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Pandemia de COVID-19: Quando a Saúde precisa encontrar as Ciências Humanas

Créditos: Canva

Nos últimos dias, temos acompanhado o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas, especialmente na capital, Manaus, que sofre com a falta de cilindros de oxigênio nos hospitais. Situação que se agrava diante do recorde de internações por COVID-19 na cidade.¹ Para piorar, muitas pessoas estão infectadas pelo que foi identificado como uma nova cepa do vírus, ou seja, uma nova variante dele, que parece capaz de se espalhar mais depressa dos que as outras cepas até então verificadas no país.² Tudo isso integra um preocupante cenário mais amplo: o Brasil tem, hoje, a maior média diária de casos de COVID-19 desde o início da pandemia. São mil mortes diárias pela doença.³ O número assusta, mas não se pode dizer que surpreende.

Desde a primeira quinzena de agosto de 2020, o infectologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia, alerta para a subida da curva de óbitos na capital amazonense. Em setembro, os números continuaram subindo. A equipe de Orellana, então, recomendou o lockdown ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Secretaria de Saúde do Estado.² Apesar do aumento do número de mortes e casos confirmados de COVID-19 no Amazonas, o governador Wilson Lima cedeu às pressões dos comerciantes e permitiu a reabertura do comércio não essencial: bares, restaurantes, cinemas, casas de show.4 O estímulo à economia serviu de justificativa para a retomada de atividades comerciais que, meses depois, elevariam ainda mais o número de infectados e de mortes.

Manaus não foi a única capital a ignorar pesquisadores e profissionais de saúde. O Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DMIFC-UERJ), em cartas abertas ao público, há meses aponta como o enfrentamento à pandemia tem evoluído de forma equivocada e lenta no país, com negação de sua gravidade ou mesmo de sua existência. Em dezembro de 2020, o DMIFC-UERJ alertou que, enquanto protocolos de saúde estavam sendo flexibilizados e acelerados, com grandes interesses econômicos e políticos envolvidos nessa corrida, não havia movimentação para garantir os recursos necessários à aplicação da(s) futura(s) vacina(s), treinamento de profissionais ou ao estabelecimento da logística de distribuição — problemas que se refletem hoje, no baixo número de vacinas disponíveis até mesmo para um único segmento dos grupos prioritários.5 À época, não havia sequer trabalhos coordenados nas esferas municipal, estadual e federal para garantir uma vacinação segura.

A denúncia se torna mais grave ao considerarmos a existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é responsável pela aplicação de mais de 300 milhões de doses anuais de vacinas, soros e imunoglobulinas por todo o território nacional. Contudo, o desmonte do SUS afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. “A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública”, esclarece Maria Inez Padula Anderson, professora do DMIFC-UERJ, em entrevista concedida também em dezembro ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Ela continua: “Todas as informações — que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde — só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica”. Por fim, sentencia: “O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem — de forma proativa e deliberada — desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”.

Vale lembrar que profissionais de saúde de boa parte dos Estados permanecem sem instruções claras de como funcionará o início do processo de imunização no Brasil. Além disso, muitos profissionais de saúde, entre eles, os médicos da rede pública do Rio de Janeiro, têm atuado em condições precárias, com atraso ou falta de pagamentos, cortes nos direitos trabalhistas e escassez de equipamentos de proteção individual adequados durante a pandemia.6 Até o dia 14 de janeiro de 2021, entre os nove Estados que abrigam a Amazônia brasileira, foram registrados 739 falecimentos de indígenas, pertencentes a 103 povos distintos. Apesar disso, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, o Ministério da Saúde pressionou a distribuição de tratamento precoce contra COVID-19 pela rede pública de saúde estadual e municipal. O chamado kit covid contém remédios com cloroquina, hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina e até do antiparasitário ivermectina, que são administrados como tratamento preventivo para a doença, mesmo sem terem eficácia comprovada.7 Diferentes cidades da região norte do Brasil já decretaram estado de calamidade pública devido à falta de condições para atender aos infectados pela COVID-19. Pessoas estão morrendo em casa, por sufocamento — dos pulmões e dos hospitais.

Nessas horas, o diálogo com as Ciências Humanas seria proveitoso. Os estudos sociais apontam, há décadas, que não existe economia fortalecida com uma população fragilizada. Que comportamentos individuais se inserem dentro de conjunturas mais amplas, que devem ser levadas em consideração. Que todo discurso é dotado de intencionalidade, contribuindo para determinadas agendas. Por isso, devemos nos atentar aos interesses por trás dos discursos proferidos pelos principais responsáveis (Governo Federal, Ministério da Saúde, institutos de pesquisa, laboratórios farmacêuticos etc.) pelo gerenciamento da pandemia. Eles visam o bem maior? Têm embasamento empírico, ou seja, se apoiam no registro de fenômenos e estudos que acontecem durante o cenário pandêmico?

Na área de Comunicação Social, particularmente, existem trabalhos dedicados a mapear redes de informação (ou desinformação), buscando entender como essas comunidades se formam, os agentes que as sustentam, os valores e pautas que nelas circulam, os arranjos (inclusive midiáticos) que permitem sua continuidade.8 Diferentes estudos apontam que as mensagens que alguém assimila e transmite dialogam com aquilo em que já acredita ou que gostaria que se comprovasse. Isso reforça sua visão de mundo, constrói sensação de segura. Para dialogar com essas pessoas, portanto, seria preciso entender de que referenciais elas partem ao ler os acontecimentos e notícias ao seu redor. Assim, é possível pensar estratégias de comunicação adequadas para alcançar diferentes grupos sociais de forma mais eficiente, checando como as mídias (tradicionais ou não) podem ser acionadas nesse processo. Foi esse o esforço empreendido na China para orientar a população sobre os cuidados necessários para conter a circulação do coronavírus, que se deu com apoio da Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Ela abriga um departamento de comunicação científica, cuja função é servir de ponte entre os pesquisadores e o público para promover a compreensão da ciência. Durante a pandemia, a CAST garantiu que as campanhas informacionais alcançassem cada canto do território chinês, por variados meios: mídia impressa, rádio, TV e plataformas online. 9

Por outro lado, existem indivíduos e veículos comunicacionais que deliberadamente disseminam informações distorcidas ou falsas, tendo em vista algum objetivo (político, social, econômico) que os contemple. É necessário mapear esses agentes, aplicando sobre eles penas correspondentes ao dano que tenham causado. Reformulações nas leis vigentes propostas por pesquisadores e profissionais do Direito, da Comunicação, das Ciências Políticas e de áreas afins buscam atualizar o código penal para que abarque crimes como o espalhamento intencional de fake news.10

A junção dessas diferentes análises e pesquisas permite traçar planejamentos mais assertivos por parte dos poderes públicos. Por exemplo, o isolamento social de uma faxineira que ganha salário mínimo e divide um sobrado com outras cinco pessoas é diferente do isolamento social de um engenheiro que recebe salário alto, mora em um apartamento espaçoso e consegue trabalhar de casa. Para evitar que pessoas que se encaixam na primeira categoria se exponham ao vírus para complementarem a renda, um auxílio-emergencial de maior valor deve ser concedido a elas, em tempo hábil. Assim como a comunicação sobre o isolamento social dirigida à faxineira e ao engenheiro precisa ser capaz de dialogar com as vivências de cada um deles.

Conversar com representantes de comunidades ou grupos sociais, entender suas demandas, conhecer seu estilo de vida. Entre outros efeitos, esses métodos, comuns em trabalhos qualitativos nas Ciências Humanas, facilitariam a implementação de hábitos recomendados pelos pesquisadores para reduzir a circulação do coronavírus entre moradores de determinadas regiões de uma cidade ou Estado. A área de Humanidades aponta e registra problemas que, posteriormente, podem ser resolvidos por intervenções de outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, há empresas que adotam o trabalho remoto. Em outras, os funcionários precisam trabalhar presencialmente, seja porque sua atividade só pode ser desempenhada dessa forma, seja por se tratar de uma decisão empresarial que não considera o contexto pandêmico.11 Esses trabalhadores precisam utilizar o transporte público tanto na ida quanto na volta do trabalho. É necessário, portanto, realizar um planejamento para que não haja aglomerações no trajeto que esses trabalhadores costumam fazer. E assim por diante.

Como os pesquisadores da Saúde, os cientistas de Humanas também prezam pela integridade e dignidade do ser humano, entendendo que ele se insere em um corpo social. Corpo este que rege todas as relações e estruturas que atravessam as pessoas e as comunidades às quais pertencem. Se a pandemia ensina algo, é que o bem mais valioso que temos é a vida. Ensinamento que os povos originários sul-americanos há muito já transmitem, e vêm sendo retomado nos trabalhos de diferentes cientistas sociais (muitos deles, também indígenas). No combate à COVID-19, as Ciências Biológicas salvam vidas. A luta das Ciências Humanas é assegurar que as vidas salvas sejam acolhidas, para que pulsem com saúde, respeito, potência, construindo um Brasil mais funcional e justo.

