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CRISPR/Cas: A revolução do século está prestes a enfrentar seu maior desafio

O ano de 2012 foi o responsável por gerar, principalmente nos indivíduos que sofriam com doenças genéticas, uma grande esperança. As cientistas Emmanuelle Charpentier (https://pt.wikipedia.org/wiki/Emmanuelle_Charpentier) e Jennifer Doudna (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jennifer_Doudna) propuseram uma técnica capaz de permitir aos humanos a capacidade de editar o DNA e corrigir erros no genoma humano, responsáveis por causarem doenças.

A técnica proposta é conhecida como CRISPR/Cas9 e é inspirada num mecanismo de defesa bacteriano (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/05/11/entenda-a-nova-arma-da-engenharia-genetica-crisprcas9-e-a-polemica-envolvida/).

Essa técnica, assim como outras duas famosas estratégias com o mesmo fim, é capaz de produzir quebra nas duas fitas do DNA no local para o qual foram destinadas pelo cientista.

No sistema CRISPR/Cas a enzima Cas provoca a quebra no DNA no local em que foi posicionada por uma molécula de RNA, o RNA guia (gRNA). Ele é desenhado pelo manipulador para direcionar a enzima para o local desejado no genoma para que a edição aconteça (Figura 1).

Para corrigir a região com um erro que cause doença, o corte deve ser dirigido pelo gRNA para o local do erro, e o manipulador deve também fornecer trecho de DNA com sequência correta para substituição do trecho errado. Se o desejo for apenas de que a região seja modificada por remoção de alguns pares de bases para impedir a função de algum gene (silenciá-lo), não é necessário fornecer o trecho de DNA citado; apenas a enzima e o RNA são requeridos neste caso.

Figura 1

Figura 1: Representação esquemática da ação da ferramenta de edição sítio-dirigida de genes conhecida como CRISPR/Cas para inserir sequência correta corrigindo erro no DNA. O gRNA encontra-se em amarelo e nuclease Cas (enzima) em vermelho. Modificado de https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0734975017300617?via%3Dihub.

Durante os anos de 2017 e 2018 este blog trouxe até vocês textos abordando diversos progressos científicos alcançados por meio desta tecnologia de edição (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/10/30/trigo-sem-gluten-e-possivel-estamos-chegando-la/ ; https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/08/16/o-primeiro-embriao-humano-corrigido/ ; https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/06/14/celulas-tronco-geneticamente-modificadas-um-novo-tratamento-para-doencas-inflamatorias/ ) e de tecnologias de mesma finalidade (https://cientistasfeministas.wordpress.com/2018/07/04/a-era-da-edicao-de-genes-humanos-para-curar-doencas-comecou/ ).

No entanto, o grande desafio para provar que a metodologia é segura e pode realmente revolucionar a medicina está se iniciando. Doze pacientes que sofrem com anemia falciforme ou beta-talassemia participarão, até 2022, de um estudo clínico na Europa que utilizará CRISPR/Cas visando a correção do DNA dos pacientes (https://www.clinicaltrialsregister.eu/ctr-search/trial/2017-003351-38/DE).

Na Alemanha também serão realizados ensaios semelhantes por empresas com sede nos Estados Unidos: em Boston (Vertex Pharmaceuticals) e em Massachusetts (CRISPR Therapeutics).

Talassemia e anemia falciforme

Ambas as doenças estão relacionadas com produção anormal de hemoglobina: a principal proteína que existe dentro das células vermelhas do sangue e que é responsável pelo transporte de oxigênio em nosso organismo. Essa proteína no humano adulto deve possuir 4 unidades formadoras (subunidades): duas alfa e duas beta (Figura 2), uma configuração diferente da hemoglobina existente no feto (que contém duas cadeias alfa e duas gama).

Figura 2

Figura 2: Estrutura tridimensional da proteína hemoglobina humana do adulto. Fonte: PDB – 1GZX.

Nas talassemias, diferentes mutações no DNA podem levar à produção de formas erradas da subunidade alfa (alfa-talassemia) ou da subunidade beta (beta-talassemia) em diferentes proporções, acarretando diferentes graus de comprometimento da saúde do paciente (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/talassemias_folder.pdf).

Em casos mais graves o paciente pode inclusive necessitar receber transfusões de sangue para manter-se vivo.

Na anemia falciforme, (http://www.abhh.org.br/imprensa/7-verdades-sobre-anemia-falciforme/) a mutação no DNA acarreta produção de subunidade beta com defeito, que leva as células vermelhas (hemácias) a adotarem o formato de foice (Figura 3), comprometendo o transporte de oxigênio. O paciente pode sofrer com obstruções de vasos de pequeno calibre por estas células e a anemia decorrente da destruição destas células de formato atípico também pode torná-los mais propensos a infecções.

Figura 3

Figura 3: Hemácia normal e hemácia com forma de foice da anemia falciforme. Fonte: http://sites.uem.br/drgenetica/hematologia-clinica/hemoglobinopatias/anemia-falciforme

 

Terapias utilizando CRISPR/Cas

Estas terapias dos ensaios clínicos consistem em remover células-alvo dos pacientes, editar o DNA destas em laboratório e devolvê-las aos pacientes de doenças causadas por erros no genoma. Desta forma espera-se melhora no quadro do paciente, e em alguns casos, futuramente, sua cura.

O estudo das empresas americanas consiste em obter de 12 pacientes entre 18 e 35 anos que sofram de beta-talassemia e sejam dependentes de transfusão, células-tronco responsáveis pela geração de células do sangue, conhecidas como HSPCs. Em laboratório visa-se utilizar o sistema CRISPR/Cas para editar região regulatória do gene BCL11A e posteriormente devolver ao paciente, via um cateter venoso central, as células modificadas (https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT03655678 ).

