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Atualidades sobre a Lua e Exomoons

Recentemente a missão Apollo 11, responsável pelo primeiro pouso na Lua, completou 50 anos e um novo plano está em ação para o retorno. A missão Artemis levará pela primeira vez uma mulher até o solo lunar, sendo um projeto de autoria da NASA, ESA e algumas instituições privadas.

A versão atual do programa Artemis incorpora vários componentes principais de outros projetos cancelados da NASA, tais como o Projeto Constellation (uma nova geração de naves para voos espaciais com humanos) e o Asteroid Redirect Mission (uma futura missão espacial que iria de encontro com um grande asteroide próximo da Terra e usaria braços robóticos com pinças de fixação para recuperar uma pedra de aproximadamente 4 metros do asteroide).

 

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Figura 1: Lua. Créditos: NASA/GSFC/Arizona State University

 

A missão Artemis sofreu vários golpes orçamentários nos últimos anos o que fez com que o projeto adiasse seu cronograma algumas vezes com previsão atual de chegada à Lua em 2024 .

Recentemente uma notícia curiosa chamou a atenção, a sonda israelense Beresheet foi feita para ser a primeira sonda privada a pousar na Lua. E tudo estava indo bem até que os controladores da missão perderam contato em abril enquanto a nave robótica descia. Além de toda a tecnologia que foi perdida no acidente, Beresheet tinha uma carga incomum: alguns milhares de tardígrados conhecidos como ursos-d’água. Muito resistentes, os tardígrados podem sobreviver a temperaturas variando desde pouco mais do que o zero absoluto (-272,15 °C) até os 150°C, pressões altíssimas e grandes níveis de radiação, cerca de 1000 vezes mais que um ser humano pode suportar!

Como a Lua é considerada sem vida, o escritório de proteção planetária da Nasa não desaprova as missões que derramam organismos terrestres em sua superfície. Afinal, astronautas já deixaram para trás seus próprios micróbios nos 96 sacos de lixo humano que aguardam algum futuro limpador na Lua. Se a espaçonave tivesse derramado sua carga viva em Marte, a história poderia ser diferente.

Dentro do sistema Solar sabemos que diversos planetas têm “luas”, satélites naturais, como pode ser visto mais detalhadamente nessa série de artigos da nossa página . Fora do nosso sistema temos as Exomons, “luas” de planetas orbitando estrelas que não se encontram no Sistema Solar. No final de 2018 pesquisadores apresentaram novas observações de uma candidata a “lua” associada ao Kepler-1625b usando o Telescópio Espacial Hubble.

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Figura 2: Impressão artística do planeta Artist’s do planeta Kepler-1625b orbitando sua estrela com a possível exomoon.Créditos:Dan Durda/Science

 

O sistema Kepler-1625 se encontra a mais de 8 mil anos-luz do nosso sistema e contém uma estrela bem similar ao Sol, o planeta Kepler-1625b é um gigante gasoso com cerca de 10 massas da Júpiter. As evidências em favor da hipótese da “lua”, foi baseada em decréscimos de fluxo de luz da estrela consistente com uma grande exomoon em trânsito (passando na frente da estrela). Como todo o trabalho foi feito apenas com os dados do Hubble, os pesquisadores defendem o monitoramento futuro do sistema para verificar as previsões do modelo e confirmar a existência da “lua”.

 

Referências:

[1] Evidence for a large exomoon orbiting Kepler-1625b; Alex Teachey and David M. Kipping; Sci Adv 4 (10), eaav1784. DOI: 10.1126/sciadv.aav1784

[2] https://apod.nasa.gov/apod/ap190716.html

[4] https://www.nasa.gov/artemis/

[3]https://www.theguardian.com/science/2019/aug/06/tardigrades-may-have-survived-spacecraft-crashing-on-moon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Nuvens de Júpiter ou pinturas de Van Gogh?

No início de 2019, a sonda Juno conseguiu capturar mais fotos jovianas de tirar o fôlego. A sonda Juno enviada à Júpiter em 2011 pela NASA tem como missão fornecer informações sobre o campo gravitacional e o campo magnético do planeta, além de ajudar os cientistas a compreenderem um pouco mais sobre sua composição interna (mais informações aqui).

