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Afinal, pra que serve essa tal de impressão 3D?

“Impressão 3D” parece uma coisa extremamente futurística, como que saída de um filme de ficção científica. A ideia de ter uma máquina na sua casa ou no seu escritório que seja capaz de criar objetos ao invés de apenas letras e desenhos em um papel parece de outro mundo. Porém, essa tecnologia existe há mais tempo do que você imagina e ela tem inúmeras aplicações, em diversas áreas. No texto de hoje, vamos contar um pouco sobre a história da impressão 3D e como ela vem revolucionando diversas áreas, desde saúde até herança cultural.

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Exemplo de objeto impresso em 3D em impressora da marca MakerBot. Créditos: Affinity VR

O conceito de impressão 3D foi desenvolvido no início da década de 80 por Hideo Kodama, no Nagoya Municipal Industrial Research Institute, em Nagoya, Japão [1]. Ele inventou métodos para fabricar modelos 3D utilizando polímeros capazes de endurecer com luzes ultravioleta. A tecnologia de impressão 3D como é realizada hoje foi desenvolvida por S. Scott Crump em 1988. Este processo é denominado FDM (fusion deposition modeling), um tipo de extrusão de plástico, e consiste em depositar o material fundido camada por camada para formar o objeto. Diversos outros métodos foram desenvolvidos durante a década de 90, e com o aumento do interesse de indústrias nos processos de impressão 3D, mais materiais começaram a ser utilizados.

Para impressão de um objeto em 3D, é primeiro necessário criar um modelo em três dimensões do objeto em um software de modelagem 3D ou digitalizar um objeto já existente. O software utilizado para a impressão então importa o modelo e divide a impressão em camadas sucessivas do material a ser utilizado. A maioria das impressoras comerciais hoje possui um bico injetor que aquece o material a ser depositado e é direcionado por uma série de motores para criar as camadas do objeto. Essas camadas podem ser unidas automaticamente, ou através de uma etapa adicional no processo, dependendo do tipo e do material da impressão. Os materiais mais utilizados hoje em dia são plásticos, seguidos de resinas e metais [2]. A versatilidade e facilidade desse método faz com que diversas indústrias estejam se interessando cada vez mais nessa tecnologia. Pesquisas indicam que as empresas utilizam impressão 3D para desenvolver protótipos de produtos, acelerar processos de produção e promover inovação em design. [1]

 

Nesse vídeo é possível observar algumas das aplicações de impressão 3D usadas atualmente. Créditos: YouTube

Além dos exemplos mostrados no vídeo, grandes avanços na medicina têm sido promovidos pelo desenvolvimento desta tecnologia. Pesquisadores vêm estudando há anos como desenvolver técnicas para imprimir tecidos e órgãos humanos, como a pele, por exemplo, que pode beneficiar vítimas de queimaduras. Também é possível imprimir próteses, que podem ser moldadas de acordo com as necessidades e características de cada paciente. [3] Este é um exemplo de como a combinação da engenharia e da medicina podem funcionar a favor do desenvolvimento da humanidade, e avançar o tratamento de inúmeras doenças.

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Aplicações de impressão 3D na área da medicina. Créditos: The Future of Things

A impressão 3D pode ainda ser utilizada para imprimir tipos simples de comida [4], e em pesquisas sobre história da humanidade e herança cultural [5]. Conforme essa tecnologia se desenvolve mais e mais, o seu custo para o consumidor diminui. Hoje em dia já é possível ter a sua própria impressora 3D em casa. E se você não sabe por onde começar, sugerimos esse vídeo que ensina os conceitos fundamentais dessa tecnologia: 

 

Referências:

[1] The History of 3D Printing: 3D Printing Technologies from the 80s to Today por Hannah Bensoussan. 

[2]

[3] Top 5 Ways the 3D Printing is Changing the Medical Field por Nancy S. Giges.

[4] From pixels to plate: food has become 3D printing’s delicious new frontier por Kyle Wiggers.

[5] Balletti C, Ballarin M, Guerra F (2017) 3D printing: State of the art and future perspectives. Journal of Cultural Heritage, 26:172-182. doi:10.1016/j.culher.2017.02.010

 

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Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

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Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

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Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

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A luta de quem é cientista e mãe no Brasil

Dados apresentados em maio pelo grupo Parent in Science, com base na resposta de 1182 pesquisadoras brasileiras, começam a preencher o vazio de conhecimento sobre o impacto da maternidade na produção acadêmica. Um dos motivos? Falta de políticas públicas.

*Este artigo é o primeiro de uma série de três matérias sobre maternidade e ciência.