1 G1 AM. Superlotado, maior pronto-socorro do AM recusa novos pacientes. [15/01/2021]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/01/15/superlotado-maior-pronto-socorro-do-am-para-de-receber-novos-pacientes.ghtml

2 Uol Notícias. ‘Explosão de casos em Manaus é de nova cepa’, aponta infecciologista. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2021/01/15/explosao-de-casos-em-manaus-e-de-nova-cepa-aponta-epidemiologista.htm

3 Agência Brasil. Covid-19: Brasil tem 8,39 milhões de casos e 208,1 mil mortes. [15/01/2021]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/covid-19-brasil-tem-839-milhoes-de-casos-e-2081-mil-mortes

4 G1 AM. Publicado decreto que estabelece as regras de reabertura do comércio no Amazonas. [28/12/2020]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/12/28/publicado-decreto-que-estabelece-as-regras-de-reabertura-do-comercio-no-amazonas.ghtml

5 Uol Notícias. Secretário de SP admite início tímido de vacinação e projeta mais doses. [18/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/secretario-de-sp-admite-inicio-timido-de-vacinacao-e-projeta-mais-doses.htm?cmpid=copiaecola

6 Conforme denunciado pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Ver mais em: https://www.facebook.com/SinMedRio/posts/1691484071032730

7 Uol Notícias. MPF investigará prioridade à cloroquina e não ao oxigênio em Manaus. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/mpf-investigara-improbidade-por-prioridade-a-cloroquina-e-nao-ao-oxigenio.htm

8 Thaiane Oliveira tem trabalhado os conceitos de desinformação científica e fake sciences ligadas à saúde. Para mais investigações sobre redes de desinformação, checar os trabalhos de Afonso de Albuquerque, Viktor Chagas e Marcelo Alves. Todos os pesquisadores aqui referidos pertencem ao PPGCOM UFF.

9 Na província chinesa de Zhejiang, por exemplo, medidas de comunicação científica multinível foram adotadas para prevenção e controle de doenças, o que inclui a COVID-19. Ver mais em: https://go.nature.com/3p4mwYT

10 ConJur. Especialistas afirmam: ‘Lei das Fake News’ é fundamental para o Brasil. [10/07/2020]. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/especialistas-afirmam-lei-fake-news-fundamental-brasil

11 A precarização do trabalho durante a pandemia tem sido tema de discussão em diferentes áreas e trabalhos das Ciências Humanas. Checar, por exemplo, a entrevista concedida ao Jornal da USP por Wilson Amorim, professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-da-covid-19-acentuou-precarizacao-das-relacoes-de-trabalho/

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A ciência enviesada na Nature ou quem tem saudade da Amélia?

No dia 17 de novembro de 2020 foi publicado na Nature Communications um artigo intitulado The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance [1] (que em português seria algo como A associação entre o mentor informal no início da carreira em colaborações acadêmicas e o desempenho de jovens autores). Tal artigo gerou uma grande movimentação no meio acadêmico, especialmente dentre as mulheres. E não é pra menos!

Basicamente o artigo diz que ser orientado por uma mulher é prejudicial para o avanço da carreira de um jovem cientista. É isso: em pleno 2020, preciso ocupar um espaço nessa coluna, que poderia estar sendo preenchido por palavras inspiradoras e ideias sagazes, para re-explicar o óbvio.

Descrição da imagem: mulher muçulmana de costas, escrito ‘treinadora’ em inglês nas costas de sua camisa, segurando uma bola de futebol, com um campo de futebol ao fundo. Criador: Lorado | Crédito: Getty Images


A ciência moderna é feita seguindo o rigor do método científico, mas esse pode ser um caminho com muitas possibilidades a serem percorridas. O que é comum a todos os caminhos é que todo o processo deve ser publicado em um periódico científico no formato de um artigo e esse será revisado por outros cientistas da mesma área de conhecimento, a quem chamamos de pares. Os revisores e revisoras escrevem seus pareceres e recomendam a publicação ou não. Não é incomum que a publicação seja referendada, porém somente após correções no manuscrito original. E isso foi o que aconteceu com esse artigo. Quatro revisores apontaram dúvidas e sugestões no texto original e o artigo foi publicado a despeito de nenhuma mudança ter sido feita (o que não é totalmente impossível de acontecer, mas bastante raro).

Outra observação importante é que os autores (duas dos três são mulheres) assumiram que co-autoria e mentoria são a mesma coisa e não são. A ordem dos autores e autoras de um artigo varia dependendo de cada área do conhecimento, mas não é incomum que pessoas sejam elencadas nesse grupo por serem chefes de laboratório, líderes do grupo de pesquisa, empregadores, criadores de códigos de programação sem sequer terem participado de nenhum processo de orientação ou mentoria.

Sendo um artigo que chega a conclusões atreladas a questões de gênero, é insuficiente que haja apenas um parágrafo falando sobre efeitos de gênero e as teorias envolvidas, que são muitas e nem todas concordam entre si. Sendo assim, não se consegue nem traçar uma linha teórica supostamente eleita pelos autores, deixando a análise com a profundidade de um pires. Ainda nesta linha, percebe-se uma adesão a binariedade de gênero (já altamente contestada na academia e sociedade) tornando a discussão, além de equivocada, excludente para pessoas trans e não binárias.

É inequívoca a inequidade de gênero na academia, já está documentado que mulheres têm menos probabilidade de serem reconhecidas em publicações [2,3], são menos citadas [4-7] e são somadas a isso todas as responsabilidades de cuidadoria familiar que lhes são atribuídas [8,9]. Então, mesmo que não hovessem falhas metodológicas, não causaria estranhamento se os resultados apontassem para esse desigualdade. O que causa preocupação é que eles sugerem a redução de ações institucionais de promoção de mulheres na ciência criadas justamente para reduzir as desigualdades. Não faz muito sentido, faz?

Quando li o artigo, senti-me ouvindo Ataulfo Alves tocando no disco velho da minha avó. Parece que tem gente com muita saudade da Amélia por aí, gente que acha que fazemos exigências demais e que não sabemos o que é consciência [10] só porque não chamamos mais os companheiros de ‘filho’ (como na música) ou porque sabemos exatamente como se faz uma pesquisa científica e não aceitaremos conclusões enviesadas como verdades pétreas.

Felizmente, para além de Ataulfo Alves e Mário Lago, temos a Pitty que desconstrói Amélia quando se pergunta “a despeito de tanto mestrado, ganha menos que o namorado e não entende o por quê” [11]. Encerro com um trecho desta mesma música, em que Pitty diz que não queremos mais ser um outro, queremos ser também. Vida longa às mulheres cientistas, sigamos na luta!

Referências

  1. ALSHEBLI, B.; MAKOVI, K.; RAHWAN, T. The association between early career informal mentorship in academic collaborations and junior author performance. Nature Communications, v. 11, n. 5855, 17 nov. 2020. DOI https://doi.org/10.1038/s41467-020-19723-8. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-020-19723-8#MOESM1. Acesso em: 24 nov. 2020.
  2. BRODERICK, N. A.; CASADEVALL, A. Gender inequalities among authors who contributed equally. eLife, v. 8, 2019. DOI 10.7554/eLife.36399. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6353592/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  3. BUDRIKIS, Z. Growing citation gender gap. Nature Reviews Physics, v. 2, n. 7, p. 346–346, jul. 2020. DOI 10.1038/s42254-020-0207-3. Disponível em: http://www.nature.com/articles/s42254-020-0207-3. Acesso em: 25 nov. 2020.
  4. EAGLY, A. H. Do the social roles that women and men occupy in science allow equal access to publication? Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 11, seç. Commentary, p. 5553–5555, 17 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.2001684117. Disponível em: https://www.pnas.org/content/117/11/5553. Acesso em: 25 nov. 2020.
  5. HUANG, J.; GATES, A. J.; SINATRA, R.; BARABÁSI, A.-L. Historical comparison of gender inequality in scientific careers across countries and disciplines. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 9, p. 4609–4616, 3 mar. 2020. DOI 10.1073/pnas.1914221117. Disponível em: http://www.pnas.org/lookup/doi/10.1073/pnas.1914221117. Acesso em: 25 nov. 2020.
  6. KUO, M. Women miss out on authorship opportunities early on. 16 fev. 2017. Science. Disponível em: https://www.sciencemag.org/careers/2017/02/women-miss-out-authorship-opportunities-early. Acesso em: 25 nov. 2020.
  7. PELLS, R. Understanding the Extent of Gender Gap in Citations. 16 ago. 2018. Inside Higher Ed. Disponível em: https://www.insidehighered.com/news/2018/08/16/new-research-shows-extent-gender-gap-citations. Acesso em: 25 nov. 2020.
  8. SCIENCES (US), N. A. of; ENGINEERING (US), N. A. of; ENGINEERING, and I. of M. (US) C. on M. the P. of W. in A. S. and. Fulfilling the Potential of Women in Academic Science and Engineering. [S. l.]: National Academies Press (US), 2007. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK9815/. Acesso em: 25 nov. 2020.
  9. STANISCUASKI, F.; KMETZSCH, L.; ZANDONÀ, E.; REICHERT, F.; SOLETTI, R. C.; LUDWIG, Z. M. C.; LIMA, E. F.; NEUMANN, A.; SCHWARTZ, I. V. D.; MELLO-CARPES, P. B.; TAMAJUSUKU, A. S. K.; WERNECK, F. P.; RICACHENEVSKY, F. K.; INFANGER, C.; SEIXAS, A.; STAATS, C. C.; DE OLIVEIRA, L. Gender, race and parenthood impact academic productivity during the COVID-19 pandemic: from survey to action. 4 jul. 2020. DOI 10.1101/2020.07.04.187583. Disponível em: http://biorxiv.org/lookup/doi/10.1101/2020.07.04.187583. Acesso em: 25 nov. 2020.
  10. ALVES, A.; LAGO, M.. Ai que saudade da Amélia. 1942
  11. PITTY; MARTIN. Desconstruindo Amélia. 2009
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A produção do desconhecimento: negacionismo e o vírus da ignorância

