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Bactérias: o que elas têm a ver conosco afinal?

Existe uma ideia de que os microrganismos são maléficos a nós seres humanos. Também há a ideia de que precisamos de uma higiene hospitalar para ter uma vida saudável e sem doenças. É fácil ver isso nos produtos de limpeza que se propõem a matar 99,9% dos germes e nas condutas médicas, com a superutilização de antibióticos. Mas os microrganismos como um todo participaram e participam ativamente do processo evolutivo humano, inclusive para nossa formação cerebral.

A base da variação sobre a qual atua a evolução é a variação genética (que ocorre no DNA do núcleo ou presente no citoplasma, em nossas mitocôndrias). Porém, vêm crescendo em importância as variações epigenéticas (que não ocorrem na sequência de DNA). Além disso, outra variação que pode ser muito importante é a variação genética encontrada nos microrganismos que vivem em nós, os simbiontes, que entram na equação como uma variação genética se pensarmos em nossos organismos de forma macroscópica. Para se ter uma ideia, em números, para cada célula do nosso corpo existem outras dez de microrganismos (1 a 2 quilos do nosso corpo equivalem a microrganismos, o mesmo peso do cérebro); existem pelo menos 9,9 milhões de genes não humanos em nossas células!

A interação entre essa microbiota (bactérias, fungos, vírus e nematoides) e nosso núcleo celular, onde está a informação genética, é similar à interação entre o núcleo celular e a mitocôndria (onde ocorre a produção de energia na célula, e que também remotamente já foi um microrganismo simbionte). A microbiota do nosso corpo influencia quase todos os aspectos de nossa saúde, dado que colonizam regiões como a boca, a pele, órgãos reprodutivos, o trato gastrointestinal. Durante a evolução humana, o cérebro sofreu reconstruções estruturais em que houve um grande aumento de seu volume relativo, culminado em um órgão com a maior demanda energética do corpo. Ao mesmo tempo, o trato gastrointestinal diminuiu proporcionalmente, levando a hipótese “do tecido caro”, que propõe a compensação do crescimento metabólico de um órgão pela redução de outro órgão.

De forma resumida, uma proposta de como os microrganismos influenciaram a evolução do cérebro nos seres humanos é por meio do “triângulo social”. A evolução recente com o aumento do cerebral apareceu em conjunto com a diversidade de RNA (molécula intermediária entre o DNA e a proteína, essa última efetora de processos celulares), aumentando a capacidade de processamento e plasticidade do cérebro. Ao mesmo tempo os microrganismo simbiontes contribuíram para o aumento da socialização, pois promoviam o desenvolvimento de sinais no eixo cérebro-intestino. Além disso, o comportamento social altera a composição da microbiota e vice-versa, por exemplo, a expressão de RNA não codificantes (que não produzem proteínas) está associada a doenças cognitivas que alteram o comportamento social. Quer dizer que os tipos de bactérias que vivem em mim podem influenciar meu comportamento? Sim!

E hoje, nossas interações com essa microbiota vêm sendo investigadas e parece que explicam parte da nossa diferença individual, como a suscetibilidade a doenças e a resistência a medicamentos. E é possível que a medicina personalizada no futuro provenha não da nossa diversidade genética individual, mas da microbiota que nos compõe.

Fontes:
1. Stilling, R. M., Bordenstein, S. R., Dinan, T. G. & Cryan, J. F. Friends with social benefits: host-microbe interactions as a driver of brain evolution and development? Front. Cell. Infect. Microbiol. 4, (2014).
2. Suez, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature 514, 181–186 (2014).

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Crônicas de um congresso

Há um tempo, estive em um congresso acadêmico, como tantos que há por aí. Como em vários desses congressos, após os “trabalhos”, alguns participantes saíram para uma espécie de “happy-hour”. Durante esse “evento social”, um dos participantes do congresso passou a mão na bunda de uma das participantes. Um outro participante começou a conversar com uma quarta participante e, de repente, começou a relatar como seu pênis supostamente seria viril, já que ele é descendente de índios. Esse mesmo participante tentou beijar uma outra acadêmica à força. E não foram apenas essas “ocorrências”. Como também é muito comum em congressos, grande parte dos participantes estava hospedada no mesmo hotel. Então, durante a madrugada, depois que todos já estavam dormindo (ou quase), dois acadêmicos tentaram invadir o quarto de uma de nossas colegas.

Situações como essas não aconteceram excepcionalmente nesse congresso. Relatos de cientistas assediadas por seus colegas em eventos científicos são frequentes. E, assim como também acontece em outras situações de violência, essas mulheres assediadas preferiram não relatar o acontecido à organização. O motivo? Os assediadores, provavelmente, negariam o ocorrido e elas ficariam conhecidas na comunidade acadêmica como espalhadoras de boatos e causadoras de problemas. De fato, um desses assediadores passou o resto da semana indo conversar com cada um dos participantes para dizer-lhes que as cientistas assediadas estavam mentindo. E, em decorrência disso, uma dessas vítimas – que estava em seu primeiro congresso – teve que lidar com a preocupação e a tensão de ser considerada mentirosa pelos colegas.

Esses casos são mais uma expressão do machismo a que as mulheres cientistas estão sujeitas no ambiente acadêmico. Muitos pesquisadores ainda consideram que o corpo de suas colegas está disponível. Acham legítimo assediá-las em um ambiente de trabalho. Afinal, o que estariam fazendo essas mulheres desacompanhadas em cidades e países estranhos? Obviamente estão querendo “se divertir”. Só que não. O que essas mulheres querem é apenas conseguir expor o seu árduo trabalho de anos e serem respeitadas por seus colegas, como iguais, como seres intelectualmente tão capazes como eles.

Esse tipo de assédio torna o ambiente acadêmico ainda mais hostil para as mulheres. Ao longo de sua carreira, as mulheres cientistas já têm que enfrentar os mais diversos obstáculos: insuficiência de creches, dupla jornada, silenciamento, etc. O assédio em eventos agrega mais um item a essa lista. Ademais, frequentemente, as cientistas que são vítimas desses atos começam a questionar a própria qualidade de sua pesquisa: meu trabalho tem valor ou sou só mais um rosto bonitinho no congresso?

Já há algum tempo tenho conversado bastante com colegas em congressos e os relatos são os mesmos. Não importa a nacionalidade, as cientistas já vivenciaram – ou conhecem alguém que vivenciou – situações de assédio em eventos acadêmicos. É por isso que não podemos mais nos calar diante dessas situações. Se algo acontecer, considere a possibilidade de relatar à organização. A exposição da situação de assédio – e até mesmo do assediador – para os participantes do evento pode causar uma situação de constrangimento na comunidade acadêmica, o que talvez seja uma arma eficaz no combate a esse tipo de violência. Além disso, se uma colega vier te relatar um assédio, acredite nela e procure dá-la apoio para denunciar o agressor. Somente juntas conseguiremos tornar o ambiente menos hostil à presença das mulheres cientistas.

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E por falar em dinossauros…

dinoIlustração: @sarita

Não foi por acaso que o longa Jurassic Park fez tanto sucesso no ano de seu lançamento (1993) e agora, com sua continuação Jurassic World. Dinossauros foram criaturas incríveis que dominaram a Terra desde o período Triássico até o final do período Cretáceo e, no entanto, povoam até hoje o imaginário popular, principalmente na cultura da ficção científica. Há muito sabemos que as aves que vemos hoje voando por aí são descendentes desses (nem sempre) gigantes, mas o que acreditávamos ser uma janela no tempo evolutivo para o aparecimento da avifauna mostrou-se, na verdade, uma série de mudanças que paulatinamente levaram ao surgimento das aves como as conhecemos hoje!

Com o casamento entre morfologia de fósseis e avanços da genética, o traçado dessas transformações tornou-se cada vez mais visível, até para transformações pitorescas como um Velociraptor de duzentos quilos e um pombo moderno.  O primeiro fóssil a reforçar fortemente essa teoria  foi o híbrido Archaeopteryx, possuindo anatomia corporal muito próxima aos raptores da época com o adendo de penas e uma estrutura parecida com um bico pré-cranial.

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Imagens: animalia-life.com

Então, o que acreditava-se ser um salto para a proliferação da avifauna mostrou-se, na verdade, um processo lento e de mudanças pontuais (o que convenhamos, nossa amiga evolução sabe fazer muito bem). Dentre um “pool” de características interessantes (ossos aerados, penas, estrutura cranial mais delicada), algumas foram selecionadas gerando, assim, uma nova categoria.

Esse conjunto de descobertas abre todo um leque de novas possibilidades e nichos de pesquisa.  Para saber mais sobre sobre os caracteres morfológicos e estruturais estudados, consulte o artigo inicial da QuantaMagazine.

No que diz respeito à descrição do passado… Ainda temos muito pela frente!

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Campanha “Junho vermelho” por mais doações de sangue

Junho vermelho

Imagem da campanha “Junho vermelho” 2015

No último domingo, 14 de junho, foi comemorado o Dia Mundial do Doador de Sangue. Com apoio dos estados e municípios, por meio da Hemorrede Pública Nacional, a meta é aumentar continuamente a quantidade de doadores de sangue no país.

Dados do Ministério da Saúde apontam que 1,8% dos brasileiros realiza doação de sangue e hemoderivados regularmente, fazendo com que essa taxa esteja de acordo com o parâmetro de 1% a 3% estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Porém, o Ministério trabalha para ampliar este índice e chegar aos 3% de doações.

A política brasileira de doação de sangue e hemoderivados é fruto de uma longa trajetória de mudanças de leis e conscientização da sociedade. Desta forma, nos últimos anos, o conjunto de condutas adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar doações seguras e com máxima qualidade foi reconhecido internacionalmente, posicionando o Brasil como referência na área de doação de sangue entre os países da América Latina, do Caribe e da África.

Apesar do grande progresso, ainda há muito trabalho no âmbito prático: é preciso intensificar as campanhas locais e nacionais com o intuito de incentivar a população a realizar mais doações de sangue. Além disso, para manter os estoques dos hemocentros em grau satisfatório, o Ministério da Saúde propõe maior enfoque na fidelização de doadores para que tenham o compromisso, o hábito e a disponibilidade de realizar a doação de sangue voluntariamente.

Quer tirar suas dúvidas sobre os requisitos básicos para doar sangue?

Acesse: http://www.brasil.gov.br/saude/2014/11/confira-requisitos-basicos-para-doar-sangue

Fontes:

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Procura-se: astrônoma, matemáticas, físicas e químicas

Somos um blog ainda recém-nascido, mas com muito potencial! Para o nosso trabalho deslanchar, precisamos de mulheres interessadas em escrever com a gente! Nosso critério é que você seja pós-graduanda ou pós-graduada em alguma área da ciência!

Onde estão as astrônomas, as matemáticas, as físicas, as químicas (da química fundamental)?? Escrevam um e-mail para nós com sua área de conhecimento no título e informe-se!!

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Tim Hunt faz declarações machistas durante conferência em Seoul

Hoje a notícia de que um cientista ganhador de um Nobel teria se posicionado numa conferência de forma machista e desnecessária bombou nas redes sociais.

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Imagens: Twitter e The Guardian

Sir Tim Hunt, ganhador do prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2001, manifestou sua opinião sobre a presença de mulheres em laboratórios de ciência durante uma conferência de mulheres sobre jornalismo científico (World Conference of Science Journalists, na Coreia do Sul). De acordo com o jornal The Guardian, Tim teria falado que “há três coisas que acontecem com as mulheres em laboratórios: você se apaixona por elas, ou elas se apaixonam por você ou, quando você as critica, elas choram”. O cientista também defendeu que deveriam existir laboratórios separados para homens e mulheres trabalharem, comentando também que “não quer ficar no caminho das mulheres”.

Não é apenas uma infeliz estatística que apenas 13% das pessoas trabalhando em áreas de ciência, tecnologia e engenharia sejam mulheres, de acordo com uma pesquisa feita no Reino Unido (que você pode conferir aqui). Mulheres muitas vezes não recebem crédito por seu trabalho, como já ocorreu a inúmeras cientistas que tiveram seus trabalhos supostamente roubados, como foi o caso de Rosalind Franklin. Essa declaração machista e misógina de um pesquisador importante, membro da Royal Society (uma sociedade de cientistas renomados), mostra que os obstáculos que temos que vencer diariamente como mulheres que trabalham dentro de um instituto de pesquisa científica são piores do que imaginamos. Temos aquela sensação de que as coisas estão mudando, mas ainda há muito a se mudar! Acredito fortemente que as mulheres irão cada vez mais se empoderar das áreas de conhecimento que amam, seja ela uma ciência exata, humana ou biológica. O site da Royal Society chegou a publicar uma nota para afirmar que não concordam com as declarações de Tim Hunt.

Até quando será necessário dizer que a ciência precisa de mulheres? Queremos chances iguais àquelas dos homens para atuar em qualquer área do conhecimento. Machistas não passarão!

Fontes:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/jun/10/tim-hunt-science-prejudice-against-women

http://www.theguardian.com/uk-news/2015/jun/10/nobel-scientist-tim-hunt-female-scientists-cause-trouble-for-men-in-labs

 

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Transgênicos naturais?

CaptureIlustração: senhoradotempo

Atualmente, há uma grande discussão em torno do cultivo de plantas transgênicas, mas poucos sabem que o processo de transferência horizontal de genes (transferência de material genético de uma espécie para outra) é algo que aconteceu muito ao longo da história evolutiva – e ainda acontece hoje! Cientistas descobriram que durante a domesticação da batata doce (Ipomoea batatas), houve a transferência de genes de bactérias que infectam plantas (Agrobacterium rhizogenes) para alguns cultivares de batata. Esse tipo de material genético, chamado de T-DNA (DNA de transferência), pode ter fornecido aos cultivares de batata doce genes importantes que permitiram sua domesticação.Mas o que isso tem a ver com os transgênicos? Uma planta transgênica recebe T-DNA de uma outra espécie de agrobactéria (Agrobacterium tumefaciens), que também tem a capacidade natural de transferir material genético para as células vegetais. Na realidade, esse estudo mostra que devido às interações planta-micróbios que ocorrem na natureza, a inserção de material genético estrangeiro em plantas é um processo natural que sempre ocorreu e que permitiu que surgissem novas vias metabólicas e novas características nas plantas, favorecendo sua diversificação e possivelmente sua domesticação.  Acredito que esse trabalho (e diversos outros que mostram como é disseminada a transferência horizontal de material genético entre as mais diversas espécies) abrirá portas para uma discussão menos agressiva sobre a produção e consumo de cultivares transgênicos no mundo.

Fontes:

Jones J (2015). Domestication: Sweet! A naturally transgenic crop. Nature Plants doi:10.1038/nplants.2015.77.

Kyndt T, Quispea D, Zhai H, Jarret R, Ghislain M, Liu Q, Gheysen G & Kreuze JF (2015). The genome of cultivated sweet potato contains Agrobacterium T-DNAs with expressed genes: An example of a naturally transgenic food crop. PNAS doi: 10.1073/pnas.1419685112.