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Somo todos carnívoros? Ou somos todos vegetarianos?

É cada vez mais constante em nossas vida a discussão do que devemos ou não comer. Sugestões de dietas estão por todas as partes, jornal, novela, Twitter, Reddit, na roda do cafezinho do trabalho. Contudo, a motivação que nos leva a essa curiosidade é diferente para cada grupo de pessoas; pode ser a busca por um estilo de vida saudável, pode ser consciência ambiental, solidarização com os animais, guerra contra a indústria alimentícia, moda, intenção de emagrecer ou mesmo a combinação destes e outros fatores.

Uma coisa bastante comum entre os discursos sobre dieta, é afirmar que a “sua” dieta é a correta porque é aquela para qual o nosso corpo é biologicamente preparado para lidar.

Mas o nosso corpo evoluiu para comer o quê?

 

 

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Foto por rawpixel.com em Pexels.com

A questão pode parecer simples inicialmente. Não possuímos características anatômicas de carnívoros – nossos dentes não são ótimos para rasgar a carne como de onças, nossos intestinos são muito longos; mas também não possuímos os dentes de herbívoros ou um intestino tão longo quanto o deles. Isso parece nos dizer que somos onívoros, que significa que comemos de tudo, seja conteúdo vegetal ou animal. Contudo, muitas vezes essas relações entre anatomia e dieta não são tão claras, por exemplo o panda: ele possui caninos que poderiam te levar a concluir que é um carnívoro, mas ele come exclusivamente bambu.

 

Como anatomicamente somos parecidos com outros macacos poderíamos olhar na dieta deles para termos uma ideia do que seria nossa dieta “natural”. E assim, poderíamos concluir que comemos frutas, folhas, nozes, insetos e ocasionalmente carne. Outra forma de acessar o que evoluímos para comer, seria olhar para as dietas das populações humana que não reproduzem o sistema social das populações contemporânea-ocidentais. E verificaríamos que em sua maioria, não possui carne como base da alimentação

Então, somo predominantemente vegetarianos?

 

Também não. Um recente estudo publicado na Nature (pelos biólogos Katherine Zink e Daniel Lieberman da Universidade de Harvard), traz mais evidências à velha teoria do órgão caro; dois órgãos que são energeticamente muito custosos são o intestino e o cérebro. Herbívoros precisam de longos intestinos – onde vivem bactérias, para conseguir digerir as complexas células vegetais. Como nossos antepassados tinham uma dieta com base em alimentos de origem vegetal, precisamos de um intestino longo (lembra que mencionei que é mais longo que de um carnívoro?), mas ser capaz de acessar essa fonte extra de energia e proteína fornecida pela carne permitiu que nosso cérebro evoluísse. Ao mesmo tempo que economizamos em não ter um intestino maior ainda, também alocamos energia para o cérebro. Isso foi cerca de 2,6 milhões de anos atrás.

Mas não poderíamos apenas comer mais frutas, verduras, raízes (poxa todo mundo sabe que batata tem muita energia!)? Matematicamente falando, sim. Bastaria comer mais das fontes vegetais, contudo precisaríamos de muito tempo comendo para conseguir o necessário para liberar energia usada na evolução do nosso cérebro. Ainda mais se nossos ancestrais estivessem se alimentando de alimentos crus (o processo de cocção, não apenas ajuda na mastigação fazendo com que você consiga comer mais em menos tempo, mas também na digestão dos nutrientes, contudo, apenas dominamos esses processo 500 mil anos atrás). De acordo com Katherine e Daniel, para que nossos antepassados conseguissem energia suficiente apenas de fontes vegetais eles teriam que mastigar até 15 milhões de vezes em um ano. Isso porque no experimento conduzido por eles, foi utilizado raízes que são mais calóricas que outros alimentos vegetais. (Uma mandioca é mais calórica que um alface ou uma maçã). No experimento eles alimentaram um grupo de voluntários com raízes e outro grupo com carne, e utilizando eletrodos mediram quantas vezes cada grupo precisava mastigar e quanta energia gastavam para ingerir a mesma quantidade calórica.

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Foto por Pixabay em Pexels.com

Nada disso, claro, significa que o consumo de carne aumentou tanto nos humanos contemporâneos. Clique aqui se você quiser acessar a média do consumo de carne por país. O paladar tem um papel fundamental aqui. Assim como o acesso a carne, mas isso já é assunto para uma próxima conversa.

 

Apenas gostaria de terminar dizendo, que não é porque a proteína da carne foi fundamental para a nossa evolução que nossa dieta não pode mudar. Como dito neste outro texto, não paramos de evoluir e há adaptações recentes a dietas como consumo de leite. Além disso, hoje o acesso a alimentos (infelizmente não para todos) é fácil, permitindo que você tenha acesso a outras recursos calóricos e ricos em proteína que não tenha origem animal, e claro, você também pode cozinhar.

 

Considerando nossa crise ambiental, discutir nossa dieta pensando na nossa saúde e na saúde do nosso planeta é uma questão urgente.