Anticorpos neutralizando o coronavírus. Imagem: C. Barnes / Björkman laboratory

Estamos vivendo um momento de cansaço extremo. Parece que, salvo raras exceções, a pandemia tem nos levado à uma condição de exaustão física e mental. E algo que me parece ainda mais preocupante: a sensação de impotência. Ao mesmo tempo em que nunca se pesquisou tanto um mesmo assunto em tão pouco tempo, persistem inúmeras dúvidas sobre o novo coronavírus. Lemos artigos, vemos notícias na imprensa e nas redes sociais todos os dias. Ainda assim, diversas questões surgem, demonstrando que infelizmente sabemos pouco sobre esse vírus altamente contagioso e suas desconhecidas sequelas. Seguimos aguardando ansiosamente os resultados das vacinas que estão em testes e possíveis tratamentos. Enquanto isso, mantemos o isolamento social e as saídas de casa são apenas para atividades essenciais. Será que faço parte da pequena parcela privilegiada da população que pode permanecer em casa e entende que deve se isolar pelo bem coletivo?

O fato é que, desde o início da pandemia, me chamou a atenção os casos de pessoas que simplesmente ignoram a doença e levam a vida como se nada houvesse. Poderíamos abordar esse fenômeno pela perspectiva da psicanálise, como um mecanismo de defesa: a conhecida negação. Do ponto de vista da economia psíquica, gastamos menos energia mantendo a negação do que enfrentando o desprazer da realidade. Para o sujeito que nega, não há contato com as adversidades que a pandemia ocasiona, sendo mais fácil “fingir” que tudo está bem. Óbvio que se trata de uma abordagem didática para colaborar na compreensão desse evento. De qualquer modo, pretendo aprofundar essa ótica de análise do negacionismo numa próxima coluna.

Para esse momento, gostaria de trazer o quanto essa lógica do negacionismo tem ganhado força, tornando-se um verdadeiro obstáculo no enfrentamento da disseminação da doença. Se antes, a existência de terraplanistas e negacionistas era algo pontual e quase uma caricatura de um certo grupo social, hoje vemos como esses segmentos cresceram vertiginosamente.

Um episódio ocorrido no mês passado em Campinas/SP, amplamente divulgado pelas redes sociais, deu visibilidade a esse tipo de situação cada vez mais recorrente. Numa sorveteria, a atendente pediu que um cliente usasse a máscara adequadamente e ele se recusou. Isso bastou para gerar um grave conflito diante da recusa de atendê-lo dessa maneira. Casos desse tipo estão cada vez mais frequentes e a existência de uma pandemia que nos obriga a usar máscaras parece absolutamente secundária.

Precisamos identificar as razões que têm levado e elevado esse grupo de negacionistas a ter tal envergadura. Arriscaria algumas conjecturas: 1) no contexto brasileiro, a completa inexistência de uma política de saúde coerente com as normas internacionais preconizadas pela OMS; 2) a ausência de um Ministro da Saúde por meses em plena pandemia, evidenciando que políticas de saúde não importam; 3) as declarações e condutas infelizes daquele que deveria governar o nosso país só tem agravado a situação, como, por exemplo, estimular e participar de aglomerações; não usar máscara em diversos eventos públicos dos quais participa; recomendar o uso de remédios que não são reconhecidos cientificamente como eficazes e desprezar a gravidade da doença.

Chegamos num ponto em que a falta de confiança nos dados produzidos pelo Ministério da Saúde levou os meios de comunicação a criar um consórcio para apurar diariamente o número de casos novos e óbitos. A principal fonte de dados do Ministério da Saúde ‒ o então Painel Covid ‒ passou por oscilações, no início de junho de 2020, ficando fora do ar por um dia e omitindo a totalidade de mortes e casos diagnosticados. A impossibilidade de mensurar o quantitativo total de pessoas que faleceram e que foram contaminadas abalou ainda mais a confiança da imprensa nos dados compilados e fornecidos pelo governo federal, Hoje, um conjunto de veículos de imprensa coleta tais números diretamente junto às Secretarias Estaduais de Saúde, consolida essas informações e divulga todos os dias às 20h o número de casos novos e óbitos.

Esses elementos, analisados conjuntamente, só confirmam a verdadeira produção do desconhecimento. Dados imprecisos, divergentes e orientações incoerentes sobre como proceder confundem a população. Além disso, estimulam a desconfiança e minam quaisquer tentativas de protocolos de segurança sanitária contra o novo coronavírus. Se cada um ‒ seja o governo, a família, o vizinho, o comerciante ­‒ diz uma coisa diferente, como saber aquilo que é correto e adequado numa conjuntura dinâmica de descobertas? Entramos na seara daqueles que acreditam que a pandemia existe e aqueles que a negam. Parece que o vírus da ignorância tem se espalhado rapidamente junto com o novo coronavírus.

Uma pesquisa internacional sobre o negacionismo científico foi iniciada e, em breve, teremos mais dados sobre esse assunto. Renan Leonel, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, teve seu projeto “Agnotologia viral: negação da COVID-19 em meio à pandemia no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos” aprovado pelo Social Science Research Council of New York (SSRC), em parceria com a Henry Luce Foundation. Ele vai estudar a explosão de desinformação sobre o novo coronavírus que tem ocorrido nesses três países, especialmente pela baixa adesão às normas da OMS. Uma das suas hipóteses é que o negacionismo científico seria uma política de Estado nos países selecionados para a pesquisa. Antes de saírem os resultados dessa pesquisa, já ousaria dizer que, pelo menos em relação ao governo federal brasileiro, o projeto tem grandes chances de confirmar sua hipótese inicial.

Diante dessas tristes evidências, torna-se importante saber como combater o negacionismo. Parece que nosso trabalho foi triplicado porque além de explicar o que é um dado científico, precisamos também esclarecer o que não é ciência e ainda desconstruir os argumentos negacionistas. Quando penso sobre esse assunto, vejo que não há como elaborar estratégias de enfrentamento do negacionismo sem entrar no debate sobre pós-verdade que tem constituído nossos tempos atuais. Os afetos e as emoções, infelizmente nesse caso, estão embaralhando as tentativas de diálogos racionais sobre a pandemia. Opiniões pessoais e “achismos” se sobrepõem a estudos comprovados cientificamente, dificultando a construção de consensos num contexto em que os pontos de partida são absolutamente distintos. Parece que já tenho mais um tema para outra coluna!

Ao olharmos para os dados oficiais (sem considerar as subnotificações), nesse mês de outubro de 2020, já são quase 160 mil brasileiras/os que faleceram diagnosticadas/os com COVID19 e mais de 5 milhões de casos confirmados. É espantoso que esses números não signifiquem nada para os negacionistas. Centenas del óbitos por dia, nos últimos meses, não tem como ser ignorada. Precisamos de vacina e anticorpos não apenas para o novo coronavírus, mas também para o negacionismo científico.

Como bem colocou a presidenta da Fiocruz há alguns meses atrás, Nísia Trindade Lima, em relação à pandemia, estamos no mesmo oceano, enfrentando a mesma tempestade. Cada um na sua embarcação, de acordo com suas condições, podendo ser um transatlântico, um iate, uma lancha, um barco ou uma canoa. Ela se referia à desigualdade social, mas avalio que essa metáfora também pode ser aplicada à desigualdade de informações. Uns considerando que estamos, de fato, numa tormenta e outros entendendo que se trata apenas de uma “garoinha”.

Nessa complexa conjuntura, mais do que nunca, precisamos da ciência e continuar fazendo ciência para lidar com essa realidade, enfrentando o negacionismo e colaborando na produção de conhecimento científico que melhore as condições de vida de todas nós. Não sabemos para onde essa pandemia irá nos conduzir. Por ora, como iniciei a coluna, sei apenas que juntamente com milhares de outras pessoas, estou muito cansada física e mentalmente. Escrever acaba sendo uma forma de romper com o automatismo da quarentena e uma maneira de elaborar outras saídas. É encarar esses tempos sombrios de frente, com coragem para construir outros modos de ser e estar nesse mundo.

