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O QUEEN E O FIM DO MUNDO (HAPPY ASTEROID DAY)

Um dos filmes mais marcantes na minha infância foi “Impacto Profundo”, o filme tinha tudo pra mim: um astrônomo mirim, astrofísicos, Morgan Freeman como o senhor presidente, uma astronauta mulher e um asteroide gigante em direção a Terra. Na mesma época também foi lançado o filme Armagedon com aquela trilha sonora grude do Aerosmith, a Liv Tyler divando e -novamente- um big asteroide ameaçando a vida na Terra. Não podemos dizer que não fomos alertados pelos filmes dos anos 90 dessa grande ameaça.

Brincadeiras a parte, o monitoramento de asteroide vem sendo uma das áreas que mais cresce pelo mundo. Alguns acontecimentos recentes, como da Rússia , onde várias pessoas ficaram feridas devido a queda de um objeto (https://pt.wikipedia.org/wiki/Meteoro_de_Cheliabinsk), deixou alguns governos preocupados com futuras catástrofes envolvendo esses objetos vindos do espaço.

E aí entra o Queen. Que??????????? Não bem o Queen mas o seu guitarrista, Brian May, que nas horas vagas é apenas um simples doutor em astrofísica.

Em fevereiro de 2014, o Dr. Brian May , começou a trabalhar com Grigorij Richters , o diretor de um filme intitulado 51 Degrees North , uma história fictícia de um impacto de um asteroide em Londres e da condição humana resultante . Brian compôs a música para o filme e sugeriu que Richters fizesse uma prévia do filme na Starmus , um evento organizado pelo Dr. Garik Israelian com a participação de cientistas e artistas , incluindo o Dr. Stephen Hawking, Richard Dawkins e Rick Wakeman . O resultado foi o início de discussões que levaram ao lançamento do Dia do asteroide em 2015 .

A ideia é que o “dia do asteroide” seja uma campanha global de conscientização , onde pessoas de todo o mundo se reúnem para aprender sobre asteroides e o que podemos fazer para proteger o nosso planeta de futuros impactos. O Dia do Asteroide é realizado todos os anos no dia 30 de junho, aniversário do maior impacto na história recente , o Evento de Tunguska em 1908.

O Evento de Tunguska foi a queda de um asteroide que aconteceu em uma região da Sibéria, próxima ao rio Podkamennaya Tunguska. A queda provocou uma grande explosão, devastando uma área de milhares de quilômetros quadrados.

Aparentemente, o objeto explodiu antes de chegar ao chão, o que deu margem para diversas teorias conspiratórias. Uma delas seria que o famoso cientista Tesla estaria testando o seu raio da morte, mas tudo não passa de boatos. O meteoro, que teria apenas algumas dezenas de metros, explodiu a cerca de 5 km do chão causando uma onda de ar que foi capaz de deslocar as árvores próximas, como pode ser visto na figura abaixo.

Tunguska

Figura 1: Tunguska. fonte:English Wikipedia

Mais de 1 milhão de asteroides têm o potencial de impactar a Terra, e através de todos os telescópios disponíveis em todo o mundo, descobrimos apenas cerca de um por cento. Com a criação da declaração 100X, a meta é aumentar a taxa de descoberta de asteroides a 100.000 (ou 100x) por ano nos próximos 10 anos. Segundo Brian May  “Quanto mais aprendemos sobre impactos de asteroides , mais claro fica que a raça humana tem estado a viver em tempo emprestado “.

O dia do asteroide e a Declaração de 100X são maneiras para o público a contribuir para uma tomada de consciência da vulnerabilidade da Terra e também uma jogada de marketing para trazer fundos e pessoas para as pesquisa desses objetos e suas rotas.

Então , nesse dia 30 de Junho de 2016, chame os seus amigos, comprem comidas e bebidas e vão comemorar esse dia…enquanto podem….

