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Efeito Matilda: o preconceito de Gênero na Ciência

Historicamente, a Ciência foi construída como uma área de domínio masculino. No entanto, muitas mulheres participaram da construção do que conhecemos hoje como Ciência. Contudo, muitas vezes, essas mulheres foram deliberadamente esquecidas. O Efeito Matilda é um fenômeno social que descreve isso.

Este fenômeno ocorre quando o trabalho de uma mulher é reconhecido (publicado, premiado, referenciado) como de um homem, seja porque sua contribuição (parceria e coautoria) foi desconsiderada ou omitida.Diversos relatos históricos vieram à tona mostrando que muitas mulheres ficaram na sombra de seus colegas, parceiros e cônjuges.

O Efeito Matilda continua ocorrendo atualmente e por isso é importante falarmos sobre ele. Segundo uma pesquisa realizada pela conceituada editora de artigos científicos, a Elsevier, mulheres tendem a deixar chefias e cargos de pesquisador principal para colegas homem. O pesquisador homem teria maior credibilidade e aceitabilidade no meio científico, favorecendo a obtenção de subsídios e outros incentivos. Dados dessa pesquisa foram descritos com mais detalhes nos textos aqui do blog:  Igualdade de gênero na ciência brasileira e Fulano et. al na verdade é mulher.

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Fonte Twitter @minasnahistória. Imagem disponível em: https://twitter.com/minasnahistoria/status/715935067684659201

Esse fenômeno da supressão da participação feminina na Ciência foi descrito em 1968, por Robert Merton, como “Efeito Matthew”, uma referência à passagem bíblica de Mateus 13:12:

“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”

No entanto, o trabalho de Margaret R. Rossiter, publicado em 1993, na revista Social Studies of Science, consagrou o termo como “Efeito Matilda”. A escolha do nome foi uma homenagem a sufragista americana, escritora e crítica feminista Matilda Joslyn Gage (1826 – 1898) de Nova York. A própria Matilda sofreu e vivenciou esse fenômeno social. Ela se dedicou a defender os direitos das mulheres. Participou em convenções públicas em uma época que poucas mulheres eram ouvidas, e chegou a defender o voto feminino, no Congresso Americano.

O efeito Matilda fez com que muitas mulheres fossem condenadas as sombras. Trabalhos importantes, como o de Rosalind Franklin – contribuições na descoberta da estrutura do DNA – foram eternizados com nomes de outros colaboradores homens, como Watson e Crick. Isso ocorre desde a época medieval, onde sabemos que mulheres eram médicas, líderes, curandeiras, parteiras, filósofas. Porém, muitas vezes seus conhecimentos foram julgados, condenados e atribuídos a outros homens. Que outras mulheres deveríamos conhecer melhor?

Se não fosse o Efeito Matilda, que mulheres conheceríamos melhor?

Trótula de Salerno: No século XI, Trótula foi uma importante mulher na história da Medicina. Ela estudou doenças femininas e deixou vários escritos. Tótula foi estudante e professora de um dos primeiros centros médicos de ensino não ligados à Igreja. A Escola de Salerno foi a primeira a permitir o livre acesso da mulher ao ensino. No entanto, no século XII, ao reescrever escritos antigos, um monge, achando que “aquilo deveria ser escrito por um homem”, modificou o nome de Trótula para parecer masculino. No século XX, um historiador alemão reduziu Trótula a uma parteira, negando seus estudos conduzidos.

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Imagem disponível em mujeresconciencia.com

Maria Goeppert-Mayer: Física teórica, recebeu, junto com Eugene Paul Wigner e J. Hans D. Jensen, o Nobel de Física em 1963, por propor um novo modelo do envoltório do núcleo atômico. Foi a segunda mulher a ser laureada nesta categoria do Nobel. A primeira foi Marie Curie. Apesar da importância do seu trabalho na Universidade de Chicago, onde desenvolveu sua pesquisa no período de 1947 a 1949, ela era considerada uma professora “voluntária” não remunerada. Mesmo com seu currículo e reputação, teve dificuldade de conseguir ser contratada como professora na Alemanha e nos Estados Unidos.

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Imagem disponível em https://www.atomicheritage.org/profile/maria-goeppert-mayer

Agnes Pockels: pioneira química alemã desenvolveu em 1890 um conjunto de observações sobre tensão superficial da água. Ela enviou suas anotações para o colega inglês, Lorde Rayleigh, que desenvolveu a teoria sobre este tema. No entanto, o crédito da descoberta é frequentemente dado apenas a Rayleigh. Agnes teve a ideia da teoria enquanto lavava a louça, e observou que as sujidades maiores rompiam a tensão da água. Lorde Rayleigh publicou individualmente o primeiro artigo sobre o tema, apesar de ter lido o trabalho de Agnes antes.

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Imagem disponível em: https://www.chemistryworld.com/opinion/pockels-trough/8574.article

Nettie Maria Stevens: geneticista americana, nascida em 1861. Estudou em Stanford, onde se formou como a melhor aluna da turma. Em conjunto com Edmund Wilson, descreveram a base genética e cromossômica da definição do sexo em humanos. Nettie Stevens observou que o cromossomo feminino era maior que o masculino (X e Y). Apesar de sua coautoria, nos livros didáticos apenas Wilson é mencionado.

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Se entre colegas, o Efeito Matilda é aparente, o que pensar daquela relação entre cônjuges? Muitos dos estudos desenvolvidos por cientistas homens, contaram com a participação ativa de suas esposas, no entanto essas raramente são mencionadas. Hertha e W.E Ayrton eram um casal de físicos britânicos. Hertha publicou seus estudos no nome do marido, mesmo quando o mesmo já estava doente, pois os mesmos seriam mais bem aceitos dessa forma. Ruth Hubbard e George Wald eram bioquímicos que trabalhavam com temas semelhantes, e após se casarem passaram a trabalhar juntos. No entanto, todo o trabalho de Ruth anterior ao casamento, foi atribuído ao marido, que ganhou um Nobel em 1967. Isabela Karle, cristalógrafa, trabalhou mais de 50 anos com seu marido, no entanto, em 1985, Jerome Karle ganhou um Nobel de Química compartilhado com outro colega químico, sem menção à esposa.

Os homens eram uma maioria esmagadora na ciência, hoje, nós mulheres somos cerca de 40% de todos os pesquisadores. No entanto, é importante conhecer esses fenômenos sociais para nos mantermos alertas e lutar pelo nosso devido reconhecimento. E também reconhecer essas cientistas que foram injustiçadas em sua época.

O devido crédito a quem o merece, é só o que pedimos.

Referências:
Margaret W. Rossiter. The Mathew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, Vol. 23, No. 2 (May, 1993), pp. 325-341

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

 

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Cientista brasileira lidera projeto em busca da energia escura

Texto escrito em parceria com @ruajosephine.

Até o final da década de 1990 a expansão do universo ainda era uma incógnita. Não sabíamos ao certo se o universo era estático, se estava em expansão desacelerada ou acelerada.  A teoria da gravidade de Albert Einstein predizia que o universo teria energia suficiente para estar em expansão, mas que a gravidade faria esse fenômeno diminuir gradativamente. Em 1998, com as observações de supernovas através do telescópio espacial Hubble (HST) foi compreendido que o universo está realmente se expandindo, e a cada momento mais rápido! Ninguém sabia explicar o que tornaria sua expansão acelerada com o passar do tempo. E, por isso, imaginou-se uma energia capaz de contrapor a força gravitacional e, ao mesmo tempo, de difícil (talvez impossível?) detecção, chamada de energia escura.

E afinal, o que é energia escura?

Desconhecemos mais do que conhecemos. Sabemos a quantidade da energia escura pelo quanto que ela interfere na expansão do universo. Calcula-se que o espaço-tempo seja constituído de aproximadamente 68% de energia escura, 27% de matéria escura (outra força que ainda é um mistério) e menos de 5% de matéria “normal”, a matéria que conhecemos que forma planetas, estrelas e nós, conhecida como matéria bariônica. [1]

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O diagrama acima representa as possíveis mudanças na taxa de expansão desde o surgimento do universo há quase 14 bilhões de anos. Crédito: NASA / STSci / Ann Feild.

As ciências físicas e astronômicas vêm investindo em pesquisas no campo da cosmologia para compreendermos melhor os fenômenos que acontecem no universo, desde a sua formação, sua expansão acelerada até as origens de elementos químicos. E uma das observações mais incríveis aconteceu no dia 17 de agosto de 2017: duas estrelas de nêutrons colidiram em uma galáxia há 130 milhões de anos-luz de distância da Terra e pela primeira vez detectamos esse tipo de evento [2]. A colisão, conhecida como kilonova, emitiu um pulso de ondas gravitacionais forte o suficiente para ser detectado pelos instrumentos do Observatório Interferométrico de Ondas Gravitacionais (LIGO), nos Estados Unidos, e do Observatório Interferométrico Europeu VIRGO, na Itália. O fenômeno permitiu calcular a atual taxa de expansão local do Universo, a constante de Hubble. O valor encontrado coincide com medidas da constante de Hubble obtidas por diversos outros métodos em pesquisas realizadas no mundo todo [3]. Foi a primeira vez que um evento de proporções astronômicas foi simultaneamente visto (em diferentes comprimentos de ondas) e ouvido (através da reconstrução do sinal das ondas gravitacionais), dando início a uma nova era da astronomia.

