0

Uma adolescente astronauta

Girls, vamos conversar?! Diz aí qual é o seu maior sonho de vida? Consegue entender o que você precisa fazer para realizá-lo? (Isso já é um mega passo!) E identificar quais são os maiores limitadores? Se você é mulher já deve saber que naturalmente a cultura patriarcal, machista e sexista interfere e molda muitas de nossas vontades, desejos e perspectivas de vida. Ela pode até interferir nos sonhos de meninas e mulheres, a não ser que elas (nós!) se atrevam a ultrapassar essa barreira e lutem pelos seus sonhos mais bravamente que muitos dos meninos por aí. Agarrem a bandeira do feminismo e vamos à luta! Perceba que nem estamos falando aqui de um outro limitador muito agressivo, que é a desigualdade social. Só essa questão traria muitos outros artigos para refletirmos e conversarmos no blog das CsFs.

Vamos falar aqui de uma adolescente e um sonho: ela é Alyssa Carson, uma adolescente norte-americana de 17 anos que nasceu em Hammond, no Louisiana. E seu sonho surgiu aos 3 anos de idade quando assistia um episódio de The Backyardigans onde os personagens faziam uma missão em um planeta que está há 55 milhões de quilômetros de distância da Terra: o planeta Marte!

mars

Imagem do episódio de The Backyardigans visto por Carson aos 3 anos de idade. Créditos: TV TIME.

Pois é, ela quer ser astronauta e realizar uma missão no planeta vermelho! Agora vem a melhor parte da história: Carson já está sendo treinada pela NASA para, possivelmente, ser a primeira mulher a fazer uma expedição em Marte!!! [1]

nasa-marte

Alyssa Carson, a menina astronauta.Créditos: NASA Blueberry.

Com o apoio de sua família, aos 8 anos Carson foi registrada no United States Space Camp. Ela também foi a primeira pessoa a participar dos treinos da NASA na totalidade dos seus Space Camps, já que participou das formações no Space Camp de Laval (no Quebec) e no Space Camp de Esmirna (na Turquia). Alyssa Carson visitou os 14 Centros de Visitantes da NASA nos EUA e por isso foi a primeira pessoa a completar o Passaporte da NASA. A jovem astronauta frequenta a Baton Rouge International High School, onde aprende as disciplinas escolares em 4 línguas: chinês, inglês, francês e espanhol.  E se tornou embaixadora do projeto de vôos privados Mars One, que pretende estabelecer a primeira colônia de humanos em Marte. Teoricamente a NASA não aceita candidaturas de menores de 18 anos para participarem de seu Programa Espacial, porém Carson já se formou na Advanced Possum Academy, visto que sua missão acontecerá em 2030 e, por isso, há muito o que se fazer para sua preparação.

Em sua missão, será responsável com sua equipe por construir os primeiros módulos habitacionais em Marte e iniciar culturas que sustentem os humanos. Além disso, na missão da NASA para Marte em 2014, foram encontradas pequenas esferas no solo com vestígios orgânicos, podendo ser uma pista de vidas que já passaram por lá. Será que há mais vestígios orgânicos em Marte? Alyssa Carson poderá fazer estudos dentro desse tema. [2]

Com todo esse cenário ainda desigual nos dias atuais, podemos olhar para Alyssa Carson e encher o peito para falar que representatividade importa sim! Ver uma menina sonhar e viver a vida para realizar seu sonho precisa ser enfatizado para incentivarmos outras meninas.

O objetivo do compartilhamento dessa história é você abraçar a sua menina hoje e dizer bem firme a ela:

– Você pode ser astronauta, querida!

 

Referências:

[1]https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/07/menina-de-17-anos-pode-ser-primeira-pessoa-pisar-em-marte.html

[2]https://bit2geek.com/2018/07/09/blueberry-alyssa-carson/

 

Anúncios
0

A trajetória e pesquisa de Katie Bouman

ou Quantas pessoas constroem um cientista?

Existe uma mulher muito sábia na minha vida.

Não, espera.

Vou começar outra vez.

Só existem mulheres muito sábias na minha vida, . Porque as mulheres são, em sua totalidade e não apenas por maioria, sábias. Mas uma mulher muito sábia me falou recentemente, depois que eu me queixei de erros que cometi no passado:

– Mas não tinha como você saber. O conhecimento é um fruto que se colhe maduro.

E essa foi uma lição (muito mas muito) imensa pra mim. Sobre autoperdão, construção de saberes, sobre cada trecho que nós – enquanto cientistas e professores – contribuímos para a pavimentação desse caminho: a educação. E, vocês já vão me desculpando pela emotividade aqui, quero falar sobre a trajetória de uma outra mulher, também sábia, que brilhou recentemente.

(Você achou que eu usei muito a palavra sábia, não foi? Está certo. Usei mesmo. Foi para naturalizá-la no seu coração.)

