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Inovação em diagnóstico para infarto agudo do miocárdio

     As doenças cardiovasculares, antes da pandemia do novo coronavírus, consistiam na primeira causa de morte no Brasil, sendo atualmente a segunda causa (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm). Dentre estas doenças, o infarto agudo do miocárdio, foi projetado para ser a principal causa em 2020 (https://portalatlanticaeditora.com.br/index.php/enfermagembrasil/article/view/776/html).

     O infarto ocorre com a diminuição ou ausência do fluxo sanguíneo para o coração, comumente por obstrução de artéria coronária causada por placas de colesterol (placa de ateroma) que desencadeiam processo inflamatório. Desta forma, as células cardíacas são privadas de nutrientes e de oxigênio e podem morrer: o que conduz à lesão do órgão e prejuízo parcial ou total de sua capacidade de bombear sangue (https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio).

     São reconhecidos cinco tipos de infarto: 1) o que tem a presença da placa de ateroma como fator causador; 2) o causado por desequilíbrio entre consumo de oxigênio e sua oferta ao músculo cardíaco, pós cirurgia ou devido à anemia, por exemplo; 3) o fulminante que causa morte súbita; 4) o que sucede angioplastia coronária após a qual restam fragmentos da placa de ateroma ou há formação de trombos no stent (estrutura metálica colocada pela equipe médica no interior da artéria – Figura 1); 5) o que sucede a cirurgia de ponte de safena (https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/).

Foto blog 2

Figura 1: Stent. Fonte: https://folhadomate.com/noticias/cateterismo-cardiaco-pelo-sus-apenas-em-casos-de-emergencia/ e http://www.sobrice.org.br/paciente/procedimentos/angioplastia-e-colocacao-de-stent.

     Dentre os sintomas mais comuns estão dor no peito irradiando para queixo, ombro e braço esquerdos, sudorese, náusea e dificuldade para respirar. No entanto pode não manifestar-se por meio de sintomas (https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm).

     Dada a importância do socorro o mais rápido possível para definir o destino do paciente, diferentes grupos de pesquisa pelo mundo tem buscado descobrir eficientes biomarcadores (para definição: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/12/13/fadiga-cronica-e-a-relacao-com-a-microbiota-intestinal/) para indicar com segurança o risco de o paciente vir a sofrer o infarto.

     São pesquisados no sangue dos pacientes com suspeita de infarto agudo do miocárdio os níveis de triglicerídeos (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/), colesterol total, HDL (lipoproteína de alta densidade), LDL (lipoproteína de baixa densidade) (https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/), ácido úrico (https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/) e a presença de biomarcadores como mioglobina, creatina quinase-MB e troponina cardíaca I (https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca).

     Visando reduzir o tempo de espera pelos resultados e gerar economia no diagnóstico um grupo de pesquisadores chineses, sob coordenação dos professores Yongxiang Zhao e Nongyue He da Guangxi Medical University, recentemente publicou um artigo com um novo método de diagnóstico (Figura 2) com realização simultânea de todas as medidas relatadas no parágrafo anterior (Huang et al., 2020).

Figura blog

Figura 2: Novo dispositivo para realização simultânea de 8 importantes exames para determinar risco, detectar e acompanhar a evolução do infarto agudo do miocárdio. Fonte: Adaptado de Huang et al., 2020.

     Os pesquisadores desenvolveram uma tira com duas seções importantes: uma delas fica sob o local no qual o soro do paciente (amostra) é depositado. Nesta seção existem 4 diferentes regiões para detecção fotométrica (através da geração de compostos coloridos) e determinação de concentração de: 1) colesterol (TC); 2) triglicerídeos (TG); 3) HDL (HDL-C);  4) ácido úrico (UA). Os níveis de LDL podem ser calculados com base nos resultados (https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main). Na outra seção a detecção de biomarcadores ocorre por meio de fluorescência para verificar a presença de mioglobina (Myo), creatina quinase (CK-MB) e troponina (cTnI) através de anticorpos que identificam cada uma destas proteínas.

     Os resultados de experimentos realizados utilizando-se amostras de pacientes foram mais precisos e rápidos do que os obtidos pelos métodos atualmente em uso, fazendo do novo método proposto uma interessante ferramenta para diagnosticar o infarto agudo do miocárdio e também determinar o risco de sua ocorrência em pacientes.

        

Referências

Fiorini D (2019) O ácido úrico vai muito além da gota. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/medicina/o-acido-urico-vai-muito-alem-da-gota/>. Acesso em: 24/08/2020.

Fleury (2020) Infarto Agudo do Miocárdio. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/manual-de-doencas/infarto-agudo-do-miocardio>. Acesso em 24/08/2020.

Fleury (2007) Marcadores bioquímicos de lesão cardíaca. Disponível através do link <https://www.fleury.com.br/medico/artigos-cientificos/marcadores-bioquimicos-de-lesao-cardiaca>. Acesso em 24/08/2020.

HCor (2020) Infarto agudo do miocárdio: adote hábitos saudáveis e proteja seu coração. Disponível através do link <https://www.hcor.com.br/hcor-explica/cardiologia/infarto-do-miocardio-adote-habitos-que-protegem-o-seu-coracao-para-poder-evita-lo/>. Acesso em 24/08/2020.

Huang L, Zhang Y, Su E et al. (2020) Eight biomarkers on a novel strip for early diagnosis of acute myocardial infarction. Nanoscale Adv 2: 1138.

Kruse, T (2020) Coronavírus supera câncer e enfarte; por dia, já é a 1ª causa de mortes no Brasil. Disponível através do link <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2020/05/20/coronavirus-supera-cancer-e-enfarte-por-dia-ja-e-a-1-causa-de-mortes-no-pais.htm >. Acesso em 23/08/2020.

Pronin T (2018) Infarto: dor no peito não é único sinal; veja sintomas e causas da doença. Disponível atrvés do link <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/10/23/infarto-dor-no-peito-nao-e-unico-sinal-veja-sintomas-e-causas-da-doenca.htm>. Acesso em 24/08/2020.

Silva AS, Ferraz MOA, Biondo CS, de Oliveira BG (2018) Características sociodemográficas das vítimas de infarto agudo do miocárdio no Brasil. Enfermagem Brasil 17(6): 1-4.

UFPEL (2014) Calculadora de LDL Colesterol. Disponível através do link <https://dms.ufpel.edu.br/casca/modulos/ldl-main#comp/ldl-main>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Triglicérides e doença das coronárias. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/triglicerides-e-doenca-das-coronarias-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

Varella D (2011) Risco de ataque cardíaco. Disponível através do link <https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/risco-de-ataque-cardiaco-artigo/>. Acesso em 24/08/2020.

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As plantas são seres inteligentes?

As plantas são vistas muitas vezes como seres inertes que não respondem da mesma forma, nem na mesma rapidez, que animais ao seu ambiente. Assim, de forma depreciativa, chamamos pacientes em coma de “vegetais” ou pessoas que não são muito rápidas ou muito ativas de “plantas”. Porém, quem tem plantinhas em casa sabe que, na verdade, vemos muitas respostas (às vezes até bem rápidas) desses seres vivos à diferença de luminosidade, nutrientes no solo, contato com outras plantas e até nosso amor (brincadeira haha).

Pois é, existe uma visão bastante antropocêntrica ou até zoocêntrica de que inteligência (ou cognição) é uma capacidade presente apenas em seres vivos com sistema nervoso ⎯ isso inclui humanos e quase todos os animais. Isso porque o processamento das informações do ambiente coletadas através da percepção precisaria passar por um cérebro, ou pelo menos um sistema nervoso básico, que criaria um sentido, uma representação do mundo com o qual o organismo pode interagir.

Novas propostas para a cognição entendem que ela acontece em todo o corpo do organismo e muitas vezes de forma direta com o ambiente. Isso significa que muitas capacidades cognitivas não exigiriam o processamento de um cérebro que daria sentido a informação, mas aconteceriam na relação direta do organismo como um todo com seu ambiente. Importante pontuar que estou resumindo essas propostas de forma bem simples aqui.

Esse é um papo super filosófico e bem espinhoso, mas a questão é que essa segunda perspectiva sobre a cognição acaba abrindo possibilidades para organismos bem inesperados serem considerados inteligentes ou cognitivos. Um exemplo são as plantas. Os comportamentos desses organismos foram constantemente considerados fixos, inflexíveis, sempre como resposta a situações do aqui e agora. Porém, nas últimas décadas, pesquisas vêm descobrindo que o repertório comportamental de plantas contêm muito mais do que reflexos instintivos e imutáveis. Estudos vêm descrevendo comportamentos que os autores identificam como capacidades cognitivas a exemplo de mecanismos de tomada de decisão, aprendizado e memória. 

Ervilheira (Pisum sativum) Fonte: Jun Seita

As raízes das plantas são extremamente sensíveis a condições ambientais como disponibilidade de água, nutrientes e gravidade e são essenciais no processo de tomada de decisão de uma planta. Em uma série de experimentos feitos em ervilheiras (Pisum sativum), pesquisadores encontraram que o crescimento de raízes variava em relação à variação temporal de nutrientes no solo. Parte das raízes de uma mesma planta foram colocadas em um solo com concentração de nutrientes constante; uma outra parte foi colocada em um solo com concentração variável de nutrientes. Em vez de considerar apenas a quantidade absoluta de nutrientes no solo, como esperaríamos de um ser com respostas instintivas ou fixadas, as plantas decidiram investir no crescimento das raízes do meio em que a taxa de nutriente média era maior. Isso levou cientistas a afirmarem que os mesmos modelos usados em animais para explicar tomada de decisão e comportamento ótimo poderiam ser utilizados também em plantas.

