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Asteroides : O início e o fim da humanidade?

Asteroides têm seu próprio charme. Mais do que uma simples pedrinha espacial, um asteroide pode ser a resposta pra vida da Terra e mesmo o responsável pelo fim da humanidade no futuro. Várias agências de pesquisas têm concentrado seus esforços para entender melhor esses objetos.

A hipótese que a vida pode ter sido trazida a Terra é chamada de Panspermia. Essa ideia foi abandonada por muitos anos pela falta de dados que pudessem corroborar essa ideia mas no fim dos anos 70 com a descoberta de meteoritos originados de Marte na Terra, mostrou-se que era possível a troca de matéria entre objetos no espaço e essa hipótese ganhou força novamente. [1] [2]

A chegada de um asteroide com material orgânico na Terra não é simples. Os microrganismos precisam de um ambiente em que possam sobreviver durante toda a viagem interplanetária. Entretanto, experimentos espaciais demonstraram que com proteção ultravioleta mínima, vários tipos de microrganismos podem sobreviver por anos ao ambiente hostil do espaço. Os resultados demonstraram que os microrganismos poderiam sobreviver a aceleração para a velocidades de escape de Marte e ao impacto subsequente em superfícies de diferentes composições. Assim, há fortes evidências de que microrganismos podem sobreviver às condições de transferência interplanetárias [1].

O sistema Terra-Marte não é o único lugar onde transferência natural pode ocorrer. A descoberta de potencialmente ambientes habitáveis, como alguns satélites de Júpiter e Saturno, expande a possibilidade de transferência de vida no Sistema Solar [1].

Para estudar melhor as possibilidades de microrganismos e composição de asteroides, várias missões têm sido lançadas com o objetivo de coleta de material para a análise na Terra.

A Hayabusa, da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), foi desenvolvida para coletar amostras do asteroide Itokawa e devolvê-las à Terra. Itokawa é um NEO (Near Earth Object), um objetos próximos da Terra que foi empurrado pela atração gravitacional de planetas próximos em órbitas que lhes permitem entrar na vizinhança da Terra, ou seja, tem maiores chances de colisão com a Terra [3][6].

A missão foi lançada em maio de 2003 e encontrou o asteróide Itokawa em novembro de 2005. Lá, fez várias tentativas de coletar. Durante uma dessas tentativas, a espaçonave inesperadamente perdeu a comunicação com a Terra e aterrissou na superfície do asteroide, danificando a espaçonave. Apesar desse revés, a JAXA conseguiu devolver a Hayabusa com segurança para a Terra em junho de 2010 [3].

Embora o mecanismo de coleta não tenha funcionado, milhares de partículas foram encontradas em um dos recipientes de amostra, aparentemente introduzidos durante o impacto da espaçonave na superfície do asteroide. Muitas dessas partículas seriam do asteroide por sua química e mineralogia, mas infelizmente foram contaminadas por partículas da espaçonave. Assim, em vez de devolver vários gramas de amostra, a Hayabusa retornou menos de um miligrama de amostra. No entanto, estas são as primeiras amostras diretas de um asteroide e, portanto, têm grande valor científico [3].

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Figura 1: Foto do Itokawa tirada pela Hayabusa em 2005. Créditos: JAXA

Seguindo a mesma linha, a JAXA enviou a Hayabusa2 que teria os pontos fracos da missão anterior resolvidos. Hayabusa2 foi lançado em dezembro de 2014 e encontrou-se com o asteroide 162173 Ryugu em 27 de junho de 2018. A missão deve inspecionar o asteróide por um ano e meio e retornar à Terra em dezembro de 2020 [4].

A Hayabusa2 também coletará material do asteroide e contem um dispositivo explosivo adicional que será usado para cavar o subsolo do asteroide [4].

 

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Figura 2: Foto do 162173 Ryugu tirada pela Hayabusa2 . Créditos: JAXA

A missão da NASA, OSIRIS-REx (Origins Spectral Interpretation Resource Identification Security Regolith Explorer) segue a mesma lógica das missões japonesas, é uma missão de retorno de amostras de asteroides. Lançada em setembro de 2016, sua missão é estudar o asteroide 101955 Bennu, também considerado um NEO, e retornar uma amostra para a Terra em setembro de 2023 [5].

Os NEOs podem ser uma grande ameaça para a humanidade. Mais de 1 milhão de asteroides têm o potencial de impactar a Terra, e através de todos os telescópios disponíveis em todo o mundo, descobrimos apenas cerca de um por cento. Por causa disso foi criado o Dia do Asteroide (Asteroid Day), cujo os detalhes você pode encontrar no texto do próprio blog.

Resumidamente, o Asteroid Day (30 de Junho) é uma maneiras para conscientizar a sociedade sobre asteroides e as possibilidades de queda na Terra. A iniciativa também é uma maneira para estimular o investimento em pesquisa desses objetos. Alguns projetos brasileiros compostos de astrônomos profissionais e amadores têm colaborado para o monitoramento desses objetos quando atingem a atmosfera da Terra, como é o caso do Bramon e do Exoss.

O Brasil, pelo segundo ano seguido, foi a país que mais desenvolveu atividades no Asteroid Day. As atividades foram constituídas de palestras, cartazes, observações do céu dentre outras atividades, tudo acessível para todos os públicos.

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Figura 3: Número de eventos do Asteroid day em diversos países. Créditos: EXOSS

O Asteroid Day é uma ótima forma de conectar a academia com a comunidade e o Brasil fez o seu dever de casa. De norte a sul iniciativas como esta tem se tornando cada vez mais comum entre os cientistas, o que colabora para o acesso da população aos trabalhos desenvolvidos dentro da universidades e centros de pesquisas.

Referências:

[1] P. H. Rampelotto; PANSPERMIA: A PROMISING FIELD OF RESEARCH; Astrobiology Science Conference 2010;

[2] http://www.sciencemag.org/news/2016/08/nasa-sample-asteroid-clues-life-earth

[3] https://curator.jsc.nasa.gov/hayabusa/

[4] http://global.jaxa.jp/press/2018/06/20180627_hayabusa2.html

[5] https://www.nasa.gov/mission_pages/osiris-rex/

[6] https://cneos.jpl.nasa.gov/about/basics.html

 

 

 

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Um ponto ótimo para as oscilações neuronais

Considerando o senso comum, parece que quanto mais bagunça adicionamos a um sistema, mais difícil a transmissão de informação através dele. Por exemplo, em uma sala silenciosa você poderia facilmente conversar com uma amiga a dois metros de distância de você. Mas se aos poucos vão chegando outras pessoas na sala, e estas pessoas estão conversando entre si, é fácil imaginar que vai ficando cada vez mais difícil entender o que sua amiga fala. Ou seja, quanto maior o barulho (ou ruído) na sala, mais difícil mantermos a comunicação. No entanto, essa diminuição da transmissão de informação com o aumento do ruído (que parece bastante intuitiva para nós), nem sempre é verificada.