Se você estava no planeta Terra ou em suas imediações no último mês, provavelmente ouviu falar sobre a primeira imagem de um buraco negro, que foi obtida através de uma grande colaboração de pesquisadores de muitos países. A responsável por liderar a equipe que desenvolveu o algoritmo responsável pelo cruzamento e correção de dados obtidos usando o Event Horizon Telescope foi Katherine Louise Bouman ou Katie Bouman – como já estamos nos sentindo íntimas o suficiente para chamá-la. E, se você ainda está em dúvida de qual imagem estou falando, é essa aqui

im1

coisa_mais_linda.jpg Créditos: Event Horizon Telescope

 

 

Katie nasceu em 1989 e é professora assistente de ciência da computação no Instituto de Tecnologia da Califórnia. Sua pesquisa é relacionada a métodos computacionais para geração de imagens (guarde bem essa informação).

im2

querida.jpg Créditos: Facebook/Katie Bouman

Uma das coisas interessantes sobre uma cientista como Katie é entender como a sua pesquisa evoluiu até o estágio atual. Quando procuramos o perfil com todas as publicações de Katie na ferramenta do Google Scholar, encontramos 40 artigos com sua autoria e/ou cooperação, a maioria de livre acesso. Além disso, existem diversos textos de Katie publicados em revistas de divulgação científica e curiosidades. Entre os artigos acadêmicos, vemos o primeiro deles ser publicado em 2006 com o título: “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns” , Análise forense de imagens digitais através do uso de padrões de referência de ruído, em livre tradução.

Fonte: engineering.purdue.edu

“Rostinho” do primeiro artigo de Katie. Créditos: engineering.purdue.edu

O artigo fala sobre a possibilidade de, através de métodos de reconstrução, verificar se imagens muito modificadas ainda poderiam ser identificadas usando os “defeitos” de uma câmera na forma de um padrão de ruído de referência. Ou seja: se uma foto estiver muito estragada, ainda seria possível descobrir qual câmera tirou aquela foto tendo como base uma bom banco de dados de como as câmeras tiram fotos?

Deu pra sentir o arrepio? Pois prepare-se para ficar ainda mais surpreso.

Eu não vou conseguir abordar aqui todos os artigos científicos da Katie mas gostaria de traçar uma linha do tempo em sua pesquisa. Quem quiser pode ter acesso a todos os outros textos clicando aqui. Em 2010 ela publicou “A low complexity method for detection of text area in natural images” ou Um método de baixa complexidade para detecção de área de texto em imagens naturais. Pode parecer pouco linkado com o trabalho sobre o buraco negro mas neste artigo temos uma pesquisa sobre um método de baixa complexidade para segmentação de regiões de texto em imagens.
E aí? Estão sentindo o impacto?

Créditos: Twitter

sera_que_um_dia_eu_vou_conseguir_abandonar_o_meme_da_Mulher_Pepita_arrepiada?.jpg Créditos: Twitter

Só mais um trabalho antes de falar do nosso queridinho, ok? O trabalho intitulado “IMAGING AN EVENT HORIZON: MITIGATION OF SCATTERING TOWARD SAGITTARIUS A*”.

EM LETRA MAIÚSCULA SIM, POIS JÁ ESTAMOS EMOCIONADOS COM ESSE TRABALHO.

EM PORTUGUÊS: PROCESSANDO IMAGENS DE UM HORIZONTE DE EVENTO: MITIGAÇÃO DA DISPERSÃO PARA O SAGITÁRIO A.

Esse foi nada mais, nada menos, que o primeiro trabalho de parte da equipe que viria a conseguir a foto do buraco negro este ano, focando já em Sagitario A (o objeto astronômico do qual o buraco negro faz parte). Foi publicado em 2014 e o seu resumo começa assim:

“Espera-se que a imagem da emissão que circunda o buraco negro no centro da Via Láctea exiba a impressão de efeitos relativísticos gerais (GR), incluindo a existência de uma feição de sombra e um anel de fótons de diâmetro ~ 50 μas.”

E traz, como um de seus resultados, essa imagem da simulação:

im5

nem_tenho_mais_legenda.jpg Créditos:The Astrophysical Journal

Em abril deste ano, quando tivemos acesso a real imagem do buraco negro, vimos que ele se parecia muito com a imagem acima. E mais: que se parecia muito com o que Einstein esperava de um buraco negro em 1915. A pesquisa da foto do buraco negro gerou não um, não dois mas seis (!!!!) artigos com os resultados obtidos. Estão envolvidos no projeto 144 departamentos de  diferentes universidades ao redor do globo.

E, sinceramente, eu não sei quantos pessoas estão envolvidas no projeto.

Quantas professoras e professores, técnicas e técnicos, alunas e alunos de graduação e pós graduação. Quantas pessoas chegaram mais cedo para limpar os laboratórios, para preparar refeições nas universidades, quantas mães e pais, esposas e maridos, namorados e namoradas deram suporte a quem aparece na autoria dos seis artigos. Eu sei que cada um deles foi parte desse passo pois o conhecimento amadurecido ao longo de anos de pesquisa, desde Einstein e antes dele, passando por Katie e seus professores, não começa, nem termina nesta imagem. Este é, sem dúvidas, o (doce) fruto colhido da colaboração de tanta gente para fazer ciência.