BCL11A está relacionado a impedir a produção de hemoglobina fetal a partir de cerca de 3 meses de idade para a produção de hemoglobinas ser apenas da versão adulta. Se este gene for silenciado, no entanto, espera-se que a produção de hemoglobina fetal possa ocorrer nos pacientes, reduzindo-se os sintomas da beta-talasssemia: visto que os pacientes poderão produzir hemoglobina fetal (que não tem cadeias beta – sítio da mutação que assola os pacientes) para realizar o transporte de oxigênio em seus organismos.

Toda a comunidade científica aguarda ansiosa pelos resultados que poderão tornar a grande promessa de cura de doenças genética através da técnica CRISPR/Cas uma realidade, postergar um pouco mais esta almejada realidade para que ajustes na técnica sejam feitos, ou invalidar este sonho.

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Selênio: um micronutriente de “macro” importância

O Selênio (Se) é um metal do grupo dos calcogênios, de número atômico 34 e massa atômica de 78 u. É encontrado no solo, em alimentos, em microrganismos e no corpo humano, sendo considerado um elemento traço ou micronutriente, pois é um dos muitos elementos e vitaminas que o ser humano precisa, em quantidades mínimas (microgramas/litro), para sobreviver. Devido à suas múltiplas funções, o selênio tem sido alvo de muitos estudos.

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O selênio é proveniente da dieta, sendo encontrado em diversos alimentos. Sua concentração varia também de acordo com as características do solo ou água, influenciando quanto deste elemento será fixada aos alimentos neles produzidos. O conteúdo sérico de selênio varia entre diferentes populações, de acordo com os hábitos e características dos alimentos ingeridos.

Além disso, cerca de 50% da população dos Estados Unidos faz suplementação com selênio. Os valores de referência para o selênio no soro de humanos variam entre 46 a 143 mcg/mL, sendo que a deficiência é associada com várias doenças. O consumo diário recomendado de selênio é de cerca de 60 mcg/dia. Diversos ensaios clínicos estudaram, também o efeito benéfico da suplementação dietética de selênio. É preciso ter cuidado, já que em sua forma inorgânica torna-se tóxico em doses altas.

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O selênio nos alimentos (microgramas/100g alimento): castanhas, atum, ostras, fígado de peru, caviar, mexilhões, gergelim, ovos, arroz integral, milho, queijo, coco.  Imagem disponível em: http://marcelosgaribaldi.blogspot.com/2017/08/el-mineral-selenio_9.html.

 

Em 2012, Margaret Rayman, professora da faculdade de Saúde e Ciências Médicas da Universidade de Surrey, no Reino Unido, publicou uma extensa revisão sobre a importância do selênio na saúde, na conceituada revista Lancet, intitulada “Selênio e a saúde humana”. O selênio possui efeitos sistêmicos e complexos sobre o nosso organismo, que ainda não são totalmente compreendidos. No entanto, sabemos da importância de sua ação como antioxidante, anti-inflamatório, neuroprotetor e estimulador do sistema imunológico. No corpo humano, o selênio é encontrado associado à selenoproteínas com extensa distribuição e diferentes funções, como ativação de células imunológicas e participação na detoxificação do organismo. Níveis baixos de selênio sérico, bem como mutações nas selenoproteínas foram associados com maior risco para diversas doenças (câncer, doenças neurodegenerativas, doenças infecciosas, etc) o que levantou muitos estudos sobre este elemento.

São descritas 25 selenoproteínas em humanos, que incorporam o aminoácido selenocisteína pelo código genético UGA no RNA mensageiro. O micro-elemento é carreado no corpo por diversos transportadores – a família SEPP.

Níveis elevados de selênio no soro são associados com menor risco de mortalidade. Um grande estudo conduzido nos EUA, por Joachim Beyes, Ana Navas-Acien e Eliseo Guallar, dos Departamentos de Epidemiologia e Medicina, Centro Welch de Prevenção, Epidemiologia e Pesquisa Clínica, e Ciências da Saúde do Hospital Médico Johns Hopkins, com a participação de mais de 13 mil adultos acompanhados por 12 anos, o “US Third National Health and Nutrition Examination Survey”, mostrou que níveis séricos superiores à 135 mcg/mL estavam associados a redução da mortalidade. Outro estudo, conduzido na França, com 1389 idosos, mostrou que níveis baixos de selênio estão associados à maior predisposição para o câncer e no estudo “Baltimore Women’s Health and Aging Study”, um estudo com mulheres idosas foi demonstrada que a deficiência de selênio aumenta o risco de morte em 5 anos.

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Figura 1. Hazard ajustado para todas as causas de mortalidade por concentração sérica de selênio, nos participantes do US Third National Health and Nutrition Examination Survey. Podemos ver na curva vermelha, que os valores maiores de selênio são acompanhados de queda no risco de mortalidade.

 

O selênio possui grande importância no Sistema imunológico. Há evidências de que o selênio estimule o sistema imune, inclusive atuando sobre a proliferação e ativação de células T, aumentando a citotoxicidade mediada por linfócitos CTL (citotóxicos) e a atividade de células NK (natural killers). Em um estudo conduzido no Arizona, com idosos, a suplementação de 400𝜇g de selênio diárias, aumentou significativamente a produção de leucócitos, foi observado um aumento de 27% da contagem de células T, quando comparados aos pacientes que receberam placebo.

Os níveis séricos de selênio também interferem no prognóstico e curso de infecções bacterianas e virais. A deficiência de selênio está associada com diminuição da sobrevida de pacientes infectados com HIV. Um dos motivos seria a associação entre concentrações mais baixas de selênio (mesmo que ainda não seja considerado uma deficiência) com contagens mais baixas de linfócitos T CD4+ e alta carga viral. Estudos do tipo ensaio clínico randomizado e controlado já demonstraram benefícios da suplementação de selênio em pacientes HIV/AIDS.

