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Somo todos carnívoros? Ou somos todos vegetarianos?

É cada vez mais constante em nossas vida a discussão do que devemos ou não comer. Sugestões de dietas estão por todas as partes, jornal, novela, Twitter, Reddit, na roda do cafezinho do trabalho. Contudo, a motivação que nos leva a essa curiosidade é diferente para cada grupo de pessoas; pode ser a busca por um estilo de vida saudável, pode ser consciência ambiental, solidarização com os animais, guerra contra a indústria alimentícia, moda, intenção de emagrecer ou mesmo a combinação destes e outros fatores.

Uma coisa bastante comum entre os discursos sobre dieta, é afirmar que a “sua” dieta é a correta porque é aquela para qual o nosso corpo é biologicamente preparado para lidar.

Mas o nosso corpo evoluiu para comer o quê?

 

 

woman carrying basket of fruits and vegetables

Foto por rawpixel.com em Pexels.com

A questão pode parecer simples inicialmente. Não possuímos características anatômicas de carnívoros – nossos dentes não são ótimos para rasgar a carne como de onças, nossos intestinos são muito longos; mas também não possuímos os dentes de herbívoros ou um intestino tão longo quanto o deles. Isso parece nos dizer que somos onívoros, que significa que comemos de tudo, seja conteúdo vegetal ou animal. Contudo, muitas vezes essas relações entre anatomia e dieta não são tão claras, por exemplo o panda: ele possui caninos que poderiam te levar a concluir que é um carnívoro, mas ele come exclusivamente bambu.

 

Como anatomicamente somos parecidos com outros macacos poderíamos olhar na dieta deles para termos uma ideia do que seria nossa dieta “natural”. E assim, poderíamos concluir que comemos frutas, folhas, nozes, insetos e ocasionalmente carne. Outra forma de acessar o que evoluímos para comer, seria olhar para as dietas das populações humana que não reproduzem o sistema social das populações contemporânea-ocidentais. E verificaríamos que em sua maioria, não possui carne como base da alimentação

Então, somo predominantemente vegetarianos?

 

Também não. Um recente estudo publicado na Nature (pelos biólogos Katherine Zink e Daniel Lieberman da Universidade de Harvard), traz mais evidências à velha teoria do órgão caro; dois órgãos que são energeticamente muito custosos são o intestino e o cérebro. Herbívoros precisam de longos intestinos – onde vivem bactérias, para conseguir digerir as complexas células vegetais. Como nossos antepassados tinham uma dieta com base em alimentos de origem vegetal, precisamos de um intestino longo (lembra que mencionei que é mais longo que de um carnívoro?), mas ser capaz de acessar essa fonte extra de energia e proteína fornecida pela carne permitiu que nosso cérebro evoluísse. Ao mesmo tempo que economizamos em não ter um intestino maior ainda, também alocamos energia para o cérebro. Isso foi cerca de 2,6 milhões de anos atrás.

Mas não poderíamos apenas comer mais frutas, verduras, raízes (poxa todo mundo sabe que batata tem muita energia!)? Matematicamente falando, sim. Bastaria comer mais das fontes vegetais, contudo precisaríamos de muito tempo comendo para conseguir o necessário para liberar energia usada na evolução do nosso cérebro. Ainda mais se nossos ancestrais estivessem se alimentando de alimentos crus (o processo de cocção, não apenas ajuda na mastigação fazendo com que você consiga comer mais em menos tempo, mas também na digestão dos nutrientes, contudo, apenas dominamos esses processo 500 mil anos atrás). De acordo com Katherine e Daniel, para que nossos antepassados conseguissem energia suficiente apenas de fontes vegetais eles teriam que mastigar até 15 milhões de vezes em um ano. Isso porque no experimento conduzido por eles, foi utilizado raízes que são mais calóricas que outros alimentos vegetais. (Uma mandioca é mais calórica que um alface ou uma maçã). No experimento eles alimentaram um grupo de voluntários com raízes e outro grupo com carne, e utilizando eletrodos mediram quantas vezes cada grupo precisava mastigar e quanta energia gastavam para ingerir a mesma quantidade calórica.

agriculture cows curious pasture

Foto por Pixabay em Pexels.com

Nada disso, claro, significa que o consumo de carne aumentou tanto nos humanos contemporâneos. Clique aqui se você quiser acessar a média do consumo de carne por país. O paladar tem um papel fundamental aqui. Assim como o acesso a carne, mas isso já é assunto para uma próxima conversa.

