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Nettie Maria Stevens e a descoberta dos Cromossomos Sexuais

Nettie Maria Stevens nasceu em Cavendish, Vermont, cidadezinha de um dos menores estados dos Estados Unidos, em sete de julho de 1861. Nascida em uma época na qual a maior preocupação de uma jovem mulher deveria ser com um bom casamento, Nettie Maria queria muito mais. Estudou muito e trabalhou como professora, mas queria mesmo era ser pesquisadora. Com muito esforço e dedicação, ela conseguiu um espaço na história da genética.

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Nettie veio de uma família muito simples, vivendo nos Estados Unidos recém-saído de uma guerra civil. Apesar disso, o pai, carpinteiro e faz-tudo, conseguiu mandar os filhos à escola. Nettie logo se destacou entre os alunos, com um histórico brilhante. Em 1896, ela foi para a Universidade de Stanford, na Califórnia. Graduou-se com mestrado em biologia, dedicando-se ao estudo de novas espécies de vidas marinhas. Nettie foi continuar seus estudos na pós-graduação do Bryn Mawr College, uma faculdade liberal para mulheres, localizada na Pensilvânia. Seu desempenho foi tão extraordinário que ela ganhou uma bolsa para estudar no exterior.

Ela desenvolveu seus estudos na Estação de Zoologia de Nápoles na Itália e no Instituto de Zoologia de Würzburg na Alemanha, em parceria com Theodor Boveri. Theodor Boveri foi um importante biólogo alemão, que estudava o modo como características genéticas eram transmitidas, o que logo chamou a atenção de Nettie. Ela obteve o título de Ph.D. em 1903, aos 39 anos, e em 1905 publicou sua pesquisa intitulada “Studies in Spermatogenesis”. Finalmente, Nettie pode trabalhar como pesquisadora, se dedicando ao entendimento da determinação sexual nos animais.

nettie2 Nettie Maria trabalhando em suas análises microscópicas. Sua experiência em microscopia foi muito importante para suas descobertas.

Nettie Maria descreveu a diferença entre os cromossomos sexuais, através de suas observações em diversos animais. Stevens descreveu que células do besouro da farinha, Tenebrio molitor, eram diferentes entre machos e fêmeas.

As células das fêmeas, em divisão meiótica, continham 20 cromossomos grandes, enquanto as células masculinas continham 19 cromossomos grandes e 1 cromossomo menor. Ela concluiu que essa diferença resultava na presença de material genético diferente, associado à diferenciação sexual.

Ela também observou que as células dos espermatozoides podiam conter conjuntos de cromossomos com o cromossomo feminino ou com o cromossomo menor (masculino). A combinação desses conjuntos determinaria o sexo do indivíduo formado. De forma que ela inferiu que a união de dois cromossomos grandes (XX) determinaria o sexo feminino, enquanto um cromossomo grande e um pequeno (XY) determinaria o sexo masculino.
Ela repetiu estes estudos em diversas espécies de insetos, para poder afirmar que a diferenciação sexual, entre diversos fatores hoje conhecidos, estava relacionada ao par de cromossomos sexuais. Esse foi o início da teoria da determinação sexual cromossômica, que foi reconhecida mais tarde como correta, nos permitindo conhecer os cromossomos X e Y.

Thomas Morgan , importante zoologista e geneticista americano, que estudou e aprimorou o modelo de estudo animal da Drosophila melanogaster, a mosquinha da fruta, foi professor de Stevens. Ele afirmou que durante seus 12 anos de professor na pós-graduação nunca teve alguém tão competente e independente em pesquisa como Nettie.

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Células em divisão no besouro-farinha e observação dos cromossomos sexuais x e Y.

Na época, a teoria de herança sexual cromossômica era pouco aceita entre os cientistas, e o trabalho de Nettie não foi muito reconhecido. Mais ou menos na mesma época, Edmund Beecher Wilson fez observações similares, dando maior credibilidade à pesquisa de Nettie Maria. Nettie Maria Stevens era brilhante, porém teve uma carreira curta. Ela faleceu em 1912 de câncer de mama. No entanto, deixou sua contribuição inestimável para o entendimento do mecanismo genético de determinação sexual.

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Imagem de cariótipo humano masculino (46, XY) mostrando a diferença de tamanho entre os cromossomos sexuais X e Y.
Referências:
• Nettie Stevens: A Discoverer of Sex Chromosomes, disponível em: https://www.nature.com/scitable/topicpage/nettie-stevens-a-discoverer-of-sex-chromosomes-6580266

• Nettie Maria Stevens, disponível em: http://www.dnaftb.org/9/bio.html

• Wessel GM. Y does it work this way? Nettie Maria Stevens (July 7, 1861 – May 4, 1912) , Mol Reprod Dev. 2011 Sep;78(9):Fmi. doi: 10.1002/mrd.21390.

