Como a história do DNA e de Rosalind Franklin se entrelaçam?

Para começarmos, vamos lembrar que o DNA é uma molécula de ácido nucleico, encontrada no núcleo de células eucarióticas (como nós, humanos!) que contém todo o nosso código genético. Código genético nada mais é do que a sequência codificada em nucleotídeos, de todas as proteínas produzidas pelo nosso organismo. Mas, esse já é outro assunto, vamos nos ater a estrutura do DNA e para isso trago duas perguntas à vocês, caros leitores:

1°) Qual a estrutura da molécula de DNA?

2°) Quem a descobriu?

Essas perguntas, e suas respostas abrem muitas das aulas introdutórias de Biologia Molecular e Genética, e talvez, você já tenha a resposta na ponta da língua. O conhecimento da estrutura do DNA, divulgado em abril de 1953 na Revista Nature, nos permitiu aprofundar infinitamente os estudos na molécula de DNA, e novas informações sobre os nossos genes e suas funções não param de surgir todos os dias. A estrutura do DNA é uma dupla fita que se enrola formando uma estrutura helicoidal. As fitas são formadas por esqueletos de fosfato e açúcar ligados as bases nitrogenadas, essas bases (A, T, C,G) formam pares, unindo as duas fitas, e formam a sequência do nosso código genético. Essa estrutura, que revolucionou o estudo da Biologia Molecular, foi apresentada à todos por James Watson e Francis Crick. Watson publicou, em 2003, um livro, com o título The double helix, contando a história desse experimento. Não preciso dizer, que ambos ficaram muito famosos com isso, preciso?

Desenho da dupla hélice de DNA presente na primeira publicação de Watson e Crick, em 1953, na Revista Nature e livro de James Watson, publicado 50 anos após, o experimento.

Mas é aí que começa a nossa história. A descoberta de Watson e Crick foi fundamentada em estudos de difração de Raio-X, uma técnica de consiste em bombardear uma estrutura cristalizada com raios-X e registrar o espectro formado pela difração dos raios, devido à colisão com a molécula em estudo. Estes estudos foram a base fundamental da descoberta publicada, porém esses, não foram feitos por Watson e Crick, e sim pela fisicista e cientista Rosalind Franklin.

Imagem de Difração de Raio X da molécula de DNA do trabalho de Maurice Wilkins e Rosalind Franklin e foto da fisicista dos arquivos de Cold Spring Harbor Laboratory Archives.

Rosalind Franklin nasceu em 1920 na Inglaterra, seu pai queria ser um cientista, mas devido à Primeira Guerra Mundial, precisou desistir desses planos. Quando a filha demonstrou as mesmas inclinações, seu pai tentou convencê-la do contrário, pois era uma carreira muito difícil para mulheres. Apesar disso, em 1938, ela entrou na universidade de Cambridge para estudar química. Apesar de excelente aluna, e de ter ganho uma bolsa de estudos de pós-graduação, o laboratório não era muito favorável ao trabalho de uma mulher. E por isso, ela foi à Paris, no Laboratório Central de Estudos Químicos do Estado, onde começou a trabalhar com Maurice Wilkins, em uma relação não muito agradável, em que ele a via como simples assistente. Rosalind desenvolveu estudos com duas moléculas diferentes de DNA, com diferentes níveis de hidratação, e através da difração de raio X, chegou a conclusão que os fosfatos ficariam do lado externo da molécula, que provavelmente era uma hélice. Ela apresentou esses dados em uma conferência no King’s College, em Londres, na qual James Watson estava presente. Watson, seis dias após a palestra de Rosalind, apresentou um modelo com uma tripla hélice, e comentou com Crick sobre os resultados da fisicista, sobre os quais admitiu “não ter prestado muita atenção ao que ela falava”, mas procuraram Wilkins, que mostrou os resultados de Rosalind, sem sua autorização. Em 1953, Watson e Crick publicaram na Nature a descoberta da correta estrutura do DNA.

Essa questão do envolvimento de Rosalind Franklin na descoberta da estrutura do DNA e sua falta de reconhecimento é discutida por muitos historiadores. Sayre e Maddox defendem o pensamento de que a dupla de pesquisadores teria se apropriado dos dados de Rosalind e passado em sua frente, não só no momento da publicação, como em todos os louros que se seguiram a esta. Outros, argumentam que os objetivos deles eram muito diferentes, Rosalind queria apenas definir uma estrutura estática, enquanto que Watson e Crick queriam relacionar a estrutura ao comportamento biológico do DNA, sua replicação, funções dos genes e papel no dogma central da Biologia Molecular. De qualquer forma, o conhecimento da estrutura do DNA foi o impulso inicial para isso, e se baseou nas descobertas, pouco valorizadas, de Rosalind Franklin. Podemos ver a importância da confirmação da estrutura para o seguimento dos estudos, no trecho do segundo artigo sobre a dupla hélice publicado por Watson e Crick:

Recentemente propusemos uma estrutura (…) que, se correta, imediatamente sugere um mecanismo para (…) [a] autoduplicação [do DNA]. (…) Embora a estrutura não esteja completamente provada até que seja feita uma comparação mais ampla com os dados de raios X, nos sentimos suficientemente confiantes em sua precisão para discutir suas implicações genéticas” (Watson & Crick, 1953b, p. 965)

A descoberta de Watson e Crick se baseou nas difrações de raio X da molécula B-DNA, a mais hidratada, e presente de forma fisiológica nas células, enquanto que Rosalind, após sua apresentação voltou sua atenção para a molécula de A-DNA, não obtendo resultados tão promissores. Mesmo assim, acredito que Rosalind Franklin merecia o devido reconhecimento por seus esforços, e merecia ter sido tratada como igual dentre esse grupo de cientistas, dos quais muitos dos seus resultados, que os tornaram brilhantes, começaram com uma ideia de Rosalind Franklin.

Rosalind Franklin deixou os estudos com a molécula de DNA em 1953 e se dedicou ao estudo do vírus do mosaico do tabaco. Mesmo doente, teve inúmeros trabalhos publicados e faleceu em 1958 em decorrência de um câncer. Em 1962, o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi dado a James Watson, Francis Crick, e Maurice Wilkins. O prêmio Nobel não homenageia pessoas que já faleceram, por isso, espero que nós possamos reconhecer o trabalho de Rosalind Franklin.

Referências:

Bibliografia de Rosalind Franklin, disponível em http://www.dnaftb.org/19/bio-3.html, [acesso em 17/05/2017]

Da Silva, Marcos Rodrigues, As controvérsias a respeito da participação de Rosalind Franklin na construção do modelo da dupla hélice. Scientiæzudia, São Paulo, v. 8, n. 1, p. 69-92, 2010.

A. Zaha, H. B. Ferreira & L. M. P. Passaglia (Organizadores) BIOLOGIA MOLECULAR BÁSICA. Terceira edição – Revista e ampliada (2003). . Capítulo 2 – Estrutura dos ácidos nucleicos.

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4 comentários sobre “Como a história do DNA e de Rosalind Franklin se entrelaçam?

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