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Os exploradores antárticos: conheça a contribuição dos mamíferos marinhos no estudo dos ecossistemas polares.

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Imagem: agu.org

O Oceano Austral (que pode ser definido como toda área oceânica abaixo dos 60° S de latitude) possui características importantes que lhe conferem um papel de destaque no entendimento das questões relativas às mudanças climáticas globais. Ao mesmo tempo em que é uma das regiões de maior produtividade biológica do mundo¹, também atua na ventilação* das camadas profundas de grande parte dos oceanos globais, sendo então responsável por grande parte do transporte global de calor e água doce e por retirar e armazenar CO2 atmosférico2. Estudos indicam que a sensibilidade desse oceano às mudanças climáticas parece ser maior do que a do resto do planeta3, o que evidencia ainda mais a importância do entendimento dos processos atmosféricos e oceânicos da região.  

Entretanto, a amostragem desse oceano é um desafio bem conhecido da comunidade científica. Fazer pesquisa é muito caro! E na Antártica, mais caro ainda, sem contar as dificuldades de logística impostas pelo clima polar.  A coleta de dados oceanográficos por si só já “quebra a banca”, pois exige o uso de navios – um navio “simples” de pesquisa pode custar até 50.000 reais por dia de mar! Além disso, muitas vezes a quantidade de gelo marinho impede os navios de se aproximarem de áreas de interesse científico, como as cavidades subglaciais e as plataformas continentais. O difícil acesso, condições climáticas adversas (ventos fortes, baixas temperaturas) e os altos valores levam a uma falta de dados observacionais nesse oceano quando comparado a outras regiões.

Para driblar essas dificuldades, o campo da oceanografia operacional tem focado no desenvolvimento de plataformas autônomas de amostragem, como os perfiladores ARGO (Fig. 1), instrumentos autônomos medem temperatura e salinidade (podendo agregar mais sensores, como o fluorímetro para medição de clorofila) do oceano até 2000m, transmitindo os dados via satélite quando em superfície. Operar esses equipamentos em áreas com muito gelo marinho, no entanto, pode se tornar muito complicado, já que ele precisa ficar em superfície em torno de 10h a cada 10 dias para transmitir os dados coletados. Isso faz com que o uso desses equipamentos seja bastante restrito no Oceano Austral (Fig. 2). 

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Figura 1. Ciclo de funcionamento dos perfiladores ARGO: (1) Perfil de salinidade, temperatura e profundidade até 1000m, (2) deriva por 9 dias, (3) desce até 2000m e, finalmente, (4) perfil de subida e transmissão dos dados do ciclo. Fonte: ARGO PROGRAMME.

 

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Figura 2. Distribuição atual dos perfiladores ARGO. Note que o uso desses equipamentos não é compatível com a presença de gelo marinho, o que faz com que não existam muitos deles ativos no Oceano Austral. Fonte: ARGO PROGRAMME, figura do colaborador UCSD.

Nesse contexto, percebeu-se que investigar esse ambiente tão importante requer ajuda dos moradores do continente gelado. Alguns mamíferos marinhos viajam milhares de quilômetros em busca de comida, mergulhando a profundidades de até 1000 m (caso dos elefantes-marinhos). Algumas focas se alimentam sob as plataformas de gelo e nas plataformas continentais, visitando constantemente, inverno e verão, áreas de difícil acesso até mesmo para navios quebra-gelo. Instrumentar esses animais com sensores (temperatura, salinidade, etc), não só permite que se observe diretamente o comportamento alimentar (ou forrageio) dessas espécies, mas garante a obtenção de dados oceanográficos únicos em áreas extremamente remotas nos ecossistemas polares (Fig. 3).  

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Figura 3. Foca instrumentada pelo Australia’s Integrated Marine Observing System (IMOS). Fonte: News Research to Reality, Universidade da Tasmania.

Depois de uma iniciativa científica internacional chamada Southern Elephant seals as Oceanographic Samplers (SEaOS) iniciada em 2004, que foi responsável por instrumentar um grande número de elefantes-marinhos, o projeto MEOP (Marine Mammals Exploring the Oceans Pole to Pole) se estabeleceu durante o Ano Polar Internacional com o objetivo de coordenar os esforços entre programas científicos de países que estivessem investindo nesse tipo de amostragem (entre eles o Brasil, através do financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq) (Fig. 4). Hoje, cerca de 200 elefantes marinhos são equipados todos os anos com sensores de condutividade (que mede salinidade), temperatura e pressão (CTD) e os mamíferos marinhos são responsáveis por 98% dos dados coletados sob o gelo marinho e por 80% de todos os dados de temperatura e salinidade do oceano Austral como um todo4.  

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Figura 4. Posição dos dados coletados por mamíferos marinhos disponíveis para uso científico. A contribuição do Brasil (em azul) é de 15505 perfis, coletados por 28 instrumentos.

Para garantir que não haverá qualquer dano aos animais e evitar que o aparelho interfira na vida normal deles, existe um rígido protocolo para a instalação do equipamento. O CTD é colado à pele do mamífero, assim que administrada a sedação. Como eles passam por um processo de muda todos os anos, o instrumento eventualmente cai – se não for recuperado pelos pesquisadores antes. Logo que os CTDs são instalados, eles já passam a coletar dados quando os animais estão dentro da água. Quando na superfície, os equipamentos transmitem os dados coletados via satélite, que são então processados e disponibilizados pelo MEOP para uso da comunidade científica (Fig. 5). No momento, são 371768 perfis disponíveis, de 2004 até Junho de 2016  (Fig. 4).

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Figura 5. Ciclo de funcionamento dos CTDs de mamíferos: (1) Instalação, (2) instrumento mede temperatura, salinidade, pressão enquanto o animal estiver na água (3) transmissão via satélite quando em superfície e, finalmente, (4) processamento e disponibiliazação para uso científico. Fonte: MEOP.

 

Os dados coletados têm permitido uma série de descobertas científicas. Na oceanografia física, por exemplo, os mamíferos já ajudaram a identificar um novo local de formação da Água de Fundo Antártica5 e taxa de formação de águas profundas6.Os dados hidrográficos coletados já foram capazes de refinar modelos que incluem gelo marinho e devem ajudar a melhorar as projeções de modelos oceânicos em geral. Esse monitoramento também têm sido importante para o estudo desses animais e da ecologia do ecossistema polar4. Como esses dados podem ser considerados novos, existe uma gama de possibilidades ainda não exploradas totalmente pelos cientistas.