 

Apenas gostaria de terminar dizendo, que não é porque a proteína da carne foi fundamental para a nossa evolução que nossa dieta não pode mudar. Como dito neste outro texto, não paramos de evoluir e há adaptações recentes a dietas como consumo de leite. Além disso, hoje o acesso a alimentos (infelizmente não para todos) é fácil, permitindo que você tenha acesso a outras recursos calóricos e ricos em proteína que não tenha origem animal, e claro, você também pode cozinhar.

 

Considerando nossa crise ambiental, discutir nossa dieta pensando na nossa saúde e na saúde do nosso planeta é uma questão urgente.

 

PARA LER MAIS:

 

Zink, K. D. & Lieberman, D. E. (2016). Impact of meat and lower Palaelithic food processing techniques on chewing in humans. Nature, 531, 500-503

https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/evolution-of-diet/

Fotos de domínio livre a serem usadas (pizabay):

 

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Redução de açúcares dos alimentos industrializados: o que muda com o acordo?

No final de novembro deste ano (26/11), o Ministério da Saúde assinou um acordo com os presidentes de associações do setor produtivo de alimentos, com o objetivo de reduzir o teor de açúcar de cinco categorias de alimentos: 1) bebidas adoçadas (refrigerantes, néctares e refrescos); 2) biscoitos (biscoitos doces sem recheio, exceto, biscoitos maria e maisena, biscoitos doces recheados, biscoitos wafers e rosquinhas; 3) bolos e misturas para bolos; 4) achocolatados em pó e produtos similares; e 5) produtos lácteos. A lista completa de produtos e os itens do acordo podem ser lidos na íntegra aqui

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Por meio desse acordo, estima-se reduzir um total 144 mil toneladas de açúcar dos produtos até 2022. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizará o monitoramento da redução do açúcar na formulação dos produtos a cada dois anos, sendo a primeira análise no final de 2020. Fazem parte do acordo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR), a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (ABIMAPI) e a Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos) {1}.

Segundo dados do Ministério da Saúde, as metas propostas  foram estabelecidas na forma de quantidade de açúcar por porção do alimento, baseadas em critérios que envolvem desde o consumo de açúcar pela população  e distribuição dos teores de açúcar dos alimentos até a necessidade de redução dos níveis máximos de açúcar do alimento; queda dos teores de açúcares livres não resultantes em aumento no valor energético e de adição ou substituição por adoçantes, além do percentual de produtos a serem reformulados para atingirem à meta. Cada tipo de produto possui uma meta individual de redução da quantidade de açúcar por porção, como pode ser lido no acordo. Os biscoitos e produtos lácteos terão os maiores percentuais de meta para redução do alimento até 2022, com a meta de retirar 62,4% e 53,9% de açúcar da composição, respectivamente. Para bolos, a meta é de até 32,4% e para as misturas para bolos, até 46,1% do teor de açúcar. Já os achocolatados, tem a meta de cair até 10,5% e as bebidas açucaradas até 33,8%.

A medida faz parte dos esforços do Brasil para auxiliar no controle das doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes e as doenças cardiovasculares (leia mais sobre o tema nos textos do blog). Segundo o Ministério da Saúde, o país se destaca como um dos primeiros países do mundo a buscar a diminuição do açúcar nos alimentos industrializados. Apesar de números totais robustos, o acordo divide opiniões de especialistas da área de Alimentação e Nutrição, e é considerado fraco. As críticas incluem o caráter voluntário da medida, a falta de punições para quem não cumprir o acordo e metas tímidas, que não atingem alguns dos produtos mais consumidos pelos brasileiros, como refrigerantes e bebidas açucaradas. Ao lermos o rótulo dos refrigerantes mais famosos, por exemplo, observa-se que eles possuem 10,5 gramas de açúcar para cada 100 mililitros, enquanto que a meta para 2022 é de 10,6 gramas por 100 mililitros. Segundo dados da pesquisa do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), 26% da população brasileira entrevistada consome refrigerantes pelo menos cinco dias na semana, sendo mais frequente entre os mais jovens{2}. Outro importante estudo brasileiro, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que nos últimos anos houve redução do consumo do açúcar de mesa, mas cresce a ingestão de açúcares adicionados a alimentos e bebidas em produtos industrializados, como refrigerantes, néctares, balas, biscoitos, bolos e chocolates {3}. Ou seja, o aumento do consumo de açúcar em alimentos prontos para consumo representa um cenário muito preocupante.