Mais do Doutor May pode ser visto no link abaixo :

https://www.youtube.com/watch?v=9x0POlNWGwE

Referências e maiores informações:

http://asteroidday.org/

http://simetriadegauge.blogspot.com.br/2016/06/dia-do-asteroide-um-dia-para-se-pensar.html

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Nise da Silveira: mulheres nos caminhos da Reforma

Em um tempo não muito distante, loucura já foi sinônimo de prisão. Estamos passando por um grande processo, a Reforma Psiquiátrica, que é definida pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) como o processo histórico de formulação crítica e prática que tem como objetivos e estratégias o questionamento e a elaboração de propostas de transformação do modelo clássico e do paradigma da psiquiatria.

Esse processo é amplo, contínuo e com grandes possibilidades de diferentes atuações. Teve grande impulso no contexto da redemocratização, com um olhar voltado para a crítica estrutural. Voltou-se contra a lógica manicomial, considerando o aprisionamento não como recurso terapêutico, mas sim como enlouquecedor.

Tais ideais e ações tiveram um importante respaldo da psiquiatra Nise da Silveira que, enfrentando todos os obstáculos de ser mulher e fomentar uma ideologia revolucionária, foi fundamental para concretizações na luta antimanicomial. Nise reorganizou a seção de Terapia Ocupacional no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, reinventando a prática em Saúde Mental e ressignificando os fazeres cotidianos, valorizando-os. Em um trecho de entrevista concedida à uma revista acadêmica de Psicologia, ela mesma diz: Criamos oficinas, e nas oficinas os pacientes criavam com toda a liberdade.”

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Foto de Natasha Prado, no Instituto Nise da Silveira, atual Hotel da Loucura, RJ.

Atualmente, construímos todos os dias a política de desinstitucionalização. E o que é isso? Desinstitucionalizar, é romper com o imaginário de que o hospital é o detentor do cuidado em Saúde Mental .

Em lugar disso, é proposta a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com a Portaria MS nº 3.088, de 23/12/2011. A RAPS está em consonância com a Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas e tem como missão promover a oferta qualificada de atenção integral e continua, produzir transformação nas realidades sociais, assegurar tratamentos específicos para cada demanda (equidade), em compromisso com autonomia e  garantia de direitos humanos e de cidadania, atuando no cuidado em liberdade. Esse delineamento de cuidado é valorizado pela Organização Mundial da Saúde e pela Organização Panamericana de Saúde, segundo documento recente do Ministério da Saúde.

Ainda há muito a se trilhar nesse caminho de construção de um cuidado em liberdade, voltado para a Saúde e não para a Doença. Ainda há muitas mulheres a compor essa história e a enfrentar as incessantes tentativas de olhar voltado à linguagem racional. Juntas seguiremos nesse enfrentamento e possivelmente inspiradas por palavras de Nise: “Se a própria pessoa diz que está tomada pelas imagens, por que você vai continuar buscar entendê-la exclusivamente através de uma linguagem racional? Ela não vai te entender. Se importa ela em responder: que horas são? que dia é hoje? E outras perguntas semelhantes do mundo externo valorizadas pela psiquiatria tradicional. No prontuário de Fernando Diniz, muitas vezes encontrei escrito: desorientado no tempo e espaço. Entretanto Fernando Diniz lia livros de física atômica.”

Fontes:

Tania Mara Galli Fonseca. Profanando um arquivo da infâmia: imagens da Loucura. Mnemosine Vol.11, nº2, p. 313-320 (2015).