Alguns sistemas físicos e biológicos apresentam um fenômeno chamado coerência estocástica (ou ressonância estocástica) que, em palavras simples, consiste em um aumento da transmissão da informação induzido pelo aumento do ruído. Esses sistemas apresentam um valor de ruído ótimo, para o qual a transmissão de informação é máxima.

Voltando ao nosso exemplo da conversa em uma sala. Imagine hipoteticamente que esta sala apresentasse este efeito de ressonância estocástica. Isto significaria que a qualidade da comunicação entre você e sua amiga aumentaria com a entrada das primeiras pessoas na sala até um valor máximo. Existiria um número n de pessoas (uma certa quantidade de barulho) que ajudaria na transmissão da informação. O barulho só passaria a atrapalhar a conversa de vocês depois que a pessoa de número n+1 entrasse na sala. Parece pouco intuitivo não é?

Mas um exemplo verdadeiro desse fenômeno pode ser verificado na seguinte imagem [1]:

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Figura modificada da Ref. [1]. À imagem original do Big Ben foi adicionada uma certa quantidade de ruído, que aumenta da figura da esquerda para a da direita. Note que para uma quantidade intermediária de ruído podemos reconhecer melhor a imagem.

Cada um dos 256×256 pixels da foto original digitalizada é representado por um número de 1 a 256 representando a escala de tons de cinza. Nas três imagens acima, a cada um desses pixels foi adicionado ao valor inicial um número aleatório (de maneira que a quantidade de ruído total adicionado a cada imagem aumenta da esquerda para direita [1]) Podemos notar que a imagem mais nítida é a do meio, indicando que existe um valor ótimo de ruído para o qual nosso cérebro interpreta melhor essa imagem como “Big Ben”. Em outras palavras, a natureza passou a utilizar a existência do ruído aleatório a seu favor.

Recentemente, a pesquisadora Belén Sancristobal e seus colaboradores, verificaram que este fenômeno da coerência estocástica ocorre em um modelo computacional de redes de neurônios conectados e também em uma rede de neurônios reais pertencentes a um pedacinho do córtex de um furão. Ao contrário de estudos anteriores em sistemas com apenas um neurônio, eles mostraram que a coerência estocástica pode ocorrer como um fenômeno coletivo e emergente. O ruído nesses experimentos contribui para deixar o sistema mais previsível. (Mais detalhes abaixo).

Em alguns estados especiais, por exemplo durante o sono de ondas lentas ou quando estamos anestesiados, a atividade elétrica de regiões corticais do nosso cérebro oscila em frequências da ordem de 1Hz entre dois estados bem definidos chamados UP e DOWN. Os estados UP são caracterizados pelos disparos de vários neurônios (atividade sustentada), estes disparos são parecidos com os que ocorrem durante momentos em que estamos acordados e saudáveis. Por outro lado, durante os estados DOWN a maioria dos neurônios se mantêm em silêncio. Esse estado oscilante entre UP e DOWN também já foi verificado em experimentos in vitro na ausência de estímulo externo. Isto indica que essas oscilações  podem ser uma atividade auto-sustentada que ocorre em redes relativamente pequenas devido, possivelmente, às conexões recorrentes entre os neurônios locais. A medida em que vamos despertando de um estado profundo de anestesia, a regularidade das oscilações de UP e DOWN diminuem até que desaparecem por completo quando estamos acordados (nos mantemos apenas em UP). Nesses estágios intermediários é mais difícil prever quando ocorrerá um estado UP. A natureza desses estados mais regulares durante a anestesia profunda ainda não é bem entendida na comunidade científica. Em particular, não se sabe se ela é determinística ou devido a ruído externo.

O estudo citado acima [2] abordou justamente esta questão. Eles mostraram que a regularidade da oscilações UP e DOWN, pelo menos em alguns casos específicos in vitro, está associada ao fenômeno da coerência estocástica.  Variando a excitabilidade neuronal através da concentração extracelular de  potássio, eles mostraram que o coeficiente de variação da duração dos estados UP e DOWN tem um mínimo para uma certa concentração específica de potássio. Sendo assim, eles provaram através de modelos computacionais e experimentos in vitro que existe um valor intermediário de ruído para o qual a regularidade das oscilações neuronais UP e DOWN é máxima. Além disso, como o trabalho utilizou redes de vários neurônios, estes resultados mostram que a coerência estocástica pode ocorrer como um fenômeno coletivo e emergente no nosso cérebro. Ou seja, apesar de cada neurônio individualmente do sistema não estar em um regime de coerência estocástica, esse regime surge (emerge) quando conectamos os neurônios uns aos outros de uma maneira específica.

Parece que, mais uma vez, a evolução garantiu a perpetuação de quem usou as adversidades do meio a seu favor e nos colocou em algum ponto ótimo.


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Figura modificada da Ref. [2].  Primeira evidência experimental da coerência estocástica em tecidos corticais. Esses dados foram obtidos no laboratório da  pesquisadora Mavi Sanchez Vives em Barcelona. No topo, séries temporais da atividade elétrica do tecido mostrando os estados UP e DOWN para três concentrações diferentes de potássio. Na base, medida da variabilidade dos estados como função da concentração de potássio em várias repetições do experimento (colorido) e o valor médio em preto. Note que no ponto ótimo [K+]=0 há um mínimo na variabilidade, indicando um máximo na previsibilidade dos estados UP e DOWN.

Referências:

[1] Simonotto, Enrico; Riani, Massimo; Seife, Charles; Roberts, Mark; Twitty, Jennifer; Moss, Frank (1997). “Visual Perception of Stochastic Resonance”. Physical Review Letters. 78 (6): 1186.

[2] Sancristóbal B, Rebollo B, Boada P, Sanchez-Vives MV, Garcia-Ojalvo J. Collective stochastic coherence in recurrent neuronal networks. Nature Physics. 2016 Sep;12(9):881.

 

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Confissões de uma cientista mãe

Fechando a série sobre maternidade e ciência, trazemos sete histórias de cientistas brasileiras que vivem a ciência e a maternidade.

Para muitas mulheres, a maternidade chega acompanhada de um sentimento de culpa. Falamos sobre isso na primeira matéria sobre maternidade e ciência, na qual apresentamos dados do grupo Parent in Science que ajudam a traçar o perfil da pesquisadora brasileira mãe. Na segunda, “Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?”, levantamos provocações a partir de estudos que se debruçaram sobre o tema. Hoje, vamos trazer depoimentos de cientistas que se disponibilizaram a contar como é a experiência de ser cientista e mãe.

Um dos dados obtidos pelo Parent in Science que mais chama atenção é o que diz respeito à percepção das mães sobre o impacto dos filhos na produção científica: 81% avaliaram de forma negativa, sendo que 59% responderam com “negativa” e 22% com “bastante negativa”. Apenas 5% avaliaram de forma positiva, 2% responderam com “bastante positivo” e 12% marcaram “nenhum impacto”.