• Nettie Stevens, disponível em https://www.britannica.com/biography/Nettie-Stevens

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Seja Maker!!!

Quando falamos de tecnologia vários pensamentos diferenciados vêm nas mentes das pessoas: não é para mim; isso é coisa de nerds; é para quem tem dinheiro. A imagem estereotipada de um aluno, ou aluna, pálidos, de óculos fundo de garrafa atrás de um monte de livros está bastante ultrapassada.

Nerdy girl sleeping with a pile of books

A Geração Young Millenium trata-se da geração que nasceu conectada, com a tecnologia digital em suas mãos. Não é raro, mas ainda muito surpreendente, para as outras gerações a facilidade que essas crianças, hoje já também jovens, dominam o celular e o computador. A impaciência é uma característica, fatos os desviem dos objetivos são rapidamente descartados.

No entanto, são crianças antenadas educadas por pessoas que não tiveram a mesma forma de educação que elas. Uma educação padronizada que replica modelos de salas de aula da época da Revolução Industrial tipo linha de montagem. Uma sala, 40 alunos, entra o professor, despeja o conteúdo, sai e entra outro, despeja mais conteúdo. E no fim de tudo é avaliado através de provas o que “aprendeu”. Aprendizagem passiva (Figura 2).

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Como a tecnologia entra nesta nova mudança?

Antes para termos acesso a alguma informação mais específica íamos até uma biblioteca, fazíamos um cadastro, informávamos a bibliotecária qual o assunto, e dependendo da complexidade deveríamos aguardar alguns dias. Hoje na palma da mão temos praticamente toda informação que queremos. Mas é informação, não conhecimento.

O processamento dessa informação através do estudo é que nos dá a base do que precisamos saber, e reter. Nosso cérebro precisa de tempo para aprender.

A primeira grande mudança em novas formas de aprendizado foi o surgimento dos computadores pessoais, caros e acessíveis só para quem estudava em bons colégios. Mas a estrutura de aula permanecia exatamente igual, agora com 40 computadores.

Então surgiram os Geeks, pessoas ligadas em tecnologias, em geral computadores, games e ultimamente robôs de pequeno porte. Mas a velocidade das novidades e de sua obsolescência programada faz com que só esses “brinquedos” sejam insuficientes.

Não dá mais para ficar sentado na frente do computador (a TV está deixando de ser consumida por esse público) jogando, programando. E um novo movimento está surgindo: por que consumir se eu posso produzir? Mas como produzir?

Simples. Milhares de pessoas no mundo estão compartilhando suas experiências boas ou ruins, engraçadas ou trágicas através de vídeos publicados na Internet. Vídeos que diferente do professor chato da sala de aula tem uma linguagem muito mais próxima a este público, informal e de fácil assimilação. E estes vídeos também ensinam, e assim as pessoas estão em suas casas construindo coisas com as ferramentas que tem.

Segundo a Youtube Insights 2018, 31% dos brasileiros consideram o Youtube como fonte de aprendizado, 79% afirmam que é melhor assistir a tutoriais na plataforma do que ler instruções.

O Geek está virando Maker. Isso significa que a educação deixa definitivamente de ser passiva e se transforma em educação ativa, aprender fazendo. E isso não significa necessariamente que deverá fazer corretamente da primeira vez, os conceitos sobre errar também estão sendo atualizados como aprendizagem. Aprender como não se deve fazer também é aprender.

Os espaços makers são oficinas de criatividade e inovação aonde a pessoa desenvolve projetos desde a concepção até a execução final. A aprendizagem é o caminho, e aprender por si é muito mais eficiente do que simplesmente assistir uma aula expositiva. Segundo Blikstein (2018) ensinar ciência deve ser um processo de aprender fazendo o que os cientistas fazem, e não aprender sobre o que eles fazem.

Apesar de ser um espaço livre no seu uso (Figura 3), não formal para transformação de idéias. Ele converge arte, ciência e tecnologia. Além da auto manutenção e auto produção. Então alguma disciplina é necessária para que haja organização e segurança.

