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Pandemia de COVID-19: Quando a Saúde precisa encontrar as Ciências Humanas

Créditos: Canva

Nos últimos dias, temos acompanhado o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas, especialmente na capital, Manaus, que sofre com a falta de cilindros de oxigênio nos hospitais. Situação que se agrava diante do recorde de internações por COVID-19 na cidade.¹ Para piorar, muitas pessoas estão infectadas pelo que foi identificado como uma nova cepa do vírus, ou seja, uma nova variante dele, que parece capaz de se espalhar mais depressa dos que as outras cepas até então verificadas no país.² Tudo isso integra um preocupante cenário mais amplo: o Brasil tem, hoje, a maior média diária de casos de COVID-19 desde o início da pandemia. São mil mortes diárias pela doença.³ O número assusta, mas não se pode dizer que surpreende.

Desde a primeira quinzena de agosto de 2020, o infectologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia, alerta para a subida da curva de óbitos na capital amazonense. Em setembro, os números continuaram subindo. A equipe de Orellana, então, recomendou o lockdown ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Secretaria de Saúde do Estado.² Apesar do aumento do número de mortes e casos confirmados de COVID-19 no Amazonas, o governador Wilson Lima cedeu às pressões dos comerciantes e permitiu a reabertura do comércio não essencial: bares, restaurantes, cinemas, casas de show.4 O estímulo à economia serviu de justificativa para a retomada de atividades comerciais que, meses depois, elevariam ainda mais o número de infectados e de mortes.

Manaus não foi a única capital a ignorar pesquisadores e profissionais de saúde. O Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DMIFC-UERJ), em cartas abertas ao público, há meses aponta como o enfrentamento à pandemia tem evoluído de forma equivocada e lenta no país, com negação de sua gravidade ou mesmo de sua existência. Em dezembro de 2020, o DMIFC-UERJ alertou que, enquanto protocolos de saúde estavam sendo flexibilizados e acelerados, com grandes interesses econômicos e políticos envolvidos nessa corrida, não havia movimentação para garantir os recursos necessários à aplicação da(s) futura(s) vacina(s), treinamento de profissionais ou ao estabelecimento da logística de distribuição — problemas que se refletem hoje, no baixo número de vacinas disponíveis até mesmo para um único segmento dos grupos prioritários.5 À época, não havia sequer trabalhos coordenados nas esferas municipal, estadual e federal para garantir uma vacinação segura.

A denúncia se torna mais grave ao considerarmos a existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é responsável pela aplicação de mais de 300 milhões de doses anuais de vacinas, soros e imunoglobulinas por todo o território nacional. Contudo, o desmonte do SUS afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. “A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública”, esclarece Maria Inez Padula Anderson, professora do DMIFC-UERJ, em entrevista concedida também em dezembro ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Ela continua: “Todas as informações — que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde — só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica”. Por fim, sentencia: “O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem — de forma proativa e deliberada — desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”.

Vale lembrar que profissionais de saúde de boa parte dos Estados permanecem sem instruções claras de como funcionará o início do processo de imunização no Brasil. Além disso, muitos profissionais de saúde, entre eles, os médicos da rede pública do Rio de Janeiro, têm atuado em condições precárias, com atraso ou falta de pagamentos, cortes nos direitos trabalhistas e escassez de equipamentos de proteção individual adequados durante a pandemia.6 Até o dia 14 de janeiro de 2021, entre os nove Estados que abrigam a Amazônia brasileira, foram registrados 739 falecimentos de indígenas, pertencentes a 103 povos distintos. Apesar disso, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, o Ministério da Saúde pressionou a distribuição de tratamento precoce contra COVID-19 pela rede pública de saúde estadual e municipal. O chamado kit covid contém remédios com cloroquina, hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina e até do antiparasitário ivermectina, que são administrados como tratamento preventivo para a doença, mesmo sem terem eficácia comprovada.7 Diferentes cidades da região norte do Brasil já decretaram estado de calamidade pública devido à falta de condições para atender aos infectados pela COVID-19. Pessoas estão morrendo em casa, por sufocamento — dos pulmões e dos hospitais.

Nessas horas, o diálogo com as Ciências Humanas seria proveitoso. Os estudos sociais apontam, há décadas, que não existe economia fortalecida com uma população fragilizada. Que comportamentos individuais se inserem dentro de conjunturas mais amplas, que devem ser levadas em consideração. Que todo discurso é dotado de intencionalidade, contribuindo para determinadas agendas. Por isso, devemos nos atentar aos interesses por trás dos discursos proferidos pelos principais responsáveis (Governo Federal, Ministério da Saúde, institutos de pesquisa, laboratórios farmacêuticos etc.) pelo gerenciamento da pandemia. Eles visam o bem maior? Têm embasamento empírico, ou seja, se apoiam no registro de fenômenos e estudos que acontecem durante o cenário pandêmico?

Na área de Comunicação Social, particularmente, existem trabalhos dedicados a mapear redes de informação (ou desinformação), buscando entender como essas comunidades se formam, os agentes que as sustentam, os valores e pautas que nelas circulam, os arranjos (inclusive midiáticos) que permitem sua continuidade.8 Diferentes estudos apontam que as mensagens que alguém assimila e transmite dialogam com aquilo em que já acredita ou que gostaria que se comprovasse. Isso reforça sua visão de mundo, constrói sensação de segura. Para dialogar com essas pessoas, portanto, seria preciso entender de que referenciais elas partem ao ler os acontecimentos e notícias ao seu redor. Assim, é possível pensar estratégias de comunicação adequadas para alcançar diferentes grupos sociais de forma mais eficiente, checando como as mídias (tradicionais ou não) podem ser acionadas nesse processo. Foi esse o esforço empreendido na China para orientar a população sobre os cuidados necessários para conter a circulação do coronavírus, que se deu com apoio da Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Ela abriga um departamento de comunicação científica, cuja função é servir de ponte entre os pesquisadores e o público para promover a compreensão da ciência. Durante a pandemia, a CAST garantiu que as campanhas informacionais alcançassem cada canto do território chinês, por variados meios: mídia impressa, rádio, TV e plataformas online. 9

Por outro lado, existem indivíduos e veículos comunicacionais que deliberadamente disseminam informações distorcidas ou falsas, tendo em vista algum objetivo (político, social, econômico) que os contemple. É necessário mapear esses agentes, aplicando sobre eles penas correspondentes ao dano que tenham causado. Reformulações nas leis vigentes propostas por pesquisadores e profissionais do Direito, da Comunicação, das Ciências Políticas e de áreas afins buscam atualizar o código penal para que abarque crimes como o espalhamento intencional de fake news.10

A junção dessas diferentes análises e pesquisas permite traçar planejamentos mais assertivos por parte dos poderes públicos. Por exemplo, o isolamento social de uma faxineira que ganha salário mínimo e divide um sobrado com outras cinco pessoas é diferente do isolamento social de um engenheiro que recebe salário alto, mora em um apartamento espaçoso e consegue trabalhar de casa. Para evitar que pessoas que se encaixam na primeira categoria se exponham ao vírus para complementarem a renda, um auxílio-emergencial de maior valor deve ser concedido a elas, em tempo hábil. Assim como a comunicação sobre o isolamento social dirigida à faxineira e ao engenheiro precisa ser capaz de dialogar com as vivências de cada um deles.

