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Deepfakes e a onda de vídeos que mostram o que nunca aconteceu

Todos nós já recebemos pelo menos alguma notícia fake compartilhada em um grupo de família no Whatsapp ou encaminhada em alguma corrente de emails. Tecnologias como aplicativos de mensagem instantânea como o Whatsapp facilitaram a disseminação de notícias falsas e sem fundamento, sendo muitas vezes difícil rastrear suas origens. O mesmo acontece para vídeos, que podem ser alterados, tirados de contexto, manipulados e até fazerem uso de inteligência artificial para criar vídeos que parecem reais, conhecidos como deepfakes.

Circula pela internet um vídeo de um avião da Boeing que “decola a quase 90 graus”. Esse é um exemplo de uma sequência de vídeos e filmagens reais, feitas com as câmeras em certos ângulos que dão a impressão de que o avião está decolando na vertical, enquanto o ângulo não passa de aproximadamente 35 graus, de acordo com esse vídeo do canal do YouTube Aviões e Música: https://www.youtube.com/watch?v=vXj3TL3DzlU.

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Snapshot de vídeo da Presidente da câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, vítima de uma alteração de um vídeo. Fonte: New York Times

No mês passado, foi divulgado um vídeo da democrata Nancy Pelosi, atual presidente da câmara dos Estados Unidos, em que ela parece estar embriagada. Não é difícil de perceber que existe algo de errado com o vídeo, que foi simplesmente alterado para 75% da velocidade original, e que também teve uma alteração no som para soar mais parecido com a voz original. Uma breve análise do Washington Post está no vídeo a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=sDOo5nDJwgA

Com a divulgação deste vídeo, políticos de todo o mundo começaram a se preocupar com um tipo de falsificação de vídeo mais sofisticado, chamado de deepfake (combinação de deep, de deep learning, e fake, falso em inglês). Estes vídeos são gerados utilizando dois sistemas de inteligência artificial que competem um com o outro. Enquanto um cria vídeos falsos, o outro analisa o vídeo para decidir se ele é real ou não. Se o sistema decidir que o vídeo é falso, ele dá uma dica do que não fazer para o outro, que então gera uma melhoria no vídeo, e assim segue. Juntos, estes dois sistemas de inteligência artificial criam um sistema chamado de generative adversarial network (GAN). O primeiro passo para estabelecer um sistema GAN é identificar o resultado desejado e criar uma base de dados de treino para o sistema de inteligência que vai gerar o vídeo. Quando vídeos razoáveis começam a ser criados, o outro sistema começa a analisá-los. Enquanto um sistema fica melhor em gerar vídeos falsos, o outro fica melhor em analisá-los e identificar os sinais de que ele é falso. Um exemplo de uso de GAN é para criar imagens. O website This Person Does Not Exist (https://www.thispersondoesnotexist.com/) usa este sistema para criar fotos de pessoas utilizando outras imagens como treino para o algoritmo. Segue mais um exemplo de vídeo, em que deepfake é usado para fazer dois comediantes americanos parecerem o ex-presidente americano Barack Obama e o atual presidente Donald Trump:

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Vídeo alterado com a tecnologia deepfake. Assista em: https://www.youtube.com/watch?v=rvF5IA7HNKc

Com as eleições presidenciais americanas se aproximando (as próximas acontecem em Novembro de 2020), líderes mundiais estão preocupados com a possibilidade de surgirem vídeos falsos dos próximos candidatos criados pela oposição para prejudicar suas imagens. Pesquisadores da UC Berkeley e da University of Southern California nos Estados Unidos recentemente publicaram uma pesquisa em que eles desenvolveram um sistema de inteligência artificial para combater deepfakes (“Protecting World Leaders Against Deep Fakes”, Agarwal, Farid, Gu et al. 2019). Este sistema se baseia em linguagem corporal e pequenos movimentos e gestos individuais de cada pessoa para identificar vídeos falsos. Assim como a inteligência artificial do deepfake, ele utiliza vídeos reais para aprender os gestos típicos de cada pessoa e identificar quando um vídeo falso é criado. Durante testes, mais de 90% dos vídeos falsos foram identificados. Os próximos passos desta pesquisa envolverão outros aspectos dos vídeos, como as características individuais da voz de cada pessoa. No entanto, considerando a velocidade com que os sistemas de inteligência artificial do deepfake estão evoluindo, muito mais pesquisas na área são necessárias para que esta tecnologia não aumente ainda mais a quantidade de fake news espalhadas por aí.