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Filhote de Foca-de-Weddell. Fonte:  Wikipedia.

 

 

No aguardo das novas descobertas!

 

 

 

*Ventilação:  processo pelo qual águas superficiais formam águas intermediárias ao penetrarem extratos mais profundos (ocorre principalmente no inverno nas áreas subtropicais)7.

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Referências:

  1. Emerson, S. & Hedges, J. 2008. Chemical Oceanography and the Marine Carbon Cycle. Cambrigde University Press, Reino Unido, 453 p.
  2. Orsi, A.H., Johnson, G.C. & Bullister, J.L. 1999.Circulation, mixing and production of Antartic Bottom Water. Progress in Oceanography, 43: 55 – 109.
  3. Sprintall, J. 2003. Seasonal to interannual upper ocean variability in the Drake Passage. Journal of Marine Research, 61: 27-57.
  4. Roquet, F., & Coauthors. 2014. A Southern Indian Ocean database of hydrographic profiles obtained with instrumented elephant seals. Nature Scientific Data, 1: 140028.
  5. Ohshima, K., & Coauthors. 2013. Antarctic Bottom Water production by intense sea-ice formation in the Cape Darnley polynia. Nature Geoscience, NGEO1738.
  6. Williams, G., & Coauthors. 2016. The suppression of Antarctic bottom water formation by melting ice shelves in Prydz Bay. Nature Communications, 7, 12577.
  7.  Talley, L. D. Descriptive physical oceanography: an introduction. Academic press, 2011.
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Ser vegetariano faz bem ao coração?

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Nutrição e coração

 

Não é novidade que a alimentação vegetariana tem sido associada a menor risco de doenças do coração. Entretanto, a maioria dos estudos realizados até o momento apresenta algumas falhas metodológicas, como analisar dietas vegetarianas restritas (considerado uma mudança muito radical para algumas pessoas) ou dietas que excluíram apenas alguns alimentos de origem animal (por exemplo a carne vermelha, ou em outros casos todos os tipos de carne). Além disso, a maior parte dos trabalhos não faz distinção entre a qualidade dos produtos vegetais, incluindo produtos sabidamente relacionados a pior perfil metabólico, como bebidas ricas em açúcar. Colaborando para preencher essas lacunas, um estudo publicado neste ano no Journal of The American College of Cardiology1, importante revista de cardiologia, mostrou que não basta ser vegetariano: é preciso escolher bons alimentos vegetarianos para manter o coração saudável!

Partindo do ponto que pequenas mudanças alimentares são mais fáceis de serem seguidas, a pesquisadora Ambika Satija e seus colaboradores da Harvard Medical School em Boston (EUA) estudaram o efeito de reduções graduais de alimentos de origem animal juntamente com o aumento daqueles de origem vegetal em mais de 200 mil adultos que foram acompanhados a cada dois a quatro anos. Os participantes da pesquisa responderam a um questionário de frequência alimentar incluindo cerca de 133 alimentos. Os dados foram reunidos em 18 grupos alimentares dentro de três grandes categorias: alimentos vegetais saudáveis (grãos integrais, frutas/vegetais, nozes/legumes, óleos vegetais, chá/café), alimentos vegetais menos saudáveis (sucos de fruta*, grãos refinados, batatas, bebidas adoçadas, doces/sobremesas), e alimentos de origem animal, como apresentado na Tabela 1. O diferencial desse trabalho foi a criação de índices a partir da pontuação desses alimentos: 1) índice de dieta baseada em vegetais (IDV) onde produtos de origem vegetal saudáveis e não saudáveis receberam pontuação positiva e os de origem animal receberam pontuação negativa; 2) índice de dieta de origem vegetal saudável (IDVs), em que alimentos vegetais saudáveis tiveram pontuação positiva e os demais, negativos; e 3) índice de dieta de origem vegetal não saudável (IDVns), em que alimentos de origem vegetal não saudável receberam pontuação positiva. Assim, os maiores índices encontrados significam menor consumo de alimentos animais. Os pesquisadores também avaliaram o desenvolvimento de doença cardíaca coronariana (DCC), definida como infarto do miocárdio (IM) não fatal e doença cardíaca coronariana fatal.

 

Tabela 1. Exemplos de Itens Alimentares dos 18 grupos estudados a partir dos Questionários de Frequência Alimentar.

  IDV IDVs IDVns
Grupos alimentares vegetais
Saudáveis
Grãos integrais Arroz integral, aveia, cereal matinal integral Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Frutas Uva-passa, banana, ameixa, melancia, maçã Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Vegetais Tomate, brócolis, molho de tomate, abobrinha, batata-doce, espinafre, alface, berinjela Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Castanhas Nozes, castanhas, pasta de amendoim Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Leguminosas Feijão, tofu, soja Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Óleos vegetais Azeite, óleos vegetais para cozinhar Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Chá e café Chá, café e café descafeinado Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Menos saudáveis
Sucos de frutas Sidras, sucos de maçã, de laranja Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Grãos refinados Pão branco, cereal matinal açucarado, bolos, “waffles”, panquecas Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Batatas Batata frita, batata chips, purê de batata Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Doces e sobremesas Chocolate, bala, gomas, tortas, geléias, bolos Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Grupos alimentares animais
Gordura animal Manteiga Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Laticínios Leite desnatado, iogurte, queijos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Ovos Ovos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Peixe e frutos do mar Atum enlatado, peixes, camarão Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Carnes Frango, peru, boi, hambúrguer,carne processada, salsicha, linguiça Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Produtos variados de origem animal Pizza, maionese, cremes prontos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa

IDV = Índice de dieta vegetariana geral; IDVs = Índice de dieta vegetariana saudável; IDVns = Índice de dieta vegetariana não-saudável

            Os autores encontraram que a adesão à IDV foi inversamente associada com as DCC. Ao se avaliar IDVs e IDVns separadamente, ter uma dieta vegetariana não saudável aumentou o risco relativo de DCC em 32%, enquanto que ter uma dieta vegetariana saudável reduziu o risco em 25%. Esses resultados foram consistentes considerando as diferenças de idade, índice de massa corporal, história familiar de doença cardíaca coronariana e gênero. Para verificar se o consumo de alimentos de origem animal afetava os resultados das dietas vegetarianas, os pesquisadores fizeram diferentes ajustes estatísticos, e não encontraram mudanças nos resultados.