Com a falta de políticas públicas de órgãos governamentais para solucionar o cenário e a falta de compreensão por parte de atores dentro das universidades brasileiras, não é de se espantar a avaliação negativa. Ser mãe não é nenhum mar de rosas, como grande parte da sociedade gosta de pregar, e não é vergonhoso admitir-se cansada, sem tempo e com a sensação de que não será possível conciliar maternidade, trabalho e vida pessoal. Pelo contrário, é humano e precisamos dar suporte para que as mulheres se sintam confortáveis a falar sem medo de represálias. Senão, o que estamos fazendo com a saúde mental das nossas mulheres?

Com a palavra, as cientistas.

*O nome verdadeiro foi alterado a pedido da entrevistada.

 

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Rafaela Silva*, doutoranda em Ciência Política, grávida do primeiro filho

Por enquanto ainda não consigo imaginar como seria, de fato, ter um bebê em meio à rotina que, muitas vezes, é de intensa abdicação de vida social e cuidado pra que os prazos possam ser cumpridos. Minha orientadora e co-orientadora me deram todo o apoio necessário e não me cobraram nada além do que era possível no momento. Houve, por parte de algumas pessoas, questionamentos sobre a minha necessidade de usar a licença-maternidade, além de terem afirmado a importância de que eu não a utilize e cumpra os prazos de defesa a tempo, de forma a não perder a chance de um pós-doutorado e a não passar por um processo de estagnação na carreira.

Muitas vezes não nos perguntam se gostaríamos de tirar um tempo para a maternidade. Seguir a vida acadêmica da mesma forma como antes, ou da forma como esperam que sigamos, acaba sendo rotina para aquelEs que não entendem nossas especificidades. No momento, ainda em gestação, estou tentando adiantar um pouco os trabalhos e submeter artigos que estavam prontos, aguardando maturação de ideias e melhorias. É como se eu tivesse que trabalhar agora por duas: pelo que eu deveria trabalhar normalmente e pelo que eu “deveria estar trabalhando quando o bebê nascer”. Penso que as condições que precisam ser oferecidas dentro da sociedade sejam as mesmas para todas as mulheres que estão no período de gravidez, pós-parto, amamentação e no ser mãe. Por exemplo, políticas de creche, licença-maternidade remunerada e ambientes estruturados que possam receber crianças e recém-nascidos para que a mãe não tenha que se deslocar e se isolar do que está fazendo.

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Marcela Miranda*, 35 anos, física

Sou formada na área de exatas. No último semestre de minha pós-graduação, engravidei. Quando informei sobre a minha gravidez, a notícia foi bem recebida pelos meus coordenadores. Com o passar do tempo, as coisas mudaram um pouco. Após a licença-maternidade, fui cobrada em relação à produtividade por ter ficado um tempo longe de projetos e pesquisas. Cobrada justamente em uma época bastante complicada, na qual a rotina muda e estamos sensíveis a tudo. Além disso, queremos estar presentes em todos os momentos de descoberta de nossos filhos. Começa um sentimento de culpa por estar longe em uma época que eles mais precisam da gente. Um tempo depois, minha saúde ficou debilitada e tive que me afastar do trabalho e dos projetos. Inicialmente, senti um preconceito muito grande. Os sintomas começaram a se manifestar e fui diagnosticada, primeiramente, com depressão pós-parto e estresse no trabalho. Ao ter que abandonar tarefas de trabalho e pós-graduaçăo, fui criticada por alguns colegas. Hoje, continuo realizando pesquisas na área, mas não com a mesma produtividade que tinha antes de ter meu filho. Antigamente, no decorrer de minha graduação e de minhas pós-graduações, a prioridade eram os estudos e projetos. Após ser mãe, as prioridades são filho, saúde, família, estudos e projetos!

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Paula Garcia, 37 anos, linguista

Entrei como professora numa faculdade pública em junho de 2010 e, em novembro, vi que estava grávida. Ouvi de alguns colegas de departamento que “dei o golpe”, isto é, esperei passar no concurso para logo sair de licença-maternidade. Fiquei com essa culpa um bom tempo. Ano passado (2017), participei de uma banca de concurso como membro e presenciei a melhor candidata tentando esconder a barriga durante as provas para que sua gravidez não fosse um impeditivo para uma boa classificação. Ela ficou em primeiro lugar, assumiu e logo saiu de licença. Ela vai ter mais 30 anos para trabalhar na universidade, assim como eu. Não serão os seis meses de licença que farão ela trabalhar menos ou ser menos capaz de fazer as coisas. Ao lembrar desses anos, lembro que eu sempre tinha a sensação de dever algo a alguém. Fiz um doutorado, publiquei artigos, participei dos congressos que pude com o marido morando em uma cidade, e os familiares, em outra. Dei e estou dando o meu melhor, mas parecia que minhas ações na universidade eram para comprovar que eu não tinha mesmo tido a intenção de dar um golpe.

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Andréa Wieck Ricachenevsky, 36 anos, bióloga molecular

Bom, meu nome é Andréa Wieck Ricachenevsky, tenho 36 anos, moro em Santa Maria (RS) há dois anos e tenho uma filha, a Maya, também de dois anos. Sempre trabalhei com pesquisa na área de ciências da saúde, mais especificamente com psiconeuroimunologia. Eu engravidei quando meu marido havia passado no concurso para professor da Universidade Federal de Santa Maria. Até então, eu era pós-doutoranda em Porto Alegre. Vim oficialmente para Santa Maria quando a Maya tinha 15 dias e, após o término dos quatro meses de licença-maternidade que tinha direito como bolsista, entreguei a bolsa e, oficialmente, fiquei desempregada.

O primeiro ano da minha filha não fez nem cócegas no meu currículo, pois, como eu sabia que ficaria “um tempo” parada, trabalhei bastante durante a gestação e deixei várias coisas alinhavadas que foram publicadas ao longo desse tempo. Já se passaram dois anos e sigo desempregada. Depois que a gente vira mãe, relativizamos uma série de itens e passamos a não dar importância para coisas que antes eram questão de vida ou morte. Eu, como mãe, não vou me candidatar ou aceitar oportunidades em que eu não tenha certeza que meu marido e filha possam ir comigo. Assim como não vou aceitar fazer algo como passar x dias longe dela e depois voltar. De forma nenhuma estou dizendo que o trabalho não importa ou que deixamos de amar ser cientistas. Não! Apenas digo que observar e acompanhar uma criança se desenvolvendo é uma das coisas mais maravilhosas no mundo. Passa muito rápido. Perdeu o foco, eles já estão em outra fase! E a gente sente falta. Então, sim, a gente muda o foco, dá mais importância para os nossos filhos do que para um artigo e, sim, a gente fica em casa cuidando deles quando estão doentes.

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Paola Sanches, bióloga

Sou bióloga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, com mestrado em Ecologia pela mesma universidade e estou finalizando o doutorado em ciências com ênfase em Oceanografia Biológica pela USP. Sou mãe da Catharina, de 8 meses, que nasceu durante o terceiro ano do meu doutorado. Nos primeiros meses, com a amamentação em livre demanda e todas as necessidades do bebe, é difícil arrumar tempo para a execução dos projetos. Mesmo assim, analisei dados e escrevi. Eu lembro de pensar que, enquanto eu estava de licença-maternidade, meus colegas estavam publicando e eu me afastava das chances de passar em um concurso para professora. O curioso é que esse período não deveria gerar essa preocupação.