O “desânimo” de alguns especialistas em relação ao acordo também está pautado no desdobramento de um acordo anterior para redução do sódio dos alimentos, assinado em 2011. Da mesma forma que o atual, o acordo do sódio previa metas já alcançadas pela maioria dos produtos. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) foi constatado que o valor estipulado era muito baixo e ineficiente, exatamente porque a maioria dos produtos já estavam dentro da meta estabelecida {4}. Para a nutricionista do Idec, medidas eficazes são aquelas que realmente apoiam a escolha de alimentos saudáveis pelo consumidor, e que exigem maior controle do Estado. Um exemplo é a mudança dos rótulos dos alimentos, que passariam a conter advertências para o teor de sódio e açúcar, por exemplo, empoderando o consumidor. A inclusão das advertências nos rótulos é um projeto de lei, ainda em votação (link para votar), e precisa muito do apoio de toda a população{5}.

Outra medida interessante é a taxação extra de produtos industrializados.

Medidas similares já foram adotadas por países como Colômbia e México, onde se aumentou a taxação de impostos sobre produtos açucarados. O impacto da medida ainda está sendo avaliadoem pesquisas da área de saúde pública, mas já é considerada estratégia importante com benefícios sociais, econômicos e para a saúde , mostrando redução da probabilidade de compra e ingestão de açúcar especialmente nas populações de menor renda{6,7,8}.

A única certeza que se tem é que para enfrentar as doenças crônicas são necessárias ações em diferentes frentes. A alimentação adequada e saudável constitui um dos principais pilares para a promoção da saúde. Para que essa alimentação saudável seja possível,  é imprescindível a participação da sociedade, compartilhando informações e manifestando posicionamentos – afinal o maior poder é dos consumidores.

Referências

  1. http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44777-brasil-assume-meta-para-reduzir-144-mil-toneladas-de-acucar-ate-2022
  2. https://www.ans.gov.br/images/Vigitel_Saude_Suplementar.pdf
  3. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063.pdf
  4. https://idec.org.br/em-acao/artigo/acordo-para-reduco-de-sodio-nos-produtos-industrializados-no-e-eficiente-entrevista-especial-com-ana-paula-bortoletto
  5. http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SAUDE/563665-PROJETO-PREVE-ADVERTENCIA-EM-ROTULOS-DE-ALIMENTOS-PROCESSADOS-E-ULTRAPROCESSADOS.html
  6. Backholer, K., & Martin, J. (2017). Sugar-sweetened beverage tax: The inconvenient truths. Public Health Nutrition, 20(18), 3225-3227. doi:10.1017/S1368980017003330
  7. Nakamura R, Mirelman AJ, Cuadrado C, Silva-Illanes N, Dunstan J, Suhrcke M. Evaluating the 2014 sugar-sweetened beverage tax in Chile: An observational study in urban areas. PLoS Med. 2018 Jul 3;15(7):e1002596. doi: 10.1371/journal.pmed.1002596. eCollection 2018 Jul.
  8. Álvarez-Sánchez C, Contento I, Jiménez-Aguilar A, et al. Does the Mexican sugar-sweetened beverage tax have a signaling effect? ENSANUT 2016. PLoS One. 2018;13(8):e0199337. Published 2018 Aug 22. doi:10.1371/journal.pone.0199337

 

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Eu, tu e os neandertais

Os neandertais eram hominídeos e são nossos relativos mais próximos. 

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À esqeurda o esqueleto de um neandertal e a direita de um Homo sapiens. Crédito:  American Museum of Natural History.

