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Como a urbanização afeta o comportamento de mosquitos vetores (Parte 1)

As modificações feitas pelos seres humanos nos ambientes naturais podem resultar em desfechos dramáticos para o meio ambiente, como aumento da temperatura, aumento de cobertura impermeável do solo, alteração na hidrologia e aumento de poluição. Apesar das alterações no meio ambiente prejudicarem algumas espécies, diversas outras, além dos seres humanos, podem ser beneficiadas e prosperar nos ambientes urbanos, como espécies que veiculam patógenos causadores de doenças.

SP

Imagem sem direitos autorais.

Metade da população mundial vive em grandes centros urbanos e, como consequência, mais e mais habitats naturais são fragmentados e ameaçados pela presença humana. Por exemplo, a Mata Atlântica brasileira é um bioma caracterizado pela alta diversidade de espécies e alto grau de endemismo*. Esse bioma é considerado um hotspot* de biodiversidade, devido ao seu ecossistema mais devastado e ameaçado do planeta.

*endemismo – fenômeno no qual uma espécie ocorre exclusivamente em determinada região geográfica.

*hotspot – regiões que, por sua importância ecológica, devem ser investigadas.

Pesquisadores que trabalham com ecologia e evolução de espécies em áreas urbanas afirmam que as alterações antrópicas no ambiente podem contribuir para o aumento da abundância de espécies adaptadas a esse meio e diminuir a riqueza de espécies em geral. Isso significa que espécies adaptadas aos ambientes urbanos aumentam suas populações, enquanto espécies mais sensíveis podem diminuir suas populações, ou até mesmo serem extintas. Esse fenômeno ocorre em diversas espécies de plantas e animais, porém neste texto nos focaremos em quais são as implicações da urbanização em populações de mosquitos.

Países como o Brasil frequentemente passam por uma rápida e não planejada urbanização, caracterizada por falta de saneamento básico, casas insalubres, rios poluídos e esgoto não tratado. Esses fatores juntos podem favorecer a abundância de algumas espécies de mosquitos adaptadas ao meio urbano, além de ser um obstáculo para estratégias de controle de vetores.

Durante o meu mestrado, eu pesquisei a genética de populações da espécie de mosquito Aedes fluviatilis em São Paulo. Nos baseando nos resultados encontrados neste estudo, meus colaboradores e eu sugerimos que as populações desse mosquito sofreram processos de expansão populacional associados aos processos de urbanização de São Paulo. Os resultados desse trabalho foram publicados em um artigo científico na revista PLoS ONE.

Nós propomos duas hipóteses para explicar a expansão das populações de Aedes fluviatilis em São Paulo. A primeira delas é: a expansão das populações desta espécie ocorreu porque a mesma é muito adaptada ao meio urbano e se benefica deste ambiente e consegue completar todo o seu ciclo de vida na cidade. Já a segunda hipótese é baseada na história da construção da cidade de São Paulo, propomos que devido a urbanização mais intensa da cidade começar após 1960, as populações de Aedes fluviatilis que eram na verdade uma grande população sem barreiras para troca de genes, foi fragmentada devido ao crescimento da cidade. Como essa urbanização ocorreu recentemente e foi intensa as populações dessa espécie em São Paulo são pouco diversas, porém abundantes e bem adaptadas ao meio urbano.

Existem mais de 70 espécies de mosquito somente na cidade de São Paulo. Entre estas, as mais abundantes são: Aedes albopictus, Aedes fluviatilis, Aedes aegypti, Culex nigripalpus, Culex quinquefasciatus e Aedes scapularis. Todas essas espécies possuem importância para a área da saúde. Nem todas são capazes de efetivamente transmitir patógenos aos seres humanos em condições naturais, mas todas são consideradas “fator de incômodo”.

Enquanto eu fazia meu mestrado, outras pessoas do meu grupo de pesquisa trabalhavam em pesquisas com objetivos que consistiam em caracterizar  geneticamente populações urbanas de outras espécies de mosquito. Populações de Aedes aegypti em São Paulo provavelmente também sofreram processos de expansão populacional devido à sua alta capacidade de adaptação às mudanças antropogênicas. Pelo contrário, populações da espécie Culex nigripalpus provavelmente não se beneficiam da urbanização e sofrem severas pressões seletivas desse meio, resultando em populações com pouca diversidade genética.

 

Agora no doutorado, eu pesquiso a espécie Anopheles cruzii, vetor primário de malária na Mata Atlântica. Meu projeto consiste em analisar geneticamente e fenotipicamente* populações desta espécie em três diferentes ambientes: silvestre, peri-urbano e urbano. Farei comparações das populações entre três anos e entre os três ambientes. Alguns resultados já estão prontos e serão publicados em breve. Ainda no doutorado, eu também faço um projeto à parte no qual pesquiso a genética de populações do mosquito Aedes albopictus, neste projeto resultados interessantes foram encontrados e também serão publicados em breve. Falarei mais sobre este assunto na parte 2 deste texto.

*fenotipicamente – características visíveis do genótipo.

Este primeiro texto foi um dos mais importantes que já escrevi, pois nele tentei resumir um pouco da minha pesquisa, algo que nunca tinha feito antes, e falar sobre a sua real contribuição para a área da saúde. Entender como as mudanças no ambiente afetam a genética de populações de espécies de mosquitos pode nos ajudar a compreender como a urbanização pode facilitar a expansão de populações de mosquitos adaptadas a esse ambiente. Além disso, as áreas urbanizadas também oferecem habitats aos mosquitos e podem facilitar a emergência de patógenos que causam doenças em seres humanos.

Referências utilizadas na concepção do texto

  1. Johnson MTJ, Munshi-South J. Evolution of life in urban environments. Science (80- ). 2017;358: eaam8327. doi:10.1126/science.aam8327
  2. Multini LC, Wilke ABB, Suesdek L, Marrelli MT. Population Genetic Structure of Aedes fluviatilis (Diptera: Culicidae). Franz AWE, editor. PLoS One. 2016;11: e0162328. doi:10.1371/journal.pone.0162328
  3. Wilke ABB, Wilk-da-Silva R, Marrelli MT. Microgeographic population structuring of Aedes aegypti (Diptera: Culicidae). Sekaran SD, editor. PLoS One. 2017;12: e0185150. doi:10.1371/journal.pone.0185150
  4. Wilke ABB, de Carvalho GC, Marrelli MT. Retention of ancestral polymorphism in Culex nigripalpus (Diptera: Culicidae) from São Paulo, Brazil. Infect Genet Evol. Elsevier; 2018;65: 333–339. doi:10.1016/j.meegid.2018.08.017
  5. Medeiros-Sousa AR, Fernandes A, Ceretti-Junior W, Wilke ABB, Marrelli MT. Mosquitoes in urban green spaces: using an island biogeographic approach to identify drivers of species richness and composition. Sci Rep. 2017;7: 17826. doi:10.1038/s41598-017-18208-x

Leituras interessantes (Inglês)

This Mosquito Likes Us Too Much For Our Own Good. https://www.npr.org/sections/goatsandsoda/2016/02/10/466268138/this-mosquito-likes-us-too-much-for-our-own-good

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A quantas anda a transição energética?

tran·si·ção |z|  (latim transitio, -oniss. f.

  1. Ato ou efeito de transitar.
  2. Passagem de um lugar, assunto, tom ou estado para outro.
  3. Trajeto.

Também chamada de transição ecológica e transição para economia de baixo carbono, a transição energética trata de uma mudança profunda na estrutura econômica, social e política no sentido de sair da dependência de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural, enquanto se diversifica a matriz energética e se aumenta o uso de modos de produção de energia renováveis e limpos. A ideia geral é diminuir a emissão de gases de efeito estufa e diminuir a poluição atmosférica, ambos muito perigosos à vida no planeta.

