0

Micro-organismos que vivem em sedimentos a ~2,5 km de profundidade no oceano são semelhantes àqueles que vivem na superfície.

Quando pensamos nos animais que vivem no fundo do oceano, na maioria das vezes imaginamos aqueles animais estranhos e bem diferentes do que vemos na superfície. Será que o mesmo se aplica aos micro-organismos? Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores de diversas universidades mostrou que… não!

Amostras foram retiradas de sedimentos de 2 quilômetros abaixo do solo do oceano e as análises demostraram que os micro-organismos ali presentes são similares com os que habitam outros ambientes na superfície da terra. Uma resposta inesperada, já que os sedimentos do fundo do oceano são um local aonde a temperatura e a pressão são totalmente diferentes dos padrões em que nós vivemos. Além disso, não existe muitas formas disponíveis de nutrientes para serem utilizadas pelos micro-organismos.

Para esse estudo, foram utilizadas amostras de sedimentos na costa nordeste do Japão, na profundidade de até 2400 metros. Eles encontraram evidências de atividade metabólica até na amostra da maior profundidade, de 2458 metros. No entanto, quanto maior a profundidade, menor foi a concentração de células encontradas. Por esse motivo, os pesquisadores tiveram que ser bem cuidadosos em relação a contaminação das amostras, podendo levar a uma alteração dos resultados encontrados.

Para simular o habitat desses micro-organismos, esses foram incubados na temperatura de 40oC em um meio contendo pó de carvão, uma forma criada a partir da pulverização desse composto. Foi detectada atividade metabólica, mostrando que os micro-organismos que habitam esses ambientes utilizam o carvão como fonte de nutrientes e liberam metano no ambiente. Dessa maneira, eles podem ser importantes para a manutenção do ciclo do Carbono no planeta.

A comparação entre as sequências da subunidade 16s do ribossomo (sequência conservada que pode ser usada para a comparação de organismos, chamada de “cronômetro evolutivo”) dos micro-organismos das amostras de sedimentos e dos micro-organismos de menores profundidades e mostraram que essas são populações não são similares. Surpreendentemente, os micro-organismos presentes em grande profundidade foram mais semelhantes àqueles encontrados no solo de florestas atualmente. Como Jennifer Biddle, da Universidade de Delaware, disse para o site da Science “é como ir em Plutão e ver um McDonald’s”. Esse achado pode ter a ver com a geologia do local de coleta: há aproximadamente 23 milhões de anos, essa área era um ambiente costeiro com lagoas semelhante à algumas partes da Florida, mas com as mudanças continentais essa área afundou e foi coberta por sedimento, deixando uma camada que rica em carvão no fundo.

Pode ser que os micro-organismos achados sejam descendentes dos que habitam o ambiente terrestre e que tenham se adaptado a vida nos sedimentos marinhos ou pode ser  que essas sejam as mesmas células que ali viviam quando o ambiente começou a afundar. Ou seja, elas teriam mais de 20 milhões de anos de idade!

Apesar de algumas falhas poderem ser apontadas nesse estudo (por exemplo: a forma de coleta estar sujeita a contaminação por outros micro-organismos), ele é um dos que foi mais “fundo” na caça por micro-organismos no fundo do mar, sendo assim de grande valor para o futuro da microbiologia.

Referências:

Inagaki, F. et al (2015). Exploring deep microbial life in coal-bearing sediment down to ~2.5 km below the ocean floor. Science 349, 420-424.

Sites acessados:

http://news.sciencemag.org/biology/2015/07/its-going-pluto-and-seeing-mcdonalds – acesso em 27-08-2015

Anúncios
0

Mulheres, parto e nascimento no Brasil

gravidaoficial

O Brasil é o país em que mais se faz cesáreas no mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS), no entanto, recomenda que só até 15% dos partos sejam realizados por cirurgias. Um dos dados mais alarmantes divulgados a partir dos resultados da pesquisa “Nascer no Brasil: Inquérito nacional sobre parto e nascimento” – foi que o índice geral de partos cesárea no Brasil é de 52%. No setor privado, este número chega a 88%. A pesquisa foi coordenada pela Fundação Osvaldo Cruz e contou com participação de pesquisadores e instituições de pesquisa de todo país.