Conversar com representantes de comunidades ou grupos sociais, entender suas demandas, conhecer seu estilo de vida. Entre outros efeitos, esses métodos, comuns em trabalhos qualitativos nas Ciências Humanas, facilitariam a implementação de hábitos recomendados pelos pesquisadores para reduzir a circulação do coronavírus entre moradores de determinadas regiões de uma cidade ou Estado. A área de Humanidades aponta e registra problemas que, posteriormente, podem ser resolvidos por intervenções de outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, há empresas que adotam o trabalho remoto. Em outras, os funcionários precisam trabalhar presencialmente, seja porque sua atividade só pode ser desempenhada dessa forma, seja por se tratar de uma decisão empresarial que não considera o contexto pandêmico.11 Esses trabalhadores precisam utilizar o transporte público tanto na ida quanto na volta do trabalho. É necessário, portanto, realizar um planejamento para que não haja aglomerações no trajeto que esses trabalhadores costumam fazer. E assim por diante.

Como os pesquisadores da Saúde, os cientistas de Humanas também prezam pela integridade e dignidade do ser humano, entendendo que ele se insere em um corpo social. Corpo este que rege todas as relações e estruturas que atravessam as pessoas e as comunidades às quais pertencem. Se a pandemia ensina algo, é que o bem mais valioso que temos é a vida. Ensinamento que os povos originários sul-americanos há muito já transmitem, e vêm sendo retomado nos trabalhos de diferentes cientistas sociais (muitos deles, também indígenas). No combate à COVID-19, as Ciências Biológicas salvam vidas. A luta das Ciências Humanas é assegurar que as vidas salvas sejam acolhidas, para que pulsem com saúde, respeito, potência, construindo um Brasil mais funcional e justo.

1 G1 AM. Superlotado, maior pronto-socorro do AM recusa novos pacientes. [15/01/2021]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/01/15/superlotado-maior-pronto-socorro-do-am-para-de-receber-novos-pacientes.ghtml

2 Uol Notícias. ‘Explosão de casos em Manaus é de nova cepa’, aponta infecciologista. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2021/01/15/explosao-de-casos-em-manaus-e-de-nova-cepa-aponta-epidemiologista.htm

3 Agência Brasil. Covid-19: Brasil tem 8,39 milhões de casos e 208,1 mil mortes. [15/01/2021]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/covid-19-brasil-tem-839-milhoes-de-casos-e-2081-mil-mortes

4 G1 AM. Publicado decreto que estabelece as regras de reabertura do comércio no Amazonas. [28/12/2020]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/12/28/publicado-decreto-que-estabelece-as-regras-de-reabertura-do-comercio-no-amazonas.ghtml

5 Uol Notícias. Secretário de SP admite início tímido de vacinação e projeta mais doses. [18/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/secretario-de-sp-admite-inicio-timido-de-vacinacao-e-projeta-mais-doses.htm?cmpid=copiaecola

6 Conforme denunciado pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Ver mais em: https://www.facebook.com/SinMedRio/posts/1691484071032730

7 Uol Notícias. MPF investigará prioridade à cloroquina e não ao oxigênio em Manaus. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/mpf-investigara-improbidade-por-prioridade-a-cloroquina-e-nao-ao-oxigenio.htm

8 Thaiane Oliveira tem trabalhado os conceitos de desinformação científica e fake sciences ligadas à saúde. Para mais investigações sobre redes de desinformação, checar os trabalhos de Afonso de Albuquerque, Viktor Chagas e Marcelo Alves. Todos os pesquisadores aqui referidos pertencem ao PPGCOM UFF.

9 Na província chinesa de Zhejiang, por exemplo, medidas de comunicação científica multinível foram adotadas para prevenção e controle de doenças, o que inclui a COVID-19. Ver mais em: https://go.nature.com/3p4mwYT

10 ConJur. Especialistas afirmam: ‘Lei das Fake News’ é fundamental para o Brasil. [10/07/2020]. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/especialistas-afirmam-lei-fake-news-fundamental-brasil

11 A precarização do trabalho durante a pandemia tem sido tema de discussão em diferentes áreas e trabalhos das Ciências Humanas. Checar, por exemplo, a entrevista concedida ao Jornal da USP por Wilson Amorim, professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-da-covid-19-acentuou-precarizacao-das-relacoes-de-trabalho/

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Inovação em diagnóstico para infarto agudo do miocárdio

     As doenças cardiovasculares, antes da pandemia do novo coronavírus, consistiam na primeira causa de morte no Brasil, sendo atualmente a segunda causa (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm). Dentre estas doenças, o infarto agudo do miocárdio, foi projetado para ser a principal causa em 2020 (https://portalatlanticaeditora.com.br/index.php/enfermagembrasil/article/view/776/html).

     O infarto ocorre com a diminuição ou ausência do fluxo sanguíneo para o coração, comumente por obstrução de artéria coronária causada por placas de colesterol (placa de ateroma) que desencadeiam processo inflamatório. Desta forma, as células cardíacas são privadas de nutrientes e de oxigênio e podem morrer: o que conduz à lesão do órgão e prejuízo parcial ou total de sua capacidade de bombear sangue (https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio).

     São reconhecidos cinco tipos de infarto: 1) o que tem a presença da placa de ateroma como fator causador; 2) o causado por desequilíbrio entre consumo de oxigênio e sua oferta ao músculo cardíaco, pós cirurgia ou devido à anemia, por exemplo; 3) o fulminante que causa morte súbita; 4) o que sucede angioplastia coronária após a qual restam fragmentos da placa de ateroma ou há formação de trombos no stent (estrutura metálica colocada pela equipe médica no interior da artéria – Figura 1); 5) o que sucede a cirurgia de ponte de safena (https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/).

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Figura 1: Stent. Fonte: https://folhadomate.com/noticias/cateterismo-cardiaco-pelo-sus-apenas-em-casos-de-emergencia/ e http://www.sobrice.org.br/paciente/procedimentos/angioplastia-e-colocacao-de-stent.

     Dentre os sintomas mais comuns estão dor no peito irradiando para queixo, ombro e braço esquerdos, sudorese, náusea e dificuldade para respirar. No entanto pode não manifestar-se por meio de sintomas (https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm).

     Dada a importância do socorro o mais rápido possível para definir o destino do paciente, diferentes grupos de pesquisa pelo mundo tem buscado descobrir eficientes biomarcadores (para definição: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/12/13/fadiga-cronica-e-a-relacao-com-a-microbiota-intestinal/) para indicar com segurança o risco de o paciente vir a sofrer o infarto.

     São pesquisados no sangue dos pacientes com suspeita de infarto agudo do miocárdio os níveis de triglicerídeos (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/), colesterol total, HDL (lipoproteína de alta densidade), LDL (lipoproteína de baixa densidade) (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/), ácido úrico (https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/) e a presença de biomarcadores como mioglobina, creatina quinase-MB e troponina cardíaca I (https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca).

     Visando reduzir o tempo de espera pelos resultados e gerar economia no diagnóstico um grupo de pesquisadores chineses, sob coordenação dos professores Yongxiang Zhao e Nongyue He da Guangxi Medical University, recentemente publicou um artigo com um novo método de diagnóstico (Figura 2) com realização simultânea de todas as medidas relatadas no parágrafo anterior (Huang et al., 2020).

