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Dissertação explora a trajetória de Palmares e Zumbi através de quadrinhos

A História pode ser apreendida através de meios bastante diversos, compreendendo novelas, filmes, músicas, livros e revistas. Cada vez mais professoras e professores de História tem se atentado a isso e procuram trazer esse conhecimento prévio dos estudantes para a sala de aula.

Uma crítica frequente à produção histórica acadêmica é a pouca circulação dos seus resultados, ficando muitas vezes restrita entre os pares. Uma das causas apontadas é a linguagem e estrutura acadêmicas, que dificultariam a leitura para quem não é do meio.

Novos pesquisadores tem pensado nisso, e o blog Cientistas Feministas é uma iniciativa que procura divulgar tanto a História quanto os demais campos do conhecimento de forma mais acessível.

Um trabalho defendido em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) procurou inovar em seu formato: trata-se de uma dissertação totalmente feita em HQ (História em Quadrinhos).

Produzida por Vinícius Finger, o trabalho intitulado “Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” busca discutir as diversas narrativas históricas acerca do Quilombo de Palmaras e de Zumbi, seu líder. Dividida em cinco partes, a dissertação trabalha com a visão dos acontecimentos durante o período colonial, imperial e republicano, este último dividido nas partes Zumbi pós-abolição, Zumbi revolucionário e Zumbi eterno. Faz isso de uma forma bastante interessante: através das aulas que abordam tais assuntos durante esses períodos. Assim, discute também o sistema educacional brasileiro através do tempo.

No período colonial, percebe-se a presença de um discurso religioso bastante forte. Já no período imperial, a HQ mostra que a história de Zumbi era estudada como mais um obstáculo no processo de unificação nacional (FINGER, 2014, p. 53) e o bandeirante Domingos Jorge Velho, apresentado como um herói.

Em “Zumbi pós-abolição”, o autor representa uma sala de aula no Estado Novo de Getúlio Vargas, onde fica latente a incongruência entre um discurso que dizia que a escravidão no Brasil foi mais branda com a realidade da senzala.

No quarto período, chamado pelo autor de “Zumbi revolucionário”, o Brasil está na ditadura, e um professor universitário, vigiado pelos militares, encontra-se com uma aluna fora da sala de aula para explicar-lhe a versão ensinada nas escolas não condiz com o que foi a luta em Palmares:

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Imagem 01: professor explicando à aluna sobre Palmares. Fonte: FINGER, 2014, p. 91

No quinto período, “Zumbi eterno”, adolescentes assistem um filme sobre Zumbi, que desconstrói a primeira versão mostrada na dissertação – a colonial – em que Zumbi teria se matado para não se entregar. Depois do quinto período, o autor reproduziu cenas cotidianas do Brasil de hoje em que mostra como o país ainda continua racista:

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Imagem 02: cena racista atual representada na HQ. Fonte: FINGER, 2014, p. 134

“Zombi, zambi, zumbi : narrativas sobre Palmares” é um trabalho acadêmico que inovou em seu formato. Pode ser usado em sala de aula para discutir com os alunos a forma como a História enquanto área do conhecimento é construída ao longo do tempo. A linguagem dos quadrinhos também pode atrair mais leitores e, assim, diminuir a distância entre o conhecimento produzido nas universidades e o público em geral.

Se você se interessou, a dissertação está disponível on-line aqui.

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O que muda no debate sobre aborto com a decisão da Suprema Corte dos EUA

Diferentemente do Brasil, nos EUA: “o direito das mulheres em decidir encerrar uma gravidez é permitido em todo o país desde 1973” [1]. Na segunda (27), a Suprema Corte desse país pacificou seu entendimento do caso “Whole Woman’s Health v. Hellerstedt” [2], com grandes implicações para o debate em torno desse procedimento no mundo todo.

A Decisão da Suprema Corte dos EUA

Em decisão “histórica”, a Suprema Corte derrubou uma lei do Texas de 2013, conhecida como “HB2”, que impunha várias “restrições médicas desnecessárias” à realização do procedimento [3]. Desde sua aprovação, essa lei teria apenas aumentado o período de espera nas poucas clínicas ainda em funcionamento, aponta um estudo de maio do ano passado [4].

Diante desse e de outros dados, a Corte decretou que os apoiadores da HB2:

“(…) falharam em apresentar qualquer evidência de que a saúde das mulheres seria beneficiada com seus requerimentos de que as clínicas de aborto atingissem padrões de centro cirúrgico ambulatorial ou que os médicos responsáveis pelo aborto tivessem privilégios de um hospital local (duas medidas não requisitadas, aliás, para cirurgias muito mais invasivas e arriscadas nesse Estado).” [5]

Relatório do Instituto Guttmacher [6] indica que outros “22 Estados exigem das clínicas de aborto o padrão dos centros cirúrgicos ambulatoriais” [7]. Para Samantha Allen, essa decisão “(…) dará aos advogados pelos direitos ao aborto ainda mais autoridade em contestar a recente onda de restrições estaduais ao aborto como inconstitucionais” [idem ibidem].

Possíveis desdobramentos

Espera-se que a decisão da Corte ultrapasse o nível local. No Brasil, o procedimento é permitido em apenas três situações: quando há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gravidez é resultante de um estupro (Código Penal Brasileiro, Art. 128) ou se o feto for anencefálico (ADPF 54/2012). Ainda assim:

O aborto é o quinto maior causador de mortes maternas no Brasil. Segundo um estudo publicado em 2013, uma a cada cinco mulheres com mais de 40 anos já fizeram, pelo menos, um aborto na vida. Hoje existem 37 milhões de mulheres nessa faixa etária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dessa forma, estima-se que 7,4 milhões de brasileiras já fizeram pelo menos um aborto.” [8]

No ano passado, o país classificou o aborto ilegal como “problema de saúde pública” e informou à ONU que, embora sua legalização “(…) seja uma reivindicação histórica do movimento feminista, o tema encontra forte oposição do crescente setor conservador e religioso da sociedade, de grande influência no Poder Legislativo.” [9] A decisão da Suprema Corte dos EUA desta segunda-feira, contudo, pode ter aberto um precedente para que uma mudança ocorra também a partir do Poder Judiciário.