Referências

Bouman, K. L., N. Khanna, and E. J. Delp. “Digital Image Forensics Through the Use of Noise Reference Patterns.” (2016).

Bouman, K.L., Abdollahian, G., Boutin, M. and Delp, E.J., 2011. A low complexity sign detection and text localization method for mobile applications. IEEE Transactions on multimedia, 13(5), pp.922-934.

Fish, V.L., Johnson, M.D., Lu, R.S., Doeleman, S.S., Bouman, K.L., Zoran, D., Freeman, W.T., Psaltis, D., Narayan, R., Pankratius, V. and Broderick, A.E., 2014. Imaging an event horizon: Mitigation of scattering toward Sagittarius A. The Astrophysical Journal, 795(2), p.134.

Akiyama, K., Alberdi, A., Alef, W., Asada, K., Azulay, R., Baczko, A.K., Ball, D., Baloković, M., Barrett, J., Bintley, D. and Blackburn, L., 2019. First M87 Event Horizon Telescope Results. I. The Shadow of the Supermassive Black Hole. The Astrophysical Journal Letters, 875(1), p.L1.

2

As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: pelos anéis de Saturno

Parte IV

No começo da nossa viagem pelas “luas geladas” conversamos sobre o que elas precisam ter para receber essa definição (aqui). Também falamos sobre Europa, uma das “luas geladas” mais famosas nos últimos anos (aqui), e sobre Ganimedes, Calisto e Io (e aqui). Hoje iremos ainda mais longe no nosso Sistema Solar a fim de explorar as “luas geladas” de Saturno.

Qualquer lua que seja coberta de gelo pode ser uma “lua gelada”?

Como no texto anterior, gostaria de começar resgatando um trechinho do nosso primeiro texto antes de mergulhar nas nossas novas luas. “Luas geladas” são satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, sendo eles Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Para que sejam chamados de “luas geladas” é necessário que esses satélites apresentem três características: (1) a presença de um meio líquido, (2) uma fonte de energia, e (3) condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses quesitos também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Saturno e seus anéis

Comumente vemos Saturno sendo representado, em desenhos e esquemas, envolto por um anel. Porém, se fossemos desenhar o planeta como ele realmente é, ele ficaria muito mais complexo. Saturno possui mais de dez anéis constituídos essencialmente por gelo, poeira e rochas. Além disso, o planeta conta com 62 luas confirmadas até agora. Embora Saturno apresente tantos satélites, apenas duas são classificadas como “luas geladas” e hoje vamos conhecê-las um pouco mais de perto.

Anéis de Saturno

Figura 1. Anéis de Saturno compostos por gelo, poeira e rochas. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

 Um encontro com Titã

Titã é a maior lua de Saturno e a segunda maior do nosso Sistema Solar, perdendo apenas para Ganimedes (vista na parte III). Titã é também o único satélite do Sistema Solar com uma atmosfera densa e evidência de corpos de água líquida e estável (lagos e rios) em sua superfície.

Titã

Figura 2. Vista de Titã pela Cassini. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

Modelos teóricos predizem que uma camada de água líquida poderia existir abaixo do gelo na superfície da lua, desde que houvesse uma quantidade suficiente de amônia misturada à água, reduzindo sua temperatura de congelamento. Dessa forma, acredita-se que Titã seja dividida (da superfície para o centro) em uma camada de gelo, uma camada líquida de água e amônia, outra camada de gelo e um núcleo rochoso.

As informações obtidas até agora sobre o oceano de água no interior de Titã não sugerem que ela seja uma boa candidata para o desenvolvimento de formas de vida. Isso porque a camada de gelo sobre a lua parece ser bastante rígida, o que dificultaria as trocas de material entre a superfície e o oceano. Além disso a segunda camada de gelo sobre a crosta isolaria o oceano do núcleo rochoso, impossibilitando a existência dessa interface considerada de extrema importância para o surgimento da vida.

Ainda assim, o oceano aquoso não é o único ambiente de Titã onde poderíamos procurar formas de vida. Caso a vida tenha surgido lá, o ambiente da lua provavelmente levaria os organismos a desenvolverem características muito diferentes de qualquer um existente na Terra. Enquanto todas as formas de vida terrestre usam água como meio líquido, é concebível que a vida em Titã poderia utilizar outros componentes como metano e etano. Outro fator de interesse na busca por vida em Titã consiste no fato de sua atmosfera ser quimicamente ativa, conhecida por ser rica em compostos orgânicos; o que levou a especulações sobre se precursores químicos da vida poderiam ter sua origem lá.

Dessa forma, o ambiente de Titã, embora muito diferente do terrestre, possuiria os requisitos para a vida: (1) metano e etano na forma líquida encontrados em corpos líquidos na superfície do planeta; (2) provavelmente obtida através da radiação solar, que embora seja muito menor, quando comparada à da Terra, ainda suportaria formas de vida de crescimento lento; (3) proveniente da atmosfera quimicamente ativa e derivadas de metano e etano.