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Figura 2: Novo dispositivo para realização simultânea de 8 importantes exames para determinar risco, detectar e acompanhar a evolução do infarto agudo do miocárdio. Fonte: Adaptado de Huang et al., 2020.

     Os pesquisadores desenvolveram uma tira com duas seções importantes: uma delas fica sob o local no qual o soro do paciente (amostra) é depositado. Nesta seção existem 4 diferentes regiões para detecção fotométrica (através da geração de compostos coloridos) e determinação de concentração de: 1) colesterol (TC); 2) triglicerídeos (TG); 3) HDL (HDL-C);  4) ácido úrico (UA). Os níveis de LDL podem ser calculados com base nos resultados (https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main). Na outra seção a detecção de biomarcadores ocorre por meio de fluorescência para verificar a presença de mioglobina (Myo), creatina quinase (CK-MB) e troponina (cTnI) através de anticorpos que identificam cada uma destas proteínas.

     Os resultados de experimentos realizados utilizando-se amostras de pacientes foram mais precisos e rápidos do que os obtidos pelos métodos atualmente em uso, fazendo do novo método proposto uma interessante ferramenta para diagnosticar o infarto agudo do miocárdio e também determinar o risco de sua ocorrência em pacientes.

        

Referências

Fiorini D (2019) O ácido úrico vai muito além da gota. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/>. Acesso em: 24/08/2020.

Fleury (2020) Infarto Agudo do Miocárdio. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio>. Acesso em 24/08/2020.

Fleury (2007) Marcadores bioquímicos de lesão cardíaca. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca>. Acesso em 24/08/2020.

HCor (2020) Infarto agudo do miocárdio: adote hábitos saudáveis e proteja seu coração. Disponível através do link <https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/>. Acesso em 24/08/2020.

Huang L, Zhang Y, Su E et al. (2020) Eight biomarkers on a novel strip for early diagnosis of acute myocardial infarction. Nanoscale Adv 2: 1138.

Kruse, T (2020) Coronavírus supera câncer e enfarte; por dia, já é a 1ª causa de mortes no Brasil. Disponível através do link <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm >. Acesso em 23/08/2020.

Pronin T (2018) Infarto: dor no peito não é único sinal; veja sintomas e causas da doença. Disponível atrvés do link <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm>. Acesso em 24/08/2020.

Silva AS, Ferraz MOA, Biondo CS, de Oliveira BG (2018) Características sociodemográficas das vítimas de infarto agudo do miocárdio no Brasil. Enfermagem Brasil 17(6): 1-4.

UFPEL (2014) Calculadora de LDL Colesterol. Disponível através do link <https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Triglicérides e doença das coronárias. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Risco de ataque cardíaco. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

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Dieta low-carb: heroína ou vilã?

A dieta conhecida como “low-carb”, ou pobre em carboidratos, se tornou muito popular nos últimos anos entre aqueles indivíduos que procuram perder peso. Essa dieta é definida pelo consumo reduzido de carboidratos (presente em pães, massas, cereais e frutas), em detrimento do aumento da ingestão de proteínas (presente em carnes, ovos, leite e feijões) e gorduras (óleos, manteiga, queijos e castanhas). A conduta divide opiniões entre profissionais e cientistas.  

A primeira controvérsia reside no fato da dieta variar bastante na quantidade de carboidratos, bem como no restante dos alimentos que a compõe, tornando difícil a padronização e agrupamento nos estudos científicos. Segundo uma revisão publicada em 2019, nossa alimentação pode ser definida como (1):

1. Muito baixa em carboidratos: < 10% do valor calórico ingerido no dia ou 20-50 mg/dia

2. Baixa em carboidratos: <26% do valor calórico ingerido ou < 130 mg/dia

3. Moderada em carboidratos: 26-44% do valor calórico ingerido

4. Alta em carboidratos: a partir de 45% do valor calórico ingerido ou mais

A circunferência abdominal aumentada é um dos principais riscos para doenças do coração. Fonte: blogs.jornaldaparaiba.com.br

Em relação aos efeitos no organismo, alguns estudos avaliaram o efeito a curto prazo sobre a perda de peso e relataram que a redução do carboidrato foi eficiente em promover a perda de peso e reduzir o risco metabólico (menor pressão arterial, menor circunferência abdominal, colesterol e inflamação) enquanto que outros, que avaliaram o efeito a longo prazo, encontraram maior mortalidade e resultados controversos, dependendo da população estudada – benefício não encontrado em populações orientais e mulherem americanas, por exemplo.(1,2). A maior limitação desses estudos reside no fato de eles serem de observação, usarem dados heterogêneos (misturarem vários tipos de dietas) e usarem metodologias falhas com falta de poder estatístico pra encontrar a associação entre os alimentação e mortalidade.

Pensando em preencher algumas dessas lacunas, Mohsen Mazidi e um grupo de pesquisadores da Academia de Ciências, Hospital das Forças Armadas Chinesas, Hospital Hippocration na Grécia, Universidade College London na Inglaterra, Universidade Place no Reino Unido, Universidade Médica de Lodz na Polônia e o Centro de Pesquisa Cardiovascular da Universidade de Zielona Gora publicaram em abril deste ano um estudo na revista European Heart Journal avaliando dados de um grande estudo de coorte (saiba mais aqui), conhecido como NHANES – um dos mais importantes para a pesquisa em saúde. Neste trabalho os autores focaram na saúde e mortalidade geral e por causas específicas, uma vez que a dieta “low-carb” pode levar ao aumento da ingestão de gordura, fator conhecidamente associado a risco cardiovascular(2). Também foi realizada uma revisão sistemática e metanálise com 9 estudos prospectivos e 462 mil participantes.

Para o estudo de coorte, os autores avaliaram os dados de 24825 participantes adultos acima de 20 anos, usando 2 anos de ciclo da pesquisa entre 1999 e 2010. Os dados dietéticos dos participantes foram avaliados por meio de questionários contendo todos os alimentos e bebidas consumidos dois dias antes de cada entrevista. O consumo de carboidratos foi categorizado em quartis desde 0 (considerado alta ingestão, representando 66% do valor calórico consumido) até 10 (considerado baixa ingestão, representando 39% do valor calórico consumido) e calculado em relação ao total de energia consumido. 

Os resultados do estudo do NHANES mostraram que o consumo dos 3 quartis mais altos de carboidratos foi maior nas mulheres, e que a maioria dos participantes com menor escolaridade apresentavam o quartil mais baixo de ingestão de carboidratos. Em relação aos desfechos de saúde, a mortalidade total foi positivamente associada nos com a menor quantidade de carboidratos consumidos, mesmo após ajustes para outros fatores, mantendo-se para causas específicas como morte por doenças cerebrovasculares, cardiovasculares e câncer. Ao separar pelo estado nutricional, a associação se manteve em obesos e não obesos, sendo mais forte nos participantes não obesos. Os resultados na metanálise corroboraram com esses achados, indicando associação positiva entre a dieta low-carb e a mortalidade total, morte por doença cardiovascular e câncer, com ótima sensibilidade. Ao se avaliar a ingestão de proteína, o padrão baixo carboidrato/alta proteína foi associado significativamente com maior mortalidade.