No meu projeto de mestrado, desenvolvido na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde) estudamos a relação entre polimorfismos em um transportador de selênio codificado pelo gene SEP15 e o tempo de progressão do HIV a AIDS. O paciente infectado com HIV leva em média 3 anos para manifestar os sintomas, sendo então constatada a AIDS. No entanto, existem pessoas que fogem dessa média: os progressores rápidos – desenvolvem a AIDS em até um ano da infecção – e os progressores lentos – que continuam sem tratamento e sem progressão por tempo indeterminado (10 anos ou até mais). Nós conseguimos demonstrar que os pacientes portadores do genótipo AA no polimorfismo rs5859 do gene SEP15, codificador de uma proteína transportadora de selênio, possuem maior risco de progredir da infecção do HIV para AIDS em menor tempo. Outros estudos já mostraram que essa mutação diminui a função do transportador, o que pode impactar nas funções do selênio nas células. Esse achado mostra importância da análise genética dos pacientes e auxilia na predição do tempo de progressão para AIDS.

 

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Figura 2. Risco cumulativo de progressão a AIDS em relação aos anos de infecção pelo HIV no mutante homozigoto AA em comparação com GG e GA para o polimorfismo em estudo.

 

O selênio também possui importância no desenvolvimento e conservação do tecido cerebral. Níveis adequados de selênio durante a vida, favorecem um envelhecimento saudável, pois combatem o estresse oxidativo e a morte celular. A proteína SEPP1 está envolvida em processos de neuroproteção, sobrevivência neuronal e prevenção de apoptose nas células do tecido nervoso. Sua deficiência ou mutação já foi associada com risco aumentado de Parkinson, Alzheimer, demência e síndromes convulsivas. Em um estudo realizado na China com 2000 idosos, foi demonstrado que níveis baixos de selênio também estão associados a déficit cognitivo e menor QI (coeficiente de inteligência).

 

Na fertilidade e sistema reprodutor o selênio também possui importância. Proteínas contendo selênio, como a GPx4 atuam sobre os espermatozoides, permitindo sua conservação e maior motilidade. Em mulheres, a deficiência de selênio é associada ao risco de pré-eclâmpsia. Isso porque o selênio atua como antioxidante, anti-inflamatório, reduzindo dano aos vasos também. Uma mutação na proteína SEPS1 também já foi associada ao risco aumentado de pré-eclâmpsia.
No corpo humano, o tecido que maior concentra selênio é a glândula tireóide. O selênio está envolvido no processo de síntese dos hormônios T3 e T4, amplamente responsáveis pelo controle do metabolismo. Além disso, esse micronutriente desempenha uma função protetora sobre a tireóide, diminuindo a incidência de doenças auto-imunes. Alguns estudos já demonstraram que a suplementação de selênio diminui os sintomas da Tireoidite de Hashimoto, doença auto-imune caracterizada por inflamação que leva ao hipertireoidismo.
O selênio também pode influenciar na ocorrência de diferentes tipos de câncer. Há evidências de que a suplementação com selênio diminui o risco de câncer de pulmão, bexiga, do colorretal, fígado, esôfago, tireóide e próstata. O estudo US Multiethnic Cohort, demonstrou que os 25% dos pacientes homens com os mais altos valores séricos de selênio, na população estudada, possuíam um risco 41% menor de desenvolver câncer de próstata. Outro estudo com foco na prevenção do câncer, com 1312 participantes com histórico prévio de câncer de pele não-melanoma, chamado de “Nutritional Prevention of Cancer (NPC) trial”, testou efeitos da suplementação diária de selênio (200𝜇g/dia) durante 4 a 5 anos. Esse estudo demonstrou que a suplementação de selênio está associada a redução da taxa de mortalidade, em 50%, e redução da incidência total de diferentes tipos de câncer (37%), chegando até mesmo uma redução de 52% do risco de câncer de próstata em homens.
Devido a essas diversas funções sobre o nosso organismo, o selênio também tem sido alvo de estudos da farmacologia. Como sua forma inorgânica é tóxica em quantidades elevadas no ser humano, voltou-se a atenção para compostos orgânicos de selênio. Esses compostos têm sido estudados desde a década de 1980, e apresentam resultados promissores como hepatoprotetores, neuroprotetores, anti-inflamatórios, antibacterianos, antifúngicos e antivirais.

 
O selênio possui múltiplas funções, interferindo em diversas etapas do nosso metabolismo e no estado de saúde-doença do corpo. No entanto, esses mecanismos são complexos e ainda pouco conhecidos. Isso abre portas e levanta a curiosidade para muitos estudos sobre a ação do selênio na saúde humana, bem como um potencial fármaco ou aliado na suplementação dietética.

Apesar disso, devemos estar atentos aos riscos de uma superexposição ao mesmo, que causam danos ao sistema nervoso central, podendo se manifestar como disfunções motoras e sensoriais. Por isso é importante, antes de qualquer suplementação, conhecer a reserva de selênio de cada paciente, suas demandas e características individuais.

Referências:
Margareth P. Rayman . Selenium and human health. Lancet 2012; 379: 1256–68
Jéssica Louise Benelli, Rubia Marılia de Medeiros, Maria Cristina Cotta Matte, Marineide Gonçalves de Melo, Sabrina Esteves de Matos Almeida, and Marilu Fiegenbaum. Role of SEP15 Gene Polymorphisms in the Time of Progression to AIDS. GENETIC TESTING AND MOLECULAR BIOMARKERS Volume 20, Number 7, 2016.
Zhonglin Cai, Jianzhong Zhang, Hongjun Li. Selenium, aging and aging-related diseases. Vol.:(0123456789) Aging Clinical and Experimental Research, 2018.

