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Comunicação em saúde pública

Segundo a União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union – ITU), cerca de 48% da população mundial tem acesso à internet . A estimativa é que a proporção de casas com acesso à internet seja de 53% em todo o mundo (ITU, 2017). A mesma agência constatou que a assinatura de internet em celulares cresceu 20% nos últimos cinco anos e estimou que atingiria 4.3 bilhões de assinaturas no final de 2017.

A relação dos seres humanos com os seus celulares é de tanta dependência que até doenças relacionadas a esse comportamento estão começando a ser descritas, como é o exemplo de “WhatsAppitis, um tipo de tendinite diagnosticada após uma mulher apresentar fortes dores nos pulsos após passar 6 horas seguidas segurando seu celular e digitando mensagens usando os polegares.

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Fonte: IBGE

No Brasil, aproximadamente 65%  da população (116 milhões de pessoas) tem acesso a internet e, destes, mais de 95% acessa a rede pelo celular. Esse fenômeno torna o celular a ferramenta perfeita para todo o tipo de pesquisa, principalmente, pesquisas sobre saúde. Em uma pesquisa realizada pela London School of Economics, entre os brasileiros, 68% consultam a internet sobre medicamentos, 45% sobre hospitais e 41% para conhecimento sobre experiências de outros pacientes.

Um grande problema sobre o acesso a informações de saúde pela internet é a disseminação de notícias falsas, pois qualquer pessoa pode publicar o que quiser na internet. Estudos realizados após a crise do Ebola na África, concluíram que tuítes com informações falsas sobre a doença foram mais retuítados do que os contendo informações verdadeiras. As redes sociais, assim como SMS e WhatsApp, também ajudam muito a disseminar notícias falsas sobre tratamentos de doenças, vacinas e outras questões relativas à saúde.

Devido às mudanças no comportamento da população em pesquisar sobre doenças, as organizações de saúde estão entrando cada vez mais nas redes sociais. Hospitais, profissionais e autoridades em saúde estão abrindo contas no YouTube, Facebook e Twitter para atingirem uma maior parte da população.

Considerando a grande demanda de pessoas interessadas em sua saúde e a imensa quantidade de notícias falsas, é muito importante que as agências e organizações de saúde contratem profissionais capacitados e com experiência nos campos da saúde e comunicação para cuidar de suas redes sociais e outros veículos de informação. Estes profissionais são os chamados Comunicadores de Saúde (Health Communicator). A comunicação em saúde é uma área nova que tem ganhado bastante atenção, em parte por sua ênfase em combinar teoria e prática em entender processos da comunicação e mudança do comportamento humano.

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Para a promoção de saúde, algumas campanhas estão usando a disseminação de informação por meio de mensagens de texto, principalmente em áreas rurais, nas quais esse pode ser o único canal de informação do público. Como exemplo, o projeto Masiluleke na África do Sul enviou milhões de mensagens de texto por dia para encorajar as pessoas a fazerem o teste para HIV/AIDS. As mensagens foram enviadas em língua local e provia informações sobre os locais de realização dos testes. Enquanto outros meios de comunicação como rádio, televisão e sites também são implementados nos serviços de educação em saúde pública, o SMS tem diversas vantagens, bom custo-benefício, é conveniente, pode atingir mais pessoas e é muito popular em países em desenvolvimento.

A comunicação em saúde tem muito o que contribuir com o conhecimento da população mundial em momentos de surtos de doenças e desastres naturais, principalmente nos países em desenvolvimento. Essa abordagem é pertinente neste momento em que muitas das ameaças para a saúde pública global estão enraizadas no comportamento humano. Os comunicadores em saúde têm uma oportunidade única em melhorar e salvar a vida de diversas pessoas.

Referências

Kahn, James G., Joshua S. Yang, and James S. Kahn. “‘Mobile’ health needs and opportunities in developing countries.” Health Affairs 29.2 (2010): 252-258.

Fernandez-Guerrero, Inés M. “WhatsAppitis.” The Lancet 383.9922 (2014): 1040.

Fernández-Luque, Luis, and Teresa Bau. “Health and social media: perfect storm of information.” Healthcare informatics research 21.2 (2015): 67-73.