Assim, os autores concluem que existe efeito adverso potencial ao se adotar a alimentação “low-carb” a longo prazo, associado a maior mortalidade e mortalidade cerebro-cardiovascular e por câncer, considerando 39% de carboidratos na dieta. Uma das possíveis explicações para esse resultado é que a redução dos carboidratos acompanham menor ingestão de fibras, presente nas frutas e nos cereais integrais – fator reconhecidamente protetor para a saúde, e aumento do consumo de proteína animal (rica em colesterol e gordura saturada). Entretanto, apesar de resultados expressivos, o artigo não põe fim à discussão, uma vez que dietas com menos de 39% de carboidratos, ou seja, aquelas com baixo e muito baixo teor de carboidratos não foram avaliadas no estudo – mas acende um alerta importante sobre as mudanças alimentares sem orientação adequada. 

A metanálise mostrou que a dieta low carb se associou a maior mortalidade (Favours B), indicado no lado direito do gráfico. Fonte: European Heart Journal, ehz174, https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehz174

Enquanto aguardamos novos resultados, a mensagem principal é que nossa alimentação deve ser equilibrada, orientada por profissional habilitado e de acordo com sua necessidade e individualidade, priorizando alimentos naturais e ricos em vitaminas, minerais e fibras. É importante lembrar que dietas restritivas podem ser muito atraentes e com resultados rápidos, mas podem ser difíceis de serem mantidas e trazer efeitos indesejados, exatamente como levantado pelo estudo com dados americanos. 

Mas calma! Não podemos concluir que agora carboidratos estão liberados à vontade: nesta história, a moderação e o bom-senso ainda são os principais heróis!

1) Oh R, Uppaluri KR.Low Carbohydrate Diet. SourceStatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2019 May 13. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537084/

2) Mazidi MKatsiki NMikhailidis DPSattar NBanach M. Lower carbohydrate diets and all-cause and cause-specific mortality: a population-based cohortstudy and pooling of prospective studies. Eur Heart J. 2019 Apr 19. pii: ehz174. doi: 10.1093/eurheartj /ehz174 https://academic.oup.com/eurheartj/article-lookup/doi/10.1093/eurheartj/ehz174

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Uma nova esperança no combate à malária

A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Plasmodium, parasita que é transmitido para os seres humanos através da picada de mosquitos do gênero Anopheles. A malária é a doença transmitida por vetores que mais recebe investimentos para sua eliminação, US$ 3.1 bilhões de dólares foram investidos para a eliminação da doença no ano de 2017. Estima-se que 219 milhões de casos de malária ocorreram nesse mesmo ano , totalizando 435 mil mortes. Cerca de 90% das mortes por malária ocorreram nos países da África Sub-Saariana, acometendo principalmente crianças menores que 5 anos.

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Países com casos de malária em 2000 e seu status em 2017 – em vermelho as regiões mais afetada pela doença. Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Devido à implementação de diversas técnicas para o controle da malária, as mortes pela doença caíram 60% desde os anos 2000. As estratégias de controle são baseadas no uso de mosquiteiros tratados com inseticidas e pulverização de inseticidas dentro dos domicílios. Além do uso de testes rápidos para o diagnóstico da doença e tratamento derivados da artemisinina (artesunato + mefloquina). Apesar dos avanços no controle da doença, muitas comunidades ainda não conseguem ter acesso à essas intervenções, e é por isso que cientistas estão desenvolvendo uma vacina que seja efetiva contra a doença. Cabe ressaltar que a malária causa um importante impacto negativo na economia de países africanos.

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Plasmodium vivax se multiplicando nos glóbulos vermelhos do sangue. Fonte: Public Health Image Library (PHIL).

A vacina, que recebe o nome científico RTS,S representando sua composição ou MosquirixTM, foi desenvolvida em 1987 e de lá pra cá passou por diversos testes para testar sua eficácia. Essa vacina espera ativar o sistema imune quando o Plasmodium falciparum infecta a corrente sanguínea por meio da picada do mosquito Anopheles. A vacina foi desenvolvida para prevenir o parasita de infectar as células do fígado do paciente (período de incubação da doença). 

A vacina tem sido rigorosamente testada por uma série de testes clínicos. Na fase 3, a vacina foi testada quanto a sua segurança e efetividade, em um teste clínico envolvendo 15.459 crianças africanas. Os testes mostraram que a vacina preveniu aproximadamente 4 em 10 (39%) casos de malária e 3 em 10 (29%) casos de malária severa em um período de 4 anos.

 

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Fonte: Pixabay

Essa é a primeira vacina que proveu proteção parcial contra a malária em crianças menores de 5 anos. Após anos de testes, a vacina está pronta para ser implementada em um programa de imunização piloto que ocorrerá em três países africanos, Gana, Quênia e Malawi. Estima-se que aproximadamente 360 mil crianças receberão a vacinação junto com suas vacinas da infância. A vacina será implementada em quatro doses, uma vez por mês durante três meses e a quarta dose após 18 meses.

O programa de imunização durará seis anos. O objetivo do programa de imunização é colher o máximo de informação na efetividade e quaisquer efeitos colaterais associados ao uso da vacina, para assim poder ser implementada em um contexto mais amplo.

Apesar da eficácia da vacina ser de apenas 40%, o que não é alto em comparação a outras vacinas, ainda assim é um grande avanço rumo ao controle da malária e sua subsequente eliminação. Com menos pessoas doentes, os mosquitos terão menos oportunidades de serem infectados e carregar os parasitos e com isso infectarão menos pessoas.

Referências

Organização Mundial da Saúde – Perguntas e Respostas sobre a implementação da vacina.

Organização Mundial da Saúde – Relatório sobre a vacina contra a malária.

PATH – Explicação sobre a implementação da vacina.

 

Notícia em português

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/oms-anuncia-primeiro-teste-em-grande-escala-de-vacina-contra-malaria.ghtml

Mais sobre a malária no blog

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/18/malaria-novas-complicacoes-para-velhos-problemas/

https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/25/malaria-de-macacos-infectando-humanos-na-mata-atlantica/

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Dá pra usar tecnologia de bitcoin pra compartilhar dados de saúde?

Muita gente deve ter ouvido falar de blockchain depois de todas as histórias envolvendo o bitcoin. Pra resumir, blockchains são uma tecnologia desenvolvida para facilitar transações monetárias e evitar a necessidade de um terceiro confiável que verifique as transações e garanta a segurança dos dados e a privacidade das partes envolvidas (como faz uma operadora de cartão de crédito, por exemplo). Eles são, essencialmente, um registro distribuído de informações de transações, descentralizado e sem uma autoridade central proprietária. Essas informações são dispostas em blocos (block) organizados em cadeia (chain), e cada bloco é armazenado permanentemente e não pode ser alterado. Quando um bloco é concluído, um novo é gerado automaticamente com referência ao bloco anterior. A segurança é garantida pela verificação por milhares de computadores distribuídos na rede, de acordo com parâmetros definidos. Novas estruturas de blockchains começaram a ser desenvolvidas para uso em outras áreas, como turismo, energia ou sistemas de saúde.