Além de conter todos os aparatos científicos necessários para completar sua missão principal, a nave também é equipada com sensores e câmeras (apelidadas de JunoCam), que desde de 2016, quando a sonda entrou na órbita de Júpiter, vem nos fornecendo imagens de tirar o fôlego.

Essas fotos são possíveis somente devido à proximidade que a sonda consegue chegar do planeta. Isso é inédito, uma vez que as outras sondas que visitaram Júpiter fizeram observações muito distantes na tentativa de evitar a intensa radiação causada pelas partículas do Sol que ficam presas no campo magnético de Júpiter. Juno, por sua vez, foi criada para se esquivar dessa radiação, voando abaixo dos principais cinturões de radiação. 

Em 2017, quando a NASA liberou os primeiros resultados da missão Juno, as fotos já eram deslumbrantes. 

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Créditos: NASA/JPL-CALTECH/SWRI/MSSS/BETSY ASHER HALL/GERVASIO ROBLES.

Nessa foto, podemos ver o polo sul de Júpiter recoberto por ciclones (estruturas ovais no centro da imagem). Alguns desses ciclones podem chegar até 1.400 quilômetros de diâmetro!! Fazendo um paralelo, a nossa lua tem aproximadamente 3.400 quilômetros de diâmetros, então é como se os maiores ciclones de Júpiter fossem equivalente à metade do tamanho da nossa lua!!

Já recentemente, na primeira metade de 2019, quando os cientistas achavam que Júpiter não poderia mais nos surpreender, a sonda surge com mais fotos incríveis que mais parecem ter saído das telas de Van Gogh.

Jupiter.jpgCréditos: NASA/JPL-Caltech/SwRI/MSSS/Kevin M. Gill

Essa imagem, de cor aperfeiçoada, criada com a ajuda do cientista Kevin M. Gill, foi obtida em 12 de fevereiro de 2019, quando a sonda realizou seu 18º voo ao redor do gigante gasoso. Na imagem conseguimos ver uma formação arredondada (em marrom), que se acredita ser um sistema complexo de ciclones, rodeada de nuvens turbulentas (em azul e branco).

Além das incríveis fotos, Juno já forneceu informações inéditas que se tornaram grandes descobertas científicas sobre o campo magnético do planeta e suas espetaculares auroras. A missão tem rendido tantas fotos e informações sobre o enigmático gigante gasoso que sua permanência na órbita de Júpiter já foi aprovada pela NASA para até pelo menos 2022.

 

Referências:

https://www.nasa.gov/image-feature/jpl/dramatic-jupiter

https://www.missionjuno.swri.edu/junocam/processing?id=6529

 

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O eclipse de 1919: pela paz e pelo método científico

A comprovação da Teoria da Relatividade está comemorando um século de idade. Neste 29 de maio, a comunidade científica rememorou as expedições de observação de um eclipse total do Sol em Sobral, no Ceará, e na Ilha do Príncipe, na costa oeste da África.

A data é relevante porque traz à memória uma contribuição extremamente importante daquele que provavelmente é o cientista mais conhecido de todos os tempos: Albert Einstein. Ele, que formulou a Teoria da Relatividade em 1915, não tinha como comprová-la apenas por cálculos. Era preciso fazer observações e comparações. Pesar evidências.

Einstein não acompanhou as expedições, que, lideradas por Arthur Eddington na Ilha do Príncipe e por Andrew Crommelin em Sobral, contaram com a participação de equipes da Royal Astronomical Society. Britânicos e brasileiros estavam atrás de evidências de que corpos massivos – como o Sol, por exemplo – “deformam” o espaço-tempo em seu redor. É mais ou menos como colocar uma bola de futebol sobre um tecido estendido ou em cima de uma cama fofa. Se essa bola fosse o Sol, a curvatura que causa no tecido, ou no Universo, é o que explicaria o movimento dos planetas ao seu redor. Não era mais a gravidade newtoniana.