Traduzindo: simplesmente ser vegetariano ou excluir produtos animais sem critério não necessariamente significa ter uma alimentação mais saudável. É preciso escolher alimentos de boa qualidade: mais grãos integrais que refinados, mais alimentos inteiros do que sucos, por exemplo. Outro ponto importante levantado pelo estudo é que para aquelas pessoas que gostariam de seguir uma dieta vegetariana mas acham muito difícil, reduzir as porções de alimentos animais já traz muitos benefícios. Ter uma alimentação rica em vegetais saudáveis leva ao maior consumo de fibras, antioxidantes, gorduras insaturadas, vitaminas e minerais – nutrientes que melhoram nossa resposta metabólica.

E aí, vamos repensar nossa alimentação?

 

* Os sucos de frutas considerados incluem aqueles obtidos de frutas espremidas, caseiros ou industrializados. São considerados menos saudáveis por apresentarem baixo teor de fibras e alta concentração de carboidratos. A recomendação do consumo de suco de fruta está sendo revista, e a Associação Americana de Pediatria2 propôs em maio deste ano o limite de seu consumo em crianças e adolescente por estar relacionado ao excesso de ganho de peso.

 

 

1) Satija A, Bhupathiraju SN, Spiegelman D, Chiuve SE, Manson JE, Willett W, et al. Healthful and Unhealthful Plant-Based Diets and the Risk of Coronary Heart Disease in U.S. Adults. J Am Coll Cardiol. 2017; 70(4):411-422.

2) http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2017/05/18/peds.2017-0967

3) Imagem: http://www.foodnetwork.com/healthy/articles/what-is-a-heart-healthy-diet

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Por que menstruamos? A história evolutiva da menstruação

Menstruação. Esse acontecimento fisiológico que ocorre com metade da população mundial em idade fértil ainda é um tabu social e científico em muitos aspectos. Por exemplo, quem nunca viu uma propaganda de absorvente que representa o sangue menstrual em cor azul ou rosa? Os fatores sociais e culturais relacionados  a este tema afetam a vida das mulheres[1] em todo o mundo e possuem influências em diversas questões políticas relacionadas à liberdade e saúde da mulher, mas o entendimento profundo sobre o assunto ainda é escasso para grande parte da população.

Recentemente a famosa revista científica “The Lancet” lançou uma nota editorial com o tema “Tempo de falar sobre menstruação” [1] na qual apresenta dados sobre como a menstruação é um assunto negligenciado socialmente, mesmo podendo afetar desde a autoestima de meninas e mulheres até o desempenho escolar destas, que precisam passar por este período todo mês. Então, no texto de hoje vamos abordar esse tema e mostrar algumas curiosidades sobre o assunto.

Os médicos e cientistas se perguntavam sobre o motivo e a função da menstruação desde os anos 400 a 300 a.C.. Nesse tempo eles acreditavam que a menstruação era a substância necessária para a formação do embrião. A crença era de que o sêmen atuaria no sangue menstrual levando este à coagulação. Sendo o sangue a matéria prima do embrião, perder este antes da entrada do sêmen era considerado na época equivalente a assassinato infantil. Esse simples desconhecimento de ciência levou na prática ao casamento de crianças em alguns países, sendo considerado um crime para uma menina menstruar antes de se casar [2].

Essa visão antiga sobre a menstruação permaneceu popular por quase dois mil anos, e somente por volta de 1700 os cientistas perceberam a diferença entre sangue menstrual e o sangue que circula em nosso corpo [3]. Com o passar dos anos, no final do século XIX e início do século XX, a partir de avanços na ciência com a descrição do ciclo hormonal de alguns mamíferos, acreditava-se, erroneamente, que a menstruação na mulher era equivalente ao sangramento relacionado ao momento de cio em alguns animais, sangramento proestrus [4]. Foram necessários mais alguns anos, até que em 1923 George W. Corner publicou um trabalho descrevendo a menstruação como um processo secundário, relacionado a um método altamente desenvolvido de implantação do embrião [5]. Sabe-se atualmente que esse processo ocorre em apenas 1,5% das espécies de mamíferos, sendo quase que restrito à primatas (78 ordens), mas que também está presente em 4 espécies de morcegos, um pequeno mamífero africano Elephantulus myurus, e recentemente descoberto na espécie de rato Acomys cahirinus [6, 7].

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Figura 1. Outras espécies que menstruam (Elephantulus myurus e Acomys cahirinus).

Com o surgimento e popularização da teoria da evolução, diversas hipóteses surgiram para explicar a função da menstruação, sempre tendo como perspectiva o fato de que, se este processo sobreviveu à seleção natural, provavelmente ele deve ser de alguma forma vantajoso ou pelo menos não prejudicial aos primatas e à continuação da espécie. Na época, os cientistas ignoraram os fatos de que a menstruação só ocorre em fêmeas com desenvolvimento corporal completo e apenas quando não estão grávidas ou amamentando. Assim, encontrar uma função para a menstruação consistia em uma tarefa árdua, pois era possível que as fêmeas passassem os seus genes para as próximas gerações mesmo sem menstruar e anteriormente à seleção natural exercer efeitos positivos ou negativos sobre a espécie [1]. Seguindo esse ponto de vista, aparentemente, a menstruação não está envolvida com alguma função específica na evolução dos primatas, mas possui uma ligação direta com o nossa forma de reprodução e à função do útero das mulheres.

Nesse sentido, olhando para o trato feminino atual, tudo começou com uma estrutura primitiva especializada em transportar gametas que apareceu primeiramente no peixes com mandíbulas. Esta estrutura evoluiu por milhões de anos, sendo conhecida atualmente como ductos de Müller ou Mulleriano, o precursor do útero, oviduto, cérvix e vagina superior nas mulheres. A grande vantagem da estrutura primitiva era permitir que o macho depositasse seus gametas diretamente dentro da fêmea, facilitando assim a união dos gametas e a fecundação.

ducto muller português
Figura 2. Ducto Mulleriano e a formação das estruturas do sistema reprodutivo feminino (Fonte: Wilhelm, D. e colaboradores/Physiological Reviews). Traduzido para português e adaptado.