Já há alguns anos, as autoridades de saúde de diversos países fazem esforços contínuos para digitalizar informações dos usuários dos sistemas de saúde e também para tornar essas informações acessíveis sem comprometer a segurança dos dados. No entanto, essa tarefa não é tão simples assim. Informações incorretas são a causa principal de erros médicos e a falta de uniformidade no armazenamento dos dados dificulta operações entre os diferentes sistemas e restringe a capacidade dos profissionais em prover tratamentos apropriados. Nos EUA, por exemplo, quase 90% dos médicos usam um sistema digital, mas nem sempre os diferentes sistemas são compatíveis. Essa falta de compatibilidade pode ser fonte de erros graves, como falhas no envio de informações de pedidos ou resultados de exames. No Reino Unido, o plano era digitalizar todos os prontuários até 2018, mas a prazo foi sendo adiado e agora está em 2023. No Brasil, o Ministério da Saúde tornou disponível o e-SUS AB, uma plataforma gratuita, mas as unidades de saúde podem optar por usar sistemas próprios e os dados só ficam disponíveis para as redes municipais.

Uma solução possível para o compartilhamento seguro desses dados seria o uso de estruturas de blockchain para melhorar a operabilidade entre os diversos sistemas implementados nas unidades de saúde, ao juntar informações sobre um mesmo usuário oriundas de sistemas independentes. Essa tecnologia também é flexível o suficiente para permitir que algo conhecido como smart contracts, ou contratos inteligentes, que são linhas de código que são executadas apenas quando determinadas condições são verdadeiras, garantindo a segurança dos dados e impedindo o acesso não autorizado. Além disso, os custos diminuem ao retirar o intermediador (empresa que provê softwares de prontuário eletrônico, por exemplo) e ao facilitar o processo de transferência de dados, que se torna imediato.

Essa revisão sistemática mostra, ao analisar 71 estudos, que a implementação de blockchains em dados de saúde pode ser economicamente viável e reduzir dificuldades de compatibilidade de software, desde que a informação não seja repetida nos computadores que compõem a rede, mas sim na nuvem. Dessa forma, até dados de outros sensores, como o smartwatch, podem ser associados ao mesmo usuário – o que pode tornar os tratamentos ainda mais personalizáveis. Uma limitação citada pelo estudo à implementação dessa tecnologia é o fato de que, da maneira que o blockchain é usado hoje, os usuários se tornam donos dos próprios dados. Isso pode ser considerado um benefício por torná-los agentes da própria saúde, mas pode ser extremamente complicado mudar a propriedade dos dados dos governos e de corporações e entregá-la aos indivíduos. Isso tudo exigiria muito conhecimento por parte dos usuários… mas é claro que pode ser um excelente desafio para a mudança necessária nos sistemas de saúde e na própria medicina como um todo.

Além desses desafios sociais, para que tudo isso se torne realidade as leis e as regulações, assim como a infraestrutura das unidades de saúde, precisam mudar. De todo jeito, o uso dessa tecnologia que transforma tantos paradigmas na informática médica pode ser extremamente promissor.

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Os mosquitos odeiam música eletrônica?

Eu odeio música eletrônica… e os mosquitos também! Pelo menos é o que afirmam pesquisadores de um estudo publicado em março de 2019, no periódico científico Acta Tropica.

No estudo realizado por pesquisadores da University Malaysia Sarawak, foram examinados os efeitos da música “Scary Monsters and Nice Sprites”, do produtor musical Skrillex, em mosquitos transmissores do vírus da dengue e zika, Aedes aegypti.

Os mosquitos produzem sons que geram vibrações com o bater de suas asas. Para ocorrer o acasalamento entre mosquitos, o macho precisa harmonizar os sons/vibrações produzidos pelo bater de suas asas com os da fêmea, usando principalmente as antenas como órgãos sensoriais. Por isso, o estudo examinou se a música eletrônica poderia influenciar os mosquitos em três principais aspectos: busca por alimento, repasto sanguíneo e acasalamento (1).

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Aedes aegypti. Fonte: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas.

Vamos entender a escolha da música. Os autores do estudo justificaram a escolha da música por ser caracterizada como barulhenta, com forte pressão sonora e vibração, além de ter variação de altura constantes.

Para analisar o comportamento dos mosquitos, os pesquisadores colocaram 10 mosquitos fêmeas, que estavam há cerca de 12h sem se alimentar, em uma gaiola com um hamster (para testar o repasto sanguíneo e busca por alimento) e um mosquito macho (para acasalamento). Ao lado da gaiola foi colocada uma caixinha de som que tocava a música durante 10 minutos, enquanto os pesquisadores observavam o comportamento dos mosquitos.

Após os experimentos serem replicados 10 vezes com o som ligado e desligado, os resultados indicaram que os mosquitos submetidos à música demoraram mais para iniciar busca por alimento, se alimentaram menos de sangue e se acasalaram menos, em relação aos mosquitos analisados com a música desligada.

Baseados nos resultados, os autores concluíram que o estudo sugere um potencial para o desenvolvimento de estratégias de controle de mosquitos baseadas em música e já que tantas pessoas amam música, essa estratégia poderia ser mais apelativa do que o uso de inseticidas químicos.

Entretanto, o estudo foi fortemente criticado pela comunidade científica. É possível afirmar que o estudo deixa dúvidas quanto a ser baseado em evidências científicas. A primeira dúvida que me surgiu foi, porque os pesquisadores só testaram uma música? Em ciência nós evitamos ao máximo nos basear em apenas uma variável para explicar uma correlação entre dois fatores. Além disso, os pesquisadores também não testaram a amplitude e frequência do som, o que torna impossível saber qual foi a característica (frequência, amplitude, vibração) da música que afetou o comportamento dos mosquitos.

Esse assunto não é de hoje. No ano de 2012, a Rádio Band FM foi criticada por uma campanha contra mosquitos. Todos os dias do verão, entre 17 e 19 horas, a rádio transmitia uma sinal de alta frequência (15 kHz). A rádio prometia que essa frequência, que é quase inaudível aos seres humanos, era capaz de espantar os mosquitos. Porém, tudo não passava de uma campanha publicitária (que rendeu à rádio o prêmio Grand Prix em Cannes). Segundo cientistas entrevistados na época, a campanha não era baseada em evidências científicas e faziam um desserviço à população brasileira.

Além disso, existem vários aplicativos de celulares disponíveis na App Store que prometem emitir ultrassons que repelem mosquitos, porém nenhum deles parece mesmo funcionar – veja o vídeo no link.

Pesquisador mostrando que aplicativos que emitem sons de alta frequência NÃO repelem mosquitos. Fonte: https://www.bbc.com/news/magazine-20669080.

Apesar desse assunto ser interessante e um tanto quanto polêmico, a possibilidade de desenvolvimento de repelentes baseados em sons ainda precisa ser extensamente estudada e testada. Ou seja, estamos longe de poder usar música para nos proteger de picadas de mosquitos. Portanto, a melhor maneira ainda é usar repelentes e inseticidas como forma de proteção contra os mosquitos, preferencialmente aqueles que são regulados e recomendados pela Anvisa.

PS: Após ler o estudo, eu escutei a música “Scary Monsters and Nice Sprites” e preciso dizer que eu concordo com os mosquitos, é realmente irritante (risos).

Referência

1 – Dieng H, Chuin TC, Satho T, Miake F, Wydiamala E, Kassim NFA, et al. The electronic song “Scary Monsters and Nice Sprites” reduces host attack and mating success in the dengue vector Aedes aegypti. Acta Tropica. 2019;194:93–9.

Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0001706X19301202

Mais sobre o tema:

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/04/musica-eletronica-reduz-picadas-e-reproducao-do-mosquito-aedes-aegypti-aponta-estudo.ghtml

Sons de alta frequência não repelem mosquitos.

https://www.bbc.com/news/magazine-20669080

https://hypescience.com/ultrassom-realmente-repele-mosquitos/

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Selênio: um micronutriente de “macro” importância

O Selênio (Se) é um metal do grupo dos calcogênios, de número atômico 34 e massa atômica de 78 u. É encontrado no solo, em alimentos, em microrganismos e no corpo humano, sendo considerado um elemento traço ou micronutriente, pois é um dos muitos elementos e vitaminas que o ser humano precisa, em quantidades mínimas (microgramas/litro), para sobreviver. Devido à suas múltiplas funções, o selênio tem sido alvo de muitos estudos.

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O selênio é proveniente da dieta, sendo encontrado em diversos alimentos. Sua concentração varia também de acordo com as características do solo ou água, influenciando quanto deste elemento será fixada aos alimentos neles produzidos. O conteúdo sérico de selênio varia entre diferentes populações, de acordo com os hábitos e características dos alimentos ingeridos.

Além disso, cerca de 50% da população dos Estados Unidos faz suplementação com selênio. Os valores de referência para o selênio no soro de humanos variam entre 46 a 143 mcg/mL, sendo que a deficiência é associada com várias doenças. O consumo diário recomendado de selênio é de cerca de 60 mcg/dia. Diversos ensaios clínicos estudaram, também o efeito benéfico da suplementação dietética de selênio. É preciso ter cuidado, já que em sua forma inorgânica torna-se tóxico em doses altas.

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O selênio nos alimentos (microgramas/100g alimento): castanhas, atum, ostras, fígado de peru, caviar, mexilhões, gergelim, ovos, arroz integral, milho, queijo, coco.  Imagem disponível em: http://marcelosgaribaldi.blogspot.com/2017/08/el-mineral-selenio_9.html.

 

Em 2012, Margaret Rayman, professora da faculdade de Saúde e Ciências Médicas da Universidade de Surrey, no Reino Unido, publicou uma extensa revisão sobre a importância do selênio na saúde, na conceituada revista Lancet, intitulada “Selênio e a saúde humana”. O selênio possui efeitos sistêmicos e complexos sobre o nosso organismo, que ainda não são totalmente compreendidos. No entanto, sabemos da importância de sua ação como antioxidante, anti-inflamatório, neuroprotetor e estimulador do sistema imunológico. No corpo humano, o selênio é encontrado associado à selenoproteínas com extensa distribuição e diferentes funções, como ativação de células imunológicas e participação na detoxificação do organismo. Níveis baixos de selênio sérico, bem como mutações nas selenoproteínas foram associados com maior risco para diversas doenças (câncer, doenças neurodegenerativas, doenças infecciosas, etc) o que levantou muitos estudos sobre este elemento.

São descritas 25 selenoproteínas em humanos, que incorporam o aminoácido selenocisteína pelo código genético UGA no RNA mensageiro. O micro-elemento é carreado no corpo por diversos transportadores – a família SEPP.

Níveis elevados de selênio no soro são associados com menor risco de mortalidade. Um grande estudo conduzido nos EUA, por Joachim Beyes, Ana Navas-Acien e Eliseo Guallar, dos Departamentos de Epidemiologia e Medicina, Centro Welch de Prevenção, Epidemiologia e Pesquisa Clínica, e Ciências da Saúde do Hospital Médico Johns Hopkins, com a participação de mais de 13 mil adultos acompanhados por 12 anos, o “US Third National Health and Nutrition Examination Survey”, mostrou que níveis séricos superiores à 135 mcg/mL estavam associados a redução da mortalidade. Outro estudo, conduzido na França, com 1389 idosos, mostrou que níveis baixos de selênio estão associados à maior predisposição para o câncer e no estudo “Baltimore Women’s Health and Aging Study”, um estudo com mulheres idosas foi demonstrada que a deficiência de selênio aumenta o risco de morte em 5 anos.

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Figura 1. Hazard ajustado para todas as causas de mortalidade por concentração sérica de selênio, nos participantes do US Third National Health and Nutrition Examination Survey. Podemos ver na curva vermelha, que os valores maiores de selênio são acompanhados de queda no risco de mortalidade.

 

O selênio possui grande importância no Sistema imunológico. Há evidências de que o selênio estimule o sistema imune, inclusive atuando sobre a proliferação e ativação de células T, aumentando a citotoxicidade mediada por linfócitos CTL (citotóxicos) e a atividade de células NK (natural killers). Em um estudo conduzido no Arizona, com idosos, a suplementação de 400𝜇g de selênio diárias, aumentou significativamente a produção de leucócitos, foi observado um aumento de 27% da contagem de células T, quando comparados aos pacientes que receberam placebo.

Os níveis séricos de selênio também interferem no prognóstico e curso de infecções bacterianas e virais. A deficiência de selênio está associada com diminuição da sobrevida de pacientes infectados com HIV. Um dos motivos seria a associação entre concentrações mais baixas de selênio (mesmo que ainda não seja considerado uma deficiência) com contagens mais baixas de linfócitos T CD4+ e alta carga viral. Estudos do tipo ensaio clínico randomizado e controlado já demonstraram benefícios da suplementação de selênio em pacientes HIV/AIDS.

No meu projeto de mestrado, desenvolvido na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde) estudamos a relação entre polimorfismos em um transportador de selênio codificado pelo gene SEP15 e o tempo de progressão do HIV a AIDS. O paciente infectado com HIV leva em média 3 anos para manifestar os sintomas, sendo então constatada a AIDS. No entanto, existem pessoas que fogem dessa média: os progressores rápidos – desenvolvem a AIDS em até um ano da infecção – e os progressores lentos – que continuam sem tratamento e sem progressão por tempo indeterminado (10 anos ou até mais). Nós conseguimos demonstrar que os pacientes portadores do genótipo AA no polimorfismo rs5859 do gene SEP15, codificador de uma proteína transportadora de selênio, possuem maior risco de progredir da infecção do HIV para AIDS em menor tempo. Outros estudos já mostraram que essa mutação diminui a função do transportador, o que pode impactar nas funções do selênio nas células. Esse achado mostra importância da análise genética dos pacientes e auxilia na predição do tempo de progressão para AIDS.

 

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Figura 2. Risco cumulativo de progressão a AIDS em relação aos anos de infecção pelo HIV no mutante homozigoto AA em comparação com GG e GA para o polimorfismo em estudo.

 

O selênio também possui importância no desenvolvimento e conservação do tecido cerebral. Níveis adequados de selênio durante a vida, favorecem um envelhecimento saudável, pois combatem o estresse oxidativo e a morte celular. A proteína SEPP1 está envolvida em processos de neuroproteção, sobrevivência neuronal e prevenção de apoptose nas células do tecido nervoso. Sua deficiência ou mutação já foi associada com risco aumentado de Parkinson, Alzheimer, demência e síndromes convulsivas. Em um estudo realizado na China com 2000 idosos, foi demonstrado que níveis baixos de selênio também estão associados a déficit cognitivo e menor QI (coeficiente de inteligência).