Foto: Priscilla Fiedler

Diferente da aprendizagem formal em um mesmo projeto a criança poderá programar sensores em uma placa Arduino, que é um pequeno circuito que pode responder a uma programação básica que auxilia em conexão de sensores, e comandos computacionais. Imprimir seu projeto em uma impressora 3D para peças plásticas. Ou construí-la em uma CNC (Comando Numérico Programável), máquina que usina materiais e transforma desenhos de CAD em peças reais de acrílico, nilon, metal. Produzir um painel de Led, entre outras inúmeras técnicas permitidas. Assim estuda princípios de Física, Matemática, Eletrônica, Mecânica, Programação, Robótica, Materiais, Administração, Empreendedorismo ao mesmo tempo.

A importância dessa mudança na aprendizagem é o fato de que a nova geração não só precisa aprender as novas tecnologias como vai utilizá-la como novas ferramentas de trabalho.  O último Fórum Econômico Mundial afirmou que 65% das crianças trabalharão com habilidades que não existem hoje ainda. Assim como antigamente as crianças voltam ao lúdico, manual e artesanal para construir o futuro, de forma mais segura e eficiente.

Escolas do país todo estão se adaptando a esse novo estilo de ensino, complementando o tradicional, mas participar depende do interesse da criança. A função mais importante dos pais será estimular esse movimento, tirar seus filhos, assim como a si mesmo do sedentarismo, e dar vazão ao estilo Maker. Pode ser que a maior disrupção será entender a partir daí que o quarto do seu filho não será mais simplesmente um quarto bagunçado. Pode ser que ele esteja virando um espaço Maker e você nem percebeu.

 

Referências:

http://www.foursales.com.br/carreira/as-previsoes-do-forum-economico-mundial-sobre-o-futuro-do-trabalho/

http://movimentopelabase.org.br/wp-content/uploads/2016/08/6.3-Cie%CC%82ncias-da-Natureza_Ana%CC%81lise-de-Paulo-Blikstein-Stanford-Univeristy.pdf

https://exame.abril.com.br/marketing/existem-dois-tipos-millennials-muito-diferentes/

http://www.clubedecriacao.com.br/ultimas/youtube-insights/

http://espaconav.com.br/

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Segurança alimentar e nutricional: precisamos falar sobre isso

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16 de outubro: Dia Mundial da Alimentação, uma celebração da criação da FAO-ONU

 

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) comemora o Dia Mundial da Alimentação no dia 16 de outubro de cada ano para celebrar a fundação da Organização, ocorrida em 1945. Os eventos são organizados em mais de 150 países, tornando-se um dos dias mais celebrados no calendário da ONU. Esses eventos visam promover a conscientização e a ação global para aqueles que sofrem com a fome e a necessidade de garantir a segurança alimentar e dietas nutritivas para todos(1).

Atualmente o conceito de segurança alimentar vai além do acesso ao alimento. Ele perpassa pela qualidade do alimento e seu modo de produção e é melhor definido pelo termo “segurança alimentar e nutricional (SAN)”.  Segurança alimentar e nutricional pode ser conceituada como a garantia do direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidades suficientes e de modo permanente, com base em práticas alimentares saudáveis e sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais nem o sistema alimentar futuro, devendo se realizar em bases sustentáveis. Além disso, a alimentação adequada é um requisito básico para a promoção e a proteção da saúde, sendo reconhecida como um fator determinante e condicionante da situação de saúde de indivíduos e coletividades(1,2). Desta forma, a SAN implica não somente em reduzir a fome, mas combater todos os agravos à saúde decorrentes da má alimentação, incluindo a obesidade e as doenças crônicas. Atualmente, o Brasil vive a situação chamada transição nutricional, em que há aumento da obesidade em detrimento da desnutrição – sendo assim alcançar a SAN é um grande desafio.

E a nossa alimentação vai mal: nos últimos dez anos houve redução do consumo de alimentos in natura, como frutas e verduras, e aumento do consumo de ultra-processados. O prato típico do brasileiro, o famoso arroz com feijão, também está sendo deixado de lado. Paralelamente, dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade da população está obesa e diabética em todas as camadas da população, com crescimento mais acentuado nos últimos dez anos(4).

O estilo de vida atual favorece também o maior número de refeições realizadas fora de casa e o maior consumo de calorias, composta, na maioria dos casos, por alimentos industrializados e ultra-processados como refrigerantes, cerveja, sanduíches, salgados e salgadinhos industrializados. Entretanto, comer mais calorias, não significou melhorar a ingestão de vitaminas e minerais, pois não se observa redução nos casos de anemias e deficiência de vitamina A, considerados problemas de saúde pública. E ainda persistem altas prevalências de desnutrição crônica em grupos vulneráveis, como as crianças indígenas, quilombolas, residentes na região norte do país e aquelas pertencentes às famílias beneficiárias dos programas de transferência de renda, afetando principalmente crianças e mulheres que vivem em bolsões de pobreza (4,5).