Nesse tema, como em outros, o movimento feminista desponta como “principal ator comprometido com mudanças de mentalidade e institucionais” na sociedade [10], de modo que conhecer sua história, sobretudo das últimas cinco décadas [11], terá muito a ensinar sobre os caminhos a seguir na luta contemporânea pela vida das mulheres.

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Promíscuas, adúlteras e homossexuais: fêmeas primatas e o sexo live.

Mesmo no mundo  da ciência, onde supostamente somente os fatos são levados em cosideração e tudo deve ser visto sob uma perspectiva imparcial, é possível encontrar reflexos da cultura sexista ocidental nas análises de resultados e formulação de hipóteses, principalemente em estudos de comportamento de primatas não humanos, humanos e hominídeos. Esse viés sexista ficou por muito tempo ocultado atrás da imagem imaculada do pesquisador, mas felizmente perceptível, e Isso se deve ao empoderamento cada vez maior das mulheres na academia e ao avanço na igualdade de gêneros: uma nova perspectiva tem mudado interpretações que estavam há muito consolidada É importante contextualizar as descobertas científicas no momento histórico pois dessa forma é possível mais do que acusar pesquisadores, rever teorias que por vezes são consensos acadêmicos que estão bem estabelecidos inclusive para o público em geral. Uma dessas generalizações diz respeito ao comportamento de fêmeas e é de conhecimento geral, sendo usado para justificar e cobrar determinados comportamentos de mulheres. Esta hipótese prevê que as mulheres são recatadas e seletivas na escolha de parceiros enquanto os machos são “naturalmente” e, portanto, aceitavelmente promíscuos. Esse padrão comportamental esperado fica evidente em frases de cientistas conceituados, como a fala do pesquisador Craig Stanford e John Allen: “espera-se que fêmeas de primatas sejam passivas, objetos da competição masculina”. Contudo novos estudos vêm desmascarando esse mito para hominídeos, humanos modernos e outras espécies de primatas como sauim (Saguinuhs fuscicollis), lemur (Microcebus sp) e macacos-prego (Sapajus sp). Isso sem falar ainda do bonobo (Pan paniscus) que apresenta a sexualidade ativa com qualquer indivíduo do grupo e em diversos contextos sociais. Para o langus (Semnopithecus entellus) há inclusive descrição de comportamento ativo de apresentação da fêmea para um macho escolhido por ela, e perseguição de machos de grupos vizinhos. Mais surpreendente ainda, essas fêmeas apresentam este comportamento independente da fase do ciclo reprodutivo, podendo inclusive estar grávidas. Esse comportamento de promiscuidade e adultério pode ser evolutivamente vantajoso para a fêmea, pois esta poderia obter os benefícios genéticos ao copular com outros machos enquanto mantém o suporte do macho atual. Além das fêmeas primatas apresentarrem um comportamento sexual mais complexo e menos recatado, esse comportamento não é um padrão fixo, ou seja, não é determinado pela espécie. O comportamento sexual da fêmea apresenta-se em resposta às condições ambientais. Esta teoria tem sido cada vez mais aceita para hominídeos. Historicamente essa hipótese foi generalizada a partir do resultado de um experimento conduzido com moscas, (Drosophila melanogaster) de 1948, por Angus Bateman. Ele conclui que devido ao alto investimento da fêmea em poucos ovos, esta evolutivamente obteria mais vantagens em selecionar um macho e se manter fiel a ele enquanto um macho, virtualmente poderia fecundar ovos de inúmeras fêmeas. Nos dias atuais é fácil criticar essa generalização, pois não considera a complexidade da sociedade de diversos animais, como os primatas não humanos e humanos. Além disso, recentemente 2012 um trabalho refutou todo o experimento de Bateman, criticando fortemente a metodologia utilizada, que a luz conhecimentos atuais de genética encontra se obsoleto. É importante notar se que o trabalho de Bateman, em 1948, reafirmava o papel da mulher na sociedade, tornando facilmente aceitável uma generalização que seria no mínimo, ambiciosa. Esse viés também pode ser verificado em diversos trabalhos sobre comportamento de machos e fêmeas de primatas como pode ser verificado na deliciosa leitura do livro: A mulher invisível da antropóloga Page. Da mesma forma que o comportamento de engajar-se em relações sexuais com diversos parceiros machos, outra temática que também sofre com o viés cultural são as relações entre indivíduos do mesmo sexo, principalmente entre fêmeas. Estudos relatam a existência do comportamento sexual entre fêmeas de primatas para macacas japonesas (Macaca fuscata), macacos-rhesus (Macaca mulatta), langus (Semnopithecus entellus), bonobo (Pan paniscus) e gorilla (Gorilla gorilla). As hipóteses para o comportamento feminino homoafetivo são muitas, tais como facilitador de reconciliação, troca de favores para cuidados parentais, treinamento e as mais suportadas: manutenção de hierarquia e – pasme (ou não) – estímulo sexual. Para ler mais: Kirkpatrick RC. 2000. The evolution of human homosexual behavior. Current Anthropology. 41:385– 413. PMID: 10768881 Grueter C e Stoinski T. 2016. Homosexual behavior in female mountain gorillas: reflection of dominance, affiliation, reconciliation or arousal? Plos one Wimmer B. e Kapperler, PM. 2002. The effects of sexual selection and life history on the genetic structure of redfronted lemur, Eulemur fulvus rufus, groups. Animal Behaviour Gowaty, PA, Kim YK e Anderson WW. 2012. No evidence of sexual selection in a repetition of Bateman’s classic study of Drosophila melanogaster Proceedings for the National Academy of Sciences doi: 10.1073/pnas.1207851109 Page J. Soffer O. e Adovasio JM. O Sexo Invisível – O Verdadeiro Papel da Mulher na Pré-História Editora record http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2013/12/female_promiscuity_in_primates_when_do_women_have_multiple_partners.html

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O que é Física? Ou melhor, será que isso importa (tanto)?

