0

Cientistas da NASA utilizam tinta especial para design de foguetes

Não é de hoje que o ser humano sonha em conquistar o espaço. Quase 50 anos depois de pisar na Lua1, os objetivos de ir cada vez mais longe e desbravar mais do desconhecido só aumentam (e parece que as perspectivas são boas, a NASA relatou ter observado sete planetas habitáveis recentemente2). Claro que conquistas como essas apenas são possíveis com o desenvolvimento de tecnologia para analisar as condições do espaço e também para desenvolver foguetes cada vez mais avançados, garantindo segurança e economia nas missões espaciais.

Uma das principais partes do projeto de foguetes e de tecnologias espaciais é a fase de testes em túneis de vento. A NASA atualmente possui mais de vinte túneis de vento3, com capacidade para realização de testes e experimentos em diversas escalas. Fotos do maior túnel de vento do mundo (abaixo), localizado na NASA Ames,  Califórnia, EUA, dão uma ideia de quão grandes podem ser esses equipamentos.

109856main_ac84-0712-15

Maior túnel de vento do mundo, localizado na NASA Ames, na Califórnia.

109857main_ac91-0121-36

Avião FA-18 no túnel de vento da NASA Ames. Fonte das imagens: https://www.nasa.gov/centers/ames/multimedia/images/2005/nfac.html

Existem diferentes técnicas e experimentos que podem ser realizados em túneis de vento. Estes túneis podem ser equipados com diversos tipos de instrumentação que são utilizadas para coletar dados relevantes ao experimento a ser realizado. Em alguns túneis, as forças do vento agindo no modelo sendo testado podem ser medidas diretamente através do eixo onde o modelo está localizado4. É comum obter medidas de pressão através de sensores de pressão localizados no modelo a ser testado e utilizar os resultados obtidos para calcular coeficientes de performance e eficiência do modelo. Ainda existem casos onde propriedades como velocidade e temperatura do ar deslocado pelo modelo são medidos por sensores de pressão, sensores de velocidade ou medidores a laser.4

Para algumas aplicações, é necessário obter medidas mais próximas à superfície do modelo a ser testado. Isso muitas vezes é difícil, dependendo do formato do modelo e das condições de instrumentação do túnel onde o modelo se encontra. Para tentar melhorar o acesso a informações sobre o fluxo do ar sobre um modelo em túnel de vento, cientistas inventaram uma técnica de medida chamada pressure sensitive paint, PSP (tinta sensível a pressão, em tradução livre).

roozeboom_psp_launch_vehicle

Nettie Roozeboom, engenheira da NASA, verificando um modelo de veículo de lançamento especial coberto com PSP que brilha quando exposta a luz azul. Na foto, o modelo está instalado para teste em um túnel de vento na NASA Ames, Califórnia. Fonte da imagem: https://www.nasa.gov/aero/power-of-pink-provides-nasa-with-pressure-pictures

PSP funciona de maneira simples. Uma camada fina da tinta sensível a pressão é aplicada sobre o modelo a ser estudado no túnel de vento. Depois de seco, o modelo é instalado no túnel de vento, equipado com luzes LED da cor azul e com câmeras especiais para gravar o experimento. Quando o túnel é ligado, uma corrente de vento é produzida e ar flui sobre o modelo testado, causando regiões de diferentes pressões sobre o modelo. A luz LED excita moléculas conhecidas como luminophores, fazendo com que a tinta sobre o modelo brilhe. Ao mesmo tempo, devido à composição química da tinta, moléculas de oxigênio saturam os luminophores. Regiões de alta pressão possuem mais oxigênio, então a tinta brilha com menos intensidade do que em regiões de baixa pressão, com pouco oxigênio. As diferenças entre quanto a tinta fluoresce relacionada à pressão aplicada no modelo são registradas pelas câmeras. As imagens em preto e branco resultantes deste teste são analisadas em escala de cinza. Os diferentes tons de cinza são então convertidos para uma escala colorida indicativa dos diferentes níveis de pressão observados na superfície do modelo.5

Com o passar do tempo a técnica foi se aprimorando e, hoje em dia, uma tinta sensível a pressão foi responsável pela viabilização de testes de aerodinâmica na NASA Ames. Essa técnica é chamada unsteady PSP (PSP instável, tradução livre). Ela é utilizada para medir flutuações nos valores da pressão e forças agindo sobre uma aeronave ou espaçonave. A seguir, um vídeo para ilustrar o uso desta tecnologia em uma simulação de um modelo de foguete.

Este video mostra a visualização de medidas de pressão instável afetando um modelo de espaçonave, durante a simulação do lançamento em um teste de túnel de vento. Tanto aeronaves quanto espaçonaves devem ser projetadas para aguentar forças dinâmicas, ou arriscar serem quebradas em pedacinhos. Neste teste, foram observadas vibrações que ocorrem quando veículos se movem em regiões de ar turbulento.