Se fosse possível observar a luz de uma estrela próxima do Sol enquanto ele estivesse no céu – e se a posição dela fosse diferente quando o Sol não estivesse lá -, isso seria um forte indício de que a teoria de Einstein estava certa. Como o Sol ofusca as outras estrelas durante o dia, essa observação não era viável. No entanto, um eclipse solar era a oportunidade perfeita para fazer esse teste. E foi o que aconteceu em Sobral e Príncipe: os pesquisadores conseguiram observar a constelação de Touro e viram que sim, a posição dessas estrelas durante o dia não era exatamente a mesma durante a noite. Einstein tinha razão!

A descoberta catapultou o cientista alemão para o estrelato mundial, beneficiou a ciência brasileira e causou uma revolução no mundo da Física: as leis que valem para nós aqui na Terra não se aplicam a galáxias, estrelas e buracos negros.

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Esta foto, tirada na Ilha do Príncipe (oeste da África), consta no relatório de Arthur Eddington sobre as observações que fez com sua equipe. Fonte: Wikipedia, CC0

O feito também nos lembra sobre como o método científico funciona e como ele é importante para se chegar a fatos e conclusões. Hipóteses sem testes e análises continuam sendo hipóteses. Só se tem um fato comprovado quando grupos diferentes de pessoas se debruçam sobre aquela hipótese e procuram entender, com metodologias sólidas e de forma honesta, se ela se confirma na realidade.

O eclipse centenário tem outro legado que também fala muito sobre como a ciência funciona. Ela é, essencialmente, um empreendimento colaborativo e internacional, capaz de unir pessoas de crenças e valores diferentes na busca de um único objetivo. Não é exagero dizer que a ciência, por sua própria natureza, tem o potencial de promover a paz.

Não podemos nos esquecer de que as observações em Sobral e Príncipe aconteceram em um período imediatamente posterior à I Guerra Mundial. A busca de Einstein e Eddington resultou em uma colaboração científica entre Alemanha e Reino Unido. Em um período pós-guerra, isso definitivamente não foi pouca coisa.

Em um artigo de 2003, Matthew Stanley, pesquisador do departamento de história da ciência na Universidade Harvard, conta que as dores da guerra em curso deixou um gosto amargo que começou a atrapalhar a cooperação entre britânicos e alemães. Pesquisadores do Reino Unido não tinham o mesmo ânimo para continuar cooperando com seus colegas da Alemanha – e em 1916 houve quem dissesse que a Alemanha deveria ser banida da ciência internacional.

Arthur Eddington, em uma carta à publicação Observatory na mesma época, desejava que a guerra não envenenasse a cooperação científica entre países. A astronomia, em especial, era, e é, uma ciência altamente internacional. Para Eddington, levar as fronteiras da guerra para o empreendimento científico, relata Stanley, era “um completo desentendimento das necessidades básicas e dos objetivos mais nobres da ciência”.

Um alerta que continua válido mais de um século depois de publicado.

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Uma adolescente astronauta

Girls, vamos conversar?! Diz aí qual é o seu maior sonho de vida? Consegue entender o que você precisa fazer para realizá-lo? (Isso já é um mega passo!) E identificar quais são os maiores limitadores? Se você é mulher já deve saber que naturalmente a cultura patriarcal, machista e sexista interfere e molda muitas de nossas vontades, desejos e perspectivas de vida. Ela pode até interferir nos sonhos de meninas e mulheres, a não ser que elas (nós!) se atrevam a ultrapassar essa barreira e lutem pelos seus sonhos mais bravamente que muitos dos meninos por aí. Agarrem a bandeira do feminismo e vamos à luta! Perceba que nem estamos falando aqui de um outro limitador muito agressivo, que é a desigualdade social. Só essa questão traria muitos outros artigos para refletirmos e conversarmos no blog das CsFs.

Vamos falar aqui de uma adolescente e um sonho: ela é Alyssa Carson, uma adolescente norte-americana de 17 anos que nasceu em Hammond, no Louisiana. E seu sonho surgiu aos 3 anos de idade quando assistia um episódio de The Backyardigans onde os personagens faziam uma missão em um planeta que está há 55 milhões de quilômetros de distância da Terra: o planeta Marte!

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Imagem do episódio de The Backyardigans visto por Carson aos 3 anos de idade. Créditos: TV TIME.