Uma das cientistas importantes envolvidas com a detecção é a astrofísica capixaba Marcelle Soares-Santos. Marcelle é coordenadora do projeto Dark Energy Survey (DES) que descobriu e analisou a contrapartida óptica do evento de onda gravitacional de agosto de 2017, GW170817. Lembra que falamos de “ver” e “ouvir” a colisão? A equipe que a Marcelle lidera é responsável pela parte do “ver” que de fato nossos olhos poderiam ver (luz visível).

Quem é Marcelle Soares-Santos

Marcelle é graduada em física pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestra e doutora em astronomia pela Universidade de São Paulo (USP). Foi pós-doutoranda e, posteriormente, pesquisadora principal do Fermi National Accelerator Laboratory (Fermilab/EUA), um dos mais importantes centros de investigação sobre física de partículas. Ela era a única brasileira presente entre os 16 líderes de grupos de pesquisa ao anunciarem a detecção da colisão das estrelas de nêutrons na sede da National Science Foundation (EUA). Imagina: umas das 16 pessoas a chefiar os 3.500 cientistas por trás de uma das mais importantes descobertas da Ciência.

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A líder do DES, Marcelle Soares-Santos, na sede da National Science Foundation (EUA) divulgando os resultados da observação GW170817 no espectro óptico. Crédito: Dark Energy Survey.

Ela atua no Fermilab desde 2010, participando da construção de um dos maiores detectores de luz já construídos: uma câmera de 570 megapixels (aquelas câmeras profissionais que você acha incríveis têm em média 20 megapixels!!!), a DECam, instalada no telescópio Blanco no Cerro Tololo Inter-American Observatory (Chile). A DECam mapeia 300 milhões de galáxias para o projeto Dark Energy Survey. Foi com essa câmera que a equipe da Marcelle entrou para a História ao capturar e analisar a parte visível da colisão entre estrelas de nêutron de 2017, a primeira detecção de colisão desse tipo. Hoje Marcelle compartilha seus saberes sendo professora pesquisadora na Universidade Brandeis, em Massachusetts, também nos EUA.

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Imagem no espectro visível da colisão entre estrelas de nêutrons GW170817. À esquerda temos a imagem da kilonova até 1,5 dias depois da explosão. À direita percebemos que a explosão já não é tão visível após 14 dias. Créditos: Dark Energy Survey.

Convidada pelas Cientistas Feministas, Marcelle nos contou mais sobre sua carreira como astrofísica e sobre o projeto Dark Energy Survey.

Cientistas Feministas: A energia escura é um dos grandes mistérios da física. Mas o que lhe motivou, em particular, a estudar energia escura e a expansão do universo?

Marcelle: Minha curiosidade a respeito do mundo físico ao meu redor começou quando eu era criança. À medida que fui crescendo e avançando nos estudos, descobri que a Física era a disciplina certa para satisfazer essa curiosidade. O tópico da energia escura e expansão do universo, em particular, cativou meu interesse no último ano do ensino médio, quando li um artigo sobre cosmologia falando que mais de 2/3 do universo atual é composto de uma forma de energia cuja natureza física ainda é desconhecida. Entender a energia escura passou a ser um foco dos meus estudos a partir dali.

CsFs: Entender os processos de expansão do universo tem muitas barreiras principalmente por conta dos nossos limites tecnológicos. Se você pudesse obter qualquer observável no Universo, o que você imaginaria que seria o mais fantástico para avançar no entendimento sobre a energia escura?

M: O problema da energia escura é um desafio tão grande que a comunidade científica vai precisar de um conjunto grande e coerente de dados para resolvê-lo. Infelizmente não existe uma “bala de prata” que consiga esclarecer essa questão. É por isso que, por exemplo, meu grupo de pesquisa envolve desde estudos de aglomerados de galáxias e lentes gravitacionais (com a pesquisadora brasileira Dra. Maria Elidaiana Pereira, que veio para Brandeis em Outubro de 2017 depois de concluir o doutorado no CBPF, Rio de Janeiro) até o desenvolvimento de novas técnicas, como por exemplo, ondas gravitacionais.

CsFs: A captação da colisão de estrelas de nêutrons do dia 17 de agosto de 2017 repercutiu o mundo inteiro e pode revolucionar os estudos de física. Como você enxerga esse fenômeno e as possibilidades de mudanças para a ciência a partir dessas novas descobertas? E do ponto de vista do avanço no entendimento da energia escura?

M: O evento observado no dia 17 de agosto, conhecido pela sigla GW170817, foi importante para mim pessoalmente porque é a primeira vez que temos prova empírica de que podemos utilizar esses eventos para estudar a energia escura. Essa nova técnica que vinha sendo desenvolvida há anos pela comunidade realmente funciona! Foi importante para a comunidade científica no mundo inteiro porque abre uma nova janela observacional, que permite estudar vários fenômenos astrofísicos de uma nova perspectiva. A partir desse evento podemos agora estudar a origem de elementos pesados (como ouro, platina) no universo, podemos entender a evolução de estrelas de nêutrons, história de formação de sistemas estelares binários, física de partículas fundamentais como os neutrinos… Há uma variedade enorme de tópicos a serem estudados!

CsFs: Uma grande parte da sua pesquisa é identificar ondas gravitacionais no espaço a partir da DECam. Como o registro de ondas gravitacionais pode contribuir com seus estudos?

M: O papel da DECam é busca rápida a partir da detecção do evento de ondas gravitacionais pela rede de detectores LIGO/Virgo. Nossa câmera não é capaz de ver ondas gravitacionais, mas é capaz de identificar a fonte luminosa correspondente. Isso nos permite então combinar o sinal de ondas gravitacionais e as imagens do evento, para determinar suas propriedades.

CsFs: A câmera que vocês desenvolveram tem uma capacidade excepcional de registrar o universo. O que você espera da DECam com esses cinco anos de pesquisa e registros de imagens do universo?

M: Esperamos observar aproximadamente 10 eventos nos próximos anos!

CsFs: Trabalhar com grandes fenômenos da natureza certamente proporciona grandes emoções. Até agora qual foi o momento mais emocionante em sua carreira como cientista? Conte-nos detalhes dessa história!

M: O momento mais emocionante foi definitivamente 17 de agosto as 07h41min da manhã (Chicago time), quando GW170817 ocorreu. É muito raro a gente estar envolvido em uma descoberta dessa magnitude!

CsFs: O Fermilab é um dos maiores Institutos de física do mundo. Como foi trabalhar lá?

M: Tenho lembranças maravilhosas do tempo que passei no Fermilab. Trabalhar num centro de pesquisa grande pode ser muito estimulante e o grupo de Cosmologia e Astrofísica, em que eu trabalhei, é excepcional nesse sentido.

CsFs: Atualmente você é professora universitária na Brandeis University, em Massachusetts. Como está sendo essa transição de compartilhar o laboratório com a sala de aula?

M: Aqui em Brandeis, além de ensinar para formação da próxima geração de físicos, minha pesquisa está tomando novas dimensões. Eu agora tenho meu próprio grupo de pesquisa e planos de engajar estudantes e pós-doutores em projetos de grande impacto, em colaboração com uma comunidade acadêmica vibrante e inspiradora.

CsFs: Como a colisão de estrelas de nêutrons registrada em agosto desse ano repercutiu para seus alunos na faculdade?

M: A universidade toda, desde estudantes até o topo da administração, ficou muito entusiasmada. É maravilhoso ver um membro da nossa comunidade fazer uma descoberta de impacto!

É maravilhoso para nós vermos a Dra. Marcelle Soares-Santos desvendando os mistérios do universo! Estamos muito felizes em trazer uma cientista com a sua trajetória e sucesso para nos explicar questões cosmológicas. Ela nos inspirar a olhar para o céu e tentarmos entender quem somos (terráqueos viajantes do Cosmos).

Agradecimentos:

À Dra. Maria Elidaiana da Silva Pereira por ter intermediado essa entrevista. As CsFs desejam muito sucesso em Brandeis.

Referências:

[1] https://science.nasa.gov/astrophysics/focus-areas/what-is-dark-energy;

[2] https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/11/23/todo-o-ouro-do-universo-colisao-de-estrelas-de-neutrons/

[3] http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/10/17/detectada-pela-primeira-vez-colisao-de-estrelas-de-neutrons-inaugura-nova-era-na-astronomia/.

