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Violência sexual nos conflitos: qual a política das Nações Unidas?

No começo desse ano, precisamente aos onze de maio, o Conselho de Segurança publicou a Resolução n° 2272/2016, voltada ao combate da exploração e abuso sexual nas missões de paz da ONU. [1]

Essa resolução reforça a política do órgão, conhecida como “tolerância zero” (‘zero tolerance policy’), contra a violência quando perpetrada por pessoal a serviço das Nações Unidas, que teve início cerca de dez anos antes, ao final de 2005, quando uma ‘Unidade de Conduta e Disciplina’ foi estabelecida no Departamento para Operações das Missões de Paz (DPKO) da instituição. [2]

No geral apresentadas como parte das reformas dos processos de accountability e dos padrões de conduta de seus membros, esses atos institucionais e normativos podem ser lidos ainda na chave da ‘securitização’ do tema da violência sexual, ou seja, seu tratamento por instâncias que deliberam prioritariamente assuntos ligados à segurança internacional.

Essa ‘securitização’ que tem sido a política das Nações Unidas para com a violência sexual, porém, possui histórico um pouco anterior a isto. De fato, nos anos 1990, em ao menos três ocasiões o estupro foi relacionado a “crime” no meio internacional: em 1993, no tribunal ad hoc ICTY (Yugoslavia), com este ato nomeado um “crime contra a humanidade”; em 1994, na corte ad hoc ICTR (Rwanda), declarado primeiramente como “crime de guerra” e então, outra vez, “crime contra a humanidade”; por fim, em 1998, na mesma corte, o estupro seria classificado como “crime de genocídio”. [3]

Após uma década de falhas institucionais nas “missões de paz” da ONU, sobretudo em Ruanda, na Somália e na antiga Iugoslávia, é precisamente no ano 2000 que o Conselho de Segurança emite a Resolução 1325 sobre a participação de mulheres em processos de paz e segurança (UNW, 2015, p. 326). [4] A esta seguiram-se cinco resoluções sobre o tema no mesmo órgão (Res. CS-ONU 1820/2008, 1888/2009, 1960/2013, 2106/2013 e 2272/2016).

Desde 2013, o Secretário-Geral da ONU deve relatar ao Conselho de Segurança o estado de implantação das resoluções 1820/2008, 1888/2009 e 1960/2010 desse órgão no âmbito das Nações Unidas, em um documento intitulado Conflict-related sexual violence: Report of the Secretary-General. O último (S/2015/203) diz que, no geral, a violência sexual é fruto da “discriminação de gênero estrutural” das sociedades (§ 11), e traz dados de algumas, em particular daquelas em meio a graves conflitos armados. [5]

Embora traga, portanto, reconhecimentos e dados relevantes, que se destacam em oposição a um silêncio sobre esse tema que predominou e perdurou até depois do fim da Guerra Fria, em 1991, há uma suspeita de que a crescente securitização do tema não baste para acabar com o problema.

A exemplo dessa suspeição, em relatório crítico ao último Report do Secretário Geral, previamente citado, a sociedade civil organizada aponta que:

Sem um compromisso verdadeiro da comunidade internacional para enfrentar as barreiras à representação e participação real das mulheres, esforços na direção de uma paz sustentável continuarão ineficazes. (Peacewomen, 2015, p. 1) [6]

Mais participação das mulheres, em todas as instâncias, notadamente na resolução dos conflitos, serão cruciais para combater a violência sexual que contra elas hoje impera nesses contextos. Do contrário, todos esses papéis terão sido, infelizmente, apenas um tempo perdido na vida de muitas árvores.


NOTAS:
[1] Res. CSNU 2272/2016. <http://www.un.org/en/ga/search/view_doc.asp?symbol=S/RES/2272(2016)

[2] In: <https://cdu.unlb.org/AboutCDU/OurMandate.aspx>

[3] Trad. livre. In: <http://www.un.org/en/preventgenocide/rwanda/about/bgsexualviolence.shtml>

[4] Trad. livre. In: <wps.unwomen.org/~/media/files/un%20women/wps/highlights/unw-global-study-1325-2015.pdf>

[5] Trad. livre. In: <unama.unmissions.org/sites/default/files/wps-sg_report_crsv_-march_2015_0.pdf> 

[6]In<http://peacewomen.org/sites/default/files/ExecutiveSummary_Through%20the%20Lens%20of%20Civil%20Society.pdf>

 

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Missão Rosetta : “…Pegar carona nessa cauda de cometa…”

A Missão Rosetta Internacional foi aprovada no Science Program da ESA em novembro de 1993. Á partir daí diversos cientistas da Europa e Estados Unidos trabalharam juntos para construir uma sonda espacial capaz de se aproximar de um dos objetos mais antigos do Sistema Solar, o Cometa 67P / Churyumov-Gerasimenko. Em Março de 2004, o foguete europeu Ariane 5 saiu de Kourou, na Guiana Francesa, levando a sonda Rosetta.