Pois é, ela quer ser astronauta e realizar uma missão no planeta vermelho! Agora vem a melhor parte da história: Carson já está sendo treinada pela NASA para, possivelmente, ser a primeira mulher a fazer uma expedição em Marte!!! [1]

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Alyssa Carson, a menina astronauta.Créditos: NASA Blueberry.

Com o apoio de sua família, aos 8 anos Carson foi registrada no United States Space Camp. Ela também foi a primeira pessoa a participar dos treinos da NASA na totalidade dos seus Space Camps, já que participou das formações no Space Camp de Laval (no Quebec) e no Space Camp de Esmirna (na Turquia). Alyssa Carson visitou os 14 Centros de Visitantes da NASA nos EUA e por isso foi a primeira pessoa a completar o Passaporte da NASA. A jovem astronauta frequenta a Baton Rouge International High School, onde aprende as disciplinas escolares em 4 línguas: chinês, inglês, francês e espanhol.  E se tornou embaixadora do projeto de vôos privados Mars One, que pretende estabelecer a primeira colônia de humanos em Marte. Teoricamente a NASA não aceita candidaturas de menores de 18 anos para participarem de seu Programa Espacial, porém Carson já se formou na Advanced Possum Academy, visto que sua missão acontecerá em 2030 e, por isso, há muito o que se fazer para sua preparação.

Em sua missão, será responsável com sua equipe por construir os primeiros módulos habitacionais em Marte e iniciar culturas que sustentem os humanos. Além disso, na missão da NASA para Marte em 2014, foram encontradas pequenas esferas no solo com vestígios orgânicos, podendo ser uma pista de vidas que já passaram por lá. Será que há mais vestígios orgânicos em Marte? Alyssa Carson poderá fazer estudos dentro desse tema. [2]

Com todo esse cenário ainda desigual nos dias atuais, podemos olhar para Alyssa Carson e encher o peito para falar que representatividade importa sim! Ver uma menina sonhar e viver a vida para realizar seu sonho precisa ser enfatizado para incentivarmos outras meninas.

O objetivo do compartilhamento dessa história é você abraçar a sua menina hoje e dizer bem firme a ela:

– Você pode ser astronauta, querida!

 

Referências:

[1]https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/07/menina-de-17-anos-pode-ser-primeira-pessoa-pisar-em-marte.html

[2]https://bit2geek.com/2018/07/09/blueberry-alyssa-carson/

 

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A trajetória e pesquisa de Katie Bouman

ou Quantas pessoas constroem um cientista?

Existe uma mulher muito sábia na minha vida.

Não, espera.

Vou começar outra vez.

Só existem mulheres muito sábias na minha vida, . Porque as mulheres são, em sua totalidade e não apenas por maioria, sábias. Mas uma mulher muito sábia me falou recentemente, depois que eu me queixei de erros que cometi no passado:

– Mas não tinha como você saber. O conhecimento é um fruto que se colhe maduro.

E essa foi uma lição (muito mas muito) imensa pra mim. Sobre autoperdão, construção de saberes, sobre cada trecho que nós – enquanto cientistas e professores – contribuímos para a pavimentação desse caminho: a educação. E, vocês já vão me desculpando pela emotividade aqui, quero falar sobre a trajetória de uma outra mulher, também sábia, que brilhou recentemente.

(Você achou que eu usei muito a palavra sábia, não foi? Está certo. Usei mesmo. Foi para naturalizá-la no seu coração.)

Se você estava no planeta Terra ou em suas imediações no último mês, provavelmente ouviu falar sobre a primeira imagem de um buraco negro, que foi obtida através de uma grande colaboração de pesquisadores de muitos países. A responsável por liderar a equipe que desenvolveu o algoritmo responsável pelo cruzamento e correção de dados obtidos usando o Event Horizon Telescope foi Katherine Louise Bouman ou Katie Bouman – como já estamos nos sentindo íntimas o suficiente para chamá-la. E, se você ainda está em dúvida de qual imagem estou falando, é essa aqui

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coisa_mais_linda.jpg Créditos: Event Horizon Telescope

 

 

Katie nasceu em 1989 e é professora assistente de ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Sua pesquisa é relacionada a métodos computacionais para geração de imagens (guarde bem essa informação).