Referência:

“Protecting World Leaders Against Deep Fakes”, Agarwal, Farid, Gu et al. 2019. Link.

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Vacina contra o Ebola: perspectivas para populações africanas

 

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Créditos da Imagem: UNMEER (CC BY 2.0)

Há mais de 40 anos o vírus Ebola tem assolado populações africanas, e nos últimos 20 anos pesquisas têm tentado produzir uma vacina capaz de erradicar este vírus. O Ebola é um vírus do gênero Filovirus, descoberto em 1976, em uma região próxima ao rio Ebola.

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Chimpanzé. Crédito da imagem: Wikipedia, Thomas Lersch (Licença: CCBY 2.5). 

Os hospedeiros naturais deste vírus são os morcegos frugívoros, ou seja, aqueles que se alimentam de frutos com a capacidade de dispersar as sementes, portanto podemos classificar esta doença como uma zoonose. No entanto, este vírus já foi isolado de grandes primatas, como gorilas e chimpanzés, e também de animais herbívoros, como os antílopes. 

 

 

A transmissão deste vírus para os humanos pode ocorrer através dos animais infectados, devido ao contato com sangue e fluidos corporais, como a saliva, suor, urina e fezes. Uma vez que a transmissão ocorre nos humanos através de animais, as pessoas podem contrair este vírus entre si pelo contato direto, uso de seringas e até depois da morte do hospedeiro. Estudos também mostram que o vírus persiste no sêmen de homens que tenham sobrevivido, se fazendo ainda mais necessário o uso da camisinha feminina e masculina. As diferentes formas de transmissão e a persistência do vírus no organismo dificultam o seu tratamento. 

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O vírus Ebola. Créditos da Imagem: CDC.gov; Public Health Image Library

Uma vez contraído, o período de incubação tem uma duração de 2 a 21 dias e após este período ocorrem sintomas no paciente como: febre, dor de cabeça, fraqueza muscular, dor de garganta e articulações, calafrios, diarreia com sangue, erupção cutânea, olhos vermelhos. Por fim, no estágio final da doença ocorre hemorragia interna, sangramento nos olhos, ouvidos, nariz e reto, danos cerebrais e perda de consciência. 

Em relação a pesquisas sobre vacinas, estudos mostram que de 12 possíveis vacinas, quatro foram capazes de iniciar a fase II de testes clínicos e, somente uma, completou a fase III (para saber mais sobre ensaios clínicos, clique aqui). No dia 21 de maio de 2018 começaram a aplicar uma campanha de vacinação experimental contra o vírus na República Democrática do Congo, no entanto no dia 1º de agosto daquele ano foi declarada uma epidemia de Ebola no mesmo país que, até então, não foi controlada.

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Epidemiologista realizando um teste rápido para diagnóstico de Ebola. Créditos da Imagem: CDC.gov; Public Health Image Library; John Saindon

De acordo com a associação dos Médicos sem Fronteiras, em 8 meses foram relatados mais de mil casos com um desdobramento de mil novos casos em dois meses (abril e junho de 2019). 

A questão que fica é: será que a vacina é tão eficaz quanto se pensava?

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Créditos da imagem: NIAID (CC BY 2.0)

Os estudos e os testes clínicos comprovaram que a vacina contra o Ebola, denominada rVSV-EBOV, é eficaz e segura para os humanos e tem sido utilizada para o controle da epidemia de Ebola tanto na República Democrática do Congo como em Uganda. O tempo de resposta imune desta vacina ainda é uma incógnita pelo motivo de somente existir 90 amostragens com o período de dois anos, marcado como o início da vacinação em humanos. No entanto, é sabido que nestes dois anos as 90 pessoas que receberam a vacina ainda estão imunes ao vírus. Além disso, a vacina rVSV-EBOV tem funcionado bem como estratégia emergencial de controle da doença. 

Então porque será que as epidemias continuam ocorrendo?