E o que é energia limpa?

Toda geração de energia tem custos, que podem ser expressos em valores monetários, ou de uso de recursos naturais ou de emissão de gases de efeito estufa, entre outros. Alguns desses recursos naturais são renováveis, como o sol, o vento, as marés, a água dos rios, o calor da terra, a biomassa… outros são finitos, como é o caso dos combustíveis fósseis. O conceito de energia limpa só diz respeito a formas de produção que não lancem poluentes na atmosfera, não se trata de ausência de impacto ambiental.

Vale lembrar que, nessa área, essa noção de energia limpa é muito contestável. Esse estudo, publicado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), põe em dúvida a consideração de que a energia hidrelétrica seria limpa, mostrando que, além dos danos ambientais e humanos causados pelas construções das usinas, existe liberação de metano (CH4) quando a água represada nas barragens passa pelas turbinas e vertedouros. Já no caso da produção de energia fotovoltaica, que requer painéis que utilizam silício e outros materiais, esse estudo de 2016, publicado na Nature Communications, mostra que a dívida de carbono gerada na produção das placas desde 1975 até 2015 terminou de ser paga, no pior dos cenários, em 2018 – isso significa que a partir de agora a produção de energia solar fotovoltaica pelos painéis já instalados e pelos novos está no 0 a 0 em termos de produção de carbono.

Mesmo com muitas dúvidas, alguns estudos como esse aqui, publicado na Nature Energy em 2017, mostram que, apesar dos custos superiores, o uso de energia solar fotovoltaica e eólica ainda é mais benéfico do ponto de vista humano, principalmente pela economia de gastos de saúde pública ligados em geral a doenças respiratórias causadas pela poluição atmosférica.

Mas e a transição no mundo na prática?

Vamos por partes. Primeiro, onde se gasta energia: indústria, agricultura, transporte, edifícios e residências. Os gases de efeito estufa são gerados pela queima de combustível para, entre outros, gerar energia elétrica, mas também pela pecuária (a criação de animais gera sozinha 15% dos gases de efeito estufa liberados no planeta!), pelo uso de motores à combustão de derivados de petróleo tanto para transporte quanto para processos industriais e agrícolas, e pelo desmatamento das florestas, que naturalmente sequestram o carbono. No Brasil, a agropecuária e o desmatamento geram 55% dos gases de efeito estufa. Esse relatório de 2018 da Renewable Energy Policy Network aponta que a maior parte dos esforços até hoje tem se concentrado na emissão de gases do setor elétrico, mas outras áreas também são igualmente importantes, como a conservação das florestas, a isolação dos edifícios e o setor de transporte, por exemplo.

Segundo, quem são os principais atores da emissão dos gases de efeito estufa: o campeão do mundo é a China, seguida de perto pelos Estados Unidos. Depois da COP21, que aconteceu em Paris no fim de 2015, 175 países assinaram um acordo se comprometendo a realizar medidas com objetivo principal de limitar o aumento da temperatura global em até +2º C acima dos níveis pré-industriais, vários países começaram a agir. A própria China tem mostrado a ambição de se tornar um país “verde” nas próximas décadas, e junto com Europa e Estados Unidos, investiram quase 75% de todo o investimento global em energias renováveis, de acordo com o relatório citado no parágrafo anterior. No entanto, em termos de investimento por unidade do PIB, países como Ruanda ou Guiné-Bissau estão investindo tanto quanto ou mais que países considerados desenvolvidos. Infelizmente, a mudança não tem sido suficiente e, em 2018, constatou-se que houve um aumento global de 2,1% da demanda de energia e as emissões de CO2 relacionadas à geração de energia subiram 1,4% no ano anterior – o que significa que a velocidade da mudança ainda é muito lenta. E a emissão de gases de efeito estufa na China ainda aumentou 4% só no primeiro trimestre de 2018…

Na França, uma lei de “transição energética pelo crescimento verde” foi passada em 2015 e o equivalente do nosso Ministério do Meio Ambiente se chama Ministério da Transição ecológica e solidária. Apesar do nome bonito, o ministro Nicolas Hulot, importante figura da luta ecológica francesa e ministro mais conhecido do governo Macron, pediu demissão recentemente ao vivo num programa de rádio, principalmente por causa da rejeição da emenda que proibia o glifosato* e da redução pela metade do preço da licença de caça, além de dizer que a França não está fazendo o suficiente na luta contra as alterações climáticas. Um ponto positivo importante é a organização não lucrativa négaWatt, que vem publicando relatórios de cenários energéticos totalmente dependentes de fontes renováveis, excluindo, inclusive, o uso da energia nuclear, principal fonte atual de energia no território francês. O último relatório trata do horizonte temporal de 2017 a 2050, sugerindo o uso massivo de produção eólica em terra e mar, uso de biomassa e de redes de calor, junto com uma redução de 50% da demanda, dividida em redução real e aumento de eficiência. Entretanto, esses relatórios não têm sido adotados pelo governo.

Na Alemanha, após o desastre de Fukushima em 2011 foi lançado o plano Energiewende, um dos mais ambiciosos do mundo. Atualmente, no entanto, o entusiasmo é muito menor: apesar de um terço da energia do país ser efetivamente gerada por fontes renováveis, o preço da energia elétrica para pequenos consumidores mais que dobrou entre 2000 e 2013,  e o carvão natural continua sendo fonte importante de produção de eletricidade. E essa semana ativistas contrários à expansão de uma mina de carvão na floresta de Hambach, no estado na Renânia do Norte-Vestfália, foram retirados à força por mais de 3,5 mil policiais. Apesar de não parecer, para a União Europeia em geral, o segundo relatório sobre o estado da transição energética, de 2017, diz que as metas de emissão de gases estão sendo cumpridas… o que levanta a questão se essas metas são mais políticas de aparência do que de fato um compromisso em reverter as mudanças climáticas.

Na África, na maior parte dos países, os desafios passam por modernização, expansão e acesso à energia, uma vez que toda a produção de energia do continente africano, excluindo a África do Sul, equivale à da Argentina sozinha. Mesmo com as dificuldades, a boa notícia é que alguns países por lá estão desenvolvendo seus sistemas de energia e evitando aumentar a emissão de gases de efeito estufa no mundo ao mesmo tempo.

No Brasil, a página do Ministério do Meio Ambiente não explica muito sobre as iniciativas da nossa transição. Enquanto isso, as petroleiras e outras grandes corporações tomam a dianteira nos investimentos em energias renováveis. Mesmo em época de eleição, é raro ouvir outra coisa que não seja relativa à exploração de petróleo ou à própria Petrobras, apesar de alguns programas de governo proporem explicitamente planos de transição energética ou ecológica.

No geral as notícias não são boas: as nações que fazem parte do G20 ainda investem 4 vezes mais dinheiro público em combustíveis fósseis do que em energias renováveis, os EUA se retiraram do acordo de Paris… ainda há muito trabalho a fazer. Soluções existem e a transição efetiva passa, sobretudo, pela descentralização da produção de energia e a conscientização de pessoas e corporações sobre a importância do uso eficiente de recursos energéticos e, claro, sobre novos modelos de consumo. O motor da transição é a inovação e o investimento em novos usos de tecnologia existente, assim como uma mudança real não é possível sem compreender que consumir menos e melhor é mais interessante do que buscar novas maneiras de produzir mais energia. Afinal, energia mais limpa também é aquela que nem precisou ser gerada.

