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Quem está desenvolvendo os robôs do futuro?

A pesquisa dentro da Universidade Pública, ao contrário do que muita gente acredita não acontece apenas dentro de laboratórios. Os grupos de robótica são ótimos exemplo de atividades práticas de extensão ligadas à pesquisa e produção de conhecimento. O objetivo destes projetos é, geralmente, participar dos desafios propostos anualmente na Competição Brasileira de Robótica , onde os competidores devem propor e aplicar soluções em diversas áreas como controle, inteligência artificial, reconhecimento de pessoas e objetos em tarefas de resgate, serviços domésticos, campeonatos de futebol, logística e simulações.

Várias universidades reconhecem a importância das atividades práticas nos cursos de Engenharia e Computação, entre elas:

Na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), a Equipe de Desenvolvimento e Robótica Móvel (EDROM) trabalha no desenvolvimento de tecnologia para participar de competições de futebol de robôs humanoides e criados com peças LEGO a fim de popularizá-la. A equipe foi fundada há 11 anos e, desde então, tem a tradição de nomear os robôs com nomes femininos a fim de compensar a diferença de participação de mulheres nos cursos de engenharia, já tiveram a Hope, Vera, Lúcia. Atualmente, o time conta com apenas duas membras: Ísis Germiniani e Lorena Costa, que participou recentemente da RoboCup e da Petrobrás EXPO Robótica, promovido pela Petrobrás do dia 26 a 29 de novembro.

Além do contato prático com a robótica e os desafios promovidos nas competições, os alunos participam podem elaborar artigos e monografias a partir das situações e hipóteses vividas no ambiente. Um dos artigos foi a implementação de uma robô humanóide bípede caminhando, a qual teve proporções próximas ao corpo humano e os movimentos performando similares, já que pela complexidade o caminhar não pode ser integralmente copiado. Conheça mais sobre a EVA!

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Robô humanóide da Edrom. Créditos: EDROM

Conhecendo mais sobre a estabilidade do corpo humano e imitando seus movimentos, pode-se aprofundar em membros robóticos cada vez mais leves e precisos para quem precisa, ou, aprofundando tecnologias na área da medicina. Os desafios a ser enfrentados pelos grupos a conexão com a realidade, como detectar tubulações de petróleo (nas devidas proporções) que estivessem com vazamento e substituí-las por novas tubulações, além de situações extremas de resgate e manutenção envolvendo periculosidade.

Embora haja reconhecimento no trabalho dos universitários envolvidos, os grupos sempre estão fazendo campanha de financiamento coletivo para conseguirem viajar, comprar material, participar de excursões. Se você se interessou pelo trabalho deles, vale procurar um grupo de robótica e ajudar!

E você, garota, que está pesquisando sobre que área estudar ou uma faculdade, conheça sobre a importância da robótica no cotidiano e para um futuro melhor!

Referências

http://www.cbrobotica.org

http://edromufu.wixsite.com/edromufu/artigos

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Criptococose: a importância de se pensar em infecções fúngicas no ambiente hospitalar

A criptococose é uma doença fúngica causada pelo fungo Cryptococcus neoformans. Nas décadas de 1970 e 1980 era considerada rara, no entanto ganhou importância com o estabelecimento da epidemia de HIV+/AIDS nos anos 1990, e continua tendo grande relevância atualmente. O C. neoformans é uma levedura encapsulada, de distribuição ubíqua, sendo encontrado no solo e em fezes de aves, como pombos. Devido a temperatura corporal das aves, as mesmas não desenvolvem a doença, mas são as principais disseminadoras do fungo no meio ambiente.  A levedura cresce bem a 37°C, se apresentando como colônias cremosas, de coloração brancas a creme. A maioria das pessoas tem contato com o fungo ainda na infância, no entanto, em pessoas saudáveis não costuma causar doença. Em Nova Iorque, foi demonstrado que 70% das crianças de até 5 anos possuem anticorpos contra o C. neoformans,mostrando que já tiveram contato com o mesmo.

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O fungo é considerado um patógeno oportunista pois causa doença, principalmente, em pacientes imunossuprimidos ou imunodeprimidos. Pacientes que apresentam algum tipo de deficiência imune são mais suscetíveis a infecções, inclusive doenças causadas por fungos que estão amplamente distribuídos no nosso ambiente. A criptococose acomete estes pacientes debilitados, como pacientes que passaram por transplante de órgãos sólidos e em uso de imunossupressores, pacientes em tratamento prolongado com corticosteróides fortes, e, na maioria dos casos, pacientes com HIV. A criptococose é responsável pela morte de cerca de 15% de todos os pacientes com HIV+/AIDS, sendo uma das principais causas de morte entre esses pacientes. Por ano são registrados no mundo todo cerca de 1 milhão de casos de criptococose, sendo 90% destes relacionados ao HIV.