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querida.jpg Créditos: Facebook/Katie Bouman

Uma das coisas interessantes sobre uma cientista como Katie é entender como a sua pesquisa evoluiu até o estágio atual. Quando procuramos o perfil com todas as publicações de Katie na ferramenta do Google Scholar, encontramos 40 artigos com sua autoria e/ou cooperação, a maioria de livre acesso. Além disso, existem diversos textos de Katie publicados em revistas de divulgação científica e curiosidades. Entre os artigos acadêmicos, vemos o primeiro deles ser publicado em 2006 com o título: “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns” , Análise forense de imagens digitais através do uso de padrões de referência de ruído, em livre tradução.

Fonte: engineering.purdue.edu

“Rostinho” do primeiro artigo de Katie. Créditos: engineering.purdue.edu

O artigo fala sobre a possibilidade de, através de métodos de reconstrução, verificar se imagens muito modificadas ainda poderiam ser identificadas usando os “defeitos” de uma câmera na forma de um padrão de ruído de referência. Ou seja: se uma foto estiver muito estragada, ainda seria possível descobrir qual câmera tirou aquela foto tendo como base uma bom banco de dados de como as câmeras tiram fotos?

Deu pra sentir o arrepio? Pois prepare-se para ficar ainda mais surpreso.

Eu não vou conseguir abordar aqui todos os artigos científicos da Katie mas gostaria de traçar uma linha do tempo em sua pesquisa. Quem quiser pode ter acesso a todos os outros textos clicando aqui. Em 2010 ela publicou “A low complexity method for detection of text area in natural images” ou Um método de baixa complexidade para detecção de área de texto em imagens naturais. Pode parecer pouco linkado com o trabalho sobre o buraco negro mas neste artigo temos uma pesquisa sobre um método de baixa complexidade para segmentação de regiões de texto em imagens.
E aí? Estão sentindo o impacto?

Créditos: Twitter

sera_que_um_dia_eu_vou_conseguir_abandonar_o_meme_da_Mulher_Pepita_arrepiada?.jpg Créditos: Twitter

Só mais um trabalho antes de falar do nosso queridinho, ok? O trabalho intitulado “IMAGING AN EVENT HORIZON: MITIGATION OF SCATTERING TOWARD SAGITTARIUS A*”.

EM LETRA MAIÚSCULA SIM, POIS JÁ ESTAMOS EMOCIONADOS COM ESSE TRABALHO.

EM PORTUGUÊS: PROCESSANDO IMAGENS DE UM HORIZONTE DE EVENTO: MITIGAÇÃO DA DISPERSÃO PARA O SAGITÁRIO A.

Esse foi nada mais, nada menos, que o primeiro trabalho de parte da equipe que viria a conseguir a foto do buraco negro este ano, focando já em Sagitario A (o objeto astronômico do qual o buraco negro faz parte). Foi publicado em 2014 e o seu resumo começa assim:

“Espera-se que a imagem da emissão que circunda o buraco negro no centro da Via Láctea exiba a impressão de efeitos relativísticos gerais (GR), incluindo a existência de uma feição de sombra e um anel de fótons de diâmetro ~ 50 μas.”

E traz, como um de seus resultados, essa imagem da simulação:

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nem_tenho_mais_legenda.jpg Créditos:The Astrophysical Journal

Em abril deste ano, quando tivemos acesso a real imagem do buraco negro, vimos que ele se parecia muito com a imagem acima. E mais: que se parecia muito com o que Einstein esperava de um buraco negro em 1915. A pesquisa da foto do buraco negro gerou não um, não dois mas seis (!!!!) artigos com os resultados obtidos. Estão envolvidos no projeto 144 departamentos de  diferentes universidades ao redor do globo.

E, sinceramente, eu não sei quantos pessoas estão envolvidas no projeto.