 

Um pulo em Encélado

Encélado é a sexta maior lua de Saturno e é aproximadamente 10 vezes menor do que Titã. Estima-se que a lua seja formada por um núcleo rochoso, envolto por um oceano líquido e uma crosta de gelo na superfície.

Encélado

Figura 3. Vista de Encélado pela Cassini com foco nas plumas de água e gelo no polo sul da lua. Fonte: Nasa NASA/JPL-Caltech/SSI.

As primeiras informações sobre Encélado vieram das espaçonaves Voyager Ie II. As mais recentes, porém, foram obtidas pela Cassini em 2005, que revelou mais detalhes sobre a superfície da lua e também confirmou a emissão de plumas de vapor de água e gelo no polo sul da Lua. Cassini também mostrou a existência de uma fina atmosfera ao redor de Encélado e confirmou que sua superfície era composta principalmente por água, gás carbônico e compostos orgânicos simples. O fato de ser totalmente coberta por gelo, torna a lua um dos objetos que mais reflexivos do Sistema Solar. Por refletir a maior parte da luz, a superfície de Encélado é mais fria do que a dos outros satélites de Saturno, podendo atingir -198oC.

Por não possuir água líquida em sua superfície, a existência de vida em Encélado estaria condicionada a presença de água líquida em seu interior. E o movimento da lua em torno de Saturno e a presença das plumas são evidências da presença de um oceano global localizado logo abaixo da camada superficial de gelo.

Um fator de extremo interesse para a astrobiologia é a relativa facilidade de coleta de amostras do oceano de Encélado através das plumas. Coletar material proveniente do oceano diretamente da atmosfera, dispensando missões de pouso e perfuração do gelo da superfície, como se planeja fazer em Europa no futuro, torna a pesquisa de vida em Encélado mais atrativa e economicamente viável com a tecnologia espacial atual.

Então, se olharmos para os nossos critérios de definição de luas geladas teríamos: (1) água existente na forma líquida encontrada logo abaixo da superfície; (2) força de maré originada no oceano interno da lua causada pela interação da lua com Saturno; (3) principalmente suprida pela interação água líquida-núcleo rochoso.

E assim encerramos nosso passeio por Saturno e suas luas! Até a próxima! 🌚❄

Referências:

CANUP, R. M.; WARD, W. R. Formation of the gallilean satellites: conditions of accretionsThe Astronomical Journal, v. 124, n. 6, p. 3404-3423, 2002.

FILACCHIONE, G. et al. Saturn’s icy satellites investigated by Cassini-VIMS: I. Full-disk properties: 350–5100 nm reflectance spectra and phase curves. Icarus, v. 186, n. 1, p. 259-290, 2007.

GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.

IRWIN, L. N.; SCHULZE-MAKUCH, D. Assessing the plausibility of life on other worlds. Astrobiology, v. 1, n. 2, p.143-160, 2001.

PASACHOFF, Jay M.; FILIPPENKO, Alex. The Cosmos: Astronomy in the new millennium. Cambridge University Press, 2013.

SCHUBERT, G. et al. Interior composition, structure and dynamics of the Galilean satellites. Jupiter: The planet, satellites and magnetosphere, v. 1, 2004.

SHOWMAN, A. P.; MALHOTRA, R. The Galilean satellites. Science, v. 286, p. 77-84, 1999.

WORTH, R. J.; SIGURDSSON, S.; HOUSE, C. H. Seeding life on the moons of the outer planets via lithopanspermia. Astrobiology, v. 13, p. 1155-1165, 2013.

 

 

0

Bell Burnell, uma história para se inspirar

Em tempos de retrocessos políticos é muito importante buscarmos forças para continuar nas lutas diárias, seja lá qual for a luta que você escolheu se dedicar. Hoje contamos aqui a história de uma mulher cientista (uma das principais astrofísicas do Reino Unido), pessoa generosa que dedica a sua vida por uma ciência que é inclusiva e garantimos que sua história é pura inspiração! Estamos falando da astrônoma Dame Susan Jocelyn Bell Burnell (momento dos aplausos!)

aplausos

Para começar podemos voltar à 1967, quando Bell Burnell estava na pós-graduação na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Foi nesse período que ela encontrou o primeiro Pulsar, que é uma estrela de nêutrons que transforma energia rotacional em energia eletromagnética. U-a-u! Mas o que é isso mesmo?

shock

Quando uma estrela morre, ela pode ter alguns tipos de finais diferentes, dependendo de sua massa. Se for uma estrela relativamente leve (como o nosso sol), ela poderá virar uma anã branca. Se for uma estrela com muita massa ela poderá virar um buraco negro ou uma estrela de nêutrons, também chamada de Pulsar, que foi observada no espaço pela primeira vez em 1967 por Bell Burnell.

Os Pulsares ou estrelas de nêutrons possuem um campo magnético muito grande e, ao fazerem rotação, feixes de radiação escapam pelos pólos magnéticos criando uma luminosidade como um farol no universo.

