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A seleção do mais amigável, ou como a genética influencia o comportamento dos cães

Quando se pensa em genética, imediatamente pensamos em como os genes influenciam a cor dos nossos olhos, do cabelo, ou seja, essencialmente características físicas. Dificilmente pensamos em como os nossos genes podem influenciar a maneira como nos relacionamos, nossa personalidade, e até como quanto sociáveis podemos ser. Um estudo publicado recentemente na Science pela Dra. vonHoldt e colaboradores mostra como alguns genes foram determinantes para conferir aos cães suas características mais amigáveis, e, portanto tornando mais fácil a relação entre a nossa espécie e a deles.

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Neste estudo foi demonstrado que além dos cães possuírem o comportamento de olhar fixamente os olhos dos humanos– o que teria favorecido o estreitamento de laços entre as espécies – a sua capacidade de reagir amigavelmente teria favorecido a relação entre eles. Para esse estudo, foram comparados o comportamento de lobos (criados em cativeiro, possuindo contato com humanos) e cachorros). Foi observado que tanto os lobos quanto os cachorros cumprimentavam visitantes humanos, entretanto, o contato feito pelos cães tinha uma maior duração (comparando proporcionalmente aos lobos), assim como a habilidade de completar tarefas ligadas a resolução de problemas; ambos os parâmetros estão ligados ao estímulo social

À partir dessa observação, estudos genéticos comprovaram que diferenças nos cromossomos de cães e lobos podem ser responsáveis por essa característica – cachorros possuem genes específicos mais “interrompidos”, diferentemente dos lobos, que possuem um comportamento mais distante ou menos sociável. Essas descobertas corroboram estudos feitos em humanos com a síndrome de Williams-Beuren, uma desordem do desenvolvimento físico e cognitivo, que leva os portadores a se tornarem pessoas altamente confiáveis e amigáveis.

Esses resultados são importantes para corroborar a hipótese da “seleção do mais amigável”: em outras palavras, animais com características mais sociáveis foram selecionados e puderam se reproduzir, passando suas características para outras gerações. Essa hipótese é muito utilizada para explicar a domesticação dos cachorros, pois características sociáveis permitiram a formação de laços entre as espécies, favorecendo a convivência e permitindo aos cães obterem alimentos e cuidado com maior facilidade.

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O masculino como neutro: a normalização da masculinidade

É provável que nenhuma outra frase proveniente da teoria feminista tenha se tornado tão famosa e motivo de tanta polêmica quanto “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, retirada da obra O Segundo Sexo (1949/2014), de Simone De Beauvoir. As discussões a respeito da socialização feminina e a negação da subjugação das mulheres como característica própria da natureza[1] humana se tornam cada dia mais expressivas em diversos âmbitos da sociedade. Trocando em miúdos, muito tem sido discutido sobre as regras explícitas e implícitas ensinadas às mulheres desde os primeiros anos de vida[2] e qual a relação desses construtos com a condição de subjugação. Parte-se do pressuposto de que, para combater a desigualdade, é necessário desestabilizar (destruir, de preferência) a crença de que mulheres são de determinada maneira e se encontram em condições sociais específicas porque assim nasceram para ser. Porém, em contrapartida às crescentes discussões sobre as que ocupam o lugar de subjugação em um sistema de desigualdade de gênero, pouco se debate sobre os que ocupariam nele o lugar de dominação e privilégio, os homens.

Cabe dizer, antes de tudo, que este texto não pretende relativizar a importância de manter as mulheres como foco de debate no feminismo. Muito ainda precisa ser conquistado para a emancipação das mulheres ao redor de todo o mundo e é de extrema urgência que nos organizemos em torno dessas questões, sendo nós mesmas agentes de transformação. Nesse sentido, o objetivo aqui não consiste em direcionar ao movimento feminista a responsabilidade pelo debate das questões relativas aos homens, mas sim destacar como, apesar da discussão a respeito do feminismo aos poucos vir conquistando lugar no espaço público, o silêncio a respeito das construções da masculinidade é sintoma da noção de masculino como sinônimo de neutro. Afinal de contas, diferente da mulher, que “não nasce”, mas “torna-se”, já nasceria o homem pronto?

Em seu livro Sexo e Temperamento (1935/1999), a antropóloga Margaret Mead trata de sua pesquisa em três das mais antigas sociedades da Nova Guiné: os arapesh, os mundugumor e os tchambuli.  Dentre os arapesh não existia muita diferença entre o temperamento dos gêneros, homens e mulheres eram dóceis, cooperativos, não agressivos e “maternais”. Os mundugumor também não apresentavam grande contraste de temperamento entre os gêneros, sendo ambos violentos e agressivos. Já dentre os tchambuli, havia uma diferença temperamental bastante marcada: a mulher era dominadora e impessoal, responsável pela administração da vida social, e o homem dependente e encarregado das atividades de cuidado. Diante dos achados de sua pesquisa, Mead chega então à conclusão de que os comportamentos tidos como femininos ou masculinos não são determinados por aspectos inatos, mas definidos e organizados na vida social.

Nesse sentido, a masculinidade, assim como a feminilidade, seria uma invenção. Esta invenção, contudo, não pode ser definida como algo criado do nada, absolutamente novo e sem uma história por trás. Ao longo do desenvolvimento das sociedades humanas a masculinidade foi construída de diferentes formas e trazer luz às suas mudanças de configuração é de crucial importância para entender tanto seu papel na organização social, quanto para superar uma visão essencialista que entende a definição do que é “ser homem” como algo estanque, homogêneo e “natural”.

Figura 1: o ex-presidente estadunidense Franklin Roosevelt,
por volta de 1884. Assim como vários outros garotos de sua época,
Franklin usa um vestido.
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Fonte: Smithsonian Mag

Em seu artigo “A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia”, o antropólogo Daniel Welzer-Lang argumenta que a estruturação do masculino se dá mediante a ideia de que, para ser um “(verdadeiro) homem”, os rapazes devem desde a infância eliminar todos os traços que poderiam associá-los às mulheres. Em suas palavras:

É verdade que na socialização masculina, para ser um homem, é necessário não ser associado a uma mulher. O feminino se torna até o pólo de rejeição central, o inimigo interior que deve ser combatido sob pena de ser também assimilado a uma mulher e ser (mal) tratado como tal (p. 6).

Tal socialização se daria principalmente nos espaços que Welzer-Lang vai chamar de “casa dos homens”. A expressão é advinda de um estudo realizado por Maurice Godelier (1982/1996) dentre os Baruya, povo da Nova Guiné. “Casa dos homens” consiste em um espaço proibido para as mulheres onde os mais jovens e fracos são associados ao feminino e, por isso, violentados de diversas maneiras. Nesse local os homens constroem a si mesmos e ao feminino (ali encarnado pelos mais novos) submetido por meio de violência ao masculino. Esse processo tem função pedagógica e é depois transposto para as relações entre os homens e mulheres, de modo que as mulheres passam a ser submetidas às regras de relação entre homens e mulheres definidas sem sua participação, em que “o masculino e os homens e o feminino e as mulheres aparecem como construídos por relações de violência entre homens” (CLIMACO, 2008).