Essa fertilização interna constituiu em um primeiro passo para a conquista do ambiente terrestre, mas apresentava algumas desvantagens evolutivas. Primeira, o embrião agora dentro da mãe possuía um tecido diferente geneticamente da mãe e um processo inflamatório de não reconhecimento deste tecido estranho teria que ser evitado. Segundo, a presença do embrião no interior de um ducto significava que a evolução do trato feminino passaria a ser realizada em conjunto com a evolução do embrião, sendo desta forma mais difícil de ter sucesso evolutivo.

Mudanças importantes no ducto Mulleriano ocorreram ao longo dos anos nas espécies que conquistaram o ambiente terrestre. Em répteis essa estrutura atuou na adição de camadas de proteção ao embrião (ovo), e em mamíferos, que evoluíram a partir de ovos de répteis primitivos, vestígios dessas camadas protetoras do embrião ainda existem. Um exemplo atual dessa evolução são os mamíferos primitivos que vivem nos dias atuais, como os ornitorrincos (Figura 3), que ainda possuem ovos.

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Figura 3. Ornitorrinco e seus ovos (Fonte: Agostini Picture Library/De Agostini/Getty Images).

O surgimento do útero em mamíferos ocorre com a especialização deste na provisão de nutrientes para o embrião. E com o passar do tempo, a evolução útero ocorreu no sentido de um contato cada vez cada vez mais íntimo entre o embrião e o endométrio materno (Figura 4). Tudo isso permitiu uma transferência de nutrientes cada vez mais eficiente entre as membranas que separam o sangue fetal e o materno.

trato vaginal
Figura 4. Esquema do trato feminino (Fonte: Editora Sanar). Com adaptações.

Para evitar a expulsão do embrião e o processo de inflamação no corpo da mãe em relação aos tecidos não reconhecidos deste, a evolução do embrião ocorreu no sentido de paralisar o processo inflamatório no útero e juntamente formar um tecido de granulação de proteção. Esse processo ocorre com o controle do embrião em estágios bem iniciais de um hormônio da mãe chamado de progesterona. Esse hormônio é majoritariamente produzido pelo ovário, porém com a fecundação passa a ser controlado, e posteriormente, produzido pelo próprio embrião. Esses efeitos combinados se converteram na resposta de implantação do embrião, que é considerada bem invasiva em primatas em relação ao mesmo processo em outros animais [8].

Contra isso, a mãe reagiu ao longo da evolução para proteger as camadas epiteliais do seu útero por meio de mudanças na espessura da parede do útero (endométrio) ao longo do ciclo de fertilidade e em resposta à antecipação de uma gravidez e a invasão do possível embrião. Assim, quando a gravidez não ocorre, há apenas o descolamento dessa parede do endométrio com um sangramento: a menstruação.

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Figura 5. Embrião se implantando na parede do útero (Fonte: Science Picture Co/SPL).

Ao perceber a estreita relação entre a menstruação e o seu papel na implantação do embrião, é difícil imaginar que estas poderiam ter evoluído separadamente. Assim, outra hipótese muito aceita é que a função evolutiva mais útil da menstruação é de se livrar de embriões não implantados corretamente [1, 7]. Ainda, não podemos deixar de citar, que uma pesquisadora chamada Margie Profet defende a ideia de que a menstruação serviria também para proteger a fêmea dos patógenos transportados pelo esperma do macho [9], mas vários autores discordam dessa hipótese e testes clínicos ainda são necessários para comprovar essa afirmação [10].

Para finalizar, um fato curioso da abordagem do tema é um pequeno vídeo produzido pela Walt Disney em 1946. Desculpas antecipadas pelas imagens e comentários sexistas da época, mas acredito que seja interessante conferir.

E aí, vamos colocar a menstruação na roda de conversa?

Referências

  1. The Lancet. Time to talk about menstruation: #PeriodEmoji. Lancet, 389: 2264, 2017.
  2. Finn, A.C. Why do women menstruate? Historical and evolutionary review. European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology 70, 3-8, 1996.
  3. Grant E, ed. A source book in Medieval Science. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1964.
  4. Heape W. The ‘sexual season’ of mammals and the relation to menstruation. Q J Microsc Sci 44,1-70, 1900.
  5. Corner, G. W. Oestrus, ovulation and menstruation. Physiological Reviews 3, 4, 457-482, 1923.
  6. Bellofiore, N., Ellery, S., Mamrot, J., Walker, D., Temple-Smith, P. e Dickinson, H. First evidence of a menstruating rodent: the spiny mouse (Acomys cahirinus). American Journal of Obstetrics and Gynecology, 2016.
  7. Emera, D., Romero, R., Wagner, G. The evolution of menstruation: A new model for genetic assimilation. Bioessays, 34, 26–35, 2011.
  8. Kirby DRS. Development of mouse eggs beneath the kidney capsule. Nature 187, 707,1960.
  9. Profet, M. Menstruation as a defense against pathogens transported by sperm. The Quarterly Review of Biology, 68(3), 335–386, 1993.
  10. Dasgupta, S. Why do woman have periods when the most animals don’t? BBC earth, 2015.

[1] É importante tomar nota que ao se referir à mulheres nos artigos utilizados para compor este texto, os autores se referem a pessoas que possuem biologicamente o sistema genital feminino. Homens trans ou pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros também podem menstruar, mas este tema específico não será o foco deste texto.

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Oito pesquisadoras, quatro palanques e uma praça pública em Berlim

Imagine oito cientistas se apresentando em praça pública em um evento criado por duas pesquisadoras. Isso no vuco-vuco da Potsdamer Platz, uma das áreas mais movimentadas de Berlim, na Alemanha. O evento em questão se chama Soapbox Science e aconteceu no dia 7 de novembro em frente ao cinema CineStar da Potsdamer Straße. A história fica mais interessante: uma das cientistas presentes é Mariana Cerdeira, brasileira que está terminando o doutorado em Neurociências na Charité, um dos maiores hospitais universitários da Europa.

Presente na Alemanha há pouco mais de cinco anos, Cerdeira está num laboratório que estuda mecanismos que podem tratar casos de isquemia cerebral, o AVC. “Nesse caso, o sangue não chega ao cérebro porque há alguma coisa bloqueando o vaso sanguíneo. Se não chega sangue, também não chega oxigênio, fundamental para que as células sobrevivam”, detalha. No cérebro, uma das células mais conhecidas é o neurônio, que não se multiplica como outras células. Se eles morrem, não há substituição. “No meu grupo de pesquisa, buscamos identificar os mecanismos celulares responsáveis por fazer com que ela aguente o máximo possível antes de morrer. Além disso, investigamos como podemos ativar esses mecanismos e aumentar ou diminuir o nível de certas proteínas na célula por meio de modificação genética”, prossegue.