Lightsmall-optimised

Créditos: Michael Kramer (University of Manchester)

Quando Burnell trouxe esse grande conhecimento astronômico para o mundo era orientada pelo professor Antony Hewish e tinha em sua equipe o colega astrônomo Martin Ryle, que ganharam o Prêmio Nobel de Física em 1974 por conta da descoberta de Bell Burnell, no lugar dela. A comunidade científica nunca aceitou o fato de Bell Burnell não ser devidamente premiada mas em seus relatos, a astrofísica dizia que era apenas uma estudante de ciências e já ganhar o Prêmio Nobel não seria muito adequado…(WHAT?) [1]

Porém, Bell Burnell continuou sua carreira como pesquisadora em astrofísica e brilhou como um farol de Pulsar! Aos 75 anos, Burnell é professora de Astrofísica na Universidade de Oxford, e Chanceler da Universidade de Dundee. E mais recentemente, recebeu reconhecimento em setembro deste ano ganhando o Prêmio Especial de Inovação em Física Fundamental, do Breakthrough of the Year, levando US$ 3 milhões!

E o melhor está por vir! Pois bem, essa semana, durante a cerimônia de entrega da premiação, Burnell irá investir os US$ 3 milhões em bolsas de estudos para mulheres, refugiados e pessoas de etnias minoritárias, com o intuito de promover a diversidade na ciência. Isso mesmo, minhas caras e meus caros, essa mulher, que teve a vida injustiçada como muitas de nós irá lutar para que mais mulheres tenham espaço na carreira científica, não só mulheres como outras minorias. Acho que essa atitude é um lindo pisar nas costelas da sociedade patriarcal, não é mesmo? Em entrevista Burnell ainda disse: “Não quero e nem preciso do dinheiro sozinha, e me pareceu que essa era a melhor maneira de usá-lo”. Olhem bem para esse rostinho da década de 60, respire fundo e continue a lutar. [2]

susan_jocelyn_bell_burnell_1967_2

Créditos: ROGER W HAWORTH/WIKIMEDIA COMMONS

Referências

[1] Revista Galileu – 2018 https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/09/excluida-do-nobel-astronoma-ganha-premio-de-fisica-50-anos-depois-da-incrivel-descoberta.html

[2] BBC – 2018 https://www.bbc.com/portuguese/geral-45432286

0

Quando o segundo sol chegar…

…ou um outro planeta presente no sistema solar

Se você estava vivo no Brasil nos últimos 15 anos, tenho certeza que você já ouviu a música Segundo Sol, composta por Nando Reis e imortalizada na voz da querida Cássia Eller (sempre viva em nossos corações). Esses dias eu estava ouvindo a explicação do próprio Nando sobre a letra dessa música e ele conta que uma amiga espiritualista acreditava na possibilidade de existir um segundo sol (que não seria necessariamente um sol, mas um astro) que teria uma influência na vida das pessoas quando estivesse próximo a orbita da Terra.

Para os mais céticos parece uma loucura. Mas essa teoria está totalmente incorreta? Nesse texto trato dos relatos históricos e aspectos científicos da descoberta de um outro planeta presente no sistema solar.

Nibiru

Nancy Lieder é uma moradora do estado de Wisconsin nos EUA que afirma que na sua infância foi contatada por entidades extraterrestres cinzentas chamadas Zetas, que implantaram um dispositivo de comunicação em seu cérebro e a informaram que um planeta chamado Nibiru, ou o “Planeta X”.

Nancy_Lieder_2

Nancy e seus amigos Zetas lá no painel do fundo

Segundo a descrição de Lieder, feita em 1995, o Planeta X teria cerca de quatro vezes o tamanho da Terra e estaria muito próximo da Terra no dia 27 de maio de 2003. Esse rolê todo faria com que a rotação terrestre ficasse completamente parada por cerca de 6 dias. Além disso, a aproximação de Nibiru iria desestabilizar os do pólos da Terra e gerar uma mudança de pólos, causada pela atração magnética entre o núcleo da Terra e do magnetismo que passa pelo planeta.

Eu, particularmente, acho essa história digna do Cabo Daciolo, não é mesmo? Com certeza a mudança dos polos da Terra é o que iria mudar eixo de tudo, virar o planeta de cabeça pra baixo (como se no universo tivesse parte de cima e parte de baixo) pra finalmente rolar a instalação da Ursal.

12218620

Olha aí o mapa de ponta cabeça claramente depois da inversão de polos de Nibiru

Mas Nancy não foi a única a acreditar na chegada de um planeta externo não, ouviu?

Em 2012, Rodney Gomes, um cientista do Observatório Nacional do Brasil, modelou as órbitas de 92 objetos do cinturão de Kuiper e descobriu que seis delas eram mais alongadas do que o esperado. Rodney concluiu que a explicação mais simples era a atração gravitacional de um planeta distante. Dois anos depois, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown também se depararam com a possibilidade de existência de outro planeta que faria parte do sistema solar (não é Plutão, ok?). Em 2016 eles publicaram o artigo “Evidence for a distant giant planet in the solar system” mostrando os cálculos que evidenciavam a existência do planeta, que seria realmente gigantesco.