Grandes desenvolvimentos na área de instrumentação em túneis de vento são contribuições essenciais para o avanço das tecnologias que viabilizam a conquista da exploração espacial. São pequenos detalhes como este da tinta sensível a pressão que trazem a humanidade um passo mais perto do desconhecido.

Referências:

1 https://www.nasa.gov/mission_pages/apollo/apollo11.html

2 https://www.nasa.gov/press-release/nasa-telescope-reveals-largest-batch-of-earth-size-habitable-zone-planets-around

3 https://www.nasa.gov/centers/langley/news/factsheets/WindTunnel.html

4 https://www.grc.nasa.gov/www/k-12/airplane/tuntest.html

5 https://www.nasa.gov/ames/image-feature/chaotic-airflow-over-rocket-measured-in-groundbreaking-test

 

Anúncios
0

Menos rosas, mais cartazes: construindo uma greve internacional de mulheres para o 8 de março

 

Primeiro, marchamos; agora, vamos parar.

Abandonar qualquer obrigação de trabalho, seja em escritórios, fábricas, escolas, restaurantes, e até mesmo na esfera doméstica, durante um dia inteiro: esse é o chamado que está sendo feito para o próximo 8 de março, dia internacional da mulher.

O movimento por uma greve internacional de mulheres está sendo construído por coletivos que ganharam destaque recentemente, como o argentino “Ni una menos,” que no ano passado organizou uma grande passeata com repercussão em diversas regiões do Cone Sul, e o estadunidense “Women’s March,” que no último 21 de janeiro levou às ruas de todo o mundo milhares de pessoas que marcharam contra a violência de gênero, a misoginia e a discriminação. O sucesso alcançado por esses movimentos em mobilizar um grande número de pessoas fez com que ambos despontassem no cenário do feminismo internacional como vias de articulação de algo ainda maior. A ideia agora é usar o 8 de março como plataforma para chamar atenção a pautas feministas bem antigas, mas ainda hoje brutalmente atuais.

“Se nossa vida não vale, que produzam sem nós”

O slogan do chamado à greve faz referência direta às altas taxas de feminicídio ao redor do globo e serve de alerta a governantes, deixando claro que uma mudança drástica nas políticas públicas e na cultura geral, ainda amplamente machista, é urgentemente necessária. É uma provocação que diz “veja bem, temos plena consciência de que nossas vidas não são tratadas com o devido respeito e demandamos uma resposta à altura. Do contrário, terão que sustentar suas economias nacionais sem a contribuição feminina”.

Mas esse é também um slogan que clama por condições igualitárias no mercado de trabalho, denunciando a disparidade de remuneração entre os sexos. Nesse sentido, o movimento se inspira claramente na greve geral de mulheres organizada na Islândia em 1975. Em outubro daquele ano, cerca de 90% das mulheres islandesas se recusaram a comparecer ao trabalho, cuidar da casa e dos filhos, a fim de deixar claro que suas contribuições à sociedade islandesa eram indispensáveis—logo, mereciam reconhecimento e remuneração adequados. (O movimento foi bem sucedido e a Islândia é hoje um dos líderes mundiais em igualdade de gênero).

Outras questões em pauta incluem o controle sobre os direitos reprodutivos da mulher, atenção à saúde adequada, maior inclusão das mulheres negras, das transexuais, das imigrantes e refugiadas, que sofrem discriminação em grau ainda maior, estão mais expostas à violência e suscetíveis a condições de trabalho mais precárias.

Até o momento, mais de vinte países já aderiram ao movimento e convocaram a greve a nível nacional, incluindo países da América do Sul, América do Norte e América Central, Europa e Ásia. O grupo articulado em torno da Women’s March lançou uma espécie de manifesto no início de fevereiro, e vários grupos ao redor do mundo têm lançado seus próprios chamados.

E você, vai fazer o quê no próximo dia 8?

Para saber mais:

Aqui no Cientistas Feministas publicamos textos sobre os novos movimentos de mulheres na América Latina, sobre a Marcha das Mulheres de janeiro desse ano, e vários outros textos que abordam a desigualdade de gênero na coluna Em Off: feminismo.

O “Dia sem mulher”, como foi batizado o movimento pela greve, teve grande repercussão na mídia brasileira e internacional. Entre os muitos artigos já publicados, vale a pena conferir o do El País, e a carta assinada pelas representantes da Marcha no The Guardian (também disponível em português no Brasil de Fato).

 

0

Sobre o que lichias e crianças indianas têm a ensinar

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Imagine a cena: todos os anos, na época do verão, muitas crianças saudáveis acordam pela manhã chorando muito, apresentando convulsões e alterações do estado sensorial e mental. Algumas delas vem a falecer do que parece ser uma doença misteriosa, e da mesma forma, ao iniciar a temporada de chuvas, os surtos praticamente desaparecem. O que parece ser enredo de ficção ocorreu na India, em Muzzaffarpur, região conhecida por ser a maior área de cultivo de lichias no país. Os surtos chamaram a atenção dos médicos por ocorrer sempre entre maio e junho e acometer crianças sem histórico de doenças neurológicas.