Um dos motivos que me levaram a escrever sobre essa pesquisa foi, em primeiro lugar, sua amplitude e relevância. É importante destacar, sobretudo, que esse estudo foi realizado no país em um momento em que vivenciamos um contexto de redução de recursos para a pós-graduação, o que tem afetado a produção científica. Foi a primeira e maior pesquisa a oferecer um panorama nacional sobre a situação da atenção ao parto e ao nascimento nos hospitais: foi realizada em 266 maternidades, universo onde ocorrem 83% dos partos do país. Foram entrevistadas 23.940 mulheres, nos anos de 2011 e 2012, o que gerou um volume de dados expressivo. Destacarei aqui alguns dos resultados desse trabalho.

Um aspecto que merece atenção é que esse tipo de estudo é fundamental para subsidiar a formulação de políticas públicas que promovam equidade. É consenso na literatura científica que persiste no Brasil um modelo de atenção ao parto em que os interesses institucionais se sobrepõem às necessidades das mulheres. Esse modelo é pautado por uma ideologia que valoriza a tecnologia, o saber médico e a intervenção sobre os corpos femininos, com procedimentos reconhecidos como danosos. Por consequência, o processo de parto e nascimento, evento tão significativo na vida das mulheres, tem sido relatado como sofrido, solitário e doloroso, modulado ainda pelas conhecidas desigualdades sociais e de gênero que estruturam a sociedade brasileira.

Os dados da pesquisa “Nascer no Brasil” revelaram essas desigualdades na assistência recebida. As mulheres negras e pardas foram as que relataram menor satisfação. São elas as mulheres de classes populares e de baixa escolaridade, residentes nas regiões Norte e Nordeste, que tiveram parto vaginal, majoritariamente atendidas no setor público, indicando uma elitização da assistência.

A pesquisa abordou ainda o tema da saúde mental materna, pouco estudado e raramente diagnosticado.  Os resultados mostraram que 26% das mulheres, entre 6 e 18 meses após o parto, tiveram depressão, sendo esta mais frequentes entre mulheres de baixa condição social e econômica, pardas e indígenas, que não desejavam a gravidez e já tinham três ou mais filhos. Aqui também se enfatizou a insatisfação com o atendimento prestado durante a internação para o parto como fator associado.

Sinteticamente, o estudo conclui:

“As mulheres brasileiras e seus bebês de qualquer grupo social estão sendo desnecessariamente expostos ao risco de efeitos adversos no parto e nascimento. As de mais elevado nível social sofrem maior número de intervenções obstétricas, em especial a operação cesariana, e dão à luz a um grande número de bebês com menos de 39 semanas, perdendo assim as vantagens advindas da sua situação social. As mais pobres, atendidas no setor público, estão submetidas a partos extremamente medicalizados, dolorosos, e demonstram menor satisfação com a atenção recebida. Têm piores indicadores perinatais e condições de saúde em geral, indicando a baixa efetividade do modelo de atenção obstétrica e neonatal predominante nos serviços públicos e privados do país.”

A pesquisa apontou  recomendações para gestores, entidades de classe, profissionais de saúde, universidades e instituições de pesquisa, movimentos sociais, familiares, mulheres e sociedade civil, mostrando que é preciso um esforço conjunto para transformar essa realidade. Entre as recomendações, estão:

  • Urgência em reformar o modelo de atenção ao parto e ao nascimento no país;
  • Promover uma relação respeitosa entre profissional de saúde e a mulher;
  • Realizar pesquisas avaliativas e de comparação de modelos de atenção ao parto e nascimento em diferentes contextos, no setor público e privado;
  • Incentivar o protagonismo e a autonomia da mulher na condução do trabalho de parto;
  • Educação em saúde sexual e saúde reprodutiva nas escolas;
  • Promover o respeito à equidade de gênero;
  • Reduzir as iniquidades regionais e sociais, com investimentos específicos para áreas de populações menos favorecidas;
  • Defender, como direito humano, que todas as instituições relacionadas com a saúde, incluindo bens e serviços, estejam disponíveis, acessíveis, aceitáveis, apropriadas e de boa qualidade.

Por fim, apresento alguns produtos já publicados da pesquisa. Foi produzido um suplemento especial na revista Cadernos de Saúde Pública, com 14 artigos originais publicados em 2014 (clique na imagem para abrir).

Nascer_no_Brasil_Capa_Cadernos(1)

Além dos artigos científicos, os resultados da pesquisa geraram outros produtos, como um sumário executivo, página no Facebook e vídeos, listados abaixo. São maneiras de divulgação de produção científica que não ficam restritas a ambientes acadêmicos, para que atinjam sua finalidade: produção de saber para a transformação na sociedade.