Quantas professoras e professores, técnicas e técnicos, alunas e alunos de graduação e pós graduação. Quantas pessoas chegaram mais cedo para limpar os laboratórios, para preparar refeições nas universidades, quantas mães e pais, esposas e maridos, namorados e namoradas deram suporte a quem aparece na autoria dos seis artigos. Eu sei que cada um deles foi parte desse passo pois o conhecimento amadurecido ao longo de anos de pesquisa, desde Einstein e antes dele, passando por Katie e seus professores, não começa, nem termina nesta imagem. Este é, sem dúvidas, o (doce) fruto colhido da colaboração de tanta gente para fazer ciência.

Referências

Bouman, K. L., N. Khanna, and E. J. Delp. “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns.” (2016).

Bouman, K.L., Abdollahian, G., Boutin, M. and Delp, E.J., 2011. A low complexity sign detection and text localization method for mobile applications. IEEE Transactions on multimedia, 13(5), pp.922-934.

Fish, V.L., Johnson, M.D., Lu, R.S., Doeleman, S.S., Bouman, K.L., Zoran, D., Freeman, W.T., Psaltis, D., Narayan, R., Pankratius, V. and Broderick, A.E., 2014. Imaging an event horizon: Mitigation of scattering toward Sagittarius A. The Astrophysical Journal, 795(2), p.134.

Akiyama, K., Alberdi, A., Alef, W., Asada, K., Azulay, R., Baczko, A.K., Ball, D., Baloković, M., Barrett, J., Bintley, D. and Blackburn, L., 2019. First M87 Event Horizon Telescope Results. I. The Shadow of the Supermassive Black Hole. The Astrophysical Journal Letters, 875(1), p.L1.

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As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: pelos anéis de Saturno

Parte IV

No começo da nossa viagem pelas “luas geladas” conversamos sobre o que elas precisam ter para receber essa definição (aqui). Também falamos sobre Europa, uma das “luas geladas” mais famosas nos últimos anos (aqui), e sobre Ganimedes, Calisto e Io (e aqui). Hoje iremos ainda mais longe no nosso Sistema Solar a fim de explorar as “luas geladas” de Saturno.

Qualquer lua que seja coberta de gelo pode ser uma “lua gelada”?

Como no texto anterior, gostaria de começar resgatando um trechinho do nosso primeiro texto antes de mergulhar nas nossas novas luas. “Luas geladas” são satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, sendo eles Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Para que sejam chamados de “luas geladas” é necessário que esses satélites apresentem três características: (1) a presença de um meio líquido, (2) uma fonte de energia, e (3) condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses quesitos também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Saturno e seus anéis

Comumente vemos Saturno sendo representado, em desenhos e esquemas, envolto por um anel. Porém, se fossemos desenhar o planeta como ele realmente é, ele ficaria muito mais complexo. Saturno possui mais de dez anéis constituídos essencialmente por gelo, poeira e rochas. Além disso, o planeta conta com 62 luas confirmadas até agora. Embora Saturno apresente tantos satélites, apenas duas são classificadas como “luas geladas” e hoje vamos conhecê-las um pouco mais de perto.

Anéis de Saturno

Figura 1. Anéis de Saturno compostos por gelo, poeira e rochas. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

 Um encontro com Titã

Titã é a maior lua de Saturno e a segunda maior do nosso Sistema Solar, perdendo apenas para Ganimedes (vista na parte III). Titã é também o único satélite do Sistema Solar com uma atmosfera densa e evidência de corpos de água líquida e estável (lagos e rios) em sua superfície.

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Figura 2. Vista de Titã pela Cassini. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

Modelos teóricos predizem que uma camada de água líquida poderia existir abaixo do gelo na superfície da lua, desde que houvesse uma quantidade suficiente de amônia misturada à água, reduzindo sua temperatura de congelamento. Dessa forma, acredita-se que Titã seja dividida (da superfície para o centro) em uma camada de gelo, uma camada líquida de água e amônia, outra camada de gelo e um núcleo rochoso.

As informações obtidas até agora sobre o oceano de água no interior de Titã não sugerem que ela seja uma boa candidata para o desenvolvimento de formas de vida. Isso porque a camada de gelo sobre a lua parece ser bastante rígida, o que dificultaria as trocas de material entre a superfície e o oceano. Além disso a segunda camada de gelo sobre a crosta isolaria o oceano do núcleo rochoso, impossibilitando a existência dessa interface considerada de extrema importância para o surgimento da vida.

