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Receita Molecular de Arroz Soltinho

Apesar das dificuldades profundas em diversos setores, inclusive o econômico, o Brasil ainda está entre as 10 maiores economias do mundo. O setor do agronegócio, referente à agricultura e pecuária, contribui com cerca de 21% do PIB. A Embrapa é fundamental para esse sucesso, tendo quadruplicado a oferta de carne bovina e suína e aumentado em 22 vezes a oferta de frango. Isso impulsionou o país a ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais. 

A Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, é uma empresa pública criada em 1973 e vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ela é uma das mais importantes instituições de pesquisa brasileiras e foca na produção de alimentos, fibras e energia. A Embrapa emprega grandes pesquisadores, possui excelente infraestrutura e utiliza tecnologia de ponta, como a CRISPR/CAS9. Essa tecnologia de edição gênica se destaca no cenário mundial por ser relativamente simples, versátil, barata e extremamente específica. Além da pesquisa, majoritariamente aberta, são produzidos também na Embrapa materiais voltados para a comunidade científica e também para o público em geral. Um desses materiais foi disponibilizado recentemente, e é um livro teórico e prático sobre a tecnologia CRISPR aplicada a plantas (pdf).

Descrição da imagem: capa do livro técnico “Tecnologia CRISPR na edição genômica de plantas”. Créditos: Embrapa Agroenergia.

Esse livro é produto do novo projeto da instituição CRISPRevolution, que visa a “melhoria da qualidade nutricional, industrial e da tolerância ao déficit hídrico de espécies de interesse agronômico”. Na apresentação do livro, o Chefe-Geral da Embrapa Agroenergia, Alexandre Alonso Alves, escreve que o intuito do livro é “promover ciência de ponta e desenvolver produtos e processos inovadores [e também] atuar numa estratégia de disseminação do conhecimento científico.”

Existem enormes desafios na agricultura atual, incluindo o abastecimento de alimentos para a população, a obtenção de bioenergia e a sustentabilidade da produção. Cientistas contribuem para isso com o desenvolvimento de variedades vegetais com maior teor e qualidade nutricional, assim como com maior resistência a pragas e a estresses ambientais como seca e salinidade. 

Como exemplos de melhorias, o livro menciona pesquisas com o arroz. Esse grão, tão importante na nossa alimentação diária, é composto pelo carboidrato amido, o qual é formado por dois polissacarídeos, amilose e amilopectina. A proporção deles  é refletida nas propriedades do arroz. Variedades com alto teor de amilose produzem grãos firmes que se separam melhor após o cozimento (o nosso conhecido “arroz soltinho”). Um teor menor de amilose, por sua vez, produz grãos mais macios que se aglutinam mais. Dois grupos independentes de pesquisa conseguiram reduzir o teor de amido em três variedades diferentes de arroz de cerca de 17% para 2.5% usando a tecnologia CRISPR. O efeito inverso também foi obtido por outro grupo de pesquisa, que aumentou o teor de amilose, gerando um grão que ajuda a reduzir riscos de doenças crônicas. Todas essas pesquisas  foram feitas por meio de silenciamento de genes do arroz com a CRISPR.

Descrição das imagens: variedades de arroz: mais soltinho (à esquerda) e japonês, mais aglutinado (à direita). Créditos: Site Panelinha e Amapola in Amino.

A CRISPR também é utilizada para diminuir características indesejáveis em plantas de interesse comercial. A proteína do glúten, por exemplo, desencadeia a doença celíaca, que afeta entre 0.7%–2% da população mundial. Essas pessoas têm uma reação inflamatória grave a essa proteína, encontrada no trigo e produzida por 100 genes diferentes. Essa enorme quantidade de genes envolvidos é um grande problema para tecnologias convencionais de edição gênica, que não são capazes de gerar variedades de trigo com baixo nível de glúten ou baixa reação inflamatória. Usando apenas dois RNA-guias associados à CRISPR, um grupo de pesquisa já conseguiu produzir linhagens de trigo com baixo teor de glúten, e redução de 85% da inflamação.