Vídeos:

Nascer no Brasil Cesárea, mitos e riscos

Nascer no Brasil: Parto, da violência obstétrica às boas práticas

Referências:

Nascer no Brasil – Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento. Cadernos de Saúde Pública. volume 30  suplemento 1. Rio de Janeiro,  2014.

MCCALLUM, Cecilia  e  REIS, Ana Paula dos. Re-significando a dor e superando a solidão: experiências do parto entre adolescentes de classes populares atendidas em uma maternidade pública de Salvador, Bahia, Brasil. Cadernos de Saúde Pública. 2006, vol.22, n.7, pp. 1483-1491

 

0

Vida e feminismo de Bertha Lutz

Ilustração: Helô D’Angelo

Bióloga, feminista, líder do movimento pelo direito das mulheres ao voto no Brasil, filha de Adolfo Lutz. Essa é a descrição básica de Bertha Maria Júlia Lutz (1894 – 1976), que não exprime as qualidades da grande mulher que foi.

Como cientista, era extremamente dedicada e detentora de pensamento lógico-científico admirável, despertando o reconhecimento de seus professores e colegas durante sua formação em Sciences na faculdade de Sobornne. Durante sua carreira como bióloga, desenvolveu trabalhos importantíssimos em botânica e em herpetologia, e não escondia sua empolgação com a sistemática: “temo que seja a lógica da ciência que exerça maior fascínio sobre mim“, dizia. Em 1919, após concorrer com outros 10 candidatos homens em concurso público, foi admitida como secretária do Museu Nacional, onde trabalhou por 50 anos.

Além dos trabalhos de pesquisa, Bertha se preocupava muito com a educação em ciência no país. Nesse aspecto, acreditava na importância de ambientes de educação não formal, como museus, e se dedicou ao estudo do papel educativo desses nos Estados Unidos, no início da década de 1930, com o desejo de transformar museus brasileiros em instrumentos modernos de educação.

Paralelamente, seu interesse no feminismo teve início durante o período que passou estudando na Europa, quando teve contato com o movimento sufragista que ocorria por lá. Em 1919, criou no Brasil a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que mais tarde se tornaria a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderando a campanha sufragista no país.  Em 1932, por decreto de Getúlio Vargas, foi alcançado o estabelecimento do direito ao voto feminino no Brasil. Bertha Lutz investiu em sua vida política e em 1936 assumiu posição de deputada federal, cargo no qual executou propostas de mudança na legislação referente ao trabalho da mulher, visando, dentre outros direitos, a igualdade salarial, participação em questões públicas e a licença maternidade.

Mais que sua trajetória, o que chama atenção na história de vida de Bertha Lutz, e que me motiva a escrever este texto, é a sobriedade com que ela tratava as questões da mulher e o feminismo. Assim, deixo de lado maiores detalhes de sua vida política e de seu histórico, pois esses podem ser encontrados com facilidade na internet. Pretendo, ao contrário, apresentar pontos de seu pensamento que me cativaram, e que e expressam a grande mulher que era, deixando muitas vezes que Bertha fale por ela mesma.

Diferente das líderes do movimento sufragista inglês, Bertha Lutz não acreditava na luta feminista feita de forma “violenta e demolidora”, mas lutava pelos direitos das mulheres com argumentos e com seu poder de persuasão.

De forma geral, Bertha Lutz via o feminismo, em primeiro lugar, como reforma social e, em segundo, como uma luta das mulheres por direitos iguais à educação e ao trabalho digno e bem remunerado. Confiava na transformação progressiva e no triunfo do feminismo como “a recompensa das que se tornaram esforçadas pioneiras nas artes e nas ciências; das que para ele se preparam. Das que pela educação que dão às suas filhas lhes sugerem as mais nobres aspirações, que pela reverência que inspiram aos seus filhos lhes ensinam a venerar a mulher, finalmente das que com seu amor esclarecido, abrem ao homem novos horizontes, cheios de harmonia e de luz. (…) Verão elas seu esforço coroado, não por um sucesso passageiro e estéril, mas por uma vitória definitiva, profunda e real.”

Bertha apostava no poder da educação, união e organização femininas como as chaves para a emancipação. Na educação, depositava a esperança de que essa deixasse de ser “mera acumulação de conhecimentos”, mas que pudesse “tornar-nos úteis, ensinar-nos a cumprir nossos deveres de modo eficaz, dar-nos meios de subsistência, para não sermos obrigadas a uma dependência humilhante”.  