Quando uma física calcula a dosagem de radiação para um paciente com câncer isso é física ou medicina? Quando um físico descobre a estrutura do DNA, isso é física ou biologia? Quando uma física descobre as propriedades radioativa de um novo elemento isso é física ou é química? Quando um engenheiro descobre por acaso a radiação de micro-ondas de fundo isso é física ou engenharia?

A famigerada pergunta “O que é física?” costuma gerar debates acalorados. No entanto, a resposta a essa pergunta, além de complexa, tem mudado bastante nas últimas décadas. Nessa era da ciência interdisciplinar em que frequentemente nos deparamos com termos como física biológica, econofísica, sociofísica, física médica, física computacional e tantos outros, definir física apenas como a ciência que estuda as propriedades da matéria e energia parece demasiadamente simplista. Por outro lado, a definição preferida de muitos colegas – “Física é a ciência que estuda a natureza” – apesar de abrangente e empolgante, pode soar um pouco esnobe.

Sendo assim, em uma tentativa inovadora de responder a esta pergunta de maneira científica, a italiana Roberta Sinatra e seus colaboradores publicaram recentemente na Nature Physics [1] um estudo sistemático, baseado em uma ideia intrigante: “Física é o que físic@s fazem”.

Nesse estudo, a equipe de Sinatra desenvolveu um algoritmo que analisou mais de 42 milhões de artigos no Web of Science publicados entre 1900 e 2012 e suas referências. Desses artigos, 2,4 milhões foram publicados em uma das 242 revistas de física e considerados como o núcleo principal da área. Utilizando um estudo de redes (uma outra área super interdisciplinar!) onde os artigos são os nós e as citações são os links da rede, eles mostraram que 3,2 milhões de publicações fora do núcleo principal possuem as mesmas propriedades estatísticas das que pertecem ao núcleo. Ou seja, desconsiderando a revista onde foi publicado, um artigo qualquer destes 3,2 milhões pode ser tão influente sobre os artigos do núcleo quanto qualquer outro trabalho do próprio núcleo. Por isso estas pesquisas diretamente relacionadas ao núcleo principal foram consideradas como a região da fronteira entre a física e as outras áreas, e portanto foram chamadas de interdisciplinares.

Para garantir que esta região interdisciplinar é tão física quanto qualquer física, eles ressaltaram que entre estes 3,2 milhões de artigos da fronteira estão algumas publicações que deram origem a 6 prêmios Nobel de Física, entre elas o modelo de Hubbard para partículas interagentes de 1963 e o estudo das redes neurais de Hopfield de 1982, além de diversas outras pesquisas de grande impacto para a física.

Que tal, então, abrir um pouco as caixinhas rotuladas como Física, Matemática, Química, Biologia… e olhar para o que tem acontecido de incrivelmente interessante na interface dessas áreas?

Referência:

[1] Roberta Sinatra, Pierre Deville, Michael Szell, Dashun Wang, Albert-László Barabási. A century of physics, Nature Physics 11, 791-796 (2015).

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Mulher de Letras: as primeiras publicações feministas no Brasil

Da imprensa feminina e feminista no século XIX

Antes de você começar a ler esse texto, quero propor um exercício: pense em algum jornalista. O primeiro que vem à sua cabeça! Rápido. Pensou? A chance de você ter pensando em mulher é muito grande e já vou te falar por quê.

É só ligar a televisão, ler alguma revista ou jornal para perceber que as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço no jornalismo brasileiro. Já em 1986, o Ministério do Trabalho registrou que as mulheres representavam cerca de 35% da categoria de jornalistas e, em 2006, esse número chegou a 54%. Um avanço? Claro. Mas, não deixa de ter ser problemas. É comum a mulher jornalista ser objetificada, ter sua opinião inferiorizada e ganhar salários menores (fato que acontece em muitas profissões, convenhamos). Apesar dos pesares, foi no jornalismo – propriamente na imprensa escrita – que a mulher começou a ganhar seu lugar ao Sol na sociedade brasileira; mesmo que, por vezes, de forma distorcida.

O surgimento do jornalismo no Brasil está atrelado à chegada da Família Real no país, tendo como marco o ano de 1808. Os primeiros jornais que se têm registro são o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, de Hipólito da Costa, o Farol Paulistano, de José Costa Carvalho, e O Patriota, de Manuel Ferreira Araújo Guimarães.

Nesse período, o jornalismo era bem diferente dos modelos que conhecemos hoje: a opinião era o carro-chefe dos textos, sendo que pouca informação era passada à sociedade – ao invés disso, os jornais eram verdadeiros palanques políticos, defendendo interesses de seus editores ou do partido que representava. A linguagem utilizada era rebuscada com textos longos e, muitas vezes, se aproximava de contos literários.

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 O Jornal das Senhoras é considerado um dos pioneiros da imprensa feminista no Brasil

Apesar do tardio desenvolvimento da imprensa brasileira, Dulcília Buitoni, em seu livro “Mulher de Papel”, mostra que já no começo do século XIX surgiram alguns periódicos voltados para o público feminino, contrariando e desafiando o alto grau de analfabetismo existente no país. Para a pesquisadora, o primeiro jornal feminino seria O Espelho Diamantino, veiculado na cidade do Rio de Janeiro, em 1827; seguido do jornal também carioca Correio das Modas, em 1839 e O Espelho das Brasileiras, em 1831, no Recife. As folhas tiveram vida efêmera e se preocupavam basicamente com dois assuntos: moda e literatura. Além de serem recheadas com patriarcalismos morais.

Eugênia Melo Cabral, no seu texto “Primeiras Histórias – O surgimento das imprensas femininas e feministas no Brasil”, relata outras publicações de mulheres para mulheres. Fugindo da tradição do jornal, a Revista Feminina foi o primeiro gênero magazine no país. Era editada por Virgilina de Souza Salles, chegando a circular por 22 anos.

Nesse sentido, Buitoni nos esclarece quanto à imprensa feminina: ainda que as mulheres tentassem se estabelecer através das letras, haviam muitos entraves simbólicos que restringiam o papel da mulher diante da sociedade patriarcal brasileira. Por isso mesmo, que as publicações eram pautadas pela “moral e bons costumes”, tendo em vista sempre a questão do deve: como a mulher deve se vestir, como a mulher deve se comportar, o que a mulher deve ler, etc. A representação da mulher esteve atrelada ao universo da beleza e do entretenimento, tendo em evidência também a maneira de se portar uma “boa esposa e uma boa mãe”.