Eu digo que a sociedade é cruel com as mães. Ela exige que sejamos presentes, dedicadas, devotadas, mas que também tenhamos a justa paridade com os homens em relação ao sucesso profissional. Ter uma rede de apoios nesse momento é fundamental. Faço parte de um grupo de mães também no puerpério. O compartilhamento de medos, anseios e experiências me fortalece muito. Além disso, minha sogra fica com minha filha de duas a três vezes por semana e meu marido durante os fins de semana para que eu consiga “só” trabalhar. Tenho a sorte de ter supervisores que me acolheram muito, tanto durante a gestação quanto nesse primeiro ano da minha filha. Todos disseram que seria difícil, mas que eu daria conta e que teria uma motivação a mais. Eu aumentei o meu poder de concentração e aprendi a focar mais rápido e em períodos que não necessariamente eu focaria antes. Além disso, minha filha representa uma motivação ainda maior para meu crescimento e minha consolidação profissional. Passei, sim, por um momento de constrangimento quando uma pessoa com quem trabalho (o mais triste é ser uma mulher que se diz feminista) justificou sua própria improdutividade alegando que a minha prioridade é outra, apesar de eu ter produzido durante a gestação, a licença-maternidade e ainda mais agora. Isso reflete o pensamento latente da sociedade de que a maternidade é um impeditivo para a carreira de mulheres.

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Imagem: acervo pessoal

Aline Pan, física, 37 anos, Rio Grande do Sul

Meu nome é Aline Cristiane Pan, sou mestre em Engenharia e Tecnologia dos Materiais e doutora em Energia Solar. Sou mãe da Sofia de 6 anos, nascida em 2012, e do Benício de 3 anos, nascido em 2014. Mulheres que trabalham com ciência são promovidas pela mídia a todo instante com o intuito de desmistificar o gênero nesta área. No entanto, a realidade crua destas mulheres é pouco mencionada e/ou, inclusive, “apaziguada” para que não seja retratada. Os motivos são inúmeros, tais como: vergonha, tempo, medo, desunião e reconhecimento. Contudo, todas as mulheres que trabalham com ciência já sofreram ou sofrerão algum tipo de discriminação em sua carreira científica. Inicialmente, podemos pensar nas premiações ou promoções de projetos de fomento de gênero que “tentam” valorizar as mulheres que trabalham na ciência. O primeiro critério de avaliação destes prêmios são os números de artigos e projetos nos quais as mulheres estão envolvidas nos últimos anos (em geral, os três últimos anos). No entanto, se esta mesma mulher teve, neste período de tempo, dois filhos, como no meu caso, e licenças-maternidade, isso não é levado em consideração sob hipótese nenhuma.

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Nota-se, claramente, que a opção de ter estes filhos foi dela (minha), mas será que ela (eu) deve ser avaliada pelo mesmo período de tempo das demais consideradas “na ativa” e que não tiveram filhos? Estas regras foram feitas baseadas em perfis masculinos ou para mulheres cientistas que não são mães? Por tudo isso, não acredito que seja fácil conciliar a produção acadêmica e a maternidade, e a sociedade não oferece ajuda nenhuma para estas condições. Quando retornei da minha segunda licença-maternidade, um colega me perguntou: “Como estavam tuas férias?” e, depois,: “Deve estar sendo bom fazer filho. Esta já é a tua segunda vez em pouco tempo”. Um outro, em uma situação em que eu estava reclamando do tempo de licença não ser considerado pela avaliação trienal, disse que “Se ele conseguiu publicar muito enquanto teve três filhos, eu também poderia”. Por eu não ter conseguido manter as minhas métricas antes da maternidade, fui desvinculada de um programa de pós-graduação da minha universidade, onde acabei tendo muitos prejuízos por isso.

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Depoimento anônimo, 39 anos, Rio Grande do Sul

Quando retornei do doutorado, em 2009, comecei a ensinar numa faculdade particular. No final de 2009, descobri que estava grávida, algo que planejei. Em 2010, com minha primeira bebê, tive direito à licença-maternidade. De 2012 a 2016, fiz um pós-doutorado financiado por duas agências de fomento. Nesse período, tive dois filhos. Com a bolsa, eu não podia tirar licença, apenas pedir extensão da mesma. Então, não parei de trabalhar, continuei escrevendo artigos. Minha orientadora, durante esse processo, foi muito tranquila. Eu optei por não parar por causa da situação financeira, mas também porque era o meu nome que estava em jogo na pesquisa. Se eu parasse, eu sabia que ia me prejudicar. Eu vejo que, por ser mulher, as atribuições são maiores para nós do que para os homens neste momento. Não tem nem como comparar. Participei de congressos enquanto estava grávida. Quando eu chegava em casa, continuava trabalhando, cuidando das crianças e, quando eles dormiam, continuava trabalhando para poder dar conta. Na particular, percebo que há uma luta maior pela sobrevivência porque eu ainda me encontro preocupada com o futuro. Eu não tenho garantia que estarei neste lugar pelo resto da vida. Quem já está na federal tem mais garantias e estabilidade. Acho que as agências de fomento deveriam considerar a trajetória acadêmica levando em conta as licenças-maternidade e afastamentos. O currículo não é só acadêmico, ele também é pessoal.

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Como estarão a Antártica e o Oceano Austral em 2070?

 

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Foto: Iceberg no Setor Atlântico do Oceano Austral. OPERANTAR XXXIII. Natalia Ribeiro

Apesar de ser uma das regiões mais remotas do planeta, a Antártica está completamente acoplada ao restante do sistema climático terrestre. As teleconexões oceânicas e atmosféricas se comunicam com as variações do clima das baixas às altas latitudes, influenciando a atmosfera polar, a estabilidade das plataformas de gelo, o gelo marinho e a própria biosfera. Dada a influência da Antártica e do Oceano Austral no aumento do nível do mar, clima e ecossistemas marinhos em geral, mudanças na região trazem consequências generalizadas para o planeta e para a humanidade. Por conta da situação política do continente e do oceano, que são divididos e regulados por um conjunto de países através do Tratado Antártico, todas as decisões dependem de esforço global e, portanto, estão idealmente atreladas aos interesses de todos e não somente a uma nação. Dessa forma, as decisões tomadas no presente, serão as responsáveis por como será o mundo do futuro para as crianças de hoje.

Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, pesquisadores discutem dois cenários sob a perspectiva de um observador do futuro, baseado nas decisões tomadas 50 anos antes. (1) No primeiro cenário, as emissões de gases do Efeito Estufa não foram controladas, o clima segue esquentando e as decisões tomadas para responder às mudanças climáticas foram inefetivas de forma geral. (2) No segundo cenário, ações ambiciosas foram tomadas para limitar as emissões de gases do Efeito Estufa e para estabelecer políticas que reduzissem a pressão antropogênica sobre o ambiente. Para desenvolver esses cenários foram utilizados dados quantitativos de modelos climáticos para variáveis físicas e químicas e, quando não era possível (ex. avaliação da situação dos sistemas biológicos e sociais), foi feita uma análise heurística, baseada no entendimento dos processos e respostas conhecidas de mudanças passadas.