Para ilustrar o quanto os processos mencionados são complexos, veja a figura abaixo, que resume as etapas de um tipo de edição gênica via CRISPR. Primeiro, os pesquisadores devem selecionar os genes ou vias metabólicas de interesse. Depois, eles devem desenhar o RNA-guia (um composto do sistema CRISPR) e validar o desenho no laboratório. Posteriormente, o sistema deve ser inserido na planta (passo número 5) por meio de um vetor molecular. Finalmente, deve-se avaliar as plantas editadas (passo número 6) para verificar os efeitos da edição.

Descrição da imagem. Etapas de edição gênica via CRISPR e recombinação homóloga de DNA. Créditos: Embrapa Agroenergia (livro técnico sobre a tecnologia CRISPR)

Os resultados apresentados nesse artigo são extremamente promissores. Entretanto, é importante lembrar que existem diversos outros passos requeridos até que essas plantas melhoradas possam chegar às prateleiras dos mercados. Esses passos envolvem pesquisa, validação, avaliação de riscos à saúde, regulamentação e legislação. O primeiro produto comercializado com genoma editado por CRISPR foi o óleo de soja com alto teor oleico. Isso ocorreu nos Estados Unidos em fevereiro de 2019. Tudo indica que no futuro existirão mais produtos melhorados disponíveis para a população. 

Referências

Molinari HBC, Vieira LR, Volpi e Silva N, Prado GS, Lopes Filho JH. “Tecnologia CRISPR na edição genômica de plantas”. Livro de publicação digital, Embrapa Agroenergia. 2020

CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). “Panorama do Agro“. Artigo digital. 2020

Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). “Quem somos”. Portal digital. Acessado em 2020

Atualização (14/12/2020):

Na versão anterior desse artigo (do dia 10/12/2020), constava que os trabalhos feitos na Embrapa são majoritariamente confidenciais, o que é incorreto. A maioria das tecnologias produzidas na Embrapa é livre e pública. Isso foi corrigido na versão atual. Em adição, “tolerância a pragas” foi substituído por “resistência a pragas”, seguindo a terminologia correta de biologia vegetal.

 

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Nobel de Química 2020: a Revolução da CRISPR/CAS9 e suas Criadoras

Em meio a um turbilhão de desafios pessoais, econômicos e profissionais neste ano de 2020, enfim recebemos uma excelente notícia: o prêmio Nobel de química. É a primeira vez que duas cientistas mulheres foram laureadas juntas nesse prêmio. O trabalho de Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna no desenvolvimento de uma nova tecnologia de edição gênica revolucionou a ciência nos últimos anos e sem dúvida será um marco na história da humanidade. 

A tecnologia CRISPR/CAS9 consiste em moléculas biológicas que são injetadas dentro de uma célula e irão modificar o seu material genético de maneira muito específica. Outras tecnologias com o mesmo propósito já foram criadas e melhoradas desde os anos 1970 e são rotineiramente usadas nos laboratórios de biologia molecular e genética em todo o mundo. A diferença da CRISPR/CAS9 e das tecnologias anteriores é a sua precisão. A CRISPR/CAS9 consegue identificar exatamente a sequência alvo de DNA por meio de um RNA-guia.

A tecnologia CRISPR/CAS9 consiste em uma proteína de clivagem (corte) de DNA, a CAS9, representada em branco na figura e um RNA-guia representado em vermelho. Após o reconhecimento do DNA-alvo (em amarelo) pelo RNA-guia, a CAS9 cliva o DNA realizando a edição genética. Créditos: Thomas Splettstoesser, Wikimedia.

As origens da CRISPR/CAS9 vêm de pesquisas em ciência básica, aquele tipo de ciência que não tem um objetivo prático ou direcionado, como a cura de uma determinada doença. A ciência básica tem como objetivo a simples compreensão de um sistema natural. Inicialmente, as pesquisadoras focaram em compreender como as bactérias se defendem de vírus invasores. Posteriormente, elas usaram esses conhecimentos para desenvolver o sistema CRISPR/CAS9 de edição gênica.