MINISTÉRIO DA SAÚDE; Portaria MS 3088, de 23/12/2011, Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2011/prt3088_23_12_2011_rep.html

MINISTÉRIO DA SAÚDE; Relatório de Gestão 2011-2015, Saúde Mental no SUS: cuidado em liberdade, defesa de direitos e Rede de Atenção Psicossocial. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. 2015. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/junho/27/Relat–rio-Gest–o-2011-2015—.pdf

Santos LGP. Nise da Silveira- Entrevista. Psicol. cienc. prof. vol.14 no.1-3 Brasília  1994. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931994000100005

 Sugestão de Leitura:

– Arte, saúde mental e atenção pública: traços de uma cultura de cuidado na história da cidade de São Paulo. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-59702016000200431&script=sci_arttext

 Indicação de Filme:

Nise, o coração da loucura

 

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A atualidade da legalização da classe operária: conquistas e retrocessos nos direitos trabalhistas brasileiros

Após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, Michel Temer assumiu interinamente a presidência da república. E pelo que estamos testemunhando pela mídia, o processo de desmonte do direito do trabalho, que já estava em curso, vem sendo acelerado no governo interino. Sabe-se que esse processo já estava acontecendo nos governos anteriores do Partido dos Trabalhadores, não podemos, portanto, isentar os governos Dilma e Lula de críticas nesse sentido. Mas o que temos vistos nas últimas semana é que possivelmente até o final desse ano medidas extremamente precarizantes para os trabalhadores e trabalhadoras serão tomadas.

Como exemplo temos o projeto de lei da Câmara nº 30/2015, que é o projeto que pode estender a terceirização para atividades fim. Sabe-se que a terceirização piora muito as condições de vida dos trabalhadores, diminuindo salários, aumentando acidentes de trabalho, aumentando óbitos, aumentando fraudes etc. Além disso, temos ainda a proposta de fazer prevalecer o negociado sobre o legislado, que também é prejudicial para o trabalhador tendo em conta que as empresas tem maior peso na negociação. Direitos conquistados há décadas, como férias e jornada de trabalho, poderão ser negociados se esse projeto virar lei. Também temos o projeto que propõe a diminuição da idade para o trabalho infantil, dentre muitos outros.

Assim, o que podemos tirar de conclusão disso é que a história da classe operária é pendular. Ora a classe conquista diversos direitos através de pressão e greves, ora perde os direitos que tinha conquistado. A história não é simples nem linear.

 

Acredito que Bernard Edelman, em sua obra “A legalização da classe operária” pode nos dar algumas pistas do que está acontecendo com a legislação trabalhista no Brasil. Nesse livro, o autor usa o direito de greve para demonstrar como o direito aprisiona a classe trabalhadora, fazendo com que a classe apenas faça suas reivindicações dentro do “limitado horizonte do direito burguês”.

Não existe o ‘direito do trabalho’; existe um direito burguês que se ajusta ao trabalho.[1]

Nesse sentido, Edelman mostra historicamente como se deu na França a questão da greve. Primeiramente era um ato que poderia ser punido com prisão, passando para um ato tolerável e depois para um direito. Mas o que nos escapa nessa “evolução” de ato a direito é o fato de que o “direito de greve” passa a ser uma prisão. Afinal, os trabalhadores não poderão mais ser presos, literalmente, por fazerem greve, mas deverão fazer sua greve dentro dos moldes estabelecidos pelo direito da burguesia: “a greve só atinge a legalidade em certas condições [que] são as mesmas que permitem a reprodução do capital.”[2]

Assim, são proibidas, por exemplo: as greves por fora do sindicato (chamadas de greves selvagens), como a greve dos garis no Rio de Janeiro em 2014; as greves de serviços “essenciais”, sendo que os tribunais do trabalho costuma decidir que quase todas as greves são de serviços essenciais; as greves “injustas”, feitas antes de se abrir negociação; etc. O que podemos perceber é que o ato de greve foi aprisionado pelo direito burguês passando a ser um “direito” exercido em moldes muito restritos.