 

*Glifosato é um herbicida largamente utilizado no mundo, principalmente em grandes plantações, mas também em uso doméstico. Potencialmente cancerígena, foi essa substância que levou a Monsanto a ser condenada a pagar indenização milionária a um homem nos EUA, e ainda existem pelo menos mais 8 mil processos judiciais contra a empresa pela mesma razão.

Referências

“transição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/transi%C3%A7%C3%A3o [consultado em 12-09-2018].

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A História que sobreviverá ao Museu

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Quase nada se salvou da catástrofe que acometeu neste 2 de setembro o Museu Nacional, sendo muitos danos irreparáveis. Com este lugar, não apenas o povo brasileiro, como ainda pesquisadores do mundo inteiro, possuem dívidas históricas que sobreviverão à sua queda.

Algumas dessas dívidas constam de revista do próprio Museu Nacional (PPGAS/UFRJ) [1]. Em artigo recente sobre uma delas [*], o antropólogo Manuel Ferreira Lima Filho [3] afirma que pretendia: “(…) buscar conexões entre os itinerários dos atores e personagens relacionados à constituição da coleção, que pudessem revelar as representações sobre o desenvolvimento da antropologia enquanto disciplina nos Estados Unidos (…) e no Brasil, (…).” (FILHO, 2017, p. 475).

Entre essas personagens, afirma que a antropóloga Heloísa Alberto Torres, sua diretora no século passado (1938-1955): “(…) fez da necessidade da formação de novos antropólogos, fossem eles estadunidenses ou brasileiros, a sua meta mestra enquanto diretora do Museu Nacional (…).” (FILHO, 2017, p. 477). Dessa meta do Museu, nascia o melhor Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Brasil, ministrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/UFRJ).

Ainda na época de Heloísa: “Havia um acordo informal entre o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Universidade de Columbia para a realização de pesquisas e a formação de etnólogos.” (FILHO, 2017, p. 477). Ao longo do tempo, acordos similares continuaram a ser firmados, como atesta o próprio Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) [3], até os últimos dias desta importante instituição.

Essa história, entre mil outras, serve para ilustrar como esse lugar, abandonado em tantas instâncias, serviu à cooperação entre os povos e ao avanço científico de nosso país ao longo de sua existência. Quiçá possa também servir para demonstrar uma parte das contribuições de museus que, atualmente, correm risco de ter o mesmo triste fim.

Que suas histórias sejam sempre recontadas, para que não se tenha apenas uma ideia desses locais como pontos turísticos, e sim como guardiães das verdadeiras riquezas de uma nação.

 


[*] Referências:

LIMA FILHO, M. F. “Coleção William Lipkind do Museu Nacional: Trilhas Antropológicas Brasil-Estados Unidos”. IN: MANA 23(3): pp. 473-509, 2017. PPGAS/UFRJ, Rio de Janeiro – DOI http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442017v23n3p473 <03/set/2018>

Notas:

[1] http://ppgas.biblioteca.ufrj.br/index.php/mana <03/set/2018>

[2] http://lattes.cnpq.br/9114125597206149 <03/set/2018>

[3] http://www.museus.gov.br/tag/cooperacao/page/2/

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Ver, ouvir e sentir envolvem aprendizado e adaptação

Quando você olha para os dois quadros à esquerda na figura abaixo, a diferença entre eles é bem clara, certo? O de baixo tem o dobro da quantidade de pontos do de cima, no caso, dez pontos a mais. E quando você olha para os dois quadros à direita, fica tão evidente que a diferença de quantidade de pontos é também dez?

Figura 1 – Quanto menos pontinhos, mais fácil é identificar a diferença na sua quantidade (retirado de Wikimedia Commons, por MrPomidor, licença CC BY-SA 4.0).

Isso acontece porque a nossa percepção de quantidades, assim como nossas percepções de brilho, frequência e intensidade sonoras e outros fenômenos não são lineares, ou seja, o aumento na intensidade de um determinado estímulo não implica que sua percepção será proporcionalmente maior.

Nós formamos nossa noção de realidade e interagimos com o nosso ambiente e com as outras pessoas através dos nossos cinco sentidos, e todos eles estão sujeitos a essas relações não-lineares

Figura 2 – Não se preocupe, você não precisa aumentar o grau dos seus óculos.

A relação entre a diferença física entre estímulos e a diferença da forma a qual os percebemos é estudada pela psicofísica. Por abordar fenômenos físicos e sensações simultaneamente, a psicofísica é um ramo essencialmente multidisciplinar e é estudada por físicos, psicólogos e neurocientistas.

Muitas das nossas percepções de estímulos podem ser descritas pela Lei de Fechner, que é provavelmente a mais célebre equação na psicofísica.

Equação 1 – Lei de Fechner – p representa a percepção, S representa o estímulo, k é uma constante que depende do fenômeno e S0 é o estímulo mínimo necessário para que possamos percebê-lo. A relação entre o estímulo e a percepção é logarítmica (ln é um tipo de logaritmo chamado na matemática de logaritmo natural), e não linear.

Muitos destes fenômenos já são bem conhecidos, mas alguns ainda estão sendo investigados pelos cientistas. Saindo um pouco do campo dos estímulos que podem ser simplesmente aumentados ou diminuídos, ainda existem inúmeros tipos de informação que somos capazes de processar em nosso cérebro que vão muito além da mera “decodificação” dos estímulos físicos, e que envolvem níveis de cognição altamente sofisticados. É sabido que nosso cérebro é capaz de se adaptar a mudanças até mesmo estruturais nos órgãos sensoriais quando se trata de interpretar a informação que recebemos através de nossos sentidos.

Um clássico exemplo é o experimento dos austríacos Erismann e Kohler, realizado em 1950. Após alguns dias seguidos utilizando um óculos que deixa a imagem de ponta-cabeça, Kohler, que foi o voluntário do experimento, foi capaz de andar, tocar objetos e até mesmo andar de bicicleta como se nada estivesse acontecendo. Algumas das imagens podem ser vistas neste documentário.

Nosso cérebro também é capaz de se adaptar à mudanças no formato da nossa orelha. Os cientistas Régis Trapeau e Marc Schönwiesner demonstraram, após alterarem o formato das orelhas de participantes do estudo através do uso de moldes de silicone (o que a princípio afetou suas habilidades de distinguir de que direção os sons vinham), que após algum tempo de adaptação os voluntários re-aprenderam a interpretar a direcionalidade dos estímulos mesmo com a “nova orelha”.

Da mesma forma, a forma como seguramos objetos depende de estimativas que fazemos inconscientemente, baseados em informações sensoriais sobre eles, e conforme adquirimos experiência com um determinado objeto, refinamos nosso aprendizado sobre suas propriedades físicas, de forma a saber melhor qual a forma mais adequada de manuseá-lo.

Ainda há muito a ser investigado sobre como processamos as informações ao nosso redor e o quanto conseguimos aprender a interpretar sinais de formas diferentes. Mas está cada vez mais claro que os atos de enxergar, escutar e sentir não são atividades “passivas”, e envolvem muitos processos complexos e sofisticados em nossos cérebros.

Referências:

[1] Wikipedia – Weber–Fechner law. Disponível aqui.

[2] Régis Trapeau, Marc Schönwiesner.The encoding of sound source elevation in the human auditory cortex. Journal of Neuroscience 5 March 2018, 2530-17. Disponível aqui.

[3] Artigo “How the Shape of Your Ears Affects What You Hear” de Veronique Greenwood para o New York Times. Disponível aqui.