 

Na fertilidade e sistema reprodutor o selênio também possui importância. Proteínas contendo selênio, como a GPx4 atuam sobre os espermatozoides, permitindo sua conservação e maior motilidade. Em mulheres, a deficiência de selênio é associada ao risco de pré-eclâmpsia. Isso porque o selênio atua como antioxidante, anti-inflamatório, reduzindo dano aos vasos também. Uma mutação na proteína SEPS1 também já foi associada ao risco aumentado de pré-eclâmpsia.
No corpo humano, o tecido que maior concentra selênio é a glândula tireóide. O selênio está envolvido no processo de síntese dos hormônios T3 e T4, amplamente responsáveis pelo controle do metabolismo. Além disso, esse micronutriente desempenha uma função protetora sobre a tireóide, diminuindo a incidência de doenças auto-imunes. Alguns estudos já demonstraram que a suplementação de selênio diminui os sintomas da Tireoidite de Hashimoto, doença auto-imune caracterizada por inflamação que leva ao hipertireoidismo.
O selênio também pode influenciar na ocorrência de diferentes tipos de câncer. Há evidências de que a suplementação com selênio diminui o risco de câncer de pulmão, bexiga, do colorretal, fígado, esôfago, tireóide e próstata. O estudo US Multiethnic Cohort, demonstrou que os 25% dos pacientes homens com os mais altos valores séricos de selênio, na população estudada, possuíam um risco 41% menor de desenvolver câncer de próstata. Outro estudo com foco na prevenção do câncer, com 1312 participantes com histórico prévio de câncer de pele não-melanoma, chamado de “Nutritional Prevention of Cancer (NPC) trial”, testou efeitos da suplementação diária de selênio (200𝜇g/dia) durante 4 a 5 anos. Esse estudo demonstrou que a suplementação de selênio está associada a redução da taxa de mortalidade, em 50%, e redução da incidência total de diferentes tipos de câncer (37%), chegando até mesmo uma redução de 52% do risco de câncer de próstata em homens.
Devido a essas diversas funções sobre o nosso organismo, o selênio também tem sido alvo de estudos da farmacologia. Como sua forma inorgânica é tóxica em quantidades elevadas no ser humano, voltou-se a atenção para compostos orgânicos de selênio. Esses compostos têm sido estudados desde a década de 1980, e apresentam resultados promissores como hepatoprotetores, neuroprotetores, anti-inflamatórios, antibacterianos, antifúngicos e antivirais.

 
O selênio possui múltiplas funções, interferindo em diversas etapas do nosso metabolismo e no estado de saúde-doença do corpo. No entanto, esses mecanismos são complexos e ainda pouco conhecidos. Isso abre portas e levanta a curiosidade para muitos estudos sobre a ação do selênio na saúde humana, bem como um potencial fármaco ou aliado na suplementação dietética.

Apesar disso, devemos estar atentos aos riscos de uma superexposição ao mesmo, que causam danos ao sistema nervoso central, podendo se manifestar como disfunções motoras e sensoriais. Por isso é importante, antes de qualquer suplementação, conhecer a reserva de selênio de cada paciente, suas demandas e características individuais.

Referências:
Margareth P. Rayman . Selenium and human health. Lancet 2012; 379: 1256–68
Jéssica Louise Benelli, Rubia Marılia de Medeiros, Maria Cristina Cotta Matte, Marineide Gonçalves de Melo, Sabrina Esteves de Matos Almeida, and Marilu Fiegenbaum. Role of SEP15 Gene Polymorphisms in the Time of Progression to AIDS. GENETIC TESTING AND MOLECULAR BIOMARKERS Volume 20, Number 7, 2016.
Zhonglin Cai, Jianzhong Zhang, Hongjun Li. Selenium, aging and aging-related diseases. Vol.:(0123456789) Aging Clinical and Experimental Research, 2018.

 

 

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Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

SP

Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good

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Comunicação em saúde pública

Segundo a União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union – ITU), cerca de 48% da população mundial tem acesso à internet . A estimativa é que a proporção de casas com acesso à internet seja de 53% em todo o mundo (ITU, 2017). A mesma agência constatou que a assinatura de internet em celulares cresceu 20% nos últimos cinco anos e estimou que atingiria 4.3 bilhões de assinaturas no final de 2017.

A relação dos seres humanos com os seus celulares é de tanta dependência que até doenças relacionadas a esse comportamento estão começando a ser descritas, como é o exemplo de “WhatsAppitis, um tipo de tendinite diagnosticada após uma mulher apresentar fortes dores nos pulsos após passar 6 horas seguidas segurando seu celular e digitando mensagens usando os polegares.

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Fonte: IBGE

No Brasil, aproximadamente 65%  da população (116 milhões de pessoas) tem acesso a internet e, destes, mais de 95% acessa a rede pelo celular. Esse fenômeno torna o celular a ferramenta perfeita para todo o tipo de pesquisa, principalmente, pesquisas sobre saúde. Em uma pesquisa realizada pela London School of Economics, entre os brasileiros, 68% consultam a internet sobre medicamentos, 45% sobre hospitais e 41% para conhecimento sobre experiências de outros pacientes.

Um grande problema sobre o acesso a informações de saúde pela internet é a disseminação de notícias falsas, pois qualquer pessoa pode publicar o que quiser na internet. Estudos realizados após a crise do Ebola na África, concluíram que tuítes com informações falsas sobre a doença foram mais retuítados do que os contendo informações verdadeiras. As redes sociais, assim como SMS e WhatsApp, também ajudam muito a disseminar notícias falsas sobre tratamentos de doenças, vacinas e outras questões relativas à saúde.

Devido às mudanças no comportamento da população em pesquisar sobre doenças, as organizações de saúde estão entrando cada vez mais nas redes sociais. Hospitais, profissionais e autoridades em saúde estão abrindo contas no YouTube, Facebook e Twitter para atingirem uma maior parte da população.

Considerando a grande demanda de pessoas interessadas em sua saúde e a imensa quantidade de notícias falsas, é muito importante que as agências e organizações de saúde contratem profissionais capacitados e com experiência nos campos da saúde e comunicação para cuidar de suas redes sociais e outros veículos de informação. Estes profissionais são os chamados Comunicadores de Saúde (Health Communicator). A comunicação em saúde é uma área nova que tem ganhado bastante atenção, em parte por sua ênfase em combinar teoria e prática em entender processos da comunicação e mudança do comportamento humano.

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Para a promoção de saúde, algumas campanhas estão usando a disseminação de informação por meio de mensagens de texto, principalmente em áreas rurais, nas quais esse pode ser o único canal de informação do público. Como exemplo, o projeto Masiluleke na África do Sul enviou milhões de mensagens de texto por dia para encorajar as pessoas a fazerem o teste para HIV/AIDS. As mensagens foram enviadas em língua local e provia informações sobre os locais de realização dos testes. Enquanto outros meios de comunicação como rádio, televisão e sites também são implementados nos serviços de educação em saúde pública, o SMS tem diversas vantagens, bom custo-benefício, é conveniente, pode atingir mais pessoas e é muito popular em países em desenvolvimento.

A comunicação em saúde tem muito o que contribuir com o conhecimento da população mundial em momentos de surtos de doenças e desastres naturais, principalmente nos países em desenvolvimento. Essa abordagem é pertinente neste momento em que muitas das ameaças para a saúde pública global estão enraizadas no comportamento humano. Os comunicadores em saúde têm uma oportunidade única em melhorar e salvar a vida de diversas pessoas.

Referências

Kahn, James G., Joshua S. Yang, and James S. Kahn. “‘Mobile’ health needs and opportunities in developing countries.” Health Affairs 29.2 (2010): 252-258.

Fernandez-Guerrero, Inés M. “WhatsAppitis.” The Lancet 383.9922 (2014): 1040.

