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Meu amigo secreto: precisamos falar sobre família, trabalho e amigos

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Nesta semana o facebook foi invadido por relatos de numerosas mulheres usando a hashtag #meuamigosecreto. Os relatos basicamente denunciavam posturas machistas de homens próximos como chefes, colegas de trabalho, familiares e amigos, ou seja, essas seriam descrições sinceras dos amigos secretos que raramente teríamos coragem de dizer na festa de natal antes de entregar o presente para o dito cujo.

Conjuntamente com a hashtag #primeiroassédio, também lançada a pouco tempo, causou uma comoção entre as feministas. Foi um incentivo e uma oportunidade para diversas mulheres que tinham vergonha ou receio de falar sobre machismo não como uma ideia abstrata mas sim como uma violência tão próxima e diária. Inundar o facebook com relatos tão sinceros e emocionados foi uma ótima oportunidade para o nosso desabafo e para que os homens que conhecemos fossem obrigados a ler as situações horríveis pelas quais passamos e que são naturalizadas. Os homens próximos, como irmãos, pais e colegas puderam perceber que agressões machistas não estão distantes e que, pior ainda, eles também podem ser nossos agressores.

meme retirado do facebook

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Muitas foram as denúncias sobre ex-companheiros abusivos, pais ausentes, pais que tratavam filhos e filhas de forma diferente por questão de gênero, familiares próximos que abusaram das mulheres enquanto elas eram crianças, irmãos que nunca dividiram as tarefas domésticas, militantes das mesmas organizações que tratavam as mulheres como menos capazes de discutir política ou até mesmo militantes que na teoria se dizem pró feminismo mas na prática são abusivos com as mulheres etc.

É assustador como as mulheres conseguiram se reconhecer umas nas histórias das outras. Não é excepcional, não é um ou outro homem que é abusivo. Os homens todos foram ensinados que ser abusivo, que forçar sexo violento (vide pornografia), que fazer violência psicológica, que estuprar (estupro dentro de namoro é algo assustadoramente comum e pouco denunciado) etc, é algo que é “coisa de homem mesmo” e que boys will be boys. Essa campanha é importante para mostrar o quanto o comportamento que é socialmente aceito de ser homem é prejudicial a todas as mulheres.

Apesar de ser um movimento de internet, de classe média, ou seja, tem os seus limites de alcance, acredito que foi um passo importante. Um passo para união de mulheres: que muitas vezes contaram histórias sobre o mesmo amigo secreto… O reconhecimento de que o abuso não é a exceção, que as situações de machismo pelas quais já passamos na vida aconteceram com milhares e milhares de mulheres, que o primeiro assédio de todas nós foi muito traumatizante, que muitas de nós tem um familiar pedófilo que nunca foi denunciado etc, faz com aumente nossa vontade de lutar e de expor as situações que são intoleráveis e que devem ser denunciadas, mesmo quando já não há evidências para denúncia na delegacia. Apesar de reconhecermos os limites de cada uma e o medo que muitas possuem de retaliações ou de que as pessoas não vão acreditar (cada uma deve denunciar se quiser e quando quiser, não se pode forçar a barra para que a mulher denuncie se ela não quer, deve-se conversar e confortá-la).

Imagem retirada do facebook

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Muitos homens escreveram textos para mostrar que a campanha “fulanizava” questões estruturais, outros falaram que os nomes tinham que ser apontados, outros reclamavam de outros coisas. Acredito que não devemos nos desgastar para explicar aos homens o por quê as mulheres devem se unir e expor machismo. Primeiro que eles não entendem que não é algo fácil para nós expor essa violência. Segundo que a maioria de nós seria desacreditada até mesmo pelos familiares. Terceiro que o “fulano”, se tivesse seu nome exposto, poderia nos processar por calúnia se não tivermos provas do assédio. Sabemos que o é machismo estrutural (e acredito que devemos nos unir contra o capitalismo já que apenas assim o machismo poderá de fato acabar, o que não significa que enquanto o capitalismo não acabar as mulheres devam ficar caladas), mas o fato de ser um problema coletivo não deve ser impedimento para expor as situações concretas e materiais. Sem materialidade seríamos chamadas de “loucas” e “histéricas” que estão inventando uma opressão que não existe…