Campanhas de vacinação são necessárias para a proteção imunológica das populações. Quanto maior o número de vacinações, maior proteção para aquelas que ainda não se vacinaram, criando ‘regiões de imunidade’ em locais onde há casos de Ebola. No entanto, questões políticas e regionais têm uma influência direta na imunização das pessoas. No caso da República do Congo, existem cerca de 20 grupos insurgentes que geram violência na área, desencorajando pessoas a serem encaminhadas aos Centros de Tratamento de Ebola, interrompendo campanhas de vacinação e promoção da saúde comunitária e enterros seguros. Além disso, há a relutância das comunidades da região de se vacinarem. Até quando as populações africanas continuarão a mercê desta doença mesmo com a possibilidade de sua erradicação? Ações como as da Organização Mundial de Saúde e do Médicos sem Fronteiras são imprescindíveis para o controle da doença.

Referências:

– Drauzio Varella: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/

– Cohen J. Ebola outbreak continues despite powerful vaccine: WHO declines again to call it a global health emergency. Science. 2019, 364: 223. http://science.sciencemag.org/content/364/6437/223.

– Marzi A, Mire CE. Current Ebola Virus Vaccine Progress. Biodrugs. 2019. https://doi.org/10.1007/s40259-018-0329-7

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Quem malha seus males espanta! Como a atividade física ajuda na redução de danos neurológicos

Tem gente que adora fazer atividade física! Corre, dança, nada, malha. Está sempre bem-disposto, de bem com a vida, cara de gente saudável! Mesmo aqueles que não são tão simpáticos a fazer atividades físicas sabem dos seus benefícios para manter o corpo são, mas será que eles sabem que podem estar prevenindo doenças neurológicas que poderiam vir a acontecer?Parece tão distante e não relacionado correr e com isso melhorar a função cerebral, mas um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderado pela Dra Fernanda De Felice (1), mostrou que essa relação existe sim! Os autores mostraram que pacientes em estágio avançado de Alzheimer não possuíam uma proteína chamada irisina no fluido cerebrospinal. Os autores já conheciam essa proteína de estudos anteriores. O nome irisina foi dado em homenagem a Íris, mensageira dos deuses gregos (2) e como todo bom mensageiro, ela leva uma informação de um lugar para o outro. No caso da irisina a mensagem é levada para várias partes do corpo onde ela pode agir como uma molécula anti-inflamatória, reduzir a replicação de células de câncer, fortalecer os ossos entre outras atividades biológicas que podem recuperar um tecido danificado (3). Ela também pode chegar ao cérebro e, sabendo dessa característica, os autores se perguntaram se seria possível que manter os músculos em atividades, a famosa atividade física, poderia levar a uma melhora das condições cerebrais de pacientes com Alzheimer. Por questões éticas, não foi possível usar pacientes, mas os autores usaram animais com danos cerebrais parecidos com o Alzheimer e viram que, quando esses animais eram submetidos a atividade física regular, eles apresentavam aumento na comunicação entre os neurônios – o que levou a recuperação da memória. Mais do que a melhora do prognóstico, animais que já faziam exercícios regulares mostraram um perfil clínico de proteção ao desenvolvimento da doença.

Adaptado de: An exercise-induced messenger boosts memory in Alzheimer’s disease.

Pessoas que tem Alzheimer geralmente são idosas e costumam ter outras comorbidades como artrite reumatoide, problemas cardíacos, obesidade e depressão. Logo a prática de exercício físico não é uma alternativa viável num primeiro olhar, até por isso outras alternativas terapêuticas vêm sendo estudadas, como já vimos por aqui antes. Mas, assim como a administração de medicamentos requer supervisão, quem sabe, no futuro, a supervisão se estenda aos exercícios físicos. Por hora nos resta a parte da prevenção. Está nas nossas mãos. Já estamos cheios de motivos para levantar do sofá e começar a nos exercitar, certo?

(1) https://www.nature.com/articles/s41591-018-0275-4

(2) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3522098/

(3) Irisin as a Multifunctional Protein: Implications for Health and Certain Diseases

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Afinal, a homossexualidade está no DNA?


Reprodução Marvel – Avengers: The Children’s Crusade (2010) #9

A homossexualidade humana nem sempre foi um tabu. Desde que o ser humano deixou de ser nômade e passou a se organizar em comunidade e comunicar sua história (seja por meio de desenhos ou hieróglifos, por exemplo), há relatos de relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo. O desconforto social com a relação entre pessoas do mesmo sexo coincidiu historicamente com a ascensão das religiões abraâmicas e a crença de que o sexo seria um ato exclusivamente voltado para a reprodução da espécie (1). No entanto, se olharmos para o reino animal de forma geral, vamos encontrar comportamentos muito semelhantes: ou seja, é comum, natural e esperada a relação de espécimes do mesmo sexo (já falamos sobre isso aqui no blog antes) (2).