Os cálculos orbitais sugeriram que, se existir, este planeta tem a massa cerca de nove vezes maior que a massa da Terra e sua órbita seria um caminho elíptico ao redor do Sol que dura cerca de 20 mil anos. A sua menor distância da Terra seria o equivalente a 200 vezes a distância Terra-Sol, ou 200 unidades astronômicas. Essa distância o colocaria muito além de Plutão, no reino dos corpos gelados conhecidos como o cinturão de Kuiper.

orbita

Em laranja, a órbita do Planeta 9

 Apesar das evidências a respeito da sua massa e da sua órbita, a localização do Planeta 9 ainda é desconhecida pois ele poderia estar em qualquer lugar de sua imensa orbita. No final do artigo os cientistas deixam claro que o propósito não era, de forma alguma, “perturbar” a ciência e sim mostrar as evidências encontradas em seus cálculos. Brown declarou: “Adoraria encontrá-lo, mas também ficaria feliz se outra pessoa o encontrasse. É por isso que estamos publicando este estudo. Esperamos que pessoas se inspirem e comecem a buscá-lo”.

                Na minha humilde opinião, se esse planeta vier, que venha logo.

o-padre-fabio-de-melo-esta-mais-cansado-que-a-luc-2-11515-1478717040-1_dblbig

Referências

  1. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Early dynamical evolution of the Solar System: Pinning down the initial conditions of the Nice model. The Astrophysical Journal, v. 716, n. 2, p. 1323, 2010.
  2. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Evidence for a distant giant planet in the solar system. The Astronomical Journal, v. 151, n. 2, p. 22, 2016.
  3. BRASSER, R. et al. An Oort cloud origin for the high-inclination, high-perihelion Centaurs. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, v. 420, n. 4, p. 3396-3402, 2012.
0

Sonda Parker: nunca conseguimos “um lugar ao Sol” tão rápido

Lançada no dia 12 deste mês, a Parker Solar Probe, da NASA, ainda não chegou ao seu destino, o nosso Sol. Isso deve acontecer apenas em novembro. Mas não é por falta de velocidade: depois de pegar carona em um foguete Delta IV Heavy e na gravidade de Vênus, a sonda poderá atingir 700 mil km/h – o suficiente para se fazer o trajeto entre Nova York e São Paulo em um minuto. É a maior velocidade atingida por qualquer coisa que a humanidade já construiu.

Tendo custado US$1,5 bilhão, a sonda, que tem mais ou menos o tamanho de um carro, também tem outros superlativos. A uma distância de 6 milhões de quilômetros do Sol, é o instrumento que vai chegar mais próximo da nossa estrela do que qualquer outro que já enviamos para lá. E a Parker quebrará o recorde de proximidade por uma margem absurda: segundo a NASA, a sonda que mais conseguiu se aproximar do Sol foi a Helios 2, que em 1976 ficou a pouco mais de 43 milhões de quilômetros do Sol – apenas um pouco mais próxima que Mercúrio, que orbita a nossa estrela a uma distância de quase 60 milhões de quilômetros. O nosso planeta, em comparação, está a quase 150 milhões de quilômetros do Sol. E ainda bem.

Parker Solar Probe Launch

Delta IV Heavy no momento em que decolou a partir da base da Força Aérea Americana no Cabo Canaveral, Flórida, levando a sonda que vai “tocar” o Sol

A Parker é, também, a primeira sonda batizada com o nome de uma pessoa viva. O físico homenageado, Eugene Parker, é professor emérito de Astronomia e Astrofísica na Universidade de Chicago e no fim dos anos 1950 foi um dos primeiros a se debruçar sobre o que hoje conhecemos como ventos solares (que causam as lindas auroras boreais ou austrais quando se encontram com o campo magnético da Terra). À época, ele achava que matéria de altas velocidades e magnetismo escapavam do Sol constantemente, afetando planetas em todo o Sistema Solar.

Depois de muita observação, ele propôs várias ideias sobre como estrelas perdem energia – nosso Sol, inclusive. Daí veio com o conceito de vento solar e toda a intrincada relação entre plasma, partículas de energia e campos magnéticos que causam o fenômeno. Ele também pesquisou as causas de um fenômeno estranho – o fato de que a coroa solar, ou a “atmosfera” do Sol, é muito mais quente que a superfície da estrela. Muito. Para se ter uma ideia, a superfície do Sol queima a cerca de 5.500°C. A coroa é 300 vezes mais quente que isso e os pesquisadores estão atrás de explicações.

Em um comunicado na NASA na ocasião em que a sonda foi renomeada em homenagem a Parker, Nicola Fox, física da Universidade Johns Hopkins que trabalha no projeto, disse que a Parker “irá responder questões sobre física solar que tem nos intrigado por mais de seis décadas” – inclusive essa diferença de temperatura entre superfície e coroa solar.