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Fulano, et al. na verdade é mulher: ciência, gênero e produção científica

Pegue um artigo aleatório, qualquer um…

Por exemplo, uma das referências desse texto é Leta, et al., e é assim que somos conhecidos no meio científico, pelos nossos sobrenomes. O uso apenas do sobrenome despersonaliza o autor (ou autora) e nos distancia do público leigo. Isso prejudica as mulheres, especialmente, já que é impossível saber a identidade sexual pelo sobrenome, e dessa forma ficamos escondidas atrás de um nome. Assim como o sonho, o direito e a capacidade de ser uma cientista, a mulher também deseja ser reconhecida e publicar seus artigos. Mas qual a nossa situação nesse ponto?

Como biomédica sempre envolta na área da Saúde – uma das áreas com maior equidade de gêneros, tive a sorte de conhecer muitas mulheres influentes na ciência, a reitora da minha faculdade, minhas professoras prediletas, minha orientadora da iniciação científica, TCC, mestrado, minha nova orientadora de doutorado, chefes e colegas de laboratório. São todas mulheres que vivem nessa batalha que é ser cientista, e sabemos que um dos nossos principais desafios são as publicações. Atualmente, a produção científica é a principal medida de qualidade do pesquisador.

Quantos artigos publicou? Em que revistas? São indexadas? Foi primeiro autor? Quantas citações? Etc, Etc, Etc…

Esse tipo de análise não é de hoje, o primeiro estudo nesse sentido foi em 1917, e essa forma de avaliação foi chamada de bibliometria, ou seja, somos avaliados por aquilo que publicamos. De uma maneira geral, os números dizem que nós mulheres publicamos menos que os homens, e logo seríamos menos produtivas. Mas essa análise não é tão simples assim…

A ciência nasceu como um ramo dos homens. Nos séculos XV, XVI e XVII algumas poucas mulheres bem nascidas, aristocratas, podiam atuar como interlocutoras de pensadores renomados.  Mas, essas mulheres não podiam fazer parte da discussão em si, ignorando que quanto maior a diversidade de um grupo, maior será a riqueza de sua discussão. A mudança dessa realidade começa apenas na segunda metade do século XX, com a grande demanda de recursos humanos na área de ciências e tecnologia e com o fortalecimento da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Começa-se a questionar a produção científica feita por mulheres apenas por volta de 1970, e um dos primeiros artigos sobre o tema foi publicado por Alice Rossi, em 1965, que fez um levantamento do número de mulheres que trabalhavam em C&T (Ciências em Tecnologia) nos Estados Unidos, no período de 1950-1960. Muitos tentam, até hoje, justificar a menor participação feminina nas áreas de C&T e nas publicações científicas com estereótipos, dizendo que a mulher tem maior prioridade no casamento e no cuidado dos filhos, o que levaria a menor produtividade. Esse tipo de estereótipo pode desestimular muitas mulheres a investirem em sua formação.

As portas da C&T têm lentamente  sido abertas pelas mulheres, com grande crescimento da nossa representação nas universidades, onde em alguns cursos nos tornamos maioria, como é o caso das áreas biológicas, da saúde e da educação. Avanço que apesar de positivo, demonstra como as mulheres podem ser orientadas a áreas que envolvem o cuidado e que remetem ao estereótipo de esposa que cuida e educa. A área com menor concentração de mulheres continua sendo a Física e Matemática, cerca de 25%, enquanto que na educação chegamos a quase 70%, fenômeno conhecido como gender tracking. E apesar do aumento do número de mulheres que entram na pós-graduação, esse aumento não foi acompanhado com a mesma intensidade na obtenção de títulos, já que a taxa de evasão de mulheres na pós-graduação é maior do que a dos homens, e um dos grandes problemas citados é a relação com o orientador. Alguns professores universitários relatam preferir trabalhar com homens para evitar “distrações”, segundo depoimentos descritos por Léa Velho e Elena León, em seus estudos sobre a produção científica feminina.

 Mesmo com avanços significativos, o quadro ainda se apresenta como um funil, somos muitas nas graduações, algumas entre os professores, um número ainda menor entre pesquisadores líderes, e raras entre os cargos de direção e chefia. Existe uma tendência à estagnação da carreira da mulher, permanecendo em patamares inferiores. Com o avanço da carreira, a mulher encontra cada vez mais dificuldades em progredir e ascender aos níveis mais altos da academia. Por exemplo, após os anos 2000, na Academia Brasileira de Ciências, dentre os acadêmicos titulares apenas 10% eram mulheres, enquanto que entre os associados, 40% eram do sexo feminino. No Reino Unido, para cada professora universitária que atinge o topo da sua carreira científica, dez homens conseguem o mesmo feito.

Um estudo feito na Canadá por Holly O. Witteman e cols. comparou a taxa de sucesso de obtenção de subsídio financeiro para projetos de pesquisa de pesquisadores principais homens e pesquisadoras principais mulheres. O estudo demonstrou que quando se compara a qualidade dos projetos, os homens têm apenas 0,9% de chance a mais de conseguirem a verba para seus projetos do que as mulheres, no entanto, quando os mesmos projetos são avaliados de acordo com o currículo do investigador principal, os homens têm 4% de chance a mais do que as mulheres de ganharem o edital. Se a qualidade dos projetos não é significativamente diferente, porque homens têm mais chances de terem seus projetos aprovados? Isso demonstra que mesmo com menos títulos e menos publicações, as mulheres possuem tanto potencial quanto os homens, no entanto precisamos abrir espaço nos níveis mais altos da carreira para elas.

 Outra explicação para isso é a existência do Fenômeno Matilda, no qual as mulheres optariam por ceder os cargos de chefia para cientistas mais titulados (homens) para atrair mais recursos para as suas pesquisas e garantir um meio de trabalho mais harmonioso.  Na UNESP, as mulheres representam 49% do corpo docente, mas são responsáveis apenas por 46% das produções científicas. As dificuldades da mulher em crescer na carreira científica refletem na sua produção científica, ao mesmo tempo em que com menos produção, surgem menos oportunidades, em um círculo vicioso.

cristina

Estamos todos com a Cristina Yang (personagem da série Grey’s Anatomy)! E leia também nossos artigos, obrigada.

A Elsevier publicou um grande estudo intitulado “Gender in the Global Research Landscape” que analisa como o gênero afeta a vida do pesquisador, com dados de 20 anos, 12 países, e 27 áreas diferentes. Como podemos ver no texto, Igualdade de gênero na ciência brasileira aqui do blog, o Brasil, e também Portugal, ficaram bem na foto! Os dois países aparecem como os com maior igualdade de gênero dentro da C&T, onde nós mulheres somos 49% dos recursos humanos. Mas esse estudo traz muitos outros dados interessantes.

Esse estudo demonstra que a participação feminina aumentou ao longo do tempo em todos os países avaliados, sendo que na maioria dos locais, as mulheres representam 40% dos cientistas e inventores. Esse número cai bastante quando falamos do registro de patentes, onde somos apenas 15%. Comparativamente, mulheres participam menos do que os homens em projetos internacionais e também viajam menos a trabalho, o que pode ser um reflexo das menores posições que ocupam nos grupos de pesquisa e nos cargos acadêmicos.

Cerca de 70% da produção científica produzida até hoje é de autoria de homens, o que reflete séculos de desigualdades. No entanto, veja algo curioso: as mulheres realmente publicam menos do que os homens, mas não há evidências que isso impacte em suas carreiras científicas ou na qualidade do seu trabalho. Quando analisamos o fator Field-Weighted (reflete o número de citações) dos autores, mulheres e homens alcançam números muito semelhantes, o que reflete o alcance da literatura produzida pelas cientistas mulheres, apesar de terem menos títulos, suas publicações têm impactos semelhantes. Uma publicação científica é contada para avaliação do seu autor, mas existem características que lhe dão diferentes pesos, como o alcance e qualidade da revista onde foi publicada, o número de citações e significância dos resultados. É sempre importante lembrar que qualidade deve vir antes de quantidade! Inclusive o estudo demonstrou que mulheres publicam mais sobre interdisciplinaridade, ou seja, apresentam mais aplicações e correlações dos seus dados com o contexto no qual estão inseridos.

Dentre os artigos mais citados em 2014, 13% são de autoria de mulheres, se considerarmos apenas as áreas de engenharia, esse número cai para 3,7%, e se olharmos para a área de ciências sociais, sobe para 31%. Entre 2011-2015, em Portugal, cerca de 20% das publicações, e 26% na Dinamarca, em revistas da área de Medicina, foram feitas por mulheres. Em geral, o primeiro autor de um artigo é aquele que possui a maior responsabilidade e contribuição sobre este, e as mulheres representam 35% dos primeiros autores das publicações, com variações em diferentes áreas.

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Produção científica por autor, período de 1996-2000 e 2011-2015, por país e sexo. Em roxo a produção de mulheres e em verde a produção de homens. Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

 

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Medida do impacto das publicações de homens e mulheres.  Imagem de Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”.

Mesmo com séculos de desigualdade, sendo minoria entre os pesquisadores e entre as publicações científicas, temos feito grande diferença, através de grande perseverança e luta, mostrando que somos significativas, que somos impactantes, que somos brilhantes! Publicamos menos, mas quando analisamos uma autora individualmente suas publicações são tão relevantes quanto as de qualquer outro homem. Isso deveria ser suficiente para que se pare de falar em improdutividade e inferioridade do trabalho das cientistas mulheres, troque essas palavras por OPORTUNIDADE, e faremos bom uso dela!