Welzer-Lang considera que tal conceito é também útil para pensar as sociedades ocidentais, compostas por rituais de iniciação masculina em diversos espaços com dinâmicas similares àquelas descritas por Godelier. Esses espaços iriam desde os grupos de meninos na infância, em que ocorrem as primeiras compreensões sobre sexualidade e poder (como nas brincadeiras de “troca-troca”, em que um menino penetra o outro e aquele que, por ventura, for apenas penetrado é tido como inferior e em situação de desvantagem, pois a penetração já se apresenta como uma forma de exercício de poder), até os prostíbulos, bares, a relação entre os homens da família, a prisão, a política, dentre outros. Nesses espaços de socialização monossexual (em que só homens participam definindo seu funcionamento), os homens considerados desviantes das normas de masculinidade e, portanto, semelhantes em alguma medida ao feminino, são punidos com violência simbólica e física. Entretanto, mesmo os homens que passam por essas punições são ensinados a reproduzir esse sistema em suas relações com as mulheres, evidenciando que “o masculino é, ao mesmo tempo, submissão ao modelo e obtenção de privilégios do modelo” (WELZER-LANG, p. 5).

A socialização masculina, portanto, atua como um sistema de violência e submissão dentre os próprios homens, trazendo, por vezes, intenso sofrimento na construção de suas identidades. Todavia, ela é ainda mais violenta em seu direcionamento às mulheres, definidas de antemão como seres que devem existir em situação de subjugação em relação aos homens.

Nesse sentido, pensando nos homens que honestamente costumam interpelar suas amigas feministas sobre como poderiam contribuir no combate ao machismo, esboço aqui um apelo: para além da resposta óbvia de que não sejam abusivos com suas companheiras, não sejam violentos, não objetifiquem as mulheres, considerem-nas seres tão capazes de raciocínio quanto quaisquer outros, sugiro que os homens que se pretendem pró-feministas saiam de sua posição de conforto e passem a questionar a masculinidade, a historicizem, relativizem e a tornem não mais blindada.  Uma vez compreendendo-se como parte do sistema de dominação, é de essencial importância que os homens se assumam como atores de transformação de sua categoria e desafiem de dentro as estruturações da socialização em profundidade – não fundando um novo tipo de “clube dos homens”, e sim se abrindo ao verdadeiro diálogo com as mulheres, que foram historicamente excluídas desse processo, mas que, ao contrário dos homens, vêm há um amontoado de décadas repensando a si mesmas, então certamente terão algo a contribuir.

Referências e indicações

CLIMACO, Danilo. Das transformações da dominação masculina. Cad. Pagu,  Campinas,  n. 30, p. 437-443,  June  2008 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332008000100024&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 24 jul. 2017.

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Nova Fronteira, 2014. (1949).

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento em três sociedades primitivas. Editora Perspectiva: São Paulo, 1999. (1935).

SESC TV. Filosofia pop: masculinidade. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=M8WgYfzxYaI&gt;. Acesso em: 25 jul. 2017.

SMITHSONIAN. When Did Girls Start Wearing Pink? Every generation brings a new definition of masculinity and femininity that manifests itself in children’s dress. Disponível em: <http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/when-did-girls-start-wearing-pink-1370097/>. Acesso em: 24 jul. 2017.

WELZER-LANG, DANIEL. A construção do masculinodominação das mulheres e homofobia. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.2, pp.460-482.

GODELIER, Maurice. La production des Grands Hommes. Paris: Fayard, 1982. (1996).

[1]                      É importante dizer que não tenho qualquer intenção de definir “natureza” e “sociedade” como duas instâncias totalmente separadas, mas sim me refiro ao discurso hegemônico (presente em diversos setores e com muitas nuances) que “explica” a condição de subjugação feminina por meio do argumento do “instinto”.

[2]                      Parto do pressuposto de que não existe uma socialização, mas socializações que ocorrem em diferentes momentos da vida de cada mulher, interseccionadas com seu contexto amplo (classe, raça/etnia, dentre outras características). Ainda nesse sentido, mulheres trans também passariam por socializações femininas.

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As luas geladas e suas implicações para a astrobiologia

Parte I

Nos últimos anos, assuntos como “luas geladas” bem como “suas implicações para a astrobiologia” têm sido recorrentes em diversas discussões acadêmicas e até mesmo dentro da mídia. Devido a importância dessas luas, e ao fato de estarem super “na moda” nos dias de hoje, em uma série de textos, pretendo contar para vocês um pouquinho mais sobre o quê são elas, quais são e as principais luas geladas, e porquê são tão importantes assim nos estudos da astrobiologia. Empolgadas então para o primeiro dos 6 textos que estão por vir sobre o assunto?

Então vamos começar! O que raios são essas luas geladas? Os satélites naturais, cobertos principalmente por gelo, que orbitam os gigantes gasosos do nosso Sistema Solar são conhecidos como luas geladas. Para que recebam esta nomenclatura é necessário que apresentem três pré-requisitos, sendo eles: a presença de um meio líquido, de uma fonte de energia e de condições necessárias para a formação de moléculas complexas. Esses também são considerados responsáveis pelo surgimento e pela manutenção da vida.

De acordo com essa classificação, existem diversas “luas geladas” no nosso sistema solar. Dentre elas podemos citar alguns satélites naturais de Júpiter, como Io, Europa, Ganimedes e Calisto (ver figura 1), de Saturno, como Encélado e Titã e de Urano e Netuno.

Perfeito! Agora já entendemos um pouco melhor sobre o quê são esses satélites. Vamos então, focar em um deles em particular, um dos mais promissores nos estudos de astrobiologia, a fim de conseguirmos ilustrar um pouco como esta lua se enquadra na classificação acima descrita. Europa, a sexta maior lua de Júpiter, por se enquadrar nestes pré-requisitos e por apresentar características significantes relacionadas ao estudo da habitabilidade fora da Terra, é considerada uma das “luas geladas” de maior interesse do ponto de vista astrobiológico.

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Figura 1. Montagem das quatro principais “luas geladas” de Júpiter. De cima pra baixo: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. Créditos da imagem: NASA/JPL/University of Arizona.

Nessa lua suspeitamos que os três pré-requisitos sejam: (1) para o meio líquido: água existente na forma de gelo na crosta de Europa e na forma líquida, encontrada em seu oceano interno; (2) como fonte de energia: força de maré originada no oceano interno da lua, decaimento radioativo de seu núcleo, e possivelmente também proveniente da radiação ionizante dos anéis radioativos de Júpiter; (3) condições necessárias para a formação de moléculas complexas: provável interação água líquida-rocha no leito oceânico da lua e possível origem exógena (de fontes externas à lua), devido ao intenso contexto de bombardeamento em que Europa está inserida.

Europa, embora uma das maiores do nosso Sistema, é a menor das quatro “luas geladas” orbitando Júpiter, com um diâmetro de aproximadamente 3.100 km . Ela é constituída por uma atmosfera pouco densa, formada principalmente de oxigênio molecular, originado a partir da radiólise da água em sua superfície; uma camada de água, com extensão estimada em 80-170 km dividida entre uma crosta congelada na porção superior e um oceano líquido logo abaixo; um manto rochoso; e um núcleo metálico (ver figura 2).

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Figura 2. Representação da composição de Europa. Apresentação geral do núcleo metálico, do manto rochoso e da camada superior de água (à esquerda). Visão em mais detalhes da camada externa de água, composta por uma crosta congelada na porção superior e um oceano líquido logo abaixo (à direita). Atmosfera não representada. Créditos da imagem: Coustenis & Encrenaz, 2013.