Isso significa que eles eram muito parecidos com o que somos hoje em dia. Esses nossos parentes não apenas coexistiram, como mantiveram relações sexuais com nossos antepassados. Apesar de não sabermos com que frequência essa ou outras relações sociais aconteceram – ou ainda se eram conscienciais, identificar que havia uma interação entre os neandertais e nossos antepassados pode elucidar o que do comportamento deles – ou do nosso – pode ter levado a que nossa espécie se espalhasse pelo mundo enquanto os neandertais se extinguissem há aproximadamente 40 milhões de anos.

 

 

Um dos comportamentos que nos dizem muito sobre as condições de vida (e que é relativamente fácil de se encontrar evidência em materiais preservados) é o comportamento alimentar. Os neandertais viveram na Eurásia, na época conhecida como Pleistoceno. Hum… talvez essa palavra já lhe remeta à famosa “dieta paleolítica”, não?

 

Pois é, saber do que nossos antepassados e nossos parentes mais próximos se alimentavam pode nos dar valiosas pistas de como nosso corpo lida com o alimento e assim ressignificar as opções dos alimentos disponíveis no mundo moderno. Na realidade isso tem importância no nível pessoal, ajudando você a escolher uma dieta saudável, mas também para medidas públicas como fornecer evidência para programas de subsídio à produção de determinados alimentos, incentivos à complementação alimentar, direcionamento para formulação de merendas e métodos protecionistas contra a produção em massa de produtos prejudiciais.

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E como sabemos o que os hominídeos estavam comendo?

Um recente estudo abordou o tema de forma inovadora e trouxe mais luz – ou maiores discussões sobre o que os neandertais estavam comendo.

Até o momento sabíamos por análises arqueológicas e de isótopos, que os hominídeos eram carnívoros e se alimentavam de ursos polares, lobos, renas, mamutes e rinocerontes. Contudo, esse estudo analisou ossadas de neandertais de diversas localidades e concluiu que na Bélgica – como o esperado – os neandertais tinham uma dieta rica em proteína animal e suas presas incluíam animais como rinocerontes e um tipo de carneiro selvagem que eram bastante característicos do ambiente. Já os neandertais que viviam na Espanha, na região da caverna El Sidrón, comiam muitos cogumelos, castanhas, e produtos que coletavam na floresta.

Dessa forma, esse estudo, usando de análises de micro fissuras e de bactérias conservadas no tártaro dos dentes, mostrou uma relação entre dieta e o ambiente em que os neandertais viviam; ou seja, eles comiam o que havia disponível, não dependendo necessariamente de proteína animal.

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Esse trabalho é muito importante tanto para o entendimento da evolução humana quanto para responder questões bastante atuais sobre a importância da proteína animal no dia a dia. Já que indica que o que guiaria a composição da dieta não seria necessidade por um determinado nutriente, mas a disponibilidade dos recursos.

Vale ressaltar que este trabalho também é bastante importante não apenas pelos resultados, mas porque usou uma técnica muito interessante de análise; além de estudar as micro fissuras causadas nos dentes pelo atrito com os alimentos, eles identificaram geneticamente as bactérias presentes nos tártaros. Como as bactérias possuem uma dieta específica elas são um indício confiável sobre o que aquele indivíduo estava comendo. As bactérias vivem na sua boca podendo se alimentar apenas do que você escolheu comer. Logo, se você é um carnívoro, sua boca contará com uma fauna carnívora, porque aquelas bactérias que só comem vegetais morreriam de fome. Elas podem formar e ficar conservadas no que conhecemos como tártaro por milhares de anos, e além de nos dar pistas do que se comia também nos fornece informação como possíveis doenças que abalavam nossos parentes neandertais (e outros hominídeos e animais). Esse estudo abriu portas para que esses delegados “problemas” bucais, tártaros e abscesso, recebam mais atenção, porque também evidenciou que estes neandertais estavam se utilizando de plantas medicinais já que foi encontrado ácido salicílico (componente ativo da aspirina) e Penicillium.

Fácil então, identificar que não há uma pílula mágica – ou nutriente mágico. Avançamos – e muito – nas metodologias, nos instrumentos e nas interpretações para decifrar o material preservado e desvendar nossa dieta, e cada vez mais acumumulamos evidência da nossa adaptação à flexibilidade. Temos uma estratégia flexível, ou seja, somos especialistas em respondermos ao ambiente. Comemos o que está disponível. E isso foi e ainda é bastante importante para nossa sobrevivência. Talvez, o grande desafio para a nossa saúde não sobreviva nos resquícios do passado, mas no perigo das novas tecnologias.