Vital Wave Consulting. The opportunity of mobile technology for healthcare in the developing world. Washington (DC) and Berkshire (UK): UN Foundation–Vodafone

http://www.who.int/bulletin/volumes/87/4/08-056713/en/

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20073-pnad-continua-tic-2016-94-2-das-pessoas-que-utilizaram-a-internet-o-fizeram-para-trocar-mensagens.html

https://www.gazetadopovo.com.br/saude/80-usam-internet-para-fazer-buscas-sobre-saude-dukyya76lkzf6ggxpwkvmz4ge

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Reflexões de uma vida sem gasolina: locavorismo

Nesses últimos dias, o Brasil viveu uma situação crítica, que expôs fragilidades importantes e intensas (diria). Pessoas aflitas pela falta de combustível, estocando alimentos, desesperadas pela possibilidade da falta de itens que julgamos necessários.

A situação trouxe à tona diversas questões, como a importância da retomada na construção de ferrovias, mudanças na política de preços do combustível, a imensa carga tributária sobre os produtos, livre mercado, enfim, longos e extensos debates.

Entretanto, para além da reflexão sobre os combustíveis, uma questão sintomática dessa situação foi a evidente falta de autonomia e a dependência exagerada de transportes movidos a combustíveis fósseis para o acesso a produtos básicos, principalmente, ALIMENTOS.

Já parou para pensar de onde vem o alimento que você consome?

Infelizmente, talvez não venha do mesmo estado em que residimos. A maior parte das terras agricultáveis do Estado de São Paulo estão sob cultivo de cana de açúcar, como é possível observar na figura abaixo.

 

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Figura 1: Evolução da área de cultivo de cana-de-açúcar em São Paulo. Hectares/município. Fonte: Camara e Caldarelli (2016).

Curioso perceber que uma das razões pelas quais a produção de alimentos seja distante dos consumidores paulistas é exatamente a produção de biocombustível que, de forma direta ou indireta, contribui para o transporte dos alimentos até aqui. Pesquisadores como Mital (2008) em seu estudo “Crise no preço dos alimentos: Repensando políticas de Segurança Alimentar” mostram que o aumento no uso de combustíveis no sistema agroalimentar dominante contribui para o aumento no custo da produção de alimentos.

Ou seja, quanto mais longe produzimos o alimento, mais caro ele será, dados os custos de transporte e distribuição.

 Sabe-se pela FAO (2015), que pelo menos 70% da alimentação mundial provém da agricultura familiar. Para estabelecer uma comparação, o mapa abaixo (retirado de Silva et al., 2007) ilustra o número de Assentamentos Rurais ligados ao Movimento Sem Terra (MST) até o ano de 2005.

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Figura 2: Distribuição de assentamentos rurais por município no Estado de São Paulo. Fonte: Silva et al. (2007).

Na figura 1, podemos observar que mais da metade dos municípios paulistas tem grande quantidade de hectares destinados ao plantio de cana-de-acúcar. Na figura 2, por sua vez, nota-se que poucos municípios do estado tem assentamentos rurais que promovam o desenvolvimento de agricultura familiar nas regiões.É possível, portanto, perceber a grande diferença no uso e ocupação da terra, no que diz respeito à produção de alimentos para consumo interno versus monoculturas para produção de biocombustível.

Se pretendemos reavaliar a mentalidade do consumidor nos termos da origem dos produtos, é preciso estimular a reflexão por mais autonomia e conhecimento.

A busca por um sistema alimentar saudável, com preço justo, produzido em locais mais próximos ao consumidor, utilizando de forma racional os recursos naturais pode configurar-se em uma ótima alternativa na contramão dos sistemas de longa distância.

UFA! Mas essa é uma ideia utópica, será que é possível o desenvolvimento de um novo sistema, que possibilite o resgate dessas possibilidades nos dias de hoje?

Foi na busca por pessoas que falavam sobre novos movimentos que encontramos o locavorismo. De acordo com Azevedo (2015), locavorismo seria a ideia de alimentar-se o máximo possível de alimentos produzidos localmente, respeitando a sazonalidade natural, dignificando agricultores familiares, estimulando o desenvolvimento de sistemas agrícolas sustentáveis e da economia local, por meio da venda direta dos produtos ao consumidor.

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 Figura 3: Da onde vem sua comida? Fonte: Árvore, ser tecnológico.

Azevedo (2015) levanta ideias de diversos pesquisadores que estudam o tema, acrescentando que o conceito de comida local deve se estender a quem produziu o alimento. Gera reflexões a respeito da ética do agricultor e seu modo de vida, as conexões sociais e a confiança entre as pessoas. Esses fatores compõe a “história por trás da comida” (Thompson, Harper e Kraus, 2008).