Dr. Parker Watches Parker Solar Probe Liftoff

Eugene Parker, 91 anos, assiste o lançamento da sonda que leva seu nome. Atrás dele está Nicola Fox. Créditos: NASA

Nada consegue aguentar um calor de mais de um milhão de graus Celsius. Assim, em seu momento mais próximo do Sol, a sonda Parker será submetida a uma temperatura de 1.377°C. Com um escudo de compósitos de carbono com 11,43 cm revestido de tinta cerâmica branca para refletir o máximo que puder da luz solar, a sonda conseguirá manter confortáveis 30°C em seu interior. Até 2025, ela terá orbitado o Sol 24 vezes e fará medições que, espera-se, trarão muitas surpresas.

Mas o que a sonda Parker vai estudar, mesmo?

Plasma solar, campo magnético e radiação são elementos um tanto quanto gerais para falar do que a Parker quer descobrir. Segundo as equipes da NASA e da Universidade Johns Hopkins, que lideram o projeto, os objetivos principais são 1) traçar o fluxo de energia que aquece e acelera coroa e vento solar; 2) determinar a estrutura e a dinâmica entre plasma e campos magnéticos onde nascem os ventos solares, e 3) explorar mecanismos que aceleram e transportam partículas de energia.

Para fazer tudo isso, a missão vai lançar mão de quatro instrumentos principais:

O Solar Wind Electrons Alphas and Protons Investigation (SWEAP) fará a contagem das partículas mais abundantes em ventos solares (elétrons, prótons e íons de hélio).

Já o telescópio Wide-field Imager for Solar Probe Plus (WISPR) fará imagens em 3D da coroa e da atmosfera do Sol. O instrumento irá “ver” o vento solar e fazer imagens tridimensionais de choques e de outras estruturas conforme elas se aproximarem e passarem pela nave.

O Electromagnetic Fields Investigation (FIELDS) irá fazer medidas diretas de ondas de choque ao longo do plasma da atmosfera solar.

Por fim, o Integrated Science Investigation of the Sun (IS☉IS) irá fazer um levantamento dos elementos presentes na atmosfera solar usando um instrumento que irá medir a massa de íons próximos à sonda.

E por que estudar isso?

A NASA tem alguns motivos ótimos para abordar isso e vai super direto ao ponto quando esta é a questão.

Para eles, é uma questão de oportunidade: o Sol é a única estrela que nós podemos estudar de perto. Entender o Sol seria, assim, uma chance de aprender sobre outras estrelas espalhadas pelo Universo. Fora o Sol, a estrela mais próxima de nós é Proxima Centauri, que está a uns 4,2 anos-luz de distância. Ou seja: muito longe para chegar com uma sonda.

O Sol, é claro, nos afeta diretamente. Não só por questões óbvias (a vida na Terra depende dele), mas também por questões menos desejáveis: estas descargas de partículas ionizadas – os ventos solares – podem afetar a órbita dos nossos satélites (ou mesmo estragá-los), queimar eletrônicos e, na pior das hipóteses, nos deixar sem GPS ou internet. Uma tempestade solar da magnitude da que aconteceu em 1859, apelidada de Evento Carrignton, poderia levar nosso mundo ao caos generalizado. Na época, havia apenas telégrafos. Operadores viram que, ainda que não estivessem conectados à energia elétrica, poderiam enviar mensagens assim mesmo, tanta o excesso de elétrons circulando. E levavam choques ao operar estes telégrafos. Papéis pegaram fogo onde estas máquinas estivessem. Se fosse hoje, além de ficarmos sem internet para operar bancos, hospitais e aviões, poderíamos ter um prejuízo global entre US$ 1 trilhão a US$2 trilhões. E poderia levar uma década até nos recuperarmos completamente.

Esse tipo de evento, no entanto, é raro. Mas estudar o comportamento do Sol pode nos ajudar muito a nos preparar para este tipo de acontecimento – que não é uma questão de “se” acontecerá de novo, mas “quando”.
Saiba mais:

Parker Solar Probe (NASA)

Parker Solar Probe (NASA/Goddard Space Flight Center)

Parker Solar Probe Science Gateway (Johns Hopkins Applied Physics Laboratory)

NASA Renames Solar Probe Mission to Honor Pioneering Physicist Eugene Parker (NASA)

Parker Solar Probe: Mission to Touch the Sun (Space.com)

A massive solar storm could wipe out almost all of our modern technology without warning (Business Insider)

0

Em 1919 a teoria de Einstein foi confirmada no Ceará

Texto escrito em parceria com @ruajosephine.

Há 99 anos, em 29 de maio de 1919, uma equipe de cientistas estava em Sobral, cidade do Ceará, para comprovar a teoria da gravitação de Albert Einstein — a Teoria da Relatividade Geral — a partir de um eclipse solar.  Isso mesmo! Foi em terras brasileiras, marcadas pela seca e muitas histórias contadas em cordéis, que uma equipe bem diversa de físicos e astrônomos brasileiros, ingleses e americanos, enviada pelo astrônomo inglês Sir Eddington comprovou a arretada e soberana Teoria da Relatividade Geral! [1] Além dessa expedição no Ceará, Sir Eddington liderava pessoalmente outra equipe que estava na Ilha do Príncipe, na África, para corroborar com tal comprovação científica. Mas vamos trazer um ponto de vista brasileiro, especificamente cearense para essa história!

Foto 1: A tranquilidade no olhar de Albert Einstein ao comprovar sua teoria da Relatividade Geral.

Antes desse feito o mundo vivia uma ciência fixa, sem muitas contradições desde 1666, com a teoria da Gravitação Universal muito bem estruturada por Isaac Newton, que dizia que a velocidade da luz poderia ser somada à rapidez daquilo que a emitia, num universo onde o tempo era constante e o espaço absoluto. Tudo começou a mudar na virada do século XIX para o XX, quando as equações do escocês James Maxwell passaram a demonstrar que a velocidade da luz é que é constante e não poderia ser somada à nada.

Nesse contexto Einstein criou a teoria da Relatividade Restrita, que descreve a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Essa teoria era incompatível com a teoria da gravitação de Newton. Uma nova teoria da gravitação seria necessária para explicar fenômenos gravitacionais em alta velocidade (comparáveis à velocidade da luz) ou com altas energias. Vale lembrar que a teoria de Newton e a teoria de Einstein coincidem em baixas energias/velocidades. Foi chutando o balde, abandonando a solidez da teoria de Newton e considerando as equações de Maxwell, Einstein chegou a Teoria da Relatividade Geral, base da ciência moderna, que prever que a matéria (planetas, estrelas, etc) é responsável por mudar a geometria espaço-tempo do universo, que passa a ser relativa. Mas como comprovar essa teoria?

Para verificar a Relatividade Geral era preciso fotografar o céu durante um eclipse solar: se a teoria de Newton estivesse correta, não veríamos a imagem de uma estrela atrás do Sol porque a luz da estrela seria interrompida pelo próprio Sol. Já se a teoria de Einstein estivesse correta, seríamos capazes de ver a imagem da estrela porque a luz emitida seria distorcida de tal forma que a estrela aparentaria estar ao lado do Sol ao invés de atrás. Para concluir qual teoria estava correta, os cientistas precisaram comparar essa fotografia com outra, daquele mesmo grupo de estrelas, numa noite normal, quando o Sol já houvesse mudado para outra posição.

Para entender melhor, imagina que você está vendo TV e alguém coloca um balde de pipoca exatamente entre você e a tela, atrapalhando a sua visão. A luz da tela não consegue chegar até você porque ela não atravessa o balde de pipoca, certo? Agora troca a imagem da TV pela imagem da estrela e o balde de pipoca que estava te atrapalhando pelo Sol. A teoria de Newton diz que você não virá a luz da estrela pelo mesmo motivo que você não vê a tela da TV quando tem um balde de pipoca na sua frente. Já a teoria de Einstein diz que se massa intrometida (do Sol durante o eclipse ou do balde de pipoca) é o grande o suficientemente, ela distorce o espaço ao seu redor. Einstein previu que o Sol causaria esse efeito no espaço e curvaria a luz que passasse por ele, como acontece no caso da luz de estrelas posicionadas atrás do Sol durante o eclipse solar. Foi para fotografar essa curva que a luz faz ao passar pelo Sol que os astrônomos foram à Ilha do Príncipe e à Sobral, no Ceará. [2]

1919_eclipse_positive

Foto 2: Eclipse solar de Sobral, em 1919.

A comprovação da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, a partir do que se viu na escuridão do eclipse solar em Sobral, foi apresentada em novembro de 1919, durante a reunião da Sociedade Real Astronômica  (Royal Astronomical Society), em Londres, modificando a forma como a humanidade entende a física.

Hoje a cidade de Sobral muito se orgulha de ter sido palco do triunfo desse cientista universal. Criou o Museu do Eclipse em 1999, que guarda a luneta utilizada pela expedição de Einstein e muitas fotografias originais das pesquisas realizadas na cidade. O Museu encontra-se fechado para manutenção e reabrirá para o centenário em 2019.

museu-do-eclipse

Foto 3: Museu do Eclipse, Sobral, Ceará.

A prefeitura de Sobral organiza uma comemoração para o centenário do fenômeno junto à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), quando irão realizar palestras, exposições, congressos, simpósios, além da construção de um monumento em alusão à comprovação da teoria. Sobral mostrou ao mundo a comprovação da Teoria da Relatividade, a física moderna é também cearense, minha gente! [1]

Referências:

[1] http://plus.diariodonordeste.com.br/sobral-sediou-prova-da-teoria-da-relatividade/#intro – 2018.

[2] https://super.abril.com.br/ciencia/einstein-no-ceara-as-aventuras-e-desventuras-de-uma-teoria-arretada-nos-confins-do-sertao/ – 2012.