Ser natural no reino animal não parece ser suficiente para a ciência! Os cientistas estão sempre em busca de querer saber o porquê, e dessa vez foram buscar nos genes: a relação entre seres humanos do mesmo sexo teria algum componente genético? Foi essa a pergunta que um consórcio formado por diversas instituições, entre elas  University of Copenhagen, MIT, Harvard, University of Queensland da Austrália e University of Cambridge fez e para respondê-la, realizou o maior estudo genético sobre o  assunto (3). Os autores usaram 500 mil amostras genéticas de pessoas que preencheram um detalhado formulário que, entre outras questões, perguntava se o doador da amostra fazia sexo com pessoas do mesmo sexo ou com o sexo oposto. Foram inseridos no estudo pessoas de perfil genético XY ou XX, ou seja, clássicos machos e fêmeas, respectivamente. Pessoas que contém o perfil de cromossomos X, XXX, XXY ou XYY foram excluídas, e dessas, foram excluídas as pessoas que não se identificavam com o sexo biológico para evitar inserir no estudo variáveis que alterassem o resultado. As pessoas XY e XX foram divididas em 2 grupos em função do seu comportamento sexual: pessoas que faziam sexo com pessoas do mesmo sexo, e pessoas que faziam sexo com pessoas do sexo oposto. O material genético de todos eles foi analisado e comparado para ver se havia alguma diferença genética significativa que justificasse o comportamento de fazer sexo com pessoas do mesmo sexo ou com pessoas do sexo oposto. Apesar de todas as exaustivas análises, os autores não encontraram nenhuma alteração genética que justificasse os dois comportamentos (se existe a hipótese do “gene gay”, também podia existir a do “gene hetero”, certo?). Além disso, o estudo derruba a hipótese de que haja alguma relação de hereditariedade, ou seja, não existe família que tem maior ou menor probabilidade de ter pessoas que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo ou com o sexo oposto.    

Claro que todos os estudos têm limitações e podem ser completados mais tarde a partir de novas tecnologias e/ou novos resultados. Ainda que seja descoberto um motivo pelo qual a pessoa faz sexo com pessoas do sexo oposto ou com do mesmo sexo, como isso mudaria nossa sociedade? Se estamos falando de seres humanos, cidadãs e cidadãos, pessoas que estudam, trabalham, se exercitam, se divertem, amam, choram, cuidam, dirigem, comem… qual a implicância ética disso? Já que somos animais, pode ser simplesmente suficiente saber que na natureza isso é natural, comum e esperado. 

(1)    http://www.cremesp.org.br/pdfs/eventos/eve_08052014_111540_Bioetica%20e%20Homoafetividade%20Curso%20de%20Bioetica%20de%20Ribeirao%20Preto%20-%20Dr%20%20Marco%20Aurelio%20Guimaraes%20-.pdf

(2) https://www.abrasco.org.br/site/outras-noticias/opiniao/daniela-knauthsobre-homossexualidade-natureza-apresenta-um-grande-leque-de-diversidade-que-ultrapassa-nossas-categorias-de-classificacao/33348/

(3) https://science.sciencemag.org/content/365/6456/eaat7693

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Pequeno conto sobre Ciências Humanas no Brasil

No Brasil, um a cada quatro pós-graduados está desempregado [1] e menos de dois por cento da população possui doutorado [2], boa parte dos quais reside nas capitais federais.

Embora cortes na pasta da educação não sejam novidade, o discurso do governo atual é de desprezo para com a Ciência [4], algo sem precedentes na nossa História [3]. A sua alta taxa de reprovação [5], porém, indica instabilidade política para os próximos anos.

Nesse cenário, trago um pequeno conto para ilustrar a diferença entre o valor de alguém que pesquisa na área das Ciências Humanas e essa constante desvalorização social e no mercado de trabalho sofrida por tantos pesquisadores. Espero, com isso, que possamos refletir mais sobre a importância desses profissionais nos dias atuais.