Fernández-Luque, Luis, and Teresa Bau. “Health and social media: perfect storm of information.” Healthcare informatics research 21.2 (2015): 67-73.

Vital Wave Consulting. The opportunity of mobile technology for healthcare in the developing world. Washington (DC) and Berkshire (UK): UN Foundation–Vodafone

http://www.who.int/bulletin/volumes/87/4/08-056713/en/

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20073-pnad-continua-tic-2016-94-2-das-pessoas-que-utilizaram-a-internet-o-fizeram-para-trocar-mensagens.html

https://www.gazetadopovo.com.br/saude/80-usam-internet-para-fazer-buscas-sobre-saude-dukyya76lkzf6ggxpwkvmz4ge

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Como uma nova tecnologia é disponibilizada no SUS?

Quando a gente lê sobre um novo medicamento ou equipamento de saúde desenvolvido no exterior, logo pensa “ah, mas isso vai demorar anos pra chegar no Brasil…”. Ou mesmo quando uma inovação em saúde é desenvolvida aqui mesmo, a gente se pergunta quando é que vai estar disponível pra todo mundo. Além de questões de interesse econômico dos fabricantes, as novas tecnologias precisam passar por algumas etapas até chegar à população.

Primeiro, a tecnologia precisa ser registrada na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que deve se certificar, entre outras coisas, que a nova tecnologia traz mais benefícios do que riscos. E, mesmo com a garantia pela Constituição de 1988 do direito ao acesso universal e integral à saúde, o nosso SUS não pode pagar por toda e qualquer tecnologia ligada a tratamentos ou à manutenção da saúde. Aqui entende-se como tecnologia em saúde os medicamentos, equipamentos e procedimentos técnicos, os sistemas organizacionais, informacionais, educacionais e de suporte e os programas e protocolos assistenciais por meio dos quais a atenção e os cuidados com a saúde são prestados à população, de acordo com a portaria nº 2.510, de 19 de dezembro de 2005. Essas tecnologias estão presentes desde a prevenção e diagnóstico de doenças até seu tratamento e a recuperação da saúde das pessoas.

A entrada, retirada ou mudança do que é coberto pelo sistema público de saúde brasileiro é avaliada por uma comissão chamada CONITEC – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, criada pela lei nº 12.401 de 28 de abril de 2011 e regulamentada pelo decreto nº 7.646 de 21 de dezembro de 2011. Essa comissão, composta por um plenário de 13 titulares de entidades como o Ministério da Saúde e a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e uma secretaria executiva, substituiu a CITEC – Comissão de Incorporação de Tecnologias do Ministério da Saúde, criada em 2006, e representou um avanço no sentido de institucionalizar o modelo de processo de incorporação, para que fosse amparado legalmente, e instituiu fluxo contínuo de submissão de pedidos de incorporação, documentação e realização de consulta pública obrigatórias, prazo de 180 dias para a tomada de decisão da recomendação ou não da incorporação da tecnologia (prorrogáveis por mais 90 dias), entre outros procedimentos legais.

Estrutura Conitec

Estrutura da CONITEC (Fonte: Entendendo a Incorporação de Tecnologias em saúde no SUS / Ministério da Saúde. Disponível aqui)

O processo de avaliação das tecnologias em saúde deve levar em conta, no mínimo, os benefícios, os riscos e os custos da adoção de determinado procedimento. Atualmente são feitos estudos de avaliação econômica em saúde, como os estudos de custo-eficácia ou custo-utilidade, principalmente por universidades, associações profissionais ou empresas privadas, mas também por várias comissões e assessorias públicas. Esses estudos mostram, em geral, a relação entre um  aumento de custo e a eficácia de uma determinada intervenção em saúde em comparação a um tratamento convencional, que pode ser ajustada por anos de vida em boa saúde (QALY), no caso dos estudos de custo-utilidade. São somados aos estudos de avaliação econômica os estudos clínicos e/ou revisões sistemáticas, que devem considerar critérios clínicos pertinentes. A decisão sobre a incorporação deve também considerar aspectos éticos e análise exaustiva e criteriosa da literatura disponível, além do impacto social, organizacional e legal. Apesar das especificidades dos sistemas de saúde de cada país, ainda são feitos poucos estudos dessa natureza no Brasil, e a comissão acaba usando estudos internacionais e relatórios de outras agências reguladoras, como a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos.

Em geral os pedidos de incorporação de tecnologias são feitos por produtores (indústrias e empresas privadas), associações de pacientes, sociedades médicas e outras organizações não governamentais, mas também por secretarias e órgãos do Ministério da Saúde, autarquias como a ANVISA e a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e secretarias municipais e estaduais de saúde. Depois de dado o parecer da comissão, em caso de incorporação, as unidades de saúde têm até 180 dias para adotar as tecnologias.

Fluxo Incorporação

Fluxo simplificado da incorporação de tecnologias (Fonte: Entendendo a Incorporação de Tecnologias em saúde no SUS / Ministério da Saúde. Disponível aqui)

Um dos problemas mais sérios na saúde no Brasil é a judicialização, ou a imposição judicial da compra de tecnologias não existentes ou em falta no SUS, baseada no direito fundamental de acesso à saúde. Os custos dessas determinações chegam a cerca de R$ 7 bilhões por ano, diante de, por exemplo, R$ 110,2 bilhões de orçamento total destinado à saúde em 2017. A criação da CONITEC visava, entre outras coisas, diminuir esse fenômeno, agilizando e melhorando o processo de incorporação. Entretanto, os processos judiciais aumentaram 1010% entre 2010 e 2016. Um estudo realizado pela USP mostrou que 16% dos gastos com a judicialização foram referentes a medicamentos que deveriam ser ofertados pelo SUS, o que mostra que questão do acesso às tecnologias incorporadas também é muito importante. Outro estudo, da UFRJ, mostrou que demandas internas de instituições ligadas ao Ministério da Saúde obtiveram mais sucesso na incorporação, e que múltiplas solicitações para um mesmo medicamento, além de pressão social, podem ajudar a obter pareceres favoráveis.

No caso citado no fim do meu texto anterior, a incorporação das insulinas análogas ao SUS foi pedida em 13 de julho de 2016, pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), e em setembro do mesmo ano a CONITEC abriu consulta pública, recomendando inicialmente a não incorporação. Após 1.092 contribuições de diferentes setores da sociedade, o parecer passou a ser favorável e em 22 de fevereiro de 2017 a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos estratégicos acatou a recomendação. Existem outros casos complicados, como os casos das doenças raras e os altíssimos custos das medicações… E os critérios de definição do preço das tecnologias em saúde são tão interessantes também que merecem um texto só pra eles.

Por um lado, o impacto da incorporação de uma nova tecnologia é sobre o orçamento total do SUS, que, como a gente sabe, não chega a ser suficiente para o que já existe; por outro, a judicialização é ainda mais dispendiosa, já que as compras frequentemente são feitas rapidamente e em pequenas quantidades, causando aumento substancial no preço. É importante lembrar que 75% da nossa população, ou aproximadamente 150 milhões de pessoas, dependiam exclusivamente do SUS em 2015, enquanto os outros 25% têm acesso, além do SUS, ao sistema de saúde suplementar (planos de saúde). Considerando a magnitude do nosso sistema, o processo de incorporação deve ser extremamente responsável e seguro para os usuários e profissionais de saúde.