Além disso, modelos atuais de Europa sugerem que condições como temperatura, pressão, pH e salinidade dos oceanos internos estão dentro dos limites capazes de suportar vida como conhecemos na Terra. Estudos anteriores também revelaram que a lua possui uma superfície plana, o que indica uma constante renovação da crosta a partir de processos geológicos como erupções locais de água aquecida; elevação e submersão de líquidos e de sólidos congelados; ruptura das camadas superficiais de gelo; translação e extensão de blocos da superfície e subsequente preenchimento destas regiões.

Devido a relevância e importância desta lua, tanto no contexto astrobiológico quanto no contexto cósmico de forma mais abrangente, agências espaciais como a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) e a Agência Espacial Europeia (ESA) planejam missões ao satélite em um futuro próximo. A mais recente delas, Europa Mission (traduzido para o português como “Missão Europa”), está com lançamento previsto para 2020, segundo o Laboratório de Propulsão a Jato (JPL – NASA). Ela terá como principal objetivo obter uma melhor compreensão de Europa a partir da análise de sua superfície (para determinação de sua composição), da espessura de sua crosta congelada, da salinidade e da profundidade de seu oceano interno (através da medição do campo magnético da lua), e da investigação de suas erupções termais de água, anunciadas pela agência em setembro deste ano (NASA, 2016).

A segunda missão programada nesse caso pela ESA é a JUICE (acrônimo em inglês para “The JUpiter ICy moons Explorer”, em português “Explorador das Luas Geladas de Júpiter”), com lançamento previsto para 2022 e chegada em Júpiter em 2030. Seus principais objetivos serão diferentes da Missão Europa (NASA). JUICE buscará responder questões sobre o contexto cósmico acerca do funcionamento do Sistema Solar e das condições para a formação de planetas e para a emergência da vida, além de trabalhar com o uso do sistema jupiteriano como um arquétipo para melhor entender o desenvolvimento de gigantes gasosos. Embora esta missão tenha a lua Ganimedes como foco de trabalho, Calisto e Europa também serão estudados a fim de facilitar o entendimento sobre a emergência de mundos habitáveis formados ao redor de gigantes gasosos (ESA, 2016).

Espero ter conseguido mostrar para vocês que tem muita coisa super interessante acontecendo e muita gente envolvida em projetos de pesquisa com temas relacionados às “luas geladas”. Nos próximos textos vou contar um pouco mais pra você sobre cada uma dessas luas, para que juntas, possamos compreender um pouco mais sobre os nossos vizinhos cósmicos.

Referências:

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Uma ciência chamada Farmacogenética: por que o remédio que funciona para vizinha não é o certo para você.

Quem nunca ouviu a indicação, de um amigo ou parente, de um remédio milagroso que para ele foi “tiro e queda”, a solução de todos os problemas? Quem não conseguiu se adaptar a um medicamento referência, aquele famoso de marca, mas que para você não deu certo? Por que para a minha dor de cabeça é melhor o paracetamol e para a sua o ácido acetilsalicílico? Essas questões, chamadas de variabilidade individual de resposta, dão origem aos muitos problemas da automedicação e da prescrição empírica, e causam inúmeras intoxicações medicamentosas todos os anos. A automedicação é o uso sem prescrição médica de fármacos comprados por conta própria, e é um problema de saúde pública no Brasil, que corresponde a 35% do uso de medicamentos no país.Já a prescrição empírica é a forma utilizada pelo médico para acertar o medicamento ao paciente, em um método de tentativa e erro, por isso, até acertar o medicamento certo para o paciente, ele pode passar por vários ajustes de prescrições e de doses. Isso é muito comum na prescrição de estatinas, anticoagulantes, anticonvulsivos e antidepressivos.

A prescrição empírica resulta em vários riscos, o paciente, cansado de tentativas, tende a ter menor adesão ao tratamento, são feitos gastos desnecessários com medicações, leva-se mais tempo até o controle dos sintomas ou da doença podendo causar agravos maiores ou desencadear efeitos adversos graves. Imagine que maravilha seria determinar o fármaco “certo” para cada paciente, a individualização da terapia! E ainda saber isso, antes da prescrição? Bom, já pensaram nisso, e a ciência que investiga essas variações chama-se Farmacogenética. Entre os diversos fatores que interferem na ação de um medicamento, estão aqueles ligados ao paciente, e nenhuma pessoa é exatamente igual à outra, o que pode explicar essa variabilidade.

A farmacogenética investiga variantes genéticas em cada indivíduo que determinam seu perfil de resposta, podendo prever quem irá responder melhor, quem não irá responder ou aqueles grupos de pessoas com alto risco de efeitos adversos ou falha do tratamento. Os alvos de estudos são os chamados polimorfismos genéticos, que ocorrem de forma aleatória no nosso genoma, sendo os mais comuns: deleção, inserção ou substituição de uma base única (SNP – single nucleotide polimorphysm) e a variação do número de sequências repetitivas de micro e minissatélites, como os STR (short tandem repetitive sequences). Esses polimorfismos podem alterar a estrutura da proteína que irão traduzir e resultar em alterações da sua função, causando, por isso, as diferenças de resposta entre as pessoas a um mesmo fármaco.

Para quem quiser ler um pouquinho mais sobre essas variantes, fica a dica do texto da Bruna Paola, aqui do Blog, que escreveu sobre predisposição genética, no link:Predisposição genética: destino ou fator modificável?

Esses polimorfismos são estudados em genes que codificam proteínas importantes para o metabolismo dos fármacos, como transportadores, proteínas do metabolismo e receptores para os mesmos. Um grupo de proteínas amplamente estudadas são as enzimas do citocromo P450, de grande importância na farmacologia, pois são responsáveis pela metabolização da maioria das substâncias endógenas e exógenas (como os fármacos), e alvos de muitos estudos farmacogenéticos. O estudo do citocromo P450 já permitiu identificar perfis de metabolizadores lentos, intermediários e rápidos, que eliminam substâncias de seu organismo com velocidades diferentes. Os metabolizadores lentos estão associados com acúmulo do fármaco no organismo e ocorrência de efeitos adversos, enquanto que os metabolizadores rápidos, comumente, não são beneficiados com o tratamento, já que eliminam o medicamento muito rápido, antes mesmo do seu efeito.

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Imagem disponível em http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=6105

Um dos entraves para o uso dos testes farmacogenéticos na rotina clínica é o custo ($$$!!!). Existem inúmeras (centenas, milhares!) variáveis genéticas que influenciam na resposta farmacêutica de diferentes fármacos, e é preciso determinar quais são as mais relevantes. Além disso, todos esses métodos se apoiam em ferramentas de biologia molecular que também possuem um custo elevado, ainda mais, quando trabalhamos com kits comerciais (vendidos prontos). Os laboratórios diagnósticos no nosso país tendem a torcer o nariz para a biologia molecular, porque ela é cara, porém seus benefícios são muitos, e se formos colocar na ponta do lápis, seria bem econômico evitarmos intoxicações medicamentosas, não acha? Quantos medicamentos são perdidos nessa prescrição empírica? Por isso é muito importante o estudo e divulgação de protocolos de testes farmacogenéticos, formando painéis de análises, ou seja, um grupo de variantes que nos permite avaliar uma resposta do paciente antes mesmo que ele use o medicamento.