Ter filhos, criá-los e fazer ciência, ao mesmo tempo, é uma equação que pode não fechar de forma positiva. Eventualmente, a mãe ou o pai precisam elencar prioridades e podem passar a dedicar menos tempo a alguma tarefa ou a alguém. Muito disso se dá pela falta de apoio no trabalho, em casa ou na sociedade de uma forma mais ampla. E, por uma questão de gênero, essa bomba estoura mais no colo das mulheres, já que, historicamente e socialmente, a mulher sempre foi mais vista como a pessoa do cuidado, do ambiente doméstico e da responsabilidade perante as crianças.

O que fazer para compreender melhor esse cenário e propor soluções para uma questão tão delicada e invisibilizada? Uma das respostas, segundo o grupo Parent in Science, está na busca por dados que falem sobre o impacto dos filhos na vida acadêmica de mulheres e homens. Entendendo a questão com números, é possível apontar a enorme necessidade de políticas públicas e iniciativas que levem em consideração a conciliação da maternidade e paternidade com a vida acadêmica.

Criado em 2017, o grupo, composto por seis cientistas mães e um cientista pai, queria traçar o perfil de pesquisadoras que viraram mães recentemente, a nível nacional. Para isso, disponibilizaram formulários on-line, que ainda estão recebendo respostas, com foco nos seguintes grupos: cientistas mães, cientistas sem filhos, cientistas pais, pós-doutorandas e pós-graduandas. Os resultados dos dois primeiros grupos, com um total de 1182 respostas até abril deste ano, foram apresentados no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Porto Alegre.

Dessas 1182 respondentes, 78% são mães e 22% não. “Os números sobre essa realidade das mães não existiam. Há análises mais subjetivas, como nas ciências sociais, por exemplo, onde já existe uma discussão grande sobre como a maternidade é percebida dentro do ambiente acadêmico. Mas não sabemos quantas docentes brasileiras são mães”, esclarece ao Cientistas Feministas Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto Parent in Science e bióloga do Departamento de Biotecnologia da UFRGS.

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Mãe de dois filhos pequenos e à espera do terceiro, a pesquisadora Fernanda luta por mais políticas brasileiras de apoio à cientista mãe. A criação do Parent in Science surgiu após uma postagem em seu Facebook pessoal em que comentava a experiência vivida depois da segunda licença-maternidade, de 2015. Os pedidos de bolsa submetidos a agências de fomento foram indeferidos porque as entidades alegavam falta de produção acadêmica. “Como a maternidade vem carregada de culpa, eu achei que o problema fosse eu”, diz. Como resposta à postagem, Fernanda recebeu inúmeros comentários de outras pesquisadoras que passaram – e passam – pela mesma situação.

De acordo com alguns dados obtidos, a média de idade da mulher no nascimento do primeiro filho é de 32 anos, a maioria das respondentes tem de uma a duas crianças e três anos é o tempo médio que decorre desde a contratação até a gravidez para a maioria das cientistas. Ou seja, no período inicial do estabelecimento dessas pesquisadoras dentro da universidade.

“O impacto da gravidez nessa idade é maior do que se essa mulher estivesse na universidade há um número maior de anos. Isso é uma consequência da nossa formação. A gente sai da graduação, entra na pós-graduação, depois no pós-doutorado e só então numa instituição”, pontuou Stanisçuaski durante o Simpósio, fazendo referência aos cerca de nove anos de formação para um pesquisador após a graduação.

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Para as respondentes com filhos, a taxa de publicação de artigos só volta a subir depois de cerca de três do nascimento da criança. Imagem: Parent in Science

A fase é crítica para muitas cientistas. A bióloga defende que, no período de licença-maternidade, as mulheres não deveriam estar preocupadas com suas carreiras, e, sim, focando no recém-nascido. A volta à carreira depois desse tempo também pode ser outro ponto de conflito. O motivo: uma criança pequena em casa não para de dar trabalho aos seis meses de idade; e o trabalho não para de exigir atenção.

“Naquele momento em que precisamos de um pouco de aceitação, a gente recebe nãos. Há uma questão de desestimular a permanência da cientista por essa questão de falta de apoio e empatia. O quanto estamos mandando cientistas embora por causa disso?”, questiona.

 

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O Simpósio realizado em Porto Alegre foi inclusivo: o espaço de recreação para os pequenos e pequenas estava garantido.

Onde estão os pais dessa história?