Ainda assim, o oceano aquoso não é o único ambiente de Titã onde poderíamos procurar formas de vida. Caso a vida tenha surgido lá, o ambiente da lua provavelmente levaria os organismos a desenvolverem características muito diferentes de qualquer um existente na Terra. Enquanto todas as formas de vida terrestre usam água como meio líquido, é concebível que a vida em Titã poderia utilizar outros componentes como metano e etano. Outro fator de interesse na busca por vida em Titã consiste no fato de sua atmosfera ser quimicamente ativa, conhecida por ser rica em compostos orgânicos; o que levou a especulações sobre se precursores químicos da vida poderiam ter sua origem lá.

Dessa forma, o ambiente de Titã, embora muito diferente do terrestre, possuiria os requisitos para a vida: (1) metano e etano na forma líquida encontrados em corpos líquidos na superfície do planeta; (2) provavelmente obtida através da radiação solar, que embora seja muito menor, quando comparada à da Terra, ainda suportaria formas de vida de crescimento lento; (3) proveniente da atmosfera quimicamente ativa e derivadas de metano e etano.

 

Um pulo em Encélado

Encélado é a sexta maior lua de Saturno e é aproximadamente 10 vezes menor do que Titã. Estima-se que a lua seja formada por um núcleo rochoso, envolto por um oceano líquido e uma crosta de gelo na superfície.

Encélado

Figura 3. Vista de Encélado pela Cassini com foco nas plumas de água e gelo no polo sul da lua. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

As primeiras informações sobre Encélado vieram das espaçonaves Voyager Ie II. As mais recentes, porém, foram obtidas pela Cassini em 2005, que revelou mais detalhes sobre a superfície da lua e também confirmou a emissão de plumas de vapor de água e gelo no polo sul da Lua. Cassini também mostrou a existência de uma fina atmosfera ao redor de Encélado e confirmou que sua superfície era composta principalmente por água, gás carbônico e compostos orgânicos simples. O fato de ser totalmente coberta por gelo, torna a lua um dos objetos que mais reflexivos do Sistema Solar. Por refletir a maior parte da luz, a superfície de Encélado é mais fria do que a dos outros satélites de Saturno, podendo atingir -198oC.

Por não possuir água líquida em sua superfície, a existência de vida em Encélado estaria condicionada a presença de água líquida em seu interior. E o movimento da lua em torno de Saturno e a presença das plumas são evidências da presença de um oceano global localizado logo abaixo da camada superficial de gelo.

Um fator de extremo interesse para a astrobiologia é a relativa facilidade de coleta de amostras do oceano de Encélado através das plumas. Coletar material proveniente do oceano diretamente da atmosfera, dispensando missões de pouso e perfuração do gelo da superfície, como se planeja fazer em Europa no futuro, torna a pesquisa de vida em Encélado mais atrativa e economicamente viável com a tecnologia espacial atual.

Então, se olharmos para os nossos critérios de definição de luas geladas teríamos: (1) água existente na forma líquida encontrada logo abaixo da superfície; (2) força de maré originada no oceano interno da lua causada pela interação da lua com Saturno; (3) principalmente suprida pela interação água líquida-núcleo rochoso.

E assim encerramos nosso passeio por Saturno e suas luas! Até a próxima! 🌚❄

Referências:

CANUP, R. M.; WARD, W. R. Formation of the gallilean satellites: conditions of accretionsThe Astronomical Journal, v. 124, n. 6, p. 3404-3423, 2002.

FILACCHIONE, G. et al. Saturn’s icy satellites investigated by Cassini-VIMS: I. Full-disk properties: 350–5100 nm reflectance spectra and phase curves. Icarus, v. 186, n. 1, p. 259-290, 2007.

GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.

IRWIN, L. N.; SCHULZE-MAKUCH, D. Assessing the plausibility of life on other worlds. Astrobiology, v. 1, n. 2, p.143-160, 2001.

PASACHOFF, Jay M.; FILIPPENKO, Alex. The Cosmos: Astronomy in the new millennium. Cambridge University Press, 2013.