Este cenário epidemiológico reflete os avanços do Brasil na luta contra a fome e a desnutrição, porém o acelerado crescimento do excesso de peso em todas as faixas etárias e de renda deixa clara a necessidade de medidas de controle e prevenção do ganho de peso. Nesse sentido, criou-se a agenda de Alimentação e Nutrição, com destaque para a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), implantada em 1999 e atualizada em 2011, com o objetivo de reorganizar, qualificar e aperfeiçoar as ações para o enfrentamento da complexidade da situação alimentar e nutricional da população brasileira. As ações incluem reorganizar a atenção nutricional dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), proporcionar melhor qualificação de todas as pessoas envolvidas no processo alimentar (do campo à mesa), maior incentivo à pesquisa sobre alimentação e nutrição, promoção da participação da população e articulação de diferentes setores da alimentação (5).

E qual o nosso papel nesse cenário? Primeiramente, comer é um ato político. A escolha alimentar de um indivíduo ou de um grupo com base na sua procedência é agir politicamente(6). Minimizar o desperdício de alimentos e priorizar o consumo de produtos originados de sistemas sustentáveis são bons exemplos de ações a serem tomadas no dia a dia. Segundo dados do IBGE, 30% dos alimentos adquiridos são desperdiçados. A legislação brasileira sobre desperdício de alimentos é limitada e dificulta a doação de alimentos, cabendo à sociedade brasileira encontrar sua própria maneira de lidar com o problema. Algumas políticas como a PNAN tem impacto positivo na redução de perdas por meio da criação de bancos de alimentos e restaurantes populares, bem como ações educativas em diferentes espaços sociais. Atualmente, alguns movimentos internacionais também começam a ganhar força no Brasil, como a aquisição de produtos hortícolas fora de padrões estéticos, “SaveFood Brasil”, “Slow Food”, entre outras(7). É essencial que a população conheça a trajetória dos alimentos, da produção até o consumo, ou seja: saber comprar, conservar e aproveitar cada alimento de forma consciente. Medidas simples, como comprar de produtores locais, evitar comprar em quantidades excessivas e planejar as compras diminuem o descarte de alimentos. Um dos principais mitos existentes é que comer adequadamente custa caro – se desperdiçamos menos, usamos nosso dinheiro com consciência. Evitar o desperdício favorece a alimentação saudável – para o corpo e para o planeta.

 

 

Referências

1) http://www.fao.org/brasil/pt/

2) Jaime Patricia Constante, Delmuè Denise Costa Coitinho, Campello Tereza, Silva Denise Oliveira e, Santos Leonor Maria Pacheco. Um olhar sobre a agenda de alimentação e nutrição nos trinta anos do Sistema Único de Saúde. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2018  June [cited  2018  Oct  10] ;  23( 6 ): 1829-1836. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232018000601829&lng=en.  http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018236.05392018.

3) Vasconcellos Ana Beatriz Pinto de Almeida, Moura Leides Barroso Azevedo de. Segurança alimentar e nutricional: uma análise da situação da descentralização de sua política pública nacional. Cad. Saúde Pública  [Internet]. 2018  [cited  2018  Oct  10] ;  34( 2 ): e00206816. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2018000205016&lng=en.  Epub Mar 01, 2018.  http://dx.doi.org/10.1590/0102-311×00206816.

4) http://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2017/abril/17/Vigitel.pdf

5) http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_alimentacao_nutricao.pdf

6) http://www.cfn.org.br/index.php/o-vilao-do-prato-saudavel/

7) Henz, Gilmar Paulo, & Porpino, Gustavo. (2017). Food losses and waste: how Brazil is facing this global challenge?. Horticultura Brasileira, 35(4), 472-482. https://dx.doi.org/10.1590/s0102-053620170402

Imagem: http://www4.planalto.gov.br/consea/comunicacao/noticias/2017/outubro/dia-mundial-da-alimentacao-seguranca-alimentar-para-migrantes

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Os riscos da poeira para o trabalhador rural

Uma reportagem da BBC Brasil chamou atenção no dia 28 de agosto deste ano, sobre a morte de trabalhadores brasileiros soterrados em armazéns de grãos (Leia aqui a reportagem) . Dentre alguns exemplos, uma informação acende o alerta: o número de mortes por acidentes nestes locais teve alta de 140% em 2017 em relação ao ano anterior. Legislação preventiva existe, o país dispõe de uma Norma Regulamentadora específica para os trabalhadores rurais, a NR-31, com um parágrafo tratando apenas de Silos, 31.14.