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Fig. 1 | Antártica e Oceano Austral em 2070, sob os cenários de “baixas emissões/ações efetivas (esquerda) e “altas emissões/ações fracas” (direita).

(1) Antártica em 2070 sob altas emissões, segundo nosso viajante do futuro:

“Observando os 50 anos anteriores, fica claro que os últimos 50 anos se desenvolveram de acordo com o esperado pelo 5˚ Relatório do IPCC (2013). A demanda por alimentos e energia aumentou devido ao crescimento populacional e foi suprida por intensa atividade agrícola, principalmente sustentada por combustíveis fósseis e desmatamento. Isso, aliada à falta de regulação das emissões, acabou por aumentar ainda mais as emissões de gases de efeito estufa.

A temperatura média do ar já é mais de 3.5˚C mais alta que no fim do século XIX, o que excede os 2˚C recomendados pelos acordos climáticos internacionais (como o Acordo de Paris). A temperatura do Oceano Austral aumentou 1.9˚C o que, aliada à dessalinização por conta do aumento da precipitação, causou profundas mudanças na circulação dos oceanos e colapso de plataformas de gelo tanto do oeste como do leste da Antártica. Os icebergs gerados são cuidadosamente monitorados por conta do aumento do tráfego de navios na área, tanto de turismo como navios de pesca e navios comerciais. A melhora do acesso ao continente, aumentou consideravelmente a pesca. Rapidamente a sobrepesca de algumas espécies base alterou as cadeias tróficas, diminuindo o número de predadores de topo (como os pinguins) e ferindo a biodiversidade da região. Espécies invasoras no continente, especialmente de plantas, também são uma realidade.

O aumento do nível do mar já causa mais de 1 trilhão de dólares de prejuízo por conta de 27 cm de aumento, e as taxas esperadas para os próximos anos consideram um aumento de 10m irreversível, números similares ao último período de deglaciação da Terra.

As alianças começam a dar sinais de desgaste. Muitas discussões sobre criação de espécies marinhas e, principalmente, mineração, e como esses recursos poderiam ser divididos entre as nações causam conflitos que parecem ser irreversíveis. A conservação vai perdendo a importância e a Antártica hoje é tratada como um Parque Nacional ou reserva ambiental, vivendo precariamente do balanço entre turismo, lucro possível e conservação da biodiversidade.”

(2) Antártica em 2070 sob baixas emissões, segundo nosso viajante do futuro:

“Embora as perspectivas de ação global eficaz para mitigar as emissões parecessem sombrias em 2015, a subsequente ratificação do acordo climático das Nações Unidas em Paris (Acordo de Paris) por 196 países, anunciou uma nova era de cooperação internacional para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A redução mais rápida do que o previsto nos custos das energias renováveis ​​desencadeou uma rápida transição do carvão. Um aumento na magnitude e frequência de eventos climáticos extremos que afetam grandes populações e economias destacou a vulnerabilidade generalizada e convenceu os tomadores de decisão a aumentar sua ambição de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, com o forte envolvimento de cidades, regiões e empresas. Como resultado dessas políticas, a ampliação dos feedbacks de carbono não foi acionada, e estamos agora no caminho para manter o aquecimento bem abaixo da meta de 2°C. Novos caminhos financeiros ajudaram a criar um mercado de carbono funcional e equitativo, que é um incentivo para a rápida transição para uma economia de baixo carbono. Líderes empresariais e gestores de fundos começaram a apreciar as oportunidades financeiras e outros co-benefícios da transição associada à descarbonização, e as novas tecnologias permitiram o sequestro seguro e eficiente e, por fim, a remoção de gases de efeito estufa da atmosfera. O amplo reconhecimento dos perigos do uso irrestrito de combustíveis fósseis inspirou mudanças nos padrões de consumo no mundo desenvolvido, incluindo mudanças em dietas baseadas em plantas mais sustentáveis ​​e mudanças na agricultura e práticas de uso da terra. A disponibilidade de energia renovável de baixo custo permitiu que os países em desenvolvimento fornecessem energia acessível e diminuíssem a pobreza.

A temperatura do ar e demais aspectos da atmosfera, como o padrão de ventos, se mantiveram muito similares aos padrões de 50 anos atrás. As tendências de aquecimento e dessalinização no Oceano Austral observadas no início do século XXI foram se reduzindo até reverterem entre 2020 e 2050. As plataformas de gelo ficaram menos expostas às águas quentes, mas essa mudança não aconteceu rápido o suficiente para preservar as plataformas do oeste da Antártica. Quanto às plataformas do leste da Antártica, mais volumosas, estas se mantiveram relativamente intactas. O aumento do nível do mar foi de 6cm e continua principalmente sendo derivado da expansão térmica. O gelo marinho também retraiu, mas apenas 15%.

Em relação à biodiversidade, a estrutura continua muito parecida com a de 50 anos atrás e as espécies invasoras continuam controladas, principalmente porque a relativa estabilidade da  temperatura manteve o ambiente inóspito para as espécies que dominam os outros continentes. As ações mitigatórias também foram efetivas em diminuir a taxa de acidificação dos oceanos, preservando a biodiversidade dependente de cálcio e aragonita.

Como reflexo dos bons resultados do Acordo de Paris e motivadas por uma apreciação mais clara das ameaças à região e o valor global de uma melhor compreensão da Antártica e suas ligações com latitudes mais baixas, as nações envolvidas reafirmaram o compromisso de manter a Antártida como uma reserva natural para a paz e ciência.”

E o presente?

Os dois cenários são altamente especulativos e, segundo os autores, a intenção do estudo prioriza mais catalisar a discussão do que fazer previsões diretas para o futuro. A principal lição é que as escolhas feitas na próxima década irão determinar que trajetória seguiremos enquanto humanidade e que, apesar de o caminho da preservação e mitigação não ser fácil, ele é possível.

 

 

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Referências

Rintoul, S.; Chown, S.; Deconto, R.; England, M.; Fricker, H.; Masson-Delmotte, V.; Naish, T.; Siegert, M. and  J. Xavier. 2018. Choosing the future of Antarctica. Nature, 558, 233 – 241.