Não-me-toque / dormideira (Mimosa pudica) Fonte: Krishnendu Pramanick

A habituação é um dos comportamentos de aprendizagem mais antigos estudados em plantas e também faz parte das capacidades cognitivas descritas em humanos e outros animais. Em 2014, Monica Gagliano e colegas da Universidade do Oeste da Austrália e da Universidade de Firenze na Itália, testaram as capacidades de aprendizagem de uma plantinha chamada dormideira ou não-me-toque (Mimosa pudica). Seu nome vem da maneira como suas folhas se fecham em resposta a uma ameaça (vemos isso quando tocamos nela). Quando eles derrubaram as dormideiras de uma altura (algo que a planta normalmente não teria encontrado em sua história evolutiva), as plantas aprenderam, depois de algumas tentativas, que isso era inofensivo e que não precisavam dobrar suas folhas. Surpreendentemente, os pesquisadores observaram que essa habituação pode ser mantida por até 28 dias! Outro experimento incrível de aprendizagem – não de habituação, mas de associação – é descrito pela @herbaweb nesse outro artigo aqui do blog.

Malva (Lavatera cretica) Fonte: Luis Nunes Alberto

Finalmente, chegamos em um exemplo de memória. As plantas chamadas malvas (Lavatera cretica), horas antes do amanhecer, orientam suas folhas para a direção do nascer do sol. Elas parecem se lembrar de onde e quando o Sol nasceu nos dias anteriores e se certificam que vão obter o máximo de energia luminosa possível todas as manhãs. Alguns experimentos foram realizados com essas plantas, trocando a localização da fonte de luz, mas parece que as plantas simplesmente conseguem aprender e lembrar da nova orientação. Quando criamos memórias, possivelmente retemos algumas informações para uso posterior offline. A capacidade de acessar as informações sobre algo que não está presente naquele momento, afirma o filósofo Francisco Calvo, é a razão pela qual a memória é considerada a marca da cognição. A menos que possa operar offline, um estado ou mecanismo não é genuinamente cognitivo.

Pois é, minha gente, ainda há muito o que se estudar sobre a cognição ou inteligência nas nossas plantinhas, mas os exemplos que trouxe aqui com certeza mudam nossa perspectiva sobre elas. Ainda há muita resistência, mesmo dentro da comunidade científica, de que esses exemplos realmente se referem a casos de cognição. Isso pode ser resultado de um fenômeno chamado “plant blindness” (que eu traduziria como cegueira vegetal) – uma tendência a ignorar as capacidades das plantas, o seu comportamento e os papéis ambientais únicos e ativos que desempenham. Esse fenômeno faz com que as tratemos como parte do pano de fundo, e não como agentes ativos em um ecossistema.

Claro, é um esforço imaginativo tentar entender o que o pensamento pode significar para esses organismos, na falta da divisão cérebro (mente) e corpo (motor), que estamos acostumados a lidar. No entanto, ao tentarmos, podemos acabar expandindo esses conceitos e entendendo melhor como as capacidades cognitivas dos animais humanos e não-humanos evoluíram, o que pode ser extremamente benéfico. 

Espero que depois de ler esse texto você pare um momento para olhar para suas plantinhas com novos olhos. E claro, reconsiderar chamar alguém de planta ou vegetal pejorativamente, já que agora você sabe das possíveis extraordinárias capacidades cognitivas das plantas.

Referências

Calvo Garzón, F. (2007). The quest for cognition in plant neurobiology. Plant signaling & behavior, 2(4), 208-211.

Gagliano, M., Renton, M., Depczynski, M., & Mancuso, S. (2014). Experience teaches plants to learn faster and forget slower in environments where it matters. Oecologia, 175(1), 63-72.Segundo-Ortin, M., & Calvo, P. (2019). Are plants cognitive? A reply to Adams. Studies in History and Philosophy of Science Part A, 73, 64-71.

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Deficiência: você tem certeza que sabe o que é?

Existem realidades que entram em contato com o nosso mundo por vias indiretas: nós sabemos que existem, mas elas parecem tão distantes que apenas seus elementos simbólicos nos impõem a constatação da sua existência. Para muitas pessoas, esse pode ser o caso da deficiência e do símbolo da cadeira de rodas.

         De acordo com a ONU, uma em cada sete pessoas de todo o mundo está em situação de deficiência e apesar disso, o símbolo da cadeira de rodas pintado nas vagas de estacionamento e nos assentos e caixas preferenciais é o máximo de contato de muita gente com o universo da deficiência no seu cotidiano. Por isso, não é de surpreender que o amplo debate em torno do próprio conceito de deficiência seja desconhecido por uma grande parte da população.

Legenda: Símbolo Internacional de Acesso.  Imagem de Christopher Strolia-Davis por Pixabay.
#Descrição da Imagem: Símbolo internacional de acesso em fundo azul e desenho de pessoa em cadeira de rodas em branco. [Fim da descrição].

No ano de 2011 foi decretado pelo governo federal o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de acordo com essa legislação:

Art. 2º São consideradas pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2011).

Essa definição se alinha ao entendimento presente na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, do qual o Brasil é signatário desde 2009. Observe que nela, a identificação da pessoa com deficiência envolve duas dimensões: o indivíduo e a sociedade e é a participação desta segunda no conceito de deficiência que pode ser uma novidade para muita gente!

Em meados da década de 1960, no contexto da contracultura, um grupo de sociólogos britânicos começou a questionar a naturalização que existia em torno da conceituação de deficiência. Até então, vigorou no meio científico o entendimento de que a deficiência se tratava de um problema individual, uma tragédia que acometia uma pessoa e removia dela a “normalidade” e por isso, os esforços eram voltados para adequá-la ao normal através de sua cura ou reabilitação. Essas pessoas eram frequentemente institucionalizadas e submetidas a tratamentos que muitas vezes violavam sua dignidade sem que sua vontade fosse levada em consideração. Isso porque, geralmente, essas pessoas eram consideradas incapazes.

Isto começou a mudar quando, inspirados pelos questionamentos produzidos pelos movimentos feminista e negro, estes sociólogos passaram a refletir sobre as formas como a sociedade produz barreiras que geram a exclusão de pessoas com deficiência, evidenciando que este é um fenômeno social.

Desde então, este campo do conhecimento, conhecido como Disability Studies ou Modelo Social da Deficiência, vem analisando como as pessoas com deficiência se tornaram particularmente vulneráveis após a Revolução Industrial e o fortalecimento do capitalismo, quando a metáfora de corpos humanos como máquinas (e consequentemente, sua capacidade produtiva) passou a regular o valor de nossos corpos.

Apesar de ainda restarem muitos direitos a serem conquistados, a contribuição do modelo social para a dignidade das pessoas com deficiência – principalmente por seus desdobramentos políticos – é incontestável. Isso, no entanto, não impediu que esse corpo teórico recebesse críticas, inclusive de pessoas que se alinhavam mais ao modelo social que ao modelo médico. Esses debates vêm constituindo um novo campo que se encontra em formação: os estudos críticos da deficiência ou modelo pós-social, que pode ser entendido como uma nova geração do modelo social e conta com importantes contribuições e críticas do pensamento feminista.

Fonte: imagem de upklyak por <a href="http://<a href="https://br.freepik.com/vetores/escola">Escola vetor criado por upklyak – br.freepik.comFreepik

#Descrição da Imagem: desenho colorido de crianças com deficiência de diferentes etnias se encontrando em frente a uma escola em um dia de céu azul com algumas nuvens branquinhas. Um menino utiliza cadeira de rodas, e o outro tem uma prótese como braço esquerdo, uma das meninas utiliza óculos escuros e uma bengala e a outra utiliza uma muleta. Elas se encontram em um caminho pavimentado plano que fica em meio a um gramado verde claro. Da lado esquerdo estão duas árvores e uma placa parcialmente encoberta por uma das crianças, onde se pode ler as letras SCHO e do lado direito, há uma bandeira azul claro balançando com o vento e uma árvore. O caminho leva ao prédio da escola, que tem cor de tijolos de barro, dois andares, muitas janelas e uma entrada grandiosa cercada por colunas. O único acesso à porta de entrada da escola é uma escadaria. [Fim da descrição].

O modelo social enfatiza as dimensões públicas da vida cotidiana, como as barreiras arquitetônicas e a exclusão do mercado de trabalho, em sua análise do papel da sociedade na produção da deficiência. Já para o modelo pós-social é necessário que sejam considerados também os aspectos da vida da pessoa com deficiência considerados privados, como o papel da dor, os efeitos da linguagem excludente, a sexualidade da pessoa com deficiência e ainda, a extensão dessas análises para a questão do cuidado e da interdependência, inerente à condição humana.

Justamente por todo o histórico de exclusão já vivido, o lema das pessoas com deficiência é “Nada sobre nós sem nós”. Por isso, para saber mais sobre esse debate, nada melhor que o Guia Feminista de Mulheres com Deficiência produzido pelo Coletivo Feminista Helen Keller, que você encontra clicando aqui

REFERÊNCIAS

BISOL, Cláudia Alquati; PEGORINI, Nicole Naji; VALENTINI, Carla Beatris. Pensar a deficiência a partir dos modelos médico, social e pós-social. Cad. Pesq., São Luís, v. 24, n. 1, p. 87-100, jan./abr. 2017.