Os casos intrigavam a comunidade desde 1995 e diferentes hipóteses foram propostas: doença cerebral infecciosa, exposição a pesticidas e metais pesados e o contato com as lichias. Em 2013, o National Centre for Disease Control da India (NCDC) e o US Centers for Disease Control and Prevention (US CDC) iniciaram uma investigação com enfoque nas características epidemiológicas e clínicas da doença, o que culminou na publicação de um artigo na revista The Lancet Global Health (1). Os achados iniciais indicaram ausência de infecções e revelaram um ponto comum: baixa glicose no sangue (akee, da mesma família botânica da lichia – ou seja a hipótese do consumo da lichia ser a causa da doença ganhou fortes justificativas. O foco eram duas substâncias presentes nas frutas: o MCPG (metileneciclopropilglicina), similar a hipoglicina A (composto orgânico tóxico [2]) e uma outra substância presente na semente e na polpa da lichia, conhecida por causar a queda da glicose sanguínea. Porém um enigma ainda permanecia: por que somente uma parte das crianças era afetada?

Para responder a essa outra pergunta, os cientistas investigaram e compararam dois grupos de crianças com idade até 15 anos internadas em dois hospitais de Muzaffarpur: 1) com crises convulsivas ou alterações sensoriais e 2) internadas devido à doença não neurológica. Os dados clínicos de todas elas foram analisados, bem como amostras das lichias consumidas pelas crianças doentes. Ao todo, foram admitidas 390 crianças com o quadro da doença e 31% delas morreram. A doença se associou ao consumo de lichia e ausência de refeição noturna nas 24 horas anteriores ao início dos sintomas. Além disso, as crianças doentes não tinham rotina de higienização de frutas e vegetais e apresentavam nível socioeconômico abaixo da linha da pobreza, consumindo muitas vezes frutas verdes, podres, caídas no solo e muitas vezes parcialmente comidas (3).

A explicação para a relação entre o consumo de lichia e a doença seria que a falta de alimentação adequada leva à queda de glicose no sangue durante a noite e essa queda é intensificada pelas substâncias presentes na fruta. Crianças pequenas tem limitada reserva de glicose no fígado, o que faz com que se inicie mais rapidamente o uso de gordura corporal para produção de energia. Entretanto, os compostos presentes na lichia também inibem esta via do metabolismo, causando então a hipoglicemia (glicose sanguínea baixa) e a encefalopatia (dano e mau funcionamento cerebral) agudas, uma vez que a glicose é a única fonte de energia para o cérebro. Os pesquisadores destacam que apesar de a lichia ser muito comum em todo o vilarejo de Muzaffarpur, muitas vezes somente uma criança em toda a vila chega a desenvolver a doença. Assim, a combinação de refeições ausentes e fatores como baixo estado nutricional, alto consumo de lichia e variações genéticas ainda não identificadas pode resultar na doença (1).

Talvez, ao se deparar com os casos de Muzaffarpur, o primeiro pensamento seja “será que precisamos reduzir o consumo de lichias?” Com certeza não, uma vez que foram casos específicos a uma determinada região e a relação de causalidade ainda permanece em aberto. A história das lichias apresenta uma questão muito mais profunda, uma vez que fica claro o papel das condições de vida das crianças afetadas. Além disso, evidencia os desafios de se fazer pesquisa em locais com recursos limitados. Em entrevista ao jornal El Pais, a pesquisadora Padmini Srikantiah, uma das autoras do estudo, ressalta como a falta de recursos impede o avanço da pesquisa, em especial na área de saúde pública. Dezoito anos se passaram desde os primeiros casos, e foi necessária a colaboração de uma grande equipe de profissionais, numa parceria indo-americana para se investigar as mortes dessas crianças. Qualquer tentativa anterior de elucidar a causa da doença sem explicação acabou sendo deixada de lado, cenário que se repete em diversas partes do mundo. “Somente um enfoque sistemático, contando com médicos, epidemiologistas, cientistas, toxicologistas… pode conseguir os dados necessários para se obter conclusões úteis”, diz Srikantiah (4).