[4] Reza Shadmehr. Learning to Predict and Control the Physics of Our Movements. Journal of Neuroscience 15 February 2017, 37 (7) 1663-1671. Disponível aqui.

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Se é proibido, é porque faz mal. Ou não?

Substâncias ilícitas são aquelas que tem uso e/ou comercialização proibida por lei, como é o caso da Cannabis sativa (maconha). Segundo historiadores, a proibição do uso da maconha no Brasil está baseada em fatores políticos e econômicos próprios da época em que a lei foi sancionada e não tem relação com a possibilidade de fazer mal ao ser humano (para saber mais sobre a história da proibição, vide referências abaixo). Independente das questões éticas, jurídicas e morais, o fato é que substâncias psicoativas ou não presentes na Cannabis sativa alteram o funcionamento do corpo e isso não é necessariamente ruim.

Toda substância consumida por nós (remédios, álcool, suplementos, etc) modifica o funcionamento do nosso organismo, até mesmo a alimentação, como já foi falado aqui antes. Isso acontece porque elas atuam em vias metabólicas que já existem no corpo. Com as substâncias presentes na Cannabis não é diferente, e foi a partir deste pressuposto que cientistas do mundo todo vêm caracterizando o Sistema Endocanabinóide (ou ECS do inglês “endocannabinoid system”), e desvendando como e porque a Cannabis sativa altera o nosso metabolismo. Recentemente o pesquisador Vicenzo Di Marzo que atua tanto na Universidade Laval do Canadá quanto no Instituto de Bioquímica Molecular na Itália, debateu como usar as vias metabólicas que envolvem o ECS, para a promoção da saúde.

O ECS é composto de pelo menos duas substâncias produzidas dentro do corpo, a aracdoniletanolamida (AEA) e o 2-aracdonil-glicerol (2-AG), que exercem suas atividades ao se ligar a, pelo menos, dois tipos de receptores: CB1 ou CB2. Outros receptores já foram descritos como participantes do ECS, como o GPR18, GPR119, GPR55, GPR110 e TRPV1, mas estes ainda não têm o mecanismo de ação e localização bem estabelecidos. Esse sistema em equilíbrio com os outros sistemas do corpo atuam controlando respostas inflamatórias, equilíbrio emocional, a microbiota do intestino e até ajuda no combate a infecções. Essa variedade de efeitos acontece devido a presença desse sistema em praticamente todos os tecidos no corpo.

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Diante de toda variedade de efeitos, Dr Marzo aborda estudos que exploram todo o potencial de ação do Sistema. Para isso, o autor divide o tema em duas partes: medicamentos derivados de plantas que têm substâncias que se ligam aos receptores CB1 e/ou CB2 – os fitocanabinóides, e os canabinóides sintéticos – fabricados em laboratório para se ligar aos receptores apropriados ou modular a produção dos endocanabinóides.

Os fitocanabinóides, os primeiros da classe a serem descritos, são os mais profundamente estudados. Apesar de a maior parte dos estudos ser voltada para o canabidiol e o THC, ambos derivados da Cannabis sativa, outros fitocanabinóides como o beta-cariofileno também são encontrados em plantas como as pitangueiras, cravo-da-índia, alecrim e outras plantas aromáticas. Aqui no blog já falamos sobre o efeito benéfico do canabidiol para o tratamento da Doença de Parkinson antes, mas Dr Marzo chama a atenção para outros efeitos como o uso de desta classe de substâncias para o tratamento da náusea em pacientes de câncer, para dores consequentes da esclerose múltipla ou artrite, e para a melhora da síndrome metabólica. Apesar de amplamente estudadas, existem algumas limitações para uso deste tipo de substância. Como elas devem ser extraídas das plantas, sua obtenção pode ser cara, trabalhosa e não garante a pureza do produto final. No caso de o medicamento ser em forma de extrato, têm-se observado que as várias substâncias presentes no fitomedicamento podem interferir uma no efeito da outra e, dessa forma, reduzir o resultado esperado.

Uma das formas de resolver os problemas dos fitocanabinóides foi a síntese de canabinóides em laboratório. No que tange os sintéticos, estes foram especialmente desenhados por cientistas para encaixar perfeitamente nos receptores CB1 ou CB2 e, assim, desencadear os efeitos benéficos do ECS. Neste sentido alguns sintéticos já têm sido testados para uso em neuroinflamações, esclerose múltipla, náusea em pacientes de câncer, lúpus eritematosos, esteatose hepática e dermatites. Dr Marzo destaca que até medicamentos que não foram desenhados para atuar no ECS, também atuam nele, como por exemplo a dipirona e o paracetamol que tem seu efeito analgésico associado a ativação dos receptores CB1.  Mesmo com tantos efeitos benéficos para o tratamento de várias doenças, algumas limitações também rondam a liberação segura destes medicamentos para o mercado. Grande parte destas substâncias atuam nos receptores CB1 que estão presentes em grandes quantidades no cérebro e regulam muito fortemente fatores relacionados ao comportamento e podem causar quadros de depressão ou ansiedade.

Se tudo que está descrito aí em cima é prova de eficácia dos canabinóides, isso significa que o consumo pode ser benéfico para a saúde? Sim, mas, como tudo que consumimos, temos que estar atentos a alguns detalhes: controle de qualidade da matéria prima utilizada e do sistema de extração dos fitocanabinóides, padronização dos extratos indicando quais os componentes e em que concentração eles se encontram nos extratos, testes de segurança para saber os efeitos adversos, controle qualitativo e quantitativo de impurezas presente nos extratos, autorização de produção e comercialização pelas agências reguladoras. Depois de aprofundados nossos conhecimentos, estaremos empoderados como sociedade para discutir a descriminalização e a legalização dos canabinóides.

Referências

Clique para acessar o nrd.2018.115.pdf

http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/viewFile/3953/2742

http://lehda.fflch.usp.br/sites/lehda.fflch.usp.br/files/upload/paginas/2014.%20TORCATO.%20uma%20historia%20da%20proibicao%20das%20drogas.pdf

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O imaginário mundo binário

Ainda é muito comum que se associe diferenças comportamentais ao sexo, invocando determinismo biológico. Para embasar essas afirmações, muitas pesquisas científicas são tendenciosamente utilizadas de forma antiética para apoiar certas crenças. Mas as interpretações dos dados não são tão simples assim.

Algum desavisado poderia facilmente apoiar diferenças de gênero usando um estudo que mostra que chimpanzés fêmeas e machos têm diferentes comportamentos que emergem já na infância, com machos brincando mais do que fêmeas em atividades mais físicas como “pega-pega”, por exemplo.  

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Contudo, esta pesquisa não comprova que a diferença seria determinada pelo desenvolvimento de traços relacionados ao sexo, ou seja, não está relacionado com ser geneticamente fêmea ou macho. O desenvolvimento comportamental sofre influência do mundo externo ao indivíduo desde quando este encontra-se no útero e durante toda a sua vida.

Nem mesmo variáveis fisiológicas como produção de hormônios possuem uma ligação clara e direta com a determinação de caracteres sexuais. Por exemplo, os hormônios podem variar não somente entre “hormônios femininos” e “masculino”, mas em quantidade assim como em quantidade de receptores a estes hormônios.

Além disso, cada vez mais pesquisas têm mostrado que a diferença de gênero é relacionada a diferenças na socialização. A diferença de gênero começam a ser impostas socialmente antes mesmo do nascimento; quando compramos brinquedos e roupas de acordo com o sexo. O binário entre macho e fêmea começa a ser estabelecido pela sociedade antes mesmo do que pela biologia.