CRISPR é um acrônimo para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, que pode ser traduzido como Repetições Clusterizadas Palindrômicas Curtas e Regularmente Espaçadas. Em outras palavras, CRISPR são grupos de sequências bacterianas repetitivas separadas por pedaços de sequências de vírus. Tudo isso está contido no material genético, ou DNA, das bactérias e compõe um tipo de sistema imune contra vírus invasores. Emmanuelle Charpentier imaginou que essas sequências de vírus eram transcritas em pequenos RNAs que guiavam a proteína CAS9 da bactéria até os vírus invasores, os quais eram atacados pela CAS9. Ela e seus colegas mostraram evidências físicas corroborando sua hipótese num artigo científico publicado na revista Nature em 2011.

Logo depois, Charpentier conheceu Jennifer Doudna numa conferência e elas começaram uma colaboração extremamente bem sucedida, que culminou em um outro artigo na revista Science em 2012 e no prêmio Nobel de química em 2020. O artigo de 2012 sedimentou a teoria de Charpentier e mostrou também que podemos usar esse sistema bacteriano em edição gênica. Basta que saibamos a sequência-alvo do RNA guia. Este será acoplado à proteína CAS9 e os dois serão injetados dentro da célula de interesse. Dessa forma, pedaços indesejados de DNA podem ser removidos, e até mesmo sequências novas podem ser inseridas, criando um sistema eficiente e poderoso de edição gênica.

Emmanuelle Charpentier (esquerda) e Jennifer Doudna (direita), laureadas do prêmio Nobel de química de 2020. Na ocasião da foto, as cientistas receberam o prêmio Princesa de Astúrias 2015 por pesquisa técnica e científica. Créditos: Miguel Riopa, AFP via Getty Images.

A CRISPR/CAS9 é bastante utilizada nos laboratórios de todo o mundo. Diversos tipos de edições gênicas são feitas em células biológicas, incluindo bactérias, leveduras, e até mesmo células mamíferas de camundongos, humanos e outros primatas. Apesar do imenso potencial terapêutico, ainda não é fácil usá-la para tratar doenças devido à dificuldade de inserir as moléculas dentro de organismos complexos. Atualmente tais estudos são feitos de maneira local, em sangue e medula óssea, que são mais fáceis de trabalhar. É importante ressaltar que ainda não conhecemos plenamente os efeitos da técnica e também que ela tem uma pequena taxa de erro, que deve ser minimizada ainda mais num tratamento clínico. Em um TED talk importantíssimo em 2015, Jennifer Doudna reforçou a necessidade e responsabilidade da comunidade científica de discutir as implicações futuras do uso da CRISPR/CAS9. 

A patente da técnica está em disputa entre a Universidade da Califórnia (EUA)/Universidade de Viena (Áustria), representadas pelas duas pesquisadoras, e o Instituto Broad (EUA), representado pelo pesquisador Feng Zhang, que também gerou conhecimentos importantes acerca do sistema CRISPR/CAS9. A patente irá gerar milhões de dólares e reconhecimento, mas não deve ser decidida tão cedo.

Emmanuelle Charpentier é especialista em bioquímica e microbiologia, nasceu na França e  trabalha atualmente no Instituto Max Planck para Ciência de Patógenos em Berlim. A bioquímica Jennifer Doudna nasceu nos Estados Unidos e trabalha na Universidade da  Califórnia, Berkeley. Ela também se dedica a mobilizar a comunidade científica a discutir as responsabilidades no uso futuro da tecnologia CRISPR/CAS9. 

O potencial feminino para pesquisa e inovação é enorme e traz diversos benefícios para a sociedade. Por isso, todas as meninas que quiserem devem ser incentivadas e apoiadas em suas carreiras científicas. O trabalho de Charpentier e Doudna é um belíssimo e inspirador exemplo do poder da produção científica e da colaboração feminina.

Referências

Jinek M, Chylinski K, Fonfara I, Hauer M, Doudna JA and Charpentier E. “A programmable dual-RNA-guided DNA endonuclease in adaptive bacterial immunity”. Science. 2012 https://science.sciencemag.org/content/337/6096/816 

Deltcheva E, Chylinski K, Sharma CM, Gonzales K, Chao Y, Pirzada ZA, Eckert MR, Vogel J, Charpentier E. “CRISPR RNA maturation by trans-encoded small RNA and host factor RNase III”. Nature. 2011 https://www.nature.com/articles/nature09886 

Jennifer Doudna. “How CRISPR let us edit our DNA” TED Talk, TEDGlobal London. 2015 https://www.ted.com/talks/jennifer_doudna_how_crispr_lets_us_edit_our_dna 