BRASIL. Presidência da República. Decreto N° 6.949, de 25 de agosto de 2009 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo facultativo, assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Organização das Nações Unidas – ONU. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm. Acesso em 17 ago. 2020.

BRASIL. Decreto n°. 7612, de 17 de novembro de 2011. Institui o Plano Nacional de Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612.htm . Acesso em: 25 jul 2020.

DINIZ, Débora. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

DINIZ, Débora. Deficiência e Políticas Sociais – Entrevista com Colin Barnes. SER Social,  Brasília,  v. 15, n. 32, p. 237-251,  jan./jun.  2013. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. A ONU e as pessoas com deficiência. Disponível em: https://nacoesunidas.org/acao/pessoas-com-deficiencia/. Acesso em 25 jul. 2020.

PICCOLO, Gustavo Martins. Contribuições a um pensar sociológico sobre a deficiência. 2012. 231 f. Tese (Doutorado em Educação Especial) – Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/2898 . Acesso em 04 jun. 2020.

RUMO ao Fazendo Gênero 12 – Oficina Anticapacitismo. Seminário Internacional Fazendo Gênero, 2020. 1 vídeo (152 min). Publicado pelo canal Instituto de Estudos de Gênero – UFSC. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SFxsLgJeDVA . Acesso em 30 jul. 2020. 

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Ebola: o inimigo volta a ameaçar

O Ebola é uma doença causada por vírus que tem como hospedeiros naturais espécies de morcegos frugívoros, e é nomeado devido ao rio da região na qual seu primeiro surto ocorreu, em 1976, no continente africano [1].

Se comparado ao coronavírus, que apresenta letalidade de cerca de 3% dos infectados, o Ebola é uma ameaça muito mais grave, podendo levar a óbito de 25 a 90% dos pacientes [2]. 

O Ebola vírus (Figura 1), assim como o HIV e o coronavírus (Sars-CoV-2), era transmitido inicialmente entre animais. Porém, através de um processo conhecido como spillover essas zoonoses virais passaram a infectar também seres humanos [3].

Figure 1 Ebola

Figura 1: Ebola vírus [4].

Essa transmissão de animais contaminados para seres humanos se dá via sangue e fluidos corporais. Posteriormente, os humanos infectados podem infectar outras pessoas via sangue, saliva, sêmen, e contato direto mesmo após a morte (os cadáveres são contagiosos [5]).

Após a infecção, o indivíduo pode demorar de 2 a 21 dias para manifestar sintomas da febre hemorrágica como: dor de cabeça e/ou garganta e/ou nas articulações, febre, fraqueza muscular, calafrios, diarreia com sangue, erupções cutâneas e olhos vermelhos. O mais grave desfecho conduz à hemorragia interna, com sangue extravasando até mesmo por reto, olhos, nariz e ouvidos [6].

De 2014 a 2016, o pior surto da história afetou 22 mil pessoas na África Ocidental (principalmente Guiné, Serra Leoa e Libéria – Figura 2) provocando a morte de 11 mil delas [7]. Mais recentemente a décima epidemia de Ebola em território congolês, que se iniciou em 2018 e foi considerada encerrada com a alta da última paciente internada em fevereiro de 2020, afetou mais de 3,4 mil pessoas das quais cerca de 66% faleceram [8].

Figura 2 Mapa

Figura 2: Mapa da África Ocidental, com destaque para a região mais atingida pelo surto de 2014 a 2016; modificado de [9].

O vírus possui capacidade de transmissão inferior ao Sars-CoV-2 e, apesar de não haver tratamento específico, já existe vacina contra o Ebola. A vacina rVSV-EBOV, conhecida comercialmente como Ervebo, foi desenvolvida contra a forma mais letal do vírus (a Zaire) [10] e já contribuiu para conter o avanço de contaminações na República Democrática do Congo e em Uganda [11]. Recebeu no final de 2019 a aprovação de agências como a americana e a europeia, e já foi aplicada em mais de 280 mil pessoas em área de risco [12].

No dia 01 de junho deste ano de 2020, no entanto, foi declarada nova onda de contaminações na República Democrática do Congo; dos 6 pacientes inicialmente diagnosticados, 4 morreram [13]. A Organização Mundial da Saúde considera um grande desafio lidar conjuntamente com o Ebola e o coronavírus, mas se prontificou a tentar [14]. 

Esse fato conduz a uma reflexão sobre os motivos de, mesmo com a existência de vacina, novas epidemias surgirem em regiões em que já aconteceram no passado. O que ocorre é que as regiões mais atingidas pelo vírus são áreas com conflitos armados e grande índice de violência, dificultando tanto a vacinação da população como o isolamento precoce dos doentes para tratamento dos sintomas. Soma-se a isso o fato de o grau de instrução baixo dos cidadãos conduzir a medo e relutância na vacinação. Uma situação delicada que ameaça seres humanos já em situação de grande vulnerabilidade no continente que historicamente é marcado por sofrimento e exclusão.

 

Referências

[1] – Médicos sem Fronteiras (2018) Ebola. Disponível através do link <https://www.msf.org.br/o-que-fazemos/atividades-medicas/ebola>. Acesso em 18/06/2020.

[2] – Cajé M, Fernandez A (2020) Na África Subsaariana, ebola ainda preocupa mais que novo coronavírus. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/10/na-africa-subsaariana-ebola-ainda-preocupa-mais-que-novo-coronavirus.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[3] – Multini L (2017) Cientistas preveem spillover de vírus de mamíferos selvagens para seres humanos. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/07/05/cientistas-preveem-spillover-de-virus-de-mamiferos-selvagens-para-seres-humanos/>. Acesso em 18/06/2020.

[4] – Monteiro L (2014) Ebola: 7 perguntas e respostas essenciais sobre esse vírus. Disponível através do link <https://saude.abril.com.br/bem-estar/ebola-7-perguntas-e-respostas-essenciais-sobre-esse-virus/>. Acesso em 18/06/2020.

[5] – Louise J (2018) Microrganismos da pesada e o Bioterrorismo. Disponível através do link <https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/08/08/microrganismos-da-pesada-e-o-bioterrorismo/>. Acesso em 18/06/2020.

[6] – Varella Bruna, MH (2020) Ebola. Disponível através do link < https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ebola/>. Acesso em 18/06/2020.

[7] – Weller C (2018) Por que o ebola voltou – e dificilmente será erradicado. Disponível através do link < https://www.bbc.com/portuguese/geral-44062701 >. Acesso em 18/06/2020.

[8] – G1 (2020) Última paciente que tinha ebola na República Democrática do Congo recebe alta. Disponível através do link <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/03/05/ultima-paciente-que-tinha-ebola-na-republica-democratica-do-congo-recebe-alta.ghtml>. Acesso em 18/06/2020.

[9] – Blog da Cajucultura (2020) África ocidental impulsiona produção de castanha. Disponível através do link <https://www.blogdacajucultura.com/2018/10/africa-ocidental-impulsiona-producao-de.html>. Acesso em 29/06/2020.

[10] – Suder E, Furuyama W, Feldmann H, Marzi A, de Wit E (2018) The vesicular stomatitis virus-based Ebola virus vaccine: From concept to clinical trials. Disponível através do link <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6183239/>. Acesso em 18/06/2020.

[11] – Pucu E (2019) Disponível através do link < https://cientistasfeministas.wordpress.com/2019/09/23/vacina-contra-o-ebola-perspectivas-para-populacoes-africanas/>. Acesso em 18/06/2020.

[12] – Saphire E O (2020) A Vaccine against Ebola Virus. Disponível através do link < https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302737>. Acesso em 18/06/2020.

[13] – WHO (2020) New Ebola outbreak detected in northwest Democratic Republic of the Congo; WHO surge team supporting the response. Disponível através do link <https://www.who.int/news-room/detail/01-06-2020-new-ebola-outbreak-detected-in-northwest-democratic-republic-of-the-congo-who-surge-team-supporting-the-response>. Acesso em 18/06/2020.

[14] – Jornal Estado de Minas (2020) Congo tem surto de ebola durante pandemia do coronavírus. Disponível através do link <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/06/01/interna_internacional,1152799/congo-tem-surto-de-ebola-durante-pandemia-do-coronavirus.shtml>. Acesso em 29/06/2020.

 

 

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Uma mesa para dois, por favor

Ci∙ên∙ci∙a. Substantivo feminino. “Corpo de conhecimentos sistematizados adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente”. É assim que está lá no dicionário. Na prática, significa que um novo conhecimento (ou um grupo deles) será construído com base em um método, algo que possa ser reproduzido por outras cientistas. Não precisamos gastar muitos caracteres para explicar que cientistas são pessoas, certo? E como tais, estão sujeitas a todas as interferências (que costumo chamar de atravessamentos) relativas à sua humanidade.

Alguém que me lê acredita ser possível destacar a parte humana de uma pessoa e deixá-la só com características que a confeririam técnica, imparcialidade e invulnerabilidade? Assim, temporariamente, em horário comercial, só para desempenhar seu trabalho de forma mais eficiente? Se a resposta é não, como esperar que cientistas não sejam atravessadas por questões que afetam sua existência e subjetividade como a sexualidade, por exemplo?