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O futuro da biodiversidade no nosso planeta: qual caminho “normal” queremos voltar a seguir depois da quarentena?

Todo dia a gente vê um meme diferente sobre o que faremos quando a quarentena acabar (sobre a pandemia do Covid-19) e a vida voltar ao normal. Depois da crise que estamos vivendo e das discussões que ela traz, a perspectiva de querer voltar ao que vivíamos antes da pandemia, em vez de pensarmos em melhores alternativas de lidar com a realidade, me parece equivocada, já que foi aquela normalidade que nos trouxe até aqui. Hoje vou dar um exemplo dos frutos que a nossa antiga normalidade deve colher daqui a algumas décadas e porque precisamos pensar desde já em nova normalidade: a extrema perda da biodiversidade causada pela perda de habitat em todo o mundo. 

Para discutir esse tema, vou apresentar os resultados de um estudo que acabou de ser publicado na revista Biological Conservation pelos pesquisadores Daniel Gonçalves-Souza, Ricardo Dobrovolski (Universidade Federal da Bahia) e Peter H. Verburg (VU University Amsterdam, Holanda). Eles utilizaram um modelo para prever a perda da biodiversidade a partir da perda de habitat que vai acontecer daqui a 20 anos e os resultados dessa pesquisa não são nem um pouco promissores.

Não dá pra dizer que esse prognóstico é surpreendente. A perda da biodiversidade no nosso planeta está acontecendo em uma velocidade cada vez mais acelerada. O aumento da população combinado com nossos padrões de consumos extremos estimulam a perda de áreas naturais e consequentemente, a perda do habitat de inúmeros seres vivos que viveriam nessas áreas. Isso resulta na extinção de diversas espécies, além da perda de serviços ecossistêmicos fundamentais realizadas por elas para o bem-estar humano. As atividades de agropecuária são as principais responsáveis pela redução de áreas naturais e, apesar de estarmos sentindo que a pandemia levou a uma redução geral das atividades econômicas do país, o desmatamento na Amazônia só acelerou  — com 51% de aumento em relação ao mesmo momento no ano passado (se liguem na importância de deixar as florestas intactas aqui). 

Com o objetivo de ter valores mais claros acerca dessa perda de biodiversidade para guiar o desenvolvimento de melhores estratégias de conservação em todo o mundo, os pesquisadores responsáveis pelo estudo intitulado “Perda de habitat, previsibilidade da extinção e esforços de conservação das ecorregiões terrestres”  (em inglês “Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions”) construíram um modelo para quantificar a ameaça de extinção de espécies de vertebrados terrestres como resultado da perda de habitat. Esse modelo é baseado numa relação espécie/área, considerando que o aumento de áreas disponíveis, também resulta em um aumento de espécies na área em questão (e vice-versa). Os pesquisadores utilizaram os dados de mais de 600 espécies de vertebrados distribuídos em diversas ecorregiões globais para aplicá-lo.

Esse modelo foi criado em duas etapas. Como uma das formas de quantificar a perda de biodiversidade é utilizar o número das espécies em extinção, eles primeiro avaliaram o risco de extinção atual, considerando a perda de habitat até o presente momento. Após terem uma previsão, eles compararam os resultados com os valores reais da lista vermelha de espécies em extinção da União Internacional pela Conservação da Natureza (ou IUCN em inglês). Esse passo é importante porque se os dados que o modelo previu para os valores atuais são iguais aos dados reais registrados de espécies ameaçadas, nos certificamos que as previsões do modelo se adequam à realidade. O modelo previu que 2073 espécies deveriam estar ameaçadas hoje e este número está muito próximo ao número real que consta na lista da IUCN. 

A segunda etapa do modelo foi construir uma previsão para o ano de 2040, depois de 20 anos de destruição. E é aqui que nossa velha normalidade entra em jogo. Os pesquisadores utilizaram as taxas de perda de habitat até a atualidade para prever a perda da biodiversidade que esperamos daqui a 20 anos. Infelizmente, se continuarmos os mesmos hábitos, essas taxas também irão se manter iguais e, mais de quatro mil espécies podem estar ameaçadas de extinção nas próximas décadas.

Adicionado a isso, o estudo identificou as ecorregiões que estão mais ameaçadas de perder biodiversidade. Os esforços de conservação estão normalmente voltados para áreas chamadas de hotspots de biodiversidade, que, basicamente, são áreas com um grande número de espécies importantes de serem conservadas, a exemplo das endêmicas (aquelas espécies que tem uma área de vida restrita a um certo local).  O interessante é que o estudo identificou algumas ecorregiões em perigo que estão fora desses hotspots de biodiversidade, chamando atenção para a necessidade de ampliação das estratégias de conservação no nosso planeta.  

Este mapa retirado do artigo em questão mostra a relação entre o número de vertebrados endêmicos previstos para extinção devido à perda de habitat acumulada projetada até 2040 (em vermelho – tons escuros indicam mais extinção) e a porcentagem da área de ecorregião que está protegida (em azul – tons escuros indicam mais área protegida). Fonte: Biological Conservation, volume 246 – Elsevier, 2020.

É importante pontuar que os autores afirmam que este não deve ser o único modelo utilizado para fazer essas previsões. Como é um modelo geral, ele simplifica as respostas diversas que as diferentes espécies podem apresentar em relação a perda de habitat, além de necessitar de dados das espécies que não estão sempre disponíveis. Precisamos de mais informações sobre a nossa biodiversidade para fazer previsões cada vez mais seguras sobre seu futuro. 

Mas, com certeza o artigo nos dá um grande exemplo para se repensar sobre qual mundo queremos (re)construir, quando sairmos desta pandemia. O jeito que estamos lidando com a natureza, da qual inclusive fazemos parte, não tem gerado consequências favoráveis. Agora que saímos do velho normal, talvez seja o momento perfeito para se pensar em um novo normal, muito mais responsável, consciente e ativo.

Fonte:

Gonçalves-Souza D., Verburg P. H., Dobrovolski R. (2020) Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions. Biological Conservation, Volume 246, 2020, 108579.

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Marcha pela Ciência: por que ainda estamos marchando por fatos?

Em maio do ano passado, milhares de cientistas em diversas cidades brasileiras reuniram-se para realizar a chamada Marcha pela Ciência. O movimento, iniciado há alguns anos nos Estados Unidos (e originalmente chamado de March for Science), fez coro com mais de um milhão de cientistas de mais de 600 cidades do globo, que saíram das universidades às ruas para promover conscientização sobre a importância da ciência na vida das pessoas.


Início da concentração para a Marcha pela Ciência no vão do MASP, em São Paulo. Foto por Rebeca Bayeh.


Concentração para a Marcha pela Ciência em São Paulo. Foto por Marta Brietzke


Marcha pela Ciência na altura do metrô consolação, em São Paulo. Foto por Marta Brietzke

O dia da Marcha brasileira em 2019 coincidiu com o anúncio do primeiro corte de bolsas “ociosas” de mestrado e doutorado pelo governo Bolsonaro. Desde então, os cortes nas verbas destinadas a ciência e educação sofreram diversos novos cortes.

Ainda no ano passado, em julho, cientistas brasileiros se reuniram novamente na Avenida Paulista para expor para o público geral um pouco do seu trabalho dentro das universidades e explicar conceitos científicos de forma lúdica. As exposições científicas abordaram desde paleontologia até robótica, contando com a participação da equipe ThundeRatz da Escola Politécnica da USP, que já vinha participando das Marchas pela Ciência. Mariana Oliveira, membra da equipe, contou que ao falar sobre ciência para o público “as pessoas realmente se interessam, páram e perguntam”.

A professora Katia Oliveira, docente na UNIFESP, que junto à professora Erica Suzuki coordena o projeto Patógenos em Jogo, contou à epoca que “muitas pessoas do público leigo têm parado, têm se impressionado com tudo que a Universidade tem proporcionado”, e adiciona: “ninguém defende o que não conhece, então este é um passo muito importante […] e é uma vocação social da universidade, fazer divulgação científica”.

O projeto de Katia e Erika busca ensinar para o público sobre agentes infecciosos e as doenças causadas por eles através de jogos educativos. Katia conta que cada vez mais seus colegas têm se engajado em comunicar seu trabalho para o público, e aponta que ainda hoje em dia poucas pessoas têm real compreensão do que acontece dentro da universidade pública: “A população em geral tem uma visão muito simplista de que a universidade é o lugar em que o aluno senta, estuda e se forma profissional”, e completa que “a universidade pública tem uma dimensão muito maior, de pesquisa e extensão”. Katia se referia aos três pilares da universidade pública: o ensino, a pesquisa e a extensão, sendo a extensão qualquer atividade de compartilhamento de conhecimento da universidade junto à comunidade.


Verme de pelúcia da equipe do Patógenos em Jogo. Foto por Rebeca Bayeh

A Marcha pela Ciência é uma das muitas iniciativas em que cientistas e entusiastas da ciência têm se engajado para fazer divulgação científica. O movimento é apartidário, e tem como princípios a propagação de ideias baseadas em fatos e a ciência enquanto bem necessário para o progresso da sociedade e o bem-estar de toda a população. No Brasil, o movimento é apoiado pela Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência e pelos Cientistas Engajados.