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A era da edição de genes humanos para curar doenças começou

Até a década de 1990, pessoas que sofriam de doenças genéticas não tinham expectativa real de cura. Nesta década, no entanto, cientistas começaram a desenvolver maneiras de se remover seletivamente genes de interesse do genoma de camundongos. A esperança de que no futuro a edição de genes fosse possível em seres humanos começou a ser alimentada. No século XXI, esta esperança se converteu em realidade e os responsáveis pelo desenvolvimento dos primórdios da edição de genes foram reconhecidos com o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina (https://www.jax.org/news-and-insights/jax-blog/2014/march/pros-and-cons-of-znfs-talens-and-crispr-cas). Em novembro do ano passado, vários sites noticiaram a pioneira e inovadora tentativa de edição de genes em seres humanos: Brian Madeux, de 44 anos, que sofre com a síndrome de Hunter, foi o primeiro ser humano a receber em seu organismo ferramentas de edição de genes visando sua cura (http://www.sciencemag.org/news/2017/11/human-has-been-injected-gene-editing-tools-cure-his-disabling-disease-here-s-what-you).

A síndrome de Hunter

A síndrome de Hunter é uma doença genética, o que significa que sua causa encontra-se em alterações no DNA dos pacientes. É também conhecida como mucopolissacaridose tipo II, pois a alteração no DNA prejudica a geração de proteína essencial (a iduronato-2-sulfatase) para o correto processamento de mucopolissacarídeos ou glicosaminoglicanos nas células. Estas substâncias então se acumulam nos lisossomos celulares causando comprometimentos graves ao paciente, como aumento do volume da cabeça e do abdômen, declínio de função cardíaca e atrasos no desenvolvimento. Quanto mais acúmulo de mucopolissacarídeos mal processados, mais evidentes e graves se tornam os sinais da síndrome (http://www.vidasraras.org.br/site/sindromes-raras/mucopolissacaridoses/mps-ii/367-mps-tipo-ii-o-que-e-a-sindrome-de-hunter).

No caso desta doença as alterações no DNA existem em diferentes versões e em diferentes regiões do gene da iduronato-2-sulfatase, localizado no cromossomo X (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1914889/). Alguns locais são mais comumente atingidos por estas alterações, sendo chamados de pontos quentes ou “hot spots” em inglês. O que estas alterações possuem em comum, no entanto, é impedirem a formação da versão correta desta proteína, essencial para o correto processamento dos mucopolissacarídeos e consequentemente o normal funcionamento celular.

As ferramentas mais comuns de edição de genes

As três mais famosas ferramentas que permitem a edição de genes são as nucleases dedos de zinco (ZFN), as nucleases TALE (TALEN) e o sistema CRISPR/Cas (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0734975017300617?via%3Dihub) (Figura 1). Estas possuem a capacidade de produzir quebra nas duas fitas do DNA no local para o qual foram destinadas pelo manipulador.

TALEN e ZFN trabalham em dímeros (duas unidades idênticas) e cada unidade contém uma região da proteína nuclease capaz de fazer o corte, derivado de uma outra proteína: a enzima de restrição FokI. Cada unidade possui ainda uma outra porção que faz o reconhecimento do local do DNA no qual o corte deve ser provocado.

Nas TALEN (Figura 1), esta porção de reconhecimento foi descoberta em patógenos de plantas e consiste em repetições (10 a 30 vezes) de aproximadamente 35 aminoácidos e 2 aminoácidos conferindo especificidade ao sistema (http://science.sciencemag.org/content/333/6051/1843.long). As versões comerciais mais comuns reconhecem e se ligam a um sítio de aproximadamente 18 pares de base no DNA alvo (https://www.jci.org/articles/view/72992).

Nas ZFN (Figura 1), o reconhecimento é de cerca de 3 ou 4 trincas de bases no DNA alvo para o corte no local desejado (https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0734-9750(14)00193-1). Das três ferramentas aqui abordadas foi a primeira a ser usada pelos cientistas para edição dirigida de genes .

No sistema CRISPR/Cas (Figura 1) (inspirado em mecanismo de defesa bacteriano), Cas é a nuclease responsável pela quebra de fita dupla no DNA (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/05/11/entenda-a-nova-arma-da-engenharia-genetica-crisprcas9-e-a-polemica-envolvida/). No entanto, neste caso faz-se necessária a utilização de uma molécula de RNA, o RNA guia (gRNA), para o correto posicionamento da proteína. O reconhecimento do DNA alvo se dá por 18 a 20 nucleotídeos (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3712628/).

Para corrigir uma região de DNA responsável por causar doenças, é possível se utilizar estas ferramentas. Basta dirigir o corte para a região com erro e fornecer, juntamente do sistema de edição sítio-dirigida de genes, o trecho de DNA com sequência correta e braços de homologia nas duas extremidades. As sequências com homologia para a região de corte orientam a inserção do trecho de DNA com gene correto no local do corte. Assim, o DNA antes com o trecho incorreto ocasionando doença, contém agora a versão correta. No caso da doença de Hunter, seria a versão correta do gene da proteína iduronato-2-sulfatase, possibilitando às células depois da terapia, realizar o processamento correto dos mucopolissacarídeos.

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Figura 1: Ferramentas de edição sítio-dirigida de genes. (A) ZFN (domínio FokI em rosa e domínio endonuclease –de corte- em azul). B. TALEN (domínio FokI em rosa e domínio endonuclease –de corte- em verde). (C) CRISPR/Cas (gRNA em amarelo e nucleaseCas em vermelho); modificado de https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0734975017300617?via%3Dihub.

Primeira tentativa de edição genômica em seres humanos (in vivo) (https://apnews.com/4ae98919b52e43d8a8960e0e260feb0a/AP-Exclusive:-US-scientists-try-1st-gene-editing-in-the-body)

Em Novembro de 2017, na Califórnia-Estados Unidos, o paciente Brian Madeux recebeu por via intravenosa várias cópias da versão correta do gene da iduronato-2-sulfatase e de sequência codificadora de ZNFs visando eliminar de seu DNA o fator causador da Síndrome de Hunter.

O gene e duas versões de sequência codificadora de ZFN (visando garantir o corte o mais específico possível no DNA alvo) foram entregues em veia do paciente dentro de partículas virais (veículos para condução desta informação ao interior das células do paciente).

O órgão alvo foi o fígado e, segundo os especialistas envolvidos no experimento, apenas 1% das células sendo corrigidas em seu DNA já seria suficiente para o paciente apresentar melhora do quadro.

O protocolo foi aprovado nos Estados Unidos pelo NIH (National Institutes of Health) e realizado sob supervisão do médico responsável Paul Harmatz no hospital Oakland.

Na data de realização do procedimento a equipe médica divulgou que o paciente seria novamente avaliado em fevereiro de 2018, 3 meses após o procedimento, a fim de se verificar o resultado final de sucesso ou fracasso da estratégia.

O maior risco de fracasso para a empreitada seria a inserção do gene corrigido em local não desejado, prejudicando assim a função de outros genes e podendo ocasionar outras doenças como alguns tipos de câncer.

No entanto o procedimento foi bem sucedido em seu propósito (https://nypost.com/2018/02/06/scientists-see-positive-results-from-1st-ever-gene-editing-therapy/), proporcionando revolução no campo da terapia gênica visando cura de doenças genéticas em seres humanos.