Outro jornal importante na história da imprensa feminina foi o Jornal das Senhoras, de 1852. As editoras responsáveis eram Cândida do Carmo Soares Menezes e Violante Ataliba Ximenes de Biar e Velasco. Eugênia Melo Cabral diz que foi Joana Paula Manso de Noronha que dirigiu a folha por mais tempo. Diferentemente das publicações anteriores, o Jornal das Senhoras não era voltado ao público feminino, mas sim, aos homens. A preocupação das editoras era mostram à classe masculina que nós, mulheres, não somos bonecas ou propriedade dos homens, além de reivindicar a imagem feminina como santa, e que deveriam ser educadas para serem boas mães. Sandra Lúcia Lopes Lima, destaca um trecho do Jornal das Senhoras:

para a maioria dos homens, o casamento era apenas um meio de satisfazer um dese- jo, um capricho, ou simplesmente mudar de estado. Ou assegurar a sua fortuna. Daí o homem poder dizer “minha mulher” com a mesma entonação de voz com que diz “meu cavalo, minhas botas, etc.,”, pois tudo são trastes de seu uso.

Infelizmente, o jornal acabou não atingindo o seu objetivo, sendo criticado por ambos os sexos. Até mesmo as editoras, tinham timidez na publicação de seus artigos, preferindo manter o anonimato.

Eugênia Melo Cabral fala sobre outros periódicos feministas no Brasil, como O Sexo Feminino (1875-1877), A Família (1889-1897) e o Quinze de Novembro do Sexo Feminino (1890-1896). É nesse momento que há uma mudança no textos, que passam a esclarecer às mulheres sobre a nossa condição na sociedade, além de falar sobre a subjugação do sexo feminino. A luta pelos direitos das mulheres dava seus primeiros passos, tímidos, é claro, mas seria o começo de algo que se ampliaria com o tempo. Claro que não devemos olhar o passado em função do presente, mas pesquisas como a de Buitoni e Cabral nos mostram como é possível refletir as práticas atuais, através da análise da trajetória histórica.

REFERÊNCIAS

BUITONI, Dulcília Schoeder. Mulher de Papel. São Paulo: Edições Loyola, 1981.

CABRAL, Eugênia Melo. Primeiras Histórias – O surgimento das imprensas femininas e feministas no Brasil. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/cabral-eugenia-primeiras-historias.pdf.

LOPES, Sandra Lúcia. Imprensa feminina, revista feminina. A imprensa feminina no Brasil. In: Revista Projeto História. N. 35. P. 221-240. São Paulo, dezembro de 2007.

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Por que as aves sobreviveram à extinção dos dinossauros?

De todas as espécies que já existiram no planeta, mais de 90% foram extintas. A vida na Terra enfrentou 5 grandes eventos de extinção em massa conhecidos e, após cada um desses eventos, os poucos organismos sobreviventes foram capazes de ocupar e recolonizar o novo ambiente. Mas… por que algumas espécies sobrevivem, enquanto muitas outras desaparecem durante eventos de extinção em massa? O que faz com que as vidas dessas espécies seja viável após eventos tão catastróficos?

Apesar de não ter sido a mais severa, a extinção em massa que marcou o final do Cretáceo e inicio do Terciário (K-T) é a mais estudada e também a mais famosa, pois corresponde ao final da “era dos dinossauros”. Sobre esse evento, uma das questões mais intrigantes para os paleontólogos refere-se à sobrevivência de apenas um grupo de dinossauros – as aves. Muitas hipóteses já foram sugeridas para tentar explicar por que as aves se deram bem naquele momento. Por exemplo, a presença de penas, o voo e o tamanho reduzido poderiam ter proporcionado boas condições de sobrevivência no ambiente pós-catastrófico do final do Cretáceo. Entretanto, são conhecidos fósseis de outros animais, incluindo outros répteis e dinossauros, que também apresentavam essas características e não tiveram a mesma sorte. Uma pesquisa recente, desenvolvida por Derek Larson e seu grupo, sugere que o segredo para a sobrevivência das aves poderia estar na boca, ou melhor, no bico.

Imagine o seguinte cenário: há 66 milhões de anos, asteroides de até 10km atingiram o planeta. O impacto foi tão intenso que causou diversos efeitos globais. Inicialmente, acredita-se que houve aumento de temperatura, terremotos e tsunamis. A colisão fez ainda com que se levantasse muita “poeira”, causando o bloqueio da luz solar e levando o planeta a um inverno prolongado e ao colapso do ecossistema existente até então. Muitas espécies que haviam tido muito sucesso por milhares de anos, de Tyranosaurus a Velociraptors, não conseguiram sobreviver à mudança brusca das condições ambientais.

Para entender a dinâmica de extinção de espécies durante a extinção K-T, a equipe de Larson estudou mais de 3000 dentes de pequenos dinossauros carnívoros. Estudar dentes fossilizados pode parecer estranho, à primeira vista. Entretanto, dentes podem contar histórias muito interessantes por indicarem o tipo de dieta que o animal apresentava. Sabendo a dieta, podemos imaginar que tipo de ambiente aquela espécie ocupava e que comportamentos poderia exibir, por exemplo. O grupo de pesquisadores descobriu que antes da extinção K-T, havia uma grande diversidade de especializações de dietas entre os pequenos dinossauros carnívoros, como peixes, insetos ou caças, por exemplo. Perceberam também que essa diversidade não mudou durante o Cretáceo. Isso significa que não houve uma diminuição gradual da variedade de tipos de dentes. Ao contrário, parece que esses pequenos carnívoros desapareceram de repente ao final do Cretáceo.