  1. Shrivastava A, Kumar A, Thomas JD, Laserson KF, Bhushan G, Carter MD, et al. Association of acute toxic encephalopathy with litchi consumption in an outbreak in Muzaff arpur, India, 2014: a case-control study. Lancet Glob Health. 2017 [Epub ahead of print]. Link: http://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(17)30035-9/fulltext?rss=yes&sf53601112=1
  2. Blake OA, Bennink MR, Jackson JC. (2006). «Ackee (Blighia sapida) hypoglycin A toxicity: dose response assessment in laboratory rats».Food and Chemical Toxicology44 (2): 207-213. PMID 16099087.
  3. http://www.nutritotal.com.br/mod/noticia/view.php?id=29367
  4. http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/02/internacional/1486047108_040648.htm
  • Imagem: http://metropolerevista.com.br/wp-    content/uploads/2014/01/d07736ae9f48432bfb9b6373eda534ba.jpg
1

Preservação da biodiversidade a partir da valorização da sociodiversidade.

quilombo-sapatu

Dona Laura e a farinha de mandioca artesanal. Quilombo Sapatu – Eldorado/SP (Vale do Ribeira). Fonte: Augusto Amado

As unidades de conservação (UC) são a principal estratégia do estado para a preservação e manutenção da diversidade biológica. São áreas de domínio público, com características naturais importantes (incluindo as águas jurisdicionais), instituídas pelo Estado, com objetivos de conservação, manejo e limites definidos, que são submetidas a uma forma específica de administração, onde se aplicam garantias adequadas de proteção[1]. Buscam promover também o uso sustentável dos recursos naturais, a educação ambiental, o lazer, o turismo e a pesquisa científica.

No Brasil, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) (Lei nº 9.985/2000) é o instrumento legal que regula os diversos tipos de UCs (federais, estaduais e municipais). Além de trazer para o âmbito nacional de políticas públicas um esforço de integração entre sociedade e natureza, o SNUC assegura a democratização dos processos de criação, implementação e gestão e ainda aponta para necessidade de articulação entre as políticas públicas de proteção à natureza e as de desenvolvimento econômico e social[2].

Apesar de estarem no cerne das estratégias da gestão ambiental, as UC não tem sido capazes de frear a crescente perda de biodiversidade, a degradação ambiental e os impactos a ela associados. Aspectos que se dão não só devido à intensa ocupação e exploração humana no/do planeta terra a partir de tecnologias cada vez mais avançadas e predatórias, mas também devido às limitações desse modelo de conservação[3].

A definição e gestão das UCs (principalmente as de proteção integral) tem configurado, historicamente, um cenário de conflito de territorialidades que se explicita por meio da demarcação de limites e pela determinação de restrições ou impedimento de uso da terra[4]. Em sua maioria, esse processo é conduzido a partir de uma lógica centralizada e tecnocrática onde os sujeitos impactados são tratados como público-alvo como se não tivessem interesses e projetos próprios. Isto é, ele não se desenvolve a partir de uma interpretação realista do contexto socioeconômico de uma área com potencial para a conservação da biodiversidade.

A superação da herança do pensamento da preservação estrita (sem a presença humana), que expulsou populações locais de seus territórios que haviam mantidos preservados importantes remanescentes florestais, para a criação de uma unidade de conservação com esse objetivo, marcou a história das áreas protegidas no Brasil e no mundo e ainda, mesmo com alguns avanços, continua sendo um desafio[5].

É importante salientar que as terras indígenas e de quilombos, apesar de não serem oficialmente consideradas como áreas de conservação, com seus usos e apropriações historicamente estabelecidos, podem impedir/dificultar a fragmentação fundiária e, consequentemente, os impactos negativos do uso intensivo da terra. Essas características inscrevem-nas no campo das políticas territoriais de proteção do meio ambiente – indispensáveis para a conservação do patrimônio natural[6].

Mesmo que em alguns casos os argumentos preservacionistas sejam essenciais e algumas áreas tenham a necessidade de um nível de proteção mais elevado, não se devem desconsiderar as relações complexas e a dinâmica socioeconômica, cultural e política preexistentes. Quando as regras de uso e apropriação são impostas de forma não democrática, as UCs podem ser vistas pela população local como um entrave ao seu crescimento e um enfrentamento sobre seu direito de sobreviver (já que impedem ou dificultam a sua produção e reprodução cotidiana).

Contudo, quando os atores locais são incorporados nos processos de tomada de decisão de maneira efetiva e autônoma, esse cenário tende a ser alterado (ou até revertido), pois novos elementos surgem dessa interação. O desenvolvimento de uma arena participativa pode proporcionar o fortalecimento da própria organização comunitária, a internalização e apropriação do valor de conservação do patrimônio natural e a consequente melhoria dos processos de gestão ambiental[7].

Não isenta de polêmicas, em junho do ano passado, após três anos de tramitação do PL249/2013, a Lei Nº 16.260/2016 foi aprovada pelo Governo do Estado de São Paulo. Essa autoriza o Estado a conceder à iniciativa privada, por meio do processo de concessão via licitação na modalidade de concorrência, a exploração dos serviços ou o uso de áreas, ou parte de áreas, inerentes ao ecoturismo e à exploração comercial madeireira ou de subprodutos florestais, pelo prazo de até 30 (trinta) anos.

A maioria dos parques estaduais listados para a concessão tem como vizinhos, ou até moradores internos, populações locais que se adaptaram a “nova realidade” de seus territórios – da implantação de uma unidade de conservação – e passaram e ter como fonte de renda principal o trabalho com o turismo de base comunitária (seja pelas associações de guias de ecoturismo, hospedagem, visitas guiadas – como no caso dos quilombos no Vale do Ribeira, por exemplo – restaurantes comunitários e outras tantas atividades).