Se no século XV a ideia de uma cientista mulher era ridícula, hoje somos 40% desse mundo. Isso mostra, que a luta, mesmo que árdua, vale a pena.

Referências:

JACQUELINE LETA As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso.. ESTUDOS AVANÇADOS 17 (49), 2003

Renan Carvalho Ramos e Samara Pereira Tedeschi A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DA UNESP, CAMPUS DE RIO CLARO Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 28, n. 1 – Jan./Jun. 2015 – ISSN online 1981-3082

LEA VELHO, ELENA LEÓN. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DAPRODUÇÃO CIENTÍFICA POR

MULHERES. Cadernos pagu (10) 1998: pp.309-344.

Elsevier “Gender in the Global Research Landscape”, disponível em: https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Witteman, H. O., Hendricks, M., Straus, S. & Tannenbaum, C. Female grant applicants are equally successful when peer reviewers assess the science, but not when they assess the scientist. Preprint at bioRxiv http://dx.doi.org/10.1101/232868 (2018).

 

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O Carnaval está chegando! Vamos falar sobre mulheres na ciência e no carnaval?

Texto escrito em colaboração com @agaiadm

“Ó abre alas que eu quero passar, ó abre alas que eu quero passar”! Viemos aqui falar sobre carnaval, mulher e ciência. Pedimos licença e abrimos espaço citando a primeira marchinha feita na história, no século XIX, pela musicista carioca e preta Chiquinha Gonzaga, uma mulher que fez a diferença na música popular brasileira e trouxe representatividade e poder a qualquer mulher que quer conquistar seu lugar de fala e respeito numa sociedade machista.

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Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – Imagem de Edinha Diniz, 2009.[1]

Como sabemos, o carnaval vem chegando aí e nada como curtir esses dias de liberdade, calor e manifestação cultural compreendendo de onde vem essa festa e refletindo sobre a relação de nós mulheres com a ciência, a cultura e tudo o mais que nós quisermos nos relacionar! Sim, o carnaval é um manifesto a favor da liberdade. E a história está aí para nos contar como as mulheres se relacionam com essa tal liberdade em diversos contextos diferentes. O que nunca mudou no carnaval é que temos uma festa onde podemos sair pelas ruas trazendo à tona nossas fantasias, podendo ser desde deusas a animais selvagens ou seres fantásticos.

Lá no início…

O carnaval teve como inspiração momentos de festividade desde a Grécia antiga e foi adaptado aos moldes da igreja católica como um ritual festivo de preparação à quaresma até a páscoa. Bom, até aí nada de novo. Mas como será que as mulheres eram vistas, levando em consideração as épocas, as classes sociais e a cor, nos primeiros carnavais do Brasil? Por que hoje somos tão objetificadas, principalmente nesse período do ano?

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Representação de jogos do entrudo no Rio de Janeiro, na pintura de Augustus Earle (1822)

A primeira manifestação carnavalesca que existiu em nosso país foi o Entrudo, no século XVI, que era um conjunto de brincadeiras típicas das aldeias da Península Ibérica ligado a práticas socioculturais da Europa pré-cristã. Os Entrudos resumiam-se em três dias de festas que antecediam a quaresma. Era o único momento do ano em que as mulheres sentiam uma liberdade parecida com a dos homens, diferente dos outros 362 dias, onde elas se resguardavam à espera de um casamento. Durante esses três dias, as mulheres podiam sair pelas ruas sem ser reconhecidas, brincavam com quem quisessem e demonstravam interesse por aquele crush que jamais soubera de seus sentimentos. Estamos falando, é claro, das mulheres brancas. Já as mulheres pretas, ainda escravizadas, em épocas de Entrudos tinham muito trabalho a fazer. Eram elas que preparavam os brinquedos e as fantasias, por exemplo. Podiam, sim, participar de brincadeiras durante esses dias, mas tinham a responsabilidade pela produção da festa. A hierarquia social era demonstrada nas festividades e a alegria, marca do carnaval, não era (é!) para todos.[3]

O carnaval foi sofrendo influências políticas, sociais e econômicas até ter a estrutura atual, que começou a ser lapidada no início do século XX, com a expansão urbana e a criação de novos bairros nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As novas ruas largas foram os palcos escolhidos pela burguesia para apresentar seus desfiles carnavalescos, onde suas filhas desfilavam em ricas fantasias em cima de carros alegóricos, a fim de esbanjarem suas riquezas e quiçá servirem como catálogos para moços ricos escolherem com quem casar. Nesse momento, o Rio de Janeiro tinha uma grande população preta escravizada, em desigualdade social bem evidente, e que trazia outro carnaval às ruas. Da pequena África, região onde morava grande parte dos pretos baianos, surgiram as tias, mulheres emblemáticas conhecidas por acolher os que precisassem de lar e pelos seus saberes e agrupamentos em corporações de trabalho, como fabricação de doces, salgados e costura e aluguel de roupas carnavalescas. As tias foram espécies de mediadoras culturais e ficavam entre as distintas classes sociais, pois eram muito procuradas pelos burgueses da zona sul que encomendavam roupas de carnaval e acabavam ficando em suas casas para os sambas. Aliás, foi na Pedra do Sal, localizada na pequena África, na presença das tias, que o samba nasceu, levando identidade e pertencimento a muitos cantos do país. [4]

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Tia Ciata (1854 – 1924), exemplo das tias baianas na cidade do Rio de Janeiro. (fonte pinterest).[2]

Hoje em dia, o que vemos do carnaval é um grande comércio carnavalesco de desfiles, onde as mulheres são apresentadas não mais a burgueses, mas ao mundo pela mídia, a fim de potencializar o turismo na cidade. Essa exposição, dentro de uma cultura que respira patriarcado e que não vê o corpo da mulher com respeito, acabou contribuindo bastante para a objetificação da mulher brasileira. O carnaval de rua, representado pelos blocos de bairro, também nos traz histórias que mostram que o machismo está enraizado em diversas atitudes. Não é a toa que governos, empresas e sites jornalísticos têm divulgado o Ligue 180 para que mulheres tenham em mente esse canal em casos de assédio durante a folia. Atualmente, muitas mulheres têm reivindicado o direito por seus corpos, sexualidade e vontades. Quem dita as regras somos nós! O que dá gana de lutar pela equidade de gênero e nossos direitos é ver diversos blocos nascendo do feminismo, idealizado por minas engajadas e com fome de conquistas.

A discussão sobre gênero incomoda, mas temos que fazê-la

Essa pequena história do carnaval brasileiro traz as mulheres em diversas posições sociais, porém é perceptível o quanto o machismo está atrelado em nossos caminhos e escolhas. Lugar de mulher é onde ela quiser, seja no carnaval, na arte ou na ciência. Ainda assim, as notícias não enganam: é difícil ser mulher no mundo, em qualquer contexto social. A gente lê manchetes, dados e estatísticas e se assusta, não entende, busca um porquê para ser desse jeito. Os sustos vêm de todos os lados. Pode vir no título de uma matéria de jornal de 2016: “Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901” (El país). Em 2017, nada mudou: os homens – todos brancos, vale destacar – levaram todos os prêmios do Nobel. Pode vir num número que representa a realidade nua e crua de muitas brasileiras: a taxa de feminicídio (o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher) no Brasil, segundo levantamento da organização Artigo 19, é a quinta maior do mundo. Ou, então, pode vir de um lado que a gente não viu, em forma de agressão física, simplesmente porque dissemos não a alguma pessoa que claramente não soube respeitar o nosso direito de se divertir no carnaval.

Mulher na ciência, mulher vítima de assassinato no Brasil, mulher no carnaval… são mundos distintos, nós reconhecemos. Todos eles poderiam ser contextualizados de forma individualizada, mas há, no pano de fundo que os sustenta, um novelinho de lã que costura essas narrativas. No Brasil, ou em outras partes do mundo, não há como falar de mulher na ciência sem ao menos contextualizar, um pouco que seja, o que isso representa naquela cultura e naquele local. Isso porque uma coisa pode puxar a outra e somos seres inseridos em diferentes mundos ao longo da vida: família, profissão e vida social, por exemplo. Há opressões direcionadas às mulheres em cada um desses mundos. E, sim, todas elas conversam dentro da nossa cultura porque falam de opressão ao gênero e sexo feminino.

Todos nós conhecemos a história de uma mulher que precisa se desdobrar em três para dar conta de trabalhar e/ou estudar, tomar conta da casa e/ou da família e cuidar de si mesma (se restar tempo, claro). Vamos dar um nome a essa mulher: Rosa. Rosa está quase terminando seu mestrado em matemática, cresceu ouvindo que mulher precisa saber cozinhar e ser excelente mãe para arranjar e segurar marido e, além disso, morre de vergonha e desconforto de sair com roupas mais decotadas e menores porque tem medo de ser assediada na rua ou no trabalho. No carnaval de rua, por exemplo, só se sente confortável para sair de casa com alguma fantasia que deixa o corpo mais à mostra caso esteja com um grupo de amigos confiáveis. Isso porque, infelizmente, ela percebeu que é um fator cultural o fato de muita gente achar que pode fazer o que bem entender com o corpo de uma mulher e “se saiu desse jeito, é porque estava pedindo”. “Aqueles amigos do mestrado”, ela pensa, “certamente me julgariam se me vissem desse jeito”.