SCHUBERT, G. et al. Interior composition, structure and dynamics of the Galilean satellites. Jupiter: The planet, satellites and magnetosphere, v. 1, 2004.

SHOWMAN, A. P.; MALHOTRA, R. The Galilean satellites. Science, v. 286, p. 77-84, 1999.

WORTH, R. J.; SIGURDSSON, S.; HOUSE, C. H. Seeding life on the moons of the outer planets via lithopanspermia. Astrobiology, v. 13, p. 1155-1165, 2013.

 

 

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Bell Burnell, uma história para se inspirar

Em tempos de retrocessos políticos é muito importante buscarmos forças para continuar nas lutas diárias, seja lá qual for a luta que você escolheu se dedicar. Hoje contamos aqui a história de uma mulher cientista (uma das principais astrofísicas do Reino Unido), pessoa generosa que dedica a sua vida por uma ciência que é inclusiva e garantimos que sua história é pura inspiração! Estamos falando da astrônoma Dame Susan Jocelyn Bell Burnell (momento dos aplausos!)

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Para começar podemos voltar à 1967, quando Bell Burnell estava na pós-graduação na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Foi nesse período que ela encontrou o primeiro Pulsar, que é uma estrela de nêutrons que transforma energia rotacional em energia eletromagnética. U-a-u! Mas o que é isso mesmo?

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Quando uma estrela morre, ela pode ter alguns tipos de finais diferentes, dependendo de sua massa. Se for uma estrela relativamente leve (como o nosso sol), ela poderá virar uma anã branca. Se for uma estrela com muita massa ela poderá virar um buraco negro ou uma estrela de nêutrons, também chamada de Pulsar, que foi observada no espaço pela primeira vez em 1967 por Bell Burnell.

Os Pulsares ou estrelas de nêutrons possuem um campo magnético muito grande e, ao fazerem rotação, feixes de radiação escapam pelos pólos magnéticos criando uma luminosidade como um farol no universo.

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Créditos: Michael Kramer (University of Manchester)

Quando Burnell trouxe esse grande conhecimento astronômico para o mundo era orientada pelo professor Antony Hewish e tinha em sua equipe o colega astrônomo Martin Ryle, que ganharam o Prêmio Nobel de Física em 1974 por conta da descoberta de Bell Burnell, no lugar dela. A comunidade científica nunca aceitou o fato de Bell Burnell não ser devidamente premiada mas em seus relatos, a astrofísica dizia que era apenas uma estudante de ciências e já ganhar o Prêmio Nobel não seria muito adequado…(WHAT?) [1]

Porém, Bell Burnell continuou sua carreira como pesquisadora em astrofísica e brilhou como um farol de Pulsar! Aos 75 anos, Burnell é professora de Astrofísica na Universidade de Oxford, e Chanceler da Universidade de Dundee. E mais recentemente, recebeu reconhecimento em setembro deste ano ganhando o Prêmio Especial de Inovação em Física Fundamental, do Breakthrough of the Year, levando US$ 3 milhões!

E o melhor está por vir! Pois bem, essa semana, durante a cerimônia de entrega da premiação, Burnell irá investir os US$ 3 milhões em bolsas de estudos para mulheres, refugiados e pessoas de etnias minoritárias, com o intuito de promover a diversidade na ciência. Isso mesmo, minhas caras e meus caros, essa mulher, que teve a vida injustiçada como muitas de nós irá lutar para que mais mulheres tenham espaço na carreira científica, não só mulheres como outras minorias. Acho que essa atitude é um lindo pisar nas costelas da sociedade patriarcal, não é mesmo? Em entrevista Burnell ainda disse: “Não quero e nem preciso do dinheiro sozinha, e me pareceu que essa era a melhor maneira de usá-lo”. Olhem bem para esse rostinho da década de 60, respire fundo e continue a lutar. [2]

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Créditos: ROGER W HAWORTH/WIKIMEDIA COMMONS

Referências

[1] Revista Galileu – 2018 https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/09/excluida-do-nobel-astronoma-ganha-premio-de-fisica-50-anos-depois-da-incrivel-descoberta.html

[2] BBC – 2018 https://www.bbc.com/portuguese/geral-45432286