 

Realizado durante a Semana de Ciência de Berlim, que aconteceu entre 1 e 10 de novembro, o Soap Box foi criado em 2011 por duas cientistas britânicas que queriam estimular a presença da mulher na ciência. Na plateia, transeuntes curiosos, professores e jovens de ensino médio assistiram às apresentações e puderam fazer diversas perguntas. As oito mulheres se dividiram em dois grupos de quatro; cada um com uma hora para dialogar com o público. As apresentações costumam ser rápidas e acontecem de forma simultânea. Isso significa que quem reservou 15 minutos ou um pouco menos para cada apresentação conseguiu assistir a tudo!

Brincadeiras com o público dão o tom durante os diálogos

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Constance Holman e seu cérebro – apenas uma reprodução, claro! Segundo ela, o cérebro possui um GPS interno. (Foto: Renata Fontanetto)

Para engajar os presentes, vale de tudo. A doutoranda Constance Holman, do Centro de Pesquisas em Neurociências da Charité, por exemplo, começou com um desafio: “Eu gostaria que vocês fechassem os olhos e apontassem na direção da Alexander Platz. Feito isso, fechem os olhos novamente, girem em círculo e depois apontem para a mesma direção”, pediu de forma empolgada. “É incrível o quanto o seu cérebro acabou de unir tantas coisas diferentes, como a sua noção de onde você está, a memória espacial de Berlim e, mesmo após o giro, ele ainda conseguiu fazer uma suposição”, explica. Em seu doutorado, Holman estuda os diferentes ingredientes cerebrais que estão por trás dessa navegação, como a estrutura celular envolvida, os mecanismos celulares e as conexões entre diferentes células na hora em que a localização é a palavra-chave.

Outra apresentação que animou o público foi a de Wing Ying Chow, do Instituto de Pesquisa Leibniz para Farmacologia Molecular. A conversa contou com um ingrediente especial: gomas de gelatina, que ajudaram durante a explicação sobre o colágeno, uma proteína formada por três cadeias polipeptídicas que se torcem uma ao redor da outra. Adivinhe quem interpretou o papel das cadeias? A goma em formato de minhoca! “O colágeno exerce muitos papéis importantes dentro do corpo e ele nos acompanha durante muito tempo. Quando envelhecemos, ele começa a quebrar, mudar e ainda não temos um jeito muito bom de estudar essas modificações”, diz.

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O que se conhece e o que não se conhece sobre o colágeno? A pesquisadora Wing Ying Chow estuda a molécula e compartilhou o que sabia com alguns alunos. (Foto: Renata Fontanetto)

Em seu projeto de pesquisa mais recente, ela estuda uma doença rara, que afeta as articulações, chamada alcaptonúria, causada por uma mutação genética que impede um metabolismo adequado de aminoácidos. As articulações estão revestidas por cartilagem, material também constituído por colágeno. Uma das manifestações da doença é a mudança da cor da urina, que passa de amarela a preta. E veja que curioso: as articulações das pessoas com a doença ficam pretas. “Por meio de um procedimento específico, pude perceber que as três cadeias da molécula de colágeno, quando há a ocorrência da doença, estão mais distantes entre si ou uma cadeia pode até mesmo ter sumido. Eu ainda não sei por que isso acontece, mas vamos investigar”, resume.

O vestibular é logo ali! Será que rola de ser cientista?

A estudante de ensino médio Nalyereh Hage Hassen, de 17 anos, foi com a turma da Escola Britânica de Berlim. Ela e a amiga, Sulafa Mo, de 16 anos, ficaram encantadas com a fala de Chow. “Eu não tenho muita ideia do que quero fazer na universidade, tenho vontade de cursar biologia, mas ainda não sei o quê dentro da área. Eu vim para este evento para pensar melhor a respeito”, esclarece Nalyereh. A seu ver, encontros como esses só podem trazer benefícios. “A gente sempre ouve na escola que as meninas querem fazer artes e outras coisas, enquanto os garotos fazem ciências. Eu nunca tinha estado num evento de ciência como este. Isso aqui meio que me ajudou a encontrar o meu caminho”, revela.

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Ao final das apresentações, que giram em torno de 5 a 10 minutos, o público tem a oportunidade de tirar dúvidas. (Foto: Renata Fontanetto)

Enquanto conversávamos, a amiga ouvia atentamente. Ela também não sabe o que quer estudar e, por isso, o evento a encorajou a pensar em ingressar na área científica. “Algumas pessoas têm uma cabeça fechada em relação à ideia da mulher trabalhando. Agora, estou considerando ser uma cientista”, diz. A brasileira Camila Eckert-Bujalos, professora de química que acompanhava a turma das duas jovens, menciona que a diretora da escola queria os alunos presentes para justamente divulgar a ciência para as jovens do grupo. “O segundo motivo é para que esses estudantes, que estão aplicando para a universidade, saibam que há outras áreas e, de repente, alguém pode pensar em ir para a área da ciência, tanto as meninas quanto os meninos”, acrescenta.

Ah, um detalhe interessante: soapbox é uma espécie de plataforma pequena em que é possível subir para discursar. ‘Soap’, em inglês, é sabão e ‘box’, caixa. Mas, espera aí… por que sabão? Lá nos séculos XIX e XX, era comum que oradores, geralmente políticos e trabalhadores industriais, subissem em caixotes de madeira, que transportavam sabão e outras mercadorias, para se comunicar com um determinado público sobre um tema político ou social, geralmente. Naquela época, esse local de fala era muito destinado aos homens. Os tempos mudaram e ainda estão mudando, não é mesmo?

Sugestões de leitura:

http://soapboxscience.org/

Vídeo sobre o Soapbox Science 2013: https://www.youtube.com/watch?v=eqC2DIB5Ccw

https://en.wikipedia.org/wiki/Soapbox

Oito alternativas para os discursos tradicionais: http://loveteachlearn.edublogs.org/2016/10/07/8-alternatives-to-traditional-speeches/

https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/may/31/women-science-industry-structure-sexist-courses-careers

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Todo o ouro do Universo: colisão de estrelas de nêutrons

A meta hoje é impressionar. É fazer teu queixo cair. Você já deve ter ouvido falar sobre a colisão de estrelas de nêutrons que foi divulgada no mês passado. Nós reunimos a seguir os números mais interessantes dessa empreitada cósmica. #VamoBora!