Essa extinção em massa também fez desaparecer muitos pequenos dinossauros com penas, que possivelmente se comportavam de forma muito semelhante às aves verdadeiras. Entretanto, apenas um grupo de aves – os Neornithines – tiveram sucesso em sobreviver no novo ambiente. Uma das poucas diferenças entre essas aves e outras que não conseguiram sobreviver era que, enquanto outros animais possuíam dentes, os Neornithines possuíam bicos queratinosos –  o que realmente é um dos traços que apenas as aves modernas apresentam em comum. Ainda, o tipo de bico que essas aves apresentavam era relacionado a uma dieta herbívora, e elas provavelmente comiam sementes.

Então, você se lembra como era o ambiente após o impacto? Não havia luz solar por causa do acúmulo de poeira, o que significa que também não havia fotossíntese. Sem fotossíntese, muitas plantas acabavam morrendo. Com a escassez deste recurso, muitos animais que dependiam de folhas e frutos, por exemplo, acabaram morrendo. Apesar de imaginarmos que o grande número de animais mortos poderia ser uma boa fonte de alimento para dinossauros carnívoros, esse é um recurso que se deteriora muito rapidamente. Entretanto, sementes são alimentos altamente nutritivos, e estoques de sementes dispersadas por plantas podem continuar viáveis por mais de 50 anos, como boas fontes de nutrientes. Assim, não é difícil imaginar que animais capazes de absorver nutrientes desses bancos de sementes, e de sementes encontradas no meio dos detritos, tiveram uma grande vantagem de sobrevivência. Bem, aves com bicos queratinosos podiam fazer isso. Assim, é possível que a especialização da dieta em sementes de algumas linhagens de aves tenha sido um dos fatores fundamentais para sua sobrevivência ao final do Cretáceo.

Como todo avanço em Ciência, esse provavelmente não é o final dessa história. Novas hipóteses devem ser testadas pois há, provavelmente, outras características fisiológicas e morfológicas dos Neornithines que proporcionaram a este grupo melhores condições para sobrevivência após o impacto do asteroide. Entretanto, essa pesquisa demonstra que até mesmo dentes de dinossauros podem nos contar uma história interessante sobre o passado. Ainda, o conhecimento do que acontece durante eventos de extinção em massa pode ser muito relevante para entender nosso planeta atual, já que a Terra está passando por mudanças bruscas, por exemplo no clima e condições atmosféricas, levando ao colapso de ecossistemas e à extinção de muitas espécies.

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 Cladograma de dinossauros e grupos relacionados, mostrando os grupos extintos (em vermelho) e sobreviventes (em verde) na extinção em massa do final do Cretáceo. (Current Biology v.26, 2016, R416)

 
Referências:

Larson, D.W., Brown, C.M., and Evans, D.C. (2016). Dental disparity and ecological stability in bird-like dinosaurs prior to the end-Cretaceous mass extinction. Current Biology 26, 1325–1333.

Brusatte S. L. (2016). Evolution: How Some Birds Survived When All Other Dinosaurs Died. Current Biology 26, R408–R431.

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Adoção Homoafetiva: breves considerações

A Constituição Federal de 1988 trouxe novos modelos de família, mesmo não oriundas do casamento, dando-lhes igual tratamento e amparo jurídico. Entretanto o reconhecimento das relações homoafetivas foi deixado de lado, pois o conceito constitucional de família engloba apenas a heterossexualidade, tanto nos institutos do casamento quanto da união estável. A ausência de inclusão jurídica da homoafetividade traz reflexos na adoção de crianças por casais homoafetivos, gerando grande polêmica. Na tentativa de derrubar o preconceito e buscar o reconhecimento jurídico – constitucional do diferente, vários debates foram travados sobre tais temas.

Cabe ressaltar que não existe no Código Civil e nem no Estatuto da Criança e do Adolescente qualquer restrição quanto ao sexo, ao estado civil ou até mesmo a orientação sexual do adotante. A única preocupação do legislador é com o bem estar do menor que, em qualquer hipótese deve ser avaliado pelo julgador, seja na adoção individual, seja por casal heteroafetivo seja por casal homoafetivo.

No dia 27 de abril de 2010, a 4ª turma do Superior Tribunal de Justiça, cujo relator foi o Ministro Luis Felipe Salomão, no julgamento do Recurso Especial de n. 889.852, RS, permitiu com unanimidade a adoção por um casal homoafetivo, com a conseqüência inclusão do nome das companheiras nos assentos de nascimento dos menores, em prol do melhor interesse da criança, princípio basilar previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Destaca-se que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul já havia decidido anteriormente a favor do reconhecimento do vínculo familiar entre casais do mesmo sexo. A decisão foi proferida pela então Desembargadora Maria Berenice Dias, reconhecendo como entidade familiar a união entre pessoas do mesmo sexo à luz da dignidade da pessoa humana e igualdade (Apelação Cível n° 70012836755, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Maria Berenice Dias, julgado em 21/12/2005).

Segundo Maria Berenice Dias (2009, p. 216) o direito a adoção por casais homoafetivos tem fundamento constitucional, e, sendo assim, não é possível excluir o direito a paternidade e à maternidade de gays e lésbicas sob pena de infringir o respeito à dignidade humana, ao princípio da igualdade e da vedação à discriminação.

Ao inibir a adoção homoafetiva, o princípio da integral proteção do menor é afrontado pela negativa do direito de adoção conjunta por casais homossexuais, tendo em vista que tal negativa impede que muitos menores sejam criados por pessoas que se encontram dispostos a lhes ofertar amor e carinho e os impedindo de terem uma família.

Em alguns países há casos de sucesso na adoção homoafetiva. Como exemplo podemos citar o caso de duas mulheres da Califórnia (EUA), que em 1986, formaram o primeiro casal gay a adotar legalmente uma criança, o que já é possível hoje em 14 dos 50 estados norte-americanos. Na Europa, muitos países — em diferentes graus — seguiram o exemplo da pioneira Dinamarca, que em 1999 permitiu a homossexuais ligados por união civil a adotar o filho do companheiro ou companheira. Dez anos depois, o país aprova o direito de um casal gay adotar em conjunto uma criança. A lista inclui Alemanha, Holanda, Suécia, Inglaterra e Espanha.

Na África do Sul, a Suprema Corte legalizou a adoção por casais homossexuais em 2002, único país do continente a adotar a medida. Em Israel, em 2008, uma decisão do procurador-geral de Israel facilitou a adoção para casais do mesmo sexo. O Uruguai foi o primeiro país latino-americano a legalizar a adoção por casais ­homossexuais, em 2009.

Assim, considero que o que deve nortear o processo de adoção é o interesse da criança e cada caso deve ser estudado sem preconceito, sendo, portanto, sábia a decisão do Superior Tribunal de Justiça em permitir a adoção por um casal de lésbicas. Recentemente a ministra do STF Cármen Lúcia manteve decisão que autorizou um casal gay a adotar uma criança, independentemente da idade.  A ministra Cármen Lúcia não deu razão ao recorrente, negando seguimento ao Recurso Extraordinário, por entender que o acórdão recorrido está em harmonia com a Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e com a Constituição Federal. Em sua decisão, a ministra citou o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 132. Portanto, a posição do STJ e do STF se destacam por abrir precedente que deve ser levado em consideração nos próximos processos sobre o mesmo assunto, sendo assim, considerados tecnicamente uma jurisprudência vinculante e que deverá ser respeitada por todos os tribunais.

 

Fonte:

 

http://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/adocao/relatos-reais-sobre-adocao/-a-adocao-feita-por-homossexuais-batalhas-e-vitorias-legais.aspx

http://seer.franca.unesp.br/index.php/estudosjuridicosunesp/article/view/342/339

http://www.conjur.com.br/2015-mar-20/carmen-lucia-reconhece-adocao-restricao-idade-casal-gay

DIAS, Maria Berenice. União Homoafetiva: o preconceito & a justiça. 4° ed. São Paulo: Editora dos Tribunais, 2009

 

 

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Neutralidade de rede: interesses em jogo e questões em aberto

No início do desenvolvimento das redes de computadores, existiam diversas delas desconectadas, usando diferentes tecnologias e protocolos que se comunicavam. A Internet nasceu como um projeto militar, uma tentativa de conectar várias redes em lugares distintos para o intercâmbio de informações; ser uma “rede de redes”. Logo foi amplamente adotada por acadêmicos e cresceu como uma forma de democratização ao conhecimento, permitindo o compartilhamento de descobertas entre pesquisadores de diversos países. Com a criação da Web, a Internet se popularizou e atingiu às demais camadas da população, proporcionando acesso a uma quantidade inimaginável de conteúdos antes restritos a uma pequena parcela e também permitindo a criatividade e criação de novos aplicativos que, depois, vieram a se tornar empresas lucrativas.

Pode-se dizer que hoje a Internet é um dos meios importantes para a disseminação do conhecimento para todos, promovendo a inclusão de pessoas em diversos processos existentes no mundo. Para que a Internet continue a ser esse ambiente de inclusão das pessoas na era do conhecimento, bem como promotor da difusão de informações e da inovação, é necessário manter algumas características técnicas que foram essenciais durante seu desenvolvimento e crescimento. Uma dessas características que suscita muito debate é a neutralidade de rede.

Uma rede neutra é aquela em que não há o favorecimento de uma aplicação em detrimento de outra. A neutralidade de rede pode ser melhor definida como um princípio de projeto de redes de computadores. A ideia é a de que uma rede de informação pública útil aspira tratar todos os conteúdos, sites e plataformas de forma igual. Isso significa, por exemplo, que um pacote transportando conteúdos de uma ligação por voz não pode ser transmitido mais lentamente que um pacote de mesmo tamanho contendo informações de um e-mail.

Apesar desse conceito não ser algo novo, ele tem causado polêmica no Brasil e em outros países e cada vez mais atraído a atenção da opinião pública internacional. De um lado, provedores de conteúdo e comunidade técnica defendem o modelo de neutralidade, de outro lado, provedores de acesso, em sua maioria empresas de telecomunicações, vislumbram formas de maximizar seus lucros por meio da cobrança por vias rápidas (“fast lanes”) para o tráfego de dados, ou por meio de outros artifícios que beneficiam ou prejudicam certo tipo, origem ou destino de tráfego de dados em detrimento dos demais.

Várias pesquisas científicas apontam que há diversas vantagens em se manter a Internet neutra. Dentre as principais estão:

  • Maior incentivo para inovação através da criação de aplicações disruptivas e de novas tecnologias de rede, se comparado com uma arquitetura fechada;
  • Possibilidade de concorrência entre novos entrantes e empresas já estabelecidas, seja na área de aplicações, seja no provimento de acesso à Internet; e
  • Acesso a qualquer serviço que o usuário desejar sem a necessidade de pagamento adicional para esse fim.

Porém, a manutenção de uma Internet neutra não é algo simples, uma vez que há diversos atores nesse ecossistema com diferentes interesses em relação a esse tópico. De uma forma resumida os interesses em jogo para cada um dos atores da rede são:

  • Provedores de Acesso (por exemplo, Vivo, NET, Oi): ao serem impedidos de discriminar conteúdos e aplicações, eles perdem um instrumento de controle de suas redes, o que pode levar a redução de lucros e diminuição do potencial de eficiência de suas redes. Essas perdas podem levar à redução de incentivos para inovação na infraestrutura de telecomunicações e à redução na geração de empregos do setor;
  • Grandes Provedores de Conteúdo: os grandes da Internet (por exemplo, Google, Facebook, Netflix) não precisariam mais negociar condições especiais para o tráfego de seus conteúdos com provedores de acesso, e assim podem alocar mais recursos em inovação e geração de empregos. Por outro lado, a proibição de acordos para priorização de tráfego reduz os instrumentos disponíveis para que eles mantenham sua hegemonia, tendo em vista que pequenos provedores terão condições de oferta semelhantes;
  • Pequenos Provedores de Conteúdo: são os grandes beneficiários da neutralidade da rede. Com o tráfego de seus conteúdos sendo tratados da mesma forma que o dos grandes, há uma redução nas barreiras de entrada no mercado. Pequenos provedores de conteúdo não vão precisar negociar com provedores de acesso para terem uma oferta de qualidade de seus aplicativos, e a maior diversidade de iniciativas levará a um aumento na inovação como um todo; e
  • Usuários: com a neutralidade da rede, usuários terão acesso a conteúdos mais diversificados, impedindo efeitos de filtro de conteúdo que são hoje aplicados pelos grandes provedores de conteúdo. Há também um ganho na capacidade de autonomia, visto que usuários terão maiores incentivos para também se tornarem provedores de conteúdo. Há também ganhos expressivos no campo da liberdade de expressão, já que a neutralidade da rede impediria que provedores de acesso criem bloqueios de conteúdo.

Hoje em dia há pelo menos três formas de um provedor de acesso discriminar um conteúdo ou aplicação específica na Internet, violando a neutralidade de rede:

  • Bloqueio total da aplicação e/ou conteúdo na Internet;
  • Redução da sua velocidade de acesso em comparação a outras aplicações e/ou conteúdos; e
  • Cobrança de um preço diferente pelo acesso àquele conteúdo e/ou aplicação em comparação aos demais.

No Brasil, a Lei nº 12.965, conhecida como Marco Civil da Internet, está em vigor desde 2013 e garante a neutralidade de rede na Internet brasileira (Art. 3º, IV). De acordo com a mesma lei (Art. 9º), “o responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação”. Apenas há a previsão de discriminação ou degradação do tráfego em casos de requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações; e priorização de serviços de emergência (Art. 9º, § 1º).

Apesar do Brasil já contar com uma lei que protege a neutralidade de rede, há duas questões relevantes nesse área que continuam ainda em aberto. A primeira delas é como verificar tecnicamente se a neutralidade de rede tem sido cumprida pelas empresas e a outra é se a discriminação de tráfego ocorre apenas nos casos previstos pelo Marco Civil da Internet. Esse debate ainda vai dar muito pano para manga antes de ser superado.

Referências:

WU, T. Network Neutrality, Broadband Discrimination. Journal of Telecommunications and High Technology Law, Vol. 2, p. 141, 2003.

WU, T. Network Neutrality FAQ. Disponível em: < http://www.timwu.org/network_neutrality.html >. Acessado em: 06 jul. 2016.

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei Nº 12.965, de 23 de abril de 2014. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm >. Acessado em: 06 jul. 2016.

RAMOS, P. Neutralidade da Rede. Disponível em: < http://www.neutralidadedarede.com.br/ >. Acessado em: 06 jul. 2016.

 

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Mulheres e câncer: Tumor de Ovário

Aqui no Cientistas Feministas, eu publicarei uma série de textos que relatam sobre cânceres que ocorrem em mulheres. Neste primeiro texto da compilação, o tema escolhido foi câncer de ovário 1

Em relação aos outros cânceres que podem ocorrer em mulheres, câncer de ovário é um dos tumores mais raros e um dos mais letais. Estima-se que 70% das pacientes com câncer de ovário faleçam dentro do período de 5 anos após o diagnóstico 2.

Origem

Histologicamente, há 4 tipos de câncer de ovário, sendo o tipo seroso um dos mais comuns. A origem deste tipo de tumor de ovário é muito discutida e há indicações que este câncer seja originado na superfície do ovário, entretanto, há evidências que mostram que sua origem ocorre na trompa de falópio 3 .

Disseminação

Câncer de ovário se espalha para outros lugares do corpo de uma maneira muito única. Diferentemente dos outros tumores que se disseminam pelos vasos sanguíneos e linfáticos, no câncer de ovário, as células tumorais se descolam do tumor e se agregam, podendo sobreviver no interior da cavidade abdominal. Estes agregados celulares, chamados de esferas tumorais, podem ser flutuantes ou aderir em outros órgãos da cavidade abdominal. Além disso, as células tumorais podem também atingir outros órgãos mais distantes como pulmão, via vasos sanguíneos ou linfáticos (veja a figura abaixo).

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Em pacientes diagnosticados em estágios mais precoces, as células tumorais estão confinadas no ovário ou localizadas em regiões próximas ao ovário. No entanto, pacientes em estados mais avançados são diagnosticados com frequência de 70% e apresentam nódulos tumorais distribuídos em diversas regiões no interior do abdômen ou além da cavidade abdominal 4.  

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Detecção e Tratamento

Para outros tumores sólidos, observa-se uma diminuição de letalidades com o avanço da medicina, porém, o cenário pouco se alterou para os pacientes de câncer de ovário. Atualmente, a mesma proporção de pacientes com câncer de ovário sucumbem quando comparada com a proporção de pacientes na década de 80 2.

Há necessidade de se descobrir novos tratamentos e marcadores que identifiquem estágios iniciais da doença. Os tratamentos utilizados são cirurgia e quimioterápicos. Pessoas com câncer de ovário possuem sinais clínicos não muito específicos e infelizmente não há marcadores sensíveis para a detecção precoce desta doença 5CA-125 é frequentemente utilizado como um dos indicadores de recorrência, embora não seja capaz de detectar quando há uma remissão tumoral pequena. Além disso, exames como tomografia com contraste não são capazes de detectar pequenos nódulos tumorais presentes na cavidade abdominal 2.

Câncer de ovário é um dos tumores que albergam mais mutações que outro tumor sólido, em média 61 mutações por tumor 6. Por isso, encontrar tratamentos para esta doença é tão desafiador, uma vez que suas células podem possuir uma aberração de quantidade de mutações e constituem uma população muito heterogênea 5. Dessa maneira, bloquear uma via que esteja ativada decorrente a mutação com uma droga pode gerar resultados não tão promissores.

Um outro obstáculos no desenvolvimento de tratamentos para câncer de ovário que sejam mais eficazes é que as esferas tumorais presentes na cavidade abdominal tem baixa capacidade de multiplicação. Sendo assim, elas são refratárias aos tratamentos convencionais de quimioterapia que são direcionais a células que se multiplicam rapidamente.

Riscos e prevenção

Pessoas que possuem mutações de caráter hereditário de certos genes envolvidos na reparação de defeitos no DNA têm maior risco de desenvolver câncer de ovário. Estima-se que 10-15% dos cânceres de ovário são associados a estas mutações 5. Alguns médicos aconselham a retirada dos ovários e tuba de falópio para pessoas que possuem mutações nestes genes. Mesmo que este procedimento seja muito polêmico, isso acarreta na diminuição da ocorrência de tumor de ovário nestes pacientes em 80% 2.

Futuro

Apesar destes fatos desafiadores em relação ao câncer de ovário, muitos estudos estão sendo realizados com intuito de desenvolver novas drogas para o tratamento desta enfermidade. Saber mecanismos de resistência ao tratamento é um dos pontos chave para o desenvolvimento de um tratamento de sucesso. Sendo assim, aguardamos ansiosamente os resultados dos novos testes clínicos em humanos 5.

Referências

  1. Seton-Rogers S, Ovarian cancer: At the starting line. Nat Rev Cancer. 2013;13(5): 296-7. doi:10.1038/nrc3510.
  2. Vaughan S, Coward JI, Bast RC, et al. Rethinking ovarian cancer: recommendations for improving outcomes. Nat Rev Cancer. 2011;11(10):719–25. doi:10.1038/nrc3144.
  3. Lengyel E. Ovarian cancer development and metastasis. Am J Pathol. 2010;177(3):1053–64. doi:10.2353/ajpath.2010.100105.
  4. Shield K, Ackland ML, Ahmed N, Rice GE. Multicellular spheroids in ovarian cancer metastases: Biology and pathology. Gynecol Oncol. 2009;113(1):143–8. doi:10.1016/j.ygyno.2008.11.032.
  5. Bast RC, Hennessy B, Mills GB. The biology of ovarian cancer: new opportunities for translation. Nat Rev Cancer. 2009;9(6):415–28. doi:10.1038/nrc2644.
  6. Cancer T, Atlas G. Integrated genomic analyses of ovarian carcinoma. 2011:0–6. doi:10.1038/nature10166.

Figuras:

http://www.servier.com/Powerpoint-image-bank

 

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Imunidade do solo

solo planta

Que os animais têm sistema imunológico nós já sabemos, mas solo com resposta imune? Sim! O solo com seus preciosos microrganismos além de prover nutrientes para as plantas também as protege de possíveis patógenos.

O solo é o nosso grande provedor de alimentos, de onde nós e outros animais retiramos o sustento. É nele onde também ocorrem os ciclos biogeoquímicos de elementos fundamentais à vida como o nitrogênio, fósforo, carbono entre outros. Essa transferência e reciclagem de nutrientes no solo é mediada por microrganismos do solo (microbioma), responsáveis por conectar todos os ciclos. Mesmo sendo tão importantes, ainda desconhecemos a maior parte destes organismos e de como eles estão envolvidos na saúde das plantas e do solo. Entender melhor os mecanismos por trás dessa imunidade conferida, permite-nos repensar as atuais práticas agrícolas e utilizar menos fertilizantes e pesticidas.

Solos suprimem doenças e apresentam um microbioma que protege as plantas contra infecções por patógenos.  São descritos dois tipos de imunidade: geral e específica. A supressão de patógenos geral está presente em todo solo, onde os macro e microrganismos agem de forma competitiva. A supressão específica ocorre quando um determinado grupo de microrganismos se sobressai em relação aos demais e suprime um determinado grupo de patógenos, como: fungos parasitas de plantas, bactérias, nematódeos e até mesmo ervas daninhas.

A resposta imunológica de solos é análoga ao dos animais. Quando o solo entra em contato com um patógeno pela primeira vez, os mecanismos gerais de defesa tentam suprimir a infecção porém, se a resposta imune for insuficiente, o primeiro surto da doença ocorre. A infecção pode persistir por anos mas, silenciosamente, estará enriquecendo e selecionando microrganismos e características do solo que irão enfraquecer o patógeno, a então chamada supressão específica. O surto da doença passa e o solo mantém uma memória imunológica de forma que, caso ocorra uma nova infecção, a resposta imunológica será apropriada e previnirá um novo surto.

As interações entre patógeno, planta e microrganismos supressores de doeças do solo são complexas e pouco conhecidas. Estudos demontram que durante o primeiro surto da doença, tanto o patógeno quanto a planta liberam metabólitos que induzem ao enriquecimento e seleção de um consórcio de microrganismos capazes de controlar a infecção do solo. Estes microrganismos que se sobressaem passam a produzir metabólitos que fazem o papel de anticorpos como, por exemplo, certos gêneros de bactérias que suprimem fungos causadores de infecção em raízes de plantas através da liberação de partículas fungicidas.

O mais interessante é que essa característica de resposta imune tem sido observada em solos de diversas localidades do mundo, enfatizando a importância dos mecanismos que induzem ao enriquecimento de bactérias supressoras de patógenos. A elucidação destes mecanismos permitirá manipular os diversos microbiomas do solo para trabalhem a favor das plantas, para um melhor controle de doenças e também para uma maior absorção de nutrientes.

Até o momento, temos conhecimento apenas de espécies isoladas de microrganismos capazes de suprimir doenças. Porém, quando adicionamos uma única espécie ao solo as chances de sucesso são extremamente baixas, já que o microrganismo recém adicionado precisa competir com o microbioma já estabelecido no ambiente. Por isso, novas estratrégias serão aplicadas, como a adição de um consórcio sintético de microrganismos e a bioaumentação dos microrganismos endógenos supressores de doenças.

Outras estratégias possíveis seriam a seleção ou criação de plantas com raízes mais propícias a atrair microrganismos supressores de doença e observar se diferentes insumos (biológicos ou químicos) adicionados ao solo funcionariam como prebióticos.

Para que ações agrícolas sejam praticáveis, é necessário o conhecimento básico das trajetórias coevolutivas do trio planta-patógeno-microbioma.  Assim como o corpo animal reage depois de receber uma vacina, precisamos entender melhor os mecanismos que levam o microbioma do solo a responder imunologicamente contra patógenos. O conhecimento e pesquisa básica no entendimento da reposta imune do solo abrirá caminhos para engenheirar microbiomas, melhorando a saúde das plantas e assegurando o alto rendimento da colheita.

Fonte:

Raaijmakers, J. M., & Mazzola, M. (2016). Soil immune responses. Science, 352(6292), 1392–1393. (Disponível online: http://doi.org/10.1126/science.aaf3252 )