Ellen Jorgensen. “What you need to know about CRISPR“. TED Talk, TEDSummit. 2016 https://www.ted.com/talks/ellen_jorgensen_what_you_need_to_know_about_crispr 

John Rennie. “Dr. Paul Janssen Award: Emmanuelle Charpentier, Ph.D and Jennifer Doudna, Ph.D.” Scientific American. 2014 http://www.pauljanssenaward.com/blogs/emmanuelle-charpentier-phd-and-jennifer-doudna-phd

Jon Cohen. “The Latest round in the CRISPR patent battle has an apparent victor, but the fight continues”. Science. 2020  https://www.sciencemag.org/news/2020/09/latest-round-crispr-patent-battle-has-apparent-victor-fight-continues 

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Estudando Evolução Humana com Bioinformática

Chimpanzé comum no zoológico de Leipzig, Alemanha. Créditos: Thomas Lersch.

Você já parou para pensar no que nos torna humanos, ou então o que nos diferencia de outras espécies, como os chimpanzés? Biólogos e outros cientistas têm trabalhado nessas questões há muito tempo, comparando humanos com outras espécies  e usando o método científico. Anteriormente, as abordagens giravam em torno de observar as características físicas e comportamentais das espécies para entender as especialidades de cada uma. A pesquisadora Jane Goodall contribuiu imensamente para a ciência estudando chimpanzés, e permanece hoje como uma das grandes cientistas da história.

Pesquisadora Jane Goodall. Créditos: Franz Johann Morgenbesse/wikimedia.

Desde o sequenciamento do genoma humano em 2002, a humanidade recebeu uma importantíssima fonte extra de informações, que nos permitiu atacar essas mesmas questões com uma abordagem complementar àquelas mais tradicionais. Agora é possível estudar as espécies a nível molecular. Atualmente, temos sequenciados os genomas não só da espécie humana, mas também de diversos outros primatas, como chimpanzés, bonobos, orangotangos e gorilas. Dessa forma, podemos comparar os genomas e genes diretamente e entender como a evolução agiu em cada espécie.

Nesse artigo, vou apresentar a você a minha contribuição para esse tema científico. Minha pesquisa foi feita durante o meu Doutorado, realizado no Laboratório de Bioinformática da Universidade de Leipzig, Alemanha, pelo programa brasileiro Ciência sem Fronteiras. Essa pesquisa foi feita em bioinformática com um time multi-disciplinar de Biologia e Ciência da Computação.

Quais genes nos diferenciam de espécies evolutivamente próximas, como os chimpanzés e bonobos? Para responder a essa pergunta nós estudamos famílias de genes de primatas para descobrir quais genes têm funções humano-específicas. Para isso usamos técnicas avançadas de bioinformática. A bioinformática é uma área relativamente nova da ciência, que aplica o imenso poder de processamento e análise da ciência da computação nos problemas existentes em biologia.

Nuvem de palavras de bioinformática. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Genes podem ser classificados em dois grandes grupos igualmente importantes: as proteínas e os menos conhecidos RNAs não codificadores (ncRNAs). Esses últimos estão envolvidos na regulação e manutenção das células do nosso corpo. No meu trabalho publicado na revista científica BMC Bioinformatics em 2019, apresentei o SSS-test (test for Selection on Secondary Structure), primeiro programa da comunidade científica mundial capaz de analisar famílias de ncRNAs e reportar o grau evolutivo de cada espécie. 

Árvore evolutiva de cinco espécies de primatas (à esquerda) em contraste com a evolução de um ncRNA (um tipo de gene) com estrutura humano-específica (direita). O novo programa de bioinformática SSS-test encontra tais genes, nos ajudando a entender o que exatamente nos diferencia de outras espécies. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa.

Como isso é feito? Primeiro, construímos um algoritmo teórico com os seguintes passos: 

  • (i) recebe como entrada as sequências de genes tipo ncRNAs,
  • (ii) detecta as diferenças entre as espécies e 
  • (iii) constrói modelos estatísticos de impacto estrutural. 