Brian Madeux sentiu fraqueza e tontura quatro dias após a terapia, mas os sintomas só persistiram por 24 horas. Seu fígado não apresentou sinais de lesão, resultado almejado pelos médicos. Até o presente momento não há indícios de que a terapia apresente riscos no que tange segurança para uso em humanos.

Um novo paciente com a mesma síndrome já foi submetido ao tratamento e a equipe médica declarou em conferência que ambos passam bem. Novos protocolos serão desenvolvidos assim como novos mecanismos para garantir a segurança da técnica. Já existe projeto, por exemplo, de teste do protocolo para outras doenças, como a hemofilia.

Assim sendo, nos encontramos oficialmente na era da edição de genes humanos para curar de doenças.

 

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Nenhum pedacinho a menos! A importância de manter as florestas “intactas”

Apesar das crescentes taxas de desmatamento na Terra, as florestas ainda estão amplamente distribuídas, cobrindo um total de 40 milhões de km2, aproximadamente 25%, da superfície terrestre. Entretanto, destas florestas restantes, 82% estão atualmente degradadas de alguma forma, como resultado de ações humanas diretas, como exploração industrial, urbanização, agricultura e infraestrutura.

Um estudo publicado com 28 cientistas, em abril de 2018 na revista Nature [1], mostra a necessidade de identificar e preservar os ecossistemas naturais “intactos”, que são aqueles, conforme definição dos autores, livres de degradações significativas feitas pelo homem. Os cientistas mostraram que as florestas “intactas” são indispensáveis não só para conseguirmos frear as mudanças climáticas provocadas pela nossa espécie, mas também para barrar a crise da perda de biodiversidade do planeta, além de fornecerem serviços ecossistêmicos essenciais e permitirem a manutenção da saúde humana.

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Figura 1. Mapas da extensão das regiões de floresta intacta no mundo e graus de pegada humana (intervenção) nos ecossistemas florestais. (FONTE: Watson et al., 2018, traduzido para português).

Desde o ano de 1870, os processos de degradação das florestas foram responsáveis por 26% das emissões de CO2 atmosférico. As florestas intactas armazenam mais carbono que florestas derrubadas, degradadas ou plantadas em locais ecologicamente comparáveis. A explicação para isso é que a extração de madeira e a conversão de florestas em terras agrícolas causam grande erosão e contribuem para a perda de carbono subterrâneo, liberando o gás na atmosfera. Além disso, as florestas intactas contribuem com a complexidade da fauna nos ecossistemas e sequestram carbono ativamente em solos e biomassa viva.

Florestas intactas atuam na regulação do clima local e regional, além de atuarem na geração de chuvas e na prevenção de secas. Os autores demonstram que a degradação e perda de floresta intacta pode aumentar o número de dias secos e quentes, diminuir a intensidade das chuvas diárias e aumentar a duração da seca durante os anos do El Niño. Adicionalmente, a degradação das florestas podem afetar a disponibilidade de escoamento de água e a manutenção dos serviços hidrológicos.

A conservação da biodiversidade é outro fator importante para a preservação das florestas. Estes ambientes possuem maior número de espécies sensíveis, são importantes refúgios de animais e possuem maior diversidade genética e funcional do que os ambientes degradados [1]. Além disso, são ecossistemas com maior quantidade de funções para a sociedade, como a dispersão de sementes e serviços de polinização.

Pelo menos 250 milhões de pessoas no planeta vivem em florestas e, para muitas delas, suas identidades culturais estão profundamente enraizadas nas espécies de plantas e animais encontradas nestes ambientes. A fragmentação e degradação das florestas impede a manutenção dos hábitos e tradições dos povos da floresta, levando essas pessoas a estarem conectadas com os produtos provenientes da cidade para sobreviverem. Além disso, causam diversos impactos na saúde dessas pessoas, que são expostas à doenças e vetores das regiões externas à floresta. Nos dias atuais, existem evidências crescentes que o fortalecimento da posse da terra para os povos da floresta é uma maneira eficaz para proteger esses ambientes.

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Figura 2.  Comunidade indígena que vive isolada na Amazônia que foi fotografada pela primeira vez em setembro de 2016 (Foto: Guilherme Gnipper/Hutukara/Divulgação/G1).

Em relação aos benefícios a saúde humana, os ecossistemas florestais são importantes fontes de muitos compostos medicinais que fornecem medicamentos a milhões de pessoas em todo o mundo. Adicionalmente, florestas intactas reduzem os riscos de doenças infecciosas, como Ebola, dengue, zika vírus, vários hantavírus, febre amarela e malária. Assim, o maior índice de incidência dessas doenças endêmicas está relacionado à invasão e degradação das florestas decorrentes do aumento da presença humana nesses habitats.

Em relação ao Brasil, um grande problema atual é a permissão por parte do governo de classificar e autorizar o uso de áreas de florestas nativas impactadas como áreas que podem ser “exploradas”. Na Amazônia brasileira, 16% das áreas com permissão para utilização são desmatadas para agricultura no primeiro ano após a exploração, com perdas adicionais nessas áreas de mais de 5% ao ano nos próximos quatro anos. A taxa de queimadas nessas regiões é muito maior do que em outras áreas, e, além disso, o risco de invasão de espécies exóticas também é maior do que em florestas não-degradadas. Assim, a definição de uma área como “menos importante”, “degradada” ou “passível de modificação e/ou exploração” torna essas regiões mais propensas a serem desmatadas.

Apesar de todos esses benefícios indiscutíveis, é possível vislumbrar, ainda no atual século, um mundo com poucas ou nenhuma área de floresta intacta remanescente significativa. Em alguns anos, a humanidade provavelmente irá presenciar apenas florestas degradadas e danificadas, que irão precisar de restaurações caras e algumas vezes inviáveis, abertas a uma série de novas ameaças e sem a capacidade de suportarem as tensões das mudanças climáticas cada vez mais reais. Assim, existe uma necessidade urgente de maiores esforços de conservação das florestas em todo o mundo, e para isso a sociedade precisa entender a importância da conservação da integridade das florestas, bem como os valores sociais e ambientais provenientes destes ecossistemas.

 

Referências:

[1] Watson et al., The exceptional value of intact forest ecosystems. Nature: Ecology & Evolution, v. 2, p. 599–610, 2018.

 

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Ser mãe e cientista: o que está por trás disso?

Aceitar a maternidade sem julgamentos e estimular a pesquisadora mãe, um combo que requer mais investimentos por parte da sociedade.

A psicóloga Wendy M. Williams é professora no Departamento de Desenvolvimento Humano na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, onde fundou e dirige o Instituto Cornell para Mulheres na Ciência. É de autoria dela e do professor Stephen J. Ceci, também do mesmo Departamento, um breve artigo de 2012 publicado na revista American Scientist: “When scientists choose motherhood” (“Quando as cientistas escolhem a maternidade”, na tradução para o português).

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Ciência e maternidade: a engenheira industrial Lillian Gilbreth, que também foi estudiosa da psicologia aplicada ao trabalho, em momento de trabalho e família com os filhos na casa de Rhode Island, em 1916.