 

PARA LER MAIS:

 

Zink, K. D. & Lieberman, D. E. (2016). Impact of meat and lower Palaelithic food processing techniques on chewing in humans. Nature, 531, 500-503

https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/evolution-of-diet/

Fotos de domínio livre a serem usadas (pizabay):

 

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O imaginário mundo binário

Ainda é muito comum que se associe diferenças comportamentais ao sexo, invocando determinismo biológico. Para embasar essas afirmações, muitas pesquisas científicas são tendenciosamente utilizadas de forma antiética para apoiar certas crenças. Mas as interpretações dos dados não são tão simples assim.

Algum desavisado poderia facilmente apoiar diferenças de gênero usando um estudo que mostra que chimpanzés fêmeas e machos têm diferentes comportamentos que emergem já na infância, com machos brincando mais do que fêmeas em atividades mais físicas como “pega-pega”, por exemplo.  

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Contudo, esta pesquisa não comprova que a diferença seria determinada pelo desenvolvimento de traços relacionados ao sexo, ou seja, não está relacionado com ser geneticamente fêmea ou macho. O desenvolvimento comportamental sofre influência do mundo externo ao indivíduo desde quando este encontra-se no útero e durante toda a sua vida.

Nem mesmo variáveis fisiológicas como produção de hormônios possuem uma ligação clara e direta com a determinação de caracteres sexuais. Por exemplo, os hormônios podem variar não somente entre “hormônios femininos” e “masculino”, mas em quantidade assim como em quantidade de receptores a estes hormônios.

Além disso, cada vez mais pesquisas têm mostrado que a diferença de gênero é relacionada a diferenças na socialização. A diferença de gênero começam a ser impostas socialmente antes mesmo do nascimento; quando compramos brinquedos e roupas de acordo com o sexo. O binário entre macho e fêmea começa a ser estabelecido pela sociedade antes mesmo do que pela biologia.

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E esse viés de gênero tem consequências para toda a vida. A identificação com determinadas profissões se dá ainda muito cedo, em torno dos 6 anos, ou seja, antes mesmo que a criança pudesse ser apresentada, por exemplo, à matemática – habilidade comumente associada a homens e não às mulheres.

Esse viés é continuamente reforçado porque acreditamos tanto nestas diferenças que mesmo involuntariamente nós, homens e mulheres, acabamos escolhendo homens em detrimento às mulheres para ocupar cargos. Se apresentado o mesmo currículo, uma hora com o nome de uma candidata mulher e outra de um candidato homem o empregador tende a escolher o homem. 

Ainda assim é muito difícil separar se os comportamentos seriam consequência de diferenças biológicas ou se seriam reflexo do aprendizado.

Para responder esta questão precisaríamos testar duas amostras iguais submetidas a condições ambientais diferentes. Dificilmente, por motivos éticos, poderíamos fazer isso em humanos ou outros primatas, mas e se existissem duas populações que se comportam de maneira parecida, com exceção de talvez uma característica (o comportamento que você quer testar), e fosse possível controlar a variável ambiental que causaria esta diferença?

Por exemplo, sabendo que 1) chimpanzés e bonobos são duas espécies próximas

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filogeneticamente entre si e da espécie humana, portanto são bons modelos para responder questões sobre a evolução do comportamento humano; 2) estas duas espécies no ambiente silvestre possuem muitas semelhanças, como estrutura social, mas os chimpanzés são conhecidos por machos que formam coalizões bastante agressivas enquanto os bonobos são conhecidos por serem pacíficos e 3) a diferença em ser pacífico ou agressivo esta está associada à disponibilidade de frutas de qualidade; como os chimpanzés vivem em um ambiente com restrição de alimentos as fêmeas são forçadas a gastar mais tempo forrageando sozinhas ou em pequenos grupos (para diminuir a concorrência ao achar os frutos), enquanto fêmeas bonobos podem socializar por mais tempo. Em um grupo onde fêmeas socializam mais os machos são menos competitivos e mais pacíficos.

Assim, se pudéssemos fornecer a mesma condição ambiental para estas duas espécies, sem restrição de alimentos; será que os chimpanzés seriam mais pacíficos? Será que a agressividade dos chimpanzés é mesmo reflexo do ambiente ou será que eles são biologicamente violentos? Mas como testar isso sem causar um impacto ambiental? É aqui que entra nesta história duas cientistAs que tiveram uma grande sacada de usar animais de cativeiro (que não sofrem com restrição alimentar) para tentar entender o quanto este comportamento é relacionado ao sexo ou é reposta do ambiente social! Estudar população em cativeiro oferece a perfeita situação para esse teste. E foi o que elas fizeram.

Os resultados mostraram que chimpanzés e bonobos quando em cativeiro, onde não há falta de alimento de qualidade, investem o mesmo tempo em socialização; tanto entre fêmeas quanto em machos. Assim, este trabalho traz mais uma evidência de que os comportamentos sociais de primatas não são determinados pelas suas características sexuais, mas também pelo ambiente; ao mostrar que eles socializam mais se possuem mais tempo para isto, e que sociedades mais pacíficas são resultados do tempo de socialização e não da genética.