Após definir esse novo algoritmo, nós o implementamos por meio de uma linguagem de programação. Dessa forma, traduzimos as teorias e fórmulas estatísticas em um programa, o qual o computador entende e processa. 

Parte do programa SSS-test. Créditos: Maria Beatriz Walter Costa

Com o programa SSS-test finalizado, processamos todas as 15 mil famílias de ncRNAs conhecidas de primatas (Walter Costa, LGBio) e encontramos um pequeno grupo de 110 ncRNAs com sinais humano-específicos. Um deles é o MIAT, ilustrado na figura acima da árvore evolutiva de primatas. O MIAT e mais alguns desses ncRNAs estão ativos no nosso cérebro, o que pode levar a descobertas futuras ainda mais intrigantes sobre a nossa biologia e o que nos difere de outras espécies próximas, como os chimpanzés e bonobos.

Dentre as principais diferenças entre nós e nossos primos genéticos, estão as nossas habilidades únicas de fala, cognição e linguagem. Outro exemplo dos ncRNAs que estudamos, denominado HAR1, está ativo no desenvolvimento do cérebro ainda na gestação, e pode estar relacionado à cognição. As descobertas do meu Doutorado juntamente com nosso novo software, o SSS-test, ajudam a compreender melhor todas essas complicadas questões sobre o que nos torna humanos.

Referências

Conversa com a Dra Maria Beatriz Walter Costa pelo LGBio. “Pesquisa em Bioinformática: Evolução e Seleção Adaptativa de ncRNAs”. Youtube. 2020   https://www.youtube.com/watch?v=7wC2dL3QadM 

Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Dunjić, Marko; Stadler, Peter e Nowick, Katja. “SSS-test: a novel test for detecting positive selection on RNA secondary structure”. BMC Bioinformatics. 2019 https://bmcbioinformatics.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12859-019-2711-y

Nowick, Katja; Walter Costa, Maria Beatriz; Höner zu Siederdissen, Christian; Stadler, Peter. “Selection Pressures on RNA Sequences and Structures”. Evolutionary Bioinformatics 2019  https://doi.org/10.1177/1176934319871919 


Walter Costa, Maria Beatriz. Tese de Doutorado (Doctor rerum naturalium) em Ciência da Computação. “Adaptive Evolution of Long Non-Coding RNAs”. Universidade de Leipzig, Alemanha. Programa Ciência sem Fronteiras – CNPq/Brasil 2018  https://nbn-resolving.org/urn:nbn:de:bsz:15-qucosa2-323898

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Brasil à Frente no Sequenciamento e Estudo do Coronavírus

A ciência brasileira é bastante respeitada no cenário mundial, em grande medida devido ao comprometimento e trabalho árduo dos nossos cientistas. Um exemplo inspirador foi o sequenciamento em somente 48 horas do coronavírus (SARS-CoV-2) do primeiro paciente registrado na América Latina, que foi contaminado na Itália. Como referência, outros países levam em média 15 dias para fazer o mesmo. Duas cientistas de destaque nesse projeto são a Dra Ester Sabino e a Dra Jaqueline de Jesus. Elas observaram que o vírus sequenciado no Brasil possui muitas semelhanças com o vírus sequenciado na Alemanha. Isso pode ser explicado a partir das pesquisas de cientistas italianos, que mostraram que o vírus chegou na Itália a partir da Alemanha.

Dra Ester Sabino (esquerda) e Dra Jaqueline de Jesus (direita). Crédito: USP Imagens e Currículo Lattes.

Mas o que é sequenciamento e o que podemos descobrir a partir dele? Todos os organismos, desde os vírus até os mamíferos têm material genético, ou genoma. O genoma é como um livro de receitas para a vida. Cada parágrafo desse livro contém uma instrução para o funcionamento celular. No caso do SARS-CoV-2, por exemplo, alguns capítulos (ou genes) são responsáveis pela produção da estrutura viral, outros pelos meios de infecção. Além de determinar as funções celulares, quando um vírus se reproduz, o genoma é passado adiante. Sequenciamento é a decodificação do genoma.