Jens Borggaard Larsem e Jan Borg Rasmussem, de um grupo de pesquisa sobre epilepsia na Dinamarca, publicaram em abril deste ano um artigo na revista “Pharmacogenomics and Personalized Medicine” no qual apresentam seus resultados no desenvolvimento de painéis de testes, por PCR, para variantes nos genes CYP2D6 e CYP2C19,de importância reconhecida no tratamento de epilepsia. Esses genes codificam enzimas do citocromo P450, o grande metabolizador de fármacos e substâncias endógenas do nosso organismo, e por isso são de grande importância em vários tratamentos. O objetivo do estudo era demonstrar que desenvolver metodologias “in house” (reagentes preparados no seu próprio laboratório) pode diminuir significativamente os custos comparados aos kits comerciais, e apresentar um resultado tão confiável quanto! Mas para isso deve-se seguir um protocolo muito rigoroso. O laboratório de pesquisa – Laboratory Unit Of the Danish Epilepsy Centre – trabalha desde 2002 com essas variantes genéticas, recebendo em média 300 amostras para análise por ano, com essas amostras os pesquisadores compararam os resultados obtidos por um método de referência, também chamado de padrão ouro, com outras técnicas mais acessíveis.

A maioria dos testes farmacogenéticos é realizado por PCR (Polymerase Reaction Chain), um teste de grande sensibilidade, especificidade, e que tem a vantagem de poder ser desenhado e adaptado no próprio laboratório. Uma das etapas mais importantes do desenvolvimento de testes de PCR in house é o desenho dos primers, pequenas sequências de DNA que irão demarcar qual segmento deve ser amplificado, depois disso devemos otimizar o ensaio, testando várias concentrações dos ingredientes, e principalmente, dos primers, para que a reação funcione. Como em um bolo, temos que seguir a receita a risca, pois a falta de primers vai diminuir a eficiência da reação, enquanto que o excesso do mesmo vai gerar produtos inespecíficos, “sujando” os resultados. Por último, o teste desenvolvido e funcional deve ser validado, isso quer dizer que deve-se comparar os resultados do teste in house com metodologias de referência, para provar que o teste desenvolvido realmente funciona.

Jens Borggaard Larsem e Jan Borg Rasmussem, 2017, fizeram todas essas etapas, e desenvolveram dois testes in house, baseados na metadologia de PCR, para variantes nos genes CYP2D6 e CYP2C19, de importância clínica no tratamento da epilepsia, que foram validados em sua rotina clínica. O teste desenvolvido pelos pesquisadores permite analisar seis variantes no gene CYP2D6 e outras três no gene CYP2C19, permitindo a leitura de até 96 amostras em uma hora. Os testes foram comparados com ensaios de PCR em tempo real (sondas Taqman), e ensaios por RFLP e Sequenciamento, utilizando kits comerciais e demonstraram que o teste in house apresenta resultados iguais ou superiores aos kits comerciais, no que se refere ao custo-benefício, sensibilidade e o tempo gasto nas análises.

Para saber mais informações sobre a técnica de PCR, você pode acessar: UFMG – Descrição da PCR ou Khan Academy (PCR)

Estudos como estes mostram a importância da pesquisa atrelada ao diagnóstico, claro que existem testes prontos, já encaixotados com todos os reagentes necessários, em suas quantidades e proporções corretas, os “kits comerciais”, mas quanto você paga por essa praticidade? Um teste elaborado in house é mais barato, ele é pensado na rotina do seu laboratório, isso quer dizer que você pode produzir reagentes em quantidade suficiente para a sua rotina, evitando desperdício e reduzindo ainda mais o custo ,sem falar na vantagem de desenvolver um ensaio baseado na sua população-alvo, que procure as variantes mais comuns na região e não aquelas encontradas no país de uma grande marca. Claro que esse processo precisa ser rigorosamente validado, obedecendo padrões de qualidade, possuindo controles internos e externos para garantir a fidedignidade do seu resultado. Alternativas para a redução dos custos dos testes de perfis genéticos, como os testes in house, são importantes para que mais pessoas possam usufruir dos benefícios desses avanços científicos. Do ponto de vista científico, seria muito positivo que mais grupos divulgassem seus resultados e o passo-a-passo realizado, assim como Larsem e Rasmussem, para que outros laboratórios e pesquisadores possam utilizar esses dados como apoio para desenvolver seus próprios testes e difundir esse conhecimento, aumentando a confiabilidade dos testes in house.

Referências:

Larssem JB, Rasmussem, JB. Pharmocogenetic testing revisited: 5′ nuclease real-time polymerase chain reaction test panels for genotyping CYP2D6 and CYP2C19. Pharmacogenomics and Personalized Medicine 2017 Abr;10:115–28.

Plöthner M, Ribbentrop D, Hartman JP, Frank M. Cost-effectiveness of pharmacogenomic and pharmacogenetic test-guided personalized therapies: a systematic review of the approved active substances for personalized medicine in Germany. Adv Ther. 2016 Sep;33(9):1461-80.

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Exploração Espacial: Perdidos no sonho de ir para Marte

O que você precisa para viver?  O que é essencial na sua vida? Ar? Água? Uma terra que dê alimentos? A luz do sol que contribui para esse alimento ser produzido? E outras pessoas, casas, ruas, cidades, movimentos, produções, consumo, arte, músicas, amor, sexo, prazeres, culturas, histórias, memórias, tecnologias, internet…E se tivéssemos mais uma chance de nos adaptarmos a um planeta e pudéssemos construir tudo de novo? Quais seriam as suas escolhas?

Em meio ao caos terrestre algumas pessoas olham para o céu e imaginam uma nova civilização num planeta que traz o nome do Deus grego da guerra, o planeta Marte.

marte e terra

créditos: NASA

Entender que existe um espírito explorador e curioso em nós, seres humanos, não é muito difícil, não é mesmo? Mas o difícil é compreender o porquê dessa busca por um planeta, que, por mais que traga algumas semelhanças químicas e físicas em relação à Terra e por mais próximo que seja,  ainda é um lugar inóspito. Os gastos necessários para essa exploração espacial seriam altíssimos, e isso deve ser questionado. A distância média entre a Terra e Marte é de 78 milhões e 300 mil km. Pode-se observar que sua maior proximidade em relação ao nosso planeta foi cerca de 55 milhões de km de distância em 2003, o que não acontecia a 60.000 anos. E teremos um novo período de proximidade que será em 2018, o que facilitaria, no presente, nosso deslocamento para lá [1].

Importante para essa reflexão é pensar que estamos falando sobre exploração, que por mais que seja espacial (e para Marte) não deixa de ser  uma exploração, que tem como base uma lógica de mercado estabelecida pelo modelo econômico atual, cuja existência move a economia, as políticas e questões sociais. É essencial para o entendimento de pesquisas saber sobre o financiamento dessas e, no caso da exploração espacial, não são apenas as empresas privadas e os impostos dos governos que financiam as pesquisas para esse tipo de exploração (e todas as outras) mas também as pessoas, a sociedade que consome produtos dessas “empresas financiadoras” e paga esses impostos. O que não faz muito sentido é que essas pessoas costumam não saber no que estão investindo, existe uma falsa liberdade enraizada ao modelo econômico que criamos, pois por mais que achemos que temos o poder de decisão sobre as nossas escolhas, elas estão fadadas aos investimentos impostos pelo capitalismo e todas as suas consequências [2].  As dificuldades de se divulgar e popularizar as ciências também colaboram para essa realidade, pois se a comunicação científica fosse mais acessível a todas às pessoas, essas poderiam se tornar mais engajadas e, como consequência, lutariam pelo seu poder nas tomadas de decisões políticas, determinando as pesquisas que seriam financiadas, por exemplo. De certo que estudos científicos são financiados para ajudar a alcançar objetivos políticos, econômicos e sociais diversos, mas ainda sim trazem consigo um distanciamento de uma grande camada da sociedade. A consequência disso é que a ciência é incapaz de estabelecer suas próprias prioridades e a exploração espacial vem de escolhas estabelecidas historicamente e é um exemplo dessa relação entre os cidadãos comuns e a comunidade científica [3].