Os trabalhos mostrados aqui suportam a premissa que os comportamentos de primatas, tanto primatas humanos quanto não humanos, são flexíveis. Isso significa dizer que mesmo que encontremos uma tendência de comportamento associada com o gênero, não temos condições de dizer que é causada pelo sexo. Se nosso comportamento é um produto da interação com o ambiente em que estamos inseridos, inclusive o social, então tendências encontradas podem apenas ser reflexo de estímulos diferentes. Dessa forma, mesmo havendo menos mulheres em carreiras exatas do que homens, não temos condições de dizer que isto é relacionado ao sexo, pois pode ser apenas uma resposta ao ambiente social, ao estímulos apresentados às meninas e aos meninos desde crianças além de reprodução do estereótipo; homens são escolhidos em detrimento das mulheres, por se acreditar que são melhores em certas áreas e porque não engravidam.

Que tal agora ao invés de apresentar às nossas crianças o binário mundo do rosa e azul, carrinhos e bonecas, apresentassemos um mundo mais arco íris? Em que brinquedos fossem apenas brinquedos que estimulam a criatividade, o raciocínio lógico, a empatia e a liberdade de expressão?

Que tal agora lembrarmos dessas evidências científicas antes de generalizar o comportamento de uma mulher ou homem? Ou ainda quando for contratar, ou escrever uma carta de indicação, e até mesmo quando for xingar alguém!

Tente se libertar do binário, as pessoas são mais diversas e isso é muito mais vantajoso e interessante do que um mundo de apenas dois universos completamente contrários.

E se precisar de apoio: a ciência já está lhe dando as ferramentas para isto.

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Para saber mais:

Surbeck M, Girard-Buttoz C, Boesch, C, Crockford C, Fruth B, Hohmann G, … Mundry R. (2017). Sex-specific association patterns in bonobos and chimpanzees reflect species differences in cooperation. Royal Society Open Science, 4(5), 1-20. DOI: 10.1098/rsos.161081

Rodrigues MA & Boeving ER 2018. Comparative social grooming networks in captive chimpanzees and bonobos. Primates.

E livros:

Gould SJ. The Mismeasure of Man

Marlene Zuk Sexual Selection

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O homem grávido

Nesse último domingo, dia das mães, diversas imagens e vídeos foram compartilhados entre as diversas formas de mídias. Até aí nada de para surpreender, certo? O que me chamou a atenção foi como muitas dessas supostas homenagens eram na realidade propagação de uma normalização (e com quê de heroísmo) da extrema dedicação da mãe ao filho. Ficou bastante claro, que nós como sociedade esperamos que as mães tenham uma dedicação ao trabalho de cuidar sem limites. Que seja normal que ela se coloque em segundo plano, que se desumanize, que tenha condições de vida/trabalho que não seriam aceitas em relação a nenhum outro trabalho. Contudo, deveríamos estar nos perguntando: “estamos sendo justos com as mães?”.

 

ALERTA o cuidado, da maneira que está sendo propagado, injustamente como um fardo único da mulher é na realidade fruto do machismo.

 

Parte deste discurso baseia-se no senso comum de que a mulher irá desenvolver rapidamente uma conexão com a/o filha/o devido ao fato de levar o bebê dentro de si, pois a gestação permite que a mulher vivencie transformações no próprio corpo e que sinta o bebê se mexendo. Dessa forma, acreditamos que a capacidade de gerar, que nos humanos é uma característica exclusiva das fêmeas, as torne as únicas passíveis de mudanças hormonais durante a gravidez.

Isso apenas alimenta o mito de que o cuidar é algo “natural” à mulher e não para o homem.

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Contudo, pesquisas vêm demonstrando que a história não é bem assim. Dois estudos mostraram que homens que se encontram engajados na gravidez, ou seja, que participam e se envolvem, também apresentam mudanças hormonais, como a queda dos níveis de testosterona e estradiol. Os homens que tiveram os maiores declínios em testosterona durante a gestação da companheira se tornaram pais mais dedicados aos cuidados do infante após este nascer, sendo inclusive mais afetuosos.

Já os níveis de progesterona e cortisol são equiparados com os da mãe: se os níveis hormonais da mãe sobem, os do pai sobem também, se os níveis hormonais da mãe diminuem os do pai também diminuem. Apesar dos níveis desses hormônios não serem em números absolutos iguais entre o pai e a mãe, essa flutuação em harmonia indica que as experiências, tanto excitante quanto assustadora da gravidez, são vivenciadas igualmente pelo casal.

Essas mudanças hormonais nos futuros papais não se dão devido a uma gestação interna, obviamente. Elas são, na realidade, uma resposta à relação do casal. Isso mostra que a biologia do homem também responde aos estímulos da gravidez se este encontrar-se em uma relação íntima, de cumplicidade e em que é um suporte social da mulher.

Nossos comportamentos são flexíveis, ou seja, respondem ao nosso ambiente de forma muito eficiente; seja este ambiente físico ou social. Assim, podemos dizer que o ser humano é um animal biologicamente cultural. Se a sociedade em que você se encontra inserido suporta a ideia de um pai presente, espera-se que os homens desta sociedade respondam adequadamente aos estímulos do ambiente-social, podendo ocorrer mudanças fisiológicas que os levem a se comportar da melhor maneira para a vida nesta sociedade, neste caso: mudanças hormonais durante a gravidez da parceira. Agora, se na sociedade em que o homem encontra-se inserido, a estratégia de reprodução mais vantajosa não é o investimento paternal, então não se espera que se crie o laço afetivo com a mãe e consequentemente não haveria as mudanças hormonais acima citadas.