O movimento do CSA (comunidades que sustentam a agricultura) vem ganhando destaque no cenário do locavorismo. Essa proposta teve início na década de 1960 na Suíça e no Japão (AZEVEDO, 2015). O CSA representa a construção de uma relação próxima entre agricultor e consumidor, na forma de um acordo associativo, no qual o consumidor atua no financiamento da produção dos alimentos, bem como na garantia de escoamento da produção. É uma relação ganha-ganha, em que os agricultores têm a garantia de compra de seus produtos, e o consumidor conhece a fundo a procedência do alimento. Essa relação alimenta o que os pesquisadores Portilho e Castañeda (2011) chamam de “confiança face a face”, em seu estudo realizado numa feira orgânica no Rio de Janeiro/RJ.

As comunidades que sustentam a agricultura estabelecem, portanto, um ciclo positivo de cooperação e autogestão para criar viabilidade econômica e segurança ao agricultor, que passa a ter mais suporte, fortalecimento e motivação para realizar suas atividades.

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Figura 4: CSA. Fonte: Google images.

Também é fundamental trazer a importância de movimentos sociais que organizam e articulam ações para a população rural. O MST, por exemplo, possui em todo o território brasileiro em torno de 100 cooperativas, 96 agroindústrias e 1,9 mil associações de agricultores (Dados do MST). Sem falar das ações em agroecologia e educação no campo, que além de produzir alimentos e mentes saudáveis, geram benefícios ecossistêmicos em ações de recuperação e uso consciente dos recursos naturais.

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Figura 5: Venda de produtos de assentamentos rurais numa das feiras promovidas
pelo MST. Fonte: http://www.vozdomovimento.org/

Esse pode representar o embrião da transformação de perspectiva, buscando o incentivo à produção local de alimentos. A linha de frente de resistência ao sistema agroalimentar (Agro é pop, agro é tech, agro é tudo!) que nos é imposto como verdade única.

Além disso, existem agora associações e empresas que realizam a ponte entre consumidores e produtores e levam, semanalmente, cestas de alimentos orgânicos em pontos de encontro. A escolha dos produtos da cesta pode ser realizada via internet, de acordo com a disponibilidade dos produtores, com pagamentos semanais ou mensais.

Esses sistemas ainda não possuem forma definida e representam outra lógica de consumo, por isso, ainda podem parecer mais caros que os alimentos do supermercado. Porém no preço dos alimentos produzidos em massa, muitas vezes, não estão contabilizadas todas as externalidades negativas associadas a ele, nem tampouco é clara sua procedência, até a chegada na bancada do supermercado.

É preciso ainda transpor uma série de barreiras econômicas, burocráticas e sociais que inviabilizam a relação mais próxima entre consumidores e produtores locais, no entanto, é possível iniciar transformações locais, a partir da criação dessa nova perspectiva.

A criação de políticas públicas federais, estaduais e municipais têm papel importante no fortalecimento de cadeias locais de produção e consumo de alimentos, seja criando instrumentos legais, Planos, linhas de crédito aos agricultores ou até no estabelecimento de canais alternativos de comercialização dos produtos.

No Brasil, temos o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), programas federais que visam o fortalecimento das agricultoras e agricultores no escoamento da produção dos alimentos, por meio da sua compra pelos municípios.

No estado de São Paulo foi promulgada a Lei nº 16.684, de março de 2018, que institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica. Ela traz diretrizes e instrumentos legais que buscam beneficiar agricultores com financiamento, acesso a crédito, subsídios e apoio técnico na produção, beneficiamento e escoamento de produtos orgânicos e agroecológicos. Visando a garantia de segurança e soberania alimentar, a recuperação dos ecossistemas naturais, o protagonismo dos agricultores nos processos de construção e socialização do conhecimento e a democratização do acesso à terra (BRASIL, 2018).

Bom, fica claro, portanto, que a utopia não está distante da realidade (ou será que deixa de ser uma utopia?) e que existem sim caminhos possíveis para o resgate da soberania alimentar e de relações menos dependentes de um sistema oneroso para todos!

Uma coisa que todos os caminhos aqui ilustrados têm em comum é a organização coletiva, civil e política. Observando nossos hábitos de consumo e promovendo articulação entre grupos é possível criar novas alternativas muito mais economicamente viáveis, socialmente justas e ambientalmente corretas, de fato.

Rumo à independência do combustível, minha gente!

 

Referências

  • AZEVEDO, E. de. Ativismo alimentar na perspectiva do Locavorismo. Revista Ambiente & Sociedade São Paulo v. XVIII, n. 3 p. 81-98 jul.-set. 2015.
  • BRASIL, Assembleia Legislativa do Estado e São Paulo. Lei nº 16.684, de 19 de março de 2018. Institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PEAPO, e dá outras providências. São Paulo. 2018. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2018/lei-16684-19.03.2018.html Acesso: 29 de maio de 2018.
  • CAMARA, M. R. G. da; CALDARELLI, C. E. Expansão canavieira e o uso da terra no estado de São Paulo. Estudos avançados, São Paulo, v. 30, n. 88, p. 93-116, 2016 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142016000300093&lng=en&nrm=iso . Acesso em 06 de junho de 2018.
  • Food and Agriculture Organization. The state of food insecurity in the world. Meeting the 2015 international hunger targets: Taking stock of uneven progress. Rome: FAO; 2015. Disponível em: http://www.fao.org/3/a-i4646e.pdf
  • MITTAL, A. Foodprice Crisis: Rethinking food security Policies. G24 Technical Group Meeting, 2008. Disponível em: http://www.g24.org/TGM/mitta0908.pdf. Acesso em: Jun 2018.
  • PORTILLO, F.; CASTANEDA, M. Certificação e Confiança Face a Face em Feiras de Produtos Orgânicos. de Economia Agrícola, v. 58, n. 1, p. 11-21, 2011.
  • SILVA, R. A. da, et al. Infestação por triatomíneos em assentamentos e reassentamentos rurais na Região do Pontal do Paranapanema, Estado de São Paulo. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical v.40 n.5. Uberaba. 2007.
  • THOMPSON, E., HARPER, A. M. J.; KRAUS, S. Think Globally – Eat Locally: San Fran­cisco Foodshed Assessment, 2008. Disponível em: http://www.farmland.org/programs/ states/ca/Feature%20Stories/documents/ThinkGloballyEatLocally-FinalReport8-23-08. pdf http://www.farmland.org/programs/states/ca/Feature Stories/San-Francisco-Foodshed­-Report.asp. Acesso em: jun 2018.
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As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia: Viajando por Ganimedes, Calisto e Io

Parte III

No começo da nossa série sobre as “luas geladas”, conhecemos um pouco mais sobre o que essas luas precisam ter para receber essa definição (aqui) e conversamos um pouco mais sobre Europa, lua de Júpiter e uma das “luas geladas” mais famosas nos últimos anos, tanto em discussões acadêmicas como na mídia (e aqui). A parte III da nossa saga de 6 textos, ainda fala sobre as luas de Júpiter, e traz pra vocês mais informações sobre Ganimedes, Calisto e Io. Então, mãos à obra.

Pré-requistos para a existência e a manutenção da vida

Para começar, vou resgatar um trechinho do nosso primeiro texto para lembrarmos o que são as “luas geladas”. Elas são satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar, sendo eles Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Para que recebam esta nomenclatura é necessário que as “luas geladas” apresentem três pré-requisitos, sendo eles: a presença de um meio líquido, de uma fonte de energia e de condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

Viajando por Ganimedes

Ótimo! Agora que já lembramos o que esses satélites têm em comum, vamos então para os escolhidos de hoje. Ganimedes, a maior lua de Júpiter e do nosso Sistema Solar, é a segunda lua jupteriana de maior interesse para a astrobiologia no que se refere à busca de vida fora da Terra. Maior do que o planeta Mercúrio, Ganimedes é formada por partes iguais de material rochoso e água. Acredita-se que ela possua um oceano líquido sob a sua superfície, porém, muito tem se debatido se esse oceano estaria ou não em contato com o manto rochoso da lua ou se estaria isolado por uma camada rígida de gelo. Como a ciência não é algo que traz verdades absolutas e sim hipóteses e teorias que melhores descrevem os fenômenos que observamos, muita coisa interessante ainda pode surgir sobre essa lua.