Mas quando essa curiosidade por Marte começou? Ok, podemos ir bem distante com essa pergunta! Coloca aí na máquina do tempo: Voltar 4.000 anos!

máquina do tempo

Créditos: Scibreak

No ano 2.000 a.c. o planeta Marte demonstrava ser um lugar especial para alguns sonhadores. Os egípcios desenhavam a imagem de Marte em tumbas, como por exemplo, na tumba do Faraó Setil I. Também os babilônios, os chineses e até os gregos faziam registros do planeta vermelho nesse período. É interessante perceber que esse planeta com cor de sangue já teve até outros nomes, mas todos representavam Deuses de guerras, por conta de sua cor [4].

deus guerra

Representação do Deus Egípcio da Guerra.
Créditos: Kalyzatf

Com o passar do tempo, Marte não era somente contemplado e observado no céu. A vontade de conhecer outros planetas e saber sobre a possibilidade de vida extraterrestre fez com que imaginássemos e criássemos histórias vividas nesse planeta. a partir do século XIX o mercado cinematográfico começou a produzir diversos filmes sobre o planeta vermelho que tanto nos instiga [5].
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Imagens dos primeiros filmes sobre Marte.
Crédtios: Flash Gordon Wiki 

 

Essa vontade (insana, até então) de conhecer e explorar Marte foi se materializando durante a primeira corrida espacial no período da guerra Fria (1947 – 1991), logo depois do astronauta norte-americano Neil Armstrong pisar na lua, em 1969. Ir para o espaço e pisar no nosso satélite natural não era mais suficiente. Precisávamos de mais: ir para outro planeta, e um dos nossos vizinhos mais próximos foi o indicado: Marte! [6]

As primeiras pesquisas desenvolvidas para conhecer esse planeta tinham como questão inspiradora a possibilidade de vida extraterrestre, ainda mais depois de ter encontrado metano na composição de sua atmosfera (isso porque a concentração de metano na atmosfera do nosso planeta vem das vidas aqui presentes), além de oxigênio e gás carbônico. Mas percebemos que essa taxa de metano na atmosfera de Marte pode ser produzida por um processo geoquímico, vulcânico ou até por atividade hidrotérmica. Depois veio a tona o entendimento de que Marte poderia ser o futuro da Terra, que seria a sua imagem depois de um colapso e a possibilidade de vida neste lugar se tornou inviável. Por conta disso a ideia de explorar Marte passou a ser justificada pela necessidade de  entender melhor os processos que levaram Marte a tornar-se um grande deserto, e assim, talvez prevenir que eventos similares acontecessem na Terra. O desejo de fazer uma viagem espacial mais distante e colonizar Marte foi surgindo e tornou-se um dos objetivos nessa exploração espacial (como se fosse super simples, né?).

No início da exploração de Marte, mais da metade das missões foram mal-sucedidas. Neste século, isso tem mudado, atualmente há 5 satélites orbitando Marte e transmitindo dados para a Terra: Mars Odyssey (EUA), Mars Reconnaissance Orbiter (EUA), Maven (EUA), Mars Express (ESA\Europa) e Mars Orbiter Mission (Índia). Além disso, há 3 anos existem robôs circulando pela paisagem marciana: O Spirit e o Opportunity, lançados em 2003 e o Curiosity, que pousou no planeta vermelho em 2012. Seus estudos têm ajudado a conhecer melhor a composição do solo marciano e a história evolutiva do planeta.

As missões tripuladas para o espaço deixaram de ser uma prioridade nas últimas décadas e foram substituídas pelo envio de sondas e robôs. Enviamos nossas máquinas exploradoras para estudar a Lua, Marte e praticamente todos os nossos planetas vizinhos, além de cometas e asteroides.

Hoje a maioria das agências espaciais trabalham em parceria, contribuindo para o caráter internacional do campo. As maiores potências da Terra, no entanto, demonstram interesse e sonham com a primeira viagem tripulada para Marte. Porém é sabido que os custos para essa viagem seriam altíssimos e precisaríamos evoluir nas pesquisas para construir tecnologias essenciais para habitar o planeta vermelho.

Mas vamos lá, que chegue um dia que tenhamos capital e tecnologia suficientes para ir à Marte. O que já sabemos desse planeta? Como poderíamos nos estabelecer?

 

Características físicas de Marte

Com as informações captadas pelas sondas em órbita e os robôs de Marte sabemos que sua atmosfera é relativamente fina e composta principalmente por gás carbônico, sendo 95,32% de sua porcentagem, mais 3% de nitrogênio, 1,6% de argônio, contendo traços de oxigênio, água e metano. Diferente da Terra com sua atmosfera com cerca de 0,03% do gás carbônico, com 78,08% de nitrogênio, 20,95% de oxigênio e 0,93% de argônio, além de moléculas de água. A atmosfera marciana é um tanto quanto empoeirada, dando aos céus de Marte um colorido marrom claro ou laranja quando visto de sua superfície; os dados dos veículos exploradores de Marte indicam que as partículas de poeira suspensas na atmosfera são de cerca de 1,5 micrômetros. A pressão atmosférica sobre a superfície de Marte varia entre 30 pascals, no pico de Monte Olimpus (você já vai saber o que é esse monte!), e acima de 1.155 pascals nas profundidades de Hellas Planitia. Com isso, sua pressão média superficial é de 600 pascals, que podemos comparar ao nível médio do mar terrestre de 101,3 quilopascals e uma massa total de 25 teratoneladas, comparada à da Terra, de 5.148 teratoneladas.

mars

Foto de Marte.
Créditos: NASA


Já ouviram falar sobre o Monte Olimpus da Mitologia Grega? Esse lugar da morada de doze deuses tem endereço e está em solo marciano. O Monte Olimpus é a maior montanha vulcânica do Sistema Solar e está presente no planeta Marte. Com uma altura de mais de 25 km, ele é quase três vezes maior que o Monte Everest. O Monte Olimpus é o mais novo dentre os grandes vulcões de Marte e tornou-se conhecido pelos astrônomos no fim do século XIX.

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Imagem geográfica do Monte Olimpus.
Crédito: NASA


Em Marte há um sistema de cânions chamado Valles Marineris, que é o maior cânion conhecido, ultrapassando todos os cânions da Terra, com exceção do vale profundo submarino nos 16.000 km de extensão da Dorsal meso-atlântica.