Desconstruir para construir novos valores na cultura

É difícil ser mulher no mundo. Ponto. É tanta coisa para pensar. As respostas que temos que dar, os sinais que temos que ler, a rua escura que precisamos enfrentar, ou evitar, a inteligência que precisamos provar, a fragilidade que já nos é atribuída de forma natural desde a infância, a boneca que teimam em nos dar para cuidar… A sociedade põe a todos numa caixa, é verdade. Porém, verdade seja dita: a caixa das mulheres, no caso de muitas mulheres, é bem pequena para comportar tanto julgamento e opressão. Já rasgamos e quebramos muitas caixas mundo afora, mas todo dia precisamos rasgar um pouco mais as que ainda existem por aí.

Um convite mais que especial

 

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(Fonte: Museu da Vida/Fiocruz)

Pensando nesse contexto, estamos realizando, no dia 3 de fevereiro, um Grito de Carnaval, cujo tema – ou samba-enredo – será “Mulheres na ciência”. O evento será realizado no Museu da Vida, centro de ciência da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e é uma tentativa de rasgar um pouquinho mais essas caixas que nos rodeiam dentro da sociedade. Há atividades para várias idades. Além de ser uma excelente oportunidade para debater a igualdade de gênero na ciência brasileira, essa farra carnavalesca nos propõe pensar novos formatos para fazer divulgação científica.

Dando alguns exemplos: no “Espaço da fantasia”, o público poderá vestir uma fantasia que dialoga com diversas áreas da ciência. A proposta conversa com dois questionamentos: “Será mesmo que cientista tem uma única cara, a do jaleco?” e “Será que podemos dar ao nosso público a oportunidade de considerar ser uma cientista?”. No carnaval, as fantasias conversam bastante com o imaginário, sonhos e possibilidade. Por isso, a mensagem que queremos passar é que ser mulher cientista é, além de muito necessário, extremamente possível. Já em “Estandarte das mulheres incríveis”, os visitantes poderão escrever em pedaços de papel sobre mulheres inspiradoras, como integrantes da família, professoras, amigas, namoradas ou outras pessoas queridas. Em eventos públicos de divulgação científica, conversar com o público e ouvi-lo é fundamental!

Poderíamos ficar um bom tempo discorrendo sobre as atividades, mas, para quem é do Rio ou estiver pelo Rio no dia 3, queremos deixar o convite de ir construir o Grito de Carnaval com a gente. Fica a dica! Há mais informações sobre o evento no link bit.ly/gritodecarnavalmv.

Referências:
[1] DINIZ, E. Chiquinha Gonzaga: uma história de vida. Editora Zahar. 2009
[2] https://br.pinterest.com/
[3] SIMSON, Olga R. de Moraes von. Mulher e carnaval: mito e realidade (análise da atuação feminina nos folguedos de Momo desde o entrudo até as escolas de samba). Revista de História, São Paulo, n. 125-126, p. 7-32, july 1992.
[4] VELLOSO, Monica P. As tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de janeiro. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n. 6, p.207-228, 1990.
[5] http://www.museudavida.fiocruz.br/index.php/noticias/11-visitacao/884-anote-na-agenda-o-grito-de-carnaval-do-museu-da-vida-vem-ai

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Lina Stern, neurofisiologista e bioquímica, que nos apresentou melhor o nosso próprio cérebro

Lina Stern nasceu na Rússia, em 26 de agosto de 1878, uma dos sete filhos de um mercante da província de Kurland. Ainda jovem decidiu ser médica, e declarou que sua atração era pela filantropia e não pela ciência, em um primeiro momento. Tentou por dois anos ingressar na Universidade de Moscou, no entanto, isso não era algo alcançável para uma mulher de sua classe social, por isso deixou a Rússia e foi estudar na Suíça, sendo aceita na Universidade de Genebra. Nesse período, a Universidade de Genebra era conhecida por seu liberalismo, e grande parte dos estudantes eram estrangeiros. Em 1900, quase 50% dos alunos eram russos, e na comunidade científica suíça as mulheres eram muito mais bem aceitas do que em outros países nessa mesma época. Ainda na graduação começou a trabalhar no departamento de neurofisiologia, que seria a área pela qual se tornaria reconhecida internacionalmente. Lina Stern é conhecida por descobrir e descrever a estrutura da Barreira-hematoencefálica, estrutura diferenciada dos capilares do Sistema Nervoso que protegem o nosso cérebro, dificultando o acesso de substâncias estranhas a ele.

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Lina Stern no Laboratório de Fisiologia da Universidade de Genebra.

Lina desenvolveu em conjunto com outros pesquisadores de sua época muitos estudos inovadores em fisiologia, incluindo a descrição de descargas elétricas das células cardíacas, mecanismos do sistema nervoso central e autônomo e a fisiologia do sangue. Durante o período de 1904 à 1922, Lina trabalhou com Frédéric Batelli, publicando 54 artigos sobre enzimas respiratórias. Seus estudos foram determinantes para que, 20 anos depois, Adolf Krebs pudesse elucidar toda a rota da respiração celular, consagrando o conhecido (e temido pelos estudantes!) Ciclo de Krebs. O próprio Krebs reconheceu isso, ao receber o prêmio Nobel em 1953. A partir de 1906 se dedicou intensamente a atividade docente, se tornando a primeira professora mulher da Universidade de Genebra.

Lina começou a centrar seus estudos no conhecimento do Sistema Nervoso, e seu primeiro avanço nessa área foi a descrição de funções do nosso cerebelo, região reconhecida do encéfalo como centro do equilíbrio e dos movimentos voluntários, e também dedicou muito tempo ao estudo do líquido cefalorraquidiano (LCR ou líquor) que envolve a medula e o cérebro e age como protetor e lubrificante de todo o sistema. As observações de Lina e de outros cientistas sobre as diferenças de concentrações de substâncias no LCR e no sangue, fizeram a cientista pensar em como esses compartimentos eram mantidos tão bem isolados, enquanto o sangue é denso, vermelho e com alta concentração de proteínas e células, o líquor é límpido, incolor, com baixa densidade celular e baixa concentração de proteínas. Em 1921, Lina inseriu o termo “blood-brain barrier” (BBB), ou no português, barreira-hematoencefálica (BHE), sugerindo que essa barreira era a responsável por estabelecer as diferenças entre o sangue e o líquor, e também contribuía para a homeostase do tecido cerebral. Ela desenvolveu estudos pioneiros com animais recém-nascidos demonstrando a imaturidade da barreira-hematoencefálica e sua contribuição na segurança de fármacos, sendo convidada a se tornar consultora científica de uma grande indústria farmacêutica.

Apesar da prosperidade e da carreira conquistada na Suíça, Lina acreditava que era mais necessária em seu próprio país. Lina retornou a sua terra natal, então chamada de União Soviética, em 1924 foi convidada a assumir uma cadeira de fisiologia na Segunda Universidade Estadual de Moscou. Lina se dedicou inteiramente ao desenvolvimento da ciência, ministrando os cursos de fisiologia e bioquímica, e trabalhando em dois laboratórios de pesquisa, sendo que publicou nesse período 49 artigos em revistas russas, francesas e alemãs. Em 1929, se tornou diretora do Instituto de Fisiologia da Rússia, apresentando ao mundo, de forma completa, seus estudos sobre a barreira-hematoencefálica.

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Representação esquemática da BHE e foto de Lina Stern em 1929, dos arquivos do Instituto Smithsonian.

Lina nunca quis desacelerar sua carreira. Ela estudou como o estresse, a privação de sono, atividade física e o uso de fármacos interferia na barreira-hematoencefálica e como isso afetava a função cerebral, fazendo grande avanços em neuroendocrinologia, respostas imunes e inflamatórias no sistema nervoso, metabolismo de drogas e neurotoxicidade. Em 1934 recebeu título de “Distinta Cientista da União Soviética” e como prêmio, um carro! Em 1939, foi eleita membro da Academia de Ciências, tornou-se editora-chefe de uma revista científica e recebeu o título de “Eminent Woman of Europe”.

Em 1950, Lina, com então 71 anos, e outros cidadãos russos, foram presos, acusados de espionagem para os Estados Unidos, e ela passou 3 anos e 8 meses, em condições desumanas e sofrendo tortura, na prisão. Muitos dos companheiros de Lina foram executados, e ela foi condenada ao exílio no Cazaquistão, onde passou apenas dez meses, em razão da morte de Stalin, o que atenuou sua pena.