PARA SABER MAIS:

Weyrich, Duchene, Cooper (2017) Neanderthal behaviour, diet, and disease inferred from ancient DNA in dental calculus. Nature. 544: 357-361

Henry A G, Ungar P S, Passey B H et al (2012).. The diet of Australopithecus sediba. Nature. 487: 90–93

Lieberman, D. A história do corpo humano: evolução, saúde e doença. Editora Zahar.

Créditos das fotos: pixabay (fotos livres)

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Ser vegetariano faz bem ao coração?

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Nutrição e coração

 

Não é novidade que a alimentação vegetariana tem sido associada a menor risco de doenças do coração. Entretanto, a maioria dos estudos realizados até o momento apresenta algumas falhas metodológicas, como analisar dietas vegetarianas restritas (considerado uma mudança muito radical para algumas pessoas) ou dietas que excluíram apenas alguns alimentos de origem animal (por exemplo a carne vermelha, ou em outros casos todos os tipos de carne). Além disso, a maior parte dos trabalhos não faz distinção entre a qualidade dos produtos vegetais, incluindo produtos sabidamente relacionados a pior perfil metabólico, como bebidas ricas em açúcar. Colaborando para preencher essas lacunas, um estudo publicado neste ano no Journal of The American College of Cardiology1, importante revista de cardiologia, mostrou que não basta ser vegetariano: é preciso escolher bons alimentos vegetarianos para manter o coração saudável!

Partindo do ponto que pequenas mudanças alimentares são mais fáceis de serem seguidas, a pesquisadora Ambika Satija e seus colaboradores da Harvard Medical School em Boston (EUA) estudaram o efeito de reduções graduais de alimentos de origem animal juntamente com o aumento daqueles de origem vegetal em mais de 200 mil adultos que foram acompanhados a cada dois a quatro anos. Os participantes da pesquisa responderam a um questionário de frequência alimentar incluindo cerca de 133 alimentos. Os dados foram reunidos em 18 grupos alimentares dentro de três grandes categorias: alimentos vegetais saudáveis (grãos integrais, frutas/vegetais, nozes/legumes, óleos vegetais, chá/café), alimentos vegetais menos saudáveis (sucos de fruta*, grãos refinados, batatas, bebidas adoçadas, doces/sobremesas), e alimentos de origem animal, como apresentado na Tabela 1. O diferencial desse trabalho foi a criação de índices a partir da pontuação desses alimentos: 1) índice de dieta baseada em vegetais (IDV) onde produtos de origem vegetal saudáveis e não saudáveis receberam pontuação positiva e os de origem animal receberam pontuação negativa; 2) índice de dieta de origem vegetal saudável (IDVs), em que alimentos vegetais saudáveis tiveram pontuação positiva e os demais, negativos; e 3) índice de dieta de origem vegetal não saudável (IDVns), em que alimentos de origem vegetal não saudável receberam pontuação positiva. Assim, os maiores índices encontrados significam menor consumo de alimentos animais. Os pesquisadores também avaliaram o desenvolvimento de doença cardíaca coronariana (DCC), definida como infarto do miocárdio (IM) não fatal e doença cardíaca coronariana fatal.

 

Tabela 1. Exemplos de Itens Alimentares dos 18 grupos estudados a partir dos Questionários de Frequência Alimentar.

  IDV IDVs IDVns
Grupos alimentares vegetais
Saudáveis
Grãos integrais Arroz integral, aveia, cereal matinal integral Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Frutas Uva-passa, banana, ameixa, melancia, maçã Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Vegetais Tomate, brócolis, molho de tomate, abobrinha, batata-doce, espinafre, alface, berinjela Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Castanhas Nozes, castanhas, pasta de amendoim Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Leguminosas Feijão, tofu, soja Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Óleos vegetais Azeite, óleos vegetais para cozinhar Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Chá e café Chá, café e café descafeinado Pontuação positiva Pontuação positiva Pontuação reversa
Menos saudáveis
Sucos de frutas Sidras, sucos de maçã, de laranja Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Grãos refinados Pão branco, cereal matinal açucarado, bolos, “waffles”, panquecas Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Batatas Batata frita, batata chips, purê de batata Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Doces e sobremesas Chocolate, bala, gomas, tortas, geléias, bolos Pontuação positiva Pontuação reversa Pontuação positiva
Grupos alimentares animais
Gordura animal Manteiga Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Laticínios Leite desnatado, iogurte, queijos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Ovos Ovos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Peixe e frutos do mar Atum enlatado, peixes, camarão Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Carnes Frango, peru, boi, hambúrguer,carne processada, salsicha, linguiça Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa
Produtos variados de origem animal Pizza, maionese, cremes prontos Pontuação reversa Pontuação reversa Pontuação reversa