Imagem retirada deste site, retratando a comemoração dos garis após o ganho de suas reivindicações

E assim a classe trabalhadora foi aprisionada pelos seus próprios, supostos, avanços. Fazendo suas reivindicações dentro desse direito que não a pertence:

Não duvidemos: a astúcia do capital é dar à classe operária uma língua que não é a sua, a língua da legalidade burguesa, e é por isso que ela se exprime gaguejando, com lapsos e hiatos que às vezes rasgam o véu místico (…). Para o direito, as lutas operárias são ‘fato’ que cumpre transformar, a todo custo, em ‘direito’.[3]

Outra questão interessantíssima explorada pelo autor é o fato de que nossa sociedade aparentemente preza muito pela democracia, por votos e pela decisão da maioria… A maioria tem a razão e não se discute. Mas, quando se trata de greve, mesmo que a maioria da categoria tenha votado pela paralisação das atividades, aí a minoria deve ter sim garantido o direito de trabalhar… É uma das inúmeras contradições do capitalismo e “democracia” burguesa.

Voltando para a questão do Brasil, acredito que, como demonstrado por Edelman, estamos presos no direito burguês. E esse mesmo direito está retrocedendo em conquistas históricas da classe através desses diversos projetos de lei que irão precarizar a vida dos trabalhadores e trabalhadoras já citados. Acontece que os grandes capitalistas, e os governos atuais (já que se trata de um aparelho ideológico para impor também as ideias da burguesia), esqueceram-se que o direito do trabalho serve principalmente para “acomodação de classes”. Retirando esses direitos mínimos e básicos, a classe trabalhadora poderá perceber que está sendo roubada e buscar uma nova forma de sociedade.

A terceirização era só o começo, a política do precariado, como diz Ruy Braga, está só começando.

Não sou adepta do “quanto pior melhor” (quando pior a situação da classe trabalhadora melhores as condições para a revolução socialista), até porque sempre quem mais perde em situações de crise são as mulheres, pessoas negras e LGBTs. Mas, tentando manter um mínimo de otimismo, peço licença para encerrar com o título de um texto que me serviu de inspiração: “Tirem todos os nossos direitos, queremos a Revolução!”

[1] EDELMAN, 2016, p. 19.

[2] EDELMAN, op. cit., p. 48.

[3] EDELMAN, op. cit., p. 22.

 

Referências e bibliografia

BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

EDELMAN, B. A legalização da classe operária. Tradução de Flávio Roberto Batista, Jorge Luiz Souto Maior, Marcus Orione Gonçalves Correia e Pablo Biondi. São Paulo: Boitempo, 2016.

ROESLER, Átila da Rold. “Tirem todos os nossos direitos, queremos a Revolução!”. Disponível em: <http://justificando.com/2016/06/22/tirem-todos-os-nossos-direitos-queremos-a-revolucao/>. Acesso em 24.6.16.

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Gluten-free ou não gluten-free: eis a questão?

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Diz o ditado que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. De nutricionista então, nem se fala… todo mundo conhece ou já fez alguma “dietinha” que é infalível para os mais diferentes tipos de problema. As chamadas “dietas da moda” se tornaram ainda mais populares com as redes sociais e blogs, e normalmente se caracterizam pela restrição de um alimento ou grupos de alimentos específicos. Nos últimos anos, a dieta sem-glúten (ou gluten-free) se tornou sinônimo de alimentação saudável. Mas, como toda alimentação restritiva, é muito questionada pelos profissionais. Então, será que o gluten-free é mais saudável mesmo?

O glúten é uma proteína que está presente nos cereais trigo, aveia, centeio, cevada e malte, e em todos os seus produtos, como pães, bolos, biscoitos e macarrão. Para a maioria das pessoas, o glúten é bem metabolizado, mas para indivíduos com doença celíaca, é extremamente prejudicial. A doença celíaca é uma desordem sistêmica autoimune caracterizada pela inflamação crônica da mucosa do intestino delgado que pode resultar na atrofia das vilosidades intestinais, com consequente má absorção intestinal, e sintomas como diarreia, dor abdominal, vômitos, perda ou excesso de peso, atraso no crescimento e osteoporose. Nos últimos anos tem-se discutido a existência de uma condição chamada de sensibilidade ao glúten não celíaca, em que o indivíduo apresenta as vilosidades intestinais intactas, mas com sinais de inflamação. Entretanto, muitos pesquisadores acreditam que esta condição pode se relacionar a outros componentes alimentares, e não somente ao glúten. Para se confirmar estas condições, além da historia clinica, são necessários exames de sangue e de histologia para confirmação.

No começo deste mês, a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) publicou uma revisão e seu posicionamento sobre as dietas sem glúten para esclarecer os riscos e as indicações desse padrão alimentar. Conclusões: não existem evidências de que a dieta sem-glúten beneficie indivíduos saudáveis, podendo inclusive alterar negativamente a microbiota intestinal desses indivíduos; a dieta sem glúten pode ser saudável, desde que os alimentos processados sejam evitados e se garanta a ingestão de grãos integrais e vegetais; a sensibilidade ao glúten pode ser confundida com sensibilidade a outros itens alimentares; e a dieta sem glúten não garante por si só a perda de peso, uma vez que mesmo indivíduos celíacos com sobrepeso também apresentam dificuldade para manter o peso saudável. Trocando em miúdos: a alimentação deve ser individualizada e variada, e principalmente com o mínimo de alimentos industrializados e sem excesso de pães e massas. Na correria do dia-a-dia, facilmente substituímos um belo prato de comida por um lanchinho rápido. O indivíduo que se propõem a excluir o glúten da alimentação evita muitos alimentos processados e a base de farinha, e os substitui por mais frutas, verduras e castanhas, por exemplo. E essa mudança sim é responsável por muitos benefícios. Vale ressaltar que atualmente existem muitas opções de alimentos sem glúten (um mercado que cresceu mais de 30% nos últimos anos – os celíacos agradecem!). Entretanto as opções sem glúten podem conter mais calorias, açúcar e sódio, e devem ser consumidos com cautela e sob orientação.

Portanto, o equilíbrio deve ser a palavra chave. Dietas restritivas, a não ser quando bem indicadas, tendem a não atingir o objetivo e se tornarem difíceis de manter. Mais do que condenar um único alimento, é necessário repensar a maneira de nos alimentarmos, procurando os alimentos na sua forma mais pura e natural, ao invés de uma lista de ingredientes numa embalagem colorida.

Fontes:

http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/doenca-celiaca/

Pantaleão et al. Brazilian Society for Food and Nutrition position statement: gluten-free diet. Nutrire 2016:5. DOI: 10.1186/s41110-016-0005-y

Imagem: bbc.com

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O trágico novo recorde mundial de refugiados

Nesta segunda (20), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) lançou a última versão do seu relatório* “Tendências Globais”, indicando a existência de 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos até o final de 2015. Isso significa, segundo a ONU: “mais pessoas forçadas a se deslocar por guerras e conflitos do que a população do Reino Unido, da França ou da Itália” [1].

Quem sofre um deslocamento forçado pode solicitar uma proteção no país de acolhida com base no Estatuto do Refugiado (1951) [2] e no Protocolo Adicional (1967) [3], pelo que Estados podem reconhecer como “refugiada” toda aquela pessoa que:

“(…) temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país, ou que, se não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha sua residência habitual em conseqüência de tais acontecimentos, não pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele.” (Estatuto de 1951, Art. 1(A),2)

Atualmente, há mais de 16 milhões de refugiados, três milhões à espera (solicitantes) de refúgio e uma soma assustadora de mais de 40 milhões de deslocados internos (Op. cit., p. 2). Estes últimos são “refugiados em potencial”, caso não cessem as razões que os deslocaram, e caso encontrem os meios necessários para saírem do seu país.

Esse número é ‘trágico’ não apenas pelo que revela em termos dos “efeitos colaterais” de guerras e conflitos atuais, como também pelo que deixa de revelar. Os 117 cadáveres encontrados nas praias da Líbia no início do mês [4] podem ser só parte de uma grande  e fracassada tentativa de fuga em massa de não se sabe o quê para não se sabe onde.

Se contabilizadas apenas as tentativas de fuga pelo mar Mediterrâneo rumo à Europa, o relatório do ACNUR indica mais de um milhão de pessoas desembarcadas apenas em 2015, quatro vezes mais que no ano anterior (Op. Cit., p. 7). Desses, uma soma de 3.771 foram dados como mortos ou desaparecidos (Op. Cit., p. 32). Os riscos nesse percurso se agravaram tanto que o ACNUR criou uma página só para monitorá-lo [5].

Mais do que uma “benevolência” dos países que acolhem essas pessoas, portanto, seu aumento a cada ano deve ser visto e analisado à luz dos fatores que causaram sua fuga e eventual morte. Sendo esses fatores a guerra e os conflitos armados, o Brasil, como o quarto maior exportador de “armamentos leves” do mundo [6], deve ainda manter-se atento ao dano que suas atividades comerciais potencialmente tenham causado.

O aumento desse total, que tem impactado exponencialmente o Brasil nos últimos anos [7], deve continuar. Resta saber se lhes receberemos ou se permaneceremos entre os países que menos estende as mãos quando mais precisam [8].


Referências

*Acesse o relatório na íntegra (Inglês): www.unhcr.org/576408cd7

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Será que é possível um fungo ser capaz de tomar decisões?

Aparentemente, sim. Um estudo realizado pela Universidade de Macquarie em Sidney recentemente publicado, mostra que o bolor unicelular Physarium polycephalum é capaz de tomar decisões de maneira eficiente. Foi visto que mesmo sendo um organismo proveniente de uma única célula, ele consegue distinguir qual seria o melhor caminho para alcançar uma fonte de alimento.

Na pesquisa feita por Reid, os pesquisadores testaram a tomada de decisão do fungo em relação a duas quantidades desiguais de comida e observaram que o bolor sempre escolhia a melhor fonte de alimento.

Essa chamada “tomada de decisão” só havia sido descrita anteriormente em organismos com cérebros. Diferente de muitos estudos realizados com humanos, na pesquisa em questão não foi visto seu o fungo teria capacidade de adquirir conhecimento a partir de uma experiência passada. Dessa maneira, o que foi visto é resultado da evolução do organismo ao longo do tempo.

Mas sem um cérebro ou nada parecido, como será que o fungo consegue decidir algo ? Esse organismo possui um mecanismo que age com a função de senso motor, que pode estar sendo responsável por essa tomada de decisões. A célula é composta por pequenas subunidades e cada uma delas oscila em uma frequência que depende tanto do ambiente e das interações com outras células que podem estar ao redor, também com essa pulsação. Quando alguma subunidade sente algum atrativo, como uma fonte de alimento, ela começa a oscilar mais rápido e estimula as subunidades vizinhas a fazerem o mesmo. Dessa forma, a célula se movimenta em direção ao atrativo.

O estudo é importante para mostrar que organismos antes considerados “inferiores” por não possuírem um cérebro, talvez também tenham a capacidade tomar decisões. Além disso, as conclusões possíveis a partir dessa pesquisa, ajuda a elucidar os mecanismos ancestrais em relação a tomada de decisões, processo cognitivo e processamento de informações dentre os diversos sistemas biológicos.

 

Referência: http://rsif.royalsocietypublishing.org/…/13/119/20160030 – acessado 14 de junho de 2016.

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Impacto do zika vírus na vida das mulheres

Provavelmente trazido ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 o zika vírus só teve os seus primeiros casos reportados pelos médicos brasileiros em fevereiro de 2015. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 7.000 pacientes com sintomas característicos de zika vírus foram notificados entre fevereiro e abril de 2015, principalmente, na região Nordeste do país. Mas somente em outubro foi percebido o aumento significativo no número de crianças nascidas com microcefalia, bem como sua possível associação com a infecção por zika vírus. Em 1º de fevereiro de 2016 a OMS reconheceu a associação entre zika vírus e microcefalia como Emergência em Saúde Pública de Interesse Internacional.

As dificuldades presentes no Brasil que permitem que doenças transmitidas por mosquitos vetores continuem se espalhando se deve a falta de ações de controle adequadas e à vigilância epidemiológica deficiente. Além disso, a construção das cidades brasileiras aconteceu de forma acelerada e sem planejamento, levando a uma alta concentração de pessoas em grandes metrópoles, falta de saneamento básico e água tratada, culminando em rios poluídos que, na verdade, são esgotos a céu aberto. Além disso, no Brasil, ainda contamos com falta de informação à população. Todos esses fatores em conjunto são empecilhos para o controle dos mosquitos e inevitavelmente resultam no aumento da transmissão de doenças.

28_November_2015_AFonte: World Health Organization (WHO)

Segundo relatório da OMS publicado em 9 de maio de 2016 com atualizações sobre  zika vírus e sua associação com microcefalia, disponível aqui, são 1.551 casos confirmados de microcefalia associadas ao zika vírus no Brasil, sendo destes, 1.373 ocorridos na região Nordeste do País e os outros 178 distribuídos pelas regiões Sudeste, Norte, Centro-Oeste e Sul.  E é no Nordeste, uma das regiões mais pobres do Brasil, que a microcefalia foi percebida e ganhou destaque como importante epidemia. Doenças infecciosas transmitidas por mosquitos são mais comuns em locais pobres e negligenciados. Então, é provável que a maioria das mães que tiveram filhos com microcefalia sejam pobres ou carentes e não tenham condições de prover os cuidados e tratamentos necessários a essas crianças. O que nos leva a questionar quais serão as consequências dessa doença e qual seu impacto na vida das mulheres pobres.

É importante ressaltar que no Brasil sofremos com uma enorme desigualdade de classes sociais e, portanto, a população mais rica tem mais acesso a recursos de saúde do que a população mais pobre. Mulheres com maior poder aquisitivo realizam procedimentos obstétricos, como exames de pré-natal e fazem o acompanhamento de toda sua gravidez de forma mais prática e efetiva pelo simples fato de poderem pagar por isso. Já as mulheres pobres não conseguem realizar exames com tanta facilidade, pois além da falta de informação, ainda contam com um serviço de saúde pública precário e sucateado.

Desse modo, mulheres com maior poder aquisitivo descobrem precocemente se seus bebês possuem algum problema de saúde ainda nos primeiros meses da gravidez e podem decidir se querem abortar ou não, pois apesar de ser proibido no Brasil, o aborto é rotineiramente realizado em clínicas particulares de forma segura, o que não acontece com as mulheres pobres que acabam realizando o aborto clandestinamente, podendo acarretar sua morte. Segundo esse estudo, 1 em cada 5 mulheres brasileiras com mais de 40 anos já realizaram 1 ou mais abortos e destas 55% ficaram internadas por causa do procedimento.

A grande questão é: as mulheres devem ser obrigadas a terem filhos com microcefalia sem ter o mínimo de condições para dar o suporte que essa criança precisa?

Não obstante a todo sofrimento causado pela microcefalia toda a responsabilidade, inclusive a que cabe ao poder público, foi transferida às mulheres. Em nota oficial o governo divulgou o seguinte comunicado: “A melhor forma de evitar microcefalia é evitar engravidar”.

Se as políticas de saúde pública no Brasil não se tornarem mais efetivas e começarem a visar a real saúde da população mais carente, principalmente das mulheres, veremos um aumento na mortalidade de mulheres que realizam abortos clandestinos devido à epidemia de microcefalia. Pois a zika possui o potencial de se tornar uma doença endêmica no país, assim como a dengue, doença que causou 1,5 milhão de casos no ano de 2015.

Mais textos sobre o assunto:

http://blogs.plos.org/globalhealth/2016/02/zika-reproductive-rights-health/