Durante sua prisão, Lina pedia aos guardas papel e canetas e continuou escrevendo suas ideias e hipóteses sobre a barreira-hematoencefálica e o desenvolvimento do cérebro, e com 76 anos, após o exílio, continuou suas pesquisas. Ela faleceu em 1968, após uma vida de muito trabalho, contribuindo de forma incalculável para o avanço da neurofisiologia.

Referências:

Levent Sarikcioglu. Lina Stern (1878–1968): an outstanding scientist of her time. Childs Nerv Syst (2017) 33:1027–1029;

Alla A. Vein. Science and Fate: Lina Stern (1878–1968), A Neurophysiologist and Biochemist. Journal of the History of theNeurosciences: Basic and Clinical Perspectives. 2008.

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Para lembrar quando faltar coragem

[Aviso: O sexismo enfrentado por mulheres tem aspectos distintos e agravantes dependendo da sua classe social, meio cultural, raça, religião, orientação sexual, restrições físicas e/ou psicológicas. Nesse texto, entretanto, por simplicidade, tratamos da questão de gênero na ciência, em particular, na área de física, de maneira binária: mulheres e homens. E, além de poucas citações superficiais, também não estão representadas questões raciais e religiosas.]

Ao contrário do que se imagina, numa sociedade com o mesmo recorte cultural, o machismo não diminui quanto maior o nível educacional dos indivíduos, e, sim, transfigura-se em formas mais elaboradas de discriminação. A vivência dentro da academia não é imune às suas construções sociais e reflete a estrutura patriarcal na qual as ciências foram concebidas. Nós, mulheres, enquanto cientistas, devemos nos enquadrar em sistema feito por homens e para homens. Isso cria desafios particulares para mulheres que desejam seguir carreiras científicas, que já começam em desvantagem com relação as dos seus colegas do sexo masculino.

A mentoria, por exemplo, é extremamente importante para todo jovem cientista, seja como forma de obter treinamento na sua área de especialização, como para ter acesso a rede de colaborações. Ela é, principalmente, o mecanismo pelo qual se aprender toda a parte não escrita sobre o funcionamento do mundo acadêmico: negociar com outros cientistas, apresentar trabalhos, pleitear verbas, oportunidades em projetos, etc, fundamentais para o avanço da carreira. Poucas mulheres usufruem dessa rede de oportunidades através de mentoria, enquanto o engajamento, histórico e estrutural, entre os homens leva-os a carreiras mais bem sucedidas.

Foi pensando em um ambiente que proporcionasse troca de experiências entre jovens mulheres cientistas que a Dra. Elizabeth Simmons da Universidade Estadual de Michigam (E.U.A.) e Dra. Shobhana Narasimhan do Centro de Pesquisa Cientifica Avançada Jawaharial Nehru (Índia) idealizaram um workshop focado no desenvolvimento das carreiras das jovens pesquisadoras na área de física. As duas foram colegas de pós-graduação durante o doutorado na Universidade de Harvard (E.U.A.), entre o final da década de oitenta e o início dos anos noventa. Das conversas entre as duas amigas, elas perceberam que mulheres cientistas, sendo poucas, enfrentam um certo isolamento e possuem poucos espaços para networking, troca de experiências e meios de adquirir certas habilidade não-acadêmicas, as quais seus colegas homens têm acesso tão facilmente através do “clube dos meninos”.

E, assim, foi criado o “Workshop para Desenvolvimento das Carreiras de Mulheres em Física”, com duas edições realizadas num dos institutos de física teórica mais respeitado do mundo, o Centro Internacional de Física Teórica. A última edição, em 2015, contou com 16 palestrantes, a maioria absoluta de mulheres e físicas, e 45 participantes vindas de 26 países e, sim, vou listar porque só a lista de países por si só já é linda: Alemanha, Armênia, Argentina, Benim, Bielorrúsia, Botswana, Brasil, Camarão, Canadá, Cuba, Egito, Gabão, Gana, Índia, Itália, Irã, México, Nigéria, Palestina, Paquistão, Quênia, Senegal, Sri Lanka, Sudão, Turquia e Ucrânia. Imagina só: você entra num auditório. Tem mais de 40 cientistas em física. TodAs mulheres! E a maioria absoluta não é branca! Com muçulmanas, cristãs, atéias trabalhando juntas! Você nem consegue imaginar, não é? Eu vi! Eu vi, gente! Eu estava lá! *_*

Nessa atmosfera multicultural, multirracial, multirreligiosa, nós tivemos a oportunidade de discutir sobre as melhores formas de apresentar currículos, negociar financiamento de pesquisa, escrever propostas, entre outros tópicos. E, também, pudemos tratar sobre aspectos diretamente ligados com as dificuldades de sermos mulheres enquanto cientistas (e vice versa!). As organizadoras convidaram ainda cientistas reconhecidas internacionalmente como Dama Dra. Jocelyn Bell Burnell, que descobriu as primeiras estrelas de nêutrons e Dra. Sossina Haile, uma das pioneiras em células de energia limpa, cujas palestras inspiradoras mesclaram depoimentos pessoais e percurso acadêmico.

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Era mais fácil me darem parabéns pelo meu noivado do que pela minha descoberta científica.” — Jocelyn Bell Burnell sobre a época de seu doutorado na Universidade de Cambridge (Inglaterra).

Jocelyn montou o rádio telescópio que detectou as primeiras estrelas de nêutrons, sendo dela a descoberta das quatro primeiras. As características não usuais desses objetos causaram tanta comoção que até o seu supervisor, Antony Hewish, desacreditou os dados. Bell Burnell defendeu a tese (1968) mesmo sem o apoio do seu orientador.

Em 1974, Hewish divide o prêmio Nobel Prize de física com Martin Ryle, ignorando as contribuições de Bell. O prêmio desse ano ficou conhecido como “No Bell” (Sem Bell, em tradução livre)…

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“Eu era a única mulher na minha turma. E toda a vez que eu entrava na sala de aula, meus colegas batiam os pés no chão até eu sentar.” — Jocelyn Bell Burnell sobre sua graduação em Glasgow (Escócia) na década de 1960.

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“Perdi as contas de quantas vezes eu entrei numa sala de reunião e me pediram para trazer o café.” — Sossina Haile, pioneira na pesquisa com células combustíveis.

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“Uma vez um estudante entrou no meu escritório procurando pelo Prof. Haile. Nós começamos a conversar e ficou claro que ele achava que eu era a secretária do Prof. Haile. Em algum momento ele perguntou se o Prof. Haile estaria interessado na supervisão de novos alunos, como ele. Eu disse: “Hum… Eu acho que não…”. (risadas!) “E essa é uma das formas que encontrei de enfrentar situações de sexismo ou racismo.” — Sossina Haile

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O clima do evento foi de confissões, desabafos e histórias de superação. Tivemos mesas redondas, dinâmicas de grupo, grupos de trabalho, além de palestras e apresentação dos trabalhos científicos das participantes. Foi um evento para levar para vida toda. Com todas essas mulheres fortes contando como lutam todo o dia para fazer ciência, não tinha como não se emocionar e aprender muito: como fazer ciência quando não acreditam em você e no seu trabalho porque você é mulher, porque você é negra, porque você é muçulmana, porque o seu país está em guerra. Como fazer ciência quando ao seu redor as pessoas esperam que você, antes de tudo, seja mãe e esposa. Como fazer ciência quando você é a responsável pelos familiares doentes. Como fazer ciência quando se é pobre… Como fazer ciência depois do abuso verbal, depois do abuso sexual… Como fazer ciência quando se está só… Uma mulher faz ciência simplesmente porque ela quer, mas ela precisa de coragem para continuar.

Algumas de nós engajadas em projetos voltados para atrair meninas para carreiras em física e matemática. Outras, trabalhando em políticas de inclusão e de incentivo à permanência de mulheres na carreira científica. Outras de nós, abertamente feministas. Outras, nem tanto. Todas, porém, reconhecendo duas razões principais para estar ali, naquele workshop. Primeiramente, para aprender mais sobre como o sistema acadêmico funciona e, assim, ter recursos não apenas para permanecer dentro dele, como também crescer e, eventualmente, ocupar posições de prestígio, na academia ou até mesmo fora dela. E, em segundo lugar, uma vez como cientistas, pesquisadoras e professoras, melhorar o sistema para as garotas que escolham carreiras científicas tenham vidas melhores do que as nossas.

Todas nós, apesar de diferentes culturas, raças e religiões (ou não religiosas), nos vimos unidas enquanto mulheres e cientistas. E, não importa em que lugar do mundo a gente viva, agora nenhuma de nós luta sozinha, no isolamento dos nossos departamentos. Nós lutamos juntas!

“Quando era jovem, eu não me considerava feminista. O meu feminismo surgiu ao longo dos anos. Agora, quanto mais velha eu fico, mais feminista também. Hoje eu sou GRRRR!!! feminista!” — Dame Dra. Jocelyn Bell Burnell

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Links interessantes (foi mal, mas é tudo em inglês :/ ):

Se você está no doutorado ou tem doutorado em física, super recomendo que você acompanhe os programas do Centro Internacional de Física Teórica para mulheres.