Ilustração artística da colisão de estrelas de nêutrons.
Créditos: NSF/LIGO/Sonoma State University/A. Simonnet

1 evento inédito: nós vimos e “ouvimos” a colisão entre 2 estrelas de nêutrons!

20 Km é o raio médio de cada uma dessas estrelas.

1.000.000.000.000 Kg é aproximadamente quanto pesa 1 colher de chá de estrela de nêutrons. Sim! Se fosse possível medir uma colherinha de chá desses objetos, ela pesaria o mesmo que o Monte Everest!

1min e 40 segundos foi o tempo de duração do impacto entre as 2 estrelas.

50 vezes a massa da Terra foi a quantidade de prata produzida durante a colisão,

100 vezes a massa da Terra em ouro e

500 vezes a massa da Terra em platina!

70 observatórios no chão e no espaço observaram o fenômeno.

3.500 cientistas de 910 instituições ao redor do mundo escreveram o artigo sobre a

observação.

R$ 3.200.000.000 é o investimento aproximado da Fundação Nacional de Ciência (NSF/EUA) desde construção em 1990 até 2016 do observatório LIGO, o primeiro a medir ondas gravitacionais.

Isso é ciência que faz os pelinhos do braço arrepiarem, não é mesmo? (Fora quando a gente lembra que o orçamento proposto para toda a pasta do MCTIC em 2018 é R$ 1.680.000.000… Essa dá arrepio… ruim… na espinha…)


Mais ondas gravitacionais!

Ano passado foi divulgada a primeira observação de ondas gravitacionais durante uma colisão de buracos negros pelos cientistas do observatório LIGO. De lá pra cá, a detecção já recebeu prêmio Nobel de Física e mais 4 colisões de buracos negros foram divulgadas (a última em 15/11/17). A coisa já está tão rotina que ninguém se comove mais. Na verdade, tudo está acontecendo conforme o previsto: as observações passam a ser corriqueiras e os dados são coletados sem muito alarde quando os fenômenos e os processos passam a ser conhecidos. As novidades virão quando a análise dos dados trouxer à luz o desconhecido…

E tchan tchan tchan!!! Novidades vieram bonitas e cintilantes no último 16 de outubro com a divulgação da primeira observação da colisão de duas estrelas de nêutrons!

Simulação do giro fatal de duas estrelas de nêutrons.
Crédito: Goddard Space Flight Center da NASA / CI Lab

Na animação acima “as estrelas de nêutrons condenadas giram em direção a sua morte. As ondas gravitacionais (arcos pálidos) sangram a energia orbital, fazendo com que as estrelas se aproximassem e fundissem. À medida que as estrelas colidem, alguns detritos se afastam em jatos de partículas movendo-se a quase a velocidade da luz, produzindo uma breve explosão de raios gama (magenta). Além dos jatos ultra rápidos que alimentam os raios gama, a fusão também gera detritos móveis mais lentos. Um fluxo gerado pela acreção do remanescente da colisão emite luz ultravioleta que se desvanece rapidamente (violeta). Uma nuvem densa de detritos quentes são arremessados das estrelas de nêutrons logo antes da colisão produzir luz visível e infravermelha (azul-branco através de vermelho). O brilho UV, óptico e infravermelho próximo é designado coletivamente como um kilonova. Mais tarde, uma vez que os restos do jato dirigido para nós se expandiram para a nossa linha de visão, os raios X (azul) foram detectadas. Esta animação representa fenômenos observados até nove dias após o GW170817.” (Citação traduzida da descrição do vídeo da animação.)

Nesse caso dois foram os observatórios que detectaram as ondas gravitacionais: o primeiro o VIRGO, na Itália, e depois o LIGO, nos EUA. Nós já discutimos aqui no blog das Cientistas Feministas o que são ondas gravitacionais, porquê elas são bacanas e como esses interferômetros funcionam. Então, vamos partir para alguns detalhes da colisão das estrelas de nêutrons.

 

Diário de pesquisa de 2 estrelas morrendo e 70 observatórios

Há mais de 130 milhões de anos atrás, 2 estrelas de nêutrons, com aproximadamente 20 Km de diâmetro cada, e orbitando uma entorno da outra a 300 Km de distância, começaram a ganhar velocidade (aproximadamente ⅓ da velocidade da luz) enquanto se aproximavam cada vez mais nos momentos que se seguiram a sua colisão.

Muito tempo depois, no dia 17 de agosto de 2017 do calendário terráqueo, o observatório VIRGO detectou o sinal de ondas gravitacionais compatível com o esperado de colisões entre 2 estrelas de nêutrons. E 22 milisegundos depois, o observatório LIGO detectou o mesmo sinal.

“Ouvindo” a colisão de 2 estrelas de nêutrons: reconstrução do sinal de GW170817.
Presta atenção depois dos 50s!
Créditos: LIGO/University of Oregon/Ben Farr

 

Em menos de 1,7 segundos depois (de VIRGO), o telescópio espacial Fermi (NASA/EUA) detectou um pico fraco de luz altamente energética (raios gama do espectro electromagnético).

 

Comparando sinais: Observe que o pico no sinal de raios gama detectado pelo telescópio Fermi/NASA ocorre aproximadamente 2 segundos depois que ondas gravitacionais atingem os detectores do observatório LIGO.
Créditos: NASA’s Goddard Space Flight Center, Caltech/MIT/LIGO Lab

A partir das  informações dos três observatórios foi possível triangular a região no espaço aonde estaria a fonte e, sabendo-se que uma coincidência desse tipo tem 0,2% de chance de acontecer, mais de 70 observatórios na Terra e no espaço receberam as coordenadas para observar o evento. Nas duas semanas que sucederam, o fenômeno foi observado em várias frequências do espectro eletromagnético, além dos raios gama: raios X, ultravioleta, luz visível, infravermelho e rádio. É a primeira vez que vemos (espectro eletromagnético, inclusive visível) e “ouvimos” (ondas gravitacionais) um evento desse tipo. E por isso, o evento de detecção de ondas gravitacionais GW170817 será o marco que deu início a astronomia de multi-mensageiros.  Dá uma olhada na animação anterior simulando os dados obtidos nos 9 primeiros dias.

 

Resultado: Kilonovas trazem ouro, muito ouro! E mais da metade dos elementos da tabela periódica!