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E esse viés de gênero tem consequências para toda a vida. A identificação com determinadas profissões se dá ainda muito cedo, em torno dos 6 anos, ou seja, antes mesmo que a criança pudesse ser apresentada, por exemplo, à matemática – habilidade comumente associada a homens e não às mulheres.

Esse viés é continuamente reforçado porque acreditamos tanto nestas diferenças que mesmo involuntariamente nós, homens e mulheres, acabamos escolhendo homens em detrimento às mulheres para ocupar cargos. Se apresentado o mesmo currículo, uma hora com o nome de uma candidata mulher e outra de um candidato homem o empregador tende a escolher o homem. 

Ainda assim é muito difícil separar se os comportamentos seriam consequência de diferenças biológicas ou se seriam reflexo do aprendizado.

Para responder esta questão precisaríamos testar duas amostras iguais submetidas a condições ambientais diferentes. Dificilmente, por motivos éticos, poderíamos fazer isso em humanos ou outros primatas, mas e se existissem duas populações que se comportam de maneira parecida, com exceção de talvez uma característica (o comportamento que você quer testar), e fosse possível controlar a variável ambiental que causaria esta diferença?

Por exemplo, sabendo que 1) chimpanzés e bonobos são duas espécies próximas

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filogeneticamente entre si e da espécie humana, portanto são bons modelos para responder questões sobre a evolução do comportamento humano; 2) estas duas espécies no ambiente silvestre possuem muitas semelhanças, como estrutura social, mas os chimpanzés são conhecidos por machos que formam coalizões bastante agressivas enquanto os bonobos são conhecidos por serem pacíficos e 3) a diferença em ser pacífico ou agressivo esta está associada à disponibilidade de frutas de qualidade; como os chimpanzés vivem em um ambiente com restrição de alimentos as fêmeas são forçadas a gastar mais tempo forrageando sozinhas ou em pequenos grupos (para diminuir a concorrência ao achar os frutos), enquanto fêmeas bonobos podem socializar por mais tempo. Em um grupo onde fêmeas socializam mais os machos são menos competitivos e mais pacíficos.

Assim, se pudéssemos fornecer a mesma condição ambiental para estas duas espécies, sem restrição de alimentos; será que os chimpanzés seriam mais pacíficos? Será que a agressividade dos chimpanzés é mesmo reflexo do ambiente ou será que eles são biologicamente violentos? Mas como testar isso sem causar um impacto ambiental? É aqui que entra nesta história duas cientistAs que tiveram uma grande sacada de usar animais de cativeiro (que não sofrem com restrição alimentar) para tentar entender o quanto este comportamento é relacionado ao sexo ou é reposta do ambiente social! Estudar população em cativeiro oferece a perfeita situação para esse teste. E foi o que elas fizeram.

Os resultados mostraram que chimpanzés e bonobos quando em cativeiro, onde não há falta de alimento de qualidade, investem o mesmo tempo em socialização; tanto entre fêmeas quanto em machos. Assim, este trabalho traz mais uma evidência de que os comportamentos sociais de primatas não são determinados pelas suas características sexuais, mas também pelo ambiente; ao mostrar que eles socializam mais se possuem mais tempo para isto, e que sociedades mais pacíficas são resultados do tempo de socialização e não da genética.

Os trabalhos mostrados aqui suportam a premissa que os comportamentos de primatas, tanto primatas humanos quanto não humanos, são flexíveis. Isso significa dizer que mesmo que encontremos uma tendência de comportamento associada com o gênero, não temos condições de dizer que é causada pelo sexo. Se nosso comportamento é um produto da interação com o ambiente em que estamos inseridos, inclusive o social, então tendências encontradas podem apenas ser reflexo de estímulos diferentes. Dessa forma, mesmo havendo menos mulheres em carreiras exatas do que homens, não temos condições de dizer que isto é relacionado ao sexo, pois pode ser apenas uma resposta ao ambiente social, ao estímulos apresentados às meninas e aos meninos desde crianças além de reprodução do estereótipo; homens são escolhidos em detrimento das mulheres, por se acreditar que são melhores em certas áreas e porque não engravidam.

Que tal agora ao invés de apresentar às nossas crianças o binário mundo do rosa e azul, carrinhos e bonecas, apresentassemos um mundo mais arco íris? Em que brinquedos fossem apenas brinquedos que estimulam a criatividade, o raciocínio lógico, a empatia e a liberdade de expressão?

Que tal agora lembrarmos dessas evidências científicas antes de generalizar o comportamento de uma mulher ou homem? Ou ainda quando for contratar, ou escrever uma carta de indicação, e até mesmo quando for xingar alguém!

Tente se libertar do binário, as pessoas são mais diversas e isso é muito mais vantajoso e interessante do que um mundo de apenas dois universos completamente contrários.

E se precisar de apoio: a ciência já está lhe dando as ferramentas para isto.

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Para saber mais:

Surbeck M, Girard-Buttoz C, Boesch, C, Crockford C, Fruth B, Hohmann G, … Mundry R. (2017). Sex-specific association patterns in bonobos and chimpanzees reflect species differences in cooperation. Royal Society Open Science, 4(5), 1-20. DOI: 10.1098/rsos.161081

Rodrigues MA & Boeving ER 2018. Comparative social grooming networks in captive chimpanzees and bonobos. Primates.

E livros:

Gould SJ. The Mismeasure of Man

Marlene Zuk Sexual Selection

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“Para que feminicídio se já existe homicídio?” – Pesquisa da Demografia traz uma resposta

“Para que feminicídio se já existe homicídio” é uma pergunta que ouço com frequência desde a aprovação da lei brasileira de 2015, que qualifica o assassinato de mulheres motivados por uma questão de gênero: sua condição de mulher associada ao status de esposa / namorada / mãe, etc. Geralmente, a pergunta é feita por homens. Casos como o recente feminicídio de Tatiane Sptizner, 29 anos, tornam necessária uma resposta definitiva.

As imagens da violência que Tatiane sofreu nas mãos do marido chocaram o país e também circularam o mundo, encontrando espaço em muitos jornais internacionais. Contudo, a sua morte é uma exceção apenas pela divulgação que recebeu da imprensa nacional e estrangeira, já que diversas organizações feministas e páginas no Facebook como a 8M Brasil ajudam a divulgar muitos outros casos esquecidos e que chegam a números alarmantes. A morte dessas mulheres, na maioria das vezes, é a consequência direta de relacionamentos abusivos permeados por violência doméstica, psicológica e sexual, também criminalizados no Brasil através da Lei Maria da Penha desde 2006.