Há vários estudos que fornecem detalhes sobre as dificuldades diárias, assédio, intimidação, medos, exclusão e discriminação vividas por cientistas LGBTQIA+ [1]. Também documentam algumas das conseqüências negativas percebidas na carreira do professor LGBTQIA+, incluindo discriminação na contratação, permanência e promoção, exclusão de redes acadêmicas e profissionais e desvalorização do trabalho acadêmico em temas heterodissidentes [2].

É de se esperar que cientistas (especialmente de exatas) considerem a identidade sexual de um indivíduo como irrelevante no ambiente de trabalho científico. De acordo com esta perspectiva, as características individuais geralmente não devem ter nenhum papel em trabalho científico, pois o método científico oferece uma garantia de objetividade; assim, indiferença à vida pessoal dos indivíduos, e uma crença na sua irrelevância para a pesquisa científica, é particularmente comum entre acadêmicos. Ademais, como poucos pesquisadores das ciências exatas examinam fenômenos sociais em suas próprias pesquisas, eles e elas podem ser menos influenciados por desenvolvimentos teóricos que têm uma compreensão avançada da construção social e implicações da sexualidade, raça e etnia, classe e gênero [3,4]. Esta falta de entendimento torna o clima no ambiente de trabalho desfavorável aos cientistas LGBTQIA+ (e outras inseridos em recortes não hegemônicos).

As organizações Institute of Physics, Royal Astronomical Society and Royal Society of Chemistry publicaram um relatório sobre o clima de trabalho para cientistas LGBTQIA+ da física. Entre os achados da pesquisa há que locais de trabalho com cientistas abertamente LGBTQIA+ são mais acolhedores e que fazer o melhor pela ciência significa reter cientistas LGBTQIA+. Concluíram que 28% dos LGBTQIA+ entrevistados afirmaram que tinham, em algum momento, considerado sair de seu local de trabalho por causa do clima ou da discriminação em relação a sua sexualidade e que quase metade de todos aqueles que se declararam pessoas trans havia considerado deixar seu local de trabalho por causa do clima, sendo que quase 20% deles consideram isso com frequência.

Fonte: INSTITUTE OF PHYSICS; ROYAL ASTRONOMICAL SOCIETY; ROYAL SOCIETY OF CHEMISTRY. Exploring the workplace for LGBT physical scientists. Reino Unido: 2019.

Foi Thomas McIntyre Cooley (1824-1898), jurista norte-americano e presidente da suprema corte de Michigan, quem cunhou, em 1888, a expressão o direito de estar só (the right to be let alone) que evoluiu para o conceito do direito de privacidade. Tal direito é uma manifestação, no âmbito das relações interpessoais, do próprio direito de liberdade. Diante da importância particular que a sexualidade assume na construção da subjetividade e no estabelecimento de relações pes­soais e sociais, o direito à livre expressão sexual, é concretização mais que necessária do direito humano à liberdade [8].

Vemos aqui então, que a livre expressão das subjetividades que formam os seres enquanto indivíduos, entre elas a sexualidade, é fundamental e deveria ser garantida. Se essa garantia não vier sob o conceito de empatia que venha sob a justificativa produtivista, uma vez que cientistas mais confiantes, com o sentimento de pertencimento àquele grupo ou laboratório são mais eficientes e a ciência não pode abrir mão de suas ‘operárias’.

Já imaginou a ciência sem Sir Francis Bacon (pai do método científico), Florence Nightingale (enfermeira pioneira e excelente estatística), Alan Hart (médico trans, especialista em saúde pública com excelentes contribuições no manejo da tuberculose) ou Alan Turing (matemático conhecido como o pai da computação)? Todos eles e ela faziam parte da comunidade LGBTQIA+. Nesse mês do orgulho LGBTQIA+, fica o convite para que todas as cientistas possam sentar-se à mesa da ciência e que nesta, sempre tenha espaço para mais uma de nós.

Imagem de Steve Halama para o Unsplash

Referências

1. BILIMORIA, Diana; STEWART, Abigail J., “Don’t Ask, Don’t Tell”: The Academic Climate for Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Faculty in Science and Engineering, NWSA Journal, v. 21, n. 2, p. 85–103, 2009.

2. TAYLOR, Verta; RAEBURN, Nicole C. “Identity Politics as High-Risk Activism: Career Consequences for Lesbian, Gay, and Bisexual Sociologists.” Social Problems 42(2): 252–73. The National Academies.1995.

3. SHIELDS, Stephanie A. “Gender: An Intersectional Perspective.” Sex Roles 59: 301–11. 2008.

4. WEBER, Lynn. “A Conceptual Framework for Understanding Race, Class, Gender, and Sexuality.” Psychology of Women Quarterly 22: 13–32. 1998.

5. SCHEIN, Edgar H. Organizational Culture and Leadership. 2nd ed. San Francisco: Jossey-Bass. 1992.

6. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Janet E. Malley, and Abigail J. Stewart. 2006. “The Climate for Women in Academic Science: The Good, the Bad, and the Changeable.” Psychology of Women Quarterly 30: 47–58.

7. Settles, Isis H., Lilia M. Cortina, Abigail J. Stewart, and Janet E. Malley. 2007. “Voice Matters: Buffering the Impact of a Negative Climate for Women in Science.” Psychology of Women Quarterly 31: 270–81.

8. RIOS, Roger Raupp. Direitos humanos, direitos sexuais e homossexualidade. Amazônica, v. 3, n. 2, p. 288–298, 2011.

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Drogas Antivirais: O que são e como são descobertas? O que podemos esperar para o tratamento da COVID-19?

Quem diria que 2020 seria um ano de fortes emoções, não é mesmo? Nem nos recuperamos completamente do ano novo e em fevereiro as mídias de informação começaram a falar sobre uma doença causada por um vírus novo que estava se disseminando na China (veja mais sobre o assunto aqui). Ao longo dos meses, essa virose foi tomando proporções imensas, até que no dia 11 de março, a OMS declarou que estávamos vivendo uma pandemia. Diante desse cenário, onde aparentemente estávamos sem saída, foi reunida uma força tarefa entre pesquisadores de vários países a fim de encontrar a saída mais rápida, visando então a menor perda de vidas que fosse possível.

A comunidade científica ficou nos holofotes, os pesquisadores passaram a ter mais espaço na mídia. Pode-se notar que os noticiários mudaram e começaram a reportar em massa sobre as pesquisas que estavam sendo feitas nesse sentido. Isso ocorreu porque a Wellcome Trust (instituição de caridade que concede verba para pesquisas médicas) fez um apelo aos pesquisadores e às revistas científicas para que todos os dados ficassem disponíveis o mais rápido possível (1). Diante dessa situação, várias pesquisas focaram em testar a eficiência de medicamentos que já são usados para tratar outras infecções e sendo reportadas através dos chamados “Preprints”, que basicamente é um artigo, mas que ainda não passou por revisão dos periódicos científicos.

Imagem 1: Ilustração do vírus SARS- COv 2, agente etiológico da Covid-19. Fonte: CDC https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html

Esses artigos falam sobre diferentes aspectos sobre o SARS- COv 2 e/ou COVID-19: biologia do vírus – trata-se de uma zoonose oriunda da recombinação dos coronavírus de morcegos e pangolins (2) , além disso ao sequenciar o genoma, os pesquisadores têm provas concretas de que não é uma arma biológica (caso queira saber mais sobre o sequenciamento, clique aqui); fisiopatologia – as alterações promovidas principalmente nos pulmões e muitas outras que ainda estão sendo estudadas; infecção – já se sabe o que vírus usa a proteína ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2) para entrada na célula; e por último mas não menos importante, que será o foco a partir de agora, os tratamentos que estão sendo desenvolvidos (3).

Como são descobertas as drogas antivirais?

Durante essa crise de saúde pública, existem algumas formas mais rápidas para que antivirais cheguem até o paciente evitando assim a piora do quadro ou até a sua morte precoce. Essa abordagem mais rápida pode ser feita de diversas formas. Uma delas é testar a ação de drogas já utilizadas para outras viroses ou com potencial antiviral (chamado uso off-label, quer saber mais sobre? Clique aqui). São drogas que já se sabe quais os efeitos colaterais, qual a dosagem que pode ser administrada, entre outros aspectos. Então uma vez que seja comprovada a eficácia será “mais fácil e rápida” a sua liberação para uso na clínica, exemplos como hidroxicloroquina, azitromicina, entre muitos outros, estão sendo estudados para esse uso. (4)

Imagem 2: Ilustração  representativa dos medicamentos que estão sendo testados para combater o vírus SARS- COv 2.  Fonte:https://covid19.tabipacademy.com/2020/03/31/coronavirus-treatment-vaccines-drugs-in-the-pipeline-for-covid-19/   

Outra alternativa são as drogas de uso compassivo, essas são drogas que já eram estudadas para outras viroses e que apresentaram resultados positivos em ensaios in vitro (em cultura de células) com SARS-Cov2, mas que precisam de ensaios clínicos para serem utilizadas na clínica, um exemplo é o remdesivir (5). Nessa situação foi testado também o uso de plasma convalescente (mas isso você pode conferir aqui pra saber mais). Uma busca no site Clinical Trials (plataforma que mostra trabalhos científicos que utilizam testes clínicos), mostra que existem mais de 30 trabalhos ativos em vários lugares do mundo, testando essas terapêuticas para o tratamento da COVID-19 (5).

Ufa! Muita coisa, não? Exatamente, isso tudo para tentar salvar o máximo de vidas possível, mas vocês devem estar se perguntando sobre as vacinas. Bom, a vacina seria o nosso sonho nesse momento, porém a triagem para uma vacina segura com os testes necessários e sua produção pode levar de 10 a 15 anos. Novamente, a força tarefa de pesquisadores com investimentos públicos e privados, de vários países, estão testando várias formulações para a vacina e a previsão é que em 2021 ela esteja pronta.