 

Vitória, Espírito Santo, maio de dois mil e dezenove.

Estava, como de costume, colocando leitura em dia no meio da tarde, o calor amenizado pelo ar condicionado recém-consertado no laboratório de pesquisa no prédio da pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal onde estudo. Eis que se aproxima de mim uma professora do Departamento, e pergunta se sou “aquela aluna que pesquisa refugiados”. Sabendo que sou uma das poucas pesquisadoras sobre o tema naquele ano, então, respondo que sim. Ela sorri com certo alívio e, pedindo desculpas pelo incômodo, pede uma ajuda em um ‘caso de imigração’. Em seguida, narra como lhe foi contado o que se passa com uma pessoa imigrante que seria ‘conhecida de uma amiga’. Ocorria que a imigrante em questão não conseguia receber algo pelo que já havia pago, mas desejava obter com urgência. Tratava-se do comprovante da conclusão de um curso em uma escola particular, que aceitara sua matrícula no meio do ano letivo. A referida instituição de ensino alegava não poder emitir o certificado enquanto a regularização migratória da aluna estivesse pendente, mesmo que cumprido e quitado o curso dentro da normalidade. A aluna dependia desse, entre outros papéis, a fim de regularizar a sua situação migratória no território nacional. Sem mais detalhes, a professora pergunta se eu saberia “resolver o caso”. Embora totalmente fora de meu alcance, estudar o tema fez com que eu soubesse que a assistência jurídica aos estrangeiros constitui prerrogativa da Defensoria Pública da União, órgão presente em todos os Estados da federação. Assim, eu recomendei que as pessoas interessadas buscassem a unidade mais próxima ao seu local de residência habitual para pleitear a defesa do seu direito líquido e certo. A professora agradeceu afinal a esta aluna, transmitindo o comunicado à sua amiga, prometendo que me manteria a par do desenrolar desse caso.

 

Até o momento, não tive notícia deste, como de tantos outros casos para os quais apenas indiquei um possível caminho de uma eventual solução, sempre recebendo em retorno alguma demonstração de gratidão pela ‘ajuda’. Esta ausência de retorno, todavia, não importa tanto para uma relação interpessoal, como deveria importar se o caso referido fosse com relação a uma instituição pública. No Brasil, todavia, poucos são os órgãos aos quais as pessoas imigrantes podem recorrer em busca de informação ou ajuda, e quase todos estão revestidos de um caráter securitário, como é o caso da Polícia Federal.

Esse episódio, em suma, apenas ilustrar o quanto estudar um tema em particular pode vir a tornar a pessoa, cedo ou tarde, uma “referência” para quem a conhece e deseja informações específicas sobre o assunto. Poderia ser a consequência inevitável de todos os dados reunidos no começo desse texto, ou seja: fruto de que outras instituições, além das universidades, raramente empregam em seus quadros pessoas com alto grau de titulação, mas não possuo dados mais conclusivos nesse sentido.

Nesse pequeno texto, quero apenas convidar à reflexão aquelas pessoas que desprezam tanto os pesquisadores da área, quanto ao mesmo tempo lhes buscam em situações que os afligem no cotidiano, para uma “opinião sobre um assunto” ou uma “ajuda rápida”. Sei que a situação da pesquisa científica no Brasil está cada dia mais grave, mas não quero pensar que seja algo definitivo, ou que seu rumo seja algo impossível de mudar.

 

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Aula ministrada em ONG (São Paulo, 2015). Acervo pessoal da autora.

 

Sobre a autora:

Sou Doutoranda em Psicologia, tenho trinta e um anos e sou fruto de todos os esforços, privilégios e acasos que me levaram a ocupar uma vaga de doutorado numa universidade federal. Apesar de estar entre as primeiras da família a buscar esse título, não desejo ser as última com chances reais de obtê-lo com nada além de impostos do povo brasileiro. Toda a minha produção está disponível para consulta [6] e, enquanto puder, lutarei pela educação pública universal, de qualidade e gratuita.

Referências:

[1] Correio Braziliense [10/03/2019]

[2] Nexo Jornal [23/10/2017]

[3] Jornal O Tempo [14/05/2019]

[4] Correio Braziliense [10/06/2019]

[5] Jornal O Globo [07/04/2019]

[6] Plataforma Lattes (Beatriz de Barros Souza)

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Vamos falar sobre fogo?