A missão da Agência Espacial Europeia de exploração de cometa tem este nome devido a famosa “Pedra de Rosetta”. Este objeto de basalto vulcânico foi a chave para desvendar a civilização do antigo Egito.

Ao comparar as inscrições sobre a pedra, os historiadores foram capazes de começar a decifrar as figuras misteriosas esculpidas. A maior parte do trabalho pioneiro foi realizada pelo médico e físico inglês, Thomas Young, e pelo estudioso francês, Jean François Champollion. Como resultado, os estudiosos foram finalmente capazes de reconstituir a história de uma cultura há muito perdida.

Assim como a pedra de Rosetta forneceu a chave a uma civilização antiga, a sonda Rosetta destravará os mistérios dos objetos mais velhos de nosso Sistema Solar. Como o sucessor digno de Champollion e Young, Rosetta permitirá que os cientistas olhem para trás 4,6 bilhões de anos para uma época em que não existiam planetas, e apenas um vasto enxame de asteroides e cometas cercando o Sol.

Os cientistas esperavam comparar os resultados de Rosetta com estudos prévios da espaçonave Giotto, da ESA, e por observatórios terrestres. Estes mostraram que os cometas contêm moléculas orgânicas complexas – compostos que são ricos em carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. Curiosamente, estes são os elementos que compõem os ácidos nucleicos e aminoácidos, os ingredientes essenciais para a vida como a conhecemos. A vida na Terra começou com a ajuda de cometas? Rosetta pode nos ajudar a encontrar a resposta a esta pergunta fundamental.

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Figura 1: Aproximação da sonda Rosetta ao cometa 67P / Churyumov – Gerasimenko.

 

Depois de doze anos de viagem pelo Sistema Solar, a sonda se aproximou do Cometa 67P / Churyumov-Gerasimenko (Figura 1). A sonda Rosetta enviara então um aterrador robótico, chamado de Philae, para obter as primeiras imagens da superfície de um cometa e fazer as primeiras análises de sua composição.

A aterrissagem de Philae, que pode ser visto na figura 2, teve alguns obstáculos, o seu fixador teve problemas e o lander se deslocou, ficando “perdido” por um tempo.

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Figura 2: Superfície do cometa 67P / Churyumov – Gerasimenko e a sonda Philae em sua superfície

 

 

Alguns dos resultados mais inesperados e importantes estão ligados aos gases que fluem do núcleo do cometa, incluindo a descoberta de oxigênio molecular, e nitrogênio, e água com um “sabor” diferente dos oceanos da Terra.

Rosetta também detectou o aminoácido glicina, que é comumente encontrado em proteínas e fósforo, um componente-chave para o DNA e membranas celulares. Numerosos compostos orgânicos também foram detectados por Rosetta, e também por Philae na superfície.

Esses resultados apontam para o cometa nascendo em uma região muito fria da nebulosa protoplanetária, quando o Sistema Solar ainda estava se formando, há mais de 4,5 bilhões de anos.

Outro ponto, resultante das análises, mostrou que o impacto de cometas como Rosetta podem não ter fornecido tanta água na Terra como se pensava anteriormente.

No dia 30 de setembro de 2016, Rosetta pousou no 67P/ Churyumov-Gerasimenko. A decisão de terminar a missão com um mergulho da sonda em direção a superfície decorre do fato de Rosetta e o cometa estarem indo para além da órbita de Júpiter e, após certa distância, haveria pouco poder para operar a sonda.

Mark McCaughrean, consultor sênior da ciência da ESA, comenta que além de ser um triunfo científico e técnico, a incrível jornada de Rosetta e sua lander Philae também capturou a imaginação do mundo, atraindo novos públicos muito além da comunidade científica.

Essa animação do público veio através de um grande investimento de divulgação da missão. A sequência de animações  que contam a trajetória da missão foi traduzida para diversas línguas e com um toque de doçura que nos deixa apegados a dupla Rosetta e Philae.

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Figura 3: Pelúcia da Sonda Rosetta e do companheiro Philae

 

A missão foi um sucesso mesmo com imprevistos. As descobertas no campo de composição dos cometas e a evolução na engenharia espacial irão contribuir em outras missões e, embora o lado operacional da missão tenha terminado, a análise científica dos dados obtidos continuará por muitos anos.

Referência e mais informações:

Site da Esa: http://www.esa.int/Our_Activities/Space_Science/Rosetta

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Biorremediação, microrganismos fazendo uma boa ação!

Quando pensamos em bactérias, fungos e outros microrganismos, a primeira ideia que nos vem à cabeça é que eles são perigosos e vão nos trazer doenças mas, na verdade, uma minoria desses seres é patogênica.

Muitos microrganismos são benéficos para a nossa saúde e para saúde do meio ambiente, como aqueles que compõe a nossa flora intestinal, os que são usados para produção de certos alimentos e os microrganismos que degradam moléculas tóxicas. Estes últimos possuem enzimas que quebram o contaminante em partículas menores e menos tóxicas, realizando o que chamamos de biorremediação ou biodegradação. [1]

A biorremediação é um processo que pode ser aplicado no tratamento e limpeza do meio ambiente, como solo e água contaminados por poluentes. Os microrganismos são estimulados a consumir os compostos tóxicos como fonte de alimento e energia. Os contaminantes, por sua vez, são digeridos e, finalmente, convertidos em água e gás carbônico. [2,3]

Os principais poluentes passíveis de biorremediação são: compostos orgânicos voláteis (ex. combustíveis, solventes), hidrocarbonetos (ex. petróleo e subprodutos, tintas, solventes), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (ex. subprodutos da queima do carvão, alcatrão), agrotóxicos, pesticidas entre outros.[4]

A primeira etapa do processo é o estudo do local contaminado (Figura 1). Amostras de solo e/ou de água são coletadas e analisadas de 3 formas: geológica e geotecnicamente (tipo de solo, localização da área afetada, hidrologia etc), quimicamente (identificação do contaminante, do pH, da salinidade, do potencial de oxirredução etc), e biologicamente (identificação dos microrganismos sobreviventes). Se houver uma quantidade suficiente de microrganismos degradadores do composto tóxico na amostra, a próxima etapa será estimulá-los usando nutrientes e/ou oxigênio para que tenham as condições necessárias para degradar o contaminante. Se a quantidade for baixa, os microrganismos serão cultivados em biorreatores e depois devolvidos para a área afetada. [2,3,4]

A biorremediação pode ser aplicada no local contaminado (in situ) quando o volume de solo é grande ou está alocado em região de difícil extração. Outra alternativa é escavar o solo contaminado e tratá-lo em um ambiente controlado (ex situ): em maior escala, através de biopilhas, ou em menor escala, dentro de biorreatores em laboratório. [2,3,4]

Durante o processo de biorremediação, amostras são coletadas de tempos em tempos para monitorar a degradação do composto tóxico. Quando a contaminação atinge concentrações aceitáveis e inofensivas para os seres vivos, o solo é dado como tratado e próprio para determinados usos.

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Figura 1. Exemplo de aplicação do método de biorremediação: 1. coleta de solo contaminado; 2. análise química (a) e biológica (b) da amostra de solo; 3. tratamento do solo ex situ (c, d) ou in situ (e); 4. análises para monitoramento da degradação; 5. solo tratado. [2, 5, 6, 7]

Apesar da biorremediação ser capaz de degradar muitos tipos de contaminantes, este processo é lento quando comparado à oxidação química ou à incineração. Ainda assim, a biorremediação é eficiente e deve ser sempre considerada como método de tratamento de solo e água pois, acima de tudo, é sustentável e barata.

Texto por: Aline R.S.

Referências:
[1] https://www.epa.gov/sites/production/files/2015-04/documents/introductiontoinsitubioremediationofgroundwater_dec2013.pdf
[2] SILVA, Aline Ramos da. Biodegradação de hexaclorociclohexano utilizando microrganismos e enzimas desenhadas computacionalmente. 2014. Tese (Doutorado em Biotecnologia) – Biotecnologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. doi:10.11606/T.87.2014.tde-16052014-124535. Acesso em: 2016-11- 13. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/87/87131/tde-16052014-124535/pt-br.php
Foto 3d (Figura 1) retirada da tese acima citada.
[3] https://clu-in.org/download/Citizens/a_citizens_guide_to_bioremediation.pdf
[4] www.epa.sa.gov.au/files/8372_guide_soil.pdf
[5] Fotos 1, 2a, 3c, 4 e 5 (Figura 1) retiradas do Pixabay (CC0 Public Domain, Free for commercial use, No attribution required)
[6] Foto 2b (Figura 1) retirada de www.micropia.nl/en/
[7] Foto 3e (Figura 1) retirada de http://www.bioclear.nl/en/
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As computadoras

programmers

A história da computação possui muitos personagens que contribuíram para o seu desenvolvimento.Na sua grande maioria, os personagens conhecidos dessa história são homens, dentre os quais podemos citar Babbage, Boole, Turing, Von Neumann dentre outros. E aonde ficam as mulheres nessa história toda? Será que não houve nenhuma contribuição feita por uma mulher? Não digo daquelas mulheres que são tidas como “a primeira mulher engenheira de computação do mundo”, ou seja, a primeira mulher a fazer uma atividade que antes era dominada apenas por homens. Digo uma mulher que tenha sido o primeiro indivíduo, seja homem ou mulher, que contribuiu originalmente com alguma coisa para a computação.

Já nos primórdios da computação moderna houve a primeira contribuição de uma mulher. Seu nome é Ada Byron, filha do conhecido poeta inglês Lord Byron. Também é conhecida como Ada Lovelace, por ter se casado aos 20 anos com o conde de Lovelace. Sua grande contribuição para a história da computação é ter sido a primeira pessoa a descrever completamente o processo que hoje é conhecido como programação de computador [1] [2].

Na época de Ada, também viveu um outro grande contribuinte no desenvolvimento da computação, o cientista Charles Babbage, que é tido como o pai dos computadores modernos. Ada conheceu o trabalho de Babbage e, traduzindo uma de suas teorias, acrescentou notas nas quais descrevia como alimentar a máquina analítica de Babbage com cartões perfurados, sendo tidos como os primeiros programas de computadores. Ada também previu a possibilidade da música computadorizada, afirmando que a música é matemática e, portanto, poderia ser adaptada para ser composta por uma máquina [1].

A máquina descrita por Babbage foi reconhecida como um primeiro modelo de computador e as notas de Ada como a descrição de um software, ainda que não tenha sido possível construir a máquina naquela época por restrições da tecnologia [2].

Mas as contribuições das mulheres na computação não pararam por ai. Na década 40, foi desenvolvido pelo exército um projeto ultrassecreto, o ENIAC. Depois da segunda guerra, foi divulgada a existência dessa máquina que é tida como o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. O ENIAC foi criado pelos cientistas norte-americanos John Eckert e John Mauchly. Porém, uma parte dessa história foi obscura durante muitos anos: quem haveria programado esse máquina para computar trajetórias balísticas? Na década de 80, a pesquisadora Kathy Kleiman decide ir atrás de algumas pistas nesse sentido e descobre que o ENIAC havia sido programado por seis matemáticas mulheres. Seus nomes eram: Betty Jean Jennings, Ruth Lichterman, Kathleen McNulty, Betty Snyder, Marlyn Wescoff e Fran Bilas [3].

Elas foram escolhidas entre um grupo de 100 mulheres que trabalhavam na Universidade da Pensilvânia calculando manualmente as equações diferenciais necessárias para as trajetórias balísticas durante a guerra [3]. O exército chamava a função destas mulheres de “computers” ou computadoras (em uma tradução livre, já que esse termo não existe com a flexão feminina na língua portuguesa).

O ENIAC era programado através da conexão de fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. Havia milhares de chaves, podendo cada uma delas assumir o valor 1 ou 0 conforme estivessem ligadas ou desligadas. [4] A cada tarefa diferente o processo deveria ser refeito. A resposta dos cálculos era dada por uma sequência de lâmpadas.

Essas mulheres não tinham permissão de ver o ENIAC por ele ser um projeto secreto, mas mesmo assim elas o programaram. E para fazer isso, tiverem que estudar os diagramas esquemáticos da máquina e entender como ela poderia ser programada, isso em uma época que não existiam livros que se ensinasse a programar. Ao fazer isso elas fundaram as bases para os programadores e engenheiros de software do futuro [3].

Mas elas não pararam por ai. Após esse projeto, Jean liderou a equipe que transformou o ENIAC em um dos primeiros computadores eletrônicos com memória de armazenamento do mundo. Já Betty continuou trabalhando na computação ao longo de toda a sua vida profissional, sendo uma pioneira na área ao desenvolver o primeiro conjunto de instruções de máquina, a primeira rotina de ordenação e a primeira aplicação de software [3].

Apesar do papel pioneiro dessas mulheres como primeiras programadoras da computação moderna, elas foram reconhecidas tardiamente pelo que fizeram, sendo que a maioria tinha cerca de 70 anos. Elas receberam prêmios da IEEE Computer Society, do Museu da História da Computação, da associação Women in Technology International e outras organizações [3].

As programadoras do ENIAC foram seguidas por várias mulheres pioneiras na área da ciência da computação, mas essa é uma das áreas em que a representatividade das mulheres ainda é muito baixa. Segundo Moreiras et al (2014), apenas 20,1% dos alunos do curso de Ciência da Computação no Brasil são mulheres. Que essas mulheres da história possam servir de inspiração para as novas gerações, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive programando!

Bibliografia

[1] Rolka, G. M. 100 Mulheres que Mudaram a História do Mundo. Editora Nova Fronteira, 2004.

[3] http://eniacprogrammers.org/

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/ENIAC

[5] Moreiras, J. A. et al. Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação. 18º REDOR, 2014. Disponível em: < http://www.ufpb.br/evento/lti/ocs/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/1935/853 >.

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Super Lua, sim! Mas pera lá…

Todo o ano rola um fuzuê danado quando anunciam o dia que uma das fases de Lua cheia estará mais próxima da Terra. E esse ano, com o anúncio da mais brilhante Super Lua dos últimos 68 anos, a galera foi ao delírio. E dá-lhe de fotinhas nas internet!

Mas, qual é a dessa de Super Lua? Assim como todos os outros planetas e satélites, a Lua descreve uma órbita elíptica (tipo uma forma oval) em torno da Terra, ou seja, em dado momento a Lua encontra-se na posição mais próxima da Terra (periélio) e em outro momento (quase uns 7 meses depois) encontra-se na posição mais distante possível (afélio). Já a fase de Lua cheia é quando vemos toda a face da Lua iluminada pelo Sol. E a Super Lua, enfim, é como conhecemos a fase de Lua cheia com a menor distância entre a Terra e a Lua.

E qual é o barato da Super Lua de 2016? Em comparação com a menor Lua cheia desse mesmo ciclo lunar, a Super Lua desse ano apareceu em torno de 14% maior e 30% mais brilhante. Diferenças boas se não fosse o fato de terem acontecido a quase 7 meses atrás, que não acontecem de um dia para outro. Elas vão acontecendo ao longo de meses e meses. Então, de um dia para o outro, literalmente, se você olha para a Lua hoje e olha de novo amanhã, você não notará muita diferença :/

O círculo da direita é 14% maior e 30% mais brilhante do que o da esquerda. Só que, no caso da Lua, ela foi a cada dia ficando um pouquinho mais brilhante e um pouquinho maior do que no dia anterior, num processo de mais ou menos seis meses e um cadinho.

O círculo da direita é 14% maior e 30% mais brilhante do que o da esquerda. Só que, no caso da Lua, ela foi a cada dia ficando um pouquinho mais brilhante e um pouquinho maior do que no dia anterior, num processo de mais ou menos seis meses e um cadinho.

“Ah, mas e aquelas fotos iradas que o pessoal tira durante as Super Luas? A Lua tá sempre impressionante!”, você pode dizer. Mas, aí é que tá! Se você acha isso é porque não presta muita atenção na Lua cheia outras vezes XD Ou, talvez, não more num lugar que te permita admirar o céu a noite, e aí você fica “refém” das notícias e imagens de Super Lua e com a impressão de que ela é realmente “super”!

Se você, por outro lado, tá sempre de olho no céu noturno e curte uma observação mais cuidadosa da Lua, pode achar o contrário, que não consegue notar muita diferença entre a Super Lua e outras fases de Lua cheia. E você estará com toda razão! Não é coisa que dê para notar a olho nu, assim, sem medir nada.

Então, para quem está frustado porque perdeu a maior Lua dos últimos 68 anos, não fica triste não. Você sempre pode dar uma olhadinha despretenciosa no céu numa Lua cheia genérica e curtir a vista. Aproveite principalmente se você estiver numa região com pouca luminosidade e sem prédios ou árvores para conseguir ver a Lua no horizonte toda bonitona. Vai aproveitando de Lua cheia em Lua cheia, de Super Lua em Super Lua até chegar a Super Lua tão “super” quanto a de 2016, em novembro de 2034.

Mais informações legais:

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Como o empoderamento feminino pode acelerar o crescimento econômico e tornar o planeta mais sustentável?

O empoderamento da mulher e a igualdade entre mulheres e homens são pré-requisitos para alcançar segurança política, social, econômica, cultural e ambiental entre as nações”. [1]

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Fonte: Wikipedia.

Infelizmente, ainda estamos longe de ter os mesmos direitos que os homens. Enquanto a maioria dos homens está inserido no mercado de trabalho, a minoria das mulheres tem um emprego formal. Mundialmente, o salário de uma mulher comparado com o de um homem, para a mesma função, pode chegar a ser 40% mais baixo. Fora isso, as mulheres dedicam de 1 a 3 horas a mais de trabalho não remunerado relativo às funções da casa e cuidados com a prole, tendo menos tempo disponível para educação, participação política e lazer. As mulheres também têm menos cargos em diretorias, recebem menos promoções no trabalho e são maioria em trabalhos informais. O desafio é ainda maior se essa mulher for negra/preta. [2,3,4]

Os fatos citados acima não são novidade. Porém, o que a maioria das pessoas não sabe é que uma sociedade onde as mulheres tenham mais participação na economia poderia gerar, até 2025, um adicional de pelo menos 12 trilhões de dólares para a economia mundial. Em outras palavras, estamos desperdiçando talento e dinheiro. [2,4,5,6]

Não podemos cumprir 100% do potencial mundial excluindo 50% das pessoas do mundo. É evidente: a igualdade para as mulheres significa progresso para todos.” Ban Ki-moon, Secretário-geral da ONU.

Com mais mulheres no mercado de trabalho, melhoramos não somente a economia mas também tornamos o planeta mais sustentável, e por quê? Explico.

Uma das maiores preocupações atuais é o crescimento populacional descontrolado, principalmente em países subdesenvolvidos. Esta situação acarreta o aumento do aquecimento global, perda de biodiversidade, escassez de água, de alimentos e de energia. De acordo com o Fórum Econômico Mundial (WEForum), as mulheres é que determinam as taxas de crescimento populacional. Neste cenário, a mulher que trabalha tem maior liberdade em optar pela maternidade, além de um maior poder de decisão em quantos filhos terá e quando. As mulheres também são peça chave na agricultura e segurança alimentar, sendo responsáveis por 50% da produção mundial de alimento. Além disso, em países desenvolvidos, as mulheres são as maiores responsáveis pelo desenvolvimento econômico sustentável, sendo mais engajadas no consumo consciente de bens materiais e no reuso de tais recursos. Por fim, mulheres estão mais envolvidas na prevenção e solução de conflitos e guerras, sendo essenciais para os processos de pacificação. [7]

Para finalizar, o que podemos fazer para tornar o mundo mais justo para as mulheres e, ao mesmo tempo, melhorar a economia de forma sustentável? De acordo com as Nações Unidas (UN) e a meta #5 para o desenvolvimento global sustentável, as ações são:

  • Se você é uma garota em fase escolar: continue estudando, empodere suas colegas para fazer o mesmo e lute pelos direitos de acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutivo;
  • Se você é uma mulher adulta: empodere outras mulheres, lute contra os preconceitos (inclusive étnicos e raciais) e associações implícitas que são barreiras para alcançar a igualdade de direitos;
  • Se você é um homem adulto ou garoto: trabalhe em colaboração com mulheres e garotas para atingir a igualdade de gênero. Em relacionamentos, adote posturas que respeitem a saúde emocional e física das mulheres;
  • Para todas as pessoas: você pode financiar e/ou participar de campanhas para conter práticas culturais que mutilem mulheres e campanhas que auxiliem mulheres a alcançarem seus direitos para que atinjam todo o seu potencial. [8]
A participação total e equalitária das mulheres nas áreas política e econômica é fundamental para a democracia e justiça.” Phumzile Mlambo-Ngcuka, Diretoria executive da ONU Mulheres.

Referências:

[1] http://www.un.org/esa/gopher-data/conf/fwcw/off/a–20.en

[2] http://www.unwomen.org/en/what-we-do/economic-empowerment/facts-and-figures#notes

[3] http://www.mckinsey.com/business-functions/organization/our-insights/women-in-the-workplace-2016

[4] https://www.actionaid.org.uk/sites/default/files/publications/womens_rights_on-line_version_2.1.pdf

[5] http://www.mckinsey.com/global-themes/employment-and-growth/how-advancing-womens-equality-can-add-12-trillion-to-global-growth

[6] http://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2013/sdn1310.pdf

[7] http://reports.weforum.org/global-agenda-council-2012/councils/womens-empowerment/

[8] http://www.un.org/sustainabledevelopment/wp-content/uploads/2016/08/5_Why-it-Matters_GenderEquality_2p.pdf

Imagem retirada do Wikipedia (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Argonne_lab_education.jpg)

 

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Tópicos quentes de pesquisa na área de Internet – Parte II: Internet das Coisas

Na texto anterior foi iniciada uma série de postagens sobre os tópicos quentes de pesquisa na área de Internet, falando sobre uma visão sobre CDNs. Nesse texto, será abordado outro tópico que está em alta no momento: Internet das coisas.

Apesar do seu nome, não se trata de uma outra Internet no senso estrito da definição. Segundo Whitmore [1], mesmo não havendo uma definição universal para Internet das coisas, o conceito básico é o de que objetos do cotidiano podem ser equipados com funcionalidades de identificação, sensoriamento, roteamento e processamento que permitam a comunicação entre eles e com outros dispositivos e serviços através da Internet para atingir algum objetivo útil. Um exemplo engraçado e até mesmo assustador é explorado por Demi Getschko em sua coluna, onde a geladeira, sabendo a data de aniversário de seu dono, encomenda a comida para uma festa surpresa e convida seus amigos.

As ideias em que se baseiam a Internet das coisas não são novas. Por muitos anos, tecnologias como RFID e rede de sensores têm sido usadas no contexto industrial para rastreamento de itens. A Internet das coisas representa uma evolução no uso dessas tecnologias em termos de quantidade e variabilidade de dispositivos, assim como da comunicação entre eles através da Internet [1].

O universo da Internet das coisas é bastante heterogêneo devido ao uso de vários dispositivos, com diferentes capacidades. Por exemplo, uma das aplicações possíveis da Internet das coisas seria o monitoramento de certas propriedades do meio ambiente para averiguar se estão adequadas para a plantação de uma espécie específica em uma determinada região. Através desse monitoramento, seria possível tomar as atitudes cabíveis a fim de tornar a área mais propícia para a plantação. Além disso, o próprio dispositivo poderia ser capaz de tomar tais providências. Nesse exemplo específico, são necessários diferentes sensores, como de luminosidade, de umidade, de temperatura, etc, para monitorar o ambiente. E então, dependendo da umidade do solo e da temperatura, os sensores poderiam acionar um outro dispositivo que garantisse a irrigação dessa plantação. Todos esses aparelhos devem ser capazes de se comunicar através da rede para enviar e receber as informações pertinentes.

De uma forma resumida, Salman [2] coloca que a Internet das coisas ainda tem vários desafios a enfrentar para que possa se popularizar, como mobilidade, confiabilidade, escalabilidade, gerenciamento, disponibilidade, interoperabilidade, segurança e privacidade.

Quanto à mobilidade, os dispositivos da Internet das coisas precisam se mover livremente e mudar de rede e o seu endereço IP baseadas em sua localização. Assim, o protocolo de roteamento tem que lidar com muita sobrecarga para refazer as rotas cada vez que um dispositivo se conecta ou se desconecta de uma rede. Além disso, a mobilidade pode resultar em uma mudança de prestador de serviços, o que pode adicionar outra camada de complexidade devido à interrupção do serviço e mudança de rede [2].

A confiabilidade significa que um sistema deve estar trabalhando perfeitamente e entregando tudo o que foi especificado para que ele faça de forma correta [2]. É um requisito crítico em aplicações que requerem respostas de emergência, como por exemplo, sistemas de healthcare nos quais há alguma vida assistida. Normalmente, são colocados sensores nos equipamentos de monitoramento utilizados pelos pacientes. A informação recolhida por estes sensores é disponibilizada através da Internet para médicos e membros da família, a fim de melhorar o tratamento e a capacidade de resposta a incidentes [1]. Em casos como o exemplificado, o sistema deve ser altamente confiável e rápido na coleta de dados, comunicando e tomando decisões, visto que eventuais erros podem levar a cenários desastrosos, como a morte de uma pessoa.

A escalabilidade é outro desafio de aplicações de Internet das coisas. Uma vez que há milhões de dispositivos conectados em uma mesma rede, gerenciar sua distribuição não é uma tarefa fácil. Além disso, as aplicações de Internet das coisas devem ser tolerantes a novos serviços e à adesão constante de outros dispositivos na rede e, portanto, devem ser projetadas para permitir a extensão de serviços e de operações [2].

Mais um desafio na Internet das coisas é o gerenciamento desse grande número de dispositivos interconectados, mantendo o controle das falhas, das configurações, da contabilidade, do desempenho e da segurança, conhecido como FCAPS na área de redes [2]. As soluções convencionais de gerenciamento como o Simple Network Management Protocol (SNMP) podem não ser suficientes para dar conta de toda essa complexidade e também podem ser “pesadas” demais para alguns dispositivos.

A questão de disponibilidade em Internet das coisas envolve questões de software e hardware. A disponibilidade de software significa que o serviço é prestado para quem está autorizado a recebê-lo, enquanto a disponibilidade de hardware significa que os dispositivos existentes são de fácil acesso e são compatíveis com a funcionalidade e protocolos da Internet das coisas. Além disso, esses protocolos devem ser compactos para serem capazes de ser inseridos em dispositivos restritivos em termos de memória e uso de energia [2].

A interoperabilidade, por sua vez, é a ideia de que os dispositivos e protocolos heterogêneos precisam ser capazes de trabalhar uns com os outros. Este é um desafio devido ao grande número de diferentes plataformas utilizadas no universo da Internet das coisas. A interoperabilidade deve ser tratada tanto pelos desenvolvedores de aplicativos quanto pelos fabricantes de dispositivos, a fim de que os serviços funcionem, independentemente da especificação da plataforma ou do hardware utilizado pelo cliente [2].

Na referência [2] é apresentado o cenário de protocolos usados no universo da Internet das coisas, conforme pode ser observado na tabela abaixo.

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Dentre eles, há ainda um uso grande de protocolos proprietários. O seu uso dificulta a interoperabilidade entre os diversos dispositivos, ou seja, torna-se mais difícil a comunicação entre eles. Além disso, os protocolos usualmente utilizados em computadores e servidores nem sempre são adequados às necessidades dos dispositivos da Internet das coisas. Comumente há restrições em relação à memória e ao consumo de energia neles. O cenário é bastante complexo e têm suscitado muitas pesquisas sobre o tema.

Na parte de protocolos de rede, há um grupo do Internet Engineering Task Force (IETF) chamado 6Lo trabalhando na padronização de alternativas mais enxutas do IPv6 para o uso com as diferentes tecnologias do universo da Internet das coisas. A padronização do 6LowPan, que é um protocolo usado para redes com o padrão IEEE 802.15.4, é um resultado desse grupo. O IEEE 802.15.4, por sua vez, é um padrão que especifica a camada física e efetua o controle de acesso para redes sem fio pessoais de baixas taxas de transmissão.

A criptografia é vista como uma questão chave para garantir a segurança da informação no universo da Internet das coisas [1]. Porém, muitos dispositivos dentro desse cenário não são poderosos o suficiente para aguentar criptografia robusta. Para permitir criptografia no universo da Internet das coisas, os algoritmos precisam ser mais eficientes e usar menos energia, além de ser necessária uma forma eficiente de distribuição das chaves criptográficas.

Finalmente, quanto mais objetos tornam-se rastreáveis através da Internet das coisas, mais sérias tornam-se as ameaças à privacidade. É importante que esteja bem clara e definida para os usuários de quem é a propriedade dos dados coletados pelos dispositivos. Uma ideia é interessante é a de que os objetos inteligentes na Internet das coisas sejam equipados com políticas de privacidade. Quando dois objetos entram em contato, eles podem verificar a política de privacidade um do outro para checar a compatibilidade entre elas antes de se comunicarem [1].

Uma visão de futuro para a Internet das coisas é o da Web das coisas, que propõe o uso de padrões web para integrar objetos inteligentes com a World Wide Web. Através do uso dessas tecnologias será mais fácil para os desenvolvedores construírem aplicações utilizando objetos inteligentes, uma vez que os protocolos atuais podem permitir a interoperabilidade e comunicação mais facilmente de diferentes dispositivos [1].

Outra visão de futuro que envolve a integração de ainda mais dispositivos na Internet das coisas é a Internet das nano-coisas. A Internet de nano-coisas pode ser descrita como a interligação de dispositivos em nanoescala com redes de comunicação e a Internet. Embora a proposta seja de que estes dispositivos se comuniquem através sinais eletromagnéticos, existem inúmeros desafios técnicos que devem ser superados antes que a ideia se torne viável [1].

Continuem acompanhando essa série de posts, onde continuarei a falar sobre os tópicos quentes de pesquisa na área de Internet!

Bibliografia:

[1] Whitmore, A. et al. The Internet of Things–A survey of topics and trends. Information Systems Frontiers 17, 2 (April 2015), 261-274. Disponível em: &lt; http://dl.acm.org/citation.cfm?id=2750627 &gt;. Acesso em: 24 out. 2016.

[2] Salman, T. Internet of Things Protocols and Standards. Disponível em &lt; http://www.cse.wustl.edu/~jain/cse570-15/ftp/iot_prot/ &gt;. Acesso em: 14 out. 2016.