IDV = Índice de dieta vegetariana geral; IDVs = Índice de dieta vegetariana saudável; IDVns = Índice de dieta vegetariana não-saudável

            Os autores encontraram que a adesão à IDV foi inversamente associada com as DCC. Ao se avaliar IDVs e IDVns separadamente, ter uma dieta vegetariana não saudável aumentou o risco relativo de DCC em 32%, enquanto que ter uma dieta vegetariana saudável reduziu o risco em 25%. Esses resultados foram consistentes considerando as diferenças de idade, índice de massa corporal, história familiar de doença cardíaca coronariana e gênero. Para verificar se o consumo de alimentos de origem animal afetava os resultados das dietas vegetarianas, os pesquisadores fizeram diferentes ajustes estatísticos, e não encontraram mudanças nos resultados.

Traduzindo: simplesmente ser vegetariano ou excluir produtos animais sem critério não necessariamente significa ter uma alimentação mais saudável. É preciso escolher alimentos de boa qualidade: mais grãos integrais que refinados, mais alimentos inteiros do que sucos, por exemplo. Outro ponto importante levantado pelo estudo é que para aquelas pessoas que gostariam de seguir uma dieta vegetariana mas acham muito difícil, reduzir as porções de alimentos animais já traz muitos benefícios. Ter uma alimentação rica em vegetais saudáveis leva ao maior consumo de fibras, antioxidantes, gorduras insaturadas, vitaminas e minerais – nutrientes que melhoram nossa resposta metabólica.

E aí, vamos repensar nossa alimentação?

 

* Os sucos de frutas considerados incluem aqueles obtidos de frutas espremidas, caseiros ou industrializados. São considerados menos saudáveis por apresentarem baixo teor de fibras e alta concentração de carboidratos. A recomendação do consumo de suco de fruta está sendo revista, e a Associação Americana de Pediatria2 propôs em maio deste ano o limite de seu consumo em crianças e adolescente por estar relacionado ao excesso de ganho de peso.

 

 

1) Satija A, Bhupathiraju SN, Spiegelman D, Chiuve SE, Manson JE, Willett W, et al. Healthful and Unhealthful Plant-Based Diets and the Risk of Coronary Heart Disease in U.S. Adults. J Am Coll Cardiol. 2017; 70(4):411-422.

2) http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2017/05/18/peds.2017-0967

3) Imagem: http://www.foodnetwork.com/healthy/articles/what-is-a-heart-healthy-diet

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Até que ponto somos responsáveis por tudo o que escolhemos comer?

    Segundo levantamento feito no ano de 2014 pela Organização Mundial da Saúde,  54% da população brasileira apresenta excesso de peso e 20% são obesos1. Atualmente um dos tratamentos para obesidade são as cirurgias bariátricas, consideradas eficientes por reduzirem a ingestão alimentar e a absorção calórica. Porém, em um recente estudo publicado na revista Cell Metabolism, pesquisadores demonstram que a perda de peso pós-cirúrgica altera a comunicação entre o intestino e o cérebro, levando à preferência por alimentos menos calóricos.

    A história toda começou com estudos prévios publicados pela equipe de Tellez onde investigaram a via  de um ácido graxo chamado Oleoletanolamina (OEA), que é naturalmente produzido por células intestinais após o consumo de gorduras como azeite, castanhas e amêndoas. A molécula OEA atua no receptor PPAR-alpha que, via nervo vago, atinge uma região do cérebro conhecida como estriado dorsal . Essa região cerebral é responsável pela liberação e captação do neurotransmissor chamado de dopamina que atua no controle do bem-estar, do prazer e na vontade de comer.