A criptococose apresenta três formas de manifestações: pulmonar, disseminada e neurológica. A criptococose pulmonar se apresenta, na maioria dos casos, com tosse prolongada com expectoração mucóide, febre e dor no peito. Os achados radiológicos podem ser inespecíficos ou ocasionais. O primeiro sítio de infecção são os pulmões, pois os basidiosporos (forma infectante) são inalados e se instalam nos alvéolos. A tendência é a formação de granulomas (um conjunto de células imunes que tenta conter o foco da infecção formando um nódulo), e devido à imunidade deficiente do paciente, é comum a sua disseminação. A criptococose disseminada é caracterizada pelo isolamento do fungo em mais de um sítio anatômico além dos pulmões e pode afetar qualquer órgão. Os sintomas são inespecíficos e dependem do órgão afetado. O C. neoformans já foi encontrado na medula, nos ossos e articulações, pele, baço e olhos, entre outros órgãos. A disseminação significa que o foco da infecção não pode ser contido nos pulmões e o fungo ganhou a circulação, em uma via que chamamos de disseminação “hematogênica”, ou seja, pelo sangue. Isso permite também que o fungo chegue ao sistema nervoso central.

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Vias de transmissão da criptococose. Imagem disponível no Portal do Ministério da Saúde (http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/criptococose)

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Imagem de biópsia de tecido pulmonar, mostrando granuloma com C. neoformans no centro do mesmo (células com halo branco). O fungo foi coberto por células inflamatórias na tentativa de conter a infecção. Imagem disponível em http://www.human,path.com

A criptococose neurológica se manifesta como a meningite criptocócica ou meningite fúngica, doença de alta letalidade (de 30 a 70% dos pacientes vão a óbito). A doença já foi considerada incurável, com a melhora do diagnóstico e do tratamento, essa taxa diminui. Atualmente, considera-se a taxa de mortalidade da meningite criptocócica de até 30% em países desenvolvidos e de até 70% em países em desenvolvimento. No Brasil, a meningite criptocócica mata entre 40 e 50% dos pacientes diagnosticados.

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Imagens de alterações na Tomografia de paciente com meningite criptococócica e demonstração da presença do fungo no LCR, confirmando diagnóstico. Imagem disponível em https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/541

O C. neoformans circulante no sangue consegue atravessar a barreira-hematoencefálica, através de um mecanismo conhecido como cavalo-de-tróia. Isso porque os macrófagos e outros leucócitos conseguem fagocitar as leveduras, no entanto, elas conseguem permanecer viáveis dentro dos leucócitos, devido a mecanismos de virulência desenvolvidos pelo fungo, como a presença de cápsula polissacarídica. Os macrófagos atravessam a barreira-hematoencefálica e carregam o fungo para dentro do sistema nervoso central. Os sintomas da meningite fúngica mais frequentes são a dor de cabeça e desorientação do paciente.

O prognóstico do paciente depende grandemente da rapidez da administração da terapia antifúngica adequada, por isso é muito importante a rapidez no diagnóstico. Devido à alta incidência de criptococose em pacientes HIV+, todo paciente que apresentar sintomas neurológicos deve ser feito rastreio para a doença. Além disso, em pacientes com contagem de células CD4+ <200 células/mm3 deve ser feito o rastreio para a doença, mesmo na ausência de sintomas. Em pacientes com <100 células/mm3 deve se administrar profilaticamente fluconazol (antifúngico utilizado no tratamento de criptococose).

O diagnóstico torna-se fácil devido a grande quantidade de células presentes na infecção, principalmente, no sistema nervoso central. Para o diagnóstico são aliados sintomas clínicos, testes imunológicos, a microscopia e cultura do fungo. O exame direto do líquor apresenta boa sensibilidade e alta especificidade. Para a visualização no microscópio é utilizada tinta da China, também conhecida como nanquim. A presença da cápsula no fungo repele a tinta, de forma que é visualizado em fundo preto a roxo, as leveduras com halo branco. Esse achado no líquor é característico da meningite criptocócica. Além da microscopia, é bastante utilizado o teste do antígeno criptocócico em látex. Uma prova imunológica que permite a visualização de grumos no soro, líquor ou outra amostra na qual esteja presente o Cryptococcus. O antígeno detectado pela prova do látex está presente na cápsula do fungo. O teste confirmatório é o crescimento em meios de cultivos do fungo, mas esse é mais lento e por isso, dificilmente se espera pelos resultados do cultivo para o início da terapia ou manejo do paciente.

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Imagem do fungo C. Neoformans  em microscopia com Tinta nanquim, evidenciando a presença da cápsula. Imagem disponível em: https://educalingo.com/pt/dic-en/cryptococcus

Segundo a Organização Mundial de Saúde deve-se utilizar uma combinação de antifúngicos no tratamento da criptococose. O tratamento é dividido em três fases: indução, consolidação e manutenção, sendo que o objetivo da terapia é a rápida eliminação dos fungos circulantes. Na fase de indução não é recomendada a monoterapia, já que alguns isolados podem apresentar resistência e causar a falha terapêutica. É recomendado o uso de anfotericina B com ou sem flucitosina juntamente com fluconazol, e nas demais etapas utilizar diferentes doses de fluconazol. A flucitosina é um antifúngico com alta eficácia em sinergia com anfotericina B, no entanto, este fármaco não está disponível em todo o mundo devido ao seu alto custo. No Brasil, é utilizada a associação de anfotericina B e fluconazol como tratamento da criptococose. O paciente deve ser acompanhado com observação de melhora ou piora clínica e exames laboratoriais, com atenção ao risco de nefrotoxicidade associado ao uso da anfotericina B. A prova do látex para o antígeno criptocócico permite o acompanhamento do tratamento, pois é esperada uma diminuição progressiva dos títulos iniciais.

Com a epidemia de HIV+ e a melhora do prognóstico dos pacientes com AIDS, temos que abrir nossos olhos para outros patógenos que anteriormente poderiam passar despercebidos. Além disso, a criptococose pode ser a doença que leva a descoberta do HIV+, fazendo um raciocínio inverso, já que essa doença é muito rara em imunocompetentes. A meningite criptocócica possui ainda uma grande taxa de letalidade, mas um diagnóstico e terapia precoce são determinantes para o prognóstico do paciente. Por isso, é preciso conhecer o patógeno, suas principais manifestações e formas diagnósticas. A suspeita clínica é muito importante em todo o manejo posterior do paciente, por isso é cada vez mais importante incluir nas nossas dúvidas e buscas as doenças fúngicas, como a criptococose.

Recomendações da WHO:

WORLD HEALTH ORGANIZATION. GUIDELINES FOR THE DIAGNOSIS, PREVENTION AND MANAGEMENT OF CRYPTOCOCCAL DISEASE IN HIV-INFECTED ADULTS, ADOLESCENTS AND CHILDREN. March, 2018.

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Conselhos para as jovens em tempos de “pós” – feminismo

Todos os dias, entre as enxurradas de opiniões compartilhadas contra os diversos movimentos feministas nas redes sociais, é frequente nos depararmos com aqueles que se colocam como mais “moderados” argumentando que o feminismo foi, sim, algo necessário em um determinado momento histórico, mas que hoje não serve para mais nada: afinal, as mulheres já votam, já trabalham, já tomam pílula, já têm os mesmos direitos que os homens, não é verdade?

Como mais um esforço para mostrar o contrário, para evidenciar o fato de que a nossa sociedade está muito longe de ter igualdade total de gênero e que o feminismo continua extremamente necessário, hoje falamos da pesquisa de mestrado defendida, em agosto de 2017, por Bruna Ximenes Corazza, na área de Linguística Aplicada da UNICAMP. O seu estudo foi baseado em uma comparação entre os conselhos dados às jovens leitoras em  duas revistas brasileiras: os artigos e colunas da revista feminina Jornal das Moças, da década de 1950, e as matérias voltadas às adolescentes dos anos 2000 na revista Capricho, uma das mais populares de seu segmento. A sua conclusão? Muito mudou em cinquenta anos, mas as duas revistas apresentaram fórmulas muito parecidas de prescrição de comportamentos adequados para suas leitoras. Uma análise mais profunda dos conselhos indicou, ainda, que o ideal de feminilidade pregado por essas duas revistas não apresentou significativas alterações.

capas

Capas da revista Jornal das Moças (setembro de 1956) e Capricho (março de 2000). Fonte: CORAZZA, Bruna X. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Unicamp: 2017, pp.43 e 46)

À primeira vista, as diferenças podem parecer grandes. O Jornal das Moças, por exemplo, estava muito preocupado em ensinar às jovens o comportamento adequado para se conquistar um marido e realizar seu objetivo principal: ser mãe. Uma mulher, por exemplo, deveria manter sua aparência bem cuidada para despertar o interesse masculino, realçando seu corpo feminino, mas nunca colocando em risco seu “ar de respeito”. Corazza relaciona esse discurso à moda da época, que realçava a figura da “ampulheta” do corpo da mulher, como na criação da “Linha Corola” ou “New Look” de Christian Dior, cuja barra da saia deveria estar a exatos 40 cm do chão – uma maneira de sensualizar parte da perna sem perder aquele “respeito”.

Dior

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op.cit., p.20

A Capricho, por outro lado, não trazia nenhum tipo de conselho que assumisse como “natural” aqueles papeis sociais destinados às mulheres pelo Jornal das Moças (esposa e mãe), mas também apresentava um silêncio perturbador sobre recomendações para a vida profissional futura das suas jovens leitoras. Isso é ainda mais significativo se tomarmos o público-alvo da Capricho nos anos 2000, as adolescentes entre 15 e 19 anos, jovens em fase de começar a pensar em carreira, em universidades, em vestibular, etc.

Há ainda mais: a Capricho vendia o slogan “Seja diferente, seja você” como forma de se contrapor à ideia de que todas as adolescentes eram iguais, supostamente valorizando a diferença e a autenticidade. Contudo, seu discurso, nas colunas analisadas, indicava que essa valorização do diferente era parcial e contraditória. Em uma reportagem sobre a música Punk feita por mulheres, por exemplo, a revista colocava garotas feministas como “encrenqueiras” e implicantes, usando a expressão “anti-chapinha”. Nessa mesma reportagem, a revista se referia à cantora Avril Lavigne, que fez grande sucesso nessa década, como a “princesinha do Pop Punk” (Corazza, 2017, p.94).

Corazza observou, também, que a Capricho promovia um “engajamento fabricado pela indústria de consumo, com uma roupagem de liberdade e conquista pessoal” (idem, p.95). A “escolha” do que comprar de acordo com o seu “estilo” criava uma falsa sensação de liberdade: as jovens se sentiam empoderadas ao consumir, acreditando estarem “sendo diferentes”. No entanto, elas também não poderiam ser “elas mesmas”. Na transcrição a seguir, sobre como agir em uma paquera por mensagens de texto via celular, vemos como isso fica claro:

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Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.96

Corazza chama a atenção para o item 4, cuja orientação não é no sentido de que a jovem seja ela mesma, mas no de que ela demonstre uma autenticidade planejada, construída, ou seja, falsa. Nas palavras da autora, “não se trata de ser autêntica, mas de agir como se fosse” (idem, p.96). Além disso, vemos o reforço de um ideal de beleza que, da mesma forma como nos anos 1950, não permite a aparência real. Nos anos 2000, contudo, ao invés da aparência ampulheta planejada nos últimos detalhes, as meninas precisavam dominar o “desarrumado arrumado”, já que, como é anunciado em uma das capas da Capricho, os meninos não gostam de meninas que usam muita maquiagem.

A Capricho também apresentava, com muita frequência, artigos sobre boa forma e como emagrecer, reforçando os discursos de gordofobia para um público-alvo extremamente sensível a esse tipo de questão. Na tabela abaixo, Corazza elenca alguns exemplos:

tabela 9

Fonte: CORAZZA, Bruna X., op. cit., p.97

Para as adolescentes, a mensagem estava clara: seja você, seja diferente, mas não seja gorda, não seja muito produzida, não seja tão diferente, não seja feminista, não seja… Isso pode até não ser o mesmo discurso do Jornal das Moças, que insistia “seja esposa e mãe”, mas não significa, de jeito nenhum, que uma revista produzida na sociedade teoricamente “pós-feminismo” dos anos 2000 deixou de controlar o que significava ser adolescente, jovem e mulher. Para nós, que temos filhas, irmãs ou primas mais novas, a pesquisa de Corazza levanta uma questão muito importante: a quais tipos de discursos sobre feminilidade estamos expondo as novas gerações, sem nem sequer percebermos?

Referência:

CORAZZA, Bruna Ximenes. Se Conselho Fosse Bom… Produções de Feminilidade no Jornal das Moças e na Capricho. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 2017.

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Somo todos carnívoros? Ou somos todos vegetarianos?

É cada vez mais constante em nossas vida a discussão do que devemos ou não comer. Sugestões de dietas estão por todas as partes, jornal, novela, Twitter, Reddit, na roda do cafezinho do trabalho. Contudo, a motivação que nos leva a essa curiosidade é diferente para cada grupo de pessoas; pode ser a busca por um estilo de vida saudável, pode ser consciência ambiental, solidarização com os animais, guerra contra a indústria alimentícia, moda, intenção de emagrecer ou mesmo a combinação destes e outros fatores.

Uma coisa bastante comum entre os discursos sobre dieta, é afirmar que a “sua” dieta é a correta porque é aquela para qual o nosso corpo é biologicamente preparado para lidar.

Mas o nosso corpo evoluiu para comer o quê?

 

 

woman carrying basket of fruits and vegetables

Foto por rawpixel.com em Pexels.com

A questão pode parecer simples inicialmente. Não possuímos características anatômicas de carnívoros – nossos dentes não são ótimos para rasgar a carne como de onças, nossos intestinos são muito longos; mas também não possuímos os dentes de herbívoros ou um intestino tão longo quanto o deles. Isso parece nos dizer que somos onívoros, que significa que comemos de tudo, seja conteúdo vegetal ou animal. Contudo, muitas vezes essas relações entre anatomia e dieta não são tão claras, por exemplo o panda: ele possui caninos que poderiam te levar a concluir que é um carnívoro, mas ele come exclusivamente bambu.

 

Como anatomicamente somos parecidos com outros macacos poderíamos olhar na dieta deles para termos uma ideia do que seria nossa dieta “natural”. E assim, poderíamos concluir que comemos frutas, folhas, nozes, insetos e ocasionalmente carne. Outra forma de acessar o que evoluímos para comer, seria olhar para as dietas das populações humana que não reproduzem o sistema social das populações contemporânea-ocidentais. E verificaríamos que em sua maioria, não possui carne como base da alimentação

Então, somo predominantemente vegetarianos?

 

Também não. Um recente estudo publicado na Nature (pelos biólogos Katherine Zink e Daniel Lieberman da Universidade de Harvard), traz mais evidências à velha teoria do órgão caro; dois órgãos que são energeticamente muito custosos são o intestino e o cérebro. Herbívoros precisam de longos intestinos – onde vivem bactérias, para conseguir digerir as complexas células vegetais. Como nossos antepassados tinham uma dieta com base em alimentos de origem vegetal, precisamos de um intestino longo (lembra que mencionei que é mais longo que de um carnívoro?), mas ser capaz de acessar essa fonte extra de energia e proteína fornecida pela carne permitiu que nosso cérebro evoluísse. Ao mesmo tempo que economizamos em não ter um intestino maior ainda, também alocamos energia para o cérebro. Isso foi cerca de 2,6 milhões de anos atrás.

Mas não poderíamos apenas comer mais frutas, verduras, raízes (poxa todo mundo sabe que batata tem muita energia!)? Matematicamente falando, sim. Bastaria comer mais das fontes vegetais, contudo precisaríamos de muito tempo comendo para conseguir o necessário para liberar energia usada na evolução do nosso cérebro. Ainda mais se nossos ancestrais estivessem se alimentando de alimentos crus (o processo de cocção, não apenas ajuda na mastigação fazendo com que você consiga comer mais em menos tempo, mas também na digestão dos nutrientes, contudo, apenas dominamos esses processo 500 mil anos atrás). De acordo com Katherine e Daniel, para que nossos antepassados conseguissem energia suficiente apenas de fontes vegetais eles teriam que mastigar até 15 milhões de vezes em um ano. Isso porque no experimento conduzido por eles, foi utilizado raízes que são mais calóricas que outros alimentos vegetais. (Uma mandioca é mais calórica que um alface ou uma maçã). No experimento eles alimentaram um grupo de voluntários com raízes e outro grupo com carne, e utilizando eletrodos mediram quantas vezes cada grupo precisava mastigar e quanta energia gastavam para ingerir a mesma quantidade calórica.

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Foto por Pixabay em Pexels.com

Nada disso, claro, significa que o consumo de carne aumentou tanto nos humanos contemporâneos. Clique aqui se você quiser acessar a média do consumo de carne por país. O paladar tem um papel fundamental aqui. Assim como o acesso a carne, mas isso já é assunto para uma próxima conversa.

 

Apenas gostaria de terminar dizendo, que não é porque a proteína da carne foi fundamental para a nossa evolução que nossa dieta não pode mudar. Como dito neste outro texto, não paramos de evoluir e há adaptações recentes a dietas como consumo de leite. Além disso, hoje o acesso a alimentos (infelizmente não para todos) é fácil, permitindo que você tenha acesso a outras recursos calóricos e ricos em proteína que não tenha origem animal, e claro, você também pode cozinhar.

 

Considerando nossa crise ambiental, discutir nossa dieta pensando na nossa saúde e na saúde do nosso planeta é uma questão urgente.

 

PARA LER MAIS:

 

Zink, K. D. & Lieberman, D. E. (2016). Impact of meat and lower Palaelithic food processing techniques on chewing in humans. Nature, 531, 500-503

https://www.nationalgeographic.com/foodfeatures/evolution-of-diet/

Fotos de domínio livre a serem usadas (pizabay):

 

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Introdução a Computação Quântica

Uma máquina quântica é um tipo de computador que usa a mecânica quântica para o processamento de informações, o que faz com mais eficiência do que uma máquina normal.

O segredo do poder de um computador quântico reside na sua capacidade de gerar e manipular bits quânticos ou qubits.

A Computação Quântica foi iniciada no início dos anos 80, quando Richard Feynman e Yuri Manin expressaram a ideia de que um computador quântico tinha o potencial de simular coisas que um computador clássico não podia. Em 1994, Peter Shor apresentou um algoritmo quântico (um algoritmo para rodar em máquinas quânticas) que tinha o potencial de descriptografar todas as comunicações seguras, o chamado Algoritmo de Shor.

Créditos: Mehau Kulyk Getty Images

Um computador clássico tem uma memória composta de bits, onde cada bit é representado por um ou zero.

Os computadores quânticos, por outro lado, usam qubits, que são tipicamente partículas subatômicas, como elétrons ou fótons. Enquanto o bit só pode ter o valor 1 ou o valor 0, o qubit pode conter os dois valores 1, 0 ou 1 e 0. Para colocar os qubits em superposição, os pesquisadores os manipulam usando lasers de precisão ou feixes de microondas.

Uma máquina quântica com vários qubits em superposição pode processar um vasto número de resultados potenciais simultaneamente. O resultado final de um cálculo surge apenas quando os qubits são medidos, o que imediatamente faz com que seu estado quântico “colapse” para 1 ou 0.

Os pesquisadores podem gerar pares de qubits que estão “emaranhados”, o que significa que os dois membros de um par existem em um único estado quântico. Alterar o estado de um dos qubits mudará instantaneamente o estado do outro de uma maneira previsível. Isso acontece mesmo se eles estiverem separados por grandes distâncias.

Em um computador convencional, dobrar o número de bits dobra sua capacidade de processamento. Mas, devido ao emaranhamento, a adição de qubits extras a uma máquina quântica produz um aumento exponencial em sua capacidade de processamento de números.

Gerar e gerenciar qubits é um dos desafios dentro desse campo. Algumas empresas usam circuitos supercondutores outras prendem átomos individuais em campos eletromagnéticos em um chip de silício em câmaras de vácuo. Em ambos os casos, o objetivo é isolar os qubits em um estado quântico controlado.

Aplicações como, por exemplo, na criptografia demonstra seu potencial de utilização. Normalmente, para um computador comum quebrar uma criptografia irá necessitar de alguns milhares de anos. Porem, para computadores quânticos, este problema seria resolvido em questões de segundos (mais sobre criptografia pode ser encontrado nesse texto).

Diversas universidades e empresas espalhadas pelo mundo concentram esforços para a criação de uma máquina quântica mas até o momento apenas alguns elementros, como portas lógicas, foram desenvolvidos.

No Brasil, há núcleos de pesquisa em universidades públicas do Rio de Janeiro e Paraíba. Há também um grupo de pesquisadores no LNCC(Laboratório Nacional de Computação Científica) dedicado exclusivamente para as pesquisas na área quântica da computação. Segundos estes pesquisadores, a área de hardware quântico no Brasil trabalha com protótipos, mas cooperam principalmente com os grandes grupos internacionais de pesquisas.

Pra saber mais e algumas referências: 

[1] https://www.technologyreview.com/s/612844/what-is-quantum-computing/

[2] https://canaltech.com.br/hardware/O-que-e-computacao-quantica/

[3] https://olhardigital.com.br/noticia/computacao-quantica-entenda-o-que-e-e-veja-os-processadores/51722

[4] The National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine (2019). Grumbling, Emily; Horowitz, Mark, eds. Quantum Computing : Progress and Prospects (2018).

[5] Feynman, Richard (June 1982). “Simulating Physics with Computers” . International Journal of Theoretical Physics. [6] Mermin, David (March 28, 2006). “Breaking RSA Encryption with a Quantum Computer: shor’s FactoringAlgorithm” . Cornell University, Physics 481-681 Lecture Notes.

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Cancro da mama: É urgente criar uma “onda rosa” nas ciências sociais!

Existem inúmeras mulheres diagnosticadas com cancro de mama que se submeteram a uma mastectomia bilateral e que se recusaram a qualquer reconstrução cirúrgica ou a utilizar próteses mamárias. Isto deve, forçosamente, conduzir-nos, nas ciências sociais, a uma reflexão sobre esta doença e as suas consequências, que ultrapassam as questões ligadas à saúde física. Ora, vejamos, apesar da narrativa dominante ser a da normalidade da reconstrução cirúrgica após uma mastectomia, levando-nos a crer que a reconstrução é a norma – seguindo um padrão de beleza normativo de género estereotipado -, um estudo de 2014, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova Iorque, revelou que 58% das mulheres submetidas a uma mastectomia optam por não fazerem reconstrução cirúrgica, apresentando como principais razões: o desejo de evitar uma cirurgia adicional, o medo de implantes mamários e a sensação de que a reconstrução não era importante. Tendo em conta o facto de que a sociedade actual vive obcecada com a juventude e a beleza, qualquer sinal de doença é para esconder, principalmente quando a doença implica a eliminação de indicadores externos de género.

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Pormenor de “Woman Arranging Her Hair”, de Auguste Renoir (1841-1919), foto de Helena Ferreira, no Hermitage de São Petersburgo

O cancro de mama é o tipo de cancro mais comum nas mulheres, em todo o mundo (Cordero et al, 2014). Para além de agredir o corpo físico, ele tem um elevado impacto na imagem corporal, o que gera amplas consequências nas questões de identidade (Carpenter et al, 1999, Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005) e na auto-estima (Fang et al, 2014, Takahashi e Kai, 2005). Sobreviventes de cancro podem querer restaurar identidades anteriormente mantidas, desenvolver novas identidades, ou aprender a misturar tudo de forma satisfatória. As mulheres expressam ansiedade acerca da potencial perda de atractividade sexual e da perda de seus companheiros (Santos et al, 2014). Como bem se sabe, a identidade das mulheres tem como base a sua “beleza” física estereotipada, por isso, elas costumam ser vulneráveis à aprovação externa, fazendo com que o seu amor próprio fique exposto a todos e a todas. Ressalve-se que o mito da beleza feminina não tem absolutamente nada a ver com uma suposta essencialidade natural das mulheres, mas sim com construções sociais ligadas às instituições masculinas e ao poder institucional dos homens (Wolf, 1992).

Em nossa sociedade, “o peito, a casa do coração, é um centro importante da pessoa, como ser” (Young , 2005, p.75). Quando falamos de nós mesmos, apontamos para o peito, não para o nosso rosto. No caso das mulheres, quando colocamos as mãos sobre o coração, colocamo-las entre as mamas: elas estão entrelaçadas com o senso que temos de nós mesmas. Para a grande maioria das mulheres, as mamas são um importante componente da imagem que temos de nós próprias e do nosso corpo. Para nós (e para os outros), as mamas são o maior significante visível da nossa feminilidade (Fang et al, 2010; Sischo et al, 2015; Young, 2005), que é maior ou menor conforme o tamanho e a forma dos nossos seios (Young, 2005).

Para Young (2005), as mamas são um objecto fetichizado comparáveis a um falo, porque este é a medida e único símbolo do desejo e da sexualidade. A cultura machista constrói as mamas como objectos, pelo que estas, como símbolo da sexualidade feminina, devem ser como o ideal de falo: grandes, duros e erectos. A mulher experiencia esta objectificação em função do olhar do macho, ou seja, o corpo feminino é para ser visto, julgado e avaliado pelos homens. Mais do que isso, as mamas de uma mulher não lhe pertencem, são pertença do marido, do amante ou do bebé. Segundo Young (2005), as mamas, sem o olhar masculino, são como qualquer outra parte do corpo. As mamas também estão associadas à maternidade – que como é evidente nas mentes do patriarcado – se opõe à sexualidade. Essa dicotomia maternidade/sexualidade conduz a outras dicotomias que jogam com a repressão do próprio corpo: bom/mau, puro/impuro, amor espiritual/amor carnal. Aliás, é por esse mesmo motivo de se encontrarem na fronteira entre a maternidade e a sexualidade que as mamas são um escândalo quando surgem à vista, tanto no mundo real, quanto virtual. Os mamilos são tabu, porque deixam o patriarcado confuso: os homens não sabem se os devem colocar na “gaveta” da maternidade ou da sexualidade. Se os colocam na primeira, associam-nos à pureza e devem estar tapados. Se os colocam na segunda, a associação é à obscenidade e devem continuar tapados.

Voltando à reconstrução mamária, as mulheres sabem que tanto a prótese como a cirurgia de reconstrução servem para esconder e negar a suposta perda da feminilidade, criando a sensação diária que voltam a estar no mundo com mamas. Tanto a prótese, como a reconstrução dão primazia à aparência e à reconstituição visual de um corpo de mulher, que tem por obrigação proteger os outros da sua deformidade e, acima de tudo, proteger a si mesma dos olhares de repugnância. Ou seja, existe a cultura de escravizar a mulher a esforçar-se para surgir com o corpo que consideram “normal” após a perda de uma ou das duas mamas (Young, 2005). Isto torna impossível que as mulheres que perderam as mamas aceitem o seu novo corpo e torna a experiência das mulheres completamente invisível, não só para as que não querem pensar sobre o cancro e perda das mamas, mas também para as que o viveram. Tendo em conta, a assustadora frequência do cancro de mama, essa primazia da “normalização” do corpo, silencia e isola inúmeras mulheres. Não se oferece às mulheres a oportunidade de transformar a sua identidade corporal numa mulher sem mamas e a amar-se com esse corpo. Inclusive, estudos revelam que mesmo as mulheres que insistem em que as decisões sobre as suas mamas são apenas delas apresentam, regularmente, noções, valores e expectativas da sociedade (Sischo & Martin, 2015). Na interacção social, ao longo da vida, os indivíduos aprendem o que se espera deles e agem segundo essas expectativas, construindo e, ao mesmo tempo, mantendo o status quo da “normalidade”.

A construção de género ocorre através de rotas discursivas: para ser boa mãe, para ser um heterossexual desejável, para ser uma boa trabalhadora, para ter um corpo perfeito, ou seja, dar múltiplas garantias para responder a uma variedade de requisitos ao mesmo tempo (Butler, 1990). Em todas as suas experiências, os seres humanos constroem o seu género comportando-se como aprendem e é apropriado ou resistindo e rebelando-se contra as normas. Os sujeitos não são livres para se distanciar ou elidir as normas, porque elas constituem o sujeito de maneira retroactiva, mediante a sua repetição. Sendo assim, o sujeito é o efeito dessa repetição. “Ao que poderíamos chamar de ‘capacidade de actuação’, ‘liberdade’, ou ‘possibilidade’ é sempre uma prerrogativa política produzida pelas brechas que se abrem nessas normas reguladoras” (Butler, 1990). Ou seja, a capacidade de actuação, a liberdade e a possibilidade estabelecem-se sempre dentro de uma matriz de relações de poder. Os actos performativos reiteram ou repetem as normas anteriores pelas quais nos constituímos, repetindo-as obrigatoriamente sem as poder descartar por vontade própria. Essas normas que confirmam e delimitam os indivíduos são também os meios através dos quais se cria a resistência e a subversão. A norma pode aumentar a sua hegemonia mediante a sua desnaturalização. Mas, em circunstâncias em que nos podiam aniquilar, converte-se num espaço de resistência, na possibilidade de uma importância social e política efectiva.

É esse o papel das Ciências Sociais: demonstrar, através do debate, que a alteração dos corpos, representa a transgressão de uma norma, que gera uma ordem de valores alternativos. Valores esses que são bem mais importantes que os que existiam, porque têm em conta apenas as expectativas de cada um dos novos corpos sem mamas. Desconstruir os padrões de beleza femininos criados pelo patriarcado e destruir os tabus que existem relativamente às mamas e aos mamilos femininos é também uma tarefa da Psicologia, da Sociologia, dos Estudos de Género, dos Estudos sobre as mulheres, dos Estudos Culturais… Em suma, das Ciências Sociais, seja na “onda rosa” dos meses de Outubro, ou em outros momentos, desde que se abra à comunidade e se “parta a pedra toda”.

Butler, J. (1990). Gender trouble and the subversion of identity. New York: Routledge.

Carpenter J.S., Brockopp D.Y. & Andrykowski M.A. (1999). Selftransformation as a factor in the self-esteem and well-being of breast cancer survivors. Journal of Advanced Nursing, 29, 1402– 1411.

Cordero, M.J.A., Sanchéz, M.N., Villar, N.M., Valverde, E.G., e López, A.M.S. (2014). Percepción de la imagen corporal de la mujer intervenida de cáncer de mama y residente en la ciudad de Granada. Revista Española de Nutrición Comunitaria, 20 (1), 2-6.

Fang, S. Y., Chang, H. T. & Shu, B.C. (2014). Objectified Body Consciousness, Body Image Discomfort, and Depressive Symptoms Among Breast Cancer Survivors in Taiwan, Psychology of Women Quarterly, 1-12.

Santos, D.B., Ford, N.J., Santos, M.A. & Vieira, E.M. (2014). Breast cancer and sexuality: the impacts of breast cancer treatment on the sex lives of women in Brazil. Culture, Health & Sexuality: An International Journal for Research, Intervention and Care, Vol. 16 (3), 246-257.

Sischo, L & Martin, P.Y. (2015). The Price of Femininity or Just Pleasing Myself? Justifying Breast Surgery. Gend. Issues, 32, 77–96.

Takahashi, M. & Kai, I. (2005). Sexuality after breast cancer treatment: Changes and coping strategies among Japanese survivors. Social Science & Medicine, Vol. 61 (6), 1278-1290. Culture, Health & Sexuality, Vol. 16 (3), 246-257.

Wolf, N. (1992). 0 Mito da Beleza, Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco

Young, I. M. (2005). On Female Body Experience, Throwing Like a Girl and Other Essays. Oxford: Oxford University Press, Inc.

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8Março2019: Dia histórico em Portugal!

Um dia histórico e emocionante – será assim que o dia 8 de Março de 2019 será lembrado, por muitas das mulheres que o viveram em Portugal. Neste dia que assinala o Dia Internacional da Mulher estavam marcadas manifestações em 13 cidades (Albufeira, Amarante, Aveiro, Braga, Coimbra, Covilhã, Chaves, Fundão, Lisboa, Ponta Delgada, Porto, Vila Real e Viseu) para reivindicar igualdade de direitos e para protestar contra as violências praticadas contra as mulheres, num ano que se iniciou particularmente trágico, porque em dois meses foram assassinadas 12 mulheres, pelos seus companheiros [1].

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Porto, foto de Helena Ferreira 

Estava, também, marcada uma greve feminista inédita, em solidariedade com a greve internacional, que se concretiza com bastante sucesso, pelo terceiro ano consecutivo, em países como Espanha, Argentina e Itália. Andrea Peniche, de “A Coletiva” e da “Rede 8 de Março”, explica que esta “não é uma greve como as outras, é uma greve social, que coloca no centro a realidade da vida das mulheres, para perceber o significado do conceito “trabalho”” e “que se organiza em quatro eixos fundamentais: greve ao trabalho assalariado, greve ao trabalho doméstico e dos cuidados, greve ao consumo e greve estudantil” e explica, por miúdos, que neste país ainda: 1. enfrentamos uma justiça machista, que culpa as vítimas e desculpabiliza os agressores; 2. trabalhamos 58 dias sem receber, porque os nossos salários são mais baixos do que os dos homens quase 16%; 3. somos o principal rosto da pobreza; 4. não temos direito a lazer, porque acumulamos o trabalho assalariado com o trabalho doméstico e dos cuidados; 5. trabalhamos mais duas horas diárias que eles nestas tarefas, ou seja, dedicamos-lhe 4h30 por dia; 5. e continuamos a ser objectificadas, mercadorizadas e invisibilizadas. Por tudo isto “não queremos flores, queremos direitos” [2].

 

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Lisboa, foto de Bruno Góis 

É ainda Andrea Peniche que salienta que o movimento sindical foi desafiado a juntar-se a esta greve, mas houve apenas cinco pré-avisos: do Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal (Sieap), do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), do Sindicato dos Trabalhadores de Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSS), do Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC ) e do Sindicato de todos os Professores (STOP) —, permitindo que só as mulheres (e homens, se o desejassem) que trabalham nestas diferentes áreas pudessem parar de trabalhar legalmente.

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Coimbra, foto de Daniel Sansão 

Patrícia Martins, também da “Coletiva” e da “Rede 8 de Março” e uma das maiores dinamizadoras do movimento [3], a nível nacional, que coloca na ordem do dia os problemas da desigualdade e da violência contra as mulheres e exige respostas, salienta que “muitas mais mulheres gostariam de ter feito greve, mas não lhes foi possível. Espera-se que para o ano o dia seja de greve geral”.

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Em Vila Real, foto de Gil Rego

Quanto ao facto deste dia 8 ficar na história como o que uniu milhares de pessoas (20 000 em Lisboa, 7 000 no Porto, 500 em Braga, e as restantes pelas outras localidades), principalmente mulheres, nas lutas feministas revela que “este é o resultado de um processo de mobilizações feministas que têm acontecido no Porto, nos últimos dois anos, desde a Marcha das Mulheres, como as concentrações em frente ao Tribunal da Relação do Porto (para protestar contra a justiça machista) e outras que se têm realizado devido à persistência de uma cultura de violação em Portugal”.

Para o ano esta organização pretende aumentar o nível de participação nas manifestações e organizar a maior greve feminista alguma vez realizada em Portugal, porque “se as mulheres param, o mundo pára”.

Até lá, queremo-nos vivas, livres e unidas!

[1] https://www.dn.pt/pais/interior/dois-meses-e-11-dias-23-pessoas-mortas-14-por-violencia-domestica-10667254.html

[2] https://www.publico.pt/2019/03/06/sociedade/opiniao/nao-queremos-flores-queremos-direitos-1864358?fbclid=IwAR36JhoG8Sc5xRi61aQXGCQAkZynPSzI2TVs0B6h-heu0MJ6P6cjUEKFVkQ#gs.u0OxqvCf

[3] https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/patricia-martins-temos-uma-sociedade-estruturada-na-exploracao-do-trabalho-das-mulheres-gratuito-e-invisibilizado-390145?fbclid=IwAR39-Bu1-PCs-wSfTCwHP5KigaFiUBFJpQWfLIE4TacVgIMtCYNyGGSwh6s#.XH-vy211vLc.facebook