 

 

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Redução de açúcares dos alimentos industrializados: o que muda com o acordo?

No final de novembro deste ano (26/11), o Ministério da Saúde assinou um acordo com os presidentes de associações do setor produtivo de alimentos, com o objetivo de reduzir o teor de açúcar de cinco categorias de alimentos: 1) bebidas adoçadas (refrigerantes, néctares e refrescos); 2) biscoitos (biscoitos doces sem recheio, exceto, biscoitos maria e maisena, biscoitos doces recheados, biscoitos wafers e rosquinhas; 3) bolos e misturas para bolos; 4) achocolatados em pó e produtos similares; e 5) produtos lácteos. A lista completa de produtos e os itens do acordo podem ser lidos na íntegra aqui

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Por meio desse acordo, estima-se reduzir um total 144 mil toneladas de açúcar dos produtos até 2022. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizará o monitoramento da redução do açúcar na formulação dos produtos a cada dois anos, sendo a primeira análise no final de 2020. Fazem parte do acordo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR), a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (ABIMAPI) e a Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos) {1}.

Segundo dados do Ministério da Saúde, as metas propostas  foram estabelecidas na forma de quantidade de açúcar por porção do alimento, baseadas em critérios que envolvem desde o consumo de açúcar pela população  e distribuição dos teores de açúcar dos alimentos até a necessidade de redução dos níveis máximos de açúcar do alimento; queda dos teores de açúcares livres não resultantes em aumento no valor energético e de adição ou substituição por adoçantes, além do percentual de produtos a serem reformulados para atingirem à meta. Cada tipo de produto possui uma meta individual de redução da quantidade de açúcar por porção, como pode ser lido no acordo. Os biscoitos e produtos lácteos terão os maiores percentuais de meta para redução do alimento até 2022, com a meta de retirar 62,4% e 53,9% de açúcar da composição, respectivamente. Para bolos, a meta é de até 32,4% e para as misturas para bolos, até 46,1% do teor de açúcar. Já os achocolatados, tem a meta de cair até 10,5% e as bebidas açucaradas até 33,8%.

A medida faz parte dos esforços do Brasil para auxiliar no controle das doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes e as doenças cardiovasculares (leia mais sobre o tema nos textos do blog). Segundo o Ministério da Saúde, o país se destaca como um dos primeiros países do mundo a buscar a diminuição do açúcar nos alimentos industrializados. Apesar de números totais robustos, o acordo divide opiniões de especialistas da área de Alimentação e Nutrição, e é considerado fraco. As críticas incluem o caráter voluntário da medida, a falta de punições para quem não cumprir o acordo e metas tímidas, que não atingem alguns dos produtos mais consumidos pelos brasileiros, como refrigerantes e bebidas açucaradas. Ao lermos o rótulo dos refrigerantes mais famosos, por exemplo, observa-se que eles possuem 10,5 gramas de açúcar para cada 100 mililitros, enquanto que a meta para 2022 é de 10,6 gramas por 100 mililitros. Segundo dados da pesquisa do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), 26% da população brasileira entrevistada consome refrigerantes pelo menos cinco dias na semana, sendo mais frequente entre os mais jovens{2}. Outro importante estudo brasileiro, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que nos últimos anos houve redução do consumo do açúcar de mesa, mas cresce a ingestão de açúcares adicionados a alimentos e bebidas em produtos industrializados, como refrigerantes, néctares, balas, biscoitos, bolos e chocolates {3}. Ou seja, o aumento do consumo de açúcar em alimentos prontos para consumo representa um cenário muito preocupante.

O “desânimo” de alguns especialistas em relação ao acordo também está pautado no desdobramento de um acordo anterior para redução do sódio dos alimentos, assinado em 2011. Da mesma forma que o atual, o acordo do sódio previa metas já alcançadas pela maioria dos produtos. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) foi constatado que o valor estipulado era muito baixo e ineficiente, exatamente porque a maioria dos produtos já estavam dentro da meta estabelecida {4}. Para a nutricionista do Idec, medidas eficazes são aquelas que realmente apoiam a escolha de alimentos saudáveis pelo consumidor, e que exigem maior controle do Estado. Um exemplo é a mudança dos rótulos dos alimentos, que passariam a conter advertências para o teor de sódio e açúcar, por exemplo, empoderando o consumidor. A inclusão das advertências nos rótulos é um projeto de lei, ainda em votação (link para votar), e precisa muito do apoio de toda a população{5}.

Outra medida interessante é a taxação extra de produtos industrializados.

Medidas similares já foram adotadas por países como Colômbia e México, onde se aumentou a taxação de impostos sobre produtos açucarados. O impacto da medida ainda está sendo avaliadoem pesquisas da área de saúde pública, mas já é considerada estratégia importante com benefícios sociais, econômicos e para a saúde , mostrando redução da probabilidade de compra e ingestão de açúcar especialmente nas populações de menor renda{6,7,8}.

A única certeza que se tem é que para enfrentar as doenças crônicas são necessárias ações em diferentes frentes. A alimentação adequada e saudável constitui um dos principais pilares para a promoção da saúde. Para que essa alimentação saudável seja possível,  é imprescindível a participação da sociedade, compartilhando informações e manifestando posicionamentos – afinal o maior poder é dos consumidores.