Veja, a melhor estratégia reprodutiva não é, como também difundido erroneamente pelo senso comum, deixar a maior quantidade de filhos, mas a maior quantidade de filhos que consigam sobreviver e se reproduzir. Assim, se em determinada condição, por exemplo, a nossa atual onde o investimento emocional e financeiro para que seu filho seja bem sucedido nessa sociedade é alto, espera se que a estratégia evolutiva mais eficiente para esta sociedade seja a de criar laços e permanecer.

É importante pararmos de perpetuar más interpretações sobre o comportamento humano, principalmente aquelas que possam ser usadas como pseudo-justificativas para comportamentos que não são (ou não deveriam) ser bem vistos na nossa sociedade. Somos flexíveis. Respondemos ao nosso ambiente. Inclusive ao ambiente social.

Se tanto, homens quanto mulheres podem sofrer variações fisiológicas que os preparam para o cuidado parental, continuaremos a dizer que esse é um cargo da mulher? Continuaremos a elogiar o pai que “ajuda” a mãe e esperar que as mães se sacrifiquem pela criação dos filhos? Talvez o que nos reste seja nos pergunta; e agora (que não temos a desculpa do “natural”):

o que vamos ensinar aos nossas filhas e filhos?

 

Para saber mais:
Edelstein, R.S. et al. (2017). Prospective and dyadic association between expectant parents’ prenatal hormone changes and postpartum parenting outcomes. Dev. Psychobiol.

 

Edelstein, RS. Et al. (2014). Prenatal hormones in first-time expectant parents: Longitudinal changes and within-couple correlation. American Journal of Human Biology

 

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Eu, tu e os neandertais

Os neandertais eram hominídeos e são nossos relativos mais próximos. 

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À esqeurda o esqueleto de um neandertal e a direita de um Homo sapiens. Crédito:  American Museum of Natural History.

Isso significa que eles eram muito parecidos com o que somos hoje em dia. Esses nossos parentes não apenas coexistiram, como mantiveram relações sexuais com nossos antepassados. Apesar de não sabermos com que frequência essa ou outras relações sociais aconteceram – ou ainda se eram conscienciais, identificar que havia uma interação entre os neandertais e nossos antepassados pode elucidar o que do comportamento deles – ou do nosso – pode ter levado a que nossa espécie se espalhasse pelo mundo enquanto os neandertais se extinguissem há aproximadamente 40 milhões de anos.

 

 

Um dos comportamentos que nos dizem muito sobre as condições de vida (e que é relativamente fácil de se encontrar evidência em materiais preservados) é o comportamento alimentar. Os neandertais viveram na Eurásia, na época conhecida como Pleistoceno. Hum… talvez essa palavra já lhe remeta à famosa “dieta paleolítica”, não?

 

Pois é, saber do que nossos antepassados e nossos parentes mais próximos se alimentavam pode nos dar valiosas pistas de como nosso corpo lida com o alimento e assim ressignificar as opções dos alimentos disponíveis no mundo moderno. Na realidade isso tem importância no nível pessoal, ajudando você a escolher uma dieta saudável, mas também para medidas públicas como fornecer evidência para programas de subsídio à produção de determinados alimentos, incentivos à complementação alimentar, direcionamento para formulação de merendas e métodos protecionistas contra a produção em massa de produtos prejudiciais.

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E como sabemos o que os hominídeos estavam comendo?

Um recente estudo abordou o tema de forma inovadora e trouxe mais luz – ou maiores discussões sobre o que os neandertais estavam comendo.

Até o momento sabíamos por análises arqueológicas e de isótopos, que os hominídeos eram carnívoros e se alimentavam de ursos polares, lobos, renas, mamutes e rinocerontes. Contudo, esse estudo analisou ossadas de neandertais de diversas localidades e concluiu que na Bélgica – como o esperado – os neandertais tinham uma dieta rica em proteína animal e suas presas incluíam animais como rinocerontes e um tipo de carneiro selvagem que eram bastante característicos do ambiente. Já os neandertais que viviam na Espanha, na região da caverna El Sidrón, comiam muitos cogumelos, castanhas, e produtos que coletavam na floresta.

Dessa forma, esse estudo, usando de análises de micro fissuras e de bactérias conservadas no tártaro dos dentes, mostrou uma relação entre dieta e o ambiente em que os neandertais viviam; ou seja, eles comiam o que havia disponível, não dependendo necessariamente de proteína animal.

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Esse trabalho é muito importante tanto para o entendimento da evolução humana quanto para responder questões bastante atuais sobre a importância da proteína animal no dia a dia. Já que indica que o que guiaria a composição da dieta não seria necessidade por um determinado nutriente, mas a disponibilidade dos recursos.