Muitas organizações da sociedade civil e representações das comunidades diretamente afetadas pela proposta opuseram-se a ela. Por meio de documentos oficiais, cartas de repúdio e outras manifestações, pediram a ampliação do processo participativo, solicitando a suspensão da votação enquanto a proposta não fosse apresentada e dialogada com a sociedade local. Contudo, o mesmo governo que “dificulta os usos tradicionais de supressão de vegetação para roças nessas áreas” aprovou de forma não participativa a lei que permite que uma empresa faça o manejo e o uso da floresta[8].

Não está se descrevendo aqui sobre a privatização completa das Unidades, pois essas continuam a ser de posse e domínio público de acordo com a lei as institui e regulamenta. Entretanto, trata-se de uma nova forma de uso e apropriação que está voltada muito mais aos interesses privados do que aos públicos. Com efeito, frente às condições jurídicas, financeiras e patrimoniais das licitações que envolvem as concessões, essas populações têm poucas chances de assumirem um papel protagonista no território em que elas chegaram primeiro.

A princípio, a estratégia da concessão pode resolver um problema de caixa para a pasta, mas não necessariamente o sucateamento e a crise das instituições ambientais públicas. Há a chance de tornar-se somente uma forma de o estado abster-se dos ônus de administrar alguns parques e de fortalecer o modelo antidemocrático que historicamente exclui as comunidades tradicionais da gestão das áreas protegidas.

Existem hoje algumas políticas e projetos que amparam e regulam ações em prol da gestão compartilhada dessas áreas em sobreposição ou justaposição. Se realizada a partir da valorização da sociodiversidade e da autonomia dessas populações poderá ser parte da conquista do equilíbrio entre preservação ambiental e justiça social.

[1] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9985.htm

[2] MEDEIROS, 2006. Evolução das tipologias e categorias de Áreas Protegidas no Brasil.
Rio de Janeiro, 2006.

BENSUSAN, 2006. Conservação da biodiversidade em áreas protegidas / Nurit Bensusan.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 176p.

IRVING, 2010. Áreas protegidas e inclusão social: uma equação possível em políticas
públicas de proteção da natureza no Brasil? Sinais Sociais, Rio de Janeiro, v. 4, n. 12,
p. 122-147, 2010.

[3] BENSUSAN, PRATES, 2014. Introdução: Sobre esse livro. In: BENSUSAN, N.; PRATES, A. P. (Orgs). A diversidade cabe na unidade?: áreas protegidas no Brasil. Brasília: IEB, 2014, pp. 18- 26

[4] HEIDRICH, 2009. A. Conflitos territoriais na estratégia de preservação da natureza. In: SAQUET, M. A.; SPOSITO, E. S. (Orgs.). Territórios e territorialidades: teorias, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular: UNESP. Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2009, pp. 271-290.

[5] FERREIRA, 2014. Cap. 12: O dilema das terras indígenas no SNUC: uma nova abordagem de um velho problema. In: BENSUSAN, N.; PRATES, A. P. (Orgs). A diversidade cabe na unidade?: áreas protegidas no Brasil. Brasília: IEB, 2014, pp. 365-397.

[6] MELLO, 2006. Cap II Políticas Ambientais e Proteção Territorial. In: Políticas territoriais na Amazônia. São Paulo: Annablume Editora, 2006. pp 60 – 97.

[7] IRVING, 2014. Cap. 5: Governança democrática e gestão participativa de áreas protegidas: um caminho sem volta para a conservação da biodiversidade no caso brasileiro. In: BENSUSAN, N.; PRATES, A. P. (Orgs). A diversidade cabe na unidade?: áreas protegidas no Brasil. Brasília: IEB, 2014, pp. 167-182.

[8] https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/privatizacao-de-parques-paulistas-e-aprovada-sem-consulta-as-comunidades-afetadas

0

O Alzheimer e a poluição do ar: estariam os nossos cérebros contaminados?

dependent-826332

Quando pensamos em poluição do ar, os primeiros riscos que nos vêm à cabeça são: alergias, doenças respiratórias, câncer de pulmão, acidente vascular cerebral (AVC, derrame) e doenças cardíacas.1 Infelizmente, mais um risco entrou para esta conta: a doença de Alzheimer, causa mais comum de demência irreversível.2,3

Entre os fatores de risco para desenvolver a doença de Alzheimer estão: idade avançada, histórico familiar e, a mais recente descoberta científica, exposição à poluição do ar.4

Nos dias de hoje, as cidades estão cercadas de fontes de poluição do ar5, como: veículos (queima de combustíveis fósseis)6, indústrias (exaustão de fumaça tóxica)7, áreas agrícolas (agrotóxicos e fertilizantes), mineração (ex. crime ambiental de Mariana e pó preto no estado do ES)8,9, e até mesmo dentro das nossas casas (produtos de limpeza, tintas, fumaça de cigarro).