Enfim, fato que o natal está chegando e com ele as festas em família. Essa é uma época muito tensa para muitas mulheres que serão obrigadas a conviver com parentes que abusaram delas. Pais, tios, padrastos, primos, amigo antigo da família etc etc etc. Por isso a importância da campanha de incentivo à denúncia. Sabemos que a denúncia no seio da família é algo difícil para todas nós, por isso precisamos nos unir já que juntas somos mais fortes.

Sem título

Imagem retirada do facebook com autorização da autora

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Mulheres cientistas: O que acontece na torre de marfim?


Alerta de conteúdo: assédio moral, assédio sexual, violência psicológica.


Se falarmos em tempo de formação, temos uma média de 10 anos entre o início da graduação e a obtenção do diploma de doutorado. Se falarmos no tempo entre a titulação e um emprego permanente, temos uns 5 anos, no mínimo. Um pouco menos para uns e alguns anos a mais para outros. Quem faz pesquisa em universidades tem que lidar com o malabarismo entre horas em sala de aula e horas dedicadas ao laboratório/investigação científica.

No Brasil, a grande demanda por doutores nos dá o dobro de postos de trabalho em comparação com EUA e países europeus. Em números, significa que temos 1 vaga permanente na academia para cada 6 doutores, enquanto EUA e Europa têm 1 vaga para cada 12. De acordo com o censo de 2013, o país tem 171.063 doutores, 1 doutor para cada 1.171 habitantes… Destes, 37,7% seguem a carreira acadêmica, uma profissão extremamente competitiva que exige algo semelhante a devoção por parte de seus aspirantes: menos que a metade será empregada em cargos permanentes.

Existe uma tradição nefasta dentro da academia de selecionar cientistas com base na pressão que conseguem aguentar durante a trajetória profissional: pressão por publicar, por empregos instáveis e incertos, pelas longas cargas horárias, etc. Recentemente, muitos jovens profissionais começaram a denunciar a debilidade mental e emocional que sofrem dentro das universidade e centros de pesquisa. Estudos mostram que a depressão no ambiente acadêmico é consideravelmente maior quando comparada com sua frequência na população em geral.

Além dos transtornos psicológicos, outros fatores podem influenciar a vida acadêmica. Afora a qualidade, muitas vezes o trabalho estará sujeito a sofrer vieses, preconceitos, por conta da universidade, do país e/ou da nacionalidade dx cientista. Esses vieses aumentam ou diminuem a visibilidade e credibilidade entre uma pesquisa de Cambridge/UK e outra da USP/SP, por exemplo. Questões desse tipo aparecem com frequência e transcendem o duo qualidade/relevância do trabalho que estamos apresentando, podendo inclusive flertar com racismo, xenofobia, regionalismo, eurocentrismo, por aí vai…

E, assim, construímos um pequeno panorama do porquê a carreira científica é tão difícil, independente do gênero dx cientista. A partir daqui poderíamos discutir maneiras de lidar com esse cenário, políticas públicas de fomento e popularização da ciência: do gabinete da presidência ao ensino fundamental, valorizar a ciência dentro das nossas casas e na Casa Civil. Poderíamos, por conseguinte, começar a discutir porquê investir em ciência é importante em todos os países, desenvolvidos ou em desenvolvimento.

E as mulheres? O que a questão de gênero tem a ver com tudo o que foi escrito até agora?

Nada.

Até então, eu escrevi como cientista. Principalmente, escrevi como se não houvesse desigualdade de gênero na ciência ou fora dela. Mas há. E ignorar não é uma opção.

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Nem todas as consequências causadas por discriminação de gênero estão analisadas e publicadas, infelizmente. O machismo está disseminado socialmente e reflete influências culturais mais do que segregação aberta e deliberada. Todo o conhecimento produzido ainda não libertou a torre de marfim do machismo e, em verdade, ela é um dos seus mais fortes e influentes perpetuadores. Sejam ações conscientes ou inconscientes, sutis ou explícitas, a carreira de uma cientista está constantemente sujeita à ataques e provações devido a sua condição de mulher dentro do organismo estruturalmente machista da academia.