Se você passou o olho em qualquer site de notícias ou rede social nas últimas semanas, certamente você se deparou com algo sobre a grande queimada que continua acontecendo na floresta amazônica. Apesar das diversas “opiniões” sobre quem colocou fogo, quem deve apagar o fogo, etc, uma coisa é unânime: o fogo na floresta não é bom. O que acontece durante e depois do fogo que pode afetar nossas vidas?

 

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Figura 1: Incêndio que acomete a região amazônica. Fonte: Fernando Frazão/ABr

Durante:

Para quem vive perto da floresta os efeitos imediatos são mais pronunciados. De acordo com um estudo publicado em 2002 por pesquisadores da Universidade de São Paulo, os efeitos diretos na saúde da população incluem infecções do sistema respiratório superior, asma, conjuntivite, bronquite, irritação dos olhos e garganta, tosse, falta de ar, nariz entupido, vermelhidão e alergia na pele, e desordens cardiovasculares.

Durante a queima da floresta há também uma grande liberação de gases responsáveis pelo efeito estufa, já que todo o bioma serve como um reservatório retirando da atmosfera esses gases tóxicos. A liberação desses gases tem efeitos no meio ambiente em longo prazo, mas também afeta indivíduos a curto prazo. Estudos nos EUA indicam que uma das grandes causas de envenenamento por monóxido de carbono é devido aos incêndios florestais que acontecem na região (Varon et al., 1999).

Além dos efeitos diretos na saúde, ainda há efeitos sociais e econômicos que afetam toda a população que mora na região como a drástica redução da visibilidade, fechamento de aeroportos e escolas, aumento de acidentes de tráfego, destruição da biota pelo fogo, diminuição da produtividade e restrição das atividades de lazer e de trabalho.

Devido a proporção dos incêndios que estão acontecendo na Amazônia foi possível constatar de maneira clara que estes efeitos imediatos podem acometer não só quem vive próximo a floresta, mas também quem está a muitos quilômetros de distância. Foi o que vimos acontecer quando o dia escureceu em São Paulo.

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Figura 2: São Paulo no dia 19/08/2019 por volta das 16h. Fonte: Correio Brasiliense.

De acordo com meteorologistas, a escuridão se deu por conta do excesso de poluição urbana que foi agravado pelas fumaças trazidas do norte do Brasil e Bolívia por conta da queima da floresta nessas regiões. Pesquisadores da USP também detectaram substâncias na água da chuva de São Paulo que são originadas somente quando há queima de biomassa, ou seja, um incêndio florestal.

Apesar dos efeitos durante as queimadas afetarem uma quantidade significativa de indivíduos, os efeitos mais pronunciados e graves ainda estão por vir.

Depois:

Aqui é importante ressaltar que não importa onde você vive, se perto ou longe da floresta, você será afetado. Incêndios da proporção dos que estão ocorrendo na Amazônia (e pelos mesmos motivos) não são uma exclusividade do Brasil. Infelizmente acontecem em diversas regiões do globo e todos nós temos que dividir a conta.

Para começar, temos que considerar o atual estado climático e como isso afeta a floresta. Um grupo de cientistas de universidades americanas publicou esse ano um artigo revelando um efeito muito preocupante. Por causa das mudanças atmosféricas e de temperatura já causadas pela mudança climática em curso, está ficando cada vez mais difícil para as florestas se recuperarem após queimadas. Ao contrário de alguns biomas como o cerrado, no qual a vegetação possui adaptações para sobreviver e se recuperar após queimadas, a vegetação das florestas não possui proteção contra fogo simplesmente porque o fogo nessas áreas não é um evento natural. Por causa disso, a disponibilidade de sementes viáveis após a ocorrência de um incêndio é muito baixa, diminuindo a possibilidade de recuperação da vegetação. Além disso, mesmo que algumas sementes consigam resistir, o crescimento da vegetação é afetado por condições atmosféricas e climáticas que estão sendo alteradas por conta da crise climática. O resultado disso, de acordo com esse estudo, é uma probabilidade cada vez maior de áreas de florestas que foram incendiadas não consigam retornar ao seu estágio inicial.

