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Você sabe o que é colorismo?

Estudo mostra as chances de um indivíduo ser preso a depender da cor de sua pele

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Créditos da Imagem: Photo by Yunming Wang on Unsplash

O termo colorismo pode ser conceituado como as consequências sociais diferenciais entre indivíduos brancos e negros, de modo que, quanto mais próximo da pele branca com características eurocêntricas, melhores as consequências. Tais consequências vão desde as chances de estudar, conseguir emprego e obter bons salários, até a probabilidade de ser considerado bonito/desejado e de um indivíduo se casar. Assim, pessoas com pele mais clara possuem chances aumentadas de obter coisas positivas, como educação, emprego e bons salários, e chances menores de obter coisas negativas, como ser abordado por um policial, ser preso ou ser sentenciado a muitos anos de prisão. De modo inverso, quanto mais escura a pele de uma pessoa, maiores as chances de sofrer uma abordagem policial, da pessoa ser presa e sentenciada a muitos anos de prisão, enquanto suas chances de obter educação, saúde e emprego são menores (e.g., Dixon & Telles, 2017).

Um ponto importante quando se fala de colorismo é que tal concepção pode se sobrepor ao conceito de raça e racismo em alguns contextos e/ou em algumas culturas: por exemplo, na sociedade brasileira, onde se utiliza a cor da pele (além de outros traços fenotípicos, como a textura do cabelo e o formato do nariz e da boca) como o principal indicador da raça de um indivíduo, cor e raça são tidos como sinônimos em vários contextos. Em outras culturas, como a estadunidense, onde o principal critério para saber a raça de um indivíduo é a hereditariedade (embora estes outros traços fenotípicos também sejam utilizados em alguns contextos), cor e raça são mais distintos que similares (embora possa haver alguma sobreposição).

Ampliando a literatura sobre o tema, Amelia Branigan, Christopher Wildeman, Jeremy Freese e Catarina Kiefe publicaram um estudo na revista Social Science Research investigando as chances de homens brancos e negros estadunidenses serem presos utilizando um banco de dados para análise. Sendo a pesquisa realizada nos Estados Unidos, é importante ressaltar que, nessa cultura, o conceito de colorismo operando como um contínuo de consequências sociais diferenciais, é geralmente adotado para se referir às minorias (especialmente às pessoas negras), de modo que se assume que a diferença no tom da pele branca não estaria relacionada a essas consequências diferenciais.

Para realizar a análise, utilizou-se dados obtidos no estudo de coorte “Coronary Artery Risk Development in Young Adults” (CARDIA – em português, Risco de Desenvolvimento de Artéria Coronária em Jovens Adultos) de quatro cidades: Birmingham – Alabama, Chicago – Illnois, Minneapolis – Minnesota, Oakland – California. Foram analisados os dados sobre raça, sexo, idade e nível educacional dos respondentes. Na primeira aplicação do questionário (realizada entre 1985 e 1986), os respondentes diziam se tinham sido presos no ano anterior. Na segunda aplicação (1987-1988), a pergunta era repetida, porém sem a limitação temporal.

A medida da cor da pele dos respondentes foi obtida na quarta aplicação (1992-1993), utilizando um espectrofotômetro. Esse instrumento mede a refletância da pele, de modo que, quanto maior a refletância da pele, mais clara ela é (nesse sentido, quanto maior a refletância, a pessoa seria “mais branca” na nossa concepção). O local de aplicação do espectrofotômetro foi a parte interna do antebraço, local onde raramente se pega sol, de modo que, para os experimentadores, refletiria a cor “constitutiva” de cada participante. Uma vez que existe uma correlação entre nível socioeconômico e negritude, o estudo controlou o cargo ocupado pelos respondentes, o nível educacional obtido pelos pais dos respondentes e por eles mesmos, de modo que as diferenças encontradas foram devido a cor do respondente, e não seu nível socioeconômico. Os dados analisados foram de 888 homens brancos e 703 homens negros.

Em resumo, os resultados mostraram que o nível de refletância da pele está associado a probabilidade de ser preso somente para os homens brancos (p<0.01); independentemente da cor, os homens negros tinham a mesma probabilidade de serem presos (uma probabilidade, no entanto, bem mais alta que a dos homens brancos, é importante mencionar). Ao analisar a probabilidade de ser preso pelo percentil de refletância da pele, verificou-se que, entre os homens brancos cuja pele possuía refletância semelhante à do negro de pele mais clara, a probabilidade de prisão se assemelhava a das pessoas negras.

Esses resultados são importantes, uma vez que mostram 1) que o racismo atinge também pessoas brancas, mesmo em um país como os EUA, onde a raça é formalmente classificada mais por conta da hereditariedade do que por meios fenotípicos; 2) que, apesar dessa formulação, em decisões rápidas, como a de uma abordagem policial, os policiais estadunidenses se pautam mais nas características fenotípicas para realizar ou não uma abordagem e/ou prisão e 3) que um indivíduo negro, mesmo de pele clara, tem a mesma chance de ser preso do que um negro retinto. Achados de pesquisas anteriores, que mostraram que brancos com características afrocentradas têm maiores chances de serem presos e de terem maiores sentenças que indivíduos brancos com traços eurocêntricos apoiam tais resultados. Uma das limitações do estudo foi o fato que os dados analisados foram obtidos há 30 anos, duas décadas após a Lei dos Direitos Civis, que eliminou formalmente as leis de segregação racial nos Estados Unidos. Apesar disso, tais dados são relevantes, uma vez que é nítido que o racismo é um fenômeno presente tanto nos EUA quanto no Brasil, como mostram as inúmeras notícias de agressões verbais e físicas a indivíduos negros/de pele escura quase que diariamente.

Quer saber mais? Leia o estudo na íntegra:

Branigan, A. R., Wildeman, C., Freese, J., & Kiefe, C. I. (2017). Complicating colorism: Race, skin color, and the likelihood of arrest. Socius: Sociological Research for a Dynamic World, 3, 1-17. doi: 10.1177/2378023117725611

Referência

Dixon, A. R., & Telles, E. E. (2017). Skin color and colorism: Global research, concepts, and measurement. Annual Review of Sociology, 43(1), 405–424. doi:10.1146/annurev-soc-060116-053315