No texto, eles enumeram os motivos que geralmente são mencionados nas explicações sobre a escassez de pesquisadoras, a nível internacional, em áreas como a matemática, física e química e em posições de destaque dentro do universo acadêmico. Um complexo sistema de opressões e questões negligenciadas está por trás disso: o chamado “teto de vidro” da Academia, que já rendeu texto para as Cientistas Feministas. O artigo da American Scientist ressalta a importância de se discutir e reconhecer a maternidade como um elemento que contribui para a sub-representação feminina dentro da ciência. A culpa não é da maternidade, claro, mas de fatores históricos e sociais que acompanham esse momento.

Segundo os autores, é quando a cientista “decide ser mãe que os problemas reais começam”, e as crianças parecem não afetar a vida profissional dos pais tanto quanto afetam a das mães. É mais comum encontrar pesquisadores heterossexuais com esposas que ficam em casa ou que têm empregos mais flexíveis que as permitem permanecer em casa com os filhos, enquanto os maridos estão mais livres para focar no trabalho. O cenário contrário (mulheres cujos maridos ficam mais em casa) acontece em menor grau, de acordo com o artigo.

O contexto histórico é muito importante aqui, já já iremos falar dele. Escrito por autores norte-americanos, o artigo menciona bastante um sistema de cargos que existe nos Estados Unidos e no Canadá que é similar a um período probatório para cientistas, o famoso “tenure-track”. Ao longo desse estágio probatório, ela ou ele precisa acumular experiências (bolsas, prêmios, artigos e aulas ministradas, por exemplo) para apresentá-las num portfólio impecável ao final de mais ou menos seis anos. No outro lado do arco-íris, geralmente, está o emprego estável, bem remunerado e de prestígio, como o cargo de professor dentro da universidade. No Brasil, podemos dizer que temos um equivalente, que é o cargo de professor titular.

Pois bem, mas qual é o problema? O sistema “tenure”, de acordo com Williams e Ceci, abrange a idade dos 27 aos 35+, momento em que muitas mulheres expressam desejo por ser mãe e acabam tendo o primeiro filho. Como disse acima, a história é importantíssima. Vejam o que os autores escrevem: “O sistema ‘tenure’ foi criado numa época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa e quando a criação dos filhos era assumida como sendo responsabilidade da mulher. Então, ele foi desenhado para pessoas sem muitas responsabilidades significativas com o trabalho doméstico ou o cuidado com os filhos. De fato, muitos professores jovens não eram homens casados e esperava-se que eles vivessem em residências dentro da universidade. Muito mudou desde então, mas o sistema ‘tenure’ continuou mais do mesmo”.

Se as relações e papéis sociais felizmente mudam com o tempo, a sociedade deveria acompanhar essas mudanças em vez de ficar presa em valores do passado. Ou, pior: apoiar medidas contra a desigualdade de gênero, mas não fazer efetivamente nada ou fazer muito pouco para mudar as estruturas dominantes. Na luta contra as desigualdades de gênero, há que se prestar atenção na sociedade que fundamentou uma determinada estrutura e é urgente reescrever linhas e entrelinhas para que tudo fique explícito e claro, sem nada a esconder em letras miúdas.

Voltando ao artigo, os autores, ao final, traçam o percurso dos caminhos possíveis que poderiam ser adotados pelas universidades para lidar com essa questão que desestimula as cientistas a persistirem na carreira científica ou, até mesmo, a desistirem de ser mães. A resposta parece passar pela compreensão a respeito do tempo da mulher, já que uma das medidas cabíveis é aumentar o período de tenure-track para elas, reconhecendo o espaço que a maternidade ocupa na vida de muitas.

Como vimos no primeiro texto sobre maternidade e ciência publicado aqui no CsFs, a trajetória de uma pesquisadora brasileira após a graduação envolve, geralmente, mestrado, doutorado e pós-doutorado. É apenas após o pós-doc que a maioria das cientistas consegue uma posição mais estável dentro das universidades brasileiras. Para muitas, numa idade que tende a ser a primeira metade dos 30 anos, como mostrou a pesquisa do grupo Parent in Science, isso significa o início da consolidação da carreira acadêmica. E também, para muitas, a época de tornar-se mãe. Em dezembro de 2017, o governo brasileiro sancionou a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. No entanto, no Brasil, ainda faltam oportunidades de bolsa que compreendam a maternidade como um todo e o período da licença-maternidade.

Para escrever este artigo, li também a pesquisa de mestrado de Ana Maria Urpia, mestre em psicologia pela UFBA: “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”. E, aqui, abro um parênteses de desabafo. Em todo o momento da leitura, uma pergunta incômoda atravessava a minha cabeça: por mais que muitos avanços tenham sido feitos e que a generalização não caiba dentro deste comentário, até quando veremos homens omissos e pouco pró-ativos nos quesitos compartilhar igualmente tarefas domésticas, cuidar dos filhos e arcar com a carga mental que provém do gerenciamento dessas tarefas?

Reconhecendo que, em nossa cultura, “as responsabilidades dos cuidados parentais” ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, Urpia buscou entender o que acontece quando estudantes universitárias jovens, de 19 a 25 anos, acabam virando mães e têm que conciliar a transição para a fase adulta com a maternidade e a vida acadêmica. Com a descoberta da gravidez, geralmente ocorre a interrupção de estudos, sonhos, projetos e até relacionamentos. A pesquisadora afirma que “a narrativa de vida construída pelas mães-estudantes revela-se como uma espécie de balanço prospectivo, ‘apresentando o estado de relação com o possível e buscando, no reconhecimento do passado, pontos de referência para o futuro’”. Nos relatos do estudo, aparece muito o discurso das estudantes que se veem “lançadas para frente graças à necessidade de responsabilizar-se por uma outra vida e ao desejo de verem-se qualificadas para o mercado de trabalho”. Elas estão, conforme a pesquisa explica, orientadas por um futuro em que existe um “projeto de si mesmo”, onde poderão retomar o que foi deixado lá atrás. Além de ser um referencial teórico riquíssimo que pode orientar políticas dentro das universidades a favor das estudantes mães, a pesquisa também dialoga com as dificuldades enfrentadas pelas jovens pesquisadoras mães adultas. Até quando a maternidade será vista como interrupção e não como uma fase da vida que precisa ser integrada? Até quando a vida dessas mães precisará ser escrita APESAR da maternidade e não COM a maternidade? Gostaríamos de ter mais respostas para essas dúvidas.

Fontes:

Dissertação de Ana Maria Urpia | “Tornar-se mãe no contexto acadêmico: narrativas de um self participante”

Gênero e número – Edição Mulheres na ciência, com foco especial em maternidade

Vamos falar de raça e classe na ciência: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/04/06/vamos-falar-de-raca-e-classe-na-ciencia/

Is Motherhood the Biggest Reason For Academia’s Gender Imbalance?: http://science.sciencemag.org/content/335/6072/1030

When scientists choose motherhood: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3939045/

Career gaps: maternity muddle – https://www.nature.com/nature/journal/v509/n7500/full/nj7500-389a.html