    Em animais que consomem dieta com excesso de gordura, ocorre queda na produção de OEA pelas células intestinais, seguida de redução da liberação de dopamina. Já animais que consomem dieta com baixo teor de gordura não apresentam redução de OEA e consequentemente de  dopamina2. Tanto em humanos quanto em animais, quedas nos níveis de dopamina estão relacionadas ao maior consumo alimentar e seguida de ganho de peso por levar o indivíduo a comer mais para compensar o baixo nível de dopamina produzido em seu cérebro .

Pensando nesses resultados obtidos, Hanikir e seus colaboradores começaram a questionar se cirurgias bariátricas promovem mudança na escolha dos alimentos? Será que essas escolhas por alimentos são reflexos de escolhas conscientes de cada indivíduo? Quais são os mecanismos envolvidos na escolha alimentar?

    Diante dessas perguntas  Hankir e sua equipe  testaram se esta via “intestino – OEA – nervo vago e dopamina” estaria envolvida na preferência por alimentos menos calóricos após cirurgias bariátricas.

    Os cientistas observaram  que em condições normais os roedores preferem os alimentos mais calóricos  quando podem escolher entre alimentos com alto ou baixo teor de gordura. Porém após passarem por cirurgias bariátricas do tipo bypass gástrica, na qual o estômago é reduzido e religado ao intestino delgado, os animais passavam a escolher a dieta com menor quantidade de gordura. Essa escolha foi atribuída aos maiores níveis de OEA no intestino e de dopamina na região estrial dorsal do cérebro após as cirurgias. Ainda, notaram que esse aumento da dopamina cerebral foi maior nos animais que passaram por cirurgia bariátrica em comparação com outro grupo de animais que perderam peso por restrição alimentar.

Mas será que essa escolha estava mesmo sendo mediada via nervo vago?

    Para responder a essa pergunta, os pesquisadores cortaram cirurgicamente o nervo vago dos animais e ofereceram uma dieta rica em gorduras. Então observaram que não houve aumento da secreção de dopamina no cérebro, indicando que o nervo vago precisa estar intacto para enviar o sinal da preferência alimentar ao cérebro.

    O estudo demonstra que alterações na secreção de dopamina e no apetite por gorduras após cirurgia bariátrica são atribuídas ao aumento da sinalização intestinal, desencadeando respostas fisiológicas no organismo e não são, portanto, decorrentes de uma escolha pessoal. Isso ocorre pelo aumento de OEA que é transmitido ao cérebro culminando no aumento de dopamina que leva à redução da ingestão de gorduras (Figura 1).

Figura 1

Figura 1: adaptada de HANKIR, M. K. et al. Gastric Bypass Surgery Recruits a Gut PPAR-α-Striatal D1R Pathway to Reduce Fat Appetite in Obese Rats.; http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/09/14/da-saciedade-e-outros-prazeres/

    Trabalhos como este são relevantes para tentarmos entender cada vez mais o papel da fisiologia do corpo humano frente a nossas vontades pessoais. Será que a “vontade’’ de comer determinados alimentos são escolhas pessoais ou são decorrentes de vias hormonais e de sinalização entre moléculas que comandam seu cérebro? Será que um dia poderemos utilizar essas vias para o tratamento de doenças metabólicas? Será que somos responsáveis por tudo o que escolhemos comer?

Deixo vocês aqui com mais questionamentos para futuros experimentos…

 

  1. WHO. Infobase global comparable estimates, risk factors: prevalence of overweight and obesity map. Disponível em: <http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/&gt;.

  2. Tellez, L.A., Medina, S., Han, W., Ferreira, J.G., Licona-Limo´ n, P., Ren, X., Lam, T.T., Schwartz, G.J., and de Araujo, I.E. (2013). A gut lipid messenger links excess dietary fat to dopamine deficiency. Science 341, 800–802.
  3. HANKIR, M. K. et al. Gastric Bypass Surgery Recruits a Gut PPAR-α-Striatal D1R Pathway to Reduce Fat Appetite in Obese Rats. Cell Metabolism, v. 25, n. 2, p. 335–344, fev. 2017.

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Alimentos “detox” industrializados são realmente saudáveis?