Valles Marineris situa-se no equador de Marte, a leste de um planalto chamado Tharsis, e se estende por quase um quarto da circunferência do planeta. A maior parte dos pesquisadores concorda que Valles Marineris é uma grande rachadura tectônica na crosta marciana que se formou quando a crosta se elevou a oeste na região de Tharsis, tendo sido subsequentemente alargada por forças eólicas erosivas. Parece haver alguns canais que podem ter sido formados por água ou dióxido de carbono.

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Foto de Valles Marineris.
Créditos: NASA

Há a presença de redemoinhos constantes na superfície de Marte e cientistas encontraram pistas de que eles poderiam ter campos elétricos de alta tensão. Esta e outras pesquisas incentivadas por diversas agências espaciais obtiveram dados da superfície de Marte que contribuem para o nosso conhecimento, ajudando na compreensão dos desafios apresentados pelo ambiente Marciano aos exploradores, tanto robóticos quanto possíveis humanos.

 

Desafios de civilizar Marte

A partir  dessas informações sobre o ambiente de Marte, podemos listar nossas futuras e principais dificuldades de civilizar esse planeta:

Radiação – a atmosfera de marte é mais fina que a da terra e não protege contra a radiação do espaço, portanto, será preciso desenvolver um isolamento capaz de proteger a vida humana no interior da base avançada por longos períodos. Cobrir a colônia humana na superfície com camadas do próprio solo marciano pode ajudar. Isso quer dizer que precisaríamos viver enclausurados durante muito tempo. Isso seria possível pra você?

Gravidade – Além de proteger os astronautas contra a radiação para trabalhos em áreas abertas, os trajes espaciais dos colonos marcianos provavelmente serão desenhados para compensar o longo período de viagem sem gravidade no espaço e também a gravidade reduzida do planeta. Seus efeitos podem causar graves problemas de saúde ao organismo humano.  Você se arriscaria?

Comida – No início da exploração a comida precisará ser produzida em marte e será basicamente vegetariana. Os astronautas ou os colonos cultivarão seus alimentos de forma hidropônica, ou seja, sem o uso do solo marciano. A água utilizada para hidroponia precisará ser retirada do solo e será dividida entre outros processos que necessitam dela.  Será que a água será suficiente para uma grande produção hidropônica além de suas outras funções (como consumo, produções tecnológicas, cozinhar, tomar banho, entre outras)?

Oxigênio – O oxigênio necessário à vida humana é escasso na atmosfera de Marte. Este poderá ser obtido a partir do próprio gás carbônico abundante na atmosfera do planeta ou das moléculas de água do solo. O desafio em relação a quantidade de oxigênio é saber se a produção deste será suficiente para manter a vida.

Água – a água encontrada no planeta está congelada. Esta poderá ser obtida a partir do solo marciano, com equipamentos especiais que terão que ser levados ao planeta nas primeiras expedições. O desafio é saber se há água suficiente para manter a base espacial em solo marciano.

Viagem de volta – a logística para escapar da gravidade do planeta e permitir uma viagem de volta é, por enquanto, impossível. Sem falar da velocidade da viagem de volta que irá tornar a passagem superaquecida pela atmosfera da Terra. A tecnologia para a volta à Terra terá que ser produzida em base marciana. Será possível a produção de novos equipamentos que poderão permitir a passagem por diferentes gravidades e uma viagem de retorno?

 

E Marte pode ficar verde? Poderíamos fazer uma “terraformação” de marte transformando a superfície congelada em algo mais parecido com a Terra? É provável que sim. Sondas espaciais que exploram marte encontraram evidências que o planeta já foi quente eras atrás, com rios que drenavam para mares vastos. E aqui na Terra, nós aprendemos como aquecer um planeta: basta adicionar gases de efeito estufa em sua atmosfera. Grande parte do dióxido de carbono que uma vez aqueceu marte provavelmente ainda está lá, nas terras congeladas e calotas polares, assim como a água. Mas tudo isso precisaria de um grande orçamento e de muito tempo, cerca de 1000 anos de adaptação.

A partir dessas e de outras informações sobre as características de Marte e as tendências de desafios que teremos que passar, iniciou um estudo sobre como seria a base marciana para tripulantes humanos que chegassem ao solo do planeta vermelho.

Primeiro será enviado um módulo de habitação com proteção contra a radiação à base marciana. Haverá aumento da temperatura com a implantação de grandes fábricas liberando gases de efeito estufa, o que trará como consequência o descongelamento das calotas, proporcionando temperaturas mais altas e uma fluidez ao ciclo de água. As chuvas cairiam anos depois e os primeiros micróbios poderiam surgir, preparando os solos para as flores e plantas se adaptarem. A produção de energia nas bases seria a partir da energia eólica e nuclear. Com tudo isso, a taxa de oxigênio irá aumentar mas continuará baixa comparada ao planeta Terra mesmo depois de 1000 anos. Ao longo do tempo geológico, antes que a própria Terra se torne inabitável, Marte perderia sua nova atmosfera e congelaria de novo [7].

 

A humanidade, Gaia e Marte

Diante dessa breve história sobre o desejo de explorar e ocupar Marte, podemos imaginar as possíveis futuras histórias dessa temática. A partir do contexto em que vivemos e a consciência sobre o sistema capitalista é necessário nos questionarmos até que ponto a humanidade é capaz de ir. A teoria de Gaia, desenvolvida pelo cientista James Lovelock na década de 1970 afirma que o planeta Terra é um ser vivo. O cientista chegou a essa conclusão diante da observação de sua atmosfera, de seus movimentos naturais e dos ciclos de compostos (ciclo de O2 e ciclo de H20, por exemplo), que mais parecem um metabolismo vivo. Segundo essa teoria o planeta Terra é Gaia, em homenagem a deusa da Mitologia grega que dá a vida. Analogamente, se a Terra fosse um ser vivo, nós, seres humanos, seríamos os vírus exploradores que infectam esse corpo, trazendo como uma das consequências o aquecimento global ou a febre do corpo doente. Imaginando o que o cientista James Lovelock diria sobre a temática da exploração espacial para Marte, acredito que ele diria que nós, os vírus, queremos infectar mais um corpo (planeta Marte) e por onde passamos afetamos. No entanto parece ser inviável ir para Marte…mas para nós, viver sem sonhar? Não dá! [8]

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Filme “Perdido em Marte”.
Créditos: Portal do Holanda

 

Referências

[1] Revista Veja – Abril. Marte atinge ponto mais perto da Terra em 11 anos nesta segunda, 2016.

[2] Flusser, Vilém [1920-1991] O mundo codificado: por uma filosofia de design e da comunicação: Vilém, Flusser, organizado por Rafael cardoso. Tradução: Raquel Abi-Sâmara. 224p. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

[3] Harari, Yuval Noah, 1976 – Sapiens – Uma breve história da humanidade | Yuval Noah Harari; tradução Janaína Marcoantonio. 464p.- 12. Ed. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.

[4] http://historiadomundo.uol.com.br/egipcia/arte-e-arquitetura-do-egito.htm

[5] http://wwwkalyzatf2009.blogspot.com.br/

[6] http://flashgordon.wikia.com/wiki/Flash_Gordon%27s_Trip_to_Mars

[7] Menezes, Leonardo. Amanhãs – Exploração Espacial, Museu do Amanhã, 2015.

[8] Lovelock, James. Gaia, uma teoria do conhecimento. Editora Saraiva, 2014.

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Predisposição genética: destino ou fator modificável?