Raras são as vezes que os casos de assédio moral e sexual são registrados e trazidos a público, em grande parte porque a vítima não encontra suporte para denúncia dentro da universidade, centro de pesquisa, etc. O processo burocrático não garante o anonimato da vítima, e questões hierárquicas podem expô-la ainda mais, sendo mais “fácil” optarem pelo silêncio. Essa configuração contribui para que muitos pensem que os problemas de gênero não existem ou não são tão graves.

Atentados contra a integridade física e mental de mulheres cientistas costumam ser desprezados por serem considerados irrelevantes ou apenas brincadeiras. Esse julgamento, entretanto, é executado pelo ofensor e por terceiros, criando uma estrutura na qual a vítima é condicionada a ignorar ou forçada a se calar. Vale lembrar que um simples comentário que faz alusão a esteriótipos de gênero pode diminuir a capacidade cognitiva a curto prazo [fonte, fonte ou divulgação]. O que dizer, então, da repetição sistemática de ofensas e das consequências do assédio moral durante anos?

Apesar da enorme importância em tratar do assédio sexual e moral no ambiente de trabalho, há uma relutância ou uma negação crônica da existência do problema por parte das lideranças científicas. A falta de levantamentos estatísticos do ambiente de trabalho acadêmico no Brasil ajuda a reforçar a falsa ideia de que não existem problemas. É como se nesses ambientes, ainda predominantemente masculinos, não houvesse nenhum caso de assédio ou fossem eventos singulares.

Para romper com esse paradigma, um grupo de jovens cientistas decidiu, em comemoração ao dia internacional da mulher, em 2015, realizar o primeiro levantamento de dados sobre a qualidade do ambiente de trabalho na astronomia do país, L.A.C.A.N. O levantamento contou com a participação de mais de uma centena de astrônomxs1 e tem como um dos seus objetivos trazer o debate sobre assédio moral e sexual para as universidades e centros de pesquisa, porém, com provas incontestáveis de existência de assédio.


1 A pesquisa alcançou em torno de 600 cientistas associadxs à Sociedade Brasileira de Astronomia, a qual apoiou o levantamento.


Os resultados sobre assédio moral são alarmantes tantos para homens quanto para mulheres. Mais de 76% das mulheres astrônomas e 64% dos homens relataram terem sofrido assédio moral. E, no caso de assédio sexual, fica evidente a vulnerabilidade das cientistas no ambiente acadêmico: 36% das mulheres contra 8% dos homens declaram terem sido vítimas de assédio sexual na carreira. Os números são ainda mais graves conforme a progressão funcional das astrônomas: 44% das pós-doutorandas sofreram assédio sexual e, de acordo com alguns relatos, as vítimas enfrentam, além de situações de isolamento e difamação por parte do ofensor, quadros de depressão e desestabilização emocional. Algumas, inclusive, abandonaram a carreira em decorrência dos assédios.

Diante desse quadro, podemos especular sobre as causas de algumas das famosas estatísticas elaboradas sobre as cientistas no ambiente de trabalho. Além de todas as dificuldades que qualquer cientista encontra durante a carreira, temos embasadas pesquisas mostrando que as mulheres têm menos chances de:

  • serem contratadas por instituições científicas [fonte];

  • serem escolhidas para realizar projetos ligados às ciências exatas [fonte];

  • de terem artigos científicos considerados de alta qualidade [fonte].

Em linhas gerais, os três estudos realizados submeteram o mesmo currículo (ou o mesmo artigo científico) a apreciação de outrxs cientistas, e o efeito de trocar o nome dx canditatx a vaga (ou a autoria do artigo) de “John” para “Jennifer” diminuiu o salário oferecido, as chances de emprego e a importância do artigo. Mais grave que isso é que tanto os cientistas quanto as cientistas tenderam a subestimar o trabalho de outras pesquisadoras. Infelizmente, ser vítima do machismo não exime aquele que sofre de dar continuidade à discriminação.

Além disso, em média, um cientista tem 45% mais artigos do que uma cientista [fontee eles têm o dobro de artigos como únicos autores. Os motivos variam desde o fato de termos mais homens como chefes de projetos/laboratórios/departamentos (o que muitas vezes garante a autoria em artigos de outros cientistas, para os quais eles proveram a verba e os recursos2), até situações nas quais as contribuições das cientistas são simplesmente ignoradas. Não é incomum homens serem incluídos como autores por conta de parcerias em outros trabalhos, por exemplo, enquanto mulheres são excluídas da autoria, apesar de contribuírem com ideias, a escrita ou análise de dados.


2 Caberia aqui discutir as implicações éticas dessa barganha acadêmica. No entanto, vamos deixar para uma próxima oportunidade.


Veja, a questão aqui não é discutir se há casos de mulheres com autoria fraudulenta ou homens com trabalhos roubados. A questão é apontar para casos estatisticamente mais prováveis e dar exemplos dessas situações nas quais o viés de gênero tem impacto muito mais negativo para uns do que para outros. Como, lamentavelmente, é o caso para as mulheres.

Continuando a analisar a autoria de artigos, as cientistas têm muito menos menos colaboradores e têm um papel menos central quando olhamos o panorama de pessoas publicando artigos científicos. Esse isolamento tem um forte impacto porque a carreira científica é, de modo geral, extremamente nepótica [fonte], principalmente nos estágios da carreira onde os contratos são feitos com base na avaliação de pares (peer-review).

Mas — você leitorx pode perguntar – por quais situações uma cientista passa? O que, de fato, acontece dentro dos laboratórios, salas de aula e durante reuniões?

Aqui eu vou pedir licença e contar alguns dos muitos casos que encontrei na carreira, sejam os que sofri ou que presenciei ou relatos que me foram contados e que não se restringem à minha área de atuação, mas a várias carreiras acadêmicas. Apesar de não haver qualquer tratamento estatístico sobre os mesmos, eles repetem-se, seja porque o ofensor é reincidente ou porque a mesma situação já se passou com outras mulheres em outras instituições.

Relato #1: Durante aulas num curso técnico, a aluna A sofreu assédio sexual de um professor. Ele comentava sobre sua aparência, alisava seus cabelos e braços na frente de toda a turma, que ria. O seu comportamento era conhecido por todxs xs professores do departamento, e várias outras alunas já haviam passado pela mesma situação.

Relato #2: Em todas as reuniões, a aluna B ouvia comentários brincalhões do seu supervisor sobre como ela era intelectualmente inferior aos outros alunos homens.

Relato #3: Após sofrer assédio sexual durante uma aula de graduação, a aluna C tomou conhecimento através de outro aluno que era normal que ela tivesse relações sexuais com o professor para assegurar boas notas à classe. A situação já havia sido imposta às alunas de outros períodos, com a intimidação partindo dxs colegas de turma.

Relato #4: Todas as ideias científicas que a aluna/cientista D expôs foram descredibilizadas pelo seu supervisor e posteriormente apresentadas como sendo de autoria dele.

Relato #5: Oferta de emprego negada porque a candidata era recém-casada e, por isso, poderia engravidar.

Relato #6: Durante reunião, a cientista E foi silenciada por estar, supostamente, no período pré-menstrual.

Relato #7: O professor Y negou disponibilizar material para a sua aula enquanto a aluna H não aceitasse ir a sua casa.

Relato #8: Enquanto negava ter atitudes preconceituosas contra mulheres, um pesquisador justificou que há poucas mulheres na ciência porque elas têm menos capacidade intelectual que os homens, biologicamente. As mulheres cientistas são exceções por serem as poucas com inteligência comparável a de outros homens…

Relato #09: Durante reunião de grupo, um estudante, enquanto apresentava seus resultados, foi incentivado pelo seu supervisor a ignorar e menosprezar os comentários da cientista presente. As mesmas retificações, quando apresentadas por outro cientista, homem, durante a mesma reunião, foram consideradas pertinentes.

Relato #10: Em uma reunião de um conselho científico, o diretor afirmou que não é mais necessária a ação afirmativa em pró aumento da participação de mulheres na ciência porque já existem muitas. Na presente reunião haviam quinze cientistas seniores homens e três mulheres: uma estudante, uma cientista e uma secretária.

A questão do assédio sexual é usualmente banalizada alegando-se que tanto homens quanto mulheres podem ser ofensores sexuais. Sob a luz da desigualdade de gênero, contudo, as duas situações não são equiparáveis. Sejam por questões de poder ou hierarquia, uma aluna sempre se encontrará numa situação muito mais vulnerável que um professor. Além do mais, conforme as estatísticas do grupo de astronomia, para cada homem assediado sexualmente, cinco mulheres são assediadas, o que significa que o grupo estatisticamente mais suscetível a sofrer assédio sexual são as mulheres.

A falta de mecanismos de denúncia, a reincidência dos ofensores e a omissão das lideranças científicas criam um ambiente de opressão para as vítimas de assédios moral e sexual. Ao desconsiderar ou desprezar políticas de prevenção e punição contra abusos, as universidade e centros de pesquisa acabam por acobertar os ofensores, numa nuvem de cumplicidade e ignorância, que projeta toda a incompetência dessas instituições ao enfrentar questões de gênero de maneira clara e ética. Enquanto não conseguirmos convencer a academia sobre o quão fundamental é garantir proteção às vítimas de abuso, pouco poderá ser feito para acabar com a discriminação de gênero encravada culturalmente na mente e nos hábitos dxs cientistas. Entender a urgência desses assuntos é crucial para um ambiente científico verdadeiramente livre de preconceitos.

Existe também quem tente descaracterizar a busca pela igualdade de gênero ao enumerar exemplos de mulheres bem sucedidas na academia. O argumento de aumentar o empenho intelectual com forma de ignorar as discriminações, as humilhações e os assédios sofridos apoia ainda mais a disparidade de oportunidades: para mulheres triunfarem em ambientes predominantemente masculinos, elas precisam ser mais competentes, mais resilientes, mais competitivas, mais inteligentes, mais independentes e emocionalmente indestrutíveis. A ciência é colaborativa: é necessário o trabalho de uma centena de homens comuns para que um gênio realize proezas. E enquanto é dado aos homens o direito de serem ordinários, a academia só aceita mulheres excepcionais.


Agradecimento especial para NM, CB, VP e Mme Curie que leram e releram dedicadamente o manuscrito desse artigo.

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Direitos humanos para além do clichê “defender bandido” – parte 1

A parte 2 desse texto sairá no dia 1º de dezembro aqui no blog!

UPDDATE: saiu aqui.

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

Direitos humanos é uma expressão que se tornou bem popular. Mas, infelizmente, o uso corriqueiro desse termo é feito de maneira pejorativa. Ouve-se muito que direitos humanos é coisa de gente que “defende bandido” e que “bandido bom é bandido morto”, ou que os direitos humanos devem ser destinados apenas a “humanos direitos”.É importante frisar aqui que os “cidadãos de bem”, aqueles que, em tese, são os humanos direitos também cometem crimes. Acontece que eles acreditam que os seus crimes são “menos” graves, como sonegar imposto ou falsificar carteira de estudante. É hipócrita e elitista “defender“ alguns crimes e desejar a morte para quem comete outros…

Além disso, dentre outras causas, programas policiais e jornais de televisão contribuem massivamente para a criação de uma cultura avessa aos direitos humanos. A falta de denúncia do genocídio da juventude negra de maneira institucionalmente aceita e o “excesso” de denúncias de crimes contra o patrimônio cometidos em bairros nobres – criando “pânico” para quem tem bens materiais – mostram que a mídia hegemônica não tem compromisso com a denúncia de crimes, mas sim com a manutenção dos pobres em “seu lugar”.

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

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Enfim, vamos tecer um histórico para tentar explicar de maneira mais honesta o que realmente são os direitos humanos, para que servem, “quem” é defendido por esses direitos etc. No texto de hoje iremos explicar o conceito para desmentir a ideologia que se criou em torno desse termo e, no próximo texto, teremos instrumentos para criticar a ideia de direitos humanos “universais, interdependentes e indivisíveis” – deixando claro que o problema dos direitos humanos, para a autora desse texto, não é a “defesa de bandidos” e sim a falta de efetividade e impossibilidade de criação de uma “cultura de direitos humanos” de fato em uma sociedade capitalista.

Simplificando, os direitos humanos surgiram com o final da 2ª guerra. Após a comunidade internacional presenciar os horrores vividos no holocausto[1], percebeu-se que era preciso “impor” um mínimo de direitos dos cidadãos que deveriam ser observados por todos os países. Alguns teóricos dos direitos humanos chegam a considerar a lei do Habeas Corpus de 1679 da Inglaterra como uma primeira norma de direitos humanos, já que o cidadão teria esse direito “contra” o Estado. Também temos um antecedente histórico com a Revolução Francesa e sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão[2].

Com o fim da segunda grande guerra, então, surgiu a Organização das Nações Unidas, em 1945. Também foi escrita a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948. A partir daí o número de tratados de direitos humanos visando proteger o cidadão contra a crueldade do Estado só aumentou.

É preciso ter em mente que a história dos direitos humanos que conhecemos é completamente ocidental. O oriente trata esse assunto de uma maneira completamente diferente. Além disso, também é eurocêntrica.

Voltando, com o desenvolvimento das normas de direitos humanos e das teorias envolvendo esse debate, a evolução trouxe outras normas conhecidas como “positivas”. As normas “negativas” seriam aquelas impostas ao Estado para que não interferissem nos direitos dos cidadãos, como os direitos civis (direito ao voto, direito ao devido processo legal etc). As normas “positivas” seriam aquelas que o Estado deveria observar para interferir na vida do cidadão para que este tivesse melhores condições de vida, como os direitos sociais (direito do trabalho, direito à saúde etc).

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

A ideia de que existem direitos negativos e direitos positivos traz uma certa aparência de que os direitos negativos não custam ao Estado e os positivos custam, o que não é verdade (falaremos mais sobre isso na segunda parte desse texto). Os direitos negativos precisam ser efetivados às custas de gastos dos Estado com polícia, aparato judicial, aparato eleitoral, etc. Existe uma certa ideologia de que os Estados devem primeiro colocar em prática os direitos negativos para só depois se preocupar com os direitos sociais, o que é falacioso, já que todos os direitos devem ser implementados conjuntamente. Implementar apenas os direitos negativos deve ser tratado como uma escolha política do Estado e não como uma fatalidade por falta de orçamento.

Voltando, as teorias mais modernas de direitos também acreditam que o Estado é responsável por implementar os direitos humanos entre os cidadãos, ou seja, não é apenas o Estado que pode violar e ser processado por cortes internacionais por causa de violação dos direitos humanos, mas também outros cidadãos.

Dessa maneira, chegamos à conclusão de que “direitos humanos” é um conceito amplo e que todos e todas somos destinatários dessas normas. Quando nos colocamos contra a existência de normas que nos protegem contra o Estado, podemos permitir o retorno de Estados (mais) totalitários. Quando dizemos que é tudo bem que a polícia mate um “bandido”, estamos dizendo que o Estado tem poder de vida e morte das pessoas, assim como no holocausto…

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

Créditos da tirinha: André Dahmer – malvados (https://www.facebook.com/malvadoshq/)