Vale ressaltar que este trabalho também é bastante importante não apenas pelos resultados, mas porque usou uma técnica muito interessante de análise; além de estudar as micro fissuras causadas nos dentes pelo atrito com os alimentos, eles identificaram geneticamente as bactérias presentes nos tártaros. Como as bactérias possuem uma dieta específica elas são um indício confiável sobre o que aquele indivíduo estava comendo. As bactérias vivem na sua boca podendo se alimentar apenas do que você escolheu comer. Logo, se você é um carnívoro, sua boca contará com uma fauna carnívora, porque aquelas bactérias que só comem vegetais morreriam de fome. Elas podem formar e ficar conservadas no que conhecemos como tártaro por milhares de anos, e além de nos dar pistas do que se comia também nos fornece informação como possíveis doenças que abalavam nossos parentes neandertais (e outros hominídeos e animais). Esse estudo abriu portas para que esses delegados “problemas” bucais, tártaros e abscesso, recebam mais atenção, porque também evidenciou que estes neandertais estavam se utilizando de plantas medicinais já que foi encontrado ácido salicílico (componente ativo da aspirina) e Penicillium.

Fácil então, identificar que não há uma pílula mágica – ou nutriente mágico. Avançamos – e muito – nas metodologias, nos instrumentos e nas interpretações para decifrar o material preservado e desvendar nossa dieta, e cada vez mais acumumulamos evidência da nossa adaptação à flexibilidade. Temos uma estratégia flexível, ou seja, somos especialistas em respondermos ao ambiente. Comemos o que está disponível. E isso foi e ainda é bastante importante para nossa sobrevivência. Talvez, o grande desafio para a nossa saúde não sobreviva nos resquícios do passado, mas no perigo das novas tecnologias.

PARA SABER MAIS:

Weyrich, Duchene, Cooper (2017) Neanderthal behaviour, diet, and disease inferred from ancient DNA in dental calculus. Nature. 544: 357-361

Henry A G, Ungar P S, Passey B H et al (2012).. The diet of Australopithecus sediba. Nature. 487: 90–93

Lieberman, D. A história do corpo humano: evolução, saúde e doença. Editora Zahar.

Créditos das fotos: pixabay (fotos livres)

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As re-descobertas da ciência

Na academia acredita-se que a diversidade acelera o desenvolvimento científico. Isso porque, por mais que um dos pilares da ciência seja objetividade, cientistas são humanos e, portanto, é de se esperar que as experiências de vida e pontos de vista (subjetivo) tenham poder de influenciar quais serão as questões que despertarão curiosidade. Além disso, as experiências de vida e pontos de vista também direcionam como as questões científicas serão respondidas.

Ainda não estamos no mundo perfeito e uma longa estrada a caminho da igualdade ainda deve ser percorrida, mas, nós mulheres estamos conquistando nosso espaço e aumentando nossa representatividade no ambiente acadêmico (e em tantos outros espaços).

Portanto, não é de se espantar que a comunidade científica venha manifestando interesse por objetos de estudo que sempre estiveram ao redor, mas não eram o enfoque de estudos, como por exemplo o corpo feminino. Contudo, para além de novas perguntas, a inserção da mulher na sociedade também permite releituras de hipóteses até então bem aceitas.

Aqui vamos falar de apenas três exemplos de releituras de hipóteses: Sheela-na-gigs, Pinturas rupestres e Vikings.

Sheela-na-gigs

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Imagem e autorização: Commons-wikimídia

 

Sheela-na-gigs são esculturas femininas encontradas na Espanha, Inglaterra e Irlanda, datando do século 11 no primeiro país e 12 nos dois últimos que possuem uma vulva larga que está sendo aberta pelas mãos da própria dona da vulva. Os primeiros relatos sobre elas datam do século 19, e as descreviam como grotescas, feias e aterrorizantes.

A visão moderna do falogocêntrico apresenta diversas explicações possíveis, mas que recaem sobre duas grandes vertentes: ou são representações de fertilidade e maternidade, ou de perigo e aviso. Entre as hipóteses encontram se: 1) estas esculturas poderiam ser feitas e dispostas para lembrar a população do “olho que tudo vê” sendo uma forma de ameaça e controle comportamental da população; 2) relacionam a exposição do útero como um retorno a casa; 3) representações do cotidiano tendo relação com o parto; 4) uma entidade sobre o engano, sobre o poder de atração para algo perigoso e sombrio: “a vagina dentata”, sendo um aviso contra a luxúria sexual.

Contudo, Margaret Murray, uma antropóloga, anglo-indiana, arqueóloga, historiadora, folclorista, egiptologista e mulher (1863-1963) tinha outra interpretação. Ela dizia que as sheela-na-gigs celebravam o amor lesbiano e o autoconhecimento através da masturbação e assim, representam de forma positiva a sexualidade feminina.

Veja, uma mulher traz para o mundo da ciência uma forma alternativa de ver a imagem da mulher e da sua sexualidade, desvinculando a mulher de ambos os papéis usualmente empregados para elas: de reprodução unicamente (sem poder, escolha, independência e prazer) ou de internúncio do mal.

Recentemente Rachel Shanahan, também rebate as comuns interpretações, na sua tese de doutorado. Rachel defende que se as sheela-na-gigs fossem representações pagãs sobre fertilidade, esperaria-se que, como encontrada em outras representações de fertilidade e maternidade, tivesse grandes bustos, e formato mais arredondado do corpo. Contudo, as sheela-na-gigs são magras e sem peitos. Ela também questiona a interpretação de que estas esculturas seriam mensageiras de conduta comportamental, ao discutir que são encontradas em castelos, e que espera-se que imagens de aprendizado e conduta fossem dispostas em igrejas.

Ela também argumenta que as sheela-na-gigs nos trazem uma pequena noção de como a sexualidade da mulher era tratada (e eu incluo “como ainda é”) por algumas culturas: ora interpretada como sorte – por uma sociedade que lhe concedia poder e controle sobre os seres; ora interpretada como praga – por uma sociedade que condena os desejos femininos e amaldiçoava quem ousasse saciá-los. Seja como for, a sexualidade feminina jamais foi interpretada como natural, sendo necessário, sempre, justificar sua existência e suas implicações, boas ou ruins.

Pinturas Rupestres

Screen Shot 2017-10-09 at 07.38.14.pngPinturas rupestres são desenhos feitos por nossos ancestrais que ainda hoje se encontram preservados. Tradicionalmente acredita-se que os homens foram os responsáveis por estes desenhos. Mas qual evidência sugeriria que estas pinturas fossem realmente feitas por machos?

Uma pesquisa recente mostra que ao contrário do imaginado até o momento, mulheres também são responsáveis por pinturas rupestres. Na realidade, são responsáveis pela maioria de uma categoria específica que são impressões das próprias mãos. Este relato abre portas para o debate da importância das mulheres nas demais formas de pinturas rupestres feitas por nossos ancestrais.

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Santa Cruz – Cueva de las Manos – Perito Moreno, Argentina, fonte e permissão: Creative Commons

 

Dean Snow, da universidade da Pensilvânia, analisou as impressões de mãos existentes em 8 cavernas da França e da Espanha e ao comparar o comprimento dos dedos, determinou que 75% das amostras pertencem a mulheres. Mulheres tendem a ter o comprimento dos dedos indicador e anelar parecido entre si enquanto homens possuem o anelar maior que o indicador.

Porque essas mulheres estariam deixando as marcas das mãos delas nas cavernas? Seriam as responsáveis por outros desenhos também? Seriam elas as xamãs do grupo? Seriam representações da subjetividade? Estariam as artes relacionadas ao sexo? Ou talvez a hierarquia ou papel social dentro do grupo? Muito ainda falta ser respondido, mas é essencial entender a importância da inserção das mulheres no mercado, na sociedade como parte ativa desta, porque até hoje a única hipótese alternativa à supremacia masculina foi proposta por Dale Guthrie. Dale argumentava que os desenhos eram feitos por meninos, isso meninOs. A mulher estar presente, não apenas permite que ela traga o seu ponto de vista à ciência, mas que traga visibilidade para o papel social de todas, catalisando inclusive que os próprios homens cientistas possam também começam a enxergar hipóteses alternativas que envolvam mulheres.

Vikings e vikingxs

Em 1880, foi descoberto um túmulo viking. Junto dos restos mortais humanos também foram encontrados:  machado, lança, espada, arco, flechas pesadas e jogos de estratégia. Além disso, também foi encontrada ossadas de animais como cavalos, égua, garanhão. Estas peças indicavam que a pessoa enterrada ali era um guerreiro, de alto escalão e um estrategista, o que significa alguém responsável por decisões de guerra. Em 1880 parecia muito óbvio que apenas um homem poderia ter tido esse papel social. Ou seja, para determinação do papel social do indivíduo foram usadas evidências, já para a determinação do sexo, experiência de vida, ponto de vista. Em 1970, quando já havia tecnologia suficiente para reconhecer se estes restos mortais pertenciam a um homem ou a uma mulher, contudo, ainda parecia muito óbvio que estes restos mortais só poderiam pertencem a um homem. Então, mesmo com a tecnologia em mão, nenhum pesquisador foi atrás de evidências e aqueles restos mortais continuaram sendo ligados ao sexo masculino.

Em 2017, Charlotte Hedenstierna-Jonson e sua equipe questionaram, depois de mais de cem anos, que o sexo daquela ossada não era tão óbvio assim e analisaram o DNA dos restos mortais. Para grande surpresa na comunidade, os restos mortais pertencem ao sexo feminino. Uma mulher, viking, guerreira, estrategista. Uma mulher.

E então?

Estes trabalhos tem uma grande importância, porque ressaltam o quanto conclusões científicas podem ter grande influência da cultura na qual o cientista encontra-se inserido. Por muito tempo, a academia foi composta por homens brancos ocidentais de classe média-alta. Cultura é o que define os papéis de gênero, e a cultura da qual fazemos parte, o faz de forma bastante restrita.

Podemos dizer que as interpretações científicas, como as mostradas aqui tem uma grande influência das construções sociais. Portanto, diversidade sim, é importante na ciência porque ao assumir e justificar o comportamento a ciência pode perigosamente reforçar estereótipos.   

A ciência está inserida na sociedade e é, portanto, contextualizado em um cenário político-histórico. Aceitar este fato não desclassifica a ciência, mas empodera a sociedade.

PARA SABER MAIS

Link para mapas de mapas de localidade das Shellas-na-gigs: http://www.sheelanagig.org/wordpress/map/

Shanahan R.L. Grotesque Sheela-na-gigs? A feminist reclaiming of borders in “The spirit of woman”  Dissertação de mestrado na Universidade de Colorado en Denver. 2015.

https://www.researchgate.net/publication/273042625_Sexual_Dimorphism_in_European_Upper_Paleolithic_Cave_Art

 

 

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O que podemos aprender com as bonobas: MULHERES, UNI-VOS!

