF SCATTERING TOWARD SAGITTARIUS A*”.

EM LETRA MAIÚSCULA SIM, POIS JÁ ESTAMOS EMOCIONADOS COM ESSE TRABALHO.

EM PORTUGUÊS: PROCESSANDO IMAGENS DE UM HORIZONTE DE EVENTO: MITIGAÇÃO DA DISPERSÃO PARA O SAGITÁRIO A.

Esse foi nada mais, nada menos, que o primeiro trabalho de parte da equipe que viria a conseguir a foto do buraco negro este ano, focando já em Sagitario A (o objeto astronômico do qual o buraco negro faz parte). Foi publicado em 2014 e o seu resumo começa assim:

“Espera-se que a imagem da emissão que circunda o buraco negro no centro da Via Láctea exiba a impressão de efeitos relativísticos gerais (GR), incluindo a existência de uma feição de sombra e um anel de fótons de diâmetro ~ 50 μas.”

E traz, como um de seus resultados, essa imagem da simulação:

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nem_tenho_mais_legenda.jpg Créditos:The Astrophysical Journal

Em abril deste ano, quando tivemos acesso a real imagem do buraco negro, vimos que ele se parecia muito com a imagem acima. E mais: que se parecia muito com o que Einstein esperava de um buraco negro em 1915. A pesquisa da foto do buraco negro gerou não um, não dois mas seis (!!!!) artigos com os resultados obtidos. Estão envolvidos no projeto 144 departamentos de  diferentes universidades ao redor do globo.

E, sinceramente, eu não sei quantos pessoas estão envolvidas no projeto.

Quantas professoras e professores, técnicas e técnicos, alunas e alunos de graduação e pós graduação. Quantas pessoas chegaram mais cedo para limpar os laboratórios, para preparar refeições nas universidades, quantas mães e pais, esposas e maridos, namorados e namoradas deram suporte a quem aparece na autoria dos seis artigos. Eu sei que cada um deles foi parte desse passo pois o conhecimento amadurecido ao longo de anos de pesquisa, desde Einstein e antes dele, passando por Katie e seus professores, não começa, nem termina nesta imagem. Este é, sem dúvidas, o (doce) fruto colhido da colaboração de tanta gente para fazer ciência.

Referências

Bouman, K. L., N. Khanna, and E. J. Delp. “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns.” (2016).

Bouman, K.L., Abdollahian, G., Boutin, M. and Delp, E.J., 2011. A low complexity sign detection and text localization method for mobile applications. IEEE Transactions on multimedia, 13(5), pp.922-934.

Fish, V.L., Johnson, M.D., Lu, R.S., Doeleman, S.S., Bouman, K.L., Zoran, D., Freeman, W.T., Psaltis, D., Narayan, R., Pankratius, V. and Broderick, A.E., 2014. Imaging an event horizon: Mitigation of scattering toward Sagittarius A. The Astrophysical Journal, 795(2), p.134.

Akiyama, K., Alberdi, A., Alef, W., Asada, K., Azulay, R., Baczko, A.K., Ball, D., Baloković, M., Barrett, J., Bintley, D. and Blackburn, L., 2019. First M87 Event Horizon Telescope Results. I. The Shadow of the Supermassive Black Hole. The Astrophysical Journal Letters, 875(1), p.L1.