Outro estudo realizado por cientistas australianos também traz más notícias: O tempo de regeneração do solo após queimadas é muito maior do que se esperava. Inicialmente se imaginava que o solo poderia se recuperar após um evento de queimada em aproximadamente 10 ou 15 anos. Os cientistas ficaram surpresos ao constatar que esse tempo pode ser de até 80 anos. Por conta da temperatura a que o solo é submetido, a perda de nutrientes é muito severa e a recuperação se torna lenta.

Ambas as consequências de incêndios acabam gerando um ciclo vicioso perverso: uma área é incendiada, libera gases do efeito estufa durante a queima, aumenta os efeitos de mudanças climáticas, não se reconstitui e deixa de absorver gases que aumentam os efeitos de mudanças climáticas, tornando o clima ainda mais severo.

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Figura 3: Efeitos do desmatamento na região amazônica na continuidade da floresta. Fonte: O Globo.

Não se esqueça de somar a esse cálculo as consequências que estamos acostumadas a ouvir: derretimento das geleiras, aumento de poluição e gases do efeito estufa, aumento da temperatura global, aumento do nível dos oceanos, acidificação dos oceanos e por ai vai…Tudo isso é consequência do desflorestamento, entre outros tantos motivos. Esse artigo aqui do blog explica diversos motivos pelos quais devemos manter as florestas intactas e quais as consequências se não preservarmos.

E qual é a solução?

Não existe uma solução, existem várias. Existe o que os governantes podem fazer, existe o que podemos fazer como indivíduos e comunidades. O que não pode existir é pensar que não podemos fazer nada. Uma pequena mudança de atitude já é uma mudança. Ler esse texto e se informar já são atitudes que geram mudança. Eu pensei em uma porção de conselhos que eu poderia dar, mas esses conselhos valem para mim, para a minha realidade. O que eu acho que seria mais interessante é cada um procurar o que pode ser feito de uma maneira prática de acordo com a sua realidade. As sugestões existem e, como eu disse, o que não vale é não fazer nada.

 

Referências:

Ribeiro H & Assunção, JV. (2002). Efeitos das queimadas na saúde humana. Estudos Avançados, 16(44), 125-148.

Bowd EL, Banks SC, Strong CL, Lindenmayer DB. (2019). Long-term impacts of wildfire and logging on forest soils. Nature Geoscience, 12: 113–118.

Australian National University. (2019). Forest soils need many decades to recover from fires and logging. ScienceDaily. Retrieved September 2, 2019.

Kimberley T. Davis, Solomon Z. Dobrowski, Philip E. Higuera, Zachary A. Holden, Thomas T. Veblen, Monica T. Rother, Sean A. Parks, Anna Sala, Marco P. Maneta. Wildfires and climate change push low-elevation forests across a critical climate threshold for tree regeneration. Proceedings of the National Academy of Sciences, 116 (13) 6193-6198.

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Você é o que você come ou diga-me com quem andas e lhe direi quem você é? A evolução humana e a importância da dieta e da sociedade

O tamanho do nosso cérebro está associado a nossa complexidade cognitiva. E por isso, tem sido alvo de curiosidade por parte do público em geral e de pesquisadores.

 

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Adaptado da Nature Ecology & Evolution. Crânios da esquerda para direita: lemur, vervet, orogotango, babuíno, chimpanzé e humano

 

 

Katherine Milton que estuda macacos bugios no Panamá há mais de 36 anos e atualmente é pesquisadora na Universidade de Berkeley, já em 1987 escreveu um capítulo no livro “Food and evolution” (sem tradução para o português) em que olhando para os trabalhos disponíveis na época, associou dieta em diversos primatas não humanos com tamanho de intestino e de cérebro; ela queria entender como a dieta estava relacionada com a evolução do cérebro humano. Seu trabalho, contudo contava com muito poucos dados de dieta, simplesmente porque havia na época poucas pesquisas de campo. *E ainda há, mas isso é história para outro texto.

Anos depois, em 1988, Dunbar da Universidade de Oxford, no Reino Unido, argumentou que cérebros evoluíram para ajudar os primatas a gerenciar grandes redes sociais. Seria o desafio de reconhecer e memorizar todos os indivíduos do seu grupo, identificar comportamentos que lhe sejam favoráveis – como receber carinho, de comportamentos que lhe prejudique – como não compartilhar alimento, que teria selecionado os indivíduos com maiores capacidades cognitivas – que é associado a um grande volume de massa cerebral. Essa seria a “hipótese do cérebro social”. E desde então, Dunbar vem conquistando mais e mais adeptos.

 

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Macaco-prego comendo raíz. Foto por Mari Fogaça

 

Até que um estudo liderado por uma pesquisadora, doutoranda – aquela que está desenvolvendo uma tese que passará por avaliação de pares e sendo aprovada confere o título de doutor – pela Universidade de Nova York: Alex DeCasien trouxe a discussão sobre o que foi mais importante como pressão evolutiva para o desenvolvimento de um grande cérebro: dieta versus socialidade de volta para o centro das atenções. Alex tinha como objetivo descobrir se os primatas monogâmicos – que estabelecem relações sexuais apenas com um indivíduo, tinham cérebros maiores ou menores do que as espécies mais promíscuas. Ela coletou dados de mais de 140 espécies de primatas não humanos que vivem em todo o mundo, e calculou quais dessas características tinham maior probabilidade de estar associadas a cérebros maiores. Para sua surpresa, nem a monogamia nem a promiscuidade previram algo sobre o tamanho do cérebro de um primata. O único fator que parecia predizer quais espécies tinham cérebros maiores era se suas dietas eram compostas principalmente por folhas ou frutas! 

O estudo publicado na Nature Ecology & Evolution, compilou dados existentes sobre o 1) tamanho do cérebro 2) tamanho corpo, 3) grau de socialidade e 4) a classificação da dieta (onívoros – comem de tudo um pouco, herbívoros – se alimentam de folhas, frugívoros – se alimentam de frutas e aqueles que comem folhas e frutas. 

Esses dados foram então cruzados para tentar achar relação entre tamanho relativo do cérebro (tamanho do cérebro em relação ao tamanho corporal) com tipo de dieta e com grau de socialização; testando assim as hipóteses que o que teria levado ao aumento do cérebro em primatas (e, portanto, dos nossos cérebros também) seria a dieta ou os desafios da convivência em sociedade.

Ela e seus colaboradores concluem que os cérebros grandes dos primatas podem ser devido à dieta dos animais, e não ao seu comportamento social, desafiando uma teoria de Duban que vinha sendo a mais aceita.

Diferentemente do trabalho da Katherine, esse contém um grande tamanho da amostra e métodos estatísticos robustos. E vem conquistando apoiadores de peso como o Richard Wrangham, da Universidade de Harvard que disse à revista Science que “O artigo é extremamente valioso”. 

Mas nem tudo são flores, na ciência pesquisadores estão sempre a procurar algum ponto fraco nos trabalhos. Estes resultados não convenceram Dunbar, que argumenta que os resultados apenas relacionam que uma dieta rica em nutrientes, permite a evolução de cérebros maiores, mas não oferece dados para provar que por si só foi uma pressão evolutiva seletiva (também para a Science). 

Em adição, Katherine Milton (sim! ela novamente), sugere que as frutas fornecem

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Macaco-prego comento fruto. Foto por Mari Fogaça

energia para a formação de um cérebro, mas que a pressão seletiva por trás dessa relação são adaptações cognitivas para que os primatas procurem e achem frutas. Isso porque localizar frutas em florestas é mais desafiador do que folhas. Além disso, algumas frutas encontram-se encapsuladas como côco e os animais precisam, portanto lidar com o quebra cabeça para acessar.

 

E você, depois de ler opiniões tão divergentes, em qual resposta apostaria? Deixe seu comentário.

 

PARA SABER MAIS:

Livros:

Daniel Lieberman. A história do corpo humano.

Suzana Herculano-Houzel. A vantagem humana.

Artigos científicos:

Alex R. DeCasien, Scott A. Williams, e James P. Higham. Primate brain size is predicted by diet but not sociality. Nature Ecology & Evolution

Katherine Milton. Distribution Patterns of Tropical Plant Foods as an Evolutionary Stimulus to Primate Mental Development. American Anthropologist 

Katherine Milton. Primates Diets and gut Morphology: Implications for Human Evolution. In: Marvin Harris e Eric Ross. Food and Evolution Toward a Theory of Human Foods Habits

Leslie C. Aiello, e Peter Wheeler. The Expensive-Tissue Hypothesis: The Brain and the Digestive System in Human and Primate Evolution. Current Anthropology

Robin Dunbar. The social brain. The evolution anthropology