O que podemos notar nesse momento é que estão sendo feitos muitos esforços para nos tirar dessa situação atípica, vamos ter esperança e aguardar que o dia de amanhã seja melhor!

(1)  CARR, D. Sharing research data and findings relevant to the novel coronavirus (COVID-19) outbreak. Wellcome Trust 2020. Disponível em: https://wellcome.ac.uk/press-release/sharing-research-data-and-findings-relevant-novel-coronavirus-covid-19-outbreak

(2)  LI, X. et al. Emergence of SARS-CoV-2 through recombination and strong purifying selection. Science Advances. Maio/2020. Doi: 10.1126/sciadv.abb9153. Disponível em: https://advances.sciencemag.org/content/early/2020/05/28/sciadv.abb9153

(3) DHAMA, K. et al. COVID-19, an emerging coronavirus infection: advances and prospects in designing and developing vaccines, immunotherapeutics, and therapeutics. Hum Vaccin Immunother. Março/2020. Doi: 10.1080/21645515.2020.1735227. Disponível em:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7103671/.

(4) KALIL, A.C. Treating COVID-19—Off-Label Drug Use, Compassionate Use, and Randomized Clinical Trials During Pandemics. JAMA. Março /2020. Disponível em : https://www.sbn.org.br/fileadmin/diversos/COVID_evidence_Kalil.pdf.

(5) Clinical Trials, pesquisa testes clínicos para COVID 19. Disponível em: https://clinicaltrials.gov/ct2/results?cond=COVID19&recrs=d&age_v=&gndr=&type=Intr&rslt=&Search=Aplicar+

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O que é Física Médica?

Tenho certeza que você já fez uma radiografia para determinar se estava ou não com sinusite, ou conhece alguém que já fez uma tomografia para verificar se tinha cálculo renal ou quem precisou fazer uma cintilografia após um infarto. E como saber se a imagem que está sendo gerada corresponde mesmo àquela estrutura que queremos ver? Pergunte isso a uma física médica que ela saberá te responder com bastante segurança.

A física médica atravessa nossas rotinas já há muito tempo. Dizem até que Leonardo da Vinci teria sido um dos pioneiros desta área já que usava elementos da matemática e física para encontrar soluções para as demandas da medicina da época e estudar anatomia. Apesar da dúvida em relação ao seu início, é bem estabelecido que seu fortalecimento aconteceu após a descoberta da radioatividade e seu uso em benefício da saúde.

Figura 1 – Homem Vitruviano de DaVinci. Fonte: Wikimedia Commons

A medicina contemporânea está cada vez mais dependente de imagens (sejam radiografias, tomografias, cintilografias, PET-CT etc) e quem certifica que essas imagens são coerentes com a realidade e que os pacientes não estão expostos a doses de radiação ionizante maiores que as necessárias, são os físicos médicos. Dentro de um hospital, há três áreas básicas de atuação: a radioterapia, o radiodiagnóstico e a medicina nuclear (há outras possibilidades também, mas isso é assunto para um outro texto). Grosso modo, na radioterapia, as físicas médicas planejam as doses de radiação e campos que cada paciente vai receber durante suas sessões. É um trabalho personalizado e muito minucioso. No radiodiagnóstico, estes profissionais realizam testes de controle de qualidade em equipamentos, como mamógrafos e tomógrafos, para garantir o melhor custo-benefício entre imagem e dose. Na medicina nuclear há diagnóstico e terapia, então garantimos que cada paciente receba a menor dose possível com a melhor resposta diagnóstica ou terapêutica disponível a cada técnica. Claro que as atribuições são muito mais diversas que estas aqui mencionadas (conversaremos sobre isso em um outro dia), mas essa é uma forma simples, mas acurada de te explicar nosso papel em um hospital.

Figura 2 – Imagem de um exame de PET-CT. Fonte: Wikimedia Commons

Agora, imagine um baile. Temos a pessoa que seleciona as músicas, temos os dançarinos, a pista de dança, o bar…quando tudo funciona harmonicamente para que a experiência do baile seja agradável, o trabalho envolvido para ele acontecer fica invisível. E a música é o fio que costura todos os elementos. A física médica em um serviço de saúde é assim. Um trabalho invisível, que atravessa tantos profissionais da saúde, costurando os saberes harmonicamente de forma que a costura fique invisível, porém forte e coesa.

Figura 3 – Imagem por StockSnap de PixaBay

Quando há físicos médicos qualificados trabalhando em um setor, dificilmente há repetição de exames, as doses de radiação são otimizadas, os funcionários do setor não são expostos desnecessariamente, as terapias são mais eficazes e os pacientes, que são o norte de um serviço de saúde, saem daquela experiência com a certeza que foram atendidos da melhor forma possível. Neste sentido, é muito mais complexo ser uma física médica que uma física teórica, por exemplo, uma vez que nosso campo de trabalho envolve pacientes e todas as variáveis e incertezas associadas às pessoas e a vida (que insiste em extrapolar a ciência). 

Resumindo, a física médica é uma linda profissão que une a dureza e as certezas da física com a fluidez e as variáveis da medicina. Ela se cria e se renova a cada prática como uma ciência de fronteira tendo como ferramentas a tecnologia de ponta, com a frieza de suas frequentes atualizações, e a boa e velha lida humana, que traz o calor das relações e das recompensas que não se pagam com dinheiro.

Referências:

KRON, Tomas; KRISHNAN, Prem, Leonardo DaVinci’s contributions to medical physics and biomedical engineering: celebrating the life of a ‘Polymath’, Australasian Physical & Engineering Sciences in Medicine, v. 42, n. 2, p. 403–405, 2019.

The top 5 ways medical physics has changed health care, EurekAlert!, disponível em: <http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-02/aiop-ttf022808.php&gt;, acesso em: 26 abr. 2020.

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O sangue de pessoas curadas do COVID-19 pode ser a chave para o tratamento da doença?

O COVID-19 é uma virose causada por um novo tipo de β-coronavírus, nomeado de SARS-CoV-2, que causa sintomas de síndrome gripal, como tosse, dor de cabeça e febre, mas que pode ter complicações respiratórias graves e ser fatal. O COVID-19 apresenta alta transmissibilidade, sendo a principal via o contato próximo pessoa-a-pessoa. A transmissão no Brasil já é comunitária, e passamos dos 200 mil casos confirmados e 15 mil mortes. Porém nem tudo são notícias ruins, já temos também mais de 100 mil pessoas recuperadas do COVID-19 só no nosso país.

Essas pessoas recuperadas desenvolvem anticorpos contra o vírus que auxiliam no combate da infecção. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e se espalha pelos tecidos, causando lesão e a sintomatologia, em consequência. Além disso, o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Em teoria, pacientes recuperados do COVID-19 foram capazes de montar uma resposta imunológica eficiente e possuem anticorpos que podem ter aplicação na prevenção e tratamento de outras pessoas. As vacinas estimulam a resposta imune, fazendo com que o nosso corpo produza anticorpos contra os patógenos. No entanto, essa resposta não é imediata, e no caso do COVID-19 não existe ainda uma vacina contra o vírus, por isso uma alternativa é a transfusão de plasma (fração do sangue que contém as proteínas séricas) de pacientes convalescentes, assim transferindo os anticorpos dos doadores para outros pacientes e conferindo a eles uma melhor resposta imune. Essa terapia é chamada de imunização passiva, pois a imunidade já é “dada pronta” para o paciente e não produzida pelo mesmo, e já foi utilizada em outros surtos na história da imunidade, principalmente antes da descoberta dos antibióticos. Com a imunização passiva é possível acelerar, aprimorar e direcionar a resposta imune, tornando-a mais eficaz.

O uso desta forma de terapia tem precedentes históricos, como em:

–  1918 na pandemia de H1N1, a Gripe Espanhola;

– 2003 no surto de SARS-CoV-1, um tipo diferente de Coronavírus;

– 2009-2010, na nova pandemia de H1N1,

– 2012 contra MERS (síndrome respiratória do Oriente médio), causada por diferente tipo de Coronavírus;

– 2013 no surto de Ebola na África.

Os dados variam bastante, mas no caso do H1N1 os estudos mostram a redução da taxa de mortalidade entre 20 e 80% nos pacientes tratados com plasma convalescente. No surto de SARS1, vírus da mesma família que o SARS-Cov-2, o uso da terapia de imunização passiva, reduziu a mortalidade em cerca de 20%.

A terapia de imunização passiva é mais efetiva quando usada profilaticamente do que como tratamento da doença, e quando usada como terapia é mais efetiva quando administrada em seguida ao surgimento dos primeiros sintomas. Essa variação temporal de eficácia pode ser explicada porque no início da doença existem poucas cópias do vírus, e por isso é mais fácil neutralizá-lo, além disso é mais fácil de alterar a resposta inflamatória inicial do que quando a mesma já está exacerbada. A eficácia da terapia depende também da quantidade de anticorpos presente no plasma do doador, por isso os mesmos devem ser mensurados por testes específicos. No combate às infecções virais, reações imunológicas específicas e reações inespecíficas, como a imunidade mediada por células e fatores do sistema complemento, atuam mutuamente e cooperam entre si para induzir a proteção imunológica. Na transfusão de plasma convalescente, além dos anticorpos, outros fatores envolvidos nesse processo seriam transferidos, inclusive proteínas as quais o paciente crítico apresenta deficiência, como fatores de coagulação, o que pode também justificar os benefícios deste tratamento. Pensando em seu uso profilático, o uso do soro de pacientes convalescentes traria benefícios para quem tem um grande risco de adquirir a doença, como os grupos de risco, profissionais da saúde e indivíduos com contato com casos confirmados de COVID-19.