Único homem presente no grupo, Felipe Ricachenevsky, biólogo da Universidade Federal de Santa Maria, teve cinco dias corridos de licença-paternidade quando a filha, Maya, nasceu em 2016. “É um erro. Em primeiro lugar, tem que ficar claro que pai presente deve ser a regra, e não um luxo, e isso começa com a participação igual dos cuidadores. Ainda há muitos homens que não percebem isso, infelizmente. Por outro lado, a legislação deve permitir que essa participação efetiva e igualitária aconteça; como o pai vai poder ser pai se ele não ficar em casa?”, observa o pesquisador.

Um dos dados levantados pelo grupo mostra essa desigualdade: mais da metade das respondentes disse que é a única cuidadora do(s) filho(s), enquanto 34% responderam que ambos os pais cuidam. Segundo Stanisçuaski, o resultado foi uma surpresa porque essa não era a realidade do grupo que criou o Parent in Science: ali, os responsáveis dividem as responsabilidades de forma igualitária.

E o que dizer sobre a produção acadêmica dos pais? Será que cai da mesma forma? Por enquanto, o grupo não tem como afirmar com base em dados: desde que o formulário para cientistas pais foi lançado on-line, em fevereiro deste ano, 64 pessoas responderam. “Não temos como analisar a produção científica com esse número restrito. A partir de histórias pessoais de pais que conhecemos e que dividem igualmente a criação da criança, podemos dizer que, sim, a produção deles pode ser afetada também. No entanto, eles ainda são minoria”, observa a bióloga.

Ricachenevsky aponta que, apesar de muito ainda precisar avançar, há muitos pais que dividem de igual para igual o cuidado e que, mesmo assim, percebem que o ônus profissional, mesmo em uma situação mais próxima do ideal, ainda recai sobre as mães. “É pouco provável que críticas ao fato de ter filhos sejam feitas aos pais no ambiente de trabalho. Os homens, tanto os pais como os não pais, precisam atuar para que isso se torne inaceitável. Um dos primeiros passos, a meu ver, é começar a dividir as críticas: se forem criticar uma mãe por ter filhos, que me critiquem também, pois eu vou dedicar o mesmo tempo à criança”, defende.

O vazio deixado pelas políticas públicas

Se a licença-paternidade é praticamente inexistente, o cenário não é diferente quando o foco recai sobre as medidas das agências brasileiras de incentivo à ciência. De acordo com Stanisçuaski, o mínimo que deveria ser oferecido por editais de agências públicas é a consideração ao tempo de licença-maternidade. “Hoje em dia, não existe praticamente nada de política de apoio para cientistas mães. A primeira vez que a gente viu menção à maternidade num edital foi a chamada pública do Instituto Serrapilheira”, disse a bióloga, referindo-se à instituição privada criada em 2017 pelo documentarista João Moreira Salles e a linguista Branca Moreira Salles. O Serrapilheira busca apoiar financeiramente projetos de pesquisa e de divulgação científica. Na primeira convocação para projetos de pesquisa, explicitou que os pesquisadores candidatos deveriam ter recebido o grau de doutor depois de 1o de janeiro de 2007, sendo que essa condição poderia ser ajustada em um ano (janeiro de 2006) para mulheres com um filho e em dois (2005) para aquelas com dois ou mais filhos.

No Simpósio de Porto Alegre, representantes das agências de fomento Capes e Fapergs e do Serrapilheira estavam presentes. A bióloga comenta que o sentimento, ao final do evento, é que algo pode ser feito a favor da questão da maternidade na ciência se o Parent in Science for atrás de um diálogo. Como resultado do encontro, um documento está sendo gerado pelo grupo e por participantes com sugestões de propostas, o qual será encaminhado em breve às agências.

A pressão por mudanças continua. Em maio, o grupo começou a estimular a campanha #maternidadenoLattes, convidando pesquisadoras de todo o Brasil a informar o período de suas licenças na bio da plataforma Lattes. Para Ricachenevsky, a maternidade e a paternidade não são indicativos de que os pesquisadores são pouco produtivos, mas apenas que estão passando por um período em que a produtividade pode cair. Um período da vida, que requer mais compreensão por parte de diferentes atores. “O potencial criativo e de resolver problemas científicos está lá. Precisamos trabalhar juntos; isso começa com dividir igualmente o ônus e a dificuldade de reconciliar a carreira e a nova vida familiar”, acrescenta.

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Na próxima matéria, vamos trazer depoimentos de pesquisadoras que sofreram algum tipo de assédio durante e depois da gravidez.

 

 

 

 

 

Saiba mais:

  • Leis que abordam as licenças-maternidade e paternidade:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11770.htm

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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

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Por que alguns sons são considerados música e outros não?