Muitas vezes conseguimos até ver a poluição, principalmente quando estamos em uma cidade grande, como São Paulo, depois de muitos dias sem chuva. Porém, a maioria das partículas que contaminam o ar é invisível a olho nu, uma vez que são ultrafinas, podendo ser até 200 vezes menores que a largura de um fio de cabelo humano!4 Aí é que mora o perigo.

Partículas pequenas assim passam inclusive pelos filtros de ar mais sofisticados e acabam chegando às nossas narinas. A partir daí elas podem percorrer vários caminhos dentro do nosso corpo, chegando aos pulmões, corrente sanguínea e também ao cérebro. O dano cerebral pode ocorrer de forma direta, quando as partículas atravessam as células nervosas do bulbo olfatório e atingem o cérebro; ou de forma indireta, quando as partículas se acumulam em outros órgãos, desencadeando a liberação de moléculas inflamatórias que, pela corrente sanguínea, alcançam o cérebro.4

Essas partículas e moléculas inflamatórias levam o organismo a produzir as placas senis, ou seja, levam à formação de placas insolúveis compostas pela proteína beta amilóide. Estas placas protéicas impedem a transferência de sinais (sinapse) entre os neurônios, levando-os à morte.10 Com a morte dos neurônios, formam-se lesões cerebrais que levam à doença de Alzheimer.11

Conforme a perda de sinal entre os neurônios avança, a pessoa afetada começa a sofrer gradualmente os seguintes sintomas: perda de memória recente, redução de raciocínio lógico, dificuldade de completar tarefas simples, confusão mental, dificuldades visuais e espaciais, problemas para falar e escrever, redução da capacidade crítica, afastamento do convívio social, mudanças de humor e de personalidade.12

Infelizmente, ainda não temos a cura para a doença de Alzheimer, apenas medicamentos que retardam o agravamento dos sintomas.2 Porém, com esta nova descoberta científica, sabemos que a poluição é um dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença e, que neste caso, podemos dar a nossa contribuição. Então, para reduzir a poluição do ar:

– Utilize transporte público sempre que possível;

– Economize energia elétrica (principalmente quando ela for produzida pela queima de combustíveis fósseis);

– Reduza o consumo de produtos, reuse tudo o que puder, recicle ou doe o que você não usa mais, e recuse-se a comprar coisas com muita embalagem ou das quais você não precisa;

– Exija, do seu governo e governantes, políticas de energia limpa, como: eólica, solar e geotérmica;

– Use eletrodomésticos que consumam menos energia.

Para mais informações e ações para previnir (ou adiar) e tratar a doença de Alzheimer, acesse as páginas: Associação Brasileira de Alzheimer, Associação do Alzheimer e Drauzio Varella.

 

Texto por: Aline R.S.

Referências:

1 http://www.heart.org/HEARTORG/Conditions/More/MyHeartandStrokeNews/Air-Pollution-and-Heart-Disease-Stroke_UCM_442923_Article.jsp#.WKQt0fkrI2w

2 http://www.alz.org/br/demencia-alzheimer-brasil.asp

3 http://www.dementia.com/causes.html

4 http://www.sciencemag.org/news/2017/01/brain-pollution-evidence-builds-dirty-air-causes-alzheimer-s-dementia?utm_source=newsfromscience&utm_medium=facebook-text&utm_campaign=brainpollution-10708

5 http://www.conserve-energy-future.com/causes-effects-solutions-of-air-pollution.php

6 http://www.dft.gov.uk/vca/fcb/cars-and-air-pollution.asp

7 http://g1.globo.com/globo-news/jornal-globo-news/videos/v/explosao-em-fabrica-de-fertilizantes-gera-fumaca-toxica-e-preocupa-moradores-de-cubatao/5559229/

8 https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2016/11/06/um-ano-de-marina-maior-desastre-ambiental-do-brasil-deixa-duras-licoes.htm

9 http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2016/01/entenda-o-que-e-o-po-preto-que-polui-o-ar-e-o-mar-de-vitoria-ha-anos.html

10 http://www.nature.com/tp/journal/v7/n1/full/tp2016280a.html

11 http://www.brightfocus.org/alzheimers/infographic/amyloid-plaques-and-neurofibrillary-tangles

12 http://www.alz.org/10-signs-symptoms-alzheimers-dementia.asp

0

Lugar de mulher é na estante

Quando eu entro na casa de pessoas queridas, uma das primeiras coisas que noto é a sua estante. Ali estão todas as suas principais referências, autores que costuma referenciar e reverenciar no seu íntimo. Inevitavelmente, compostas, em sua grande maioria, de autores homens.

Seria cômico, se não fosse trágico, que nem ao menos 50% de mulheres nos venham à mente em qualquer assunto. Falar de “gênero” não passa, de modo obrigatório, por falar de sexualidade, cisheteronormatividade, ou do que talvez sejam tidos como os temas clássicos do feminismo, ainda que o tema seja o movimento feminista. Falar de gênero é importante se conseguimos colocar mais mulheres em nossa estante.

Para ilustrar o que digo, vou contar de um amigo que, certa vez, na melhor das intenções, elaborou um programa para falar com seus alunos sobre o feminismo e “esqueceu” de incluir ao menos uma mulher na bibliografia. Ao ver aquilo, eu não ri, fiquei muito séria, e ao ser perguntada como ele poderia mudar aquilo, inspirada na Bela Gil, eu disse: “nessa parte, você pode trocar o Chico pela Elis, por exemplo”.

A frequência com que homens passam para a História ao mesmo tempo em que mulheres são apagadas impressiona ainda hoje (Filme Estrelas Além do Tempo, EUA, 2017). Contudo é para fazer justiça não apenas a essas mulheres como também às áreas onde elas fizeram carreira. Ao presumir que nenhuma mulher nunca falou de um certo tema, estamos apagando alguns séculos na história da luta pela inclusão social das mulheres ao mesmo tempo em que apagamos parte importante na história desse mesmo tempo.

Sabe-se que Simone De Beauvoir escreve uma epígrafe em seu tão falado e pouco lido ‘O Segundo Sexo’ (1949) citando a Poulain de La Barre, um dos homens que mais lutou pelo acesso igualitário à educação no século XVII, ainda antes da obra mal-sucedida de Rousseau ao pregar uma educação divergente para Emílio e Sophie (ROUSSEAU, J.-J. “Emílio, ou: Da Educação”, 1762). Ou seja: ao falar de qualquer assunto ou Ciência, é possível fazê-lo citando igualmente a homens e mulheres.

A história dos movimentos sociais nunca encontrou apenas em um dos lados suas fontes e seus intelectuais. A onda seiscentista pela libertação dos escravos negros nas colônias dos países europeus contou com fervorosos apoiadores entre a camada branca da população. Sartre prefaciou um dos maiores escritores africanos do nosso tempo, Frantz Fanon (Os Condenados da Terra, 1961). Como então falar de um movimento que eu não protagonizo?

Vamos começar por encher as nossas estantes de mulheres que fizeram História, vamos ler mais sobre elas e suas obras (GARCIA, Carla Cristina. Breve História do Feminismo. São Paulo, Claridade, 2011). E vamos, enfim, citá-las em nossos trabalhos, como não fez Bourdieu no célebre “A Dominação Masculina” (BURAWOY, Michel. O Marxismo Encontra Bourdieu. Campinas, Unicamp, 2010), e como muitos outros ainda não fazem.

Aos poucos, afinal, vamos assim completar a metade que falta em nossas estantes.


Extra: sugestões de páginas para seguir no Facebook.

0

Por uma nova conceituação histórica da Era das Revoluções

Em um ensaio publicado em novembro do ano passado, o historiador Laurent Dubois fez uma asserção provocadora: se quisermos encontrar um exemplo da expressão máxima dos valores universais que marcaram a Era das Revoluções, é para o Haiti—e não para a França ou Estados Unidos—que devemos olhar. Com isso, vem um apelo para que historiadores e cientistas sociais revejam o modo como tradicionalmente concebem e escrevem a história do pensamento político moderno a fim de construir uma nova narrativa, na qual perspectivas de múltiplos sujeitos históricos possam ser incorporadas. Isso é necessário, argumenta o autor, para que se possa construir uma nova política no futuro na qual o legado da escravidão possa ser de fato superado, em lugar de constantemente revisitado.[1]

Dubois, um dos maiores especialistas da revolução haitiana na atualidade, acredita que o campo ideal para promover essa mudança é o da história Atlântica, que se ocupa, grosso modo, da história da conquista e colonização das Américas, englobando por conseguinte também a África e a Europa, de onde vieram muitos dos agentes dessa história. Dentro do campo da história Atlântica, a chamada Era das Revoluções (termo se refere ao conjunto de movimentos políticos e sociais que ocorreram ao redor do mundo ocidental entre o final do século XVIII e a primeira metade do XIX ) ganha destaque por ter engendrado um novo período histórico, pondo fim ao Antigo Regime e desconstruindo grande parte do sistema colonial. A narrativa dominante insiste que o epicentro da Era das Revoluções se encontra nos movimentos revolucionários levados a cabo nos Estados Unidos (1776) e na França (1789), com repercussões ao redor do Ocidente.

Esses foram, sem dúvida, episódios significativos nos quais a luta por direitos colocou em xeque tanto o sistema colonial quanto o sistema absolutista (respectivamente). No entanto, o historiador ressalta que foi durante a Revolução do Haiti (1791-1804)  que a batalha por direitos alcançou seu ponto máximo, posto que foi levada a cabo por sujeitos totalmente excluídos da esfera política até então: os escravizados de uma colônia de exploração. Não se trata de rejeitar a Revolução Francesa ou a Revolução Estadunidense, mas de reajustar a perspectiva. Afinal, o que sucedeu no Haiti não foi apenas uma batalha por direitos, mas pelo direito a ter direitos, o que Dubois considera a expressão mais radical dos ideários que marcaram a Era das Revoluções; logo, aí deve estar seu epicentro.