Fatores genéticos e de estilo de vida são fatores chave no processo saúde-doença. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, um dos mais prestigiados da área médica, concluiu que a aderência a um estilo de vida saudável pode reduzir parcialmente os riscos de doença arterial coronariana (DAC), a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo, mesmo quando há maior predisposição genética1.

A conclusão parece óbvia, mas para muitas pessoas a predisposição genética para DAC é determinística e dificilmente o risco pode ser modificado – algo como: minha família toda tem, então não importa como eu viva, ficarei doente. Entretanto, não é novidade que as pessoas que aderem ao estilo de vida saudável, como não fumar, evitar a obesidade e ter a alimentação saudável, apresentam taxas reduzidas de eventos cardiovasculares. Assim, o artigo publicado objetivou avaliar a interação entre estilo de vida e o risco genético.

Com base na hipótese de que tanto os fatores genéticos quanto a aderência ao estilo de vida saudável contribuem independentemente para o risco de eventos coronarianos, os autores avaliaram dados de 60 mil participantes de três estudos populacionais . Os pesquisadores desenvolveram uma escala de alto, intermediário e baixo risco genético com base no sequenciamento genético de mais de 50 polimorfismos de um único nucleotídeo (SNPs – Figura 1)* associados a maior risco coronariano nas pessoas estudadas. Foi elaborada também uma pontuação relacionada ao estilo de vida, classificando-o em favorável, intermediário ou desfavorável. Os fatores de estilo de vida considerados foram adaptados das metas estratégicas propostas pela Associação Americana do Coração (AHA) e incluíram não fumar, ausência de obesidade e ingestão de sódio. A alimentação foi considerada saudável se a pessoa fazia pelo menos metade das seguintes recomendações: várias porções de frutas, vegetais, castanhas, grãos integrais, peixes e porções reduzidas de grãos refinados, carnes processadas, carne vermelha, bebidas açucaradas e gorduras trans. Os novos eventos coronarianos considerados foram infarto do miocárdio, revascularização coronária (conhecida popularmente como ponte de safena) e morte de causa cardiovascular.

SNP

Figura 1. Exemplo de SNPs – uma única base diferente da base usual na mesma posição3.

Os resultados do estudo revelaram que o risco de novos eventos foi 91% maior entre os participantes com maior risco genético em comparação com os de menor risco. Os participantes com estilo de vida desfavorável, por sua vez, apresentaram maiores taxas de pressão alta, diabetes, maior índice de massa corporal (IMC – razão entre o peso e a altura elevada ) e lipídeos circulantes desfavoráveis. A presença dos fatores de estilo de vida saudável se relacionaram com a diminuição dos riscos de problemas no coração. O estilo de vida favorável diminuiu quase pela metade a chance de novos problemas, independente do risco genético ser alto, intermediário ou baixo.

A pesquisa traz três conclusões importantes: 1) a variação do DNA herdado e o estilo de vida contribuem independentemente para a presença da doença; 2) o estilo de vida saudável reduziu o risco de maneira similar em todas as classes de predisposição genética. Os resultados apoiam a adoção de ações de saúde pública para promover o estilo de vida saudável. Ou ainda pode-se considerar uma abordagem mais intensiva nas pessoas com risco genético aumentado, esperando que a divulgação do risco genético motive a mudança comportamental; 3) os fatores de estilo de vida podem sim modificar poderosamente o risco cardiovascular, independentemente do perfil de risco genético do paciente, ao contrário da visão determinística e de falta de controle sobre a capacidade de melhorar os fatores de risco adotada por muitas pessoas.

Para resumir, independente do risco genético, ter um estilo de vida saudável diminui o risco de doença coronariana. Ou seja, somos donos do nosso próprio destino!

 

* Mutação em que, uma única base no DNA difere da base usual na mesma posição. Os SNPs são o marcador de escolha na análise genética e também são úteis na localização de genes associados a doenças2.

 

Referências

1) Khera et al. Genetic Risk, Adherence to a Healthy Lifestyle, and Coronary Disease. N Engl J Med 2016;375:2349-58. doi: 10.1056/NEJMoa1605086

2) Seal et al. Tools, resources and databases for SNPs and indels in sequences: a review. Int J Bioinform Res Appl. 2014;10(3):264-96. doi: 10.1504/IJBRA.2014.060762.

3) The International HapMap Consortium. Nature 426, 789-796 (18 December 2003)

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A ausência das mulheres no alto escalão do Poder Judiciário

 

Recentemente uma foto divulgada nas redes sociais da composição do Tribunal de Justiça de São Paulo chamou atenção. Nela, como pode ser observado abaixo, até mesmo os olhares mais desatentos conseguem perceber a imensa diferença que há na presença de homens e mulheres e também na ausência de pessoas negras.

desembargadorestjsp

Fonte: Site Tribunal de Justiça de São Paulo

Partindo deste evidente problema, nos perguntamos: como, então, é a ocupação dos tribunais de justiça estaduais no Brasil? Esta é uma tendência que permanece em todos ou é uma especificidade do estado de São Paulo? Infelizmente, já havíamos antecipado a resposta para estas duas questões antes de nos debruçarmos sobre os dados. Não. A ausência das mulheres no alto escalão do Poder Judiciário brasileiro é a regra. Segundo Marona (2016, p. 2):

as desigualdades de gênero e etnicorraciais estão plasmadas no modelo de seleção da magistratura brasileira e também nas regras de progressão na carreira, mutilando a jurisdição brasileira, míope de perspectivas e juízos morais, restritos aos adquiridos pelos homens brancos.

A carreira na magistratura brasileira ficou definida com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e, com esta definição, não se observou preocupação com a representatividade política de grupos no corpo profissional. Se por um lado a carreira é estruturada a partir de concursos públicos como principal meio de inserção, por outro há a promoção a partir da valorização da experiência, merecimento e antiguidade. Ademais, há também a possibilidade de inserção na magistratura de forma direta e em caráter excepcional a partir do quinto constitucional, que destina, por exemplo, uma vaga ao Ministério Público nos tribunais de justiça estaduais (MARONA, 2016, p. 9).

Entrevistamos alguns desembargadores[1] a fim de conhecer o posicionamento deles com relação à inserção e progressão na carreira do Judiciário. Segundo um dos desembargadores entrevistados o novo formato adotado pela Constituição Federal de 1988 foi positivo. Para ele,

A minha turma foi a primeira turma que foi nomeada pelo Presidente do Tribunal de Justiça. E isso significou pra nós uma liberdade. Por quê? Porque antigamente pra você ser nomeado em concurso, você tinha que ter autorização do político da região, depois mandava uma lista tríplice para o governador, e o governador escolhia entre três nomes, um que deveria ir para aquela comarca. A partir da Constituição de 1988, especificamente na minha turma que é de 1988, o próprio Presidente do Tribunal é que passou a nomear os juízes de acordo com a ordem de classificação no concurso. E isso aí pra nós já trouxe uma independência muito grande[2].

Ao longo das entrevistas ficou evidente que o tema da progressão na carreira dos(as) magistrados(as) é uma questão sensível. Segundo um(a) dos(as) entrevistados(as),

Você tem uma gradação na carreira, você começa com o juiz de primeira instância, segunda… até chegar aqui. Isso valoriza a experiência do juiz. Quanto mais tempo… O que que acontece na carreira do juiz.. Na verdade, a promoção por merecimento, ela não é muito por merecimento. É mais por bajulação. Se ele fica puxando saco do desembargador do órgão especial pra lá e pra cá, ele consegue muitas vezes vir, sem ter esse critério realmente de meritocracia.

Para outros(as), o critério de antiguidade de forma exclusiva seria melhor, tendo em vista que isto reconheceria os juízes de acordo com sua experiência. Segundo eles(as),

Tanto que eu falo, eu falo assim, que por mim, só viria pro Tribunal por antiguidade. Porque a antiguidade é o critério mais justo pra se chegar ao Tribunal. Alguns tribunais, acho que o da Justiça e Trabalho… Porque esses critérios, eles são constitucionais. A Constituição que determina que a promoção tem que ser alternada. Por antiguidade e merecimento. Mas, eu já ouvi dizer que na Justiça do Trabalho o merecimento é a antiguidade. Então, o primeiro vai por antiguidade, e o segundo mais antigo, vai por merecimento. Eles vão alternando a antiguidade e o merecimento, mas, levando em conta a lista de antiguidade. Então, eu acho que é o critério mais justo. Porque o resto é ‘beija mão’, assim, é você ir, fazer campanha, visitar desembargador… e pedir… mas aí tem, ah o CNJ baixou uma Resolução Número 106, já tem uns cinco anos, seis anos, sei lá, que tem pontuação, tem nota. Então, o magistrado que tem curso, que tem isso, que tem aquilo, grande produtividade, ele tem uma nota melhor. Mas, na verdade, o que a gente percebe é que esses critérios não são, assim, seguidos à risca. Não são tão objetivos. Então, acho, que precisa ter.

Marona (2016) apresentou os dados sobre o perfil dos magistrados brasileiros mapeados pelo Conselho Nacional de Justiça em 2013 focando na disparidade de sexo e raça destes profissionais. De forma geral, o ingresso dos homens na magistratura é superior em todo o período analisado (1980-2013), sendo que, atualmente, a disparidade entre homens e mulheres situa-se em torno de 30% a mais para os primeiros. Ao passo que aumenta-se a relevância e status na escala da carreira jurídica, a distância entre a presença de homens e mulheres acentua-se, chegando a cerca de quatro vezes maior do que a de mulheres nos Tribunais Superiores (STF, STJ, TST, TSE) (MARONA, 2016, p. 14). Segundo um(a) de nossos(as) entrevistados(as),

O ingresso da mulher hoje na magistratura está de 40 a 50%, assim, 40% feminino, 50% masculino. 25 anos depois, eu acho que está bastante equilibrado. No Tribunal de Minas ainda é muito pouco. Nós somos 130 desembargadores e parece que somos 26 mulheres. Então, assim, é muito pouco ainda, poderia ter mais. A gente ainda vê uma certa dificuldade da mulher vir ser promovida por merecimento. A gente chega mais por antiguidade. Mas por merecimento…

Com relação aos desembargadores, que nos interessa aqui, os dados do CNJ apresentam que no Brasil os homens são 78,5% daqueles que ocupam esta função em contrapartida à 21,5% de mulheres. O que os dados indicam é que, “se não há um claro viés de gênero no âmbito do processo de seleção, certamente existem filtros consideráveis relacionados à progressão na carreira do magistrado” (MARONA, 2016, p. 15). Como veremos nos gráficos abaixo, a ampla maioria dos(as) desembargadores(as) no Brasil é do sexo masculino:

Sexo dos(as) desembargadores(as)

sexodesembargadores

Fonte: Elaboração própria a partir das listas de desembargadores(as) nos sítios dos tribunais de justiça estaduais

Do total de 1.394 desembargadores, 1.097 (79,7%) são homens e 279 (20,3%) mulheres. Com relação à cor destas pessoas, em função de ser uma categoria auto-declarada pelas próprias pessoas[3], a análise é impossibilitada de ser feita nestes termos. Mas, precisamos ressaltar que, segundo a pesquisa realizada pelo CNJ, o percentual de negros(as) ocupando cargos de magistratura nos tribunais estaduais era de apenas 15,6% em 2013 (MARONA, 2016, p. 20).

Ao fazer a desagregação pelo porte do tribunal (grande, médio e pequeno), a desigualdade na representação de homens e mulheres nos cargos de desembargadores(as) permanece. Observa-se que em nenhum porte, de forma agregada, o percentual de mulheres chega a 30%, indicando o grande abismo que há neste formato de participação, que, ao fim e ao cabo, também é política.

Sexo dos(as) desembargadores(as) por porte do Tribunal

sexoporporte

Fonte: Elaboração própria a partir das listas de desembargadores(as) nos sítios dos tribunais de justiça estaduais

Para além destes números, internamente aos tribunais ainda há desigualdades no que diz respeito à ocupação de cargos de maior destaque, como, por exemplo, a presidência. Segundo um(a) dos(as) entrevistados(as),

Na eleição passada nós tentamos a eleição de uma desembargadora pra um cargo de direção e não conseguimos. Só conseguimos eleger uma desembargadora para vice corregedora, que é o mínimo, o mais insignificante de todos que estavam concorrendo. Para presidente nunca nenhuma candidatou (…) presidente eu acho que ainda demora. É preciso ainda ir vencendo barreiras, e tal, mas vai chegar a hora. Ainda tem desembargadoras bem novas que ainda vão poder chegar lá.

A ausência de mulheres da alta magistratura e também do corpo jurídico como um todo não é apenas um problema formal, mas também um problema para a democracia. A inclusão de mulheres nestes espaços faz com que diferentes perspectivas sejam contempladas, mesmo não sendo composições eletivas a partir da participação cidadã (YOUNG, 2006, p. 181). Os processos políticos – caso também do acesso à justiça – ganham com a participação de mulheres, – e também outras minorias, como negros, indígenas, LGBTs, tornando-se mais inclusivos e definitivamente, mais democráticos. É preciso que aprofundemos nossas análises sobre participação política de mulheres também na arena do Poder Judiciário para entendermos melhor como as barreiras às mulheres se dão neste espaço de poder e política. Já foram vencidas as barreiras que dizem respeito às entradas via concursos públicos, resta analisarmos formas de transformação (necessária e urgente) dos mecanismos de progressão da carreira para que diferentes perspectivas e grupos possam também ocupá-la.

Referências

MARONA, Marjorie Corrêa. Representação Política e Poder Judiciário: dos viéses do recrutamento e perfil da magistratura brasileira. Anais do 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, 2016.

YOUNG, Iris Marion. Representação política, identidade e minorias. Lua Nova, v. 67, p. 139-190, 2006.

[1] As entrevistas foram realizadas para a elaboração da Dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, “Nas Linhas da Justiça: uma análise feminista dos acórdãos judiciais de violência contra as mulheres no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (1998-2015)”. Agradeço aos(as) colaboradores(as) que cederam entrevistas. Todos(as) os(as) entrevistados(as) não serão identificados, de acordo com o termo de consentimento utilizado para a pesquisa.

[2] Precisamos esclarecer aqui que a fala do(a) desembargador(a) diz respeito ao acesso à carreira, ou seja, à entrada na magistratura, na primeira instância. O acesso aos tribunais dá-se pelas regras de progressão e é, ainda hoje, bastante politizado.

[3] Não poderíamos simplesmente olhar as fotos que estão disponibilizadas em alguns sítios dos tribunais de justiça e fazer esta classificação.