Quem nunca ouviu que as mulheres competem entre si? Que é “natural” que é “instintivo” da “natureza”. Mas você já parou pra pensar se isso faz sentido?

Estaríamos nós mulheres competindo pelo recurso “homem”?

Para a maioria dos animais os machos competem pela fêmea, e esta escolhe aquele que a agrada.  Evolutivamente, espera-se que a escolha por estas características agradáveis seja uma pista verdadeira sobre as qualidades genéticas desse macho. Ou seja, a fêmea pavão escolhe o macho com a maior e a mais colorida cauda, porque esta funciona como um estímulo positivo, que a deixa “feliz” e atraída. Simples, né? Mas, porque a fêmea gosta dessa cauda?

A fêmea, em geral, investe muito na reprodução, cabe a ela produzir o óvulo e em muitos casos cuidar do filhote até o momento que este se torne independente. Assim, a escolha de um macho que tenha bons genes é fundamental.

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Mari Fogaça

E, é aqui que entra a cauda do pavão. Veja, ter uma cauda grande e colorida é muito, mas muito custoso. Com esta cauda o macho tem mais chances de ser predado, afinal, além de chamar atenção do predador, a cauda também o deixa mais lento. Além disso, existe um gasto energético no desenvolvimento desta cauda. Então, se este pavão que exibe sua cauda exuberante para a fêmea teve sucesso em não ser predado, e ainda assim conseguiu investir energia para outras atividades como deslocamento e busca de alimento, ele deve ter bons genes! E por isso, essa característica é indicativo de que vale a pena cruzar com este macho. Assim, a fêmea que por acaso curtiu aquele pavão com tão grande e colorida cauda escolheu bons genes, que aumentaram as chances de seus filhotes sobreviverem e se reproduzirem. Portanto, mesmo que a fêmea não faça todo esse raciocínio lógico, ela tem um reforço positivo sobre aquele estímulo que é a cauda grande e colorida, e isso a faz ficar receptiva para a cópula com aquele macho.

 

Visto que a fêmea na maioria das espécies é quem investe no óvulo e cuidado no desenvolvimento dos filhotes, elas são as que escolhem e os machos os que competem. A natureza está cheia de exemplos e você pode se divertir muito com essas histórias. Inclusive exemplos dos casos quem são minoria onde o macho investe mais no cuidado dos filhotes.

Mas e os humanos?

Bem, seguindo esta lógica, nós mulheres possuímos o recurso mais custoso: o óvulo. Logo, nós escolheríamos e os machos competiriam. Contudo, existe muita controvérsia neste raciocínio. Teria uma razão social-histórica na qual reduzir o papel das mulheres ao de mãe e desestimular o cooperativismo destas seria interessante? Possivelmente. Deixo aqui o apelo para que uma das minhas amigas com maiores condições teóricas sobre o assunto o discorra e discuta.

Na perspectiva evolucionista, há uma linha que discute que, apesar de nós mulheres produzirmos o óvulo, outras características exclusivas da nossa complexa sociedade levariam a uma posição diferente. Contudo, há poucas evidências de que as mulheres competiriam entre si pelo homem.

Estudar humanos é muito difícil porque quase não conseguimos isolar variáveis culturais, e uma das formas de ter acesso à adaptabilidade dos nossos comportamentos é observar como os animais – e, mais especificamente os macacos  – lidam com os desafios da vida em sociedade. Um exemplo disso são os bonobos, pois são macacos ótimos para se fazer uma analogia com os humanos, tanto por sua proximidade filogenética quanto por seu sistema social.

Um trabalho com bonobos feito pela pesquisadora Nahoko, do Instituto de Pesquisa em Primatas-Japão mostrou que fêmeas se unem para que juntas, e reforço aqui, em cooperação e formando alianças, contra-ataquem machos que foram agressivos contra uma ou mais fêmeas. Coalizões no mundo primata são usualmente formadas por indivíduos que trocam favores sociais, ou que são parentes, porém, não neste caso. Todas as fêmeas parecem ser propícias a cooperar com outras fêmeas quando o contexto é revidar a agressividade de um macho, e, em outras palavras, não somente amigas se unem para se defender. Assim, basta apenas uma fêmea ser agredida para que as demais se unam. Como não há troca de favores, não seria um caso de reciprocidade, mas de mutualismo. O estudo mostra que em conjunto elas têm maiores chances de vencer. A participação das fêmeas mais velhas aumentam as chances dessas investidas serem bem sucedidas. Para as mais velhas, parece que apoiar as fêmeas mais novas e assim mantê-las próximas poderia trazer vantagem reprodutiva aos seus filhos. Este estudo sugere que a formação social entre fêmeas, ao contrário da lenda urbana, sofreu pressão evolutiva para serem unidas.

Mulheres uni-vos!

PARA LER MAIS:

Tokuyama N & Furuiche (2016) Do friends help each other? Patterns of female coalition formation in wild bonobos at Wamba. Animal Behaviour. 123.