Normalmente, nos cartazes das Marchas pela Ciência ao redor do mundo, algumas das frases escolhidas pelos cientistas são “no começo de todo filme de desastre há um cientista sendo ignorado”, “fale agora ou aprenda a nadar” (em referência ao aquecimento global, outro problema sobre o qual cientistas vêm alertando a população há décadas) ou ainda “você teve rubéola? Eu também não, graças à ciência”, em referência às vacinas, que protegem milhões de vidas todos os anos.

Os dizeres, que fazem alusão aos riscos de se ignorar fatos científicos com implicações para toda a sociedade, parecem escancarar mais do que nunca uma realidade que tem sido ignorada pelo governo brasileiro: Todos precisam de ciência. É uma espécie de grito coletivo daquilo que não deveria ser gritado para ser escutado: os fatos.

Em 2020, o mundo está se deparando com uma pandemia sem precedentes, cujos riscos também têm sido previstos e alertados há anos por cientistas, evidenciando mais ainda a função da ciência para a sociedade. Quaisquer que sejam as potenciais soluções para a pandemia, sejam elas vacinas, tratamentos, prevenção de pioras por uso inadequado de medicamentos, formas de detectar o vírus SARS-CoV-2 e todas as medidas que atualmente estão salvando milhões de vidas ao redor do mundo, como o distanciamento físico, são construídas a partir do conhecimento científico.

A propagação de fake news, soluções mágicas para a pandemia sem embasamento científico e o negacionismo praticado pelo atual governo já matou centenas de pessoas no Brasil. O engajamento da população não apenas nas medidas de prevenção do contágio mas também na propagação de fatos baseados em evidência se faz mais do que nunca necessário. Apenas soluções coletivas resolverão problemas coletivos. Já passamos há muito tempo da fase em que ignorar os fatos era uma opção.

Hoje, dia 7 de maio de 2020, respeitando as medidas de distanciamento físico, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência está organizando a primeira
Marcha Virtual pela Ciência. A programação completa pode ser acompanhada aqui.

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Achate a Curva! O que significa crescimento exponencial e o novo coronavírus

Desde que a pandemia de COVID-19 começou, você já deve ter ouvido falar várias vezes sobre o novo mantra global: “achatar a curva”. Essa curva que todos estão comentando é o gráfico que relaciona o número de casos da doença com o tempo que se passou desde a primeira infecção registrada.

Ou seja, achatar a curva significa garantir que o número de casos da doença cresça de forma menos rápida e menos agressiva, a fim de garantir que os sistemas de saúde ao redor do mundo consigam atender a todos os casos graves que exijam internação. Se os sistemas de saúde conseguem atender à demanda, menos pessoas infectadas morrerão, já que poderão ser atendidas caso cheguem a um estado grave. Além disso, pessoas que precisarão ser internadas em hospitais por quaisquer outros motivos, como doenças cardíacas, acidentes e pressão alta, também terão mais chances de serem atendidas e sobreviverem.

Figura 1 – Achate a curva! Créditos: Stephanie King – University of Michigan (https://news.umich.edu/pt-br/achatando-a-curva-do-covid-19-o-que-significa-e-como-voce-pode-ajudar/)

Esta curva, que a maioria dos países do mundo está trabalhando duro para achatar, é baseada em modelos matemáticos já adotados por experts em epidemiologia. O início dela é marcado pelo dia do primeiro caso confirmado, que é considerado o “dia 1”. O dia seguinte é considerado o “dia 2”, em seguida o “dia 3”, e assim por diante. No início, a curva tem um comportamento aproximadamente exponencial, ou seja, o número de casos novos em determinado dia é proporcional ao próprio dia. Em outras palavras, a taxa de variação do número de casos aumenta conforme o número de dias decorridos desde o dia 1 aumenta, de forma proporcional.

Figura 2 – Curva de crescimento exponencial. Créditos:Google.

Isso acontece porque o número de pessoas infectadas depende do número de pessoas que já eram contagiosas antes. No caso do coronavírus, cada pessoa infectada transmitirá o vírus em média para 2.3 pessoas. Ou seja, um grupo de 10 pessoas infectadas transmitem o vírus para 23 pessoas, totalizando 33 pessoas. Essas 33 pessoas transmitirão o vírus para aproximadamente 76 pessoas, totalizando 109 pessoas. Estas contaminarão mais 250 pessoas, totalizando 360 pessoas, e assim por diante, enquanto cada uma destas pessoas estiver contaminada (mesmo sem apresentar sintomas) e tendo contato com outras pessoas.

O COVID-19 é menos contagioso que doenças como o sarampo, em que cada pessoa infectada contamina em média 18 outras pessoas. Mas ao contrário do sarampo, ainda não temos vacina para o novo coronavírus, o que significa que apenas pessoas que já foram contaminadas e sobreviveram tem chances de estarem imunizadas – embora esta imunização ainda precise ser mais investigada.

Figura 3 – No começo, a curva de número de casos tem comportamento aproximadamente exponencial. Adaptado de Johns Hopkins Coronavirus Resource Center (https://coronavirus.jhu.edu/data/new-cases)

O tempo de incubação do novo coronavírus é de alguns dias. As pessoas que estão manifestando sintomas da doença agora podem ter sido contaminadas semana passada, então o “dia 1”, que representa o primeiro dia em que houve um caso confirmado da doença em determinado país ou região, na verdade indica apenas o primeiro caso que, após vários dias de incubação, tornou-se grave o suficiente para que a pessoa contaminada procurasse ajuda médica.

Mais que isso, esta pessoa precisa ter tido acesso ao teste para saber se foi contaminada com o vírus ou não. Alguns resultados de testes no Brasil levam mais de duas semanas para sair. Ou seja, somado ao tempo de incubação, o resultado positivo de hoje pode estar refletindo uma contaminação que aconteceu há três semanas. Apesar do atraso e das falhas para reportar todos as mortes causadas pela pandemia, o Brasil acaba de entrar para o ranking dos dez países mais afetados. Os dados alarmantes que temos agora são na verdade uma representação de como a real situação estava há algumas semanas.

Não só as pessoas testadas estão transmitindo o vírus, mas sim todas pessoas que foram contaminadas mesmo que elas não saibam disso, e mesmo que elas nunca sejam testadas. Algumas das pessoas contaminadas morrerão, e algumas sobreviverão com grandes chances de estarem imunizadas, o que significaria que elas passam a se tornar menos susceptíveis a desenvolverem a doença.

Contudo, é infactível (além de eticamente questionável) esperar que a pandemia passe naturalmente contando apenas com a imunização das pessoas recuperadas. O número de pessoas que morreriam seria altíssimo. Especialistas estimam que no Brasil mais de 2 milhões de pessoas morreriam se nenhuma medida de distanciamento social fosse tomada.

As medidas de isolamento social que estão sendo adotadas no mundo todo são fundamentais para que a taxa de contaminação diminua. Mesmo pessoas sem sintomas típicos da doença podem estar contaminadas, e o isolamento social reduz a chance de que cada pessoa transmita o vírus para outras pessoas, que transmitiriam para outras pessoas e assim por diante.

Para além dos modelos matemáticos, estamos lidando com números reais e com pessoas reais ficando doentes e morrendo. Mais de 5.500 brasileiros e brasileiras já faleceram confirmadamente por infecção pelo novo coronavírus até o dia da publicação deste artigo. O isolamento social salva vidas, e ficar em casa sempre que possível em tempos de pandemia é não apenas um ato de auto-proteção mas também um ato de cidadania e colaboração com o bem-estar do país.

Referências:
Centro de Recursos sobre o Coronavírus da Universidade Johns Hopkins
Universidade de Michigan
The New York Times
Math is Fun
Wikipedia
The Washington Post
Global news
Seti Institute
The Conversation

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O laboratório e o dia-a-dia – Parte III: Como cientistas estudam relações entre fenômenos?

Nos artigos anteriores sobre o método científico e os fenômenos do dia-a-dia, discutimos um pouco sobre a diferença de variáveis dependentes e independentes e sobre a importância da estatística para a ciência.

Também vimos que, tipicamente, cientistas estão lidando com muitas variáveis ao mesmo tempo e que estabelecer uma relação entre elas de forma rigorosa não costuma ser uma tarefa fácil.

Muitas vezes, entender as causas e consequências de determinado fenômeno exigem a análise de fatores que interferem tanto com as variáveis dependentes quanto com as independentes. Eles são chamados fatores de confusão.

Quanto mais longe das chamadas “hard sciences” nós estamos, mais complexos os fatores de confusão. Por exemplo, nas ciências sociais, pode-se observar padrões de comportamento em diferentes grupos, mas é impossível isolar todas variáveis ou “criar” uma sociedade independente de outras culturas para realizar observações experimentais. Na verdade, assumir que todas as variáveis são conhecidas já seria cometer um erro metodológico logo no começo.

