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Pandemia de COVID-19: Quando a Saúde precisa encontrar as Ciências Humanas

Créditos: Canva

Nos últimos dias, temos acompanhado o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas, especialmente na capital, Manaus, que sofre com a falta de cilindros de oxigênio nos hospitais. Situação que se agrava diante do recorde de internações por COVID-19 na cidade.¹ Para piorar, muitas pessoas estão infectadas pelo que foi identificado como uma nova cepa do vírus, ou seja, uma nova variante dele, que parece capaz de se espalhar mais depressa dos que as outras cepas até então verificadas no país.² Tudo isso integra um preocupante cenário mais amplo: o Brasil tem, hoje, a maior média diária de casos de COVID-19 desde o início da pandemia. São mil mortes diárias pela doença.³ O número assusta, mas não se pode dizer que surpreende.

Desde a primeira quinzena de agosto de 2020, o infectologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz-Amazônia, alerta para a subida da curva de óbitos na capital amazonense. Em setembro, os números continuaram subindo. A equipe de Orellana, então, recomendou o lockdown ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Secretaria de Saúde do Estado.² Apesar do aumento do número de mortes e casos confirmados de COVID-19 no Amazonas, o governador Wilson Lima cedeu às pressões dos comerciantes e permitiu a reabertura do comércio não essencial: bares, restaurantes, cinemas, casas de show.4 O estímulo à economia serviu de justificativa para a retomada de atividades comerciais que, meses depois, elevariam ainda mais o número de infectados e de mortes.

Manaus não foi a única capital a ignorar pesquisadores e profissionais de saúde. O Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DMIFC-UERJ), em cartas abertas ao público, há meses aponta como o enfrentamento à pandemia tem evoluído de forma equivocada e lenta no país, com negação de sua gravidade ou mesmo de sua existência. Em dezembro de 2020, o DMIFC-UERJ alertou que, enquanto protocolos de saúde estavam sendo flexibilizados e acelerados, com grandes interesses econômicos e políticos envolvidos nessa corrida, não havia movimentação para garantir os recursos necessários à aplicação da(s) futura(s) vacina(s), treinamento de profissionais ou ao estabelecimento da logística de distribuição — problemas que se refletem hoje, no baixo número de vacinas disponíveis até mesmo para um único segmento dos grupos prioritários.5 À época, não havia sequer trabalhos coordenados nas esferas municipal, estadual e federal para garantir uma vacinação segura.

A denúncia se torna mais grave ao considerarmos a existência do Programa Nacional de Imunizações (PNI), disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é responsável pela aplicação de mais de 300 milhões de doses anuais de vacinas, soros e imunoglobulinas por todo o território nacional. Contudo, o desmonte do SUS afeta todos os seus serviços, inclusive o PNI. “A política do atual governo reforça a iniciada em 2016, a partir do golpe de estado. Esta orientação, para a área da saúde, visa o desmonte do SUS como política pública”, esclarece Maria Inez Padula Anderson, professora do DMIFC-UERJ, em entrevista concedida também em dezembro ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Ela continua: “Todas as informações — que deviam vir de forma sistemática e organizada por parte do Ministério da Saúde — só vêm à tona por pressão judicial e/ou popular e/ou da classe científica”. Por fim, sentencia: “O presidente e forças políticas, que atuam através de supostas práticas religiosas e fake news, promovem — de forma proativa e deliberada — desconfiança e insegurança da população em relação à vacina”.

Vale lembrar que profissionais de saúde de boa parte dos Estados permanecem sem instruções claras de como funcionará o início do processo de imunização no Brasil. Além disso, muitos profissionais de saúde, entre eles, os médicos da rede pública do Rio de Janeiro, têm atuado em condições precárias, com atraso ou falta de pagamentos, cortes nos direitos trabalhistas e escassez de equipamentos de proteção individual adequados durante a pandemia.6 Até o dia 14 de janeiro de 2021, entre os nove Estados que abrigam a Amazônia brasileira, foram registrados 739 falecimentos de indígenas, pertencentes a 103 povos distintos. Apesar disso, no auge da crise de desabastecimento de oxigênio em Manaus, o Ministério da Saúde pressionou a distribuição de tratamento precoce contra COVID-19 pela rede pública de saúde estadual e municipal. O chamado kit covid contém remédios com cloroquina, hidroxicloroquina, além do antibiótico azitromicina e até do antiparasitário ivermectina, que são administrados como tratamento preventivo para a doença, mesmo sem terem eficácia comprovada.7 Diferentes cidades da região norte do Brasil já decretaram estado de calamidade pública devido à falta de condições para atender aos infectados pela COVID-19. Pessoas estão morrendo em casa, por sufocamento — dos pulmões e dos hospitais.

Nessas horas, o diálogo com as Ciências Humanas seria proveitoso. Os estudos sociais apontam, há décadas, que não existe economia fortalecida com uma população fragilizada. Que comportamentos individuais se inserem dentro de conjunturas mais amplas, que devem ser levadas em consideração. Que todo discurso é dotado de intencionalidade, contribuindo para determinadas agendas. Por isso, devemos nos atentar aos interesses por trás dos discursos proferidos pelos principais responsáveis (Governo Federal, Ministério da Saúde, institutos de pesquisa, laboratórios farmacêuticos etc.) pelo gerenciamento da pandemia. Eles visam o bem maior? Têm embasamento empírico, ou seja, se apoiam no registro de fenômenos e estudos que acontecem durante o cenário pandêmico?

Na área de Comunicação Social, particularmente, existem trabalhos dedicados a mapear redes de informação (ou desinformação), buscando entender como essas comunidades se formam, os agentes que as sustentam, os valores e pautas que nelas circulam, os arranjos (inclusive midiáticos) que permitem sua continuidade.8 Diferentes estudos apontam que as mensagens que alguém assimila e transmite dialogam com aquilo em que já acredita ou que gostaria que se comprovasse. Isso reforça sua visão de mundo, constrói sensação de segura. Para dialogar com essas pessoas, portanto, seria preciso entender de que referenciais elas partem ao ler os acontecimentos e notícias ao seu redor. Assim, é possível pensar estratégias de comunicação adequadas para alcançar diferentes grupos sociais de forma mais eficiente, checando como as mídias (tradicionais ou não) podem ser acionadas nesse processo. Foi esse o esforço empreendido na China para orientar a população sobre os cuidados necessários para conter a circulação do coronavírus, que se deu com apoio da Associação Chinesa de Ciência e Tecnologia (CAST). Ela abriga um departamento de comunicação científica, cuja função é servir de ponte entre os pesquisadores e o público para promover a compreensão da ciência. Durante a pandemia, a CAST garantiu que as campanhas informacionais alcançassem cada canto do território chinês, por variados meios: mídia impressa, rádio, TV e plataformas online. 9

Por outro lado, existem indivíduos e veículos comunicacionais que deliberadamente disseminam informações distorcidas ou falsas, tendo em vista algum objetivo (político, social, econômico) que os contemple. É necessário mapear esses agentes, aplicando sobre eles penas correspondentes ao dano que tenham causado. Reformulações nas leis vigentes propostas por pesquisadores e profissionais do Direito, da Comunicação, das Ciências Políticas e de áreas afins buscam atualizar o código penal para que abarque crimes como o espalhamento intencional de fake news.10

A junção dessas diferentes análises e pesquisas permite traçar planejamentos mais assertivos por parte dos poderes públicos. Por exemplo, o isolamento social de uma faxineira que ganha salário mínimo e divide um sobrado com outras cinco pessoas é diferente do isolamento social de um engenheiro que recebe salário alto, mora em um apartamento espaçoso e consegue trabalhar de casa. Para evitar que pessoas que se encaixam na primeira categoria se exponham ao vírus para complementarem a renda, um auxílio-emergencial de maior valor deve ser concedido a elas, em tempo hábil. Assim como a comunicação sobre o isolamento social dirigida à faxineira e ao engenheiro precisa ser capaz de dialogar com as vivências de cada um deles.

Conversar com representantes de comunidades ou grupos sociais, entender suas demandas, conhecer seu estilo de vida. Entre outros efeitos, esses métodos, comuns em trabalhos qualitativos nas Ciências Humanas, facilitariam a implementação de hábitos recomendados pelos pesquisadores para reduzir a circulação do coronavírus entre moradores de determinadas regiões de uma cidade ou Estado. A área de Humanidades aponta e registra problemas que, posteriormente, podem ser resolvidos por intervenções de outras áreas. Durante a pandemia, por exemplo, há empresas que adotam o trabalho remoto. Em outras, os funcionários precisam trabalhar presencialmente, seja porque sua atividade só pode ser desempenhada dessa forma, seja por se tratar de uma decisão empresarial que não considera o contexto pandêmico.11 Esses trabalhadores precisam utilizar o transporte público tanto na ida quanto na volta do trabalho. É necessário, portanto, realizar um planejamento para que não haja aglomerações no trajeto que esses trabalhadores costumam fazer. E assim por diante.

Como os pesquisadores da Saúde, os cientistas de Humanas também prezam pela integridade e dignidade do ser humano, entendendo que ele se insere em um corpo social. Corpo este que rege todas as relações e estruturas que atravessam as pessoas e as comunidades às quais pertencem. Se a pandemia ensina algo, é que o bem mais valioso que temos é a vida. Ensinamento que os povos originários sul-americanos há muito já transmitem, e vêm sendo retomado nos trabalhos de diferentes cientistas sociais (muitos deles, também indígenas). No combate à COVID-19, as Ciências Biológicas salvam vidas. A luta das Ciências Humanas é assegurar que as vidas salvas sejam acolhidas, para que pulsem com saúde, respeito, potência, construindo um Brasil mais funcional e justo.

1 G1 AM. Superlotado, maior pronto-socorro do AM recusa novos pacientes. [15/01/2021]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/01/15/superlotado-maior-pronto-socorro-do-am-para-de-receber-novos-pacientes.ghtml

2 Uol Notícias. ‘Explosão de casos em Manaus é de nova cepa’, aponta infecciologista. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2021/01/15/explosao-de-casos-em-manaus-e-de-nova-cepa-aponta-epidemiologista.htm

3 Agência Brasil. Covid-19: Brasil tem 8,39 milhões de casos e 208,1 mil mortes. [15/01/2021]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/covid-19-brasil-tem-839-milhoes-de-casos-e-2081-mil-mortes

4 G1 AM. Publicado decreto que estabelece as regras de reabertura do comércio no Amazonas. [28/12/2020]. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/12/28/publicado-decreto-que-estabelece-as-regras-de-reabertura-do-comercio-no-amazonas.ghtml

5 Uol Notícias. Secretário de SP admite início tímido de vacinação e projeta mais doses. [18/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/18/secretario-de-sp-admite-inicio-timido-de-vacinacao-e-projeta-mais-doses.htm?cmpid=copiaecola

6 Conforme denunciado pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro. Ver mais em: https://www.facebook.com/SinMedRio/posts/1691484071032730

7 Uol Notícias. MPF investigará prioridade à cloroquina e não ao oxigênio em Manaus. [15/01/2021]. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/15/mpf-investigara-improbidade-por-prioridade-a-cloroquina-e-nao-ao-oxigenio.htm

8 Thaiane Oliveira tem trabalhado os conceitos de desinformação científica e fake sciences ligadas à saúde. Para mais investigações sobre redes de desinformação, checar os trabalhos de Afonso de Albuquerque, Viktor Chagas e Marcelo Alves. Todos os pesquisadores aqui referidos pertencem ao PPGCOM UFF.

9 Na província chinesa de Zhejiang, por exemplo, medidas de comunicação científica multinível foram adotadas para prevenção e controle de doenças, o que inclui a COVID-19. Ver mais em: https://go.nature.com/3p4mwYT

10 ConJur. Especialistas afirmam: ‘Lei das Fake News’ é fundamental para o Brasil. [10/07/2020]. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-jul-10/especialistas-afirmam-lei-fake-news-fundamental-brasil

11 A precarização do trabalho durante a pandemia tem sido tema de discussão em diferentes áreas e trabalhos das Ciências Humanas. Checar, por exemplo, a entrevista concedida ao Jornal da USP por Wilson Amorim, professor associado do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo: https://jornal.usp.br/atualidades/pandemia-da-covid-19-acentuou-precarizacao-das-relacoes-de-trabalho/

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Doença de Alzheimer: Inovação em diagnóstico a caminho

A Doença de Alzheimer (DA), também popularmente conhecida como Mal de Alzheimer ou simplesmente Alzheimer, é degenerativa ocasionando perda de memória e outras funções cognitivas (como orientação e linguagem) no paciente. É ainda incurável, porém tratável em estágios mais iniciais1.

Foi inicialmente descrita em 1906 pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer (cujo sobrenome foi atribuído anos mais tarde por Emil Kraepelin para se referir à doença)2.

Dentre as demências que acometem a população idosa o Alzheimer é a principal em número de pacientes acometidos3, sendo responsável por 60% a 70% destes casos no mundo4. O envelhecimento da população mundial preocupa especialistas e, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pacientes acometidos deve triplicar até 2050. O Brasil deve atingir 6 milhões de pacientes com demência em 20505.

Apesar de as causas da doença de Alzheimer não serem completamente conhecidas, hipóteses foram levantadas para tentar explicar o surgimento da doença. Dentre estas a chamada hipótese amiloide possui ampla aceitação perante a comunidade científica devido aos resultados de análise no cérebro de pacientes6. Ao se analisar o tecido cerebral de pessoas saudáveis e pacientes com Alzheimer, diferenças são encontradas. O cérebro do paciente com Doença de Alzheimer apresenta duas principais alterações, uma nos neurônios (células responsáveis por transmitir impulsos nervosos) e outra na região entre estas células. No interior dos neurônios dos pacientes, no citoplasma, encontram-se fibras emaranhadas (conhecidas como emaranhados neurofibrilares) contendo proteínas chamadas Tau associadas a elas, e no exterior das células encontram-se agregados formados pelos peptídeos (breves sequências de aminoácidos) Aβ, conhecidos como agregados amiloides7 (Figura 1).

Figura 1: Representação de neurônios – A. de indivíduo saudável – B. de paciente com Alzheimer. Fonte: Extraída de de Falco et al., 20167.

As proteínas Tau desempenham importantes funções para o correto funcionamento dos neurônios; por exemplo, protegem o DNA das células neuronais e estabilizam o esqueleto destas8. Normalmente as proteínas Tau não se aglomeram a filamentos a fim de ficarem lá depositadas. Porém, se forem modificadas para conter grupos fosfato (ou seja, se sofrerem fosforilações), tornam-se insolúveis no citoplasma dos neurônios se destinando aos filamentos. Isso prejudica o funcionamento das células neuronais. Logo, pacientes com Doença de Alzheimer tem níveis elevados da proteína Tau fosforilada (fosfo-Tau). Existe até mesmo a hipótese de que é o acúmulo de agregados amilóides o responsável por promover esta modificação na proteína Tau9.

Os peptídeos amilóides também não são prejudiciais de maneira isolada (não agregados); são seus agregados que causam danos. Os peptídeos amilóides não agregados contribuem para o desenvolvimento do cérebro e seu correto funcionamento8. Os agregados amilóides, por sua vez, prejudicam a comunicação entre células nervosas e podem ocasionar a morte destas, causando os prejuízos já descritos ao paciente10. Pacientes com Doença de Alzheimer possuem muitos agregados amilóides sendo gerados no cérebro, além de muita proteína Tau na forma insolúvel depositada nos emaranhados neurofibrilares (Figura 2).

Figura 2: Nas tomografias por emissão de pósitrons a coluna de imagens do cérebro apresentada à esquerda são oriundas de idoso saudável e as da coluna da direita, de paciente com Alzheimer. Para ambos os pacientes a imagem mais acima foi realizada para se determinar a presença da proteína Tau e as imagens mais abaixo, para a presença de agregados amilóides. Conforme exibido na legenda, na porção extrema direita da imagem, quanto mais vermelha for a região colorida nas imagens de cérebro, maior a presença daquilo que se está investigando (proteína Tau ou agregados amilóides). Observa-se altas concentrações dos agregados amilóide e de Tau (fosforilada como já discutido neste texto) no cérebro dos doentes. Fonte: Yang, 2016 – imagem de Schöll, M.11

Para o diagnóstico são utilizados comumente tomografias do cérebro além da avaliação clínica do paciente por meio de testes cognitivos e os relatos de familiares acerca do comportamento atípico do paciente12.

Em Agosto deste ano de 2020, no entanto, um grupo de pesquisadores liderados por Sebastian Palmqvist e Oskar Hansson da Universidade de Lund, na Suécia, publicaram resultados promissores de seus estudos que tornaria possível o diagnóstico do Alzheimer através de exame de sangue13.

O exame se baseará na dosagem da proteína fosfo-Tau217 (Figura 3) no plasma dos pacientes, visto que os cientistas perceberam esta se encontra em altos níveis nos pacientes com Alzheimer (até mesmo antes do aparecimento dos sintomas). A proteína se mostrou um biomarcador seguro, possibilitando aos pesquisadores distinguir, por meio do exame, os pacientes com Alzheimer daqueles com outras doenças neurodegenerativas14.

Figura 3: Simulação computacional de anticorpo (em rosa e azul) e fosfo-tau217 (destacada em amarelo). Fonte: Van Kolen et al. (2020) – NCBI – Estrutura 6XLI.15 

Esta inovação no diagnóstico seria de grande impacto uma vez que o diagnóstico precoce é raramente realizado. No geral, quando as famílias notam os lapsos de memória e mudança de comportamento e levam o paciente ao médico a degeneração já se encontra avançada. O novo exame seria, portanto, uma grande conquista para pacientes e familiares. O diagnóstico precoce permitiria a adoção de tratamentos que devem ser iniciados na etapa inicial de progressão da doença e que possuem efetivo potencial de melhoria significativa da qualidade de vida não só do paciente, mas também daqueles que dele cuidam.

Referências: 

1 Hospital Israelita Albert Einstein – Alzheimer. Disponível através do link <https://www.einstein.br/doencas-sintomas/alzheimer>. Acesso em 27/10/2020.

2 AlzheimerMed – A Primeira Paciente August D. Disponível através do link <http://www.alzheimermed.com.br/biografia-alois-alzheimer/a-primeira-paciente-august-d> Acesso em 27/10/2020.

3 Vidor R de C et al. (2019) MORTALIDADE POR DOENÇA DE ALZHEIMER E DESENVOLVIMENTO HUMANO NO SÉCULO XXI: UM ESTUDO ECOLÓGICO NAS GRANDES REGIÕES BRASILEIRAS. Arquivos Catarinenses de Medicina 48(1). Disponível através do link <http://www.acm.org.br/acm/seer/index.php/arquivos/article/view/394>. Acesso em 27/10/2020.

4 WHO WOrld Health Organization – Dementia. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/dementia>. Acesso em 27/10/2020.

5 RFI – Casos de demência vão triplicar e chegar a 152 milhões de pessoas até 2050, diz OMS.. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/05/14/casos-de-demencia-vao-triplicar-e-chegar-a-152-milhoes-de-pessoas-ate-2050-diz-oms.ghtml>. Acesso em 27/10/2020.

6 Fiocruz (2014) Novos caminhos para tratamento de Alzheimer, Parkinson e depressão. Disponível através do link <http://www.fiocruz.br/ioc/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2084&sid=32&tpl=printerview#:~:text=A%20hip%C3%B3tese%20da%20cascata%20amil%C3%B3ide,de%20prote%C3%ADna%20est%C3%A3o%20ligadas%20ao>. Acesso em 27/10/2020.

7 de Falco A. et al., (2016). DOENÇA DE ALZHEIMER: HIPÓTESES ETIOLÓGICAS E PERSPECTIVAS DE TRATAMENTO. Química Nova 39(1). Disponível através do link <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422016000100063>. Acesso em 27/10/2020.

8 Penke B. et al. (2020) Oligomerization and Conformational Change Turn Monomeric β-Amyloid and Tau Proteins Toxic: Their Role in Alzheimer’s Pathogenesis. Molecules 25(7). Disponível através do link <https://www.mdpi.com/1420-3049/25/7/1659>. Acesso em 27/10/2020.

9 de Felice F.G. et al. (2008) Alzheimer’s disease-type neuronal tau hyperphosphorylation induced by Aβ oligomers. Neurobiology of Aging 29(9). Disponível através do link <https://doi.org/10.1016/j.neurobiolaging.2007.02.029>. Acesso em 27/10/2020.

10 Salazar S.V., Strittmatter S.M. (2017) Cellular prion protein as a receptor for amyloid-β oligomers in Alzheimer’s disease. Biochem Biophys Res Commun 483(4). Disponível através do link <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27639648/>. Acesso em 27/10/2020.

11 Yang S (2016) PET scans reveal key details of Alzheimer’s protein growth in aging brains. Berkeley News. Disponível através do link <https://news.berkeley.edu/2016/03/02/pet-scans-alzheimers-tau-amyloid/>. Acesso em 27/10/2020.

12 HCor – Alzheimer: fique atento aos sinais. Disponível através do link <https://www.hcor.com.br/hcor-explica/neurologia/alzheimer-fique-atento-aos-sinais/>. Acesso em 27/10/2020.

13 Palmqvist S. et al. (2020) Discriminative Accuracy of Plasma Phospho-tau217 for Alzheimer Disease vs Other Neurodegenerative Disorders. JAMA 324(8). Disponível através do link <https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32722745/>. Acesso em 27/10/2020.

14 G1 – Estudo sugere que Alzheimer pode ser detectado em novo tipo de exame de sangue. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/07/28/estudo-sugere-que-alzheimer-pode-ser-detectado-em-novo-tipo-de-exame-de-sangue.ghtml>. Acesso em 27/10/2020.

15 Van Kolen et al. (2020) Discovery and Functional Characterization of hPT3, a Humanized Anti-Phospho Tau Selective Monoclonal Antibody. J Alzheimers Dis 77. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/Structure/pdb/6XLI>. Acesso em 27/10/2020.

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Inovação em diagnóstico para infarto agudo do miocárdio

     As doenças cardiovasculares, antes da pandemia do novo coronavírus, consistiam na primeira causa de morte no Brasil, sendo atualmente a segunda causa (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm). Dentre estas doenças, o infarto agudo do miocárdio, foi projetado para ser a principal causa em 2020 (https://portalatlanticaeditora.com.br/index.php/enfermagembrasil/article/view/776/html).

     O infarto ocorre com a diminuição ou ausência do fluxo sanguíneo para o coração, comumente por obstrução de artéria coronária causada por placas de colesterol (placa de ateroma) que desencadeiam processo inflamatório. Desta forma, as células cardíacas são privadas de nutrientes e de oxigênio e podem morrer: o que conduz à lesão do órgão e prejuízo parcial ou total de sua capacidade de bombear sangue (https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio).

     São reconhecidos cinco tipos de infarto: 1) o que tem a presença da placa de ateroma como fator causador; 2) o causado por desequilíbrio entre consumo de oxigênio e sua oferta ao músculo cardíaco, pós cirurgia ou devido à anemia, por exemplo; 3) o fulminante que causa morte súbita; 4) o que sucede angioplastia coronária após a qual restam fragmentos da placa de ateroma ou há formação de trombos no stent (estrutura metálica colocada pela equipe médica no interior da artéria – Figura 1); 5) o que sucede a cirurgia de ponte de safena (https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/).

Foto blog 2

Figura 1: Stent. Fonte: https://folhadomate.com/noticias/cateterismo-cardiaco-pelo-sus-apenas-em-casos-de-emergencia/ e http://www.sobrice.org.br/paciente/procedimentos/angioplastia-e-colocacao-de-stent.

     Dentre os sintomas mais comuns estão dor no peito irradiando para queixo, ombro e braço esquerdos, sudorese, náusea e dificuldade para respirar. No entanto pode não manifestar-se por meio de sintomas (https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm).

     Dada a importância do socorro o mais rápido possível para definir o destino do paciente, diferentes grupos de pesquisa pelo mundo tem buscado descobrir eficientes biomarcadores (para definição: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/12/13/fadiga-cronica-e-a-relacao-com-a-microbiota-intestinal/) para indicar com segurança o risco de o paciente vir a sofrer o infarto.

     São pesquisados no sangue dos pacientes com suspeita de infarto agudo do miocárdio os níveis de triglicerídeos (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/), colesterol total, HDL (lipoproteína de alta densidade), LDL (lipoproteína de baixa densidade) (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/), ácido úrico (https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/) e a presença de biomarcadores como mioglobina, creatina quinase-MB e troponina cardíaca I (https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca).

     Visando reduzir o tempo de espera pelos resultados e gerar economia no diagnóstico um grupo de pesquisadores chineses, sob coordenação dos professores Yongxiang Zhao e Nongyue He da Guangxi Medical University, recentemente publicou um artigo com um novo método de diagnóstico (Figura 2) com realização simultânea de todas as medidas relatadas no parágrafo anterior (Huang et al., 2020).

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Figura 2: Novo dispositivo para realização simultânea de 8 importantes exames para determinar risco, detectar e acompanhar a evolução do infarto agudo do miocárdio. Fonte: Adaptado de Huang et al., 2020.

     Os pesquisadores desenvolveram uma tira com duas seções importantes: uma delas fica sob o local no qual o soro do paciente (amostra) é depositado. Nesta seção existem 4 diferentes regiões para detecção fotométrica (através da geração de compostos coloridos) e determinação de concentração de: 1) colesterol (TC); 2) triglicerídeos (TG); 3) HDL (HDL-C);  4) ácido úrico (UA). Os níveis de LDL podem ser calculados com base nos resultados (https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main). Na outra seção a detecção de biomarcadores ocorre por meio de fluorescência para verificar a presença de mioglobina (Myo), creatina quinase (CK-MB) e troponina (cTnI) através de anticorpos que identificam cada uma destas proteínas.

     Os resultados de experimentos realizados utilizando-se amostras de pacientes foram mais precisos e rápidos do que os obtidos pelos métodos atualmente em uso, fazendo do novo método proposto uma interessante ferramenta para diagnosticar o infarto agudo do miocárdio e também determinar o risco de sua ocorrência em pacientes.

        

Referências

Fiorini D (2019) O ácido úrico vai muito além da gota. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/>. Acesso em: 24/08/2020.

Fleury (2020) Infarto Agudo do Miocárdio. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio>. Acesso em 24/08/2020.

Fleury (2007) Marcadores bioquímicos de lesão cardíaca. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca>. Acesso em 24/08/2020.

HCor (2020) Infarto agudo do miocárdio: adote hábitos saudáveis e proteja seu coração. Disponível através do link <https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/>. Acesso em 24/08/2020.

Huang L, Zhang Y, Su E et al. (2020) Eight biomarkers on a novel strip for early diagnosis of acute myocardial infarction. Nanoscale Adv 2: 1138.

Kruse, T (2020) Coronavírus supera câncer e enfarte; por dia, já é a 1ª causa de mortes no Brasil. Disponível através do link <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm >. Acesso em 23/08/2020.

Pronin T (2018) Infarto: dor no peito não é único sinal; veja sintomas e causas da doença. Disponível atrvés do link <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm>. Acesso em 24/08/2020.

Silva AS, Ferraz MOA, Biondo CS, de Oliveira BG (2018) Características sociodemográficas das vítimas de infarto agudo do miocárdio no Brasil. Enfermagem Brasil 17(6): 1-4.

UFPEL (2014) Calculadora de LDL Colesterol. Disponível através do link <https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Triglicérides e doença das coronárias. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Risco de ataque cardíaco. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

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Deficiência: você tem certeza que sabe o que é?

Existem realidades que entram em contato com o nosso mundo por vias indiretas: nós sabemos que existem, mas elas parecem tão distantes que apenas seus elementos simbólicos nos impõem a constatação da sua existência. Para muitas pessoas, esse pode ser o caso da deficiência e do símbolo da cadeira de rodas.

         De acordo com a ONU, uma em cada sete pessoas de todo o mundo está em situação de deficiência e apesar disso, o símbolo da cadeira de rodas pintado nas vagas de estacionamento e nos assentos e caixas preferenciais é o máximo de contato de muita gente com o universo da deficiência no seu cotidiano. Por isso, não é de surpreender que o amplo debate em torno do próprio conceito de deficiência seja desconhecido por uma grande parte da população.

Legenda: Símbolo Internacional de Acesso.  Imagem de Christopher Strolia-Davis por Pixabay.
#Descrição da Imagem: Símbolo internacional de acesso em fundo azul e desenho de pessoa em cadeira de rodas em branco. [Fim da descrição].

No ano de 2011 foi decretado pelo governo federal o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de acordo com essa legislação:

Art. 2º São consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2011).

Essa definição se alinha ao entendimento presente na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, do qual o Brasil é signatário desde 2009. Observe que nela, a identificação da pessoa com deficiência envolve duas dimensões: o indivíduo e a sociedade e é a participação desta segunda no conceito de deficiência que pode ser uma novidade para muita gente!

Em meados da década de 1960, no contexto da contracultura, um grupo de sociólogos britânicos começou a questionar a naturalização que existia em torno da conceituação de deficiência. Até então, vigorou no meio científico o entendimento de que a deficiência se tratava de um problema individual, uma tragédia que acometia uma pessoa e removia dela a “normalidade” e por isso, os esforços eram voltados para adequá-la ao normal através de sua cura ou reabilitação. Essas pessoas eram frequentemente institucionalizadas e submetidas a tratamentos que muitas vezes violavam sua dignidade sem que sua vontade fosse levada em consideração. Isso porque, geralmente, essas pessoas eram consideradas incapazes.

Isto começou a mudar quando, inspirados pelos questionamentos produzidos pelos movimentos feminista e negro, estes sociólogos passaram a refletir sobre as formas como a sociedade produz barreiras que geram a exclusão de pessoas com deficiência, evidenciando que este é um fenômeno social.

Desde então, este campo do conhecimento, conhecido como Disability Studies ou Modelo Social da Deficiência, vem analisando como as pessoas com deficiência se tornaram particularmente vulneráveis após a Revolução Industrial e o fortalecimento do capitalismo, quando a metáfora de corpos humanos como máquinas (e consequentemente, sua capacidade produtiva) passou a regular o valor de nossos corpos.

Apesar de ainda restarem muitos direitos a serem conquistados, a contribuição do modelo social para a dignidade das pessoas com deficiência – principalmente por seus desdobramentos políticos – é incontestável. Isso, no entanto, não impediu que esse corpo teórico recebesse críticas, inclusive de pessoas que se alinhavam mais ao modelo social que ao modelo médico. Esses debates vêm constituindo um novo campo que se encontra em formação: os estudos críticos da deficiência ou modelo pós-social, que pode ser entendido como uma nova geração do modelo social e conta com importantes contribuições e críticas do pensamento feminista.

Fonte: imagem de upklyak por <a href="http://<a href="https://br.freepik.com/vetores/escola">Escola vetor criado por upklyak – br.freepik.comFreepik

#Descrição da Imagem: desenho colorido de crianças com deficiência de diferentes etnias se encontrando em frente a uma escola em um dia de céu azul com algumas nuvens branquinhas. Um menino utiliza cadeira de rodas, e o outro tem uma prótese como braço esquerdo, uma das meninas utiliza óculos escuros e uma bengala e a outra utiliza uma muleta. Elas se encontram em um caminho pavimentado plano que fica em meio a um gramado verde claro. Da lado esquerdo estão duas árvores e uma placa parcialmente encoberta por uma das crianças, onde se pode ler as letras SCHO e do lado direito, há uma bandeira azul claro balançando com o vento e uma árvore. O caminho leva ao prédio da escola, que tem cor de tijolos de barro, dois andares, muitas janelas e uma entrada grandiosa cercada por colunas. O único acesso à porta de entrada da escola é uma escadaria. [Fim da descrição].

O modelo social enfatiza as dimensões públicas da vida cotidiana, como as barreiras arquitetônicas e a exclusão do mercado de trabalho, em sua análise do papel da sociedade na produção da deficiência. Já para o modelo pós-social é necessário que sejam considerados também os aspectos da vida da pessoa com deficiência considerados privados, como o papel da dor, os efeitos da linguagem excludente, a sexualidade da pessoa com deficiência e ainda, a extensão dessas análises para a questão do cuidado e da interdependência, inerente à condição humana.

Justamente por todo o histórico de exclusão já vivido, o lema das pessoas com deficiência é “Nada sobre nós sem nós”. Por isso, para saber mais sobre esse debate, nada melhor que o Guia Feminista de Mulheres com Deficiência produzido pelo Coletivo Feminista Helen Keller, que você encontra clicando aqui

REFERÊNCIAS

BISOL, Cláudia Alquati; PEGORINI, Nicole Naji; VALENTINI, Carla Beatris. Pensar a deficiência a partir dos modelos médico, social e pós-social. Cad. Pesq., São Luís, v. 24, n. 1, p. 87-100, jan./abr. 2017.

BRASIL. Presidência da República. Decreto N° 6.949, de 25 de agosto de 2009 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Organização das Nações Unidas – ONU. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm. Acesso em 17 ago. 2020.

BRASIL. Decreto n°. 7612, de 17 de novembro de 2011. Institui o Plano Nacional de Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612.htm . Acesso em: 25 jul 2020.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DINIZ, Débora. Deficiência e Políticas Sociais – Entrevista com Colin Barnes. SER Social,  Brasília,  v. 15, n. 32, p. 237-251,  jan./jun.  2013. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. A ONU e as pessoas com deficiência. Disponível em: https://nacoesunidas.org/acao/pessoas-com-deficiencia/. Acesso em 25 jul. 2020.

PICCOLO, Gustavo Martins. Contribuições a um pensar sociológico sobre a deficiência. 2012. 231 f. Tese (Doutorado em Educação Especial) – Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/2898 . Acesso em 04 jun. 2020.

RUMO ao Fazendo Gênero 12 – Oficina Anticapacitismo. Seminário Internacional Fazendo Gênero, 2020. 1 vídeo (152 min). Publicado pelo canal Instituto de Estudos de Gênero – UFSC. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SFxsLgJeDVA . Acesso em 30 jul. 2020. 

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Ebola: o inimigo volta a ameaçar

O Ebola é uma doença causada por vírus que tem como hospedeiros naturais espécies de morcegos frugívoros, e é nomeado devido ao rio da região na qual seu primeiro surto ocorreu, em 1976, no continente africano [1].

Se comparado ao coronavírus, que apresenta letalidade de cerca de 3% dos infectados, o Ebola é uma ameaça muito mais grave, podendo levar a óbito de 25 a 90% dos pacientes [2]. 

O Ebola vírus (Figura 1), assim como o HIV e o coronavírus (Sars-CoV-2), era transmitido inicialmente entre animais. Porém, através de um processo conhecido como spillover essas zoonoses virais passaram a infectar também seres humanos [3].

Figure 1 Ebola

Figura 1: Ebola vírus [4].

Essa transmissão de animais contaminados para seres humanos se dá via sangue e fluidos corporais. Posteriormente, os humanos infectados podem infectar outras pessoas via sangue, saliva, sêmen, e contato direto mesmo após a morte (os cadáveres são contagiosos [5]).

Após a infecção, o indivíduo pode demorar de 2 a 21 dias para manifestar sintomas da febre hemorrágica como: dor de cabeça e/ou garganta e/ou nas articulações, febre, fraqueza muscular, calafrios, diarreia com sangue, erupções cutâneas e olhos vermelhos. O mais grave desfecho conduz à hemorragia interna, com sangue extravasando até mesmo por reto, olhos, nariz e ouvidos [6].

De 2014 a 2016, o pior surto da história afetou 22 mil pessoas na África Ocidental (principalmente Guiné, Serra Leoa e Libéria – Figura 2) provocando a morte de 11 mil delas [7]. Mais recentemente a décima epidemia de Ebola em território congolês, que se iniciou em 2018 e foi considerada encerrada com a alta da última paciente internada em fevereiro de 2020, afetou mais de 3,4 mil pessoas das quais cerca de 66% faleceram [8].

Figura 2 Mapa

Figura 2: Mapa da África Ocidental, com destaque para a região mais atingida pelo surto de 2014 a 2016; modificado de [9].

O vírus possui capacidade de transmissão inferior ao Sars-CoV-2 e, apesar de não haver tratamento específico, já existe vacina contra o Ebola. A vacina rVSV-EBOV, conhecida comercialmente como Ervebo, foi desenvolvida contra a forma mais letal do vírus (a Zaire) [10] e já contribuiu para conter o avanço de contaminações na República Democrática do Congo e em Uganda [11]. Recebeu no final de 2019 a aprovação de agências como a americana e a europeia, e já foi aplicada em mais de 280 mil pessoas em área de risco [12].

No dia 01 de junho deste ano de 2020, no entanto, foi declarada nova onda de contaminações na República Democrática do Congo; dos 6 pacientes inicialmente diagnosticados, 4 morreram [13]. A Organização Mundial da Saúde considera um grande desafio lidar conjuntamente com o Ebola e o coronavírus, mas se prontificou a tentar [14]. 

Esse fato conduz a uma reflexão sobre os motivos de, mesmo com a existência de vacina, novas epidemias surgirem em regiões em que já aconteceram no passado. O que ocorre é que as regiões mais atingidas pelo vírus são áreas com conflitos armados e grande índice de violência, dificultando tanto a vacinação da população como o isolamento precoce dos doentes para tratamento dos sintomas. Soma-se a isso o fato de o grau de instrução baixo dos cidadãos conduzir a medo e relutância na vacinação. Uma situação delicada que ameaça seres humanos já em situação de grande vulnerabilidade no continente que historicamente é marcado por sofrimento e exclusão.

 

Referências

[1] – Médicos sem Fronteiras (2018) Ebola. Disponível através do link <https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola>. Acesso em 18/06/2020.

[2] – Cajé M, Fernandez A (2020) Na África Subsaariana, ebola ainda preocupa mais que novo coronavírus. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/10/na-africa-subsaariana-ebola-ainda-preocupa-mais-que-novo-coronavirus.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[3] – Multini L (2017) Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/07/05/cientistas-preveem-spillover-de-virus-de-mamiferos-selvagens-para-seres-humanos/>. Acesso em 18/06/2020.

[4] – Monteiro L (2014) Ebola: 7 perguntas e respostas essenciais sobre esse vírus. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/bem-estar/ebola-7-perguntas-e-respostas-essenciais-sobre-esse-virus/>. Acesso em 18/06/2020.

[5] – Louise J (2018) Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/08/08/microrganismos-da-pesada-e-o-bioterrorismo/>. Acesso em 18/06/2020.

[6] – Varella Bruna, MH (2020) Ebola. Disponível através do link < https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/>. Acesso em 18/06/2020.

[7] – Weller C (2018) Por que o ebola voltou – e dificilmente será erradicado. Disponível através do link < https://www.bbc.com/portuguese/geral-44062701 >. Acesso em 18/06/2020.

[8] – G1 (2020) Última paciente que tinha ebola na República Democrática do Congo recebe alta. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/05/ultima-paciente-que-tinha-ebola-na-republica-democratica-do-congo-recebe-alta.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[9] – Blog da Cajucultura (2020) África ocidental impulsiona produção de castanha. Disponível através do link <https://www.blogdacajucultura.com/2018/10/africa-ocidental-impulsiona-producao-de.html>. Acesso em 29/06/2020.

[10] – Suder E, Furuyama W, Feldmann H, Marzi A, de Wit E (2018) The vesicular stomatitis virus-based Ebola virus vaccine: From concept to clinical trials. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6183239/>. Acesso em 18/06/2020.

[11] – Pucu E (2019) Disponível através do link < https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/09/23/vacina-contra-o-ebola-perspectivas-para-populacoes-africanas/>. Acesso em 18/06/2020.

[12] – Saphire E O (2020) A Vaccine against Ebola Virus. Disponível através do link < https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302737>. Acesso em 18/06/2020.

[13] – WHO (2020) New Ebola outbreak detected in northwest Democratic Republic of the Congo; WHO surge team supporting the response. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/detail/01-06-2020-new-ebola-outbreak-detected-in-northwest-democratic-republic-of-the-congo-who-surge-team-supporting-the-response>. Acesso em 18/06/2020.

[14] – Jornal Estado de Minas (2020) Congo tem surto de ebola durante pandemia do coronavírus. Disponível através do link <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/06/01/interna_internacional,1152799/congo-tem-surto-de-ebola-durante-pandemia-do-coronavirus.shtml>. Acesso em 29/06/2020.

 

 

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Uma mesa para dois, por favor

Ci∙ên∙ci∙a. Substantivo feminino. “Corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente”. É assim que está lá no dicionário. Na prática, significa que um novo conhecimento (ou um grupo deles) será construído com base em um método, algo que possa ser reproduzido por outras cientistas. Não precisamos gastar muitos caracteres para explicar que cientistas são pessoas, certo? E como tais, estão sujeitas a todas as interferências (que costumo chamar de atravessamentos) relativas à sua humanidade.

Alguém que me lê acredita ser possível destacar a parte humana de uma pessoa e deixá-la só com características que a confeririam técnica, imparcialidade e invulnerabilidade? Assim, temporariamente, em horário comercial, só para desempenhar seu trabalho de forma mais eficiente? Se a resposta é não, como esperar que cientistas não sejam atravessadas por questões que afetam sua existência e subjetividade como a sexualidade, por exemplo?

Há vários estudos que fornecem detalhes sobre as dificuldades diárias, assédio, intimidação, medos, exclusão e discriminação vividas por cientistas LGBTQIA+ [1]. Também documentam algumas das conseqüências negativas percebidas na carreira do professor LGBTQIA+, incluindo discriminação na contratação, permanência e promoção, exclusão de redes acadêmicas e profissionais e desvalorização do trabalho acadêmico em temas heterodissidentes [2].

É de se esperar que cientistas (especialmente de exatas) considerem a identidade sexual de um indivíduo como irrelevante no ambiente de trabalho científico. De acordo com esta perspectiva, as características individuais geralmente não devem ter nenhum papel em trabalho científico, pois o método científico oferece uma garantia de objetividade; assim, indiferença à vida pessoal dos indivíduos, e uma crença na sua irrelevância para a pesquisa científica, é particularmente comum entre acadêmicos. Ademais, como poucos pesquisadores das ciências exatas examinam fenômenos sociais em suas próprias pesquisas, eles e elas podem ser menos influenciados por desenvolvimentos teóricos que têm uma compreensão avançada da construção social e implicações da sexualidade, raça e etnia, classe e gênero [3,4]. Esta falta de entendimento torna o clima no ambiente de trabalho desfavorável aos cientistas LGBTQIA+ (e outras inseridos em recortes não hegemônicos).

As organizações Institute of Physics, Royal Astronomical Society and Royal Society of Chemistry publicaram um relatório sobre o clima de trabalho para cientistas LGBTQIA+ da física. Entre os achados da pesquisa há que locais de trabalho com cientistas abertamente LGBTQIA+ são mais acolhedores e que fazer o melhor pela ciência significa reter cientistas LGBTQIA+. Concluíram que 28% dos LGBTQIA+ entrevistados afirmaram que tinham, em algum momento, considerado sair de seu local de trabalho por causa do clima ou da discriminação em relação a sua sexualidade e que quase metade de todos aqueles que se declararam pessoas trans havia considerado deixar seu local de trabalho por causa do clima, sendo que quase 20% deles consideram isso com frequência.

Fonte: INSTITUTE OF PHYSICS; ROYAL ASTRONOMICAL SOCIETY; ROYAL SOCIETY OF CHEMISTRY. Exploring the workplace for LGBT physical scientists. Reino Unido: 2019.

Foi Thomas McIntyre Cooley (1824-1898), jurista norte-americano e presidente da suprema corte de Michigan, quem cunhou, em 1888, a expressão o direito de estar só (the right to be let alone) que evoluiu para o conceito do direito de privacidade. Tal direito é uma manifestação, no âmbito das relações interpessoais, do próprio direito de liberdade. Diante da importância particular que a sexualidade assume na construção da subjetividade e no estabelecimento de relações pes­soais e sociais, o direito à livre expressão sexual, é concretização mais que necessária do direito humano à liberdade [8].

Vemos aqui então, que a livre expressão das subjetividades que formam os seres enquanto indivíduos, entre elas a sexualidade, é fundamental e deveria ser garantida. Se essa garantia não vier sob o conceito de empatia que venha sob a justificativa produtivista, uma vez que cientistas mais confiantes, com o sentimento de pertencimento àquele grupo ou laboratório são mais eficientes e a ciência não pode abrir mão de suas ‘operárias’.

Já imaginou a ciência sem Sir Francis Bacon (pai do método científico), Florence Nightingale (enfermeira pioneira e excelente estatística), Alan Hart (médico trans, especialista em saúde pública com excelentes contribuições no manejo da tuberculose) ou Alan Turing (matemático conhecido como o pai da computação)? Todos eles e ela faziam parte da comunidade LGBTQIA+. Nesse mês do orgulho LGBTQIA+, fica o convite para que todas as cientistas possam sentar-se à mesa da ciência e que nesta, sempre tenha espaço para mais uma de nós.

Imagem de Steve Halama para o Unsplash

Referências

1. BILIMORIA, Diana; STEWART, Abigail J., “Don’t Ask, Don’t Tell”: The Academic Climate for Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Faculty in Science and Engineering, NWSA Journal, v. 21, n. 2, p. 85–103, 2009.

2. TAYLOR, Verta; RAEBURN, Nicole C. “Identity Politics as High-Risk Activism: Career Consequences for Lesbian, Gay, and Bisexual Sociologists.” Social Problems 42(2): 252–73. The National Academies.1995.

3. SHIELDS, Stephanie A. “Gender: An Intersectional Perspective.” Sex Roles 59: 301–11. 2008.

4. WEBER, Lynn. “A Conceptual Framework for Understanding Race, Class, Gender, and Sexuality.” Psychology of Women Quarterly 22: 13–32. 1998.

5. SCHEIN, Edgar H. Organizational Culture and Leadership. 2nd ed. San Francisco: Jossey-Bass. 1992.

6. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Janet E. Malley, and Abigail J. Stewart. 2006. “The Climate for Women in Academic Science: The Good, the Bad, and the Changeable.” Psychology of Women Quarterly 30: 47–58.

7. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Abigail J. Stewart, and Janet E. Malley. 2007. “Voice Matters: Buffering the Impact of a Negative Climate for Women in Science.” Psychology of Women Quarterly 31: 270–81.

8. RIOS, Roger Raupp. Direitos humanos, direitos sexuais e homossexualidade. Amazônica, v. 3, n. 2, p. 288–298, 2011.

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Drogas Antivirais: O que são e como são descobertas? O que podemos esperar para o tratamento da COVID-19?

Quem diria que 2020 seria um ano de fortes emoções, não é mesmo? Nem nos recuperamos completamente do ano novo e em fevereiro as mídias de informação começaram a falar sobre uma doença causada por um vírus novo que estava se disseminando na China (veja mais sobre o assunto aqui). Ao longo dos meses, essa virose foi tomando proporções imensas, até que no dia 11 de março, a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia. Diante desse cenário, onde aparentemente estávamos sem saída, foi reunida uma força tarefa entre pesquisadores de vários países a fim de encontrar a saída mais rápida, visando então a menor perda de vidas que fosse possível.

A comunidade científica ficou nos holofotes, os pesquisadores passaram a ter mais espaço na mídia. Pode-se notar que os noticiários mudaram e começaram a reportar em massa sobre as pesquisas que estavam sendo feitas nesse sentido. Isso ocorreu porque a Wellcome Trust (instituição de caridade que concede verba para pesquisas médicas) fez um apelo aos pesquisadores e às revistas científicas para que todos os dados ficassem disponíveis o mais rápido possível (1). Diante dessa situação, várias pesquisas focaram em testar a eficiência de medicamentos que já são usados para tratar outras infecções e sendo reportadas através dos chamados “Preprints”, que basicamente é um artigo, mas que ainda não passou por revisão dos periódicos científicos.

Imagem 1: Ilustração do vírus SARS- COv 2, agente etiológico da Covid-19. Fonte: CDC https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html

Esses artigos falam sobre diferentes aspectos sobre o SARS- COv 2 e/ou COVID-19: biologia do vírus – trata-se de uma zoonose oriunda da recombinação dos coronavírus de morcegos e pangolins (2) , além disso ao sequenciar o genoma, os pesquisadores têm provas concretas de que não é uma arma biológica (caso queira saber mais sobre o sequenciamento, clique aqui); fisiopatologia – as alterações promovidas principalmente nos pulmões e muitas outras que ainda estão sendo estudadas; infecção – já se sabe o que vírus usa a proteína ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2) para entrada na célula; e por último mas não menos importante, que será o foco a partir de agora, os tratamentos que estão sendo desenvolvidos (3).

Como são descobertas as drogas antivirais?

Durante essa crise de saúde pública, existem algumas formas mais rápidas para que antivirais cheguem até o paciente evitando assim a piora do quadro ou até a sua morte precoce. Essa abordagem mais rápida pode ser feita de diversas formas. Uma delas é testar a ação de drogas já utilizadas para outras viroses ou com potencial antiviral (chamado uso off-label, quer saber mais sobre? Clique aqui). São drogas que já se sabe quais os efeitos colaterais, qual a dosagem que pode ser administrada, entre outros aspectos. Então uma vez que seja comprovada a eficácia será “mais fácil e rápida” a sua liberação para uso na clínica, exemplos como hidroxicloroquina, azitromicina, entre muitos outros, estão sendo estudados para esse uso. (4)

Imagem 2: Ilustração  representativa dos medicamentos que estão sendo testados para combater o vírus SARS- COv 2.  Fonte:https://covid19.tabipacademy.com/2020/03/31/coronavirus-treatment-vaccines-drugs-in-the-pipeline-for-covid-19/   

Outra alternativa são as drogas de uso compassivo, essas são drogas que já eram estudadas para outras viroses e que apresentaram resultados positivos em ensaios in vitro (em cultura de células) com SARS-Cov2, mas que precisam de ensaios clínicos para serem utilizadas na clínica, um exemplo é o remdesivir (5). Nessa situação foi testado também o uso de plasma convalescente (mas isso você pode conferir aqui pra saber mais). Uma busca no site Clinical Trials (plataforma que mostra trabalhos científicos que utilizam testes clínicos), mostra que existem mais de 30 trabalhos ativos em vários lugares do mundo, testando essas terapêuticas para o tratamento da COVID-19 (5).

Ufa! Muita coisa, não? Exatamente, isso tudo para tentar salvar o máximo de vidas possível, mas vocês devem estar se perguntando sobre as vacinas. Bom, a vacina seria o nosso sonho nesse momento, porém a triagem para uma vacina segura com os testes necessários e sua produção pode levar de 10 a 15 anos. Novamente, a força tarefa de pesquisadores com investimentos públicos e privados, de vários países, estão testando várias formulações para a vacina e a previsão é que em 2021 ela esteja pronta.

O que podemos notar nesse momento é que estão sendo feitos muitos esforços para nos tirar dessa situação atípica, vamos ter esperança e aguardar que o dia de amanhã seja melhor!

(1)  CARR, D. Sharing research data and findings relevant to the novel coronavirus (COVID-19) outbreak. Wellcome Trust 2020. Disponível em: https://wellcome.ac.uk/press-release/sharing-research-data-and-findings-relevant-novel-coronavirus-covid-19-outbreak

(2)  LI, X. et al. Emergence of SARS-CoV-2 through recombination and strong purifying selection. Science Advances. Maio/2020. Doi: 10.1126/sciadv.abb9153. Disponível em: https://advances.sciencemag.org/content/early/2020/05/28/sciadv.abb9153

(3) DHAMA, K. et al. COVID-19, an emerging coronavirus infection: advances and prospects in designing and developing vaccines, immunotherapeutics, and therapeutics. Hum Vaccin Immunother. Março/2020. Doi: 10.1080/21645515.2020.1735227. Disponível em:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7103671/.

(4) KALIL, A.C. Treating COVID-19—Off-Label Drug Use, Compassionate Use, and Randomized Clinical Trials During Pandemics. JAMA. Março /2020. Disponível em : https://www.sbn.org.br/fileadmin/diversos/COVID_evidence_Kalil.pdf.

(5) Clinical Trials, pesquisa testes clínicos para COVID 19. Disponível em: https://clinicaltrials.gov/ct2/results?cond=COVID19&recrs=d&age_v=&gndr=&type=Intr&rslt=&Search=Aplicar+

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O que é Física Médica?

Tenho certeza que você já fez uma radiografia para determinar se estava ou não com sinusite, ou conhece alguém que já fez uma tomografia para verificar se tinha cálculo renal ou quem precisou fazer uma cintilografia após um infarto. E como saber se a imagem que está sendo gerada corresponde mesmo àquela estrutura que queremos ver? Pergunte isso a uma física médica que ela saberá te responder com bastante segurança.

A física médica atravessa nossas rotinas já há muito tempo. Dizem até que Leonardo da Vinci teria sido um dos pioneiros desta área já que usava elementos da matemática e física para encontrar soluções para as demandas da medicina da época e estudar anatomia. Apesar da dúvida em relação ao seu início, é bem estabelecido que seu fortalecimento aconteceu após a descoberta da radioatividade e seu uso em benefício da saúde.

Figura 1 – Homem Vitruviano de DaVinci. Fonte: Wikimedia Commons

A medicina contemporânea está cada vez mais dependente de imagens (sejam radiografias, tomografias, cintilografias, PET-CT etc) e quem certifica que essas imagens são coerentes com a realidade e que os pacientes não estão expostos a doses de radiação ionizante maiores que as necessárias, são os físicos médicos. Dentro de um hospital, há três áreas básicas de atuação: a radioterapia, o radiodiagnóstico e a medicina nuclear (há outras possibilidades também, mas isso é assunto para um outro texto). Grosso modo, na radioterapia, as físicas médicas planejam as doses de radiação e campos que cada paciente vai receber durante suas sessões. É um trabalho personalizado e muito minucioso. No radiodiagnóstico, estes profissionais realizam testes de controle de qualidade em equipamentos, como mamógrafos e tomógrafos, para garantir o melhor custo-benefício entre imagem e dose. Na medicina nuclear há diagnóstico e terapia, então garantimos que cada paciente receba a menor dose possível com a melhor resposta diagnóstica ou terapêutica disponível a cada técnica. Claro que as atribuições são muito mais diversas que estas aqui mencionadas (conversaremos sobre isso em um outro dia), mas essa é uma forma simples, mas acurada de te explicar nosso papel em um hospital.

Figura 2 – Imagem de um exame de PET-CT. Fonte: Wikimedia Commons

Agora, imagine um baile. Temos a pessoa que seleciona as músicas, temos os dançarinos, a pista de dança, o bar…quando tudo funciona harmonicamente para que a experiência do baile seja agradável, o trabalho envolvido para ele acontecer fica invisível. E a música é o fio que costura todos os elementos. A física médica em um serviço de saúde é assim. Um trabalho invisível, que atravessa tantos profissionais da saúde, costurando os saberes harmonicamente de forma que a costura fique invisível, porém forte e coesa.

Figura 3 – Imagem por StockSnap de PixaBay

Quando há físicos médicos qualificados trabalhando em um setor, dificilmente há repetição de exames, as doses de radiação são otimizadas, os funcionários do setor não são expostos desnecessariamente, as terapias são mais eficazes e os pacientes, que são o norte de um serviço de saúde, saem daquela experiência com a certeza que foram atendidos da melhor forma possível. Neste sentido, é muito mais complexo ser uma física médica que uma física teórica, por exemplo, uma vez que nosso campo de trabalho envolve pacientes e todas as variáveis e incertezas associadas às pessoas e a vida (que insiste em extrapolar a ciência). 

Resumindo, a física médica é uma linda profissão que une a dureza e as certezas da física com a fluidez e as variáveis da medicina. Ela se cria e se renova a cada prática como uma ciência de fronteira tendo como ferramentas a tecnologia de ponta, com a frieza de suas frequentes atualizações, e a boa e velha lida humana, que traz o calor das relações e das recompensas que não se pagam com dinheiro.

Referências:

KRON, Tomas; KRISHNAN, Prem, Leonardo DaVinci’s contributions to medical physics and biomedical engineering: celebrating the life of a ‘Polymath’, Australasian Physical & Engineering Sciences in Medicine, v. 42, n. 2, p. 403–405, 2019.

The top 5 ways medical physics has changed health care, EurekAlert!, disponível em: <http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-02/aiop-ttf022808.php&gt;, acesso em: 26 abr. 2020.

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O sangue de pessoas curadas do COVID-19 pode ser a chave para o tratamento da doença?

O COVID-19 é uma virose causada por um novo tipo de β-coronavírus, nomeado de SARS-CoV-2, que causa sintomas de síndrome gripal, como tosse, dor de cabeça e febre, mas que pode ter complicações respiratórias graves e ser fatal. O COVID-19 apresenta alta transmissibilidade, sendo a principal via o contato próximo pessoa-a-pessoa. A transmissão no Brasil já é comunitária, e passamos dos 200 mil casos confirmados e 15 mil mortes. Porém nem tudo são notícias ruins, já temos também mais de 100 mil pessoas recuperadas do COVID-19 só no nosso país.

Essas pessoas recuperadas desenvolvem anticorpos contra o vírus que auxiliam no combate da infecção. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e se espalha pelos tecidos, causando lesão e a sintomatologia, em consequência. Além disso, o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Em teoria, pacientes recuperados do COVID-19 foram capazes de montar uma resposta imunológica eficiente e possuem anticorpos que podem ter aplicação na prevenção e tratamento de outras pessoas. As vacinas estimulam a resposta imune, fazendo com que o nosso corpo produza anticorpos contra os patógenos. No entanto, essa resposta não é imediata, e no caso do COVID-19 não existe ainda uma vacina contra o vírus, por isso uma alternativa é a transfusão de plasma (fração do sangue que contém as proteínas séricas) de pacientes convalescentes, assim transferindo os anticorpos dos doadores para outros pacientes e conferindo a eles uma melhor resposta imune. Essa terapia é chamada de imunização passiva, pois a imunidade já é “dada pronta” para o paciente e não produzida pelo mesmo, e já foi utilizada em outros surtos na história da imunidade, principalmente antes da descoberta dos antibióticos. Com a imunização passiva é possível acelerar, aprimorar e direcionar a resposta imune, tornando-a mais eficaz.

O uso desta forma de terapia tem precedentes históricos, como em:

–  1918 na pandemia de H1N1, a Gripe Espanhola;

– 2003 no surto de SARS-CoV-1, um tipo diferente de Coronavírus;

– 2009-2010, na nova pandemia de H1N1,

– 2012 contra MERS (síndrome respiratória do Oriente médio), causada por diferente tipo de Coronavírus;

– 2013 no surto de Ebola na África.

Os dados variam bastante, mas no caso do H1N1 os estudos mostram a redução da taxa de mortalidade entre 20 e 80% nos pacientes tratados com plasma convalescente. No surto de SARS1, vírus da mesma família que o SARS-Cov-2, o uso da terapia de imunização passiva, reduziu a mortalidade em cerca de 20%.

A terapia de imunização passiva é mais efetiva quando usada profilaticamente do que como tratamento da doença, e quando usada como terapia é mais efetiva quando administrada em seguida ao surgimento dos primeiros sintomas. Essa variação temporal de eficácia pode ser explicada porque no início da doença existem poucas cópias do vírus, e por isso é mais fácil neutralizá-lo, além disso é mais fácil de alterar a resposta inflamatória inicial do que quando a mesma já está exacerbada. A eficácia da terapia depende também da quantidade de anticorpos presente no plasma do doador, por isso os mesmos devem ser mensurados por testes específicos. No combate às infecções virais, reações imunológicas específicas e reações inespecíficas, como a imunidade mediada por células e fatores do sistema complemento, atuam mutuamente e cooperam entre si para induzir a proteção imunológica. Na transfusão de plasma convalescente, além dos anticorpos, outros fatores envolvidos nesse processo seriam transferidos, inclusive proteínas as quais o paciente crítico apresenta deficiência, como fatores de coagulação, o que pode também justificar os benefícios deste tratamento. Pensando em seu uso profilático, o uso do soro de pacientes convalescentes traria benefícios para quem tem um grande risco de adquirir a doença, como os grupos de risco, profissionais da saúde e indivíduos com contato com casos confirmados de COVID-19.

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Imagem 1. Bolsa de plasma de doador coleta em banco de sangue. Fonte: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

Os riscos do uso da terapia de imunização passiva são semelhantes ao de uma transfusão sanguínea qualquer, como a transmissão de outras doenças infecciosas, reações imunológicas e alérgicas. Contudo, os protocolos de triagem utilizados nos bancos de sangue modernos, garantem o mínimo risco desses acontecimentos, com triagem extensiva para doenças infectocontagiosas e vários testes de compatibilidade. Contudo, evidências do uso de soro convalescente em pacientes com SARS1 e MERS, e o uso em pacientes com COVID-19, sugere que a imunização passiva é segura, e que seus benefícios justificariam os riscos.

Os primeiros estudos conduzidos com o uso de plasma convalescente de doadores recuperados no tratamento de pacientes graves com COVID-19, foram realizados na China, com grupos pequenos de pacientes (4 – 5 pacientes). Apesar dos resultados positivos demonstrados (pacientes com melhora clínica e alta médica), como nos estudos de Shen e colaboradores, 2020 e Zhang e colaboradores, 2020,  são necessários estudos controlados, na forma de ensaios clínicos, com um número maior de pacientes para que haja uma evidência científica robusta e confiável. Mesmo iniciais, os bons resultados desses estudos incentivaram e permitiram que outros estudos maiores fossem conduzidos em diversos países. A China divulgou no dia 28 de março, em nota no Xinhua Net, Beijing, que 245 pacientes com COVID-19 foram tratados com plasma de doadores convalescentes, e que 91 mostraram melhora clínica significativa, e a Comissão Nacional de Saúde afirmou que mais 544 doses de plasma convalescente estavam sendo coletadas. No dia 26 de março, a entidade reguladora americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou o uso de plasma de pacientes convalescentes para pacientes críticos do COVID-19, sendo que ensaios clínicos já estão em andamento nos Estados Unidos.

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Imagem 2. Campanha do Banco de Sangue de Stanford, Califórnia, EUA. Fonte:  https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

 

O Banco de Sangue Central da Califórnia foi o primeiro hemocentro nos Estados Unidos a produzir plasma com redução de patógenos a partir de pacientes recuperados do Coronavírus, contando com voluntários doadores de plasma, bem como voluntários profissionais da saúde interessados em receber o plasma desses doadores de forma profilática. Iniciativa semelhante foi desenvolvida pelo Banco de Sangue de Stanford, onde voluntários recuperados do COVID-19 podem doar seu plasma para uso em pacientes críticos da doença. No Brasil, protocolos para avaliação desse tratamento estão sendo desenvolvidos no Hospital Albert Einstein, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, e noInstituto Estadual de Hematologia (Hemorio), entre outros centros de pesquisa que estão estruturando ou iniciando protocolos de pesquisa semelhantes.

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Imagem 3. Separação do plasma convalescente sendo realizada no HEMORIO. Fonte: ttps://www.ofluminense.com.br/saude/1610-ses-inicia-estudos-no-hemorio-para-uso-de-plasma-de-pacientes-curados-no-tratamento-de-infectados-por-coronavirus

Conforme avaliação crítica de Arturo Casadevall e Liise-anne Pirofski, publicada no The Journal of Clinical Investigation, para a implementação do uso dessa forma de terapia, são necessárias seis condições mínimas:

(1)    Doadores, que devem ser aptos à doação sanguínea, com COVID-19 confirmado e já recuperado;

(2)    Bancos de sangue, para realização das coletas dos doadores e transfusões, bem como toda a triagem do sangue;

(3)    Testes confirmatórios para o diagnóstico do COVID-19, pelo padrão ouro que é o RT-PCR;

(4)    Laboratório de virologia para realizar os testes, e avaliação da quantidade de anticorpos neutralizantes in vitro 

(5)    Protocolos de terapia e profilaxia;

(6)    Regulamentação e padronização dos protocolos, na forma de ensaios clínicos randomizados.

 

Tendo em vista o grande impacto da pandemia do COVID-19 sobre toda a humanidade, sua alta taxa de transmissão e o número de mortos que o vírus já causou, somada a ausência de tratamentos específicos torna-se de máxima relevância a investigação, com método científico rígido, de novas alternativas de tratamento. Assim,  o estudo do plasma convalescente é uma potencial esperança de tratamento, bem como permite o maior estudo desses anticorpos, de forma que podemos pensar em preparações mais purificadas e concentradas desses imunobiológicos mais para a frente. Para isso são necessários estudos científicos multicêntricos que permitam demonstrar a efetividade ou a falta da mesma para essa terapia.

A descoberta de um novo tratamento específico para o COVID-19 tem a capacidade de alterar o rumo dessa pandemia, no entanto, é preciso muito rigor científico para conduzir estes estudos. Enquanto não temos em mão os resultados e benefícios dessas terapias alternativas é importante manter as medidas de distanciamento social, o uso de máscaras caseiras na rua, e as medidas de higienização das mãos e etiqueta respiratória.

Referências:

Casadevall A., Pirofski L. The convalescent sera option for cointaining COVID-19. J Clin Invest. 2020. doi.org/10.1172/JCI138003

Central California Blood Center: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

China puts 245 COVID-19 patients on convalescent plasma therapy. News release. Xinhua. February 28, 2020. Acesso em 02/04/2020. http://www.xinhuanet.com/english/2020-02/28/c_138828177.htm.

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Hospital Albert Einstein: https://www.einstein.br/estrutura/banco-sangue/doacao-plasma-para-covid19

Roback J.D., Guarner J. convalescent plasma to treat COVID-19 Possibilities and Challenges. JAMA, 27 MArch, 2020.

Shen C., Wang Z., Zhao F., Yang Y., Li J. et al. Treatment of 5 critically ill patients with COVID-19 with convalescent plasma. JAMA, 27 March, 2020. doi:10.1001/jama.2020.4783

Stanford blood center: https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

Tanne JH. Covid-19: FDA approves use of convalescent plasma to treat critically ill patients. BMJ 2020;368:m1256 doi: 10.1136/bmj.m1256 (Published 26 March 2020)

Zhang B, Liu S, Tan T, Huang W, Dong Y, Chen L, Chen Q, Zhang L, ZhongQ, Zhang X, Zou Y, Zhang S, Treatment with convalescent plasma for critically ill patients with SARS-CoV-2 infection, CHEST (2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.chest.2020.03.039.

 

 

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Origem e transmissão: uma visão geral sobre a pandemia do COVID-19

Origem e o vírus 

Em dezembro de 2019, teve início o surto de pneumonia na cidade de Wuhan, na China, sendo os primeiros casos associados ao mercado de frutos do mar da cidade. Em pouco tempo, a doença se espalhou pela China, atingiu outros países, continentes, e tomou as proporções de uma pandemia, conforme decretado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020. No final de janeiro deste ano, a OMS  havia declarado que o novo Coronavírus era uma situação de emergência internacional, sendo um dos seis maiores problemas de saúde pública já registrados, entre eles o H1N1 (2009), a pólio (2014), o Ebola na África (2014), o Zika vírus (2016) e o surto de Ebola na República Democrática do Congo (2019). Este não é o primeiro surto, nem a primeira pandemia que a humanidade enfrenta, como exemplos históricos temos a peste negra, a gripe espanhola, e podemos aprender com as semelhanças desses episódios, como discutido no texto aqui do blog: “O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?”

O agente etiológico da pneumonia foi identificado como um novo β-coronavírus, um vírus envelopado de fita única de RNA, nomeado SARS-CoV-2, e a doença foi chamada de COVID-19. Os Coronavírus são divididos em 4 gêneros, α, β, γ e δ-CoV, sendo que α e β são capazes de infectar mamíferos, enquanto que os demais causam infecções em aves. Antes do surgimento do SARS-CoV2, já existiam 6 CoVs capazes de causar infecção em humanos, contudo 4 causam apenas infecções leves, do trato respiratório superior, com um resfriado normal. Contudo outros ꞵ-coronavírus também são agentes mais agressivos, sendo capazes de causar infecções graves e até mesmo fatais, sendo que em 2003 houve um surto de SARS1 (SARS-CoV-1),e em 2012 de MERS (MERS-Cov) (Síndrome Respiratória do Oriente médio). A MERS tornou-se endêmica no Oriente Médio e desencadeou um grande surto secundário em Coreia do Sul, com alta mortalidade e sem tratamento específico. 

Existem várias teorias a respeito do início da pandemia atual, do COVID-19, no entanto nenhuma confirmada até o momento. Às informações são muito recentes e têm se atualizado constantemente e com grande velocidade, devido a preocupação mundial com este vírus. Os primeiros casos relatados na China, tinham um foco em comum, o mercado de frutos do mar. No entanto, o vírus não é transmitido pelo consumo ou manuseio desses alimentos. Neste mercado também são vendidos, de forma ilegal, animais exóticos e silvestres para consumo, que poderiam também conter o vírus. Outros Coronavírus têm como hospedeiros intermediários morcegos, roedores e camelos. O vírus MERS passou para os humanos, através do contato com camelos, e acredita-se que de alguma forma o vírus SARS-CoV-2 possa estar relacionado ao morcego, ainda que o vínculo do início da infecção não seja claro até o momento. Isso porque a análise do genoma viral, bem como análises evolutivas e filogenéticas do SARS-CoV-2 mostram que a maior similaridade do vírus humano é com o vírus do morcego. O vírus apresenta 79% de similaridade com a família SARS-CoV, e mais de 95% de similaridade com o vírus CoV RaTG13 do morcego. Esses dados reforçam a ideia, de que de alguma forma, o morcego tenha tido um papel importante na transmissão do vírus para humanos, e no início dessa pandemia. 

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Imagem 1. Características e origem do Vírus SARS-CoV-2. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

Transmissão e diagnóstico

 O SARS-CoV-2 tem parado todo o mundo e atraído a atenção de todos, devido a sua altíssima transmissibilidade. Até o dia 05 de maio de 2020, segundo dados do Ministério da Saúde (covid.saude.gov.br), o Brasil registrou 107.780 casos confirmados, 7.321 óbitos e taxa de letalidade de 6,8%, sendo São Paulo o estado mais atingido, com mais de 30 mil casos confirmados. E estes números são ainda subestimados, devido a carência de testagens em massa na população brasileira e aos casos assintomáticos e leves. Estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, estima que o número real de casos seja até 4 vezes maior do que os confirmados.

A principal rota de transmissão se dá por contato de pessoas sadias com  gotículas expelidas do trato respiratório superior de pessoas infectadas, objetos e/ou superfícies contendo o vírus. A presença do vírus em amostras de soro, urina e fezes não permite que se descarte a possibilidade de outras vias de transmissão. No entanto, é no contato próximo com uma pessoa infectada, sintomática ou não, que está o maior risco de transmissão. Este contato próximo, como uma conversa com a pessoa infectada sem respeitar a distância mínima de 1 metro do outro, é o que permite que o vírus expelido  contamine outras pessoas ou os objetos à sua volta. A principal forma de prevenção é a lavagem de mãos frequentemente com água e sabão, uso de álcool gel (70%), e o distanciamento social. Às importâncias dessa medida são discutidas no texto aqui do blog: Achate a Curva! O que significa crescimento exponencial e o novo coronavírus 

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Imagem 2. Dicas de prevenção do Ministério da Saúde.

 O tempo médio da infecção até o aparecimento dos primeiros sintomas é de 5 dias, porém o vírus pode ficar incubado até 14 dias, sendo contagioso também nesse período. A maioria dos pacientes apresenta bom prognóstico, no entanto dados da população chinesa afetada demonstram que cerca de 18% dos infectados apresenta doença severa, e 3,5% de letalidade. Crianças podem ser importantes vetores da doença, pois a maioria não apresenta sintomas característicos, ou até mesmo nenhum sintoma, mas são transmissoras. A infecção nosocomial (dentro do ambiente hospitalar) também tem se mostrado um grave problema. Os casos entre profissionais da saúde correspondem a 3,8% do total, sendo de suma importância disponibilidade e uso dos EPI (equipamento de proteção individual) e EPC (equipamento de proteção coletiva) para o trabalho na linha de frente, garantindo a segurança de profissionais e pacientes.

Dentre os sintomas mais comuns estão febre, tosse, mal-estar, fadiga e dor de cabeça, alguns poucos pacientes apresentam sintomas do trato gastrointestinal, como vômito e diarreia. Estudo recente mostra também a presença do vírus causando conjuntivite. O sintoma que deve ser um alerta maior na observação desses pacientes é a dificuldade respiratória, pois está relacionada a forma mais severa da doença.

Os idosos (>65 anos) e pessoas com doenças crônicas (hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes, doenças cardiovasculares, imunossupressão) apresentam complicações com maior frequência e o quadro do COVID-19 tende a evoluir rapidamente nestes pacientes. As complicações incluem síndrome do desconforto respiratório agudo, choque séptico, acidose metabólica difícil de corrigir, disfunção da coagulação, e falência múltipla dos órgãos.

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Imagem 3. Características do hospedeiro que contribuem para a severidade da doença. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

O padrão-ouro para o diagnóstico é o PCR (reação em cadeia da polimerase) em tempo real de amostras respiratórias para detecção do material genético do vírus, confirmado por sequenciamento de nova geração, e você pode ler mais sobre isso aqui: Aplicação da Biologia Molecular no Diagnóstico da COVID-19Existem também testes sorológicos, que detectam a presença de anticorpos IgG e IgM contra o vírus. Os testes moleculares são mais sensíveis e específicos, já os testes sorológicos podem apresentar resultado negativo no período de até 7 dias após a infecção, devido a janela imunológica, ou seja, ainda não houve tempo suficiente para que o organismo produza anticorpos. Outras alterações laboratoriais refletem a resposta inflamatória do paciente, porém são pouco específicos. Testes para outros vírus respiratórios, como Influenza A e B, e o vírus Sincicial Respiratório, tem sua importância aumentada neste momento para diagnóstico diferencial e de exclusão.

 

Resposta imune e Opções terapêuticas

A resposta imune é de máxima importância para o controle e resolução da infecção. O SARS-CoV-2 infecta as células humanas pela ligação da proteína S viral ao receptor de angiotensina do tipo 2 (AT2), fusionando sua membrana as células e liberando o seu RNA. O RNA viral é reconhecido por receptores do tipo Toll como um fator estranho (padrão associado à patógenos), desencadeando então uma série de ações do sistema imunológico. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é a chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Drogas antivirais como inibidores da neuraminidase, ganciclovir, aciclovir e ribavirina e corticoesteróides não possuem ação no COVID-19 e não são recomendados. O fármaco antiviral remdesivir apresenta atividade frente a vírus de RNA, e foi eficaz no tratamento do primeiro caso de COVID-19. A cloroquina é um medicamento utilizado para o tratamento da malária e doenças autoimunes com potencial no tratamento do COVID-19, apesar do mecanismo de ação sobre o vírus ainda não ser conhecido. No entanto, alguns estudos já mostraram a ineficácia do tratamento e efeitos adversos graves , inclusive com risco aumentado de morte.  Na Coréia do Sul  e na China foi demonstrada a diminuição da carga viral com uso de lopinavir/ritonavir (Kaletra®) no tratamento de pacientes com COVID-19. Além disso, protocolos com combinação de práticas da medicina Chinesa tradicional e a medicina Ocidental demonstraram bons resultados no tratamento dos casos graves em relatos na China. Outra alternativa em estudo, é o uso do plasma de pacientes convalescentes (terapia de imunização passiva), pois o mesmo contém anticorpos neutralizantes específicos para o vírus.

Não há, até o momento, tratamentos específicos para o COVID-19, sendo o principal objetivo a correção sintomática, principalmente da insuficiência respiratória, sendo que muitos pacientes cursam com necessidade de ventilação mecânica. Isso reforça a necessidade de ensaios clínicos com novas drogas e combinações para o tratamento desses pacientes, permitindo o controle dessa pandemia.   Os cientistas de todo o mundo estão buscando diariamente as respostas para tantas perguntas que ainda temos sobre o SARS-Cov2 e o COVID-19. No entanto, enquanto não temos uma solução, a OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) recomendam a manutenção do isolamento social e a adoção de higiene respiratória para a população, para reduzir a exposição ao vírus, devido a ausência de vacinas, ou tratamento específico e o crescimento exponencial do número de casos. 

 

Referências:

Guo et al. Military Medical Research (2020) 7:11 https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0 The origin, transmission and clinical therapies on coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak – an update on the status

 Huilan Tu ,   Sheng Tu ,   Shiqi Gao ,   Anwen Shao ,   Jifang Sheng ,  The epidemiological and clinical features of COVID-19 and lessons from this global infectious public health event, Journal of Infection(2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.jinf.2020.04.011

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/04/15/universidade-de-pelotas-faz-pesquisa-sobre-a-propagacao-do-coronavirus-no-pais.ghtml

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Gao Y, Li T, Han M, Li X, Wu D. et al. Diagnostic Utility of Clinical Laboratory Data Determinations for Patients with the Severe COVID-19.J Med Virol, March 17 2020. doi: 10.1002/jmv.25770.