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Imagem 1. Bolsa de plasma de doador coleta em banco de sangue. Fonte: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

Os riscos do uso da terapia de imunização passiva são semelhantes ao de uma transfusão sanguínea qualquer, como a transmissão de outras doenças infecciosas, reações imunológicas e alérgicas. Contudo, os protocolos de triagem utilizados nos bancos de sangue modernos, garantem o mínimo risco desses acontecimentos, com triagem extensiva para doenças infectocontagiosas e vários testes de compatibilidade. Contudo, evidências do uso de soro convalescente em pacientes com SARS1 e MERS, e o uso em pacientes com COVID-19, sugere que a imunização passiva é segura, e que seus benefícios justificariam os riscos.

Os primeiros estudos conduzidos com o uso de plasma convalescente de doadores recuperados no tratamento de pacientes graves com COVID-19, foram realizados na China, com grupos pequenos de pacientes (4 – 5 pacientes). Apesar dos resultados positivos demonstrados (pacientes com melhora clínica e alta médica), como nos estudos de Shen e colaboradores, 2020 e Zhang e colaboradores, 2020,  são necessários estudos controlados, na forma de ensaios clínicos, com um número maior de pacientes para que haja uma evidência científica robusta e confiável. Mesmo iniciais, os bons resultados desses estudos incentivaram e permitiram que outros estudos maiores fossem conduzidos em diversos países. A China divulgou no dia 28 de março, em nota no Xinhua Net, Beijing, que 245 pacientes com COVID-19 foram tratados com plasma de doadores convalescentes, e que 91 mostraram melhora clínica significativa, e a Comissão Nacional de Saúde afirmou que mais 544 doses de plasma convalescente estavam sendo coletadas. No dia 26 de março, a entidade reguladora americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou o uso de plasma de pacientes convalescentes para pacientes críticos do COVID-19, sendo que ensaios clínicos já estão em andamento nos Estados Unidos.

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Imagem 2. Campanha do Banco de Sangue de Stanford, Califórnia, EUA. Fonte:  https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

 

O Banco de Sangue Central da Califórnia foi o primeiro hemocentro nos Estados Unidos a produzir plasma com redução de patógenos a partir de pacientes recuperados do Coronavírus, contando com voluntários doadores de plasma, bem como voluntários profissionais da saúde interessados em receber o plasma desses doadores de forma profilática. Iniciativa semelhante foi desenvolvida pelo Banco de Sangue de Stanford, onde voluntários recuperados do COVID-19 podem doar seu plasma para uso em pacientes críticos da doença. No Brasil, protocolos para avaliação desse tratamento estão sendo desenvolvidos no Hospital Albert Einstein, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, e noInstituto Estadual de Hematologia (Hemorio), entre outros centros de pesquisa que estão estruturando ou iniciando protocolos de pesquisa semelhantes.

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Imagem 3. Separação do plasma convalescente sendo realizada no HEMORIO. Fonte: ttps://www.ofluminense.com.br/saude/1610-ses-inicia-estudos-no-hemorio-para-uso-de-plasma-de-pacientes-curados-no-tratamento-de-infectados-por-coronavirus

Conforme avaliação crítica de Arturo Casadevall e Liise-anne Pirofski, publicada no The Journal of Clinical Investigation, para a implementação do uso dessa forma de terapia, são necessárias seis condições mínimas:

(1)    Doadores, que devem ser aptos à doação sanguínea, com COVID-19 confirmado e já recuperado;

(2)    Bancos de sangue, para realização das coletas dos doadores e transfusões, bem como toda a triagem do sangue;

(3)    Testes confirmatórios para o diagnóstico do COVID-19, pelo padrão ouro que é o RT-PCR;

(4)    Laboratório de virologia para realizar os testes, e avaliação da quantidade de anticorpos neutralizantes in vitro 

(5)    Protocolos de terapia e profilaxia;

(6)    Regulamentação e padronização dos protocolos, na forma de ensaios clínicos randomizados.

 

Tendo em vista o grande impacto da pandemia do COVID-19 sobre toda a humanidade, sua alta taxa de transmissão e o número de mortos que o vírus já causou, somada a ausência de tratamentos específicos torna-se de máxima relevância a investigação, com método científico rígido, de novas alternativas de tratamento. Assim,  o estudo do plasma convalescente é uma potencial esperança de tratamento, bem como permite o maior estudo desses anticorpos, de forma que podemos pensar em preparações mais purificadas e concentradas desses imunobiológicos mais para a frente. Para isso são necessários estudos científicos multicêntricos que permitam demonstrar a efetividade ou a falta da mesma para essa terapia.

A descoberta de um novo tratamento específico para o COVID-19 tem a capacidade de alterar o rumo dessa pandemia, no entanto, é preciso muito rigor científico para conduzir estes estudos. Enquanto não temos em mão os resultados e benefícios dessas terapias alternativas é importante manter as medidas de distanciamento social, o uso de máscaras caseiras na rua, e as medidas de higienização das mãos e etiqueta respiratória.

Referências:

Casadevall A., Pirofski L. The convalescent sera option for cointaining COVID-19. J Clin Invest. 2020. doi.org/10.1172/JCI138003

Central California Blood Center: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

China puts 245 COVID-19 patients on convalescent plasma therapy. News release. Xinhua. February 28, 2020. Acesso em 02/04/2020. http://www.xinhuanet.com/english/2020-02/28/c_138828177.htm.

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Hospital Albert Einstein: https://www.einstein.br/estrutura/banco-sangue/doacao-plasma-para-covid19

Roback J.D., Guarner J. convalescent plasma to treat COVID-19 Possibilities and Challenges. JAMA, 27 MArch, 2020.

Shen C., Wang Z., Zhao F., Yang Y., Li J. et al. Treatment of 5 critically ill patients with COVID-19 with convalescent plasma. JAMA, 27 March, 2020. doi:10.1001/jama.2020.4783

Stanford blood center: https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

Tanne JH. Covid-19: FDA approves use of convalescent plasma to treat critically ill patients. BMJ 2020;368:m1256 doi: 10.1136/bmj.m1256 (Published 26 March 2020)

Zhang B, Liu S, Tan T, Huang W, Dong Y, Chen L, Chen Q, Zhang L, ZhongQ, Zhang X, Zou Y, Zhang S, Treatment with convalescent plasma for critically ill patients with SARS-CoV-2 infection, CHEST (2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.chest.2020.03.039.

 

 

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Explicando um modelo de espalhamento de doenças que tem sido bastante utilizado para descrever a evolução da COVID-19

Quando Newton descreveu a queda de uma maçã usando a lei da gravitação, ele encontrou uma maneira de descrever a queda dos corpos que funciona não só para maçãs, mas para bananas, mangas ou melancias. Funciona não só na Inglaterra, mas em qualquer outro país, ou em qualquer outro planeta. Essa é a beleza de encontrarmos bons modelos. Conhecendo o limite de validade do modelo, podemos fazer generalizações com razoável segurança. Podemos inclusive descrever a queda de uma fruta de que nunca tenhamos ouvido falar antes. 

Quando falamos de espalhamento de doenças, epidemias ou pandemias, existem algumas propriedades que são comuns a este processo independente do tipo da doença: gripe, ebola, rubéola; ou do país onde ela se espalha: China, Inglaterra, Brasil.  No exemplo do Newton, a força que o planeta exerce sobre uma fruta muda dependendo da massa da fruta e do planeta, mas a equação para a força gravitacional com que um corpo atrai o outro continua a mesma. Nos modelos de espalhamento de epidemia cada doença ou cada país pode ter parâmetros diferentes na velocidade do espalhamento ou da recuperação de infectados por exemplo. Mas, em princípio, um modelo epidêmico pode ser útil para estudarmos, inclusive, uma doença nova que descobrimos há apenas alguns meses como a COVID-19.  

Um dos modelos mais utilizados para descrever o espalhamento de doenças é chamado SIR e considera que cada indivíduo de uma população pode estar em 3 estados possíveis: Suscetível  (ainda não foi contaminado e não possui resistência ao vírus), Infectado (doente e transmitindo a doença) ou Removido (indivíduo curado ou morto). Indivíduos Suscetíveis podem tornar-se Infectados quando contaminados e, depois de um certo tempo, se recuperam ou falecem (tornando-se Removidos). Eventualmente todo Infectado se tornará Removido, mas nem todo Suscetível se tornará Infectado. Portanto, consideramos que a quantidade de  pessoas suscetíveis S, infectadas I e removidas R varia no tempo t. A dinâmica da população é exatamente a descrição de como esses números variam no tempo, e pode ser representada por um conjunto de equações diferenciais (equações para taxas de variações no tempo). Essas equações precisam garantir que S diminui cada vez que alguém é infectado (e consequentemente I aumenta) e que I diminui cada vez que alguém se recupera ou morre (o que aumenta R). Assim, numa população com um número fixo de N pessoas, a quantidade total de indivíduos Suscetíveis, mais a de indivíduos Infectados, mais a de pessoas Removidas (S+R+I) é fixa e igual a N.