Determinar fatores de confusão pode levar muitos anos de pesquisa em uma área, e o uso de diferentes abordagens. Imagem adaptada de: Annalise Batista
Na linguística, da mesma forma, para entender o desenvolvimento da fala e suas relações com a cultura, não se pode ensinar uma língua a um bebê de forma a isolá-lo da sociedade – e mesmo que este experimento imaginário não tivesse muitos problemas éticos, ainda assim teríamos um fator cultural proveniente dos próprios experimentadores.

Isso não quer dizer que não é possível estudar o fenômeno da aquisição de linguagem, apenas que a abordagem metodológica requer mais observação e análise do que manipulação experimental, ou ainda que a manipulação experimental é mais localizada e visa analisar como o fenômeno já acontece, no lugar de induzir o acontecimento do fenômeno.

Isso também acontece em algum nível nas ciências exatas. Na astronomia e na cosmologia por exemplo, não se está criando um buraco negro em laboratório para estudar como um buraco negro funciona. Mas observações indiretas sistemáticas levam a modelos capazes de compreender e prever fenômenos de forma reprodutível e confiável.

Cada área do conhecimento terá suas abordagens próprias e seus recortes do que será considerado propriedade e o que será considerado resultado. Áreas multidisciplinares carregam o desafio de cruzar as metodologias de áreas diferentes e encontrar conexões lógicas e que forneçam conclusões coerentes.

A epidemiologia, por exemplo, usa diversos modelos matemáticos e computacionais para estudar ciências da saúde, com o objetivo de compreender doenças do ponto de vista coletivo e promover sua prevenção.

Observar grandes quantidades de casos nos permite fazer perguntas interessantes, que não seriam possíveis se estivéssemos estudando doenças isoladamente ou como as doenças afetam um único organismo.

Por exemplo, ouvimos falar com frequência que exercícios físicos combatem a depressão. Mas como determinar se essa relação é de fato causal, ou seja, como saber se a prática de exercícios previne a depressão ou se pessoas não deprimidas tendem a se exercitar mais?

Exercícios físicos previnem a depressão ou a depressão aumenta o sedentarismo? Imagem: Mabel Amber
Ou ainda: como saber se a prática regular de exercícios associada a menores índices de depressão não é na verdade um indicador econômico de que determinados grupos, que têm acesso facilitado à prática de exercícios, tem também acesso a outras oportunidades de atividades que proporcionam maior bem estar?

Para abordar o problema dos fatores de confusão, e também o problema de determinar se a relação entre dois fatores observados é de causa ou de consequência, um dos métodos usados em epidemiologia chama-se Randomização Mendeliana. Aqui, o nome é inspirado em Mendel porque trata-se do uso de dados mensuráveis de variação genética numa determinada população, de forma a escolher apenas os genes com funções bem conhecidas. Assim, é possível entender melhor quais as relações causais de fato envolvidas entre dois fenômenos que parecem estar relacionados.

Um estudo recente publicado na JAMA Psychiatry estudou centenas de milhares de pessoas e seus respectivos níveis de atividade física – tanto os níveis relatados pelos participantes quanto medidas objetivas calculadas através do uso de acelerômetros – bem como variantes genéticas independentes que foram previamente associadas à prática de exercícios.

Os pesquisadores concluíram que, de fato, a prática regular de exercícios físicos (medida objetivamente) é um fator de proteção contra a depressão clínica. As medidas subjetivas – quantidade de exercícios que os participantes relataram verbalmente – não apresentou a mesma correlação.

Isso não quer dizer que as demais possíveis relações são todas inválidas (por exemplo, ainda é verdade que pessoas deprimidas têm mais dificuldade de encontrar motivação para se exercitarem). Mas é uma forma de atestar uma relação segura de causa-consequência.

Encontrar correlações precisas entre fenômenos não é uma tarefa trivial, e levanta mais perguntas. No caso do estudo acima, por exemplo, ainda resta muito a investigar sobre as relações profundas entre exercício físico e depressão, e sobre as causas da depressão em si, que já são sabidamente muitas.

Mas este trabalho é necessário e cumulativo, e nos traz cada vez mais perto de entender fenômenos complexos e como eles se relacionam ou não. Mais ainda: podemos desenvolver cada vez mais novas áreas interdisciplinares que vão trazer novas perguntas a serem respondidas.

Referências
Choi KW, Chen C, Stein MB, et al. Assessment of Bidirectional Relationships Between Physical Activity and Depression Among Adults: A 2-Sample Mendelian Randomization Study. JAMA Psychiatry. 2019;76(4):399–408. <https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/article-abstract/2720689>

Popular Science – “Exercise really does seem to help with depression” <https://www.popsci.com/exercise-depression>

Wikipedia – Mendelian Randomization <https://en.wikipedia.org/wiki/Mendelian_randomization>

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O laboratório e o dia-a-dia – Parte II: O que um cientista faz com aquilo que ainda não conseguiu explicar?

Na parte 1 do artigo, conversamos um pouco sobre variáveis dependentes e independentes, falseabilidade e sobre alguns dos objetos de estudo da ciência, e sobre como evitar uso de explicações não consistentes ou não verificáveis dentro do aparato teórico que já temos, evitando extrapolações de afirmações sobre as causas dos fenômenos que estamos estudando. 

Em resumo, queremos evitar misturar afirmações que são verificáveis na prática com conceitos abertos e subjetivos que não temos como verificar, já que esta mistura pode tanto atribuir uma falsa credibilidade científica a pensamentos que estão fora do escopo da ciência (como a existência do sobrenatural) quanto limitar a investigação de um fenômeno complexo através do uso de hipóteses que buscam unicamente cobrir buracos que a teoria ainda não explicou, o que chamamos de hipóteses ad hoc.

Não é só fora do léxico científico que acontecem falhas lógicas para explicar fenômenos. É muito comum, especialmente em manchetes de revistas não especializadas que falam sobre a área de saúde, que se divulguem pesquisas que relacionam, por exemplo, determinados hábitos a doenças. Muitas destas relações possuem de fato fundamentação e uma teoria coerente que as suporta, mas muitas vezes o fenômeno ainda não foi completamente desvendado, ou mesmo está sendo estudado através da observação de padrões que não necessariamente possuem relevância estatística ou relação de causa-consequência, como já foi ilustrado neste artigo.

Muitas vezes também, a chamada da revista que menciona a pesquisa faz um recorte muito reduzido do que a pesquisa realizou de fato, ou menciona números de casos de determinada doença sem mencionar a proporção na população. Daí a importância de não se ater aos títulos e de procurar outras fontes antes de, por exemplo, começar aquela nova dieta que vai te ajudar a evitar rugas, emagrecer e prevenir o câncer.

Alguns fenômenos são bastante complexos e envolvem situações impossíveis de serem reproduzidas em laboratório, até porque nem todas as variáveis são conhecidas. Alguns envolvem uma complexidade que é controlável mas cujas relações estabelecidas não são necessariamente diretas.

Suponha que eu queira, por exemplo, estudar a relação entre o tamanho de uma sala onde uma festa está acontecendo e a probabilidade de alguém quebrar um copo de cerveja. Talvez a chance de algum premiado espatifar um copo esteja relacionada com outros fatores, como a faixa etária dos convidados, a proporção entre homens e mulheres e até mesmo os tipos de cerveja que estão sendo servidas. Mas se queremos descobrir se pode existir um modelo que relacione apenas a probabilidade com a área livre da sala, ignorando todas as demais variáveis (conhecidas e desconhecidas), estamos analisando a probabilidade como variável dependente e a área livre da sala como única variável independente.

Qual a relação entre o tamanho da sala e a chance de alguém quebrar um dos copos? Crédito: Daniel Valverde/pixabay.

Pode ser que, após estudar muitas festas e muitas salas, eu chegue a um padrão que pareça relacionar de forma consistente as duas variáveis. Tudo deve passar por testes estatísticos criteriosos e, mesmo que a relação passe por todos estes testes, dificilmente teremos uma explicação de fato para as causas da relação entre quebra de copos e o tamanho da sala. Além disso, pode haver ligação entre vários fatores que foram ignorados (por exemplo, o tamanho da sala pode interferir a quantidade de pessoas que serão convidadas para a festa, que vai interferir no número de copos que serão quebrados, ou ainda pode ser que os dados que foram disponibilizados não tenham levado em conta a faixa etária e o poder aquisitivo dos anfitriões, ou mesmo se foram utilizados copos de plástico no lugar de copos de vidro). 

Para que se desenvolva de fato um estudo, tese ou teoria sobre como o tamanho da sala influencia na quantidade de copos quebrados, não basta achar correlações entre números.  O papel do cientista aqui é apresentar um olhar crítico sobre a relação encontrada e, se for o caso, propor abordagens do problema que tenham embasamento teórico a partir do trabalho já realizado por outros cientistas, levando em consideração todas as variáveis conhecidas e propondo, quando for o caso, a influência de variáveis que não foram levadas em conta, que poderão ser então verificados por outros cientistas.

Enquanto não houver nenhum resultado baseado em evidências e verificável por outros cientistas, ainda não se está fazendo ciência. Ou seja, se eu encontrar uma relação mágica entre os tamanhos das salas e o número de copos quebrados na festa, esta relação só passa a ser cientifica se ela puder ser posta à prova por outras pessoas em condições rigorosas e reprodutíveis. Isto não quer dizer que teorias científicas constituem a verdade absoluta, ou que elas proporcionem respostas sobre todas as causas dos fenômenos estudados, mas sim que aquele é o ponto máximo a que se pôde chegar, neste momento, a conclusões com o máximo de rigor possível utilizando-se o pensamento racional.

Trata-se de um trabalho cumulativo, lento, colaborativo e que exige tempo e muita verificação e senso crítico para se consolidar e gerar aplicações para a sociedade e para outras áreas da ciência.

 

 

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O laboratório e o dia-a-dia: O que é o método científico e por que ele é o maior inimigo das fake news?

Na ciência, busca-se o tempo todo correlacionar fenômenos com suas causas e consequências, a fim de se compreender como o mundo funciona. Contudo, os tipos de correlação e as dificuldades experimentais que cientistas precisam enfrentar variam de área para área, e evoluem conforme o campo de estudo amadurece.

Por exemplo, se queremos estudar um fenômeno físico, como a relação matemática entre a temperatura e a dilatação de uma barra de metal (o quanto ela varia em comprimento quando aquecido ou resfriado), precisamos realizar uma série de medições de temperatura e do comprimento do objeto, além de levar em conta diferentes tipos de materiais (cada material possui um coeficiente de dilatação diferente, ou seja, diferentes materiais vão dilatar mais ou menos quando sujeitos à mesma variação de temperatura).

Neste caso, chamamos a dilatação do objeto de variável dependente (aquela que depende de outras variáveis que estamos estudando), e a variação de temperatura, o comprimento inicial e o coeficiente de dilatação de variáveis independentes (que são aquelas que estamos controlando a fim de estudar a dilatação). Neste caso termodinâmico, é relativamente simples inferir quais as variáveis dependente e independentes, mas às vezes estas relações não são óbvias a uma primeira vista.

Além disso, estas medições sozinhas não nos fornecem as causas materiais da dilatação, ou seja, as estruturas por trás da mudança de tamanho provocada por alteração da temperatura, mas podem nos fornecer padrões o suficiente para estabelecermos relações matemáticas e podermos prever com boa confiabilidade o quanto determinado material vai dilatar em determinadas circunstâncias (o que culmina em diversas aplicações práticas em várias áreas do conhecimento, por exemplo na engenharia civil).

Quais variáveis têm influência sobre meu objeto de estudo? Créditos: Rebeca Bayeh.

No entanto, ao longo da história da ciência, vários modelos de termodinâmica e de estrutura dos materiais já foram desenvolvidos de forma que seja possível, no caso deste fenômeno, não só prever com boa confiabilidade o comportamento dos materiais estudados em diferentes temperaturas, mas fornecer explicações para as causas do fenômeno da dilatação. Quanto mais suporte teórico e experimental uma teoria científica tem, maior sua credibilidade.

Essa credibilidade passa também pelo quanto determinada afirmação pode ser falseável. O conceito de falseabilidade foi introduzido pelo filósofo Karl Popper, e diz respeito ao quanto uma afirmação ou teoria permitem que sejam realizadas investigações que as refutem.

Por exemplo, no caso dos objetos que dilatam com o calor, alguém poderia observar em laboratório que toda barra de ferro dilata X quando é aquecida em dez graus Celcius. Poderíamos “falsear” essa afirmação fazendo experimentos que medissem a dilatação de diferentes barras de ferro com diferentes tamanhos iniciais e diferentes temperaturas iniciais, sempre variando dez graus.

Caso as barras, dentro de condições controladas de laboratório e utilizando-se estatística apropriada, se comportem de forma semelhante à da afirmação que estamos tentando falsear (o que não aconteceria aqui, pois já sabemos que a dilatação dependeria sim do comprimento inicial da barra), estaríamos fornecendo com isso mais embasamento para uma teoria. Caso contrário, e caso se verifique que não houve falhas sistemáticas na realização do experimento, estamos falseando a afirmação inicial. Quando isso acontece na ciência, surge debate e reflexão sobre quais as variáveis que podem não estar sendo levadas em conta, quais as possíveis falhas experimentais do experimento original (e dos experimentos dele derivados) e quais as causas do fenômeno estudado.

Quando o monge e botânico Gregor Mendel desenvolveu, no século XIX, seus princípios de hereditariedade, que seriam base para os estudos em Genética, ele desconhecia a existência de genes ou mesmo a existência do DNA, e portanto não pôde explicar as causas através das quais as cores das ervilhas que ele estudou dependiam das cores das plantas que foram cruzadas. Contudo, os padrões de hereditariedade verificados experimentalmente por ele em plantas são verificáveis e falseáveis, e seu trabalho serviu como base para o que viria a ser posteriormente a Genética moderna.

Muitas vezes, quando cientistas se depararam com padrões de fenômenos que podiam observar, mas cujas causas eram desconhecidas, foram atribuídos significados místicos e religiosos para estes fenômenos. Quando isso acontece, estamos saindo do campo da ciência. Por exemplo, se eu observo que qualquer barra de ferro dilata sempre proporcionalmente ao seu comprimento inicial e à sua variação de temperatura, eu posso fazer uma afirmação falseável acerca deste fenômeno (se alguém quiser testar minha afirmação, basta aquecer uma barra de ferro em um laboratório com condições controladas e verificar se a minha afirmação se sustenta). Contudo, se eu afirmar que a dilatação se dá por intervenção de um deus do calor que interveio em meu laboratório, esta afirmação não é falseável (não posso provar a existência do deus do calor nem sua presença no meu laboratório, e portanto não posso provar que esta foi a causa da dilatação da barra de ferro).

Além disso, o fato de eu não provar a não-existência do deus do calor não implica na existência do deus do calor. Cabe a quem fez a afirmação de que tal deus existia a comprovação do que está dizendo.

Analogamente, quando são compartilhadas notícias falsas (“fake news”) com afirmações mirabolantes nas redes sociais, cabe a quem fez as afirmações comprovar que o que está dizendo é verdade. O grande problema destes compartilhamentos é que as notícias costumam envolver um grande peso emocional e, muitas vezes, fazem com que os leitores sintam-se ameaçados por um oponente político que está supostamente prejudicando sua vida, sua família e seu senso de sagrado. É natural que fiquemos impressionados com ideias fortes e emotivas, mas cabe a nós verificar se as pessoas que as estão afirmando (e as que estão compartilhando, já que compartilhar é uma forma de re-afirmar) verificaram ou comprovaram tudo que estão alegando, ou se trata-se apenas de ideias fantasiosas que parecem ser verdadeiras apenas por possuir um vínculo com uma parte da realidade que já conhecemos ou porque elas intuitivamente fariam sentidos.

Muitas ideias científicas se iniciam de forma intuitiva, com um vínculo com a realidade já conhecida, como foi o caso das Leis de Mendel e de muitas outras, como a Teoria da Relatividade do Einstein. Mas as intuições isoladamente não constituem por si só o pensamento científico, e não cabe à ciência fornecer explicações para as causas de todos os fenômenos se estas causas não puderem ser estudadas de maneira criteriosa.

Trata-se de um trabalho colaborativo de longo prazo, que tem compromisso com a consistência, e não com a explicação de todas as verdades, e cujos paradigmas evoluem conforme a tecnologia se desenvolve e conforme são encontradas novas relações entre diferentes áreas dentro da ciência.

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Vamos falar de raça e classe na ciência?

Com mais frequência do que gostaríamos, ser mulher e fazer pesquisa não é tarefa fácil. Ser mulher, fazer pesquisa e chegar a posições de alta patente no meio acadêmico, então, só faz adicionar alguns níveis de desafio ao jogo.

A culpa é do chamado “teto de vidro” – ou uma barreira invisível que atrasa e impossibilita o progresso de mulheres não apenas em carreiras acadêmicas, mas também nos negócios e em outras áreas. A falta de políticas específicas que permitam ter filhos e continuar progredindo na carreira* e o sexismo implícito em se conferir mais competência a homens do que a mulheres para assumir cargos de liderança são algumas das muitas variáveis na manutenção desse teto de vidro. A conversa vai muito além do senso comum de que “existem poucas mulheres” em áreas das ciências, tecnologias, matemática e engenharias (STEM, na sigla em inglês).

Mas quando se é mulher, negra, pobre e cientista, o buraco é bem mais embaixo. E o teto de vidro, muito mais acima.

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Lançado no início dos anos 1980, o livro “Mulheres, Raça e Classe”, obra clássica da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, traz aspectos importantes sobre a construção do movimento de liberação feminina nos Estados Unidos desde a escravatura – sempre aliada a concepções de raça e classe social, já que “ser mulher” nunca é uma categoria isolada. Como Davis mostrou bastante bem através de análises e numerosas histórias fortes e chocantes no livro, as variáveis “raça” e “classe” têm uma enorme influência no resultado de qualquer equação que comece com “gênero”, e não apenas pelo ponto de vista do abismo entre se ser “mulher+branca+rica” versus ser “mulher+negra+pobre”. Ser mulher, branca e pobre também é diferente de ser mulher, negra e rica – algumas camadas de preconceito se mantém, outras se silenciam, a maioria raramente desaparece.

Passar um marca-texto sobre “raça” e “classe” como subcategorias em “gênero”, no entanto, não quer dizer que mulheres com diferentes situações de privilégio ou preconceito deveriam se opor, ou que a luta de umas é mais importante que a de outras (embora algumas lutas possam, sim, ser mais urgentes que outras, o que não quer necessariamente dizer que sejam mais importantes). É preciso que todo mundo entenda e respeite as necessidades de quem está em lugares e momentos diferentes na escala do preconceito para que seja possível que todas as mulheres nos unamos contra o que nos oprime. Empatia é um combustível poderoso, afinal.

E daí?

Não podemos negar que o tal teto de vidro na academia parece ter um revestimento especial, ainda mais difícil de quebrar, quando se fala em mulheres negras e pobres adentrando (e se destacando em) carreiras científicas. Sem mencionar o fato de que, por todos os lados, as oportunidades para homens e mulheres não são as mesmas e a diferença entre média salarial ainda é de se chorar de tristeza (e raiva, obviamente).

Segundo o Fórum Econômico Mundial, se continuarmos no passo em que estamos, será necessário esperar 170 (!) anos para que o mundo atinja a paridade salarial entre gêneros. Por aqui, é vergonhoso que as brasileiras em média ganhem quase 25% a menos que os brasileiros, mesmo tendo passado mais tempo na escola. O que mais assusta é que mulheres negras com curso superior ganhem em média quase metade do salário de homens brancos com o mesmo grau de instrução (as mulheres brancas ganham também absurdos 40% a menos). Esperar 170 anos por paridade salarial seria um horizonte de expectativa otimista para as brasileiras, para dizer o mínimo. Mais ainda para as negras.

É verdade que o acesso da população negra brasileira ao ensino superior praticamente dobrou na última década em decorrência de cotas e outras políticas de ação afirmativa. Em 2005, a juventude negra e parda somava 5,5% do contingente de estudantes no ensino superior. Em 2015, já eram 12,8%. Entre jovens brancos entre 18 e 24 anos, a porcentagem também cresceu: passou de 17,8% em 2005 para 26,5% em 2015, segundo o IBGE. O quadro melhorou, mas o fosso continua.

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Olhando mais de perto

Dois estudos de caso de 2008 e 2009 mostram que para jovens negras e pardas o desafio é se manter nesta magra porcentagem do alunado em instituições públicas e privadas. No estudo de 2008, João Bôsco Góis, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense, traz alguns dados observados na instituição (que não devem ter mudado substancialmente desde que o artigo foi publicado). A presença de estudantes negras nos cursos de maior status era estatisticamente residual. Com números chocantes. Segundo Góis, 60,9% do alunado do curso de Medicina era mulher – delas, ínfimos 1,53% eram negras e 16,9% eram pardas. Em Direito, 77,5% dos alunos eram mulheres – 3,2 negras e 16% pardas. Nas Engenharias, o professor aponta que há uma inversão em termos de gênero: apenas 24,8% dos alunos eram mulheres – desse total, 2,4% eram negras e 17,4%, pardas.

E não é só isso: no ano em que a pesquisa aconteceu não havia jovens negras matriculadas nos cursos de Física e Ciência da Computação.

A posse de bolsa para alunas negras também representava um desafio: para as bolsas mais valorizadas, como de monitoria, iniciação científica e extensão, as negras estavam em clara desvantagem: entre as alunas da UFF com posse de bolsa, 3,5% das alunas negras tinham uma bolsa de monitoria, 2,64%, uma de iniciação científica e 0% de extensão, em comparação a 72,3% de brancas que tinham uma bolsa de monitoria, 70,6% com uma de iniciação científica e 66,7% de extensão na universidade.

Por isso Góis defende que os cursos mais valorizados da UFF teriam tido uma “‘democratização de acesso por gênero’ sem seu equivalente racial”. As alunas negras se concentravam mais em cursos considerados de carreira secundária, onde os profissionais “geralmente estão em posição de relativa subordinação nas instituições em que atuam, a exemplo de enfermeiros, fisioterapeutas e assistentes sociais em ambientes hospitalares”, observa o pesquisador.

Não que estas carreiras não tenham função social crucial. As funções do cuidado do outro, aliás, estão entre as que mais serão necessárias em países (como o Brasil) em que a tendência é que a taxa de fertilidade siga em queda. Na quarta revolução industrial, estes profissionais serão mais necessários do que nunca. Mas é uma temeridade que sejam profissões tão pouco reconhecidas – e que isso gere um ciclo vicioso perpetuando a subvaloração da mulher negra, vendo nestes cursos uma possibilidade de inserção no ambiente universitário.

No estudo de 2009, a psicóloga Ana Luiza Julio e a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) Marlene Strey observam os desafios da permanência de alunos e alunas afrodescendentes na PUC-RS. Por lá, a questão também era um desafio para os 280 alunos com quem elas interagiram. A maior questão que elas encontram é a dificuldade de enfrentamento dos inúmeros percalços que surgem pelo fato de se ser o que se é: negro ou negra em uma instituição de ensino superior. A dificuldade em nos reconhecermos racistas como país e o praticarmos no cotidiano pode ser um fator que, segundo as pesquisadoras, atrapalha o reconhecimento de pertencimento racial de muitos alunos, dificultando, assim, a formação de uma consciência política. Essa consciência, elas enfatizam, é essencial para a permanência na universidade e para iniciar a vida profissional, já que ajuda a criar uma visão de si mais complexa e contextualizada. E ajuda a não interiorizar a decepção de não ser selecionada depois de uma entrevista (normalmente a última etapa de um processo de seleção) como uma falha pessoal.

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E então…

Sabemos que a vida das mulheres negras no Brasil nunca foi fácil (possivelmente a de negras em lugar nenhum, diga-se de passagem). E que na academia, as diferenças não se iniciam na graduação – têm raízes mais profundas mas são sentidas mestrado, doutorado e pós-doutorado afora. E claro, nas seleções de alta cúpula das universidades, de institutos de pesquisa e onde quer que se queira fazer pesquisa de alto nível.

Fica difícil renovar os quadros da pesquisa científica e do professorado universitário com mais diversidade se a graduação é pouco diversa. E chega a ser absurda a dificuldade que alunas negras enfrentam para entrar e se manterem em cursos de graduação em áreas científicas – tanto que chega a ser surpreendente que a primeira negra brasileira a ter um título de doutorado em Física (a simpaticíssima Sonia Guimarães) seja atualmente professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e não uma senhora de 90 anos ou uma personagem histórica da ciência brasileira.

Quando se fala em maior acesso de mulheres – e mulheres negras – a carreiras acadêmicas, pode ser bem interessante colocar uma lente e observar quem são estas mulheres e por quais cursos e áreas essa inserção se dá. Entender isso pode ser um passo à frente no que toca ajudar brancas e negras (e amarelas, indígenas, enfim, todo o espectro de tons de pele) a entenderem as lutas e as necessidades umas das outras. E, quem sabe, entender o que é urgente e importante e entrar na briga.

Mais espaço para as mulheres negras nos quadros de prestígio científico e acadêmico não faz mais do que beneficiar toda a sociedade, já que elas são as ‘últimas da fila’ no que toca posições de privilégio. Para trazer de novo Angela Davis à conversa, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base do capitalismo”. E da ciência com ele.

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*Em dezembro passado, foi sancionada a lei 13.536/2017, que prevê a possibilidade de afastamento remunerado de bolsistas de pesquisa por maternidade ou adoção. A aprovação do projeto de lei representa um avanço imenso, mas ainda serão necessários alguns anos para se verificar seu impacto real nas diversas áreas do conhecimento e no universo da pesquisa acadêmica.

Fontes:

DAVIS, A. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 2016 (1981)

GÓIS, J. B. H. Quando raça conta: um estudo de diferenças entre mulheres brancas e negras no acesso e permanência no ensino superior. Revista Estudos Feministas, 2008. http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n3/02.pdf

JULIO, A. L. S e STREY, M. N. Negros e negras no ensino superior: singularidade para a permanência. Revista África e Africanidades, 2009. http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/Negros_e_Negras_no%20ensino_superior_singularidade_para_permanencia.pdf

HU, J. The Magnifying Glass Ceiling: The Plight of Women in Science. PLoS ECR Community Blog, 2013. http://blogs.plos.org/thestudentblog/2013/08/16/glass-ceiling-women-in-scienc/

Portal de Notícias do Senado. Sancionada lei que dá direito a afastamento por maternidade para bolsistas de pesquisa. Brasília, 18/12/17. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/12/18/sancionada-lei-que-de-afastamento-por-maternidade-para-bolsistas-de-pesquisa