Ainda assim, mesmo considerando essas discussões sobre a exata localização do oceano de Ganimedes, essa lua já se encontrava próxima à Europa no que se diz respeito a sua possibilidade de abrigar de vida. Um dos argumentos mais fortes que suportam essa ideia, é de que Ganimedes seja um satélite com fontes de energia e indícios de química complexa. Dessa forma, se o contato entre o oceano líquido e o manto (que possibilita trocas e fornece as condições necessárias para a formação de moléculas complexas) for confirmado, Ganimedes será consolidada como um dos ambientes mais propícios para o surgimento da vida em nosso Sistema Solar, equiparada com Europa.

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Figura 1. Visão global de Ganimedes. Créditos: Nasa/JPL.

Nessa lua então, acreditamos que os três pré-requisitos de ouro sejam: (1) água existente na forma líquida, encontrada em seu oceano interno; (2) força de maré originada no oceano interno da lua, decaimento radioativo de seu núcleo, e possivelmente também proveniente da radiação ionizante dos anéis radioativos de Júpiter, assim como ocorre em Europa; (3) provável interação água líquida-manto rochoso e a interessante reciclagem de sua superfície através do seu ativo ciclo geoquímico.

Um rápido pulo em Calisto e Io

E os interesses pelas luas de Júpiter não param por aí. Calisto e Io, ainda que em proporções menores quando comparadas às demais “luas geladas” que conversamos, são satélites interessantes para a ciência no que se trata da procura de vida fora da Terra. Calisto, a lua mais distante de Júpiter pode possuir um oceano líquido em seu interior, porém, devido a sua superfície ser bastante antiga e pouco diferenciada, acredita-se que pouca atividade geológica ocorra por lá, o que acarretaria em uma menor disponibilidade de energia (Figura 2).

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Figura 2. Visão global de Calisto. Créditos: Nasa/JPL.

Io, a quarta maior lua do Sistema Solar e a “lua gelada” mais próxima de Júpiter, ao contrário de Calisto, possui energia abundante (Figura 3). Contando com mais de 400 vulcões ativos, Io é considerado o objeto com maior atividade geológica do Sistema Solar. Porém, a lua possui pouca água e pouco carbono disponíveis, o que torna a existência de vida como a que conhecemos na Terra, pouco provável. Ainda sim, essas luas são consideradas bem mais prováveis para a existência de vida quando comparadas ao Sol, a lua da Terra e os planetas gigantes gasosos, por exemplo, ainda permanecendo interessantes para os astrobiólogos.

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Figura 3. Visão global de Io. Créditos: Nasa/JPL.

Como conversamos no primeiro texto, o interesse por essas luas é tão grande que grandes empresas de exploração espacial já estão preparando missões para entendê-las melhor. A missão programada pela ESA, a JUICE, (acrônimo em inglês para “The JUpiter ICy moons Explorer”, em português “Explorador das Luas Geladas de Júpiter”), tem lançamento previsto para 2022 e chegada em Júpiter em 2030. Um de seus principais objetivos será responder questões sobre o funcionamento do Sistema Solar e as condições para a formação de planetas e para a emergência da vida. Embora esta missão tenha a lua Ganimedes como foco de trabalho, Calisto e Europa também serão estudados a fim de facilitar o entendimento sobre a emergência de mundos habitáveis formados ao redor de gigantes gasosos.

Por hoje é isso! Nos próximos textos, vou contar um pouco mais pra você sobre as luas dos outros gigantes que ainda não abordamos para que juntas, possamos compreender um pouco mais sobre a nossa vizinhança cósmica.

Referências

CANUP, R. M.; WARD, W. R. Formation of the gallilean satellites: conditions of accretions. The Astronomical Journal, v. 124, n. 6, p. 3404-3423, 2002.

ESA. JUICE.

GALANTE, D. et al. Astrobiologia [livro eletrônico]: uma ciência emergente. Tikinet Edição: IAG/USP, São Paulo, 2016.

IRWIN, L. N.; SCHULZE-MAKUCH, D. Assessing the plausibility of life on other worlds. Astrobiology, v. 1, n. 2, p.143-160, 2001.

PASACHOFF, Jay M.; FILIPPENKO, Alex. The Cosmos: Astronomy in the new millennium. Cambridge University Press, 2013.

SCHUBERT, G. et al. Interior composition, structure and dynamics of the Galilean satellites. Jupiter: The planet, satellites and magnetosphere, v. 1, 2004.

SHOWMAN, A. P.; MALHOTRA, R. The Galilean satellites. Science, v. 286, p. 77-84, 1999.

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Afinal, pra que serve essa tal de impressão 3D?

“Impressão 3D” parece uma coisa extremamente futurística, como que saída de um filme de ficção científica. A ideia de ter uma máquina na sua casa ou no seu escritório que seja capaz de criar objetos ao invés de apenas letras e desenhos em um papel parece de outro mundo. Porém, essa tecnologia existe há mais tempo do que você imagina e ela tem inúmeras aplicações, em diversas áreas. No texto de hoje, vamos contar um pouco sobre a história da impressão 3D e como ela vem revolucionando diversas áreas, desde saúde até herança cultural.

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Exemplo de objeto impresso em 3D em impressora da marca MakerBot. Créditos: Affinity VR

O conceito de impressão 3D foi desenvolvido no início da década de 80 por Hideo Kodama, no Nagoya Municipal Industrial Research Institute, em Nagoya, Japão [1]. Ele inventou métodos para fabricar modelos 3D utilizando polímeros capazes de endurecer com luzes ultravioleta. A tecnologia de impressão 3D como é realizada hoje foi desenvolvida por S. Scott Crump em 1988. Este processo é denominado FDM (fusion deposition modeling), um tipo de extrusão de plástico, e consiste em depositar o material fundido camada por camada para formar o objeto. Diversos outros métodos foram desenvolvidos durante a década de 90, e com o aumento do interesse de indústrias nos processos de impressão 3D, mais materiais começaram a ser utilizados.

Para impressão de um objeto em 3D, é primeiro necessário criar um modelo em três dimensões do objeto em um software de modelagem 3D ou digitalizar um objeto já existente. O software utilizado para a impressão então importa o modelo e divide a impressão em camadas sucessivas do material a ser utilizado. A maioria das impressoras comerciais hoje possui um bico injetor que aquece o material a ser depositado e é direcionado por uma série de motores para criar as camadas do objeto. Essas camadas podem ser unidas automaticamente, ou através de uma etapa adicional no processo, dependendo do tipo e do material da impressão. Os materiais mais utilizados hoje em dia são plásticos, seguidos de resinas e metais [2]. A versatilidade e facilidade desse método faz com que diversas indústrias estejam se interessando cada vez mais nessa tecnologia. Pesquisas indicam que as empresas utilizam impressão 3D para desenvolver protótipos de produtos, acelerar processos de produção e promover inovação em design. [1]

 

Nesse vídeo é possível observar algumas das aplicações de impressão 3D usadas atualmente. Créditos: YouTube

Além dos exemplos mostrados no vídeo, grandes avanços na medicina têm sido promovidos pelo desenvolvimento desta tecnologia. Pesquisadores vêm estudando há anos como desenvolver técnicas para imprimir tecidos e órgãos humanos, como a pele, por exemplo, que pode beneficiar vítimas de queimaduras. Também é possível imprimir próteses, que podem ser moldadas de acordo com as necessidades e características de cada paciente. [3] Este é um exemplo de como a combinação da engenharia e da medicina podem funcionar a favor do desenvolvimento da humanidade, e avançar o tratamento de inúmeras doenças.

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Aplicações de impressão 3D na área da medicina. Créditos: The Future of Things

A impressão 3D pode ainda ser utilizada para imprimir tipos simples de comida [4], e em pesquisas sobre história da humanidade e herança cultural [5]. Conforme essa tecnologia se desenvolve mais e mais, o seu custo para o consumidor diminui. Hoje em dia já é possível ter a sua própria impressora 3D em casa. E se você não sabe por onde começar, sugerimos esse vídeo que ensina os conceitos fundamentais dessa tecnologia: 

 

Referências:

[1] The History of 3D Printing: 3D Printing Technologies from the 80s to Today por Hannah Bensoussan. 

[2]

[3] Top 5 Ways the 3D Printing is Changing the Medical Field por Nancy S. Giges.

[4] From pixels to plate: food has become 3D printing’s delicious new frontier por Kyle Wiggers.

[5] Balletti C, Ballarin M, Guerra F (2017) 3D printing: State of the art and future perspectives. Journal of Cultural Heritage, 26:172-182. doi:10.1016/j.culher.2017.02.010

 

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Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

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Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

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Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

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A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por seis cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

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Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

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Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

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O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes das agências de fomento Capes e Fapergs e do Serrapilheira estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

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Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

 

 

 

 

 

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm

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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf