0

Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo

Alguns microrganismos, além de patógenos, também podem ser usados como armas, e podem causar grandes estragos.  Bioterrorismo é como chamamos a liberação proposital de agentes biológicos, como vírus e bactérias capazes de causar doenças. O patógeno utilizado no Bioterrorismo é chamado de Arma Biológica.

B1      Símbolo de Risco Biológico, muito associado ao Bioterrorismo, mas também é visto nos materias e descartes de resíduos com risco biológico, como amostras de sangue, culturas de microrganismos, entre outros.

Armas biológicas se baseiam no uso de microrganismos, um recurso de fácil obtenção e reprodução, já que existem diversas formas de se produzir bactérias e vírus em grande quantidade. Além disso, com o avanço da Biotecnologia e da Engenharia Genética, novas formas de disseminação mais eficazes são possíveis. As armas biológicas tem um custo menor do que armas nucleares ou químicas, por exemplo, porém é preciso grande aporte tecnológico para o seu controle. Ou seja, talvez seja mais fácil reproduzir bactérias, mas é mais difícil dizer a elas qual é exatamente o seu alvo! O risco de fugirem do controle e atacarem tanto inimigos quanto aliados é muito grande, por isso várias convenções políticas já tentaram proibir o seu uso para sempre…

Mas, essas armas sempre foram de grande interesse para alguns países, como Estados Unidos, Rússia, Japão e Coréia do Norte, devido ao seu grande potencial de dano. Podem causar milhares de mortes, debilitação e incapacitação, e espalham, além de doenças, o PÂNICO!

B2

Soldados vestidos com proteção contra armas biológicas durante a 2° Guerra Mundial.

Não é qualquer microrganismo que pode ser usado com fins bélicos. Um microrganismo patogênico é considerado uma potencial arma biológica, quando:
1) Causa doença grave;
2) A dose necessária para o efeito é baixa
3) Período de incubação curto
4) População não tem imunidade
5) Tratamento difícil
6) Disseminação fácil (água, ar)
7) Produção fácil em grandes quantidades
8) Estável quando estocado.

Alguns dos patógenos que se encaixam nessas características, são a bactéria conhecida como Antraz, a bactéria Yersinia pestis (agente da peste negra), e vírus hemorrágicos como Ebola e Marboug, e outros como a Varíola.
A história mundial já nos deu algumas amostras do que esse tipo de arma pode fazer. Em 2001 e 2002, nos Estados Unidos, algumas figuras importantes receberam pelo correio, envelopes contendo esporos de Antraz, o Bacillus anthracis, que causa grave doença respiratória, e se não tratada rapidamente, leva à morte em quase 100% dos casos, além disso, o diagnóstico preciso é difícil.  O Antraz continua sendo uma preocupação, ainda mais com a situação muito complicada da Coréia do Norte, uma potência bélica que tem feito muitas ameaças à paz mundial. O país nega estar produzindo armas biológicas, mas…
Melhor prevenir, e com esse pensamento a Coréia do Sul, vizinha e apavorada, desenvolveu uma mistura de microscopia com inteligência artificial, capaz de detectar com 96% de precisão o bacilo do Antraz. A detecção se baseia na obtenção de fotomicrografias que são analisadas por microscopia eletrônica de transmissão (MET), que tem um aumento inicial de 20.000 vezes, permitindo a identificação de esporos e partículas virais. Essa tecnologia pode ser acoplada à câmeras digitais, por exemplo, onde já irão fazer o rastreio dessas possíveis armas.

 

B3

Esquema ilustrativo do CDC sobre o Antraz e sua disseminação.

Na 2° Guerra Mundial o Japão liberou uma chuva de pulgas sobre a China. Como assim? Isso mesmo, com aviões, o Japão pulverizou pulgas sobre o inimigo, mas não eram quaisquer pulgas, os animais estavam contaminados com a Yersinia pestis, bactéria causadora da Peste Negra ou Peste bubônica, que assolou a Europa nos anos 1300, matando cerca de 200 milhões de pessoas, aproximadamente um terço da população total da Europa. Hoje esse número representaria a população inteira do nosso país!!!
A peste é altamente contagiosa e afeta também animais, roedores tornam-se o reservatório da doença, e a pulga do rato o principal agente transmissor. A peste não tem tratamento, de forma que só sobreviveu à ela quem tinha imunidade. A probabilidade da disseminação proposital desse patógeno causar uma catástrofe de proporções inimagináveis é muito grande. Não acho que deveríamos brincar com essa bactéria, não é mesmo? Na idade média, cadáveres de pessoas com a Peste eram jogados em rios e poços, com intuito de contaminar o suprimento de água dos inimigos, já demonstrando conhecimento do potencial disseminador desse microrganismo.

B4

I Medici della Peste – Litografia que retrata os médicos da peste. Apesar do aspecto assustador da máscara utilizada, que ficou associada à morte, a ideia era diminuir o contato com os pacientes contaminados.

Conscientemente ou não (há divergências) os colonizadores europeus trouxeram para a América a Varíola, que dizimou os povos indígenas da América Latina. Não existia essa doença na América, e por isso os indígenas não tinham imunidade e sofreram muito. Os colonizadores davam aos indígenas roupas dos doentes, e como a doença é altamente contagiosa, causou muitos estragos. Para quem ficou curioso sobre o tema, veja esse texto muito interessante sobre a varíola no Brasil Colonial .

A Varíola foi erradicada em 1980 com o uso da vacina. Atualmente, existem apenas dois laboratórios que possuem espécimes da Varíola, um nos Estados Unidos e outro na Rússia. Irônico não é? Deve ser para manter equilibrada a balança mundial…

Pensou-se em destruir todas as cepas, mas sempre fica aquele medo, se a doença retornar, como iremos estudá-la? E assim continua-se preservando o vírus em laboratórios de altíssima segurança.

Outros vírus, como Ebola e Marboug também são altamente contagiosos e letais, causam infecções com febre e hemorragia e não possuem cura. Até os cadáveres são contagiosos.

O C.D.C (Center for Control and Prevention of Diseases) classifica todos os agentes quanto ao seu risco individual e de disseminação para a comunidade, o que implica também em seu potencial para o bioterrorismo. O Antraz é considerado um agente de risco A, bem como vírus que causam febres hemorrágicas. Os organismos classificados como risco A possuem alto risco de contaminação individual e alto risco de disseminação para comunidade, sendo responsáveis por doenças graves.

Apesar de possível e alarmante, ataques bioterroristas precisam de uma logística complicada, de forma que bombas ainda são bem mais efetivas.

Mas o que podemos fazer para prevenir um ataque biológico? Investimento em:
– Diagnóstico clínico e laboratorial rápido e preciso
– Tratamentos e novos antibióticos
– Novas vacinas

Quanto mais se entender a respeito desses microrganismos, mais seguros estaremos.

ALERTA DE SPOILER: Mas essas ideias continuam mexendo com o imaginário de muita gente. Dan Brown, o célebre escritor de Código da Vinci, nos presentou com o livro O Inferno, onde os mocinhos lutam contra um ataque bioterrorista. Mas, o objetivo desse ataque não é a guerra, e sim o controle do crescimento populacional. Já falei demais…

B5

 

Referências:

Barth, Ortrud Monika, Bioterrorismo e microrganismos patogênicos História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 20, núm. 4, octubre-diciembre, 2013, pp. 1735-1749, Fundação Oswaldo Cruz
Rio de Janeiro, Brasil

Cross AR, Baldwin VM, Roy S, Essex-Lopresti AE, Prior JL, Harmer NJ. Zoonoses under our noses. Microbes Infect. 2018 Jun 18. pii: S1286-4579(18)30125-4. doi: 10.1016/j.micinf.2018.06.001. [Epub ahead of print]

Anúncios
0

Mudanças climáticas potencializam a resistência a antibióticos

Que a resistência a antibióticos é uma questão preocupante, muita gente sabe. O tema vem sendo cada vez mais debatido em cúpulas de altas negociações e entre governos. No ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) deu atenção especial à questão em sua 72ª Assembleia na sede da Organização, em Nova York. Afinal, um problema que causa a morte de 700 mil pessoas por ano atualmente – e pode matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050, superando todos os tipos de câncer e diabetes – é um problema que não pode ser ignorado.

Especialistas e formuladores de políticas públicas estão alarmados e alertam para o uso indiscriminado de antibióticos em pessoas e animais. Em muitos lugares, antibióticos são vendidos sem receita, as pessoas não seguem o tratamento até o fim ou mesmo fazem uso desse tipo de medicamento para tratar infecções de causa viral, como a gripe. Some-se isso ao ritmo lento no desenvolvimento de novos medicamentos de maior eficácia no tratamento de infecções bacterianas, a resistência de bactérias a antibióticos só piora. Há quem tema que a medicina sofra um “retorno à idade das trevas”, quando infecções simples matavam.

O que muita gente não deve saber, no entanto, é que as mudanças climáticas têm um papel importante na disseminação da resistência bacteriana a antibióticos. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change indica que, quanto maior o aumento da temperatura, maior a incidência de infecções resistentes a tratamentos com antibióticos.

Klebsiella_pneumoniae_NIAID

Klebsiella pneumoniae. Imagem: NIAID

Os líderes do estudo, Derek MacFadden e Sarah McGough, pesquisadores da Harvard Chan School of Public Health, constataram, junto com seus colegas, que uma mudança de 10ºC na temperatura aumentaria a resistência da Escerichia coli, causadora de infecções urinárias, em 4,2%; sob as mesmas condições, a resistência da Klebsiella pneumoniae, causadora de pneumonia, aumentaria em 2,2%; e a Staphylococcus aureus, responsável por doenças como a meningite, aumentaria sua resistência a antibióticos em 2,7%.

A pesquisa teve como amostra os Estados Unidos e levou em conta padrões de resistência bacteriana registrados em uma extensa base de dados com índices de resistência por antibiótico e por bactéria entre 2013 e 2015. Os dados foram recolhidos de hospitais, laboratórios e unidades de observação em todo o país e foram cruzados com taxa de prescrição de antibióticos por região e também com a densidade populacional de diferentes regiões dos EUA. Para analisar a relação com o clima, os pesquisadores usaram uma série histórica de variação de temperatura que ia de 1980 a 2010 em todas as regiões dos EUA.

Os pesquisadores perceberam, também, que nos estados do sul do país – com temperatura mais alta que os do norte em razão da latitude onde estão – a prescrição de antibióticos era, em geral, maior que nos estados mais ao norte. Isso faz sentido quando se pensa que temperaturas mais altas facilitam a transferência de genes de resistência a antibióticos, que é uma das hipóteses que o estudo levanta. A questão é que uma maior prescrição de remédios coincidiu com mais resistência a tratamentos para as três bactérias analisadas.

O que acontece nos Estados Unidos possivelmente se repete com uma frequência muito maior em países em desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, há uma preocupação muito grande com a prescrição indiscriminada de antibióticos e o uso incorreto deles, que é algo bastante comum por lá.

Se a relação entre mudanças climáticas e resistência bacteriana for confirmada por mais estudos, podemos estar diante de um desafio imenso – que não vai poupar nenhum continente. Além disso, este é um problema que pode possivelmente bater com mais força nos países em desenvolvimento, que estão em sua maioria próximos à linha do Equador e é onde os efeitos das mudanças climáticas vão ser sentidos com mais intensidade.

A questão é que precisamos falar mais sobre a resistência bacteriana a antibióticos. Num mundo em que as mudanças climáticas são uma questão incontornável agora – e mais ainda em um futuro próximo – precisamos ter em mente que tudo vai ser alterado pelo clima. Bactérias de hospitais e nos alimentos que consumimos, inclusive. Para não sermos pegos de surpresa, precisamos começar a conversar mais seriamente sobre este problema – problemão – nas nossas casas e com nossos conhecidos. A comunidade médica precisa ser mais criteriosa em prescrever medicamentos – é preciso parar de receitar antibióticos para qualquer diagnóstico de “virose”. Muita gente toma antibiótico porque o médico diz que é para tomar.

Precisamos exigir menos uso de antibióticos na agricultura e parar de usar esse tipo de medicamento para tratar gripe. Quem sabe uma ação coletiva coordenada pegaria as bactérias de surpresa, mesmo ajudadas pelas mudanças climáticas?

Saiba mais

MacFadden et al. Antibiotic resistance increases with local temperature. Nature Climate Change, 21 de maio de 2018

Antibiotic Resistance. World Health Organization, 5 de fevereiro de 2018

A “epidemia” que matará mais gente do que o câncer (se não for evitada). El País Brasil, 22 de setembro de 2017

Por que o mau uso dos antibióticos é uma ameaça para a saúde de toda a população. Gaúcha ZH, 29 de julho de 2016

Superbactérias avançam no Brasil e levam autoridades de saúde a correr contra o tempo. BBC Brasil, 11 de julho de 2017

Plano de combate à resistência a antibióticos deve ser concluído em 2018. O Globo, 11 de novembro de 2017

0

A era da edição de genes humanos para curar doenças começou

Até a década de 1990, pessoas que sofriam de doenças genéticas não tinham expectativa real de cura. Nesta década, no entanto, cientistas começaram a desenvolver maneiras de se remover seletivamente genes de interesse do genoma de camundongos. A esperança de que no futuro a edição de genes fosse possível em seres humanos começou a ser alimentada. No século XXI, esta esperança se converteu em realidade e os responsáveis pelo desenvolvimento dos primórdios da edição de genes foram reconhecidos com o prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina (https://www.jax.org/news-and-insights/jax-blog/2014/march/pros-and-cons-of-znfs-talens-and-crispr-cas). Em novembro do ano passado, vários sites noticiaram a pioneira e inovadora tentativa de edição de genes em seres humanos: Brian Madeux, de 44 anos, que sofre com a síndrome de Hunter, foi o primeiro ser humano a receber em seu organismo ferramentas de edição de genes visando sua cura (http://www.sciencemag.org/news/2017/11/human-has-been-injected-gene-editing-tools-cure-his-disabling-disease-here-s-what-you).

A síndrome de Hunter

A síndrome de Hunter é uma doença genética, o que significa que sua causa encontra-se em alterações no DNA dos pacientes. É também conhecida como mucopolissacaridose tipo II, pois a alteração no DNA prejudica a geração de proteína essencial (a iduronato-2-sulfatase) para o correto processamento de mucopolissacarídeos ou glicosaminoglicanos nas células. Estas substâncias então se acumulam nos lisossomos celulares causando comprometimentos graves ao paciente, como aumento do volume da cabeça e do abdômen, declínio de função cardíaca e atrasos no desenvolvimento. Quanto mais acúmulo de mucopolissacarídeos mal processados, mais evidentes e graves se tornam os sinais da síndrome (http://www.vidasraras.org.br/site/sindromes-raras/mucopolissacaridoses/mps-ii/367-mps-tipo-ii-o-que-e-a-sindrome-de-hunter).

No caso desta doença as alterações no DNA existem em diferentes versões e em diferentes regiões do gene da iduronato-2-sulfatase, localizado no cromossomo X (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1914889/). Alguns locais são mais comumente atingidos por estas alterações, sendo chamados de pontos quentes ou “hot spots” em inglês. O que estas alterações possuem em comum, no entanto, é impedirem a formação da versão correta desta proteína, essencial para o correto processamento dos mucopolissacarídeos e consequentemente o normal funcionamento celular.

As ferramentas mais comuns de edição de genes

As três mais famosas ferramentas que permitem a edição de genes são as nucleases dedos de zinco (ZFN), as nucleases TALE (TALEN) e o sistema CRISPR/Cas (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0734975017300617?via%3Dihub) (Figura 1). Estas possuem a capacidade de produzir quebra nas duas fitas do DNA no local para o qual foram destinadas pelo manipulador.

TALEN e ZFN trabalham em dímeros (duas unidades idênticas) e cada unidade contém uma região da proteína nuclease capaz de fazer o corte, derivado de uma outra proteína: a enzima de restrição FokI. Cada unidade possui ainda uma outra porção que faz o reconhecimento do local do DNA no qual o corte deve ser provocado.

Nas TALEN (Figura 1), esta porção de reconhecimento foi descoberta em patógenos de plantas e consiste em repetições (10 a 30 vezes) de aproximadamente 35 aminoácidos e 2 aminoácidos conferindo especificidade ao sistema (http://science.sciencemag.org/content/333/6051/1843.long). As versões comerciais mais comuns reconhecem e se ligam a um sítio de aproximadamente 18 pares de base no DNA alvo (https://www.jci.org/articles/view/72992).

Nas ZFN (Figura 1), o reconhecimento é de cerca de 3 ou 4 trincas de bases no DNA alvo para o corte no local desejado (https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0734-9750(14)00193-1). Das três ferramentas aqui abordadas foi a primeira a ser usada pelos cientistas para edição dirigida de genes .

No sistema CRISPR/Cas (Figura 1) (inspirado em mecanismo de defesa bacteriano), Cas é a nuclease responsável pela quebra de fita dupla no DNA (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/05/11/entenda-a-nova-arma-da-engenharia-genetica-crisprcas9-e-a-polemica-envolvida/). No entanto, neste caso faz-se necessária a utilização de uma molécula de RNA, o RNA guia (gRNA), para o correto posicionamento da proteína. O reconhecimento do DNA alvo se dá por 18 a 20 nucleotídeos (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3712628/).

Para corrigir uma região de DNA responsável por causar doenças, é possível se utilizar estas ferramentas. Basta dirigir o corte para a região com erro e fornecer, juntamente do sistema de edição sítio-dirigida de genes, o trecho de DNA com sequência correta e braços de homologia nas duas extremidades. As sequências com homologia para a região de corte orientam a inserção do trecho de DNA com gene correto no local do corte. Assim, o DNA antes com o trecho incorreto ocasionando doença, contém agora a versão correta. No caso da doença de Hunter, seria a versão correta do gene da proteína iduronato-2-sulfatase, possibilitando às células depois da terapia, realizar o processamento correto dos mucopolissacarídeos.

Imagem 1

Figura 1: Ferramentas de edição sítio-dirigida de genes. (A) ZFN (domínio FokI em rosa e domínio endonuclease –de corte- em azul). B. TALEN (domínio FokI em rosa e domínio endonuclease –de corte- em verde). (C) CRISPR/Cas (gRNA em amarelo e nucleaseCas em vermelho); modificado de https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0734975017300617?via%3Dihub.

Primeira tentativa de edição genômica em seres humanos (in vivo) (https://apnews.com/4ae98919b52e43d8a8960e0e260feb0a/AP-Exclusive:-US-scientists-try-1st-gene-editing-in-the-body)

Em Novembro de 2017, na Califórnia-Estados Unidos, o paciente Brian Madeux recebeu por via intravenosa várias cópias da versão correta do gene da iduronato-2-sulfatase e de sequência codificadora de ZNFs visando eliminar de seu DNA o fator causador da Síndrome de Hunter.

O gene e duas versões de sequência codificadora de ZFN (visando garantir o corte o mais específico possível no DNA alvo) foram entregues em veia do paciente dentro de partículas virais (veículos para condução desta informação ao interior das células do paciente).

O órgão alvo foi o fígado e, segundo os especialistas envolvidos no experimento, apenas 1% das células sendo corrigidas em seu DNA já seria suficiente para o paciente apresentar melhora do quadro.

O protocolo foi aprovado nos Estados Unidos pelo NIH (National Institutes of Health) e realizado sob supervisão do médico responsável Paul Harmatz no hospital Oakland.

Na data de realização do procedimento a equipe médica divulgou que o paciente seria novamente avaliado em fevereiro de 2018, 3 meses após o procedimento, a fim de se verificar o resultado final de sucesso ou fracasso da estratégia.

O maior risco de fracasso para a empreitada seria a inserção do gene corrigido em local não desejado, prejudicando assim a função de outros genes e podendo ocasionar outras doenças como alguns tipos de câncer.

No entanto o procedimento foi bem sucedido em seu propósito (https://nypost.com/2018/02/06/scientists-see-positive-results-from-1st-ever-gene-editing-therapy/), proporcionando revolução no campo da terapia gênica visando cura de doenças genéticas em seres humanos.

Brian Madeux sentiu fraqueza e tontura quatro dias após a terapia, mas os sintomas só persistiram por 24 horas. Seu fígado não apresentou sinais de lesão, resultado almejado pelos médicos. Até o presente momento não há indícios de que a terapia apresente riscos no que tange segurança para uso em humanos.

Um novo paciente com a mesma síndrome já foi submetido ao tratamento e a equipe médica declarou em conferência que ambos passam bem. Novos protocolos serão desenvolvidos assim como novos mecanismos para garantir a segurança da técnica. Já existe projeto, por exemplo, de teste do protocolo para outras doenças, como a hemofilia.

Assim sendo, nos encontramos oficialmente na era da edição de genes humanos para curar de doenças.

 

0

Comunicação em saúde pública

Segundo a União Internacional de Telecomunicações (International Telecommunication Union – ITU), cerca de 48% da população mundial tem acesso à internet . A estimativa é que a proporção de casas com acesso à internet seja de 53% em todo o mundo (ITU, 2017). A mesma agência constatou que a assinatura de internet em celulares cresceu 20% nos últimos cinco anos e estimou que atingiria 4.3 bilhões de assinaturas no final de 2017.

A relação dos seres humanos com os seus celulares é de tanta dependência que até doenças relacionadas a esse comportamento estão começando a ser descritas, como é o exemplo de “WhatsAppitis, um tipo de tendinite diagnosticada após uma mulher apresentar fortes dores nos pulsos após passar 6 horas seguidas segurando seu celular e digitando mensagens usando os polegares.

grafico-release2

Fonte: IBGE

No Brasil, aproximadamente 65%  da população (116 milhões de pessoas) tem acesso a internet e, destes, mais de 95% acessa a rede pelo celular. Esse fenômeno torna o celular a ferramenta perfeita para todo o tipo de pesquisa, principalmente, pesquisas sobre saúde. Em uma pesquisa realizada pela London School of Economics, entre os brasileiros, 68% consultam a internet sobre medicamentos, 45% sobre hospitais e 41% para conhecimento sobre experiências de outros pacientes.

Um grande problema sobre o acesso a informações de saúde pela internet é a disseminação de notícias falsas, pois qualquer pessoa pode publicar o que quiser na internet. Estudos realizados após a crise do Ebola na África, concluíram que tuítes com informações falsas sobre a doença foram mais retuítados do que os contendo informações verdadeiras. As redes sociais, assim como SMS e WhatsApp, também ajudam muito a disseminar notícias falsas sobre tratamentos de doenças, vacinas e outras questões relativas à saúde.

Devido às mudanças no comportamento da população em pesquisar sobre doenças, as organizações de saúde estão entrando cada vez mais nas redes sociais. Hospitais, profissionais e autoridades em saúde estão abrindo contas no YouTube, Facebook e Twitter para atingirem uma maior parte da população.

Considerando a grande demanda de pessoas interessadas em sua saúde e a imensa quantidade de notícias falsas, é muito importante que as agências e organizações de saúde contratem profissionais capacitados e com experiência nos campos da saúde e comunicação para cuidar de suas redes sociais e outros veículos de informação. Estes profissionais são os chamados Comunicadores de Saúde (Health Communicator). A comunicação em saúde é uma área nova que tem ganhado bastante atenção, em parte por sua ênfase em combinar teoria e prática em entender processos da comunicação e mudança do comportamento humano.

2014-03-healthcare_0

Para a promoção de saúde, algumas campanhas estão usando a disseminação de informação por meio de mensagens de texto, principalmente em áreas rurais, nas quais esse pode ser o único canal de informação do público. Como exemplo, o projeto Masiluleke na África do Sul enviou milhões de mensagens de texto por dia para encorajar as pessoas a fazerem o teste para HIV/AIDS. As mensagens foram enviadas em língua local e provia informações sobre os locais de realização dos testes. Enquanto outros meios de comunicação como rádio, televisão e sites também são implementados nos serviços de educação em saúde pública, o SMS tem diversas vantagens, bom custo-benefício, é conveniente, pode atingir mais pessoas e é muito popular em países em desenvolvimento.

A comunicação em saúde tem muito o que contribuir com o conhecimento da população mundial em momentos de surtos de doenças e desastres naturais, principalmente nos países em desenvolvimento. Essa abordagem é pertinente neste momento em que muitas das ameaças para a saúde pública global estão enraizadas no comportamento humano. Os comunicadores em saúde têm uma oportunidade única em melhorar e salvar a vida de diversas pessoas.

Referências

Kahn, James G., Joshua S. Yang, and James S. Kahn. “‘Mobile’ health needs and opportunities in developing countries.” Health Affairs 29.2 (2010): 252-258.

Fernandez-Guerrero, Inés M. “WhatsAppitis.” The Lancet 383.9922 (2014): 1040.

Fernández-Luque, Luis, and Teresa Bau. “Health and social media: perfect storm of information.” Healthcare informatics research 21.2 (2015): 67-73.

Vital Wave Consulting. The opportunity of mobile technology for healthcare in the developing world. Washington (DC) and Berkshire (UK): UN Foundation–Vodafone

http://www.who.int/bulletin/volumes/87/4/08-056713/en/

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20073-pnad-continua-tic-2016-94-2-das-pessoas-que-utilizaram-a-internet-o-fizeram-para-trocar-mensagens.html

https://www.gazetadopovo.com.br/saude/80-usam-internet-para-fazer-buscas-sobre-saude-dukyya76lkzf6ggxpwkvmz4ge

0

Controle de natalidade em animais: o que é natural quando o assunto é concepção?

No último mês, acompanhamos o referendo irlandês que escolheu revogar a emenda constitucional que criminalizava o aborto no país. Esse é mais um dos resultados do movimento de consolidação das conquistas feministas em todo o mundo. No Brasil, a discussão sobre a legalização do aborto é complexa e considera questões religiosas, políticas e de saúde pública (vale a pena ler um dos textos recentes aqui do blog sobre isso).

Argumentos muito frequentes em relação à concepção, ao corpo da mulher e às suas escolhas são pautados na naturalidade deste processo. Em outras palavras, como nosso corpo seria designado a desempenhar o papel materno, não caberia à mulher a escolha de interromper ou, muitas vezes, evitar a concepção.

Felizmente, a tão falada natureza ensina repetidas vezes que o “natural” está bem longe das nossas expectativas. Desde a descoberta de que muitos dos casais de passarinhos não são exclusivamente monogâmicos como pensávamos, até as incontáveis interações de cunho sexual entre indivíduos do mesmo sexo no reino animal – só citando alguns exemplos -, tudo parece dissolver o argumento da naturalidade de certos comportamentos humanos.

Para contribuir com este processo de queda de afirmações “naturalistas”, trago alguns exemplos menos estudados, porém muito interessantes, de animais que usam substâncias da natureza para, possivelmente, controlar a reprodução.

microtus

Microtus montanus. Foto por Roger W. Barbour – Smithsonian Natural History

O primeiro exemplo é das fêmeas de roedores da espécie Microtus montanus observadas por Berger e colaboradores na década de 1970 [1]. Esses animais foram observados consumindo uma grande quantidade de plantas que contêm fitoestrógenos, sempre coincidindo com o fim do seu período reprodutivo. Fitoestrógenos são substâncias capazes de alterar as vias de regulação do estrógeno no corpo de mamíferos. Consumidas em grande quantidade, estas substâncias inibem características relacionadas à reprodução.  

No caso, as fêmeas de roedores exibiam um menor peso uterino e inibição do desenvolvimento folicular, além de encerrar atividades relacionadas ao acasalamento. É importante pontuar que a interrupção do seu período reprodutivo estava em consonância com a diminuição da disponibilidade de recursos de alta qualidade, no fim da época de frutificação dos alimentos consumidos por estes animais.

33387000911_b5b72c3be1_o

Perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Foto por Nikita (Flickr).

Ainda mais interessante é dos perdizes-da-califórnia (Callipepla californica). Em momentos de grande escassez de recursos, as fêmeas desta espécie de ave consomem plantas com os mesmos fitoestrógenos que inibem características do período reprodutivo [2]. Como não seria possível o desenvolvimento ótimo dos filhotes neste longo período, quase nenhuma prole é produzida na população. Quando a situação volta a ser positiva, relacionada principalmente a um aumento no índice de chuvas e na disponibilidade de alimento, aquele composto deixa de ser consumido e as fêmeas voltam a reproduzir normalmente.

E não parece que estes resultados são isolados, presentes em apenas algumas espécies. Primatas também parecem usar o mesmo tipo de substâncias, com resultados similares. Glander [3] sugeriu que macacos bugios costarriquenhos (Alouatta palliata) estavam consumindo certas espécies de plantas para afetar seu período reprodutivo. Posteriormente, até a sazonalidade reprodutiva de chimpanzés (Pan troglodytes) da Tanzânia, foi relacionada com variações anuais de precipitação e a composição de sua dieta, com possível mediação por fitoestrógenos [4].

Estes exemplos indicam que a concepção, apesar de central para as espécies animais, pode não ser considerada prioritária em determinadas situações ou períodos. A possibilidade das fêmeas reconhecerem estes momentos e regularem seu ciclo reprodutivo, muitas vezes resultando em um controle de natalidade da população, pode ser fundamental para garantir o bem-estar e sobrevivência daqueles indivíduos.

Com absoluta certeza, os casos descritos não se assemelham nem de longe ao casos de milhões de mulheres que hoje precisam aprender a lidar com a complexidade de seus corpos e as escolhas que desejam fazer para si mesmas quanto à concepção. Mesmo assim, nos ajudam a desmistificar o que se convencionou chamar de natural, comum ou normal quando o assunto são estas escolhas. É sempre importante pensar no que elas significam para nós e em que contexto elas são aplicadas, da mesma forma que olhamos para o não tão distante “mundo natural”.

Referências:

[1] Berger, P., E. Sanders, P. Gardner, and N. Negus. 1977. Phenolic plant compounds functioning as reproductive inhibitors in Microtus montanus. Science 195: 575-577.

[2] Leopold, A., M. Erwin, J. Oh, and B. Browning. 1976. Phytoestrogens: Adverse effects on reproduction in California quail. Science 191: 98-100.

[3] Glander, K. 1980. Reproduction and population growth in free-ranging mantled howling monkeys. American Journal of Physical Anthropology 53: 25-36.

[4] Wallis, J. 1997. A survey of reproductive parameters in the free-ranging chimpanzees of Gombe National Park. Journal of Reproduction and Fertility 109: 297-307.

 

0

Cérebro e intestino: parceria inseparável

A relação entre nosso cérebro e nosso intestino tem sido estudada já faz algum tempo. Diversas publicações ao longo dos anos 2000 sobre “o segundo cérebro” popularizaram a informação de que nosso intestino tem funções muito mais abrangentes do que apenas absorver nutrientes. A neurociência, mais recentemente, reconheceu o papel da microbiota intestinal  com o sistema nervoso central e doenças como Alzheimer, bem como já documentou que o estresse muda a composição dessa microbiota e essa mudança pode afetar nosso comportamento frente às diferentes situações(1).

Primariamente, as bactérias da microbiota intestinal se beneficiam do ambiente muito nutritivo do intestino humano e em troca, beneficiam o indivíduo tornando alguns nutrientes que não seriam digeridos, disponíveis para o organismo humano. Também combatem o acesso a bactérias patogênicas e modulam nossa função neuronal de forma direta e indireta. A ciência descreve que o intestino e o cérebro se comunicam por rede de neurotransmissores, e mais recentemente mostrou que as vitaminas e alguns compostos chamados metabólitos microbiais neuroativos são capazes de afetar a função neuronal direta e indiretamente. A microbiota pode ainda afetar a resposta inflamatória e mandar sinais para o cérebro, ativando neurônios sensoriais e vias relacionadas ao sistema imune e endócrino. Estudos em animais já mostraram inclusive que camundongos com diferentes graus de ansiedade podem ter seu comportamento alterado pela microbiota por alterar a química cerebral, com resultados semelhantes em estudo de quadros de depressão(2).

 

m_nuy009f1

Esquema mostrando a relação entre cérebro e intestino: a parte superior do trato gastrointestinal (TGI), mostrada em amarelo, inclui o esôfago e o estômago. O intestino delgado (duodeno, jejuno, íleo) é mostrado em azul claro; o intestino grosso (ceco e cólon ascendente, transverso e descendente) é mostrado em verde. As interações entre o TGI e o sistema nervoso autônomo e central são indicadas por linhas vermelhas. As setas azuis bidirecionais curtas indicam aferências e eferências. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) é mostrado em amarelo escuro. A legenda mostra os tipos de células nervosas (glias entéricas e neurônios entéricos em vermelho), sistema endócrino em verde, músculo liso em marrom e as bactérias que colonizam o intestino em branco (2).

Uma das formas de modular a composição da microbiota é por meio do uso de probióticos. Esses probióticos são microorganismos vivos selecionados e administrados em quantidade adequada que exercem efeito benéfico sobre a saúde humana. Os famosos leites fermentados são a maneira mais popular de consumir esses probióticos, entretanto, a quantidade de microorganismos presentes nesses produtos são questionáveis. A forma mais segura para o consumo desses microorganismos é a forma manipulada ou adquirida pronta em farmácias. O interessante do uso potencial desses microorganismos é a possibilidade de  tratar desordens como doença de Parkinson, Alzheimer, autismo e transtornos de hiperatividade e déficit de atenção, foco dos estudos mais atuais(2). A maior parte dos estudos realizados empregaram modelos animais e apontam que os efeitos variam de acordo com o tipo de probiótico e com qual parte do cérebro esse microorganismo interage. Em humanos, o número de estudos ainda é muito reduzido, entretanto descrevem que houve redução de sintomas de ansiedade e humor nos indivíduos que consumiram os probióticos(2).

Neste contexto, surge uma questão: e o que comemos, é capaz de influenciar nossa microbiota? A resposta é SIM. O tipo de alimentação é um importante fator de influência sobre a microbiota intestinal. Por exemplo, o consumo de alimentos predominantemente de origem animal ou de origem vegetal por curtos períodos é capaz de alterar rapidamente a estrutura das bactérias(1). Um exemplo bem expressivo é a diferença entre bebês alimentados com fórmula e alimentados no peito, já discutido aqui no blog . Além dos nutrientes, nossa alimentação é capaz de fornecer combustível específico para as bactérias boas, conhecido como prebióticos. Além das vitaminas, minerais e fibras dos alimentos vegetais que devem compor o padrão alimentar saudável já bem conhecido, alimentos como sementes e raízes de alguns vegetais como o Yacon, chicória, cebola, alho, alcachofra, aspargo, cevada, centeio, grãos de soja e grão-de-bico fornecem esse combustível valioso para a saúde do primeiro e do segundo cérebro. Vamos começar? Assim garantimos a boa saúde “mental”.
Referências:

  1. Mayer EA, Knight R, Mazmanian SK, et al. Gut microbes and the brain: paradigm shift in neuroscience. J Neurosci. 2014;34:15490–15496.
  2. Mohajeri MH, La Fata G, Steinert RE, Weber P. Relationship between the gut microbiome and brain function. Nutr Rev. 2018 Apr 26. doi: 10.1093/nutrit/nuy009
0

Loucuras Permitidas

*“Loucuras permitidas

Existem vários tipos de loucura

as que todos tem e as que “precisam” de cura

chamadas transtornos mentais

são elas que nos separam dos que dizem ser normais

Delírios coletivos são permitidos, divulgados, assistidos, aclamados, organizados

e várias vezes repetidos

tidos como exemplo de sanidade, interpretados com naturalidade

nesse modelo doente de sociedade

onde jogam os normais contra os doentes

baseados em diferenças em suas mentes

Crentes de sua superioridade, julgando até mesmo por idade

reprimindo a criatividade, matando a infância e a vitalidade

Qualquer sinal de tristeza, dor, felicidade é tratado como enfermidade

quando o único erro do paciente

foi experimentar a liberdade

Libertou-se de qualquer grade ou corrente

que um dia aprisionou sua mente

e hoje é chamado de doente, apenas por ser diferente

Não posso me exaltar, pensar ou me expressar

sem que ameacem me internar

tentam me descartar, me jogar fora

acham que eu sou um lixo, um erro

embora esqueçam que já passou da hora

de trazer luz à minha história”

*poema escrito por um adolescente, que preferiu manter seu nome em sigilo, durante as atividades da luta antimanicomial de 2018 em São Paulo.

O Brasil é um dos países que se propôs a garantir saúde como direito, em um sistema universal, como a Inglaterra e o Canadá. Como já discutido aqui , o Sistema Único de Saúde (SUS) funciona no modelo de Redes de Atenção (RAS). Dentre elas, há a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A RAPS foi instituída pela Portaria Nº 3088, de 23 de Dezembro de 2011.

A RAPS foi um desdobramento de um cenário geral de mobilização de trabalhadores, usuários e pesquisadores dispostos a repensar a estrutura e prática do cuidado em saúde mental no Brasil.

Há 31 anos, no município de Bauru, ocorreu um encontro que culminou na criação do documento conhecido como Carta de Bauru. A Carta foi escrita pelos 350 profissionais de saúde que estavam presentes e tinha como principais reivindicações extinção das práticas manicomiais e garantia de direitos básicos às pessoas em sofrimento psíquico.

“O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida.”

Naquele momento, os trabalhadores chamavam a atenção para um dos fatores camuflados na lógica manicomial.No trecho acima, retirado da Carta, é possível observar a crítica feita não só à instituição manicômio, mas ao mecanismo de segregação social que ela  impulsiona. Se existe um local depositário de pessoas fora da norma, deve-se considerar que essa norma é construída socialmente e visa isolar, fragilizar e marginalizar a diversidade cultural, étnica, etária, sexual e de gênero.

O país já havia viabilizado verdadeiros massacres aos direitos humanos motivados pela prática asilar em saúde mental. Um exemplo dolorido, mas visceral para a compreensão da barbárie do ataque é o hospital de Barbacena em Minas Gerais. Neste local, cadastrado como manicômio na época, estima-se que tenham ocorrido 60 mil mortes. As condições de vivência levavam à morte com agilidade, privando os internos de acesso a roupas, alimentação, e saneamento básico mínimo. Além disso, práticas de tortura e abusos eram validadas, bem como camisas de força e choques elétricos. A situação só mudou de panorama com a Reforma Psiquiátrica.

HB

 Foto: Luiz Alfredo. Divulgação: Geração editorial

A Reforma Psiquiátrica no Brasil está bastante atrelada à Reforma Sanitária e ao movimento popular de construção de saúde coletiva, que tem como foco a saúde e  bem estar social, e não na doença. Uma das principais influências para a reforma foi o movimento italiano, com o pensamento de Franco Basaglia, de foco no cuidado de saúde mental voltado para construção de autonomia dos sujeitos e extinção das práticas manicomiais.

Dessa forma, após anos de graves acometimentos aos direitos humanos e de constante mobilização do grupo contrário à desumanidade que era tida como proposta única, foram garantidos respaldos para o cuidado em liberdade em saúde mental.

A RAPS tem como diretrizes:

  •  Respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia, a liberdade e o exercício da cidadania.

       • Promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde.

       • Garantia do acesso e da qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar.

       • Ênfase em serviços de base territorial e comunitária, diversificando as estratégias de cuidado, com participação e controle social dos usuários e de seus familiares.

       • Organização dos serviços em RAS regionalizada, com estabelecimento de ações intersetoriais para garantir a integralidade do cuidado.

       • Desenvolvimento da lógica do cuidado centrado nas necessidades das pessoas com transtornos mentais, incluídos os decorrentes do uso de substâncias psicoativas.

Esse cenário é considerado positivo, no entanto, ainda há muito a construir no cotidiano. As práticas manicomiais não ocorrem apenas quando as pessoas estão trancafiadas em manicômio. Podem ocorrer em qualquer espaço que as prive de autonomia e liberdade.

Quando falamos em loucura, nosso imaginário contaminado pela lógica do senso comum nos leva a pensar em situações e pessoas marginalizadas, alheias. Basta pensarmos no sentido que atribuímos à palavra loucura, bem como a louco e louca.

Quando dizemos que alguém está louca, nos referimos a comportamentos tidos pela sociedade patriarcal como femininos, como a histeria. Quando dizemos que alguém está louco, em geral estamos justificando a ação cruel de algum homem, como a psicopatia.

É nesse sentido que deve-se repensar o local da loucura na sociedade com urgência, pois reforça marginalizações e aprisiona corpos e mentes.

Atualmente contamos com a garantia governamental do cuidado em liberdade. Isso é fruto da organização da sociedade civil e passível de se estruturar melhor e com maior capilaridade e abrangência. As quebras e construções de sociedade implicadas nesse processo, envolvendo mudança de linguagem, na cultura e na formação de concepções comuns só é possível a partir da manutenção dessa organização de base.

O encontro de Bauru ocorreu no dia 18 de maio de 1987 e este é considerado o dia nacional da luta antimanicomial, com manifestações organizadas em todo o país, todos os anos. Devemos lembrar das atrocidades à humanidade para que nunca mais aconteçam.

Referências Bibliográficas:

BASAGLIA, F. ONGARO, FB. A problem of institutional psychiatry: exclusion as a social and psychiatric category. International Review of Psychiatry. Pages 120-128 | Published online: 14 May 2018.

FELIZARDO, JT. OLIVEIRA, JL. As análises de Hannah Arendt acerca dos campos de concentração e suas relações com o “holocausto brasileiro”. Mental vol.11 no.21 Barbacena jul./dez. 2017.

CASAGRANDE, AB. BAO, CE.Conjugando gênero e loucura: as experiências de homens e mulheres no cotidiano asilar do Hospital-Colônia Adauto Botelho/PR (1954-1960). Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X.

Indicação de documentário:

Holocausto Brasileiro