Alcock, J. (2011). Comportamento Animal: uma abordagem evolutiva. 9 ed. Artemed.

 

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Quando devemos parar de amamentar? A pergunta sem resposta.

Quando devo parar de amamentar meu filho? Esse questionamento parece estar trazendo muita inseguranças nos dias de hoje. O “direito“ de opinar sobre o corpo da mulher e suas decisões é muito difundido em nossa sociedade. Aparentemente esse comportamento tem sido reforçado com as mídias e o acesso à internet. Essas ferramentas permitem que a pessoa sinta mais segurança para dar sua opinião e seu comportamento é reforçado por outras vozes que também se sentiram encorajadas pela invisibilidade. Dessa forma, parece que as mulheres acabam mais atingidas agora já que qualquer um na rua se sente encorajado em coagir as mulheres. Essa sensação de ter direito sobre o corpo do outro é ainda maior quando este outro, além de mulher, é mãe. A mãe é vista como uma mulher que está “depositphotos_95943934-stock-photo-two-crab-eating-macaques-nursing.jpgcumprindo com seu papel biológico” de gestora e cuidadora deixando de ser uma pessoa para doar-se ao filho. Esta visão equivocada encoraja as pessoas de agir em prol do bebê e assim, bravejar suas meias verdades contra a mãe em “defesa” deste ser indefeso.

Para além do contexto social, o conflito entre amamentar e deixar de amamentar é uma questão biológica muito importante para a mãe-mamífero. De um lado é vantajoso amamentar o máximo de tempo possível, aumentando as chances de seu filhote sobreviver; por outro lado, amamentar é um superinvestimento. A amamentação é vantajosa para o infante porque fornece toda a energia e requerimentos nutricionais necessários, além de ajudar no sistema imunológico, por exemplo. Contudo, mesmo para os infantes em determinado momento a amamentação oferece desvantagens, pois estes crescem e suas necessidades metabólicas não podem mais ser supridas exclusivamente pelo conteúdo do leite. Essa transição também oferece riscos para o infante porque o expõe a patologias e o deixa mais vulnerável à sazonalidade de recursos alimentares. Para a mãe, a amamentação representa um custo energético muito grande, uma vez que suas necessidades nutricionais podem ser até quadruplicadas quando lactando!

Dessa forma, a decisão sobre o momento de desmame pode influenciar na saúde e na sobrevivência de ambos: filhote e mãe. Agora é fácil entender porque o tempo de desmame é muito importante.

Colocando dessa forma, parece que esta decisão deve ser tomada depois de muito estudo e muito tempo no Google, mas então como escolhíamos o momento de desmame antes da existência do Facebook?

Na nossa última postagemmacaco-do-bebê-da-amamentação-da-mãe-64176797.jpg comentamos sobre como os estudos com nossos parentes mais próximos, os primatas não humanos, podem nos oferecer pistas. Hoje, vamos falar dos estudos com fósseis de hominídeos e ossos de humanos modernos).

Apesar do estudo de espécies filogeneticamente próximas ser bastante elucidativo, estudar a própria espécie é muito importante, principalmente quanto à características exclusivas. Uma característica única dos humanos, é que o infante desmama mesmo antes de ser independente na alimentação. Esta característica tem grandes implicações: 1) precisamos de maior tempo para desenvolvimento e dessa forma a idade da nossa primeira reprodução é tardia em relação aos demais primatas, 2) o intervalo de tempo entre os filhotes é menor, visto que ao desmamarmos um filhote podemos entrar no novo ciclo reprodutivos e 3) essa necessidade de cuidado por longo período do filhote poderia ser uma das pressões evolutivas para a menopausa.

Uma forma de acessar informações sobre o desmame em hominídeos e humanos modernos, seria estudando a variação química e de isótopo de cálcio no esmalte e dentina dos dentes. Contudo, outras fontes alimentares também contêm alto teor de cálcio como o leite de outros animais. Logo, esse método não é eficiente se formos tentar acessar a idade de desmame em sociedades onde já havia a domesticação de animais como a vaca, porque não seria possível identificar quando a mãe parou de amamentar e quando começou a incluir derivados de leite na dieta do seu filho.

Tacail e colaboradores do Laboratório de Geologia em Leyon, França conseguiram desenvolver um método para diferenciar o isótopo de cálcio humano de demais animais. Este estudo testou com humanos modernos, viventes e que, portanto, sabe-se quando desmamou, se a concentração de isótopo de cálcio humano (δ44/42Ca) seria confiável para usarmos nos fósseis e dentes de humanos de populações antepassadas.

Agora que temos o método, esperamos ansiosamente pelos estudos que nos mostrarão como as mulheres, mães, hominídeos e humanos modernos (mas de tempos antigos) lidaram com essa difícil decisão de quando desmamar.

Independente desses resultados, uma coisa já sabemos: as mulheres e sim, as mães devem ter liberdade e apoio nas decisões que tomam pelo próprio corpo.

PARA SABER MAIS

Tacail, Thivichon-Prince, Martin, Charles, Viriot & Balter (2017). Assessing human weaning practices with calcium isotopes in tooth enamel. PNAS 24(114) 6268-6273 doi/10.1073/pnas.1704412114