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Eventos acadêmicos e representatividade das cientistas

A universidade, por ser um local de produção de conhecimento, é considerada por muitos como um ambiente privilegiado, onde supostamente imperaria um pensamento crítico. No entanto, a universidade não é uma instituição descolada do contexto social no qual está inserida. Também os pesquisadores que a integram são pessoas que vivem em uma sociedade onde não há igualdade de gênero e, muitas vezes, acabam reproduzindo, no ambiente acadêmico, atitudes e pensamentos sexistas.

A reprodução de comportamentos sexistas ocorre frequentemente em eventos acadêmicos, como congressos, seminários, palestras, etc. Não é incomum depararmo-nos com mesas compostas exclusivamente por palestrantes homens, mesmo existindo mulheres especialistas nos temas que estão sendo debatidos. Veja-se, por exemplo, o tumblr Congrats, you have an all male panel!

Esse quadro recorrente possui efeitos perversos na trajetória profissional das mulheres cientistas.

Em primeiro lugar, a falta de representatividade das mulheres em eventos acadêmicos pode servir para desestimular que jovens alunas sigam a carreira acadêmica. Há muito tempo os movimentos feministas vêm debatendo a importância de meninas e jovens se identificarem com modelos de mulheres fortes e independentes em filmes, livros, programas de televisão, etc. O mesmo acontece no campo da ciência. Para que as jovens sejam incentivadas a seguir a carreira acadêmica, é muito importante que possam reconhecer-se como possíveis profissionais da área. Ora, se essas jovens vão a um evento científico onde só há homens falando, como poderão se sentir representadas pelo campo e, portanto, incentivadas a seguir na carreira?

Além disso, a presença de uma maioria masculina em determinados eventos acadêmicos expressa uma característica mais profunda de nossa sociedade: a divisão entre público e privado. A sociedade patriarcal está estruturada em uma separação entre o público e o privado que relega as mulheres, predominantemente, à esfera privada, limitando seu espaço de fala no ambiente público. Essa estrutura social acaba sendo reproduzida no ambiente universitário: as mulheres ocupam postos de pesquisa, mas, muitas vezes, são preteridas para debater publicamente. Ou seja, também no meio acadêmico e universitário é mais difícil para uma mulher do que para um homem aceder a um lugar público de fala, de debate.

Diante desse quadro, algumas pessoas têm se mobilizado para garantir a representatividade das mulheres cientistas em eventos acadêmicos. Quando organizamos um congresso, um seminário ou uma palestra, é muito importante termos em mente a importância de montar mesas compostas também por mulheres. E isso não somente em eventos que debatem gênero, história das mulheres, saúde das mulheres ou qualquer outro assunto diretamente relacionado às mulheres. É fundamental termos mulheres debatendo todos os temas, não apenas aqueles que discutem especificamente temas “de mulheres”.

Além das iniciativas individuais, também é necessário começar esse debate no ambiente universitário, inclusive nos espaços mais institucionalizados, como conselhos, reuniões departamentais, etc. Para que esse quadro de desigualdade de gênero se reverta, as iniciativas individuais não bastam. São necessárias políticas institucionais, como, por exemplo, exigência de mulheres em mesas para concessão de financiamento para eventos.

A igualdade de gênero não é algo inerente à supostamente “ilustrada” academia. É um ideal pelo qual as mulheres cientistas devem lutar cotidianamente. Nessa luta, a batalha pela representatividade e pela ocupação de lugares de fala é fundamental. Somente com mulheres ocupando espaços públicos de debate poderemos alcançar um ambiente verdadeiro igualitário nas universidades.

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Crônicas de um congresso

Há um tempo, estive em um congresso acadêmico, como tantos que há por aí. Como em vários desses congressos, após os “trabalhos”, alguns participantes saíram para uma espécie de “happy-hour”. Durante esse “evento social”, um dos participantes do congresso passou a mão na bunda de uma das participantes. Um outro participante começou a conversar com uma quarta participante e, de repente, começou a relatar como seu pênis supostamente seria viril, já que ele é descendente de índios. Esse mesmo participante tentou beijar uma outra acadêmica à força. E não foram apenas essas “ocorrências”. Como também é muito comum em congressos, grande parte dos participantes estava hospedada no mesmo hotel. Então, durante a madrugada, depois que todos já estavam dormindo (ou quase), dois acadêmicos tentaram invadir o quarto de uma de nossas colegas.

Situações como essas não aconteceram excepcionalmente nesse congresso. Relatos de cientistas assediadas por seus colegas em eventos científicos são frequentes. E, assim como também acontece em outras situações de violência, essas mulheres assediadas preferiram não relatar o acontecido à organização. O motivo? Os assediadores, provavelmente, negariam o ocorrido e elas ficariam conhecidas na comunidade acadêmica como espalhadoras de boatos e causadoras de problemas. De fato, um desses assediadores passou o resto da semana indo conversar com cada um dos participantes para dizer-lhes que as cientistas assediadas estavam mentindo. E, em decorrência disso, uma dessas vítimas – que estava em seu primeiro congresso – teve que lidar com a preocupação e a tensão de ser considerada mentirosa pelos colegas.

Esses casos são mais uma expressão do machismo a que as mulheres cientistas estão sujeitas no ambiente acadêmico. Muitos pesquisadores ainda consideram que o corpo de suas colegas está disponível. Acham legítimo assediá-las em um ambiente de trabalho. Afinal, o que estariam fazendo essas mulheres desacompanhadas em cidades e países estranhos? Obviamente estão querendo “se divertir”. Só que não. O que essas mulheres querem é apenas conseguir expor o seu árduo trabalho de anos e serem respeitadas por seus colegas, como iguais, como seres intelectualmente tão capazes como eles.

Esse tipo de assédio torna o ambiente acadêmico ainda mais hostil para as mulheres. Ao longo de sua carreira, as mulheres cientistas já têm que enfrentar os mais diversos obstáculos: insuficiência de creches, dupla jornada, silenciamento, etc. O assédio em eventos agrega mais um item a essa lista. Ademais, frequentemente, as cientistas que são vítimas desses atos começam a questionar a própria qualidade de sua pesquisa: meu trabalho tem valor ou sou só mais um rosto bonitinho no congresso?

Já há algum tempo tenho conversado bastante com colegas em congressos e os relatos são os mesmos. Não importa a nacionalidade, as cientistas já vivenciaram – ou conhecem alguém que vivenciou – situações de assédio em eventos acadêmicos. É por isso que não podemos mais nos calar diante dessas situações. Se algo acontecer, considere a possibilidade de relatar à organização. A exposição da situação de assédio – e até mesmo do assediador – para os participantes do evento pode causar uma situação de constrangimento na comunidade acadêmica, o que talvez seja uma arma eficaz no combate a esse tipo de violência. Além disso, se uma colega vier te relatar um assédio, acredite nela e procure dá-la apoio para denunciar o agressor. Somente juntas conseguiremos tornar o ambiente menos hostil à presença das mulheres cientistas.