É basicamente isso: 54 elementos da tabela periódica ainda não tinham sua origem e/ou abundância confirmada pelos cientistas. Suspeitava-se que fossem formados em eventos tais como colisões de estrelas de nêutrons, mas só agora fomos capazes de ter certeza.

A origem dos elementos do Sistema Solar.
Créditos: Jennifer A. Johnson/The Ohio State University/NASA/ESA

 

Na tabela periódica acima temos indicadas as origens dos elementos: em azul os que foram produzidos durante o Big Bang; em violeta os gerados durante fissão de raios cósmicos; em verde, durante explosão de estrelas massivas; em azul claro, durante explosão de anãs brancas; em amarelo, durante a morte de estrelas de baixa massa; e, finalmente, 54 elementos (todos mais pesados que o zircônio) são produzido em explosões causadas pela colisão de estrelas de nêutrons (kilonovas).

Lembra dos números do início do artigo? Só para se ter uma ideia, foram produzidos em aproximados 1,5 minuto mais 50 vezes a massa da Terra em prata, 100 vezes a massa da Terra em ouro, 500 vezes a massa da Terra em platina, e mais as respectivas proporções dos outros 51 elementos. É estimado que esse único evento de kilonova espalhou mais de R$ 320 octilhões de reais só em ouro pelo Universo, ou seja,

R$320.000.000.000.000.000.000.000.000 !

Com esse dinheiro dava para pagar uns 10 quatrilhões de LIGOs! É orçamento para cada país no mundo ter mais de 50 trilhões de LIGOs! o.O

Ok… Parei aqui com os delírios de grandeza. Na próxima a gente se encontra e conversa mais sobre como os elementos químicos são formados.

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Nota: Todas as estimativas feitas no presente artigo usaram as estimativas em dólar oferecidas neste e neste artigos. E, em reais, segundo este. A cotação entre dólar em reais foi estimada em US$1,00 por R$3,20 só a título de ilustração. As fontes já foram também citadas ao longo do texto.

 

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Animais doentes se isolam dos membros do grupo

O que fazemos quando ficamos extremamente doentes? Apesar da frequente vontade de nos isolar do mundo, sempre há uma demanda maior pelo cuidado e atenção das pessoas próximas. Nesse caso, quantas vezes essas pessoas também não ficaram doentes junto com a gente?

Apesar das muitas vantagens de se viver em sociedade – como a divisão do trabalho, por exemplo – uma das desvantagens mais proeminentes é a maior possibilidade de transmissão de doenças entre os membros do grupo [1]. E quem pula carnaval sabe muito bem disso. Não dá pra acordar na quarta-feira de cinzas e dizer que você está completamente sadio depois de todo aquele contato social.

louva

Louva-Deus se limpando. Um comportamento importante para evitar a dispersão de parasitas.

Os animais se utilizam de diversos mecanismos para evitar que uma doença se espalhe entre os membros do grupo. Algumas possibilidades são o tratamento através de automedicação (saiba mais nesse texto); comportamentos como o de limpeza corporal (ou grooming), que observamos em vertebrados [2] e invertebrados [3]; e o isolamento do grupo.

Quando ficam doentes, indivíduos de algumas espécies simplesmente se afastam do grupo, reduzem sua interação com outros e morrem sozinhos [4]. Apesar dessa história parecer extremamente triste e solitária, os efeitos podem ser bastante benéficos para o grupo social.

Um estudo realizado por Patrícia Lopes e colaboradores na Universidade de Zurich, Suíça [5], mostrou que ratos da espécie Mus musculus domesticus injetados com um produto bacteriano (lipopolissacarídeos de Escherichia coli) deixam de interagir com os seus colegas de grupo. Apesar de existirem mecanismos de reconhecimento do colega doente pelos outros indivíduos, eles não parecem evitar a presença do indivíduo infectado. Este isolamento é provocado pelo comportamento do próprio rato adoentado. É como se ele ativamente se removesse do grupo. Além disso, os pesquisadores puderam perceber que esse comportamento diminuiu a disseminação da infecção entre os outros membros do grupo, tornando o comportamento benéfico em longo prazo.

rato

Mus musculus domesticus

Os autores do estudo [5] ainda discutem sobre a importância dos seus resultados para os modelos de transmissão de doenças, que são como previsões de que modo uma doença vai se disseminar em uma população. Esses modelos são essenciais para as ações de controle e prevenção de doenças em populações humanas. Segundo eles, os modelos tradicionais não levam em consideração os efeitos das doenças no comportamento dos indivíduos infectados, como pudemos observar no exemplo dos ratinhos. A inclusão desse efeito comportamental seria um ponto essencial para aumentar o poder de previsão dos modelos quanto à velocidade e a magnitude da disseminação de doenças.

Links:

Macaquinhos fazendo gromming

Referências:

[1] Alcock, J., 2016. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. Artmed Editora.

[2] Mooring, M.S., Blumstein, D.T. and Stoner, C.J., 2004. The evolution of parasite-defence grooming in ungulates. Biological Journal of the Linnean Society, 81(1), pp.17-37.

[3] Zhukovskaya, M., Yanagawa, A. and Forschler, B.T., 2013. Grooming behavior as a mechanism of insect disease defense. Insects, 4(4), pp.609-630.

[4] Formigas doente se isolam para morrer

[5] Lopes, P.C., Block, P. and König, B., 2016. Infection-induced behavioural changes reduce connectivity and the potential for disease spread in wild mice contact networks. Scientific reports, 6.  

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Será que o pâncreas artificial já está entre nós?

A médica que começou meu tratamento quando eu recebi o diagnóstico de diabetes tipo 1, em 2006, me disse “A cura está pra ser descoberta nos próximos cinco anos desde que eu me formei em medicina, nos anos 70… eu acho que a cura pela tecnologia vai vir antes da cura pela medicina!”. Parece que ela tinha razão: desde então foram lançadas insulinas novas mais rápidas e mais lentas, bombas de insulina mais fáceis de usar e até que recebem continuamente via Bluetooth os valores lidos por monitores contínuos de glicemia, mas, como esperado, nada de cura. E nem de pâncreas artificial, mas a coisa está melhorando.