Uma variante deste modelo chamada SEIR tem sido utilizada pelo grupo de epidemiologistas do Imperial College para estimar a evolução da epidemia de COVID-19 em vários países [1]. Os estudos desse grupo têm influenciado as decisões políticas do Reino Unido sobre a necessidade de isolamento da população. O modelo SEIR descreve como varia no tempo a quantidade de indivíduos Suscetíveis, Expostos (foram contaminados mas estão em período de incubação e ainda não são contagiosos), Infecciosos (o indivíduo pode transmitir a doença e os indivíduos sintomáticos começam a exibir os primeiros sintomas) e Removidos (pessoas isoladas que podem vir a ser curadas, hospitalizadas ou mortas). 

Figura 1: Esquema do modelo SEIR para descrever a propagação de doenças como a COVID-19. O parâmetro mais importante do modelo é o R0 chamado número de reprodução da doença e indica em média quantos Suscetíveis são infectados por um Infeccioso. Modificada das Refs. [2,5].

 

Na figura 1 podemos ter uma ideia do tempo médio que um indivíduo passa nos estados E e I (tempo de incubação e tempo infeccioso). Esses tempos dependem dos dados clínicos da doença e foram estimados na referência [1]. A taxa com que Suscetíveis viram Expostos depende tanto do tempo infeccioso (Tinf) como do parâmetro epidemiológico R0, chamado de número de reprodução de base. Na prática, este é o nosso parâmetro mais importante: R0 representa o número médio de contágios provocados por um indivíduo Infeccioso. No caso da COVID-19 estima-se R0 entre 2,4 e 3,0 [1]. Ou seja, uma pessoa doente, infecta entre 2 e 3 pessoas durante todo o período em que transmite a doença. Portanto a taxa com que o número S diminui no tempo é proporcional a R0/Tinf (veja Ref. [1,2,3] para saber mais detalhes matemáticos do modelo).

O número de reprodução efetivo Ref é proporcional ao R0 e à mobilidade dos indivíduos e, portanto, varia quando medidas de isolamento são tomadas. Por exemplo, se todos os Expostos fossem perfeitamente isolados antes de passarem a ser Infecciosos, eles não transmitiriam a doença para mais ninguém e Ref seria zero. Quando Ref>1 a doença infecciosa se espalha exponencialmente pela população; quando Ref<1 o número de Infecciosos passa a diminuir e a doença não tem potencial para se propagar na população. Para um R0 de 2,7, típico do coronavirus, é necessária uma redução de cerca de 70% na mobilidade das cidades para garantir Ref<1. Esta redução tão rígida é o que temos chamado lockdown.  

Nos últimos dias, o grupo do Imperial College publicou um novo estudo [4] estimando o Ref de vários países baseados na evolução da doença em cada lugar por diferentes métodos. Nesse artigo o Ref do Brasil foi calculado em 2,8 enquanto o da Alemanha foi de 0,8.  Ou seja, mantendo fixas as medidas de isolamento nos dois países, o número de novos infectados deve seguir diminuindo na Alemanha, e aumentando aqui no Brasil. É importante salientar que qualquer diminuição no Ref gera o tão citado achatamento da curva e pode ajudar a não sobrecarregar os hospitais. Por isso, reduções de mobilidade de cerca de 50%, ainda que não garantam a diminuição exponencial do número de infectados (como ocorreria com o lockdown), estão sendo fundamentais para os estados se preparem para enfrentar o pico da epidemia, por exemplo, comprando testes, EPIs, contratando profissionais de saúde e expandindo o número de leitos.

Utilizando dados específico da COVID-19 como porcentagem de pessoas hospitalizadas e taxa de fatalidade da doença por faixa etária, é possível usar o modelo SEIR para estimar o número de leitos que serão utilizados nos hospitais em cada estado. Por exemplo, um grupo de pesquisadores brasileiros tem empregado o modelo do Imperial College [1] para estimar a evolução da doença no estado de Alagoas e em outros estados do Nordeste [4]. Utilizando a pirâmide etária de Alagoas e as proporções de casos hospitalizados, internados em UTI e fatalidades distribuídas por faixa etária (obtidas a partir de dados de COVID-19 na China [1]) foi encontrado que 96,8% dos Removidos terão sintomas leves ou serão assintomáticos, 2,4% precisarão ser internados em leitos normais de hospital e 0,8% precisarão de leitos de UTI (veja Fig. 2) [4].

Figura 2: Esquema do modelo SEIR incluindo as informações sobre os Removidos para estimar número de leitos necessários nos hospitais da região. Os doentes podem ser separados em três grupos: sintomas leves ou assintomáticos, os que necessitam leitos normais de hospital e os que necessitam UTI. Modificada da Ref. [5].

 

Simulações da evolução do modelo SEIR para o estado de Alagoas indicavam que se, no começo de abril, as medidas de isolamento social fossem suspensas seriam necessários mais de 5000 leitos de UTI em junho. Na Fig. 3a vemos os resultados das estimativas de leitos necessários caso não fossem mantidas as medidas de isolamento social iniciadas em março (usando 𝑅0=2,7). Foram utilizados número diferentes de Infecciosos iniciais I(t=0)) para levar em conta a subnotificação dos casos: as linhas tracejadas indicam I(t=0)=30, enquanto as contínuas mostram os resultados para I(t=0)=300. Visto que o número de leitos de UTI no estado em maio será pouco maior que 250, o estudo mostrou não apenas que o isolamento social deveria ser mantido, mas também que a taxa de mobilidade deveria ser ainda menor para diminuir o Ref no estado e achatar a curva roxa na Fig. 3a. De fato, um segundo relatório comparou a ocupação real das UTIs com as simulações para Ref=1,5 considerando a redução na mobilidade graças às medidas de isolamento (ver Fig. 3b.). Esse tipo de previsão pode auxiliar nas decisões políticas de diferentes regiões sobre a necessidade de lockdown e no esclarecimento das dúvidas da sociedade sobre por que tantos sacrifícios são necessários nesses tempos de pandemia. Para saber mais sobre isto indico o excelente vídeo da Ref. [6] e outros sites confiáveis na Ref [7].

 

Figura 3: Simulação computacional utilizando o modelo SEIR com dados do estado de Alagoas para estimar número de leitos hospitalares necessários durante a epidemia de COVID-19. (a) Estimativa no caso sem isolamento social. (b) Estimativa mantendo o isolamento adotado em março e comparação com os dados reais de internados. Modificada da Ref. [5]

 

Referências 

[1] Neil M Ferguson, Daniel Laydon, Gemma Nedjati-Gilaniet al.Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand.Imperial College London (16-03-2020),doi:https://doi.org/10.25561/77482.

[2] Binti Hamzah FA, Lau C, Nazri H, Ligot DV, Lee G, Tan CL, et al. CoronaTracker: World-wide COVID-19 Outbreak Data Analysis and Prediction. [Submitted]. Bull World Health Organ. E-pub: 19 March 2020. doi: http://dx.doi.org/10.2471/BLT.20.255695

[3] O modelo SEIR é matematicamente descrito pelas 4 equações diferenciais a seguir. (É possível também utilizar um modelo SEIR para cada município e acrescentar ao modelo os efeitos da mobilidade das pessoas entre as cidades.)

[4] https://mrc-ide.github.io/covid19-short-term-forecasts/index.html

[5] Relatórios sobre COVID-19 no estado de Alagoas: https://im.ufal.br/laboratorio/led/iniciativas-covid19/.

[6] Vídeo do Átila Iamarindo sobre a necessidade de Lockdown: https://youtu.be/gs-HlvC5iJc

[7] Outros sites úteis e confiáveis com números e informações sobre a pandemia:

https://www.worldometers.info/coronavirus/

https://covid19br.wcota.me/

https://www.comitecientifico-ne.com.br/

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Origem e transmissão: uma visão geral sobre a pandemia do COVID-19

Origem e o vírus 

Em dezembro de 2019, teve início o surto de pneumonia na cidade de Wuhan, na China, sendo os primeiros casos associados ao mercado de frutos do mar da cidade. Em pouco tempo, a doença se espalhou pela China, atingiu outros países, continentes, e tomou as proporções de uma pandemia, conforme decretado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020. No final de janeiro deste ano, a OMS  havia declarado que o novo Coronavírus era uma situação de emergência internacional, sendo um dos seis maiores problemas de saúde pública já registrados, entre eles o H1N1 (2009), a pólio (2014), o Ebola na África (2014), o Zika vírus (2016) e o surto de Ebola na República Democrática do Congo (2019). Este não é o primeiro surto, nem a primeira pandemia que a humanidade enfrenta, como exemplos históricos temos a peste negra, a gripe espanhola, e podemos aprender com as semelhanças desses episódios, como discutido no texto aqui do blog: “O que foi a gripe espanhola e o que a covid-19 tem em comum com ela?”

O agente etiológico da pneumonia foi identificado como um novo β-coronavírus, um vírus envelopado de fita única de RNA, nomeado SARS-CoV-2, e a doença foi chamada de COVID-19. Os Coronavírus são divididos em 4 gêneros, α, β, γ e δ-CoV, sendo que α e β são capazes de infectar mamíferos, enquanto que os demais causam infecções em aves. Antes do surgimento do SARS-CoV2, já existiam 6 CoVs capazes de causar infecção em humanos, contudo 4 causam apenas infecções leves, do trato respiratório superior, com um resfriado normal. Contudo outros ꞵ-coronavírus também são agentes mais agressivos, sendo capazes de causar infecções graves e até mesmo fatais, sendo que em 2003 houve um surto de SARS1 (SARS-CoV-1),e em 2012 de MERS (MERS-Cov) (Síndrome Respiratória do Oriente médio). A MERS tornou-se endêmica no Oriente Médio e desencadeou um grande surto secundário em Coreia do Sul, com alta mortalidade e sem tratamento específico. 