O hit do momento é a alimentação “detox”. Mas o que é isso? Pra que serve?

Primeiramente vamos definir o que significa alimentação “detox”. Em entrevista ao portal IG, a nutricionista Roberta Frizzo Serena definiu alimentação ou dieta “detox” como “uma técnica da nutrição funcional cujo objetivo é ajudar o organismo a eliminar toxinas e outras substâncias prejudiciais à saúde”.

Procurando mais sobre esse conceito, observei que muitos nutricionistas classificam uma dieta “detox”  como uma alimentação em que deve evitar proteínas de origem animal, milho, soja, grãos, bebidas alcóolicas, produtos industrializados, temperos prontos, shoyo, vinagre, farinha de trigo e derivados, cafeína, açúcar e adoçantes, nozes e castanhas.

Esses dias, eu estava em uma reunião com um grupo de mulheres que se diziam seguir uma dieta rígida no controle de calorias, consumiam produtos naturais e saudáveis. Bom, sem problema nenhum com essa declaração, até elas começarem a dizer os produtos que consumiam.

De início eu achei que elas iam enumerar alimentos que considero saudáveis e naturais, como a ingestão de verduras, legumes e frutas frescos, chás de ervas em geral, sucos naturais feitos em casa, fibras, produtos integrais, etc. Mas para minha surpresa, o consumo dos alimentos ditos “saudáveis” está baseado em shakes prontos, chás instantâneos, suco “detox”  instantâneo; elas optam por esses alimentos pela praticidade, pois não têm tempo de prepará-los diariamente.

Fiquei indignada e fui à procura de rótulos de vários desses sucos “detox”  instantâneos e, em sua maioria, a quantidade de vitaminas presentes não se encontra no rótulo, ou porque não existem, ou porque são insignificativas. Muitos desses sucos também não indicam a quantidade de fibras presentes.

Entre os sucos naturais “detox” mais preparados no momento, os ingredientes mais utilizados para a preparação de um copo são:

  • Abacaxi (1 fatia) contém vitaminas A, B1 e C além de 0,9g de fibras
  • Maçã (1/4 da fruta) contém vitaminas B1 e B2 e aproximadamente 0,5g de fibras
  • Couve manteiga (1 folha) contém vitaminas A e C, Ferro, Fósforo e aproximadamente 1,0 g de fibras
  • Gengibre (pedaço) contém vitaminas A, do complexo B, C, ferro, potássio e fósforo além de 2,4% de sua massa ser constituída de fibras
  • Limão (1/2 unidade) contém vitaminas do complexo B, C e sais minerais

Analisando os principais ingredientes desse suco “detox”, praticamente todos contribuem com quantidades significativas de fibras e vitaminas para serem nem mencionados nos rótulos de sucos instantâneos. Logo, por mais que alguns nutricionistas digam que esses sucos funcionam, e podem ser bons substitutos, está bem claro que isso não é verdade.

Um produto para estar disponível na forma instantânea deve sofre um processamento com maltodextrina, que é vulgarmente definido como “polímero da glicose”, ou seja, como definido pelo nutricionista Bruno Brown em sua página pessoal “a maltodextrina é um carboidrato de alto índice glicêmico, que tem uma função bem parecida e rápida como o açúcar nos nossos níveis de insulina após a ingestão”.

Logo, uma dieta com restrição a carboidratos estaria seriamente comprometida se o paciente consumisse muitos produtos instantâneos como Shakes Comuns ou Detox, Sucos Lights, Diets ou Detox, Sopas Comuns ou Detox e etc.

Esses produtos instantâneos, principalmente os “detox”  estão na contramão da definição da dieta que leva o mesmo nome, quando a mesma diz, entre outras coisas, em que deve evitar alimentos industrializados, açúcar e adoçantes.  Os sucos e chás “detox”  são doces e o sabor adocicado vem de adoçantes adicionados a eles.

Uma dieta realmente saudável deve ser baseada no equilíbrio, consumindo os produtos na forma natural e não industrializada.

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Fontes:

(Imagem retirada do site http://dieta-definitiva.com/dieta-detox-perca-peso-faz-seus-olhos-e-pele-brilharem-e-aparencia-mais-jovem/)

www.saude.ig.com.br

www.facebook.com/BrownNutricionista

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