O conceito de feminicídio é importante para a sociedade e o próprio Estado enxergarem um tipo de crime muito comum, que tende a desaparecer nas estatísticas generalistas de “homicídios”. É o que mostra a pesquisa de doutorado desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas por Jackeline Aparecida Ferreira Romio, “Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde” (IFCH, 2017, bolsista CAPES #minhapesquisacapes #existepesquisanobr). Romio busca fazer um levantamento dos casos de mortes de mulheres, no Brasil, que poderiam ser considerados feminicídios, entre os anos de 1996 e 2014, ou seja, anteriormente à lei. A tese, da área da Demografia, inova ao tomar como fontes documentos da área da saúde que fazem parte do SUS, como as Declarações de Óbito (DO) disponíveis no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM). Para a pesquisadora, voltar-se para esses registros possibilita preencher os “buracos” deixados pelos tradicionais Boletins de Ocorrência e outras fontes jurídicas normalmente utilizadas em pesquisas sobre violência por conta da “sub-notificação dos casos de agressão contra mulheres”, motivada, entre outras questões, pela “naturalização das mortes de mulheres por razões de gênero, a invisibilidade institucional dos efeitos de determinadas leis na vida das mulheres [e] o viés andrógeno dos meios de coleta de informação que não favorecem a interpretação direta da violência contra a mulher” (p.88). Um caso contundente apontado por Romio é o feminicído da jovem Eloá Pimentel em 2008, mantida em cativeiro durante 4 dias pelo seu ex-namorado Limdemberg. Para Romio e outras estudiosas do caso, os “oficiais cometeram sucessivas falhas e declaravam à imprensa sua vontade de preservar a vida e integridade moral do sequestrador que, na opinião deles, era apenas um jovem apaixonado” (p.56), o que possibilitou o feminicídio da jovem. E não é só no Brasil. Em um importante estudo de 1992, as pesquisadoras Jill Radford e Diana Russell já tinham apontado para a banalização no tratamento das mortes das mulheres tanto pela justiça quanto pela mídia nos EUA, Reino Unido e Índia: “Nos casos de agressão contra a mulher há uma tendência em transformá-la na própria responsável pela agressão que sofreu” (p.42).

Romio apresenta os dados de sua pesquisa em uma classificação de feminicídios divididos em 3 sub-categorias: feminicídio doméstico, ou seja, a “violência letal por agressão física contra a mulher no contexto domiciliar, conjugal ou familiar registrados no sistema de saúde”; o feminicídio sexual, a “violência letal por agressão física contra a mulher por meio sexual”; e inova, novamente, ao incluir o conceito de feminicídio reprodutivo, “vinculado às políticas de controle do corpo e da sexualidade da mulher, cuja expressão mínima são as morte por aborto registradas nos sistema de saúde” (p.71), este último essencial para fortalecer, por exemplo, a recente discussão no STF sobre a descriminalização do aborto e combater a triste derrota da mesma proposta no Senado da Argentina. Para Romio, essas sub-categorias são importantes para tentar contornar um problema apontado pela pesquisadora Wânia Pasinato de que agrupar todos os assassinatos de mulheres em uma única categoria pode silenciar questões relativas ao contexto em que o crime ocorre e prejudicar a atuação do Estado e o desenvolvimento de políticas públicas para combater a prática.

Mesmo para quem não entende muito de Demografia ou Estatística, os resultados apontados por Romio são muito preocupantes. Por exemplo, em uma comparação de mortes de homens e mulheres decorrentes de agressão sexual, a pesquisadora chega ao gráfico abaixo, dividido por 3 faixas etárias:

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Gráfico apresentado por Romio, p.133

Os números mostram que a maioria esmagadora dos casos de violência sexual afeta meninas e mulheres até 49 anos, porém indica também a violência sexual contra meninos e homens, um dado que não pode ser ignorado. Basta lembrarmos, por exemplo, os casos de pedofilia abafados pela Igreja Católica e a perseguição à comunidade LGBT.

Romio conclui que o trabalho com as fontes da saúde possui muitas vantagens, por exemplo, por ela ter conseguido localizar dois casos de tráfico interno de seres humanos e cárcere privado que levaram ao feminicídio das vítimas, o que poderia ser, com um estudo mais aprofundado, outro tipo de sub-categoria. Contudo, Romio também aponta para os possíveis problemas dessas fontes, o principal seria a característica binária do formulário da área da saúde na categoria “sexo”, o qual leva apenas em consideração a característica biológica, ou seja, classifica as pessoas em “masculino” e “feminino”. Dessa forma, a pesquisadora aponta para um grande “empecilho para buscar informações sobre mulheres transgêneras” (p.122). De qualquer forma, sua pesquisa ilumina um pouco mais a questão da violência de gênero contra as mulheres e reforça a importância da lei do feminicídio, respondendo definitivamente à pergunta que deu título a esse texto.

Referências:

PASINATO, Wânia. Justiça e violência contra a mulher. O papel do Sistema Judiciário na solução dos conflitos de gênero. Dissertação de mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 1997.

RADFORD, Jill e RUSSELL, Diana E. H. Femicide: The Politics of Woman Killing. Great Britain: Open University Press: 1992.

ROMIO, Jackeline Aparecida Ferreira. Feminicídios no Brasil, uma proposta de análise com dados do setor de saúde. Tese de Doutorado. IFCH, Unicamp, 2017. Disponível aqui.

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Veículos autonômos: quão perto estamos de ver carros dirigindo completamente sozinhos nas ruas?

Imagine que você está fazendo uma viagem longa de carro ou está preso no trânsito das cidades grandes, como em São Paulo, por exemplo, onde os motoristas passam o equivalente a 1 mês e meio no trânsito por ano1 E pensa “não seria ótimo se eu pudesse só falar para o meu carro onde eu quero ir e ele me levasse até lá sem nenhum esforço meu?”. Depois de milhares e milhares de pessoas passarem por essa situação e, claro, com a ajuda de avanços tecnológicos, cientistas começaram a desenvolver veículos autônomos, ou seja, que não necessitam de alguém na posição de motorista. O funcionamento dos veículos autônomos é explicado no vídeo a seguir:

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Como funcionam veículos autônomos. Fonte: Neowin.

O rápido desenvolvimento das tecnologias necessárias para viabilizar esses veículos tem trazido eles para uma realidade mais alcançável. Veículos autônomos são equipados com milhares de sensores, principalmente de três tipos: sensores de distância LIDAR (Light Detection And Ranging), câmeras coloridas e radares.2 Computadores de bordo leem os valores medidos por estes sensores constantemente, e utilizam estas informações para interpretar o que está à frente do carro, seja uma estrada, um outro carro, um pedestre, um cachorro, ou simplesmente um cruzamento. Para que seja possível identificar estes diferentes objetos, é necessário que estes sistemas tenham acesso a uma enorme base de dados para maximizar sua eficiência e precisão, e ao mesmo tempo sejam rápidos em seu tempo de resposta. Estima-se que seja necessário acumular dados de mais de 10 bilhões de milhas rodadas pelos veículos para que seja estatisticamente possível garantir a segurança. Existem atualmente mais de 50 empresas testando seus veículos, e a mais avançada é a Waymo, do grupo da Google, com um total de 8 milhões de milhas (quase 13 milhões de quilômetros) rodadas. Especialistas dizem que a substituição da frota de carros por carros autônomos pode solucionar problemas como trânsito e engarrafamentos em grandes cidades, diminuir (e até eliminar) acidentes, já que 90% deles ocorrem por erro humano, como embriaguez ou distração na direção. Alguns dizem até que os semáforos podem se tornar obsoletos, já que a comunicação entre os carros nas ruas pode fazer com que eles não sejam mais necessários.

Tudo parece muito bom, mas os veículos autônomos enfrentam vários desafios. Alguns deles são os mesmos que os veículos elétricos, como acesso limitado a estações de recarga, baixa capacidade de armazenamento de energia das baterias utilizadas e, consequentemente, baixa autonomia. Mas há centenas de grupos de pesquisa trabalhando para solucionar estes problemas. Além disso, os maiores desafios enfrentados pelos veículos autônomos são as questões éticas e comportamentais envolvidas em tirar completamente uma pessoa do controle do carro, e substituí-la por um computador. Este problema se agravou mais ainda após o acidente com o veículo da Uber em Tempe, Arizona, no qual uma mulher morreu após ser atropelada por um veículo em teste.3 Além deste, outros acidentes foram registrados recentemente4,5, questionando a viabilidade desta tecnologia nos próximos anos. Uma pesquisa de agosto de 2018 da empresa Axios concluiu que a principal causa dos acidente envolvendo veículos autônomos são as pessoas6, seja as que estão controlando ou monitorando os veículos durante os testes, ou as que estão nas ruas interagindo com eles. E ainda casos foram registrados de pessoas que “atacaram” veículos autônomos em teste, batendo neles ou tentando subir em cima deles.