Silos, armazéns de grãos.

 

Os riscos mais evidentes nestes locais são: de explosões, ergonômicos, de lesões no trato respiratório e do globo ocular, físicos e acidentes como quedas, estrangulamentos e sufocamentos. A fim de evitar acidentes fatais, a NR-31 prevê que o trabalho no interior do silo deve ser realizado por, no mínimo, duas pessoas, uma ficando na parte externa e ambos com cinto de segurança e cabo vida. Outro fator importante a ser tratado é o risco de explosão, inerente ao trabalho de receber produtos, armazenar, transportar e descarregar; a qual cada atividade produz poeira em concentrações e condições propícias para uma explosão. A temperatura de ignição da nuvem de poeira varia conforme o material armazenado, por exemplo, enquanto a Canela sofre ignição a 230ºC, o arroz a 450ºC. (Assista aqui um vídeo mostrando uma explosão em nuvem de poeira).

“A poeira aliada aos gases tóxicos e pesticidas ainda podem causar ao trabalhador rural desordens respiratórias, como rinite, sinusite, otite, asma brônquica, pneumonite” (Conheça mais sobre as doenças respiratórias). Ao se tratar de limites de tolerância da poeira, a Norma dos trabalhadores rurais é apoiada pela NR-15, sobre insalubridade. O anexo XII da NR-15 regulamenta os limites de tolerância para poeira minerais e os demais componentes podem ser encontrados nos anexos XI, XIII e XIV sobre limites de tolerância de agentes químicos e biológicos.

Porém, mesmo com uma legislação atualizada (2011) e completa, falta fiscalização. De acordo com o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais, o número de profissionais ativos é o menor dos últimos 20 anos, temos 2305 auditores fiscais em exercício e 1339 cargos estão vagos. Com estes dados seria equivalente a um auditor fiscal a cada 14.621 trabalhadores com carteira assinada atualmente.

Conforme destacou a reportagem da BBC, são mortes evitáveis. Com gestão de riscos e de segurança e saúde do trabalhador, as terríveis estatísticas poderiam ser reduzidas e cada trabalhador ter sua vida e dignidade a salvo.

Referência

Silos: http://www.ufrrj.br/institutos/it/de/acidentes/silo.htm

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Meninas, trabalho doméstico e escola

O Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014, realizou um levantamento estatístico com 174.468 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos ocupados no serviço doméstico no país. Nessa pesquisa mostrou-se que o trabalho infantil dentro de residências é, em geral, reservado às meninas, 94,2% das crianças. Entre elas, 73,4% são negras e 83%, além de trabalharem na casa de terceiros, realizam afazeres domésticos em sua própria casa. [1]

As consequências do trabalho infantil doméstico são tanto físicas quanto emocionais: elas podem desenvolver lesões por esforço repetitivo, severas alergias por exposição a produtos químicos, risco de acidentes e mordidas de animais. Há também o risco de assédio sexual por parte dos patrões ou homens que habitem o local de trabalho. [1]

Os serviços domésticos estão na vida de todas as meninas. É na idade do brincar que ocorre uma separação dos papéis entre homens e mulheres. As meninas tem contato com miniaturas de eletrodomésticos, bonecas, mini vassouras para limpar. Aos meninos, o quintal e as ruas, os joelhos sujos de terra, carrinhos e ferramentas. [1]

Em pesquisa realizada pela Plan em 2013, retratou a divisão de tarefas domésticas em suas casas entre as meninas e meninos, evidenciando a discrepância entre a quantidade de tempo dedicado para tarefas entre os dois gêneros. A figura 1 mostra um pouco dessas diferenças. O tempo gasto para tarefas domésticas é retirado de tempo de estudo e lazer dessas meninas, o que pode prejudicar seu desenvolvimento educacional. [2]

Em um trabalho desenvolvido na USP em 2011, mostrou-se que as meninas que têm essa rotina de trabalho doméstico acaba por ver a escola como um ambiente mais agradável, tratando os estudos como lazer já que o tempo de lazer lhes foi retirado pelas obrigações domésticas. Porém, segundo o FNPETI, trabalhando em jornadas tão longas, as meninas não conseguem dar continuidade aos estudos, começando um histórico de reprovações que culmina no abandono da escola antes mesmo do término do ensino fundamental.[3] [4]

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Figura 1: Distribuição de tarefas entre meninos e meninas nas casas brasileiras. Fonte: Plan 2013.

No trabalho realizado pela professora Ana Lúcia Kassouf, do departamento de Economia, Administração e Sociologia, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), e seus alunos do programa de doutorado em Economia Aplicada Marcos Garcias, Ida Bojicic Ono e Camila Rossi, integraram ao projeto PEP (Partnership for Economic Policy), os resultados analisados mostraram que o trabalho infantil, dentro ou fora de casa, atrapalha e diminui o desempenho das crianças na escola. “Nossas conclusões indicam que o trabalho doméstico, que muitas vezes não é contabilizado nas estatísticas sociais e não é considerado perigoso, deve ser incluído nas políticas de governo destinadas a combater o trabalho infantil”, ressaltou Ana. [3]

Na análise, monitorando diversos fatores relacionados às crianças, família e escola, ainda notamos que as crianças que trabalham, seja no domicílio ou no mercado, apresentam menor rendimento escolar, pois estão mais cansadas e sobrecarregadas”, ressaltou a professora. [3]

Nos EUA há um cenário parecido, numa pesquisa realizada pela Universidade de Maryland entre adolescentes de 15 a 19 anos, mostrou-se que os meninos gastam em média 30 minutos ao dia em tarefas domésticas enquanto as meninas cerca de 45 minutos. [6]

No passar dos anos o cenário não melhora para essas meninas, uma vez casadas, a responsabilidade do cuidado da casa será quase que exclusivamente delas. O IBGE em 2016 constatou que as mulheres dedicam, em média, 20,9 horas semanais aos cuidados com o lar, enquanto os homens dedicavam 11,1 horas semanais.[5]

Além das tarefas domésticas o levantamento do IBGE mostrou que cerca de 25% da população em idade de trabalhar cuidou de outras pessoas em 2016. O percentual de mulheres (32,4%) que se dedicavam a cuidar de pessoas foi superior ao dos homens (21%). [5]

A pesquisa mostrou que 49,6% das pessoas que receberam cuidados tinham entre zero e 5 anos de idade e 48,1% tinham entre 6 e 14 anos. O cuidado de idosos correspondeu a apenas 9% dos casos. Ou seja, a responsabilidade pelos cuidados dos filhos ainda é majoritariamente da mulher. [5]

Na figura 2, podemos ver a distribuição atual das tarefas dentro das casas brasileiras divulgada pelo IBGE em 2017. [5]

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Figura 2: Distribuição das tarefas domésticas nos lares brasileiros Fonte: G1

Desde criança as meninas são submetidas a uma carga maior de responsabilidades dentro de casa além de serem estimuladas com brincadeiras dedicadas às tarefas domésticas, por mais que isso possa trazer certo benefício no desenvolvimento da organização, outros fatores do desenvolvimento podem ser afetados. Com uma sobrecarga de tarefas, essas meninas podem não se dedicar tanto às atividades de lazer e escolar quanto deveriam. Durante toda sua vida serão cobradas nos quesitos de eficiência tanto ou mais quantos os homens no mercado de trabalho, mas estão acumulando duplas e triplas jornadas de trabalho. O quanto essa divisão injusta dos trabalhos domésticos pode estar atrapalhando o desenvolvimento intelectual dessas meninas e mulheres ao redor do mundo? Quanto a humanidade não poderia se beneficiar com mentes brilhantes que acabam presas dentro de casa a uma rotina de trabalhos domésticos?

O quadrinho “Era só pedir” (https://www.geledes.org.br/quadrinho-explica-por-que-as-mulheres-se-sentem-tao-cansadas/) traz o agravante de o quanto esses trabalhos domésticos são mais do que o ato, mas todo o esforço emocional que as mulheres carregam para manter um lar funcionando.

Referências:

[1] O perigo do trabalho infantil doméstico dentro e fora de casa. Cecília Garcia. Matéria feita em parceria com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) Atualizada às 10h30 do dia 27/04/2018.

[2] POR SER MENINA NO BRASIL: Crescendo entre Direitos e Violências. Pesquisa com meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do Brasil. Plan. 2013

[3] Trabalho infantil provoca significativas quedas no desempenho escolar . Ana Carolina Brunelli . Universidade de São Paulo. 2016

[4] Trabalho doméstico não prejudica meninas na escola. Ariane Alves. Ano: 46 – Edição No: 94 – Educação – Faculdade de Educação. 2013

[5] https://g1.globo.com/economia/noticia/mulheres-passam-o-dobro-do-tempo-dos-homens-com-tarefas-domesticas-aponta-ibge.ghtml

[6] A ʻGenerationally Perpetuatedʼ Pattern: Daughters Do More Chores. Claire Cain Miller. The New York Times. 2018

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Quando o segundo sol chegar…

…ou um outro planeta presente no sistema solar

Se você estava vivo no Brasil nos últimos 15 anos, tenho certeza que você já ouviu a música Segundo Sol, composta por Nando Reis e imortalizada na voz da querida Cássia Eller (sempre viva em nossos corações). Esses dias eu estava ouvindo a explicação do próprio Nando sobre a letra dessa música e ele conta que uma amiga espiritualista acreditava na possibilidade de existir um segundo sol (que não seria necessariamente um sol, mas um astro) que teria uma influência na vida das pessoas quando estivesse próximo a orbita da Terra.

Para os mais céticos parece uma loucura. Mas essa teoria está totalmente incorreta? Nesse texto trato dos relatos históricos e aspectos científicos da descoberta de um outro planeta presente no sistema solar.

Nibiru

Nancy Lieder é uma moradora do estado de Wisconsin nos EUA que afirma que na sua infância foi contatada por entidades extraterrestres cinzentas chamadas Zetas, que implantaram um dispositivo de comunicação em seu cérebro e a informaram que um planeta chamado Nibiru, ou o “Planeta X”.

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Nancy e seus amigos Zetas lá no painel do fundo

Segundo a descrição de Lieder, feita em 1995, o Planeta X teria cerca de quatro vezes o tamanho da Terra e estaria muito próximo da Terra no dia 27 de maio de 2003. Esse rolê todo faria com que a rotação terrestre ficasse completamente parada por cerca de 6 dias. Além disso, a aproximação de Nibiru iria desestabilizar os do pólos da Terra e gerar uma mudança de pólos, causada pela atração magnética entre o núcleo da Terra e do magnetismo que passa pelo planeta.

Eu, particularmente, acho essa história digna do Cabo Daciolo, não é mesmo? Com certeza a mudança dos polos da Terra é o que iria mudar eixo de tudo, virar o planeta de cabeça pra baixo (como se no universo tivesse parte de cima e parte de baixo) pra finalmente rolar a instalação da Ursal.

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Olha aí o mapa de ponta cabeça claramente depois da inversão de polos de Nibiru

Mas Nancy não foi a única a acreditar na chegada de um planeta externo não, ouviu?

Em 2012, Rodney Gomes, um cientista do Observatório Nacional do Brasil, modelou as órbitas de 92 objetos do cinturão de Kuiper e descobriu que seis delas eram mais alongadas do que o esperado. Rodney concluiu que a explicação mais simples era a atração gravitacional de um planeta distante. Dois anos depois, os astrônomos Konstantin Batygin e Mike Brown também se depararam com a possibilidade de existência de outro planeta que faria parte do sistema solar (não é Plutão, ok?). Em 2016 eles publicaram o artigo “Evidence for a distant giant planet in the solar system” mostrando os cálculos que evidenciavam a existência do planeta, que seria realmente gigantesco.

Os cálculos orbitais sugeriram que, se existir, este planeta tem a massa cerca de nove vezes maior que a massa da Terra e sua órbita seria um caminho elíptico ao redor do Sol que dura cerca de 20 mil anos. A sua menor distância da Terra seria o equivalente a 200 vezes a distância Terra-Sol, ou 200 unidades astronômicas. Essa distância o colocaria muito além de Plutão, no reino dos corpos gelados conhecidos como o cinturão de Kuiper.

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Em laranja, a órbita do Planeta 9

 Apesar das evidências a respeito da sua massa e da sua órbita, a localização do Planeta 9 ainda é desconhecida pois ele poderia estar em qualquer lugar de sua imensa orbita. No final do artigo os cientistas deixam claro que o propósito não era, de forma alguma, “perturbar” a ciência e sim mostrar as evidências encontradas em seus cálculos. Brown declarou: “Adoraria encontrá-lo, mas também ficaria feliz se outra pessoa o encontrasse. É por isso que estamos publicando este estudo. Esperamos que pessoas se inspirem e comecem a buscá-lo”.

                Na minha humilde opinião, se esse planeta vier, que venha logo.

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Referências

  1. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Early dynamical evolution of the Solar System: Pinning down the initial conditions of the Nice model. The Astrophysical Journal, v. 716, n. 2, p. 1323, 2010.
  2. BATYGIN, Konstantin; BROWN, Michael E. Evidence for a distant giant planet in the solar system. The Astronomical Journal, v. 151, n. 2, p. 22, 2016.
  3. BRASSER, R. et al. An Oort cloud origin for the high-inclination, high-perihelion Centaurs. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, v. 420, n. 4, p. 3396-3402, 2012.
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Vamos falar de política: por que somos #elenão?