Mas afinal, quais seriam os efeitos dessa nova mirada centrada no país caribenho? Um dos desdobramentos mais imediatos provavelmente seria maior ênfase em estudos sobre a África. Isso porque, como Dubois constatou em suas pesquisas, a maior parte dos sujeitos envolvidos na revolução escrava haitiana eram africanos recentemente transplantados à colônia francesa; portanto, a tradição política—as instituições, os conceitos, modelos de liderança, etc.—desses atores era uma tradição política  africana (mais precisamente da África Central, de onde a maior parte das pessoas escravizadas no Haiti vieram[2]), distinta da tradição política de matriz europeia. Logo, para entender a fundo as motivações por trás das ações daqueles que lutaram na revolução faz-se necessário desvendar as referências que informaram tais ações. E nosso conhecimento atual sobre essa tradição política africana ainda é incipiente. Dubois reconhece a dificuldade do desafio, posto que a complexidade da região centro-africana e a escassez de fontes documentais escritas com as quais historiadores estão habituados a trabalhar contribuem para tornar a tarefa particularmente árdua. Mas com uma agenda de pesquisa comprometida e financiamento adequado, podemos desvendar conceitos e ideários políticos que talvez nos sejam úteis no momento atual. Afinal, a crise da política que hoje vivemos a nível mundial sugere que os modelos tradicionais estão esgotados.

Além disso, ampliar nosso conhecimento sobre o continente africano de modo geral significa também enriquecer o entendimento sobre as várias histórias nacionais americanas, uma vez que trará à luz novas ferramentas para entender as contribuições dos povos africanos no Novo Mundo. À medida em que se souber mais sobre a origem exata das pessoas forçosamente escravizadas e enviadas à América, poder-se-á melhor desvendar traços culturais, costumes, linguagens, etc. específicos que também conformam a história das Américas, mas que infelizmente ainda não somos capazes de identificar. Um bom exemplo de como esse conhecimento específico é importante para interpretar o passado nas Américas é a Revolta dos Malês, uma rebelião de negros muçulmanos que ocorreu na Bahia em 1835. Para entender como foi possível que no Brasil houvesse uma revolta negra islâmica é preciso saber que naquela época grande parte dos homens e mulheres vendidos como escravos na Bahia vinham, como descobriu o historiador João José Reis, de portos africanos no golfo do Benim, onde a religião muçulmana era comumente professada.[3]

Reposicionar a Revolução do Haiti no centro da Era das Revoluções também nos obriga a analisar os impactos que a mesma teve sobre as demais regiões do mundo Atlântico. Os historiadores estão cada vez mais conscientes a respeito dessas influências, graças a estudos como os de David Geggus, Ada Ferrer, e Julia Gaffield, para citar alguns[4], mas revisitar algumas análises já bem estabelecidas pelo prisma haitiano talvez seja necessário também, a fim de reavaliar a preeminência francesa e norte-americana. Como ficaria, por exemplo, a história da sedição baiana de 1798, fortemente associada à Revolução Francesa, se o Haiti figurasse de forma mais assertiva na análise?[5] Eis uma tarefa para os pesquisadores que pode contribuir significativamente para ajudar a desbancar a narrativa hegemônica eurocentrista que ainda hoje impera nos currículos escolares.

Referências citadas:

[1] DUBOIS, Laurent. “Why Haiti should be at the centre of the age of revolution.” AEON, novembro, 2016. Disponível em: https://aeon.co/essays/why-haiti-should-be-at-the-centre-of-the-age-of-revolution. Último acesso: 7/2/17.

[2] HEYWOOD, Linda, e John Thornton. Central Africans, Atlantic Creoles, and the Foundation of the Americas, 1585-1660. New York : Cambridge University Press, 2007.

[3] REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Cia. das Letras, 2003. Uma versão resumida pode ser lida em um artigo que o autor preparou para a Revista de História em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/dossie-imigracao-italiana/o-sonho-da-bahia-muculmana

[4] GEGGUS, David (ed.) The impact of the Haitian Revolution in the Atlantic world. Columbia: University of South Carolina, 2001; FERRER, Ada. Freedom’s mirror : Cuba and Haiti in the age of revolution. New Yor: Cambridge University Press, 2014; GAFFIELD, Julia. Haitian connections in the Atlantic World : recognition after revolution. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 2015.

[5] Veja-se, por exemplo, JANCSÓ, István. Na Bahia, contra o Império : história do ensaio de sedição de 1798. São Paulo: Editora Hucitec; Salvador: EDUFBA, 1996.