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Conceitos de veículos autônomos promovem conforto e a possibilidade de realizar tarefas durante o trajeto com segurança. Fonte: AlealL / Getty Images.

Cientistas da Universidade de Stanford (Califórnia) defendem que é possível alcançar níveis de segurança no trânsito muito acima dos atuais simplesmente ao substituir pessoas por computadores na direção de veículos.7 Porém, existem ainda outros problemas envolvidos na introdução desta tecnologia no nosso dia-a-dia, como a substituição de seres humanos em táxis e transportes de carga, fazendo com que milhares de pessoas percam seus empregos. Além disso, existe um grande debate em torno do que é necessário simular para que um veículo autônomo seja capaz de operar de maneira responsável. Muito do que está envolvido na operação de veículos se baseia na capacidade do ser humano de tomar decisões. Uma das grandes questões éticas e filosóficas que se aplicam a estes veículos é o dilema do bonde, que consiste em um cenário hipotético onde o operador de um bonde tem a opção de seguir em um de dois trilhos. No trilho em que ele se encontra existem 5 pessoas amarradas, mas se ele tomar a decisão de ir pelo outro trilho, ele irá atropelar 1 pessoa. A questão é: como programar um veículo para tomar uma decisão deste tipo? Como ensinar uma máquina a tomar decisões que possam colocar em risco o seu passageiro ou um pedestre na rua? Como fazer a escolha?

Muitas destas perguntas provavelmente nunca terão uma resposta 100% correta. Mas com os desenvolvimentos e as pesquisas realizadas em todo o mundo atualmente, e com uma grande integração entre os grupos de pesquisa que atacam as questões de engenharia e as questões éticas envolvidas em veículos autônomos, é muito provável que na próxima década cresça significativamente a quantidade de carros “sem motoristas” nas ruas. O que nos resta é acreditar nos cientistas, confiar na tecnologia, e tentar se acostumar com a imagem de um carro dirigindo sozinho. Por enquanto, veja este vídeo de um carro aparentemente autônomo e da reação das pessoas nas ruas:

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Referências:

1 Paulistano passa 45 dias por ano preso no trânsito, segundo pesquisa, O Globo

2 Self-driving cars face a long road to becoming transportation’s future, Venture Beat

3 Uber’s self-driving cars are back on public roads, but under human control, The Verge

4 TESLA’S AUTOPILOT WAS INVOLVED IN ANOTHER DEADLY CAR CRASH, Wired.com

5 One of Apple’s secretive self-driving cars got in a crash for the first time — but it doesn’t seem to be Apple’s fault, Business Insider

6 People cause most California autonomous vehicle accidents, Axios

7 Stanford scholars, researchers discuss key ethical questions self-driving cars present, Stanford News

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O impacto de vieses raciais na ilusão da mão de borracha

Será que participantes brancos demoram mais tempo para identificar uma prótese negra como sua própria mão em comparação com uma prótese branca na ilusão da mão de borracha?

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Créditos da imagem: https://www.nappy.co (@JOTTANETO)

Para alguns teóricos, o preconceito racial está recionado a uma distinção entre “nós” e “eles” – enquanto grupos de pessoas –, de modo que as representações que temos do endogrupo e do exogrupo podem influenciar a maneira pela qual os tratamos. A nossa consciência corporal também estaria envolvida nessas distinções: nós percebemos como nosso corpo é e o comparamos com os corpos de outras pessoas.

Pensando nessas questões sobre a percepção ou a representação corporal que temos do endo e exogrupo, Marilia Lira e colaboradores realizaram um estudo com o objetivo de verificar como ocorre a percepção de próteses brancas e negras em universitários brancos.  Para tal, eles utilizaram a chamada “ilusão da mão de borracha” (Rubber Hand Illusion – RHI, em inglês). RHI é uma experiência sensorial na qual a estimulação visual e tátil na própria mão do participante, assim como na de uma prótese de borracha, é utilizada para induzir a sensação de que a prótese é a própria mão da pessoa.

Assim, os objetivos do estudo foram verificar a latência e a intensidade na qual próteses brancas e negras são sentidas como a própria mão de participantes brancos e se os resultados se correlacionavam também com a existência de viés racial implícito[1].

Noventa e cinco estudantes universitários destros foram recrutados para a pesquisa. Os participantes eram testados com uma prótese branca e outra negra (uma por dia). A primeira tarefa era o Teste de Associação Implícita (IAT), com o objetivo de verificar a existência de vieses raciais implícitos. A tarefa crítica nesse teste envolvia relacionar faces de homens negros e brancos com adjetivos positivos e negativos, em blocos considerados consistentes ou inconsistentes com a história de vida dos indivíduos. Foi presumido que relacionar negro com atributos negativos e brancos com atributos positivos era provavelmente o que os participantes aprenderam durante suas vidas, enquanto que relacionar negros e atributos positivos e brancos com atributos negativos foi considerado inconsistente com a história de vida dos participantes.

Em seguida, os participantes responderam a uma escala de reatividade interpessoal, com o intuito de verificar o nível de empatia dos participantes em quatro esferas: tomada de perspectiva, fantasia, preocupação empática e sofrimento pessoal. Depois, os participantes se sentavam confortavelmente em uma cadeira, apoiando ambos os braços em uma mesa. O braço esquerdo dos participantes era deslocado para a esquerda, uma partição de madeira era colocada entre este braço e o outro (de modo que o participante não visse mais seu braço esquerdo), e a prótese de borracha era alocada na posição que o braço esquerdo estava inicialmente. Foram feitas quatro próteses: mão de mulher negra, mão de homem negro, mão de mulher branca e mão de homem branco, de modo que o participante experienciava uma mão negra e outra branca do seu próprio gênero. Eles tinham que fechar os olhos e sua primeira tarefa era tentar acertar onde estava seu dedo indicador esquerdo (teste de movimento proprioceptivo).

Os participantes foram instruídos a prestar atenção na prótese de borracha, enquanto o equipamento dava pinceladas no braço esquerdo do participante e na prótese. Os participantes deveriam avisar o experimentador quando começassem a sentir que a prótese era o próprio braço do participante. A estimulação durava três minutos, sendo seguida por um segundo teste de movimento proprioceptivo. Por último, os participantes respondiam a um questionário sobre a RHI, com perguntas que indagavam o quanto a prótese foi sentida ou não como a própria mão do participante.

Os resultados mostraram que os participantes demoravam mais para perceber a prótese negra como a própria mão, em comparação com a prótese branca. Além disso, a magnitude, ou seja, o quanto a prótese foi sentida como a própria mão dos participantes foi maior para as próteses brancas do que para as negras. Com relação ao teste de movimento proprioceptivo, os participantes tiveram maior dificuldade de localizar a prótese negra, em comparação com a branca (apesar de serem instruídos a localizar o próprio dedo esquerdo, após a ilusão, os participantes tendem a apontar para a prótese, em vez da própria mão).

Os participantes demonstraram vieses fortes a favor do próprio grupo (viés pró-branco), havendo correlação entre esses vieses e a latência para a percepção da prótese como a própria mão. Ou seja, quanto maior o viés anti-negro, maior o tempo para que o participante percebesse a ilusão com a prótese negra. Não foram encontrados efeitos significativos entre a medida de empatia e a RHI. Um detalhe interessante nesse estudo é que as diferenças encontradas foram significativas somente na condição de sincronia, ou seja, quando as pinceladas na mão esquerda do participante iam no mesmo sentido que as pinceladas na prótese. Quando as pinceladas eram assincrônicas, não houve diferenças significativas nas medidas.

Esse estudo é um importante exemplo de como vieses raciais negativos podem impactar nossas impressões sobre indivíduos, categorizando-os como parte do exogrupo, mesmo em contextos nos quais eles poderiam ser classificados como membros do endogrupo.

O estudo completo foi publicado aqui: Lira, M., Egito, J. H., Dall’Agnol, P. A., Amodio, D. M., Gonçalves, O. F., & Boggio, P. S. (2017). The influence of skin colour on the experience of ownership in the rubber hand illusion. Scientific Reports, 7(15745), 1-13. doi: 10.1038/s41598-017-16137-3

[1] Viés racial implícito se refere a vieses identificados por medidas nas quais o tempo de resposta é a unidade fundamental, de modo que os participantes devem responder às tarefas o mais rapidamente possível. Esses vieses são distintos dos vieses explícitos, os quais são identificados por medidas de autorrelato (e.g, questionários, escalas) que não requerem tempo ou acurácia para serem realizadas.

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Mãe Neandertal e pai Denisova. Quem era Denny, a primeira humana híbrida encontrada?

Atualmente o Homo sapiens é a única espécie de humanos que existe na Terra, mas milhares de anos atrás coexistiam diferentes espécies de humanos no globo. Se essas espécies conviviam pacificamente ou não ainda é motivo de discussão entre pesquisadores de evolução humana. O que se sabe é que, em alguns momentos, essas espécies de humanos se reproduziam gerando descendentes híbridos. Até pouco tempo, no entanto, não havia sido encontrado nenhum registro fóssil híbrido, mas isso mudou com a publicação dos resultados de um estudo que analisou um fragmento de osso encontrado em uma caverna na Sibéria. Segundo esse estudo, de autoria de Viviene Slon do Instituto Max Planck da Alemanha e colaboradores, publicado no último dia 22 de agosto na revista Nature, o fragmento de osso encontrado pertencia a uma adolescente de 13 anos cujo pai era da espécie Homo denisovensis (Denisovanos) e a mãe era Homo neanderthalensis (Neandertais). A adolescente, apelidada de Denny, foi encontrada num sítio arqueológico na Caverna de Denisova, na Sibéria, onde viveu há aproximadamente 90 mil anos. Essa caverna ficou mais conhecida em 2008, quando o mesmo grupo de pesquisa alemão sugeriu, através de análises de DNA,  que os hominídeos encontrados ali pertenciam a uma nova espécie humana, o H. denisovensis. Até agora essa espécie só foi encontrada nessa área.

fragmento de osso

Figura 1: Fragmentos de ossos humanos encontrados na Caverna de Denisova. Créditos da imagem: Thomas Higham /Universidade de Oxford.

Quando uma descoberta dessas aparece, um dos maiores cuidados que os pesquisadores têm é garantir que a amostra não está contaminada e não vai gerar resultados errados. Para ter certeza que o fragmento encontrado pertenceu realmente a uma espécie híbrida, foram realizados diversos testes que compararam características do genoma de Denny com genomas de neandertais e denisovanos. Os resultados, um após o outro, mostraram que o osso encontrado pertencia realmente a um híbrido, excluindo a possibilidade de contaminação da amostra. Essa etapa do trabalho foi muito importante, pois essa caverna abrigou não só denisovanos, como também neandertais e humanos modernos ou Homo sapiens.

Os dados coletados pelos pesquisadores sugerem que Denny não foi o primeiro híbrido dessa população. O pai de Denny, que era denisovano, também tinha resquícios de DNA neandertal na sua genealogia. O parente ancestral neandertal do pai de Denny teria vivido entre 300 e 600 gerações antes. Dos seis indivíduos H. denisovensis que tiveram o DNA nuclear recuperado dentro da Caverna de Denisova, somente Denny e seu pai mostram indícios de fluxo gênico entre duas espécies. Porém, como mencionado anteriormente, a Caverna de Denisova não foi habitada somente na pré-história. Lá também foram encontrados fragmentos de ossos de humanos modernos, H. sapiens. Em alguns desses H. sapiens foi possível detectar mistura genética com neandertais ocorridas numa época em que as duas espécies habitavam o globo terrestre. A diferença de Denny para esses outros indivíduos é que Denny é uma híbrida de primeira geração, ou seja, ela é filha de dois indivíduos de espécies diferentes. Um híbrido de primeira geração nunca havia sido encontrado anteriormente, por isso a sua importância e a comoção com a sua descoberta. Os outros indivíduos encontrados, como o pai de Denny, por exemplo, mostram sinais de mistura entre espécies que teria ocorrido muitas gerações antes deixando vestígios no DNA.

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Figura 2: Pesquisadoras trabalhando na escavação da Caverna de Denisova. Crédito da imagem: Bence Viola/ Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.

O que falta agora é um panorama mais amplo sobre como ocorriam essas interações que acabavam por gerar humanos híbridos. No caso do H. denisovensis falta ainda mais. Como os restos recuperados dessa espécie se restringem a alguns fragmentos de ossos e dentes, ainda não se conhece a anatomia desses humanos. Apesar disso, alguns pesquisadores sugerem que eles fossem fisicamente semelhantes a neandertais. Outra coisa que é difícil de inferir é em quais situações esses encontros ocorriam. Nesse campo pode-se especular bastante. É bem provável que as diferentes espécies de humanos não convivessem numa mesma população, fazendo com que esses encontros fossem esporádicos e temporários. Uma dessas situações de encontro poderia ser em um cenário nada amigável, como guerras por defesa de território, por exemplo. Uma das espécies invadia o território da outra e, como já vimos muitas vezes, a maioria dos homens era morta e as mulheres subjugadas e abusadas. Outra possibilidade seria o encontro entre indivíduos isolados da população, como ocorre em outras espécies animais como lobos e chacais, por exemplo. Nesses encontros há troca genética e geração de indivíduos híbridos, mas, assim como os pais, é possível que esses híbridos continuem isolados da população. É provável que ambos cenários, e muitos outros diferentes, acontecessem concomitantemente. Apesar disso, o que muitos cientistas concordam é que a saúde desses híbridos não era das melhores. No mundo animal, geralmente quando há geração de espécimes híbridos, estes apresentam mais anomalias que as espécies originais e frequentemente são inférteis.

As buscas continuam, tanto por mais indivíduos híbridos, quanto por mais H. denisovensis. Os únicos exemplares de denisovanos estão na caverna de Denisova. O grupo alemão, principal grupo de pesquisa da caverna, continua atrás de pistas que nos mostrem como era a vida dos nossos antepassados. Muitas descobertas ainda estão por vir.

Referências:

Viviane Slon et al., The Genome of the Offspring of a Neanderthal Mother and a Denosivan Father. Nature. 2018. DOI: 10.1038/s41586-018-0455-x.

Jornal El País. Achada a primeira filha fruto de sexo entre duas espécies humanas diferentes.

Jornal El País. O sexo entre espécies e os segredos de Denny, a primeira híbrida.

Nature News. Mum’s a Neanderthal, Dad’s a Denisovan: First discovery of an ancient-human hybrid.