Já quanto à união das mulheres, Bertha complementa, em uma de suas citações mais bonitas:

“’L’union fait la force’, diz a divisa belga; poderia também dizer: traz paz e torna possível a civilização. Enquanto as nações estiverem divididas, haverá guerra, quando se unirem, virá o reino da paz. Enquanto a mulher estiver só, será sempre o ser frágil que flutua à mercê das circunstâncias. quando se unirem, elas tornar-se-ão uma grande força. Por isso, devem ser fundadas associações de classe”. (Rio Jornal, março de 1919)

Atenta às diferenças sociais, preocupava-se também com a união das mulheres pobres e trabalhadoras, e se incomodava com a falta de apoio das mulheres ricas, destacando que “são mulheres que trabalham, as mulheres que vivem de seu próprio esforço, as mulheres que precisam rodear-se de garantias e amparos na luta pela vida, que compete dar o primeiro passo na vida associativa. (…) As principais vantagens dessas associações seriam a defesa coletiva de interesses, a assistência à maternidade, à enfermidade e à invalidez, a difusão da instrução. Por que nada disso existe? Por falta de iniciativa. Por inconsciente egoísmo das mulheres cultas e ricas, que ainda não pensaram em tornar mais fácil a vida de suas irmã pobres.” (O Jornal, fevereiro de 1919).

Além dessas ideias sóbrias, no texto intitulado “Em que consiste o feminismo?” (Rio Jornal, abril de 1919) Bertha Lutz resume bem seu pensamento, do qual compartilho:

“O feminismo não procura, é claro, negar as diferenças psicológicas e fisiológicas entre o homem e a mulher e reconhece a influência sobre as que, sendo verdadeiramente irredutíveis, devam ter as relações individuais e mesmo sociais. Não acredita, porém, que elas indiquem superioridade, de um lado, inferioridade, de outro, e assim entende que apenas devem ser consideradas nos casos em que de fato tenham importância, podendo ser deixadas de lado em outros casos nos quais seu papel é insignificante, ou mesmo nulo.”

Confesso que, ao me propor a escrever sobre Bertha Lutz, pouco sabia sobre sua história. Entretanto, o contato com seus textos foi uma experiência ótima. Suas contribuições, naquela época, para os direitos que temos hoje são imensuráveis, porém, muitas de suas ideias continuam atuais e merecedoras de nossa atenção para a construção de uma sociedade mais igualitária.

[As mulheres] “Divididas, são fraqueza. Juntas, serão uma força“.

Fonte: Lôbo, Y. 2010. Bertha Lutz.  ISBN 978-85-7019-529-6

0

Do sistema imune ao sistema nervoso central passando por uma breve análise da ciência.

A ciência como ela é apresentada a todos tem um quê de “superioridade”. Quem nunca ouviu ou até mesmo disse  “Ah, mas eu li que cientistas falaram que…” como forma de sustentar um ponto de vista ou defender uma ideia? Sim, a ciência se construiu para responder questões de forma lógica e objetiva e capacitar o desenvolvimento da humanidade através de teorias e previsões. Porém, algumas vezes esquecemos que, 1) a ciência não nos dá a “Verdade” sobre o mundo, 2) ela é feita por cientistas tão humanos quanto qualquer outra pessoa, e 3) ela está em constante modificação, seja de técnicas ou modos de pensar.

Em relação a isso, uma ideia apresentada por alguns filósofos e sociólogos da ciência como Thomas Kuhn e Bruno Latour é a de que a ciência não está livre de seu contexto social e histórico. Isto é, as razões para aceitar uma teoria em detrimento de outra não é puramente lógica e objetiva, baseada em dados empíricos e observados.  Mas também depende de outros fatores aos quais os cientistas estão em contato ao longo de sua vida. Entretanto, esse não é um post sobre sociologia da ciência (caso se interessem podemos fazer um sobre esse tema, é só pedir!).     

Em minha área de estudo, neurociência, algo curioso ocorreu recentemente, e exemplifica, de certa maneira, essa característica da ciência.

Acredita-se que o sistema nervoso central (SNC) – composto por cérebro, medula, retina e nervos ópticos – é um sistema bem delimitado e privilegiado, com mecanismos próprios e eficientes que selecionam muito bem o que entra e sai dele. Assim, pensou-se que sua interação com o sistema imune seria diferente de outros sistemas. Reações rápidas e intensas de defesas imunológicas como inflamações e ataques de células defensivas não seriam nada interessantes para esse delicado e complexo sistema. A meninge, a qual consiste em três camadas de membrana, protegeria o SNC contra possíveis patógenos e outras substâncias indesejáveis. Dessa forma, era considerado que o sistema nervoso e o sistema imune periférico não possuíam uma ligação direta como ocorre entre outros órgãos e tecidos por meio do sistema linfático. Isso tornava os mecanismos de defesa, de entrada e saída de células imunológicas no SNC difíceis de compreender. Isso tudo mudou drasticamente com uma recente descoberta publicada na Nature de que há, sim, vasos linfáticos que conectam esses dois sistemas.   

 

sistema linfático e nervoso

Essa evidência traz várias consequências para o estudo e entendimento de como ocorrem as reações de defesa no SNC e, assim, tem grande impacto na compreensão de doenças neurológicas e psiquiátricas como Alzheimer, autismo e esclerose múltipla. Isso porque as causas ou progressões dessas doenças podem estar relacionadas com mal funcionamento dessa conexão direta que resultam em imunidade alterada do SNC, como colocam os autores do trabalho.

Essa observação por si só é impressionante. Porém, outro aspecto interessante que podemos analisar dessa descoberta é o fato de que o estudo da anatomia humana teve seu auge no século XIX e até hoje ainda não sabemos tudo. Talvez a localização muito próxima de vasos sanguíneos tornaram a observação desses vasos linfáticos complicada sem uma tecnologia adequada. Entretanto, também acredito que a forma que tratamos o SNC, considerando-o como algo único e especial, deve ter influenciado no “atraso” dessa descoberta. Apesar de ser um sistema bem peculiar ainda faz parte e interage com outros sistemas do organismo, assim, seu estudo pode se tornar complicado quando colocado em uma redoma. 

Essa não é uma crítica à ciência em si. Acredito que o método científico e as teorias que advém da ciência são os melhores caminhos para o desenvolvimento do conhecimento, pois é democrático e permite replicações. Mas acho legal manter sempre a mente aberta para além daquilo que estamos acostumados. Quem sabe você encontra algo inusitado e ganha um Nobel?!

Referências:

0

Academia e crítica feminista: entrevista com professora Estela Aquino

enfoque_feminista_2

Colagem: @lacunainkk

As mulheres têm uma série de desafios a enfrentar no campo científico. A discussão de gênero é uma ferramenta fundamental para esse enfrentamento. Como já abordamos anteriormente no blog, ainda há muito que conquistar no que diz respeito à representatividade das mulheres âmbito acadêmico e na discussão sobre feminismo em espaços de produção científica.

Conversamos com a professora Estela Aquino, referência na produção de pesquisas em Saúde Coletiva, com experiência respeitável de participação ativa nos campos científico, político e no movimento feminista. Formada em medicina, com Mestrado em Medicina Social e Doutorado em Epidemiologia, é professora associada do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), onde coordena o MUSA – Programa Integrado em Gênero e Saúde. É também integrante do GT Gênero e Saúde da ABRASCO e bolsista de produtividade em pesquisa (1D) do CNPq.

A cientista nos conta um pouco da sua trajetória, fala sobre a contribuição da crítica feminista à ciência e a complexa relação entre academia e militância. Reflete sobre o papel político e social da universidade e o compromisso para que o conhecimento produzido seja socialmente útil, divulgado e apropriado pela sociedade.

Conte-nos um pouco da sua trajetória como cientista e feminista. Para você, o que significa ser uma cientista feminista?

Estela Aquino: Minha identidade feminista começou a ser forjada na graduação em medicina em resposta às discriminações que nós mulheres estudantes sofríamos em um ambiente profundamente sexista e misógino. Na luta pela democratização do país ao final da década de 70 e início dos 80 comecei a participar mais ativamente do movimento feminista que a esta altura tomava a saúde como uma questão central, especialmente pela crítica à medicalização dos corpos e da vida reprodutiva das mulheres e ao androcentrismo da biomedicina.

Recém-formada fui trabalhar no Instituto Nacional de Câncer (INCa) onde passei a desenvolver estudos sobre prevenção e controle do câncer de mama e o de colo de útero, alimentados pelas minhas inquietações feministas e pelo debate que resultou em 1983 no PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher. Como médica do INCa, representava a instituição em todas as reuniões e ações para o detalhamento e implementação do PAISM em nível nacional.

Iniciei minha carreira acadêmica na UERJ, onde prossegui articulando a atuação política e profissional como pesquisadora e docente de graduação e pós-graduação. Entretanto, minha atividade científica se intensificou nos anos 90 durante o doutorado que fiz na UFBA, onde acabei permanecendo e criando o MUSA – Programa de Estudos em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva.  Junto com outras pesquisadoras, tenho atuado para além dos muros da academia, buscando combinar o ensino e a pesquisa em uma perspectiva crítica feminista.

A ciência moderna é um modo de produção de conhecimentos com mecanismos próprios de validação e reconhecimento, que durante muito tempo excluiu as mulheres. Ser uma cientista feminista exige a “reinvenção deste mundo”, o que não é tarefa fácil e impõe antes de tudo questionar os mecanismos de distribuição de poder e de recursos baseados no gênero.

O que você acha da relação entre academia e militância feminista?

Estela Aquino: Não é simples incorporar a reflexão feminista no trabalho acadêmico, já que o modelo hegemônico é marcadamente androcêntrico e muitos fenômenos são obscurecidos, considerados de menor importância ou mesmo sem interesse científico. Isso é ainda mais importante na área de saúde, já que historicamente a biomedicina tem fornecido as bases científicas para a manutenção de desigualdades de gênero.

Mesmo que não pretendam incorporar a reflexão feminista em suas pesquisas, as mulheres enfrentam muitos desafios e dificuldades pelo simples fato de que o androcentrismo influencia a atuação acadêmica em todos os níveis, desde a escolha das áreas do conhecimento aos mecanismos de acesso e progressão na carreira, inclusive com a ocupação de postos em uma estrutura profundamente hierarquizada. O próprio modelo de cientista ideal, que serve de parâmetro para a avaliação do desempenho, pressupõe dedicação integral, sem outros interesses e compromissos, com a finalidade de manter uma performance continuada, o que convenhamos, é pouco compatível com os ciclos reprodutivos e de vida das mulheres.  Por isso, muitas acabam adiando ou abdicando do casamento e da maternidade. Assim, a militância feminista no âmbito acadêmico exige em primeiro lugar visibilizar os mecanismos de exclusão e discriminação das mulheres na própria ciência. A atuação em rede característica do movimento feminista é uma estratégia útil para potencializar esforços no sentido de superar estes desafios.

Cientistas Feministas: Quais as principais a contribuições da crítica feminista à ciência?

Estela Aquino: O feminismo é um fenômeno social complexo e abriga várias vertentes teóricas em diferentes campos do conhecimento. A sua influência na ciência inclui a formulação de conceitos e teorias, tais como a própria categoria de gênero e a noção de divisão sexual do trabalho; a abordagem de novas questões com métodos e técnicas disponíveis; e a incorporação de novas estratégias e técnicas metodológicas (por exemplo, o uso da iconografia na pesquisa histórica sobre cotidiano). Sua contribuição tem se dado desde a visibilização de fenômenos obscurecidos pelo androcentrismo a novas perspectivas, projetos e prioridades. Muitas contribuições nem são mais pensadas como feministas.

Como as suas pesquisas se relacionam e se articulam com as pautas do movimento de mulheres?

Estela Aquino: Meu trabalho tem-se pautado na compreensão que tenho sobre o papel da universidade e no compromisso de que o conhecimento produzido seja socialmente útil, sendo divulgado e reapropriado pelos sujeitos coletivos.  Isso não significa apenas responder questões da agenda feminista, mas antecipá-las, de modo a qualificar o debate político e a formulação de políticas públicas.  Nesse sentido, a qualidade da produção científica é imprescindível, e a atuação acadêmica envolve a permanente articulação com a sociedade e as várias instâncias de controle social sobre o Estado, embasando políticas sociais mais justas e adequadas às necessidades das populações.  Tenho participado de várias destas instâncias, integrando comissões e conselhos, tais como a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher do Conselho Nacional de Saúde, e mais recentemente o Conselho Nacional de Direitos da Mulher, onde representei a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) por cinco anos. Na ABRASCO, participei da criação do Grupo Temático em Gênero e Saúde, importante instrumento político que influencia a organização de eventos científicos e a definição de prioridades de pesquisa junto às agências de fomento. O financiamento de pesquisas tem papel determinante na produção de conhecimentos, tal como se observou, por exemplo, na década de 90 pelo estímulo aos estudos sobre sexualidade e saúde reprodutiva e a secundarização do trabalho.  Temas como violência sexual e aborto têm sido pautados pelo movimento feminista, apesar da crescente pressão de setores conservadores e religiosos.

Em sua opinião, o que está faltando pesquisar nesse campo?

Estela Aquino: A agenda precisa ser permanentemente atualizada e há muitas lacunas do conhecimento.

A situação das mulheres tem mudado muito nas últimas décadas, mas há grandes permanências nas relações de gênero, principalmente na esfera doméstica. No Brasil, pouco se conhece sobre o efeito dessas transformações na saúde. As pesquisas ainda se concentram nos aspectos reprodutivos e temas como saúde mental, trabalho e violência são muito pouco estudados. O envelhecimento e as doenças crônicas não transmissíveis ainda têm enfoque eminentemente biomédico e requerem uma abordagem crítica e feminista.

Para finalizar eu gostaria de enfatizar a necessidade de investigar as mudanças e permanências que vêm ocorrendo na academia e na produção de conhecimentos. Apesar da crescente participação das mulheres na ciência, principalmente como consequência do aumento da escolarização feminina em todo o mundo ocidental e também no Brasil, mudanças culturais no meio científico são lentas e difíceis. Por isso, conhecer esta dinâmica é crucial para apoiar a definição de estratégias de ação na busca da equidade de gênero.

0

Reprogramação celular e o tratamento de doenças

ilustratextoclara

Ilustração: @sarita

Muitas doenças as quais estamos sujeitos atacam o corpo humano em nível celular. Esse ataque pode ser degenerativo, auto-imune e até mutacional. O grande porém da ciência da saúde como um todo, era entender o que acontecia com as células de determinado tecido para que doenças se alastrassem e causassem quando não a morte, uma séria limitação na vida do indivíduo portador.

A citologia trabalhou durante muitos anos para determinar tanto as classes de células quanto seu comportamento, constituição, gênese e morte. Partindo desse conhecimento, cientistas poderiam determinar em qual fase e de que forma poderiam interromper esse processo. A questão, por fim, era de que como o tecido ao qual aquelas células pertenciam estava comprometido, como fazer para conter a degeneração ou a multiplicação desenfreada? Nasceu daí a ideia de se utilizar células não especializadas e não atingidas como terapia de substituição das originais em sua funcionalidade no tecido afetado.

As células-tronco são aquelas que não possuem função específica, que ainda não tiveram partes do seu genoma ativadas e desativadas para exercer funcionalidade específica. Quando já bem conhecidas, começaram a ser melhor estudadas e utilizadas em algumas pesquisas em busca da cura de diversas doenças como câncer, Parkinson e Alzheimer.

No entanto, a utilização de células-tronco embrionárias esbarra em diversas questões éticas e sociais por motivos relacionados a forma com que se obtém, o que faz com que o avanço da ciência com esse tipo de material fique a mercê das decisões governamentais e da sociedade. As células-tronco adultas, por outro lado, não necessitam ser obtidas através de embriões em desenvolvimento, mas são extremamente raras. Essa dificuldade impulsionou cientistas a procurarem rotas alternativas para a obtenção de tecido não especializado ou reprogramável, afim de substituir células não especializadas em tratamentos avançados.

A reprogramação da função celular já é uma realidade e as técnicas avançam cada vez mais. Um grande furor sobre esse assunto ocorreu quando o grupo de estudos do bioquímico chinês Gang Pei conseguiu reprogramar genomicamente, através da injeção de moléculas químicas, células humanas epiteliais, que passaram a responder como neurônios funcionais.

A reprogramação celular ocorre quando após a identificação dos genes responsáveis pela resposta especializada são identificados e ativados através de estímulo químico (injeção de moléculas) ou outra variação. Além disso é necessário que outras partes não utilizadas do genoma sejam silenciadas, para que o processo de multiplicação celular não sofra atraso por sequências “inúteis” ao processo como um todo. Esse processo pode variar bastante em tempo, podendo levar dias e até semanas para se completar e chegar ao resultado esperado.

Dessa forma, células epiteliais, fáceis de conseguir e nada raras em um ser humano adulto, podem ser utilizadas para obtenção de neurônios funcionais e utilizadas em tratamento de doenças degenerativas, mantendo a atividade e o número da parte do sistema nervoso afetada pela doença.

Somando resultados promissores, a equipe do pesquisador também chinês HongKui Deng chegou ao mesmo resultado de reprogramação. Sua equipe usou combinações de substâncias diferentes, porém reagentes às mesmas sequências genômicas de ativação e silenciamento. Essa equipe utilizou de ratos cobaias para a realização do experimento.

Para a ciência da como um todo, resultados similares com um objetivo comum são ótimos, uma vez que doenças são contínuas e sempre haverá pessoas infectadas ou atingidas fazendo uma contagem regressiva por um tratamento mais rápido e eficiente.

No cenário brasileiro, embora com pouca repercussão, existe um grupo de estudos na Universidade Federal do Rio de Janeiro que em 2011 divulgou o resultado inédito no estudo de pacientes com esquizofrenia. De forma semelhante aos estudos recentes, as células epiteliais de pacientes com perturbações do sistema nervoso foram transformadas em neurônios não afetados. Isso foi possível pois a diferença entre as células boas e as prejudicadas só ocorre após a diferenciação celular. Essa reprogramação já é feita de forma cotidiana no laboratório do Dr. Stevens Rehen. Sua última manifestação de divulgação dessa pesquisa foi um resumo publicado nos anais do 15° Congresso Internacional de Estudos em Esquizofrenia, publicados em Março desse ano.

A presença do grupo Brasileiro não se trata apenas de menção honrosa: esse grupo de pesquisadores conseguiu um avanço memorável em 2011, utilizando-se apenas de tecnologia nacional.

__________

Referências:

Hu, W. Et al. (2015), Direct Conversion of Normal and Alzheimer’s Disease Human Fibroblasts into Neuronal Cells by Small Molecules, Cell Stem Cell 17, 204–212.

Li, X. Et al. (2015),: Small-Molecule-Driven Direct Reprogramming of Mouse Fibroblasts into Functional Neurons, Cell Stem Cell 17, 195–203.

Rehen, S. (2015) Reprogramming human cells to study mental disorders, International Congress on Schizophrenia Research, 1 issue,p. 116.

Sites visitados:

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/cientistas-brasileiros-transformam-celulas-da-pele-em-neuronios-para-estudar-esquizofrenia-2670496 – acesso em 14/08/2015.

0

As gigantes do genoma

Fritillaria_imperialis422MikMak

Você sabia que o genoma de algumas espécies pode ser muito maior que de outras? No universo das planta, isso significa que o tamanho do genoma de uma espécie pode ser duas mil vezes maior que o genoma de uma outra espécie vegetal. Essa extraordinária variação no tamanho do genoma das plantas intrigou pesquisadores de vários países, que decidiram estudar plantas do gênero Fritillaria (Liliaceae). Esse gênero de plantas abriga espécies com um genoma de tamanho extremamente grande, sem que isso seja devido a duplicações do próprio genoma. O genoma dessas plantas diploides varia entre 30,15Gb e 85,38Gb! Impressionante, não é?

A duplicação do genoma inteiro de uma planta (também conhecida como Whole Genome Duplication) é um fenômeno que leva à existência de plantas poliploides, que possuem mais de dois conjuntos completos de cromossomos. Porém, há outros mecanismos que podem levar a um genoma de enorme dimensão, como a propagação de DNA repetitivo e de elementos transponíveis.

Em um artigo publicado esta ano na New Phytologist, pesquisadores revelaram que o motivo pelo qual o genoma de espécies de Fritillaria é tão grande: o segredo é a falta de deleção de DNA repetitivo, e não apenas um resultado da propagação de algumas famílias gênicas abundantemente repetitivas. Para chegar a tal conclusão, os autores realizaram sequenciamento do DNA genômico de espécies de Fritillaria e identificaram familias gênicas repetitivas usando ferramentas de bioinformática. A compreensão de como algumas plantas podem ter um genoma de tamanho tão gigantesco poderá certamente nos ajudar a desvendar mais detalhes da evolução genômica de muitas espécies vegetais, e a entender como toda essa quantidade de DNA é orquestrada para a replicação, expressão gênica e outros processos celulares.

———————————————————————————————————————————————————————

Referência bibliográfica

Kelly et al (2015). Analysis of the giant genomes of Fritillaria (Liliaceae) indicates that a lack of DNA removal characterizes extreme expansions in genome size. New Phytologist. doi: 10.1111/nph.13471.