Gostou da Liz e da Shobhana? Então, dá uma olhada aqui na entrevista que elas deram ano passado.

Mais sobre energia limpa e Sossina Haile na website do The Haile Group.

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Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero: Entrevista com as professoras Marlise Matos e Solange Simões

O Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais completou 50 anos e, ao longo do ano de 2016, estão ocorrendo seminários e eventos comemorativos. No dia 11 de agosto, realizou-se a mesa “Desafios da institucionalização da agenda feminista e de Gênero no DCP/UFMG”, com as presenças das Professoras Magda Neves (PUC Minas), Solange Simões (Univsersity of Eastern Michigan) e Marlise Matos (PPGCP/UFMG). Além da participação do Professor Cristiano Rodrigues (DCP/UFMG).

Apesar de todas as dificuldades ainda presentes – que não diferem dos demais departamentos nas universidades[1], o DCP está na vanguarda no debate de Gênero e a institucionalização destes estudos na Pós-Graduação. Atualmente “Gênero, Reconhecimento e Feminismo” é uma das linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e engloba diferentes pesquisas que têm Gênero como lente teórica, empírica, política, militante. Movimentos trans*, mulheres e meio rural, a representação midiática dos movimentos feministas, violência contra as mulheres, feminicídio, movimentos autônomos de mulheres, a questão racial, são alguns dos temas que vêm sendo pesquisados no âmbito do programa.

Conversamos um pouquinho com as Professoras Marlise Matos e Solange Simões para conhecer um pouco mais sobre essa história. Abaixo a entrevista para vocês.

Como foi, Marlise, a sua chegada à Ciência Política, a sua trajetória com os estudos de Gênero?

Marlise Matos: Eu tenho uma trajetória de caráter muito interdisciplinar. Na graduação eu fiz Psicologia aqui na UFMG, no mestrado eu fiz Teoria Psicanalítica na UFRJ, depois o doutorado em Sociologia no IUPERJ. Nesse percurso todo, desde a graduação, a questão central e o debate que acompanha essas mudanças, Gênero foi ponto de convergência, foi o fio condutor da minha trajetória. Então, me descubro feminista já na graduação. Não havia como a gente tem hoje, movimentos organizados dentro da universidade, era uma pessoa ali e outra aqui. E na época, por coincidência, Sandra Azeredo, que é da Psicologia, e que foi uma das precursoras importantes, coordenadora do NEPEM, no período que eu estava fazendo a graduação, ela estava fazendo o doutorado fora, então eu não a conheci. Então não me envolvi diretamente na universidade, na graduação, com questão acadêmica feminista. Mas eu era feminista por conta da minha trajetória pessoal, de ter lido Simone de Beauvoir com 18 anos, então, assim, entrei por ai. E toda a discussão da minha formação tem muito a ver com a questão das mulheres. Então, o meu trabalho com a agenda dos estudos de Gênero é algo que é o meu fio condutor. Eu me sinto à vontade nesse campo de estudos e nessa área de produção do conhecimento. Mais do que ser uma Socióloga, mais do que ser uma Cientista Política, mais do que ser Psicóloga, eu me sinto uma Feminista Acadêmica. E eu trabalho a minha produção muito mais orientada pelo campo dos estudos feministas e dos estudos de Gênero. Então eu acho que esse é o lugar que eu me encontro, que eu me reconheço como acadêmica, como alguém que faz pesquisas, como alguém que faz extensão, como alguém que leciona. Então, de fato, é a área da minha produção e é aonde realmente eu me encontro e que eu me reconheço como acadêmica.

E você, Solange, como foi essa inserção nos estudos de Gênero aqui no DCP na década de 80, quando você ainda era estudante de mestrado?

Solange Simões: Uma questão importante de ser mencionada é o reconhecimento de que havia desigualdade de gênero não só na sociedade em geral, mas dentro dos movimentos de esquerda, isso é fator constitutivo importante para a organização das mulheres tanto em termos de militância feminista quanto para as mulheres acadêmicas, que combinavam as duas coisas. Uma produção do conhecimento feminista e a organização feminista para a transformação da sociedade. E este é um elemento internacional. Acontece na Europa, nos Estados Unidos, que acontece em vários contextos, de um momento onde a centralidade era dada à classe social, às questões socioeconômicas, e as questões de Gênero não tinham visibilidade e eram até negadas, em muitas medidas. Então, isso eu acho que é um fator comum à emergência do feminismo tanto acadêmico quanto de militância, não só no Brasil como no mundo. E aqui no DCP, nessa época, era exatamente isso. Eu estava muito envolvida com o movimento sindical, com o sindicato dos professores, com a formação do PT. Mas, naquele momento, há o assassinato da Ângela Diniz. E se começam manifestações contra esse tipo de discriminação absurda contra as mulheres na sociedade brasileira, como o “crime de honra”, contra o assassino dela, o Doca Street, por ele ter sido absolvido. E depois também o movimento feminino pela anistia. A minha primeira entrada no feminismo foi através do feminismo socialista. E o primeiro curso que eu tive no DCP, que foi claramente um curso sobre relações de gênero e feminismo, foi ofertado pela Professora Celina Albano, da Sociologia, e o Professor Marcos Coimbra, da Ciência Política. Então, naquele momento, eu acho que era uma descoberta de uma dimensão a mais nas várias desigualdades, que não estava sendo abordada.

Marlise, e ao longo desses dez anos que você está na Ciência Política, como você avalia a institucionalização dos estudos de Gênero?

Marlise Matos: A Associação Brasileira de Ciência Política vai fazer um livro de memórias da institucionalização do campo, e eu fui convidada pelo Presidente da ABCP para escrever um capítulo sobre a institucionalização dos estudos de Gênero. Para isso, eu avaliei 20 anos de produção de artigos científicos em nove revistas acadêmicas da área das ciências humanas e sociais e avaliei 16 anos de produção de teses e dissertações da área de Gênero na Ciência Política. Feito isso, é muito evidente ver que a partir de 2004, 2005, há, de fato, uma institucionalização destes estudos. Primeiro, o que a gente pode obsevar que a presença feminina no campo ainda é infinitamente maior na produção de artigos e com ainda mais força na produção de teses e dissertações, que tem pouquíssimos homens, o que não deveria ser em minha opinião. Eu acho que não é patrimônio e exclusividade das mulheres o debate feminista e de gênero. E você consegue traçar essa institucionalização a partir da trajetória individual de algumas pessoas. Há uma concentração muito forte na minha pessoa e na Professora Flávia Biroli, da UNB. Então nós duas, sem dúvida nenhuma, somos as duas pessoas que estão tomando essa frente aí de trazer, de fato, a questão de Gênero e feminista para dentro da Ciência Política. Agora, nada disso acontece em céu de brigadeiro. Porque aqui na Ciência Política acontece como sempre aconteceu nas outras áreas, hoje isso não acontece com tanta frequência na Sociologia e na Antropologia, acredito eu, mas, durante muito tempo, no começo dessa institucionalização se discutia se isso era ciência ou não era ciência. Se esse conhecimento feminista era uma militância e não era uma ciência propriamente dita, né. Então, a gente ainda tem que ouvir, na própria Ciência Política, questionamentos nessa direção, de que isso não é um campo científico, é um campo de ativismo, é um campo de militância. O que em minha opinião, é uma leitura absolutamente rasteira, equivocada e enviesada. Mas há o reconhecimento de algumas figuras muito importantes de que “o que há de novidade, de originalidade no campo da teoria democrática, são as feministas que estão fazendo”. Portanto, há o reconhecimento da produção acadêmica feminista como uma produção de ponta no conhecimento político hoje no mundo. E aqui no Brasil eu não acho que é diferente, eu acho que a gente está indo na mesma toada.

E você Solange, como avalia essa institucionalização dos estudos de Gênero nos Estados Unidos, que é o seu campo de atuação?