43103402_1965589976840185_2460453641367060480_nO primeiro nome deste site já diz: somos cientistas (ou divulgadoras científicas). Somos muitas e somos plurais. Estamos pelo Brasil todo e até mesmo fora do Brasil, estudando ou trabalhando. O segundo nome diz respeito a um valor muito claro: somos feministas. Ser feminista, acima de tudo, como bem já disse a escritora e intelectual negra Chimamanda Ngozie Adichie, é acreditar na igualdade social e econômica entre homens e mulheres na sociedade. É também lutar por esses valores, estudá-los, escrever sobre eles, encorajá-los e praticá-los.

Se não tivéssemos que prestar atenção nas questões de gênero e de raça, no mundo e no Brasil, não veríamos que os premiados do Nobel são em sua maioria homens – 97% desde 1901 – e brancos. A diversidade e a representatividade não são a regra no universo acadêmico. Mas há pessoas lutando para que esses valores sejam.

Vamos retroceder alguns dias para cutucar uma ferida: em 30 de julho de 2018, o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro disse em entrevista no programa Roda Viva que não existe pesquisa científica no Brasil. No início de agosto, a hashtag #existepesquisanobr invadiu o Twitter e outras redes sociais, levando milhares de cientistas brasileiros a falar sobre seus projetos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Gente que trabalha e tenta contribuir para que a ciência brasileira avance em nosso país e a nível internacional. O que Bolsonaro disse simplesmente joga o trabalho de muitos profissionais no lixo e demonstra profundo desconhecimento sobre o que o Brasil produz, investe e estuda.

Em um apanhado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que consolidou as propostas de governo de cada candidato para ciência, tecnologia e inovação, vemos que Bolsonaro é o candidato do empreendedorismo, de simpatia pela iniciativa privada em conjunto com universidades, do investimento no ensino básico e na visão de ciência como sinônimo de “produto, negócios, riqueza e oportunidades”. Nada contra o empreendedorismo, a iniciativa privada e o investimento em educação básica. Mas ao focar de forma pesada no espírito empreendedor que as universidades deveriam ter e no produto que a ciência deveria gerar, ele não contempla o contexto social brasileiro.

Hoje, no Brasil, segundo o Censo IBGE de 2010, pouco mais de 12,6 milhões de brasileiros concluíram alguma graduação. Para aumentar esse número, as oportunidades precisam ser apresentadas, inclusive estímulos sociais, a exemplo das cotas para entrada em instituições públicas. Outro ponto: a ciência não é só pesquisa aplicada e produtos que geram riquezas. Há muita gente fazendo pesquisa básica e, no projeto de governo de Bolsonaro, esse item passa batido. Ele também propõe reduzir a quantidade de ministérios, mas não diz, por exemplo, onde encaixará ciência e educação. Bolsonaro, de fato, é uma incógnita.

Mas há pontos em que ele é claro e cristalino. Bolsonaro é abertamente a favor da tortura, da família tradicional que envolve apenas homem e mulher, já foi racista e sexista em muitos discursos e é admirador escancarado de uma das pessoas mais horripilantes da história da Ditadura no Brasil: o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Não adianta colar links para comprovar cada uma dessas coisas porque a verdade é que quem o defende sabe de seus valores e o apoia. Ele não tem vergonha de falar essas coisas. Ele é o que é. Mas nós não somos o que ele é. Quem é feminista nunca vai defender o que Bolsonaro defende.

Por isso, deixando bem claro os valores humanos que a gente quer ver em nosso país. Queremos candidatas e candidatos que apoiem a participação feminina em todos os setores da sociedade. Queremos ver nossas mulheres livres, sendo e exercendo o que elas desejam. Queremos respeito à população gay e trans e que essas pessoas possam andar nas ruas sem medo de serem agredidas. Queremos participação da sociedade na dívida histórica que temos com a população negra e indígena. Queremos entendimento sobre o que são os direitos humanos, além de candidatos que os apoiem. Queremos respeito à individualidade e diferença de cada ser humano. Esse mundo da tortura, do homem e da mulher branca acima de tudo, detentores do conhecimento e das boas educações, já marcou durante muito tempo a nossa história.

A história que queremos é bem diferente e não inclui retrocessos nos direitos humanos e sociais, tão pouco a apologia aberta pra que se cometa ainda mais violência no interior de nossa sociedade, tão débil de perspectiva de futuro. Nos colocamos contra qualquer forma de retrocesso, com avanço de uma ideologia neofascista encabeçada por Bolsonaro. As mulheres sempre estiveram à frente das lutas democráticas e da busca pelo bem comum; seguiremos firmes em nossos objetivos, até a vitória.