O diabetes tipo 1 é, digamos, o irmão meio negligenciado do diabetes tipo 2. Na minha vida depois do diagnóstico já me perguntaram se é o diabetes de criança, se é daquele mais grave, se eu nasci assim… Como atinge, em geral, apenas de 5 a 10% do total de pacientes com a doença, nem todo mundo sabe o que é ou como se desenvolve. Explico: em 95% dos casos, é uma doença autoimune que destrói as células beta no pâncreas, as que produzem insulina; nos outros 5% a causa é desconhecida, mas o resultado é o mesmo. Isso significa que o paciente vai precisar tomar insulina pro resto da vida (desde o diagnóstico e pra sempre!) – um tipo basal, que dura várias horas, e um tipo rápido, tomado em função da quantidade de carboidrato ingerida nas refeições, ou usar uma bomba de insulina 24h por dia só com esse último tipo. Não tem relação com a dieta ou massa corporal e, na maior parte das vezes, se desenvolve em crianças, adolescentes e adultos jovens. E não, a gente não nasceu diabético. 

Se você não é diabético, generalizando bastante, sua vida é mais ou menos assim:

Não diabético

Adaptada e traduzida daqui

Já se você é um diabético que tem a sorte de ter um sensor que detecta continuamente a glicemia (ou CGM, continuous glucose monitoring, em inglês), sua vida é mais ou menos assim:

Diabético

Os sistemas atuais de infusão contínua de insulina (mais conhecidos como bombas de insulina) mais comuns não são automatizados e, para explicar de maneira simples, apenas inserem insulina no paciente (sim, é só isso mesmo!), de acordo com uma programação feita pelo paciente em conjunto com profissionais de saúde, que pode ser alterada com base nos resultados de glicemia medidos, em geral, com um glicosímetro e uma gota de sangue de 6 a 8 vezes por dia (e/ou, quando possível, por sensores contínuos ou por esse sensor flash aqui), e também com a ingestão de carboidratos, quando o próprio usuário da bomba aciona a infusão de insulina de acordo com relações individuais de sensibilidade insulina/carboidrato. A ideia do pâncreas artificial é simplificar a vida do paciente, fazer um dispositivo capaz de se adaptar às mudanças de alimentação e/ou atividade física e inserir insulina de acordo com a glicemia, que seria medida por um sensor contínuo muito preciso. Pode parecer simples, mas não é.

O pâncreas é um órgão-glândula que a gente só lembra que tem quando dá problema. Quando ele funciona normalmente, produz, entre outras coisas, insulina e glucagon, que é um hormônio com ação antagônica à da insulina. É esse hormônio que ativa a reação de liberar o estoque de glicogênio – que será reconvertido em glicose – do fígado quando a concentração de glicose no sangue está muito baixa. Pra ser considerado um pâncreas artificial, o dispositivo precisaria responder quase que instantaneamente à glicemia do paciente enquanto ele leva uma vida normal, e ainda é muito difícil detectar a glicemia automaticamente de forma suficientemente precisa. Além disso, as insulinas análogas mais rápidas demoram em média pelo menos 15 minutos pra começar a agir e só atingem o pico de ação depois da primeira hora, o que significa que, mesmo que glicemia fosse detectada com precisão, o atraso da ação não instantânea da insulina inserida externamente no tecido subcutâneo vai interferir no resultado da glicemia do paciente. E, também, não ter infusão de glucagon em caso de hipoglicemia impede que a ação do fígado seja rápida no sentido de aumentar a concentração de glicose no sangue em caso de hipoglicemia.

Na França, desde 2011, uma empresa  está desenvolvendo um sistema fechado de infusão de insulina em parceria com diversas universidades. Já foram realizados testes com pacientes e o lançamento é esperado para a partir de 2018. Esse ano o projeto recebeu um investimento de 13,5 milhões de euros. Na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, um protótipo foi desenvolvido também em 2011 e atualmente está fase de testes. Ano passado sua eficiência foi demonstrada também para mulheres grávidas com diabetes tipo 1. Recentemente, uma empresa norte americana lançou um sistema híbrido com retroalimentação, ou loop fechado (nesse caso significa que o dispositivo responde e ajusta sozinho as doses basais de insulina de acordo com os dados de glicemia do paciente, medidos por um sensor de glicemia já bastante preciso), que já foi aprovado pela FDA, instituição reguladora de medicamentos e tecnologias médicas dos EUA, para pacientes acima de 14 anos. De acordo com os estudos da empresa, esse sistema diminui o tempo que o paciente passa em hiper e hipoglicemia, reduz a variabilidade da glicemia, aumenta a segurança durante a noite e melhora as glicemias de jejum, reduzindo o fardo da doença.  Esse sistema não é completamente automatizado – ele não insere insulina automaticamente para refeições, por exemplo – por isso a designação híbrido. E não posso esquecer também do incrível projeto #openAPS (the Open Artificial Pancreas System project), resultado do movimento #WeAreNotWaiting, iniciado por pessoas com diabetes tipo 1 nos EUA, que, cansados da lentidão do processo de inovação das empresas tradicionais e do pouco acesso que os pacientes têm à tecnologia, decidiram fazer elas mesmas um sistema de infusão de insulina em loop fechado. Esse movimento hoje já conta com 400 pacientes usuários do sistema, eles próprios fazem toda a programação, e foi encabeçado pela norte-americana Dana Lewis.

Apesar desses avanços e do grande número de empresas envolvidas em fazer esses sistemas, ainda há muitos desafios para o funcionamento ideal desses dispositivos. E, pra piorar, por enquanto não há sequer previsão de chegada desses sistemas ao Brasil, e nem estimativa de preço ou de entrada dessas tecnologias no nosso SUS. Para dar um exemplo, a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS) só emitiu parecer favorável à inclusão das insulinas análogas ao SUS em fevereiro de 2017, enquanto no Reino Unido, por exemplo, essas insulinas estão disponíveis aos pacientes desde meados da década de 90. E as bombas de insulina, mesmo quando bem indicadas, só são adquiridas por meio de judicialização… Por falar nisso, a incorporação de tecnologias ao SUS é um excelente tema para um próximo texto.

De todo jeito, mesmo que para os brasileiros o futuro ainda esteja incerto, os próximos anos parecem prometer uma versão de quase-cura, para os que, como eu, não têm descanso com essa história de glicemia. Ou, no mínimo, novos gadgets para se divertir, afinal ter diabetes também pode ser cool.

 

Para saber um pouco mais sobre diabetes e as diretrizes do tratamento no Brasil:

http://www.diabetes.org.br/sbdonline/images/docs/DIRETRIZES-SBD-2015-2016.pdf