Solange Simões: Eu já estou nos Estados Unidos há vinte anos. Sou professora de um Departamento de Sociologia e de um Departamento de Estudos da Mulher e de Gênero. Realmente eu acompanhei essa trajetória mais lá do que aqui, apesar de continuar trabalhando com Neuma Aguiar e com a Marlise[2]. Então, essa discussão pra mim, no contexto americano, ela é muito mais presente. E é uma discussão bastante diferente do que acontece aqui no Brasil. Nos Estados Unidos você tem a constituição de programas primeiro, e departamentos. O que está acontecendo hoje nos Estados Unidos é a grande preocupação com os novos rumos, com o que vai acontecer com esses programas e esses departamentos de estudos de gênero e mulher. E em que medida eles ainda continuam, de certa maneira, marginais dentro das universidades. Em que medida que esses departamentos estão sendo reconhecidos, ou seja, que estudos de gênero estão sendo reconhecidos como uma nova disciplina e não apenas como uma empreitada multidisciplinar. Há uma tentativa, agora, de fazer com que os professores que lecionam nesses departamentos de estudos de Gênero e Mulher sejam aqueles com doutorado em Estudos de Gênero e da Mulher. Mas com isso, é um tiro pela culatra, porque você acaba com esse caráter multidisciplinar que constituiu esses programas e esses departamentos. Porque atualmente, nesses departamentos, você tem professores de todos os departamentos/programas da Universidade e você tem alguns professores que também são do departamento, como é o meu caso. A grande maioria são professores de todos os departamentos das várias áreas. Que seja da área de Saúde, Psicologia, Ciências Sociais, Economia, etc, que dão cursos sobre Gênero e Feminismo e que compõem o corpo do departamento. Agora, com essa progressão do Gênero, dos estudos de Gênero nas universidades americanas, você tendo pessoas com doutorado sendo contratadas, isso significa, hoje, que só pode dar aula sobre Estudos de Gênero e da Mulher, quem fez o doutorado. Ou seja, com isso, você acaba com o caráter multidisciplinar. Na minha opinião, eu acho que isso é um problema seríssimo. Porque eu acho que o caráter multidisciplinar é constitutivo do conhecimento feminista. E se você hoje acha que o conhecimento de gênero vai ser gerado, principalmente e alguns acham que até exclusivamente, por aqueles com formação, com diploma, doutorados em Estudos da Mulher e de Gênero, nós temos ai um impasse muito grande. Ai temos impasses não só em termos do tipo de conhecimento que vai ser gerado, mas também institucionalmente, porque pra mim é o enfraquecimento desses programas e departamentos. Eu acho que este é um caminho que tem que ser avaliado de maneira muito crítica. Para algumas feministas que defendem a criação desses departamentos desta forma, é que estes tipos de cursos é que possibilitariam a produção do conhecimento de uma forma multidisciplinar. Não apenas multi, mas interdisciplinar. Eu acho extremamente questionável e problemático. Eu não estou questionando você ter um diploma em Estudos da Mulher e de Gênero, o que eu estou questionando aqui, é a concepção de que agora o quadro de professores desse departamento deve ser composto apenas por professores com doutorado em Programas de Estudos da Mulher e de Gênero. Isso pode afetar o caráter multidisciplinar da disciplina e em termos organizacionais, você ficar muito isolado, com um departamento muito pequeno e com pouca visibilidade. Esses cursos cresceram muito nos Estados Unidos justamente porque contam com a força de todos os professores, de todos os departamentos, que pesquisam e querem dar aula sobre Gênero e Feminismo.

E como foi pra você, Solange, uma mulher brasileira, que estuda teorias de Gênero, ir dar aula nos Estados Unidos? Como é essa experiência?

Solange Simões: Eu fui para os Estados Unidos pela Fulbright, como professora visitante, para a Universidade de Michigan, Center for Political Studies. Inicialmente eu não trabalhei com a questão de Gênero. Eu fiz o meu doutorado na Inglaterra, e quando voltei para o Brasil havia aqui a necessidade de uma maior formação em metodologia de Survey e eu fui para os Estados Unidos com esse objetivo, com essa bolsa da Fulbright, e acabei me envolvendo num Survey comparativo internacional sobre questões ambientais globais. Então a minha inserção foi mais pelo método e depois evidentemente me interessei também pelo tema. Mas, quando eu tive a oportunidade de fazer esse concurso, para ter essa posição dupla, de Departamento de Sociologia e de Departamento de Estudos de Gênero e da Mulher, foi uma oportunidade pra mim de voltar mais à temática de Gênero, porque eu trabalho com outras temáticas também na Sociologia como a temática da classificação racial, questão das estruturas de classes. Então foi uma oportunidade de voltar a dar mais ênfase nos meus trabalhos às questões de Gênero e desigualdade. E pra mim foi uma grande oportunidade porque eu passei a trabalhar muito na questão internacional comparativa sobre a perspectiva de estudos de gênero e feministas, e foi um espaço bastante importante tanto do ponto de vista da academia quanto também para minha militância. Eu represento a Sociologists for Women in Society, no UN Economic and Social Council da ONU, e tem uma reunião anual em Nova Iorque do Economic and Social Council, onde há participação de feministas de todo o mundo, você tem ali como parte do Economic and Social Council o CEDAW, o Committee on the Elimination of Discrimination against Women, é realizada uma grande reunião com o tema sobre a desigualdade de gênero no mundo, e eu tenho a oportunidade de participar. Então pra mim essa vinculação entre os cursos que eu dou, o tipo de pesquisa que eu faço, e ai uma possibilidade de militância com mulheres do mundo inteiro, que eu acho super legal, super bacana, eu adoro. Mas, como eu entrei na área de globalização de gênero, e sendo brasileira, na realidade, é um fator, ser brasileira é um fator super positivo para alguém que está dando um curso sobre globalização e gênero na universidade americana. Então eu acho que isso me coloca em uma posição melhor do que uma americana dando um curso sobre globalização e gênero numa universidade americana. Porque há muita discussão sobre o feminismo do sul global, do norte global, e vindo do sul global, eu acho que me coloca numa posição de encarar alguns debates epistemológicos, alguns debates sobre a produção do conhecimento, me dão uma posição, acho que privilegiada de poder fazer à crítica, determinadas críticas que as americanas brancas eu acho que se sentiriam desconfortáveis em fazer.

Agora, para finalizar, Marlise, como o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM), que você coordena, acompanha essa trajetória da institucionalização dos estudos de Gênero e feminismo no Brasil?

Marlise Matos: Eu acho que é importante mencionar que se precisa de espaços institucionais para realizar projetos. Porque você não pode tratar os desafios como uma coisa endereçada a você, pessoa física. Você precisa ter lugares institucionais que abarquem. E eu acho que o NEPEM é uma instituição muito importante e a gente já está aqui na UFMG já mais de 30 anos. Se não me engano é o terceiro núcleo de Gênero que foi criado no Brasil. E é uma honra pra mim, uma alegria estar à frente da coordenação do NEPEM. A história de constituição do NEPEM tem a ver com a história dos estudos de Gênero e feministas nas ciências humanas. O NEPEM teve um protagonismo muito importante na Sociologia, na Antropologia, na Psicologia, que são as áreas que já se permearam, e já institucionalizaram esses estudos de forma muito anterior à própria Ciência Política. Eu acho que é um espaço institucional que é importante você o defender, e o manter existindo, porque ele abriga e abrigou, e eu espero que continue abrigando, as pesquisas de alunos de graduação, de pós-graduação, de fazer aquilo que é uma vocação fundamental, vertebradora do campo do feminismo, que é o trabalho de extensão universitária. Onde de fato se há uma produção militante, e pra mim não é um demérito, o trabalho militante do feminismo, porque justamente o feminismo se propõe do ponto de vista epistemológico, a ser uma intervenção e transformação do conhecimento a serviço da transformação do mundo, e, portanto, a área da extensão universitária é o lugar onde é possível você produzir essas formas de intervenção e de ação para modificar as relações, para você se aproximar da vida como ela é, se aproximar da vida real das mulheres, como a gente faz em inúmeros projetos. Na formação extensionista no Vale do Jequitinhonha, na região metropolitana de Belo Horizonte, com mulheres em situação de vulnerabilidade, em situação de risco, em situação de violência. Então eu acho que o espaço do NEPEM é o espaço para o acolhimento dessas iniciativas, de pesquisas que têm dado continuidade a esse desafio de continuar produzindo conhecimento qualificado sobre as mulheres e sobre as relações de Gênero. E o NEPEM é um espaço interdisciplinar. Que é o que é a vocação mesmo do campo dos estudos feministas e de gênero. Ser esse lugar da inter e da transdisciplinaridade. Que a gente tem tanta dificuldade em fazer acontecer nas nossas universidades. A gente fala como um valor, como um princípio, como uma direção, mas a gente não pratica. E o campo de gênero e feminista é um campo da prática interdisciplinar por excelência. Sempre foi. Nasceu assim e continua exercitando a sua existência assim dessa forma. Inclusive com os desafios e os dilemas que isso implica. Mas, o NEPEM é um espaço importante, de referência nacional, e eu espero em algum momento também internacional, eu tenho construído essas pontes, na região latino-americana, tentado fazer esse esforço de aproximar o NEPEM, o nosso núcleo, com os nossos trabalhos, as nossas pesquisas, os nossos alunos, da produção regional latino-americana. Eu acho que vale a pena abrir o NEPEM para esse diálogo, que hoje está nessa agenda do pós e do decolonial, é um trabalho que eu tenho interessado em fazer esforços nessa direção, para que a gente não seja mais uma a desconhecer o resto da América Latina, e a gente construa essa identidade também como América Latina.

[1] Um diagnóstico sobre a presença das mulheres nas Ciências Sociais pode ser visto aqui: https://revistaescuta.wordpress.com/2016/03/24/a-voz-das-ciencias-sociais-e-masculina/

[2] As professoras Marlise Matos, Solange Simões e Yumi Garcia coordenam um projeto de pesquisa intitulado: O impacto do programa bolsa família sobre a vida das mulheres nos meios rural e urbano em Minas Gerais – Gestão do cotidiano e projeções para a autonomia, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher.