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“Nós, feministas, queremos continuar a luta. E queremos que seja feita por mulheres, para as mulheres”, disse Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir no ato organizado pelo Movimento de Liberação Feminina, Paris, 1971. Foto: Gilles Peress.

Simone de Beauvoir no ato organizado pelo Movimento de Liberação Feminina, Paris, 1971. Foto: Gilles Peress.

Desde que a frase de Simone de Beauvoir (1908-1986) foi citada em uma questão do último ENEM, muito se discutiu em torno do assunto nas redes sociais. Contaminada pelos acontecimentos, resolvi escrever um pouco mais sobre isso. “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Assim a autora sintetizou a tese que defende no ensaio teórico ‘O segundo sexo’, publicado em 1949, em que examina a condição secundária feminina a partir de analises da sociedade francesa. Nestas discussões, por um lado, se comemorou o fato de se ter uma questão dedicada a uma feminista na prova, por outro, surgiram várias distorções do pensamento da autora a partir de pontos de vista sem aprofundamento e desonestos. Uma das consequências disso tudo me soou quase uma ofensa pessoal. O verbete ‘Simone de Beauvoir’ na Wikipédia tinha sido vandalizado. Explico(!). Precisarei aqui ter muito cuidado para não misturar a minha experiência pessoal e afetiva (de admiradora) de leitura da obra da autora com a obra em si.

Simone de Beauvoir não é mais uma referência muito citada nas pesquisas que se fundamentam na teoria feminista e de gênero. Embora suas sobras sejam um marco de inegável importância, este campo teórico se desenvolveu a partir de críticas e complementações ao que já foi produzido, o que é natural em qualquer campo científico. Ela estava falando de mulheres francesas da década de 40, e precisamos de outras categorias para pensar sobre as mulheres de hoje, sobretudo as brasileiras. Não quero me deter aqui às teses da autora, mas contar um pouco da sua vida pessoal. Conhecer a história de mulheres inspiradoras como ela é importante para construímos nossa própria trajetória, pelo menos foi assim para mim. Foi a sua história pessoal, muito mais que seus ensaios teóricos, que me motivaram a seguir a carreira acadêmica.

“Meus pais rompiam com as convenções orientando-me para uma carreira e não para o casamento; na realidade cotidiana, entretanto, continuavam a educar-me nesse sentido; nada de me deixar sair sem eles, nem de me poupar das tarefas familiares.”

1914, Simone aos 6 anos.

Simone aos 6 anos [1914].

Beauvoir escreveu, além dos ensaios teóricos e romances, quatro livros de memórias (recomendo todos!). Ela queria que o público conhecesse a pessoa que escrevia os livros. Aqui, vou contar um pouco, com muito afeto, sobre “Memórias de uma moça bem-comportada”, o primeiro deles. Publicado em 1958, compreende o período entre 1908 e 1929, com narrativas que se iniciam a partir seu nascimento até sua aprovação nos rigorosos exames de agrégracion em filosofia na Sorbonne.

“Não, disse a mim mesma, guardando uma pilha de pratos no armário, minha vida conduzir-me-ia a algum lugar. Felizmente eu não estava votada ao destino de dona de casa. Meu pai não era feminista; mas a necessidade faz a lei “Vocês, meninas, não casarão, não têm dote, precisarão trabalhar” Eu preferia de muito a perspectiva de um ofício à do casamento: autorizada certas esperanças.”

Nascida em uma família católica e de valores burgueses, ela reflete sobre sua própria história, mostrando como a forte

minha cópia de

Minha cópia de “Memórias de uma moça bem-comportada“, edição de 1964.

educação moral e religiosa formava as mulheres de sua geração, além de recontar as experiências vividas, em alguns momentos dolorosas e muitas vezes acompanhadas de dilemas morais, quando decide romper com as normas as quais estava submetida enquanto mulher.

“podia contar nos dedos da mão mulheres que possuíam, então, grau de agrége ou de doutor em filosofia; aspirava ser uma dessas pioneiras. […] Não lamentava por certo ser mulher; tirava, ao contrário, grandes satisfações disso. Minha educação convencera-me da inferioridade intelectual do meu sexo, o que admitiam muitas de minhas congêneres. “Uma mulher não pode esperar obter a agrégation sem cinco ou seis malogros, pelo menos”

Beauvoir conta também sobre sua convivência com personagens como Jean-Paul Sarte, Merleau-Ponty e Lévi-Strauss, e outros amigos e amigas não tão famosos. No entanto são marcantes as lembranças sobre sua amizade com Zazá, outra moça burguesa e inquieta que conheceu no curso católico Désir, que teve uma morte trágica, descrita de forma densa e carregada de sentimentos, revelando, mais uma vez, consequências da forte opressão de uma educação moral e religiosa que as mulheres de sua geração estavam submetidas. Quando li o livro, intui que a morte de Zazá foi uma das motivações que levaram Beauvoir tratar sobre temas que tratou.

“Juntas havíamos lutado contra o destino lamacento que nos espreitava e pensei durante muito tempo que pagara minha liberdade com a sua morte”

Para finalizar, deixo duas recomendações.

Daniela Lima escreveu brilhantemente sobre a passagem da escritora no Brasil entre outras coisas, leitura indispensável.

A frase do título do texto foi retirada de uma das poucas entrevistas concedidas por ela à rede de televisão francesa (ir para 24:22min), na década de 70, como parte da militância feminista, como ela deixa claro no vídeo. Beauvoir fala sobre os motivos de se declarar feminista. Infelizmente está em francês, com legenda em inglês.

Referência:

BEAUVOIR, Simone. Memórias de uma moça-bem comportada, 1958.

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Feliz Aniversário, 51 Pegasi b!!!!!

No começo de outubro comemoramos os 20 anos da descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela “similar” ao Sol. O planeta, 51 Pegasi b, foi o primeiro de milhares que estariam e estão ainda por vir. Atualmente estão confirmados cerca de 1800 planetas e de candidatos são mais de 3 mil.

pegasib

(Fonte: scitechdaily.com)

O planeta 51 Peg b está localizado a aproximadamente 50 anos-luz na constelação de Pegasus. Sua massa é da ordem de 0,4 massas de Júpiter e sua distância da estrela de aproximadamente 0,05 UA( unidades astronômicas). A nível de comparação a massa da Terra é de 0,00315 massas de Júpiter e a distância do Sol é de 1 UA.

astroptorg

(Fonte: http://www.astro.pt.org)

A massa e a distância da estrela facilitou a descoberta pelo método de velocidade radial. Este método mede as variações do espectro da estrela causado pelos efeitos gravitacionais do planeta.

Antes do 51 Pegasi b já haviam estudos sobre a possibilidade de planetas em Pulsares, estrelas que emitem uma alta quantidade de radiação eletromagnética, porém a possibilidade de vida (macroscópica) é pouco provável.

A descoberta de exoplanetas abriu todo um novo campo de possibilidades. A vida fora da Terra já não era mais tratada como ficção científica. Campos como Astrobiologia deixaram de ser tabu entre pesquisadores. Hoje temos missões, como a Kepler da Nasa, com o único objetivo de detectar e catalogar esses objetos.

Mais informações:

http://www.jpl.nasa.gov/news/news.php?feature=4733

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Tempo livre no capitalismo: alienação e reprodução

O “tempo livre” no capitalismo, em tese, é o tempo que as pessoas passam fora dos seus trabalhos. Apesar de aparentemente esse conceito ter uma definição simples é necessário problematizar essa questão. Vários autores nos mostram como o “tempo livre” é alienado na sociedade capitalista, ou seja, não somos totalmente livres para escolher o que fazer com nosso tempo fora do trabalho. Em grande parte desse tempo, por exemplo, acabamos por consumir produtos da indústria cultural de maneira também alienada.

Para Theodor Adorno “[as pessoas] Nem em seu trabalho, nem em sua consciência dispõem de si mesmas com real liberdade”[1]. Os papéis sociais impostos definem em grande medida o que são e o que fazem as pessoas: acabam por definir até o que as pessoas farão com o seu “tempo livre”. A própria divisão entre trabalho – vista como obrigação muitas vezes desagradável – e tempo livre – que deve ser utilizado para se fazer atividades “agradáveis” a partir da escolha da própria pessoa – já denota que o trabalho é colocado como o oposto de satisfação pessoal[2]. Adorno explora essa questão mostrando como apenas pessoas privilegiadas, de classes sociais abastadas, tem a rara chance de escolher qual profissão lhe agrada – e mesmo tais pessoas estão alienadas do próprio trabalho, já que vivem na sociedade capitalista.

Um dos exemplos dados pelo autor de uso alienado do tempo livre é o turismo, já que muitas vezes os “pacotes de turismo” são organizados por empresas com objetivo de lucro. A pessoa compra um desses pacotes para tentar “descansar” e não pensar no seu próprio emprego, ou seja, é uma restauração da mão de obra para que esta se acalme e não tenha doenças emocionais, podendo voltar a trabalhar após alguns dias de descanso. A classe trabalhadora deve usar seu tempo livre para se manter com boa saúde voltando ao trabalho de maneira produtiva. Até a sua distração no tempo livre é um meio de fazer com o que o trabalhador e a trabalhadora não tenham, por exemplo, problemas mentais/emocionais que o impeçam de trabalhar. Nesse sentido, o tempo fora do trabalho também é necessário para a “reprodução da classe trabalhadora” (voltaremos a esse tema à frente).

Passando para um autor nacional, o sociólogo Ricardo Antunes também explora esse tema: “(…) as diversas manifestações de estranhamento atingiram, além do espaço da produção, ainda mais intensamente a esfera do consumo, a esfera da vida fora do trabalho, fazendo do tempo livre, em boa medida, um tempo também sujeito aos valores do sistema produtor de mercadorias. O ser social que trabalha deve somente ter o necessário para viver, mas deve ser constantemente induzido a querer viver para ter ou sonhar com novos produtos.”[3]

Ou seja, a sociedade capitalista distancia as pessoas de sua essência humana, fazendo com que tanto o trabalho quanto o tempo livre sejam tempos alienados da vida humana. A classe trabalhadora deve ter apenas o necessário para se manter viva, não podendo ter mais tempo livre ou mais salário que o necessário para sua manutenção. Além, é claro, do consumo de itens que estejam inseridos na lógica de capital, como produtos desnecessários e alienantes, por exemplo o video game, e até mesmo aquilo que é produzido pela “indústria cultural”, como filmes, séries e novelas – a cultura acaba funcionando também conforme a lógica do lucro.

Nesse sentido, a classe trabalhadora precisa ter o mínimo para a reprodução da própria classe. Reprodução no sentido de ter filhos para que estes um dia sejam trabalhadores e trabalhadoras, mas também reprodução no sentido de se manterem vivos. A manutenção das pessoas e sua multiplicação na sociedade capitalista é essencial para a manutenção do sistema, logo, os “patrões” devem pagar esse preço.

Ocorre que a reprodução da vida humana não ocorre sem trabalho. Chamamos de trabalho reprodutivo, ou trabalho doméstico, o tempo que a classe precisa trabalhar “fora do trabalho” para se manter alimentado, limpo, cuidado, assim como as crianças e idosos que não podem se cuidar sozinhos, etc. Ou seja, os trabalhadores e trabalhadoras ainda precisam encaixar no “tempo livre” o trabalho doméstico!

Trabalho doméstico é trabalho. É tempo necessário socialmente para a sobrevivência da classe trabalhadora. Acaba sendo problemático que alguns autores, como o próprio Adorno, considerem o trabalho doméstico como se este fosse feito porque as pessoas querem fazê-lo no seu tempo livre e não porque é necessário.

Até porque, dentro dessa discussão não se pode nunca esquecer que o capitalismo se apropriou da opressão da mulher para que esta fizesse quase todo o trabalho reprodutivo sozinha. Mesmo hoje que dizem que as “mulheres ganharam o mercado de trabalho” não se pode esquecer que quem continua cumprindo todo o trabalho doméstico majoritariamente são as mulheres. Mesmo as que não fazem esse trabalho contratam outra mulher, na maioria das vezes negra, pobre, imigrante etc, para fazer esse trabalho no “seu” lugar.

Ou seja, reprodução da mão de obra não é tempo livre. Mesmo assim, acredito que a classe trabalhadora deve lutar sempre por diminuição da jornada, já que com mais tempo livre, no limite da liberdade que o capitalismo “oferece”, é que os trabalhadores e trabalhadoras poderão se reunir para discutir política e traçar estratégias de luta. Também é necessária a luta feminista por divisão das tarefas domésticas igualmente entre os gêneros (enquanto essas tarefas não são coletivizadas), já que política que exclui mulheres – porque estas precisam ficar cuidando da casa ao invés de se reunir com companheiros e companheiras de classe – não é política de verdade. Além do fato de que a duração da jornada de trabalho está intimamente ligada com a questão do desemprego estrutural…

Seguiremos em luta pela diminuição da jornada, mesmo com os ataques cada vez mais frequentes aos direitos trabalhistas feitos por esse congresso conservador e representante dos interesses mais reprováveis do modo de produção capitalista.

Referências:

ADORNO, Theodor. Palavras e sinais – modelos críticos 2. Petrópolis: Editora Vozes, 1995.

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho. 15ª Edição. São Paulo: Editora Cortez, 2008.

Jean Henrique Costa, Marcela Amália Pereira Cabrita e Tássio Ricelly Pinto de Farias: “Notas sobre o tempo livre em Theodor W. Adorno”, Revista Turydes: Turismo y Desarrollo, n. 17 (dezembro 2014). Disponível em: http://www.eumed.net/rev/turydes/17/tiempo-livre.html

[1] ADORNO, Theodor. Palavras e sinais – modelos críticos 2. Petrópolis: Editora Vozes, 1995, p. 70.

[2] ADORNO, Thedor, op. cit., p. 73: “Essa rígida divisão da vida em duas metades [trabalho e não trabalho] enaltece a coisificação que entrementes subjugou quase completamente o tempo livre.”

[3] ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho. 15ª Edição. São Paulo: Editora Cortez, 2008, p. 94.

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Estariam as plantas viciando as abelhas em cafeína?

Muitos de nós precisamos de uma dose de cafeína quando acordamos pra começar a pensar direito. Um estudo realizado pela University of Sussex mostrou que plantas que possuem cafeína no seu néctar também pode estar alterando o comportamento de seus polinizadores, nesse caso, as abelhas.

No fenômeno da polinização, as plantas forneceram alimentação para os polinizadores, enquanto esses tem um papel importante na reprodução das plantas, pela transferência do pólen. Como é uma relação que há uma vantagem para ambos os lados, é considerada uma relação de mutualismo entre as plantas e as abelhas. As plantas produzem naturalmente cafeína, como um composto secundário, e com a função de espantar herbívoros, pelo seu gosto amargo.

Apesar de ser destinada para as folhas da plantas, muitas espécies possuem, em concentrações menores, cafeína no seu néctar. Um outro estudo realizado provou que esse composto poderia estar ajudando na eficácia e eficiência do forrageamento sugerindo que a cafeína aumenta a percepção de recompensa do inseto. No entanto, não tinham sido feitos experimentos de campo para provar essa hipótese.

Nesse estudo, foram realizados experimentos de campo utilizando uma solução de sacarose tanto sem e com cafeína (em concentrações semelhantes àquela encontradas na natureza). O resultado, como esperado, foi um aumento de visitas de abelhas individuais durante o tempo de experimento (3h) quando elas coletavam a solução de sacarose com cafeína.

As abelhas possuem um mecanismo de recrutamento chamado a dança waggle, aonde uma abelha que voltou da uma caça bem-sucedida por alimento informa ao resto da colônia a distância e direção dessa fonte de alimento (tem um vídeo mostrando isso aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-7ijI-g4jHg)

Sendo assim, eles compararam quantas vezes uma abelha que tinha visitado a solução de sucrose com cafeína recrutou o resto da colônia utilizando a dança “waggle” em comparação com uma que tinha visitado a solução de sacarose somente. Novamente, a proporção foi maior para as abelhas que tinham visitado a solução que possuía cafeína.

Os pesquisadores ainda apontam o fato que como as abelhas super estimam essas fontes de alimento, as plantas podem estar se aproveitando desse fato, produzindo um néctar de “pior” qualidade, mas ainda assim receberem muitas visitas das abelhas simplesmente pelo fato da cafeína estar presente no néctar. Além disso, eles propõe um modelo onde a cafeína pode estar prejudicando a produção de mel da colônia, mas que ainda tem que ser testada experimentalmente.

No entanto, todos os dados dessa pesquisa mostram um belo exemplo da tensão presente entre os membros componentes de uma relação de mutualismo, e como uma das partes pode acabar sendo manipulada pela outra.

Fonte: http://www.cell.com/current-biology/comments/S0960-9822(15)01054-4

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Professoras trans falam sobre desafios enfrentados no seu processo de escolarização

Ilustração: Helô D'Angelo

Ilustração: Helô D’Angelo

“Meu sonho é que tenha outras travestis e transexuais nessa universidade, mas aí você percebe que o processo de exclusão da travesti e da transexual é muito, porque todas as meninas que foram minhas colegas desistiram. Não conseguiram passar pelo ensino médio, porque é muito, mas é muito difícil mesmo. Você sofre um inferno, é um inferno a cada dia, você pensa assim: vou ter que ir para aquele inferno mais um dia. (Adriana dos Santos, Aquidabã-SE, novembro, 2010).” (FRANCO e CICILLINI, 2015, p. 333)

A narrativa acima compõe o conjunto de dados publicados recentemente em um artigo da revista Estudos Feministas sobre a escolarização de professoras transexuais, travestis e trangêneros no Brasil. O estudo envolveu, além de fontes documentais, entrevistas com doze mulheres, professoras trans das cinco regiões do país. Os autores lembram que estas representam uma pequena parcela de pessoas trans que conseguiram permanecer no sistema educacional graças à resistência e constante enfrentamento à vulnerabilidade social, e processos de exclusão aos quais foram expostas desde a educação básica, relacionadas às imposições heteronormativas.

O que seria, afinal, heteronormatividade? A definição apresentada no artigo é a seguinte:

“[…]processo de efetivação e naturalização da heterossexualidade como a única forma possível e legítima de manifestação identitária e sexual. Com isso, criou-se um conjunto de dispositivos que se vinculam diretamente à produção de corpos, sujeitos e identidades definidos e coerentes com a sequência corpo/gênero/sexualidade.” (p.326)

As professoram entrevistadas atuam principalmente em escolas da rede púbica; todas já tiveram experiência de ensino na educação básica.

O artigo discute que um dos principais motivos que contribuem para afastar as pessoas trans da esfera da educação formal é o ambiente hostil no qual são obrigadas a permanecer desde que iniciam a construção de seus gêneros. O ambiente hostil a que se referem diz respeito a histórias decorrentes do fenômeno de transfobia, definido como: “o processo de recusa histórica, social e cultural da forma como pessoas trans constroem seu gênero e vivem suas sexualidades.”(p. 330).

Os espaços de formação escolar e acadêmica têm sido lugares em que se reproduz transfobia — discriminação, violência e exclusão, processo que tem inicio, às vezes, na própria família.

As barreiras de acesso à formação potencializam ainda mais a situação de exclusão a que estão sujeitas pessoas trans, haja vista que, no Brasil, a escolarização é uma forma de ascender socialmente, de romper com ciclos de reprodução de desigualdade social. Acesso à educação formal é também garantia de inclusão cidadã e respeito aos direitos humanos.

A despeito das barreiras apontadas no artigo, os autores finalizam de forma otimista. Nas palavras das professoras trans que colaboraram com o estudo, ainda que os obstáculos sejam muitos, conseguem vislumbrar no movimento de resistências novas possibilidades de formas de ensino e aprendizagem, no que se refere às questões de gênero e de sexualidades, sendo a escola um espaço de possibilidades de efetivação de direitos. Segundo elas, as suas trajetórias são exemplos dessas possibilidades.

No ano de 2015, por exemplo, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) documentou aumento no número de candidatas e candidatos trans que usaram o nome social nas inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): esse número cresceu 172%. Esse é o segundo ano que o Inep permitiu o uso do nome social, depois de reclamações sobre constrangimentos sofridos durante o exame. O aumento se deu, principalmente, pela mudança na forma de solicitação para o uso do nome social, facilitado na última edição. As pessoas trans também terão o direito de frequentar o banheiro que desejarem, de acordo com a identidade de gênero.

Para ler o artigo na íntegra, ver o link nas referências bibliográficas.

Referência Bibliográfica:

FRANCO, N.; CICILLINI, G. A. Professoras trans brasileiras em seu processo de escolarização. Revista Estududos Feministas,  Florianópolis ,  v. 23, n. 2, p. 325-346, Aosto, 2015.

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Por que a Ciência Básica importa? Um olhar especial para a Biologia

Earthrise. Fonte: Nasa

Earthrise. Fonte: Nasa

Temos mania de dividir tudo em caixinhas didáticas, e na ciência não é diferente. Uma das discussões ainda bastante relevantes atualmente ocorre entre ciência “básica” e ciência “aplicada”. De forma geral e bastante intuitiva, entendemos por ciência “básica” (ou ciência pura, ou hard science) aquelas pesquisas que buscam entender como é o mundo e como tudo funciona, em sua essência. Já pesquisas que visam resolver questões práticas e cotidianas são classificadas como ciência “aplicada”, ou como alguns preferem dizer: aplicações da ciência.

No mundo acelerado em que vivemos, é fácil conseguir e justificar investimento em quase todo tipo de ciência aplicada, mas o incentivo pode ser extremamente difícil quando nos dedicamos à ciência básica – e com isso quero dizer tanto no aspecto financeiro quanto pessoal. Poucos entendem quando contamos que nos dedicamos a entender a história evolutiva dos peixes, ou como os hormônios de um sapo funcionam, ou como ocorreu uma formação geológica, ou ao desenvolvimento de equações matemáticas complexas.

Pesquisas em ciência básica não tem objetivo prático claro e definido com antecedência. No caso da ecologia, por exemplo, pesquisas básicas buscam entender a diversidade biológica, as interações entre organismos e entre os organismos e seu meio. Seu objetivo principal é o avanço do conhecimento, muitas vezes de forma exploratória, ou seja, sem saber ao certo os resultados que serão encontrados e quais suas possíveis aplicações – se é que existirão. Um dos objetivos centrais das pesquisas em ecologia básica envolve desenvolver, testar e aprimorar hipóteses e teorias, como a evolução através de seleção natural. Por outro lado, a ecologia aplicada é motivada por objetivos particulares bem definidos, e buscam resolver problemas ambientais como recuperação de áreas degradadas, invasão de espécies exóticas, desertificação… manejo de recursos naturais, de forma geral.

Entretanto, é preciso saber com clareza que um tipo de ciência não é mais ou menos relevante que outro. Mais que isso: a ciência aplicada não existe sem uma base sólida e um passado de exaustiva pesquisa básica. Eric Lander, neste vídeo, faz uma ótima analogia: a ciência básica pode ser entendida como troncos de árvores em uma floresta, enquanto as aplicações da ciência são como as folhas, nas pontas dos galhos. Se hoje é possível a fabricação de iPhones, que carregamos conosco o tempo todo, é devido a anos de pesquisa em diversos “troncos” da ciência – termodinâmica, química, geologia, estatística, inteligência artificial, física teórica, eletricidade, robótica… inclusive equações desenvolvidas por Einstein, sem que ele tivesse a menor ideia em que resultariam.

São incontáveis os exemplos de pesquisas básicas em Biologia que levaram a grandes desenvolvimentos e aplicações em áreas diferentes. Um exemplo clássico: ao estudar ervilhas, Mendel não imaginava que estava criando uma das grandes bases da genética. Mais recentemente, pesquisas que buscavam entender as causas da mortalidade do “rato-toupeira-pelado” (Heterocephalus glaber) levaram à  descoberta de mecanismos de defesa contra tumores. E a descoberta de um peptídeo com atividade antimicrobiana e antifúngica capaz de reduzir o crescimento dos principais agentes de infecções hospitalares foi possível através do estudo do pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus), cujo macho preserva peixes em seu estômago por cerca de 3 semanas para alimentar o filhote.

Como qualquer outra área de desenvolvimento, as pesquisas em biologia básica precisam de muitos recursos financeiros e humanos. Mas por trabalhar na base do conhecimento e por não ter aplicação prática definida, esse tipo de ciência cada vez mais perde esses recursos para pesquisas aplicadas. É preciso que a sociedade entenda a importância da ciência básica e a incentive, pois não sabemos os desafios que enfrentaremos no futuro. Especialmente no cenário atual de mudanças ambientais globais e perda de diversidade, a compreensão profunda dos problemas é o melhor caminho para encontrar uma saída – e possivelmente o mais seguro e barato. Decisões políticas precisam de predições seguras de ecólogos, baseadas em trabalho exaustivo de pesquisa de campo, laboratório e modelagem. E isso não se faz sem investimento.

Apesar de todas as bases para aplicações fornecidas pela ciência básica, os autores deste artigo discutem que a principal justificativa para desenvolver e incentivar essas pesquisas deve ser satisfazer a curiosidade, adquirir conhecimento e alcançar a compreensão. Por trás do “tiro no escuro” que é a pesquisa em ciência básica, está a motivação baseada em curiosidade, criatividade, inteligência, perseverança… e até sorte. Mas a curiosidade é seu maior motor. Há um certo desejo inato na maioria dos biólogos em compreender como sistemas complexos naturais funcionam – sejam as interações entre moléculas ou indivíduos ou populações. Explorar o mundo que nos cerca e compreender a natureza das coisas apenas pelo conhecimento é possivelmente uma das aspirações humanas mais antigas. E há beleza nisso.

Fontes:

Courchamp, F. et al. Fundamental ecology is fundamental. Trends Ecol. Evol. 30, 177 (2015).

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A liberdade sexual também na prática científica

A liberdade sexual é um tema bem controverso por diversos motivos…. vai de encontro com preceitos religiosos, pode esbarrar em comportamentos éticos na convivência em sociedade e acalora debates quando colocado sob uma perspectiva evolutiva. Ou seja, um tema que pode ser discutido em diversas esferas e de diferentes modos. Aqui, decidi abordar sob um ponto de vista feminino e feminista e apontar a importância da ciência. Assim, gostaria de falar sobre: sabe aquela atração que a gente sente quando uma pessoa te chama atenção, aquela vontade de fazer sexo, aquele desejo de se tocar, de ter prazer? Não só os homens tem, as mulheres também! Apesar deles também buscarem a liberdade sexual, como o direito de discutir abertamente sobre seus desejos, nós, mulheres, ainda temos que passar por várias outras barreiras a mais que eles.  

Importantes conquistas rumo à essa almejada liberdade sexual ocorreram. A conquista dos anticoncepcionais como o DIU e a pílula é um exemplo, pois tornou possível desvincular o prazer sexual da procriação. Outra conquista que acredito já estar acontecendo, mas ainda lentamente, é as pessoas aceitarem a frequência e diversidade de parceiros que uma mulher pode ter ao longo de sua vida. Em tempos em que o objetivo de vida de uma mulher não é só ter filhos, a liberdade sexual é um importante aspecto em sua vida. Pois, sim, existe toda uma complexa neurobiologia responsável por recompensar o ato do sexo. Assim, o sexo por sexo é tão bom quanto (ou muito melhor se feito corretamente) comer uma deliciosa barra de chocolate ou correr 5 km no parque. Todas essas atividades ativam sistemas neurais como o sistema dopaminérgico e serotonérgico relacionados com sensações positivas.

blog                                                            Google imagens: Artemis Iota vel de Coitu Scholia Triviæ

Nesse processo de entender e aceitar a sexualidade da mulher muitos paradigmas podem ser quebrados, especialmente a partir de pesquisas científicas. Porém, nessa tentativa de explorar o mundo sexual alguns pesquisadores já se deram muito mal. Já ouviram falar do biólogo Alfred Kinsey? Ele conduziu uns dos primeiros grandes estudos sobre comportamento sexual de homens e mulheres entre a década de 40 e 50.  Mas foi muito criticado na academia e não reconhecido pelos seus estudos por muito tempo.

Felizmente, hoje em dia, temos muitas pesquisas sendo realizadas e a partir de diferentes perspectivas. Um interessante estudo procurou estabelecer se haveria uma explicação não adaptativa da ocorrência de cópula extra-par (que chamarei de infidelidade para facilitar) em mulheres. Um dos experimentos foi verificar se haveria relação da ocorrência de infidelidade e variabilidade genética de receptores de hormônios como a vasopresina e a oxitocina envolvidos em comportamentos de vínculos sociais (p. ex: empatia e confiança). Observaram, somente em mulheres, uma forte correlação entre variações no gene do receptor para vasopressina e uma maior frequência de infidelidade. Quais as conclusões disso? Claro, não é defender a infidelidade como algo natural, mas questionar as razões para que isso ocorra. Isto é, pensar a “pulada de cerca” como um comportamento influenciado por diversos fatores, não somente sociais e psicológicos, mas também biológicos. Outra importante observação é que a infidelidade não é um traço biológico somente masculino, contrário do que muitos pensam.

Outra pesquisa que põe em cheque algumas ideias foi uma realizada para verificar se as diferenças de comportamento sexual entre homens e mulheres não poderiam ser efeito de expectativas sociais sobre esse tipo de comportamento. Foi observado uma diferença, para mulheres, nas respostas em questionários de comportamento sexual dependendo do grau de anonimato. Isto é, parece que mulheres não se sentem muito à vontade para responder livremente quando podem ser julgadas. Além, é possível que o comportamento sexual de homens e mulheres não seja tão diferente, como alguns estereótipos ainda pregam.  

Assim, as pesquisas são importantes em diversos níveis. Pois, é conhecendo um pouco melhor de nós mesmas que vamos quebrando tabus e aceitando nossa natureza.        

Ainda estamos em uma época em que o sexo do casal é voltado para o homem e para sua satisfação. A menina ainda pensa se deve fazer sexo no primeiro encontro ou depois de outros para não se sentir promíscua. A mulher ainda se esforça, põe uma lingerie sexy, mesmo cansada, para não ser chamada de frígida ou para manter seu namorado interessado. Mulheres lindas e sexys ainda não se conhecem anatomica e sexualmente a ponto de saber seus pontos de maior excitação.Todas essas questões podem desaparecer no momento em que a sociedade se conscientizar e sermos criadas e tratadas normalmente como seres com libido. Por exemplo, quando a  auto-exploração do nosso corpo, como a masturbação, seja permitida e vista com normalidade. Nós temos e devemos fazer sexo porque gostamos, porque é delicioso ser tocada, beijada e explorada de forma consentida. E pronto! Sem peso na consciência!

 

Referências:

Zietsch et al. 2014. Genetic analysis of human extrapair mating: heritability, between-sex correlation, and receptor genes for vasopressin and oxytocin. Evolution and Human Behavior.

Alexander and Fisher. 2003. Truth and Consequences: Using the Bogus Pipeline to Examine Sex Differences in Self-Reported Sexuality. The Journal of Sex Research.

http://www.kinseyinstitute.org/research/ak-data.html

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Mulheres, socialismo e os primeiros anos pós-Revolução Russa (I)

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Colagem: @sarita

Em 2014, foi lançado no Brasil o livro Mulher, estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas (1917-1936), da historiadora Wendy Goldman. O livro pretende analisar a situação jurídica e social das mulheres nos primeiros anos após a Revolução Russa. Neste post, trataremos dos três primeiros capítulos do livro. No post de 17 de novembro, abordaremos o restante do livro.

No primeiro capítulo, Goldman trata das teorias existentes a respeito da emancipação das mulheres antes da Revolução Russa.

As primeiras reivindicações de mulheres, enquanto grupo, surgiram na Revolução Francesa. Goldman, porém, ressalta que, nesse momento, as manifestações delas estavam mais associadas a interesses de classe do que de gênero. Elas se preocupavam com direitos de cidadania, mas não questionavam o papel doméstico das mulheres. Além disso, suas conquistas durante a Revolução – simplificação do divórcio, reconhecimento de direitos a filhos ilegítimos e modificação do direito de propriedade para as mulheres – foram ignorados no Código Civil de Napoleão (1804). Já entre os socialistas utópicos, existia ideias de igualdade e independência das mulheres, mas elas não foram sistematicamente aplicadas em suas experiências comunitárias.

Goldman analisa, também, a resistência dos trabalhadores homens à entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho. As mulheres foram hostilizadas por seus colegas homens e por membros dos sindicatos, que as acusavam de roubar seus postos de trabalho, uma vez que recebiam menos pelo mesmo trabalho executado.

Os marxistas, por sua vez, passaram a identificar a família como uma construção social, não natural. A partir dessa concepção, foi possível criticar, também, a divisão sexual do trabalho. Para os bolcheviques, especificamente, a libertação das mulheres só ocorreria se elas não fossem mais as principais responsáveis pelo trabalho doméstico. No socialismo, o trabalho doméstico seria transferido para a esfera pública: esse trabalho seria feito em creches, lavanderias e restaurantes comunitários. Desoneradas do trabalho doméstico, as mulheres poderiam participar da esfera pública em igualdade com os homens.

Alexandra_Kollontai zetkin

Alexandra Kollontai (1872-1952), dirigente bolchevique e Clara Zetkin (1857-1933), feminista marxista

Além disso, os bolcheviques consideravam o casamento burguês viciado, uma vez que não se dava por amor, mas por questões patrimoniais. A emancipação feminina contribuiria, portanto, para o fim da família burguesa. O Estado não mais interferiria nos relacionamentos, que se constituiriam por “uniões livres”, entre pessoas iguais. Os filhos dessas uniões seriam, também, responsabilidade do Estado e não haveria mais que se falar em filhos “ilegítimos”. Assim, Goldman argumenta que a visão bolchevique da emancipação das mulheres era fundada em quatro preceitos: a) união livre; b) emancipação das mulheres através do trabalho assalariado; c) socialização do trabalho doméstico; e d) definhamento da família.

Ao tomarem o poder, os bolcheviques procuraram implementar modificações na instituição da família, enquanto ela não era extinta pelo socialismo. Para esse período de “transição”, aprovaram, em 1918, o Código do Casamento, da Família e da Tutela. As principais questões reguladas pelo Código foram: a) substituição do casamento religioso pelo civil; b) estabelecimento do divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges; c) estabeleceu igualdade entre homens e mulheres; d) ampliava a pensão alimentícia para o homem e para a mulher; e) aboliu o conceito de ilegitimidade dos filhos; f) proibiu a adoção; e g) determinou que o casamento não dava origem à propriedade compartilhada entre os cônjuges. De acordo com Goldman, o Código foi a legislação de família mais progressista do mundo, naquele momento.

No segundo capítulo, a autora aborda a questão das crianças na Rússia pós-revolucionária. Para os teóricos bolcheviques, as crianças deveriam ser responsabilidade do Estado, não das famílias. Ademais, os lares de crianças seriam autogestionados pelas próprias crianças, que adquiririam autonomia e contribuiriam para a economia comunitária. Essas teorias, no entanto, foram de difícil implementação, principalmente, em razão do contexto econômico do pós-guerra. A sociedade tinha acabado de sair de uma guerra civil e estava sofrendo com todo o tipo de instabilidade advindo de confrontos armados. Além disso, em 1921, a Rússia sofreu uma seca severa e a fome afetou 25 milhões de pessoas. Nesse contexto, muitas crianças foram viver nas ruas, mendigando e furtando: umas tinham perdido os pais na guerra; outras tinham perdido a família em razão da escassez de alimentos; outras, ainda, fugiram de lares empobrecidos. Os lares para crianças não conseguiam receber todos os que precisavam e elas foram se acumulando pelas ruas das cidades e em estações de trem.

Em 1921, procurando sair da crise econômica e social que assolava o país, o governo adotou a chamada Nova Política Econômica (NEP), que permitiu o restabelecimento da iniciativa privada. Os efeitos da NEP sobre as crianças e as mulheres, no entanto, foram duramente sentidos: o fechamento de empresas estatais provocou o desemprego, principalmente, de mulheres e a redução do gasto estatal levou ao fechamento de instituições de assistência às crianças. Orfanatos e creches tiveram seus orçamentos drasticamente reduzidos, o que fez aumentar o número de crianças em situação de rua.

Mulheres e crianças formavam elos de um mesmo ciclo vicioso. Para diminuir seus gastos com as crianças, o Estado procurou transferir para as famílias a sua criação: o trabalho doméstico da mulher desempenhava uma função essencial a um “custo mínimo”. No entanto, o aumento de suas responsabilidades domésticas impedia as mulheres de procurarem emprego ou de trabalharem por período integral fora de casa.

No terceiro capítulo, Goldman aborda a situação da mulher na família soviética. Como já mencionado, o Código tinha permitido o divórcio. No entanto, o exercício da união livre e do divórcio era também uma questão de classe: o alto índice de desemprego, os baixos salários e a ausência de creches impediam que as mulheres exercitassem esses direitos.

A transição do Comunismo de Guerra para a política da NEP precarizou as condições de trabalho das mulheres. Elas foram as demitidas em maior número. Além disso, persistiam as discriminações e o machismo nos locais de trabalho. Homens e mulheres ganhavam salários diferentes pelo mesmo trabalho. Gerentes de empresas não contratavam mulheres pois as consideravam um tipo caro de trabalhador, em razão da licença maternidade e de outras proteções que a legislação trabalhista dispensava a elas.

Em 1924, os delegados do Congresso do Partido votaram pelo fim da demissão de mulheres e pelo aumento de sua qualificação. Porém, essas orientações não tiveram muitos efeitos práticos. Para tentar diminuir a demissão de mulheres, algumas das normas trabalhistas protetivas foram precarizadas. Assim, durante a NEP, o número de prostitutas aumentou em relação ao período anterior. Outra consequência da NEP foi o fechamento dos refeitórios comunitários, o que contribuiu para sobrecarregar, ainda mais, as mulheres com os trabalhos domésticos. Sob essas condições econômicas difíceis – e agravadas pela diminuição das creches – ficava difícil para as mulheres efetivarem seu direito ao divórcio. Quando se divorciavam, as mulheres recorriam ao judiciário para pedir pensões alimentícias para seus filhos. Os juízes eram bastante favoráveis às mulheres nesses casos. No entanto, muitas vezes, era difícil cobrar do pai da criança o valor devido.

[continua no post do dia 17 de novembro de 2015]

Referência bibliográfica: GOLDMAN, Wendy. Mulher, estado e revolução: política familiar e vida social soviéticas (1917-1936). São Paulo: Boitempo/Iskra, 2014.

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Divisão sexual do trabalho e carreira acadêmica (I): a graduação

Nossa sociedade está estruturada na chamada divisão sexual do trabalho. No post de hoje e no post do dia 13 de novembro, abordaremos como ela impacta a vida acadêmica.

Na estrutura social sustentada pela divisão sexual do trabalho, às mulheres cabe realizar o trabalho dito “reprodutivo e de cuidados”, restrito à esfera privada; e aos homens, o trabalho dito “produtivo”, realizado na esfera pública. Existe uma hierarquia entre o trabalho reprodutivo e o produtivo. O último é mais valorizado, enquanto o primeiro não é visto como trabalho, mas como uma atividade que a mulher realiza por sua própria natureza, sendo executado por amor e afeto.

Já há algumas décadas, as mulheres têm ocupado postos de trabalho na esfera dita “produtiva”. No entanto, por serem responsáveis pela maior parte do trabalho não remunerado exercido no âmbito doméstico,[1] muitas vezes, as mulheres são vítimas da “dupla jornada de trabalho”, não lhes sobrando o tempo livre necessário para realizar outras atividades.

A divisão sexual do trabalho, que estrutura nossa sociedade, tem reflexos, também, na vida acadêmica.

Por serem as principais responsáveis pelo trabalho “reprodutivo”, geralmente desde muito novas, as mulheres têm menos tempo para estudar e, portanto, mais dificuldade para entrar na universidade e, uma vez aprovadas, para seguir no curso.

Também porque são, frequentemente, as únicas responsáveis pelos filhos, são diretamente afetadas quando não há creches disponíveis nas universidades ou quando não há dormitórios adequados para crianças nas moradias universitárias.

A divisão sexual do trabalho também se reflete na divisão sexual dos cursos. Por exemplo, a Escola de Enfermagem é a unidade de ensino e pesquisa da USP que apresenta o maior número relativo de mulheres entre os alunos de graduação: em 2013, eram 369 mulheres e 43 homens. Já a Escola Politécnica e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação-São Carlos são as unidades que apresentam o maior número relativo de homens entre os graduandos: em 2013, a Poli tinha 908 alunas e 3944 alunos e o ICMC contava com 200 graduandas e 878 graduandos.[2] Ou seja, a unidade que possui o maior número relativo de mulheres é a responsável por cursos tradicionalmente ligados a ideias de cuidado e afeto, geralmente associadas a mulheres. Já as unidades que têm o maior número relativo de homens abrigam cursos tido como racionais, científicos, ideais comumente ligados aos homens.

Essa divisão sexual dos cursos acaba reproduzindo as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, pois os cursos “masculinos”, geralmente, estão ligados a profissões de maior prestígio social e que costumam proporcionar remuneração mais alta.

E na pós-graduação e na carreira acadêmica? Qual é o impacto da divisão sexual do trabalho? Aguarde nosso post do dia 13 de novembro, no qual discutiremos essas questões. 😉

[1] De acordo com pesquisa realizada pelo IPEA, as mulheres gastam um tempo médio 150% maior do que o gasto pelos homens em atividades domésticas. http://www.ipea.gov.br/retrato/infograficos_uso_tempo.html.

[2] Ver o Anuário Estatístico para o ano de 2013: https://uspdigital.usp.br/anuario/AnuarioControle#

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Puxando a sardinha pra qual lado?

ilustrapeixesIlustração: Sarah Roque

São diversos os impactos antrópicos nos ecossistemas e cada vez mais acelerados. No ambiente terrestre a principal ameaça aos animais selvagens é a perda de habitat, e a taxa de espécies ameaçadas de aves, mamíferos e anfíbios é de 13%, 21%, e 30% respectivamente. Mas, enquanto há um consenso geral na comunidade científica sobre o estado dos ecossistemas terrestres, o estado das espécies marinhas, especialmente os peixes marinhos, continua profundamente controverso. A controvérsia origina-se na divergente forma como estas espécies são consideradas: ou como mercadorias a serem manejados para a máxima produtividade, ou como animais selvagens componentes de diversificados ecossistemas.

Os estoques mundiais de peixes podem entrar em colapso devido à atividade predatória do setor pesqueiro. Isto é especialmente importante quando consideramos que a população deve chegar a 9 bilhões de pessoas no ano 2050. A preocupação é com o consumo crescente de peixes no mundo, gerando ainda maiores pressões e menores chances de recuperar os estoques. Tamanho consumo pode levar mais espécies à extinção, ameaçando tanto a segurança alimentar quanto os ecossistemas. Os problemas maiores ocorrem com peixes que levam mais tempo para amadurecer e se reproduzir, que é o caso de tubarões e raias, os quais se encontram em forte declínio.

Críticos argumentam que as avaliações de conservação exageram a situação de ameaça para os peixes marinhos, postulando que estes têm baixo risco de extinção em relação a outros vertebrados. Porém, os recursos pesqueiros são em essência renováveis, mas caso sejam pescados além de determinadas quantidades tornam-se finitos. Temos então o conflito entre setor econômico, que ocupa-se com os ganhos financeiros da pesca, e conservação, que tenciona sinalizar a perda da biodiversidade e propor medidas preventivas. Estas incluem a diminuição do esforço da atividade pesqueira, indo contra as ambições econômicas.

As populações ameaçadas de extinção exigem ousadia na gestão, como proibição obrigatória da pesca. Aquelas pescadas em excesso só podem exigir restrições na captura a fim de parar ou reverter seu declínio. Apesar do alarme conservacionista para o setor pesqueiro, quem irá decidir quais são as ações de manejo? Quando serão aplicadas? Seriam ações eficientes? No contexto da pesca, diminuição dos estoques significa produtividade prejudicada, no biológico, os prejuízos são a nível ecossistêmico.

Fonte: Davies, T. D.; Baum, J. K. 2012. Extinction Risk and Overfishing: Reconciling Conservation and Fisheries Perspectives on the Status of Marine Fishes. Scientific Reports – Nature, 2 : 56.