O viral e controverso áudio “laurel versus yanny”, dividiu e confundiu os internautas. Este é só um exemplo de como a nossa audição é um fenômeno complexo e de como um mesmo som pode ser interpretado de formas diferentes por pessoas e grupos de pessoas diferentes. Créditos: Pinterest.

De tempos em tempos, novas e velhas ilusões de óptica viralizam nas redes sociais. Ilusões aurais e outros tipos de fenômenos relacionados à percepção auditiva são menos conhecidas, mas o recente e controverso áudio “laurel versus yanny” dividiu e também confundiu as pessoas que o escutaram. O jornal americano The New York Times chegou a publicar uma ferramenta que aplica progressivamente filtros de frequência ao arquivo, que é originalmente uma manipulação do áudio correspondente ao verbete “laurel” do site Vocabulary. Com esta ferramenta é possível comparar com outras pessoas a partir de que ponto a interpretação do áudio passa a ser ambígua.

Estas diferenças de percepção são apenas um exemplo entre muitos fenômenos relacionados à audição que variam entre uma pessoa e outra. Elas se devem às vezes a estruturas biológicas – neste caso diferenças entre os sistema auditivo e nervoso de cada indivíduo – e às vezes a diferenças culturais.

Estabelecer uma linha que divida exatamente onde cada um destes fatores passa a interferir ou deixa de influenciar a resposta a um determinado estímulo é virtualmente impossível. Para estudar este tipo de tendência, cientistas das áreas de psicofísica, neurociências, antropologia, psicologia e muitas outras valem-se de ferramentas estatísticas para estudar as diferenças de resposta em diferentes grupos de pessoas.

Quando falamos sobre nossas reações à música, podemos debater até mesmo o que é considerado um som musical ou não. Esta noção já foi debatida à exaustão por estudiosos da etnomusicologia, que apontam que a cultura musical não é transmitida para pessoas sem contexto prévio algum, e que a percepção de como o som é organizado e significado é sujeita ao sistema simbólico prévio do indivíduo que está escutando, executando ou compondo música [1].

O estudo publicado recentemente por McDerbott et al. [2] foi dedicado ao estudo das diferenças de percepção de dissonância musical em cinco grupos de pessoas (americanos com treinamento musical, americanos sem treinamento musical, bolivianos residentes em La Paz, bolivianos que residem em uma cidade consideravelmente menor que a capital e bolivianos pertencentes ao grupo étnico dos Tsimane’ que não tiveram contato com a música tradicional ocidental).

Figura 1 – Membros do grupo Tsimane’, na Amazônia boliviana – Foto de Piotr Strycharz, licença Creative Commons.

Para isso, os pesquisadores apresentaram aos voluntários de cada um dos grupos uma série de estímulos sonoros, dentre eles sons de risadas, suspiros e uma série de díades e acordes, já classificadas como consonantes ou dissonantes na tradição ocidental.

O estudo demonstrou, entre outras tendências, que os membros do grupo Tsimane’ são capazes de distinguir estímulos que são considerados ou não dissonantes na tradição musical ocidental, mas que não consideram os sons dissonantes menos prazerosos que os consonantes.

Os outros dois grupos bolivianos estudados, que têm mais contato com a música ocidental tonal, apresentaram maior predileção pelos sons considerados consonantes nesta cultura, embora tal preferência demonstre ser mais discreta com relação aos voluntários americanos.

Estes resultados corroboram com a hipótese de que as noções estéticas musicais de um grupo de pessoas é predominantemente determinado pelos seus contextos culturais e que, ao contrário das diferentes percepções do áudio “laurel versus yanny”, pouco reflete nossa estrutura biológica responsável pela audição.

No caso específico da resposta a sons consonantes e dissonantes, o estudo sugere que o julgamento da agradabilidade de um acorde é diretamente determinado pela exposição prévia à estrutura harmônica da música ocidental tonal.

Referências
[1] Moisala, P. (1995) Cognitive study of music as culture — basic
premises for “cognitive ethnomusicology”
, Journal of New Music Research, 24:1,
8-20. Disponível aqui.

[2] McDermott, J.H.; Schultz, A.F.; Undurraga, E.A.; Godoy, R.A. (2016). Indifference to dissonance in native Amazonians reveals cultural variation in music perception. Nature volume 535, pages 547–550. Disponível aqui.

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Cérebro e intestino: parceria inseparável

A relação entre nosso cérebro e nosso intestino tem sido estudada já faz algum tempo. Diversas publicações ao longo dos anos 2000 sobre “o segundo cérebro” popularizaram a informação de que nosso intestino tem funções muito mais abrangentes do que apenas absorver nutrientes. A neurociência, mais recentemente, reconheceu o papel da microbiota intestinal  com o sistema nervoso central e doenças como Alzheimer, bem como já documentou que o estresse muda a composição dessa microbiota e essa mudança pode afetar nosso comportamento frente às diferentes situações(1).

Primariamente, as bactérias da microbiota intestinal se beneficiam do ambiente muito nutritivo do intestino humano e em troca, beneficiam o indivíduo tornando alguns nutrientes que não seriam digeridos, disponíveis para o organismo humano. Também combatem o acesso a bactérias patogênicas e modulam nossa função neuronal de forma direta e indireta. A ciência descreve que o intestino e o cérebro se comunicam por rede de neurotransmissores, e mais recentemente mostrou que as vitaminas e alguns compostos chamados metabólitos microbiais neuroativos são capazes de afetar a função neuronal direta e indiretamente. A microbiota pode ainda afetar a resposta inflamatória e mandar sinais para o cérebro, ativando neurônios sensoriais e vias relacionadas ao sistema imune e endócrino. Estudos em animais já mostraram inclusive que camundongos com diferentes graus de ansiedade podem ter seu comportamento alterado pela microbiota por alterar a química cerebral, com resultados semelhantes em estudo de quadros de depressão(2).

 

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Esquema mostrando a relação entre cérebro e intestino: a parte superior do trato gastrointestinal (TGI), mostrada em amarelo, inclui o esôfago e o estômago. O intestino delgado (duodeno, jejuno, íleo) é mostrado em azul claro; o intestino grosso (ceco e cólon ascendente, transverso e descendente) é mostrado em verde. As interações entre o TGI e o sistema nervoso autônomo e central são indicadas por linhas vermelhas. As setas azuis bidirecionais curtas indicam aferências e eferências. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) é mostrado em amarelo escuro. A legenda mostra os tipos de células nervosas (glias entéricas e neurônios entéricos em vermelho), sistema endócrino em verde, músculo liso em marrom e as bactérias que colonizam o intestino em branco (2).

Uma das formas de modular a composição da microbiota é por meio do uso de probióticos. Esses probióticos são microorganismos vivos selecionados e administrados em quantidade adequada que exercem efeito benéfico sobre a saúde humana. Os famosos leites fermentados são a maneira mais popular de consumir esses probióticos, entretanto, a quantidade de microorganismos presentes nesses produtos são questionáveis. A forma mais segura para o consumo desses microorganismos é a forma manipulada ou adquirida pronta em farmácias. O interessante do uso potencial desses microorganismos é a possibilidade de  tratar desordens como doença de Parkinson, Alzheimer, autismo e transtornos de hiperatividade e déficit de atenção, foco dos estudos mais atuais(2). A maior parte dos estudos realizados empregaram modelos animais e apontam que os efeitos variam de acordo com o tipo de probiótico e com qual parte do cérebro esse microorganismo interage. Em humanos, o número de estudos ainda é muito reduzido, entretanto descrevem que houve redução de sintomas de ansiedade e humor nos indivíduos que consumiram os probióticos(2).

Neste contexto, surge uma questão: e o que comemos, é capaz de influenciar nossa microbiota? A resposta é SIM. O tipo de alimentação é um importante fator de influência sobre a microbiota intestinal. Por exemplo, o consumo de alimentos predominantemente de origem animal ou de origem vegetal por curtos períodos é capaz de alterar rapidamente a estrutura das bactérias(1). Um exemplo bem expressivo é a diferença entre bebês alimentados com fórmula e alimentados no peito, já discutido aqui no blog . Além dos nutrientes, nossa alimentação é capaz de fornecer combustível específico para as bactérias boas, conhecido como prebióticos. Além das vitaminas, minerais e fibras dos alimentos vegetais que devem compor o padrão alimentar saudável já bem conhecido, alimentos como sementes e raízes de alguns vegetais como o Yacon, chicória, cebola, alho, alcachofra, aspargo, cevada, centeio, grãos de soja e grão-de-bico fornecem esse combustível valioso para a saúde do primeiro e do segundo cérebro. Vamos começar? Assim garantimos a boa saúde “mental”.
Referências:

  1. Mayer EA, Knight R, Mazmanian SK, et al. Gut microbes and the brain: paradigm shift in neuroscience. J Neurosci. 2014;34:15490–15496.
  2. Mohajeri MH, La Fata G, Steinert RE, Weber P. Relationship between the gut microbiome and brain function. Nutr Rev. 2018 Apr 26. doi: 10.1093/nutrit/nuy009