Referências

  1. http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44777-brasil-assume-meta-para-reduzir-144-mil-toneladas-de-acucar-ate-2022
  2. https://www.ans.gov.br/images/Vigitel_Saude_Suplementar.pdf
  3. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063.pdf
  4. https://idec.org.br/em-acao/artigo/acordo-para-reduco-de-sodio-nos-produtos-industrializados-no-e-eficiente-entrevista-especial-com-ana-paula-bortoletto
  5. http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SAUDE/563665-PROJETO-PREVE-ADVERTENCIA-EM-ROTULOS-DE-ALIMENTOS-PROCESSADOS-E-ULTRAPROCESSADOS.html
  6. Backholer, K., & Martin, J. (2017). Sugar-sweetened beverage tax: The inconvenient truths. Public Health Nutrition, 20(18), 3225-3227. doi:10.1017/S1368980017003330
  7. Nakamura R, Mirelman AJ, Cuadrado C, Silva-Illanes N, Dunstan J, Suhrcke M. Evaluating the 2014 sugar-sweetened beverage tax in Chile: An observational study in urban areas. PLoS Med. 2018 Jul 3;15(7):e1002596. doi: 10.1371/journal.pmed.1002596. eCollection 2018 Jul.
  8. Álvarez-Sánchez C, Contento I, Jiménez-Aguilar A, et al. Does the Mexican sugar-sweetened beverage tax have a signaling effect? ENSANUT 2016. PLoS One. 2018;13(8):e0199337. Published 2018 Aug 22. doi:10.1371/journal.pone.0199337

 

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Programa Mais Médicos

Com as mudanças populacionais, epidemiológicas e econômicas, os sistemas de saúde em diversos países do mundo têm passado por mudanças. No Brasil, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma estratégia de desenvolvimento social, possibilitando importante melhoria na qualidade de vida da população brasileira. A porta de entrada preferencial do sistema é a Atenção Básica à Saúde, onde atuam os trabalhadores mais próximos às residências e cotidiano das pessoas. O acesso aos cuidados em saúde vem melhorando, mas o princípio constitucional de integralidade no SUS ainda é um grande desafio.

A integralidade, como já foi colocado nesta coluna, compreende e reforça a importância do olhar singular a cada pessoa e sua inserção com qualidade no SUS, em uso da Rede de Atenção à Saúde. Essa aplicação exige uma série de ações estruturantes para se consolidar e uma dessas ações é a distribuição de profissionais da área da saúde em território nacional.

A desigualdade geográfica na distribuição de médicos é uma realidade ao redor do mundo. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 50% da população mundial vive em áreas remotas, tendo acesso a 25% de cobertura médica. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde (MS), 81% dos estados tinham uma densidade de distribuição de médicos por habitante abaixo da média nacional antes de 2013. A tabela do MS divulgada em 2014 é pautada na variável de médicos a cada 1000 habitantes e o Brasil conta com uma proporção de 1,8 médicos/1000 habitantes. Cinco desses estados possuíam um médico  a cada 100 mil habitantes. Abaixo, segue a tabela do MS com dados sobre a distribuição de médicos em diversos países latino-americanos à esquerda e americanos e europeus à direita, finalizando com os dados de Cuba.

tabela mais medicos

Diversos países têm buscado estratégias para ampliar a cobertura da atenção básica em áreas vulneráveis, atraindo profissionais de saúde para estas regiões, como:

  • Políticas de regulação, tais como serviço obrigatório;
  • Incentivos monetários, tais como bolsas de estudo;
  • Incentivos não monetários, como extensão de visto de permanência para estrangeiros ²

    No Brasil, iniciativas foram tomadas para suprir a falta de médicos nos territórios de maior vulnerabilidade. Algumas dessas iniciativas foram os programas de interiorização, visando levar atendimento médico ao interior, (foram três programas de interiorização desenvolvidos, de 1976 a 2011) e o Programa de Valorização dos Profissionais da Atenção Básica (PROVAB). Com a experiência de cada programa, foi-se desenhando a complexidade da questão da redistribuição profissional no país. Assim, foi observado que as medidas deveriam expandir a questão do contrato de médicos e considerar aspectos como formação profissional e processo de trabalho. Ainda dentro do PROVAB, em 2013, a contratação dos médicos passou a ser feita pela esfera federal, o valor da bolsa aumentou e foi ofertado um percentual adicional na nota da prova de residência médica aos participantes do programa.

    Em outubro do mesmo ano, foi instituída a Lei 12.871/2013, do Programa Mais Médicos. O mesmo possui três eixos de ação:

  • Infraestrutura: investimento nas redes de atenção à saúde, prioritariamente na atenção básica à saúde;
  • Educação: ampliação e reformas educacionais dos cursos de graduação em medicina e residência médica;
  • Projeto Mais Médicos para o Brasil: fornecimento de médicos em áreas vulneráveis. ²

O processo de instituir os profissionais no Brasil passou por uma série de questões técnicas. O médico deveria passar por quatro semanas de treinamento intensivo realizado pelas universidades brasileiras (linguagem clínica, protocolos assistenciais e SUS). Após isso, o médico recebe o Registro Único do Ministério da Saúde para atuar por um período restrito de tempo, por contrato, de no máximo três anos. Com possibilidade de prorrogação por até mais 3 anos. A prioridade de adesão foi dada aos médicos brasileiros, que preencheram 45% das vagas.Em relação à parceria com a Educação, as Universidades Brasileiras garantiam a supervisão dos participantes e o processos de educação permanente dentro do Programa, fazendo muita diferença na organização do cotidiano de trabalho.

Cabe ressaltar que o chamamento internacional alinhado aos aspectos educacionais proporcionam uma construção de processo de trabalho que valoriza a atenção básica. Isto é, tanto a entrada de profissionais de outros países, com uma formação anterior voltada para saúde pública, quanto a proposta do Programa Mais Médicos de fortalecer a educação médica no Brasil são marcadores de propostas de enfrentamento à iniquidade e fortalecimento da integralidade e princípios e diretrizes do SUS.

Os objetivos de implementar e viabilizar esse Programa são, além de ampliar o acesso, montar um acompanhamento com qualidade. Nesse sentido, a medicina cubana é favorável, pois é especialista em saúde pública e atenção básica.

O processo de formação em Medicina de Cuba é pautado na valorização da saúde pública. A taxa de mortalidade no país é de 4,6 a cada mil crianças nascidas, e a expectativa de vida é de 77,9 anos (dados de janeiro de 2013). No Brasil, a taxa de mortalidade é de 15,6 para mil bebês nascidos, de acordo com o IBGE/2010. Esse dado é representativo para um diagnóstico de saúde local.

Em 2014, estimava-se que Cuba dispunha de cerca de 38 mil profissionais de saúde ligados à política de acordos de cooperação internacional com mais de 60 países (em casos humanitários ou de desastres, o envio é voluntário). Para Cuba, a Medicina não é curativa necessariamente, ela faz uma escuta à demanda do paciente e traça junto com ele os caminhos possíveis.

Em um estudo realizado pela Universidade de Brasília, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal, ³ que analisou os resultados da implementação do Programa, foi observado que:

  • houve redução de internações hospitalares em mais de 50% de municípios com escassez de profissional;
  • 91,2% dos municípios na região Norte foram atendidos ( média de 4,9 médicos por município);
  • aumento de 33% no número de consultas realizadas nas cidades atendidas;
  • aumento de 32% de visitas domiciliares realizadas nas cidades atendidas;
  • 57% dos pacientes não tiveram dificuldade em compreender os médicos estrangeiros;
  • 521 mil internações foram evitadas, economizando um terço do planejamento financeiro anual em 2015.

Nas análises qualitativas³, constatou-se que houve alto grau de satisfação nas dimensões “tempo de espera para agendar a consulta” e “atendimento durante a consulta”. Os pacientes relataram que foram ouvidos, as informações foram trocadas de modo simples e que foram compreendidas e que a privacidade foi respeitada. Em relação aos gestores, foi apontado no estudo que eles observaram melhora na integração do médico com as equipes, ampliação da capacidade de diagnóstico de território e maior rapidez para acontecer o atendimento, além do acompanhamento contínuo.

Considerando os resultados apresentados, é possível identificar que o Programa Mais Médicos cumpriu com boa parte de seus objetivos nos anos apresentados.  O diferencial estratégico do Programa, que possibilitou esse tipo de resultado apresentado, além da articulação intrínseca com a Educação, foi a realização de chamamento internacional de profissionais. Em um período menor do que um ano de Programa, 3.785 municípios foram contemplados com 14.462 médicos e 49 países participaram do programa. Das 18.240 vagas, 8.332 são cubanos, 4.525 brasileiros formados no Brasil, outros 2.824 brasileiros que estudaram no exterior e 451 médicos intercambistas de outras nacionalidades. Cerca de 2 mil postos não foram preenchidos. Com Cuba, foi firmado um acordo de cooperação, com participação e validação da Organização Pan-Americana de Saúde.

A recente saída dos médicos cubanos do Programa Mais Médicos pode colocar em risco os resultados positivos apresentados. Das vagas disponibilizadas a brasileiros, poucas foram preenchidas. É necessário refletir sobre o papel da saúde pública no Brasil e os caminhos possíveis para que todas e todos possam ter acesso de qualidade ao cuidado em saúde.

Referências:

1- Princípios do SUS: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2016/08/24/o-sus-as-redes-de-atencao-e-o-direito-a-saude/

2- Oliveira, FP. et al. Mais médicos: um programa brasileiro em uma perspectiva internacional.  Interface 19 (54) Jul-Sep 2015 https://doi.org/10.1590/1807-57622014.1142

3- Santos. LMP. et al. Programa Mais Médicos: uma ação efetiva para reduzir iniquidades em saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 20(11):3547-3552, 2015.

4- Collar, JM. et al. Formulação e impacto do Programa Mais Médicos na atenção e cuidado em saúde: contribuições iniciais e análise comparativa. Saúde em Redes. 2015; 1 (2): 43-56.

5- BRASIL. Lei 12871. Ministério da Saúde. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12871.htm.

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Corpo feminino, primeiro território violado: estupro como ferramenta de tortura e genocídio

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Imagem da Internet

Começo este texto trazendo fragmentos do artigo da Veronique Nahoum-Grappe (2011), intitulado Estupros: uma arma de guerra, “os estupros sistemáticos em tempos de guerra visam destruir até populações martirizadas. É no ventre das mulheres que se encarna a loucura genocida dos homens. Violências extremas, gestações não desejadas, transmissões do HIV.” E ela cita exemplos da ex-Iugoslávia e de Ruanda, eu cito o estupro das mulheres negras no Brasil como ferramenta do genocídio da população negra.

O intelectual negro Abdias do Nascimento nos explica sobre isso em seu livro “O Genocídio do Negro Brasileiro” (que teve sua primeira edição lançada em 1977 e com nova edição em 2017), e em um dos capítulos ele vai tratar sobre estratégias de branqueamento da população brasileira. Segundo ele, o processo de miscigenação, fundamentado na exploração sexual da mulher negra, foi erguido como um fenômeno de puro e simples genocídio. O problema seria resolvido pela eliminação da população afrodescendente. Com o crescimento da população mulata, a raça negra iria desaparecendo sob a coação do progressivo clareamento da população do país.

A programação deliberada dos estupros, chamados de “estupros sistemáticos” define seu sentido genocida, ao considerar que tocar o gene no lugar em que esse se reproduz, no ventre das mulheres, permite eliminar, na imaginação, toda a comunidade inimiga ou não desejada em sua essência coletiva (Veronique, 2011).

Com isso, o texto tem como proposito dialogar com a ideia do corpo feminino como primeiro território violado em zonas de guerra, conflitos e operação militar. As estruturas de opressão, no qual atravessam, o racismo, sexismo e o patriarcalismo, identificam os corpos das mulheres territórios repletos de identidades, com marcas de uma população, um povo ou uma etnia/raça. Neste sentido, os estupros realizados têm como princípio a violação do corpo da mulher e a negação da vida, estendida à comunidade, o corpo não está só, ele carrega histórias.

Ao pensar no corpo como território, resgato um texto da feminista Silvia Camurça e nele ela diz “a ideia de ‘nosso corpo, nosso território’, propomos tomar o corpo como território onde nossa vida habita, algo inseparável da própria vida que se realiza através e pelo corpo, nossa base material de existência humana: meu corpo sou eu”. Com isso essa insígnia “nosso corpo, nosso território” mantém o centro da demanda e da denúncia colocada em público nos anos 1970 (‘nosso corpo nos pertence’) e vincula à luta contra a expropriação de outros territórios, lugares de existência coletiva, luta travada por mulheres e homens, quilombolas e de populações tradicionais do Brasil e de outros países da América Latina (Nosso corpo, nosso primeiro território!).

Afunilando o diálogo, trago alguns exemplos recentes, o caso amplamente divulgado, das meninas e mulheres da Nigéria que foram sequestradas e estupradas pelo grupo extremista Boko Haram, segundo o relatório das (Nações Unidas) ONU, o grupo utiliza da violência sexual como tática de guerra, além de levar as mulheres e meninas para o casamento forçado e escravidão sexual, segundo estimativa da ONU são cerca de 7.000 envolvidas neste ambiente de violência (Estado Islâmico e Boko Haram usam estupro como tática de guerra, diz ONU).

No México, mulheres foram estupradas por policiais, durante uma operação policial que reprimiu duramente uma manifestação em San Salvador Atenco, no Estado do México, no centro do país em 2006. O país foi acusado de tortura sexual na Corte Interamericana de Direitos Humanos, este caso foi relatado recentemente pela BBC News (‘Fui estuprada por vários policiais’: as mulheres que acusam o México de tortura sexual).

A Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro recebeu relatos, agora em 2018,  de uma série de violações praticadas por militares desde o início da intervenção federal na segurança pública do Estado e que meninas estão sendo estupradas por policiais durante a intervenção, além disso, as meninas também sofrem abuso sexual durante a abordagem da polícia ao serem revistadas por Policiais Militares homens, o que contraria a lei — o artigo 249 do Código de Processo Penal afirma que a busca em mulher será feita por outra mulher, se não importar retardamento ou prejuízo da diligência (Policiais estupraram meninas durante intervenção no Rio, aponta relatório da Defensoria Pública).

Para Veronique (2011) o estupro é, por excelência, o crime de profanação contra o corpo feminino e, por meio dele, contra toda a promessa de vida do conjunto da comunidade. Neste sentido, a feminista negra Kimberlé Crenshaw critica a ausência do olhar pela ótica da discriminação interseccional sofrida pelas mulheres vítimas dos estupros “sistemáticos” em Ruanda e na Bósnia, em seu artigo “Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero” (2002) ela evidencia que a denúncia e a indignação dos estupros “sistemáticos” se apresentam relacionadas a discriminação racial, pois foi considerado que a motivação da violência sexual ocorreu por questões étnicas. É evidente que são as mulheres as mais atingidas, pois elas são percebidas como representantes da honra simbólica da cultura e como guardiãs genéticas da comunidade. Se por um lado, o ataque à comunidade tenha sido execrado como genocídio étnico, por outro, essa indignação não sinalizou preocupações com suas vítimas diretas, que sofreram discriminação e violência de gênero, as mulheres.

É preciso ampliar a lente a partir do olhar interseccional da discriminação, pois o estupro é uma ferramenta multifuncional da opressão, que funciona como mecanismo de tortura ficando à disposição da misoginia e do patriarcado e como arma de guerra serve de meios para a realização do genocídio e a eliminação dos indesejáveis, a interações destas opressões (racismo e sexismo) atingem os corpos das mulheres negras, indígenas e de outros grupos marginalizados de forma redobrada.

Outros casos:

Grécia: ocorre um estupro por semana no campo de refugiados em Moria, segundo ONG

Unicef: 75% das crianças refugiadas sofrem espancamento e estupro na Líbia

Referencias:

Veronique Nahoum-Grappe. Estupro: uma arma de guerra. Org: Sandrine Treiner, Christine Ockrent, Nicia Adan Bonatti. Editora: Bertrand Brasil, 2011

Abdias Nascimento. O Genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. Perspectiva: São Paulo, 2017

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Segurança alimentar e nutricional: precisamos falar sobre isso

Consea

16 de outubro: Dia Mundial da Alimentação, uma celebração da criação da FAO-ONU

 

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) comemora o Dia Mundial da Alimentação no dia 16 de outubro de cada ano para celebrar a fundação da Organização, ocorrida em 1945. Os eventos são organizados em mais de 150 países, tornando-se um dos dias mais celebrados no calendário da ONU. Esses eventos visam promover a conscientização e a ação global para aqueles que sofrem com a fome e a necessidade de garantir a segurança alimentar e dietas nutritivas para todos(1).

Atualmente o conceito de segurança alimentar vai além do acesso ao alimento. Ele perpassa pela qualidade do alimento e seu modo de produção e é melhor definido pelo termo “segurança alimentar e nutricional (SAN)”.  Segurança alimentar e nutricional pode ser conceituada como a garantia do direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidades suficientes e de modo permanente, com base em práticas alimentares saudáveis e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais nem o sistema alimentar futuro, devendo se realizar em bases sustentáveis. Além disso, a alimentação adequada é um requisito básico para a promoção e a proteção da saúde, sendo reconhecida como um fator determinante e condicionante da situação de saúde de indivíduos e coletividades(1,2). Desta forma, a SAN implica não somente em reduzir a fome, mas combater todos os agravos à saúde decorrentes da má alimentação, incluindo a obesidade e as doenças crônicas. Atualmente, o Brasil vive a situação chamada transição nutricional, em que há aumento da obesidade em detrimento da desnutrição – sendo assim alcançar a SAN é um grande desafio.

E a nossa alimentação vai mal: nos últimos dez anos houve redução do consumo de alimentos in natura, como frutas e verduras, e aumento do consumo de ultra-processados. O prato típico do brasileiro, o famoso arroz com feijão, também está sendo deixado de lado. Paralelamente, dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade da população está obesa e diabética em todas as camadas da população, com crescimento mais acentuado nos últimos dez anos(4).

O estilo de vida atual favorece também o maior número de refeições realizadas fora de casa e o maior consumo de calorias, composta, na maioria dos casos, por alimentos industrializados e ultra-processados como refrigerantes, cerveja, sanduíches, salgados e salgadinhos industrializados. Entretanto, comer mais calorias, não significou melhorar a ingestão de vitaminas e minerais, pois não se observa redução nos casos de anemias e deficiência de vitamina A, considerados problemas de saúde pública. E ainda persistem altas prevalências de desnutrição crônica em grupos vulneráveis, como as crianças indígenas, quilombolas, residentes na região norte do país e aquelas pertencentes às famílias beneficiárias dos programas de transferência de renda, afetando principalmente crianças e mulheres que vivem em bolsões de pobreza (4,5).

Este cenário epidemiológico reflete os avanços do Brasil na luta contra a fome e a desnutrição, porém o acelerado crescimento do excesso de peso em todas as faixas etárias e de renda deixa clara a necessidade de medidas de controle e prevenção do ganho de peso. Nesse sentido, criou-se a agenda de Alimentação e Nutrição, com destaque para a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), implantada em 1999 e atualizada em 2011, com o objetivo de reorganizar, qualificar e aperfeiçoar as ações para o enfrentamento da complexidade da situação alimentar e nutricional da população brasileira. As ações incluem reorganizar a atenção nutricional dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), proporcionar melhor qualificação de todas as pessoas envolvidas no processo alimentar (do campo à mesa), maior incentivo à pesquisa sobre alimentação e nutrição, promoção da participação da população e articulação de diferentes setores da alimentação (5).

E qual o nosso papel nesse cenário? Primeiramente, comer é um ato político. A escolha alimentar de um indivíduo ou de um grupo com base na sua procedência é agir politicamente(6). Minimizar o desperdício de alimentos e priorizar o consumo de produtos originados de sistemas sustentáveis são bons exemplos de ações a serem tomadas no dia a dia. Segundo dados do IBGE, 30% dos alimentos adquiridos são desperdiçados. A legislação brasileira sobre desperdício de alimentos é limitada e dificulta a doação de alimentos, cabendo à sociedade brasileira encontrar sua própria maneira de lidar com o problema. Algumas políticas como a PNAN tem impacto positivo na redução de perdas por meio da criação de bancos de alimentos e restaurantes populares, bem como ações educativas em diferentes espaços sociais. Atualmente, alguns movimentos internacionais também começam a ganhar força no Brasil, como a aquisição de produtos hortícolas fora de padrões estéticos, “SaveFood Brasil”, “Slow Food”, entre outras(7). É essencial que a população conheça a trajetória dos alimentos, da produção até o consumo, ou seja: saber comprar, conservar e aproveitar cada alimento de forma consciente. Medidas simples, como comprar de produtores locais, evitar comprar em quantidades excessivas e planejar as compras diminuem o descarte de alimentos. Um dos principais mitos existentes é que comer adequadamente custa caro – se desperdiçamos menos, usamos nosso dinheiro com consciência. Evitar o desperdício favorece a alimentação saudável – para o corpo e para o planeta.

 

 

Referências

1) http://www.fao.org/brasil/pt/

2) Jaime Patricia Constante, Delmuè Denise Costa Coitinho, Campello Tereza, Silva Denise Oliveira e, Santos Leonor Maria Pacheco. Um olhar sobre a agenda de alimentação e nutrição nos trinta anos do Sistema Único de Saúde. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2018  June [cited  2018  Oct  10] ;  23( 6 ): 1829-1836. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232018000601829&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018236.05392018.

3) Vasconcellos Ana Beatriz Pinto de Almeida, Moura Leides Barroso Azevedo de. Segurança alimentar e nutricional: uma análise da situação da descentralização de sua política pública nacional. Cad. Saúde Pública  [Internet]. 2018  [cited  2018  Oct  10] ;  34( 2 ): e00206816. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2018000205016&lng=en.  Epub Mar 01, 2018.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00206816.

4) http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/abril/17/Vigitel.pdf

5) http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_alimentacao_nutricao.pdf

6) http://www.cfn.org.br/index.php/o-vilao-do-prato-saudavel/

7) Henz, Gilmar Paulo, & Porpino, Gustavo. (2017). Food losses and waste: how Brazil is facing this global challenge?. Horticultura Brasileira, 35(4), 472-482. https://dx.doi.org/10.1590/s0102-053620170402

Imagem: http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/noticias/2017/outubro/dia-mundial-da-alimentacao-seguranca-alimentar-para-migrantes

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Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

SP

Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good