Existem várias teorias a respeito do início da pandemia atual, do COVID-19, no entanto nenhuma confirmada até o momento. Às informações são muito recentes e têm se atualizado constantemente e com grande velocidade, devido a preocupação mundial com este vírus. Os primeiros casos relatados na China, tinham um foco em comum, o mercado de frutos do mar. No entanto, o vírus não é transmitido pelo consumo ou manuseio desses alimentos. Neste mercado também são vendidos, de forma ilegal, animais exóticos e silvestres para consumo, que poderiam também conter o vírus. Outros Coronavírus têm como hospedeiros intermediários morcegos, roedores e camelos. O vírus MERS passou para os humanos, através do contato com camelos, e acredita-se que de alguma forma o vírus SARS-CoV-2 possa estar relacionado ao morcego, ainda que o vínculo do início da infecção não seja claro até o momento. Isso porque a análise do genoma viral, bem como análises evolutivas e filogenéticas do SARS-CoV-2 mostram que a maior similaridade do vírus humano é com o vírus do morcego. O vírus apresenta 79% de similaridade com a família SARS-CoV, e mais de 95% de similaridade com o vírus CoV RaTG13 do morcego. Esses dados reforçam a ideia, de que de alguma forma, o morcego tenha tido um papel importante na transmissão do vírus para humanos, e no início dessa pandemia. 

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Imagem 1. Características e origem do Vírus SARS-CoV-2. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

Transmissão e diagnóstico

 O SARS-CoV-2 tem parado todo o mundo e atraído a atenção de todos, devido a sua altíssima transmissibilidade. Até o dia 05 de maio de 2020, segundo dados do Ministério da Saúde (covid.saude.gov.br), o Brasil registrou 107.780 casos confirmados, 7.321 óbitos e taxa de letalidade de 6,8%, sendo São Paulo o estado mais atingido, com mais de 30 mil casos confirmados. E estes números são ainda subestimados, devido a carência de testagens em massa na população brasileira e aos casos assintomáticos e leves. Estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul, estima que o número real de casos seja até 4 vezes maior do que os confirmados.

A principal rota de transmissão se dá por contato de pessoas sadias com  gotículas expelidas do trato respiratório superior de pessoas infectadas, objetos e/ou superfícies contendo o vírus. A presença do vírus em amostras de soro, urina e fezes não permite que se descarte a possibilidade de outras vias de transmissão. No entanto, é no contato próximo com uma pessoa infectada, sintomática ou não, que está o maior risco de transmissão. Este contato próximo, como uma conversa com a pessoa infectada sem respeitar a distância mínima de 1 metro do outro, é o que permite que o vírus expelido  contamine outras pessoas ou os objetos à sua volta. A principal forma de prevenção é a lavagem de mãos frequentemente com água e sabão, uso de álcool gel (70%), e o distanciamento social. Às importâncias dessa medida são discutidas no texto aqui do blog: Achate a Curva! O que significa crescimento exponencial e o novo coronavírus 

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Imagem 2. Dicas de prevenção do Ministério da Saúde.

 O tempo médio da infecção até o aparecimento dos primeiros sintomas é de 5 dias, porém o vírus pode ficar incubado até 14 dias, sendo contagioso também nesse período. A maioria dos pacientes apresenta bom prognóstico, no entanto dados da população chinesa afetada demonstram que cerca de 18% dos infectados apresenta doença severa, e 3,5% de letalidade. Crianças podem ser importantes vetores da doença, pois a maioria não apresenta sintomas característicos, ou até mesmo nenhum sintoma, mas são transmissoras. A infecção nosocomial (dentro do ambiente hospitalar) também tem se mostrado um grave problema. Os casos entre profissionais da saúde correspondem a 3,8% do total, sendo de suma importância disponibilidade e uso dos EPI (equipamento de proteção individual) e EPC (equipamento de proteção coletiva) para o trabalho na linha de frente, garantindo a segurança de profissionais e pacientes.

Dentre os sintomas mais comuns estão febre, tosse, mal-estar, fadiga e dor de cabeça, alguns poucos pacientes apresentam sintomas do trato gastrointestinal, como vômito e diarreia. Estudo recente mostra também a presença do vírus causando conjuntivite. O sintoma que deve ser um alerta maior na observação desses pacientes é a dificuldade respiratória, pois está relacionada a forma mais severa da doença.

Os idosos (>65 anos) e pessoas com doenças crônicas (hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, diabetes, doenças cardiovasculares, imunossupressão) apresentam complicações com maior frequência e o quadro do COVID-19 tende a evoluir rapidamente nestes pacientes. As complicações incluem síndrome do desconforto respiratório agudo, choque séptico, acidose metabólica difícil de corrigir, disfunção da coagulação, e falência múltipla dos órgãos.

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Imagem 3. Características do hospedeiro que contribuem para a severidade da doença. Imagem adaptada de Guo, et al., 2020, disponível em https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0

O padrão-ouro para o diagnóstico é o PCR (reação em cadeia da polimerase) em tempo real de amostras respiratórias para detecção do material genético do vírus, confirmado por sequenciamento de nova geração, e você pode ler mais sobre isso aqui: Aplicação da Biologia Molecular no Diagnóstico da COVID-19Existem também testes sorológicos, que detectam a presença de anticorpos IgG e IgM contra o vírus. Os testes moleculares são mais sensíveis e específicos, já os testes sorológicos podem apresentar resultado negativo no período de até 7 dias após a infecção, devido a janela imunológica, ou seja, ainda não houve tempo suficiente para que o organismo produza anticorpos. Outras alterações laboratoriais refletem a resposta inflamatória do paciente, porém são pouco específicos. Testes para outros vírus respiratórios, como Influenza A e B, e o vírus Sincicial Respiratório, tem sua importância aumentada neste momento para diagnóstico diferencial e de exclusão.

 

Resposta imune e Opções terapêuticas

A resposta imune é de máxima importância para o controle e resolução da infecção. O SARS-CoV-2 infecta as células humanas pela ligação da proteína S viral ao receptor de angiotensina do tipo 2 (AT2), fusionando sua membrana as células e liberando o seu RNA. O RNA viral é reconhecido por receptores do tipo Toll como um fator estranho (padrão associado à patógenos), desencadeando então uma série de ações do sistema imunológico. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é a chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Drogas antivirais como inibidores da neuraminidase, ganciclovir, aciclovir e ribavirina e corticoesteróides não possuem ação no COVID-19 e não são recomendados. O fármaco antiviral remdesivir apresenta atividade frente a vírus de RNA, e foi eficaz no tratamento do primeiro caso de COVID-19. A cloroquina é um medicamento utilizado para o tratamento da malária e doenças autoimunes com potencial no tratamento do COVID-19, apesar do mecanismo de ação sobre o vírus ainda não ser conhecido. No entanto, alguns estudos já mostraram a ineficácia do tratamento e efeitos adversos graves , inclusive com risco aumentado de morte.  Na Coréia do Sul  e na China foi demonstrada a diminuição da carga viral com uso de lopinavir/ritonavir (Kaletra®) no tratamento de pacientes com COVID-19. Além disso, protocolos com combinação de práticas da medicina Chinesa tradicional e a medicina Ocidental demonstraram bons resultados no tratamento dos casos graves em relatos na China. Outra alternativa em estudo, é o uso do plasma de pacientes convalescentes (terapia de imunização passiva), pois o mesmo contém anticorpos neutralizantes específicos para o vírus.

Não há, até o momento, tratamentos específicos para o COVID-19, sendo o principal objetivo a correção sintomática, principalmente da insuficiência respiratória, sendo que muitos pacientes cursam com necessidade de ventilação mecânica. Isso reforça a necessidade de ensaios clínicos com novas drogas e combinações para o tratamento desses pacientes, permitindo o controle dessa pandemia.   Os cientistas de todo o mundo estão buscando diariamente as respostas para tantas perguntas que ainda temos sobre o SARS-Cov2 e o COVID-19. No entanto, enquanto não temos uma solução, a OMS e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) recomendam a manutenção do isolamento social e a adoção de higiene respiratória para a população, para reduzir a exposição ao vírus, devido a ausência de vacinas, ou tratamento específico e o crescimento exponencial do número de casos. 

 

Referências:

Guo et al. Military Medical Research (2020) 7:11 https://doi.org/10.1186/s40779-020-00240-0 The origin, transmission and clinical therapies on coronavirus disease 2019 (COVID-19) outbreak – an update on the status

 Huilan Tu ,   Sheng Tu ,   Shiqi Gao ,   Anwen Shao ,   Jifang Sheng ,  The epidemiological and clinical features of COVID-19 and lessons from this global infectious public health event, Journal of Infection(2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.jinf.2020.04.011

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/04/15/universidade-de-pelotas-faz-pesquisa-sobre-a-propagacao-do-coronavirus-no-pais.ghtml

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Gao Y, Li T, Han M, Li X, Wu D. et al. Diagnostic Utility of Clinical Laboratory Data Determinations for Patients with the Severe COVID-19.J Med Virol, March 17 2020. doi: 10.1002/jmv.25770.