Isso tudo é feito a partir de uma pequena amostra de mucosa do paciente, do nariz ou boca. O genoma do vírus é extraído a partir da amostra por meio de técnicas de biologia molecular e enviado para um aparelho de sequenciamento. Essa tecnologia tem se desenvolvido enormemente nas últimas décadas. A técnica utilizada por Ester e Jaqueline, chamada MinION é portátil e barata, o que facilita o monitoramento de epidemias de diferentes organismos. É importante salientar que além da tecnologia avançada e relativamente barata, a experiência da equipe de pesquisa brasileira com estudos prévios de dengue e zika foram determinantes para o sucesso do sequenciamento do SARS-CoV-2. Isso mostra a importância do financiamento e apoio à pesquisa no nosso país.

Além das informações obtidas do aparelho de sequenciamento e do laboratório de biologia molecular, nós precisamos de técnicas de bioinformática e ciência da computação para compreender o significado do genoma. Com uma técnica de bioinformática denominada anotação, podemos descobrir onde estão os genes, e que funções eles têm. Também podemos comparar as sequências com outras cepas (variações) de coronavírus, e saber com quais delas o SARS-CoV-2 humano se assemelha. A partir dos genes, podemos também desenvolver tratamento e vacinas para a doença causada pelo vírus. Além dos estudos do genoma em si, os cientistas também aplicam simulações matemáticas para estudar como o vírus se propaga, e quais seriam as consequências de se aplicar diferentes políticas de quarentena para contenção do vírus. Essas simulações de propagação são muito bem explicadas nesse vídeo do canal 3Blue1Brown (que tem legendas em português disponíveis).

Sabemos sobre o genoma do SARS-CoV-2, a semelhança entre vírus de diferentes países e rotas de propagação. Mas de onde veio esse vírus originalmente, ele foi fabricado em laboratório? Um trabalho importantíssimo publicado na revista Nature Medicine estudou a origem do SARS-CoV-2 e mostrou que ele evoluiu em ambiente natural, e não surgiu em laboratório (ambiente artificial). A origem exata ainda é desconhecida, com duas hipóteses prováveis: evoluiu primeiro em humanos e foi passada a animais posteriormente, ou evoluiu primeiro em animais e foi passada a humanos posteriormente. Para obter esses conhecimentos, os autores deste trabalho compararam as cepas de coronavírus humana e de outros animais com uma técnica de bioinformática chamada alinhamento de sequências, na qual as sequências são agrupadas de acordo com similaridade (ilustrado na figura abaixo). O sequenciamento de mais amostras, tanto de animais quanto de humanos irá ajudar a descobrir a origem exata do vírus.

Genoma do coronavírus humano e comparações com sequências de outras espécies animais. Crédito: Andersen e colaboradores, revista Nature Medicine

É importante ressaltar que a comunidade científica e a indústria biomédica mundial estão trabalhando com afinco no desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2. Não existem medicamentos específicos contra SARS-CoV-2 no momento, e por isso medicamentos não tão eficazes estão sendo usados em casos mais graves. Apesar de todos os esforços, tais pesquisas são extremamente difíceis e delicadas, e não são imediatas. Cálculos atuais prevêem uma vacina para no mínimo o meio do ano de 2021. Para diminuir a taxa de contágio, governos e instituições do mundo inteiro estão aplicando políticas de quarentena. Atualmente, o distanciamento social é a principal medida de combate ao coronavírus.

Todos os estudos científicos do SARS-CoV-2 tem um valor imenso para os serviços de saúde e consequentemente para a população. Os cientistas estão nos apoiando diretamente nesse momento, assim como os profissionais da saúde. Mesmo se nós não somos da área de pesquisa ou saúde, podemos ajudar também no combate à pandemia ao praticar o distanciamento social o máximo possível, lavar as mãos com frequência e cuidar do nosso equilíbrio emocional e da nossa saúde física e mental.

Referências

[1] Primeiro Sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil (29.02.2020)

[2] Brasileiras que lideraram o time de sequenciamento do SARS-CoV-2 (01.03.2020)

[3] Origem do SARS-CoV-2 no mundo (17.03.2020)

[4] Desenvolvimento de vacinas e tratamentos para o SARS-CoV-2 (02.04.2020)

[5] Coronavírus: cancelaram as aulas! E agora? (16.03.2020)

[6] Simulação de propagação viral (18.03.2020)

[7] Simulando uma epidemia (com legendas em português, 27.03.2020)