Não devemos cobrar menos proteção a pessoas que cometeram crimes. Devemos sempre cobrar mais proteção a todos e todas. Um argumento muito comum de quem se diz contra os direitos humanos é de que não deveria se proteger o criminoso e sim a vítima. Mas essas mesmas pessoas não acreditam tanto assim que se deve defender a vítima… Em casos de estupro ou abuso sexual contra mulheres, por exemplo, é muito comum a vítima ser “revitimizada” pelo sistema penal, sendo humilhada em seus depoimentos. Tendo sua palavra posta em dúvida, tendo que responder se estava embriagada ou se estava usando roupa curta, como se o fato dela estar bêbada ou de short justificasse a violência que sofreu… A ideologia dominante de que não se deve defender bandido também defende que mulher bêbada ou de roupa curta “pediu” para sofrer violência. E assim os direitos humanos das mulheres são violados diariamente, fazendo com que muitas sejam desencorajadas a denunciar os abusos pelos quais sofreram, aumentando a cifra negra dos crimes sexuais (não denunciados).

Os direitos humanos, como já expresso pelo próprio nome, são os direitos destinados a proteger todos os seres humanos. O Estado não pode ter o direito de tirar a vida das pessoas. Assim como não pode ter o direito de torturá-las ou tratá-las de maneira degradante e cruel. Não faz sentido falar das pessoas que tem seus direitos violados pelo Estado como se estas fossem distantes de nós, nós podemos ser os próximos a sofrer injustamente na mão do Estado.

[1] Cabe aqui um breve comentário sobre como outros genocídios não chamam/chamaram tanta atenção e “desprezo” internacional como o holocausto. Os genocídios de Ruanda e da Armênia, por exemplo, são pouco lembrados e estudados. Talvez pelo fato da Alemanha ser um país central no capitalismo mundial? Assim como o 11 de setembro é lembrado exclusivamente pelo ataque às torres gêmeas dos EUA, enquanto esse país foi responsável, por exemplo, por ataques terroristas em diversos países da América do Sul e Central (por exemplo o 11 de setembro do Chile) e segue impune…

[2] E os direitos eram para os homens mesmo: Olympe de Gouges foi enforcada por redigir com suas companheiras de luta a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã…

Bibliografia:

CORREIA, Marcus Orione Gonçalves . Uma leitura marxista da redução da maioridade penal. Margem Esquerda, v. 21, p. 21-26, 2013.

_________. O princípio da igualdade como técnica de efetivação dos direitos sociais. Revista do Advogado, v. 97, p. 135-148, 2008.

_________. Por uma metodologia dos direitos humanos uma análise na perspectiva dos direitos humanos. Revista do Departamento de Direito do Trabalho e da Seguridade Social, v. 4, p. 118-174, 2007.

GALDINO, Flávio. O custo dos direitos. In: TORRES, Ricardo Lobo Torres (org.). Legitimação dos Direitos Humanos. Rio de Janeiro/São Paulo: Renovar. 2002.

SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. 2014. Velhas e novas ameaças do neoliberalismo aos direitos trabalhistas.Disponível em http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Principios-Fundamentais/Velhas-e-novas-ameacas-do-neoliberalismo-aos-direitos-dos-trabalhadores/40/32475. Acesso em 10.11.15.

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O uso do tempo (e a falta dele) como objeto de estudo

Uma grande queixa que todas e todos nós ouvimos e/ou fazemos é sobre a falta de tempo. Geralmente ela aparece associada à correria da vida “moderna” e há quem idealize o “antigamente”, onde as coisas eram mais simples e tranquilas. Mas será mesmo?

A Universidade de Oxford, no Reino Unido, possui a maior coleção de diários onde as pessoas registravam suas atividades diárias. A coleção está abrigada no Centre for Time Use Research (Centro de pesquisa sobre uso do tempo, em tradução livre) e abrange 850.000 registros das vidas diárias de pessoas em quase 30 países num período de 50 anos.

A percepção que temos hoje é de que trabalhamos mais do que nossos pais e avós, mas os diários  mostram que o número de horas trabalhadas não sofreu grandes alterações – ao menos não nos países desenvolvidos onde os dados foram coletados. Uma mudança significativa é que mulheres passaram a trabalhar mais horas fora de casa. Com isso, homens passaram a fazer mais trabalho não remunerado (como o doméstico). Na média, no entanto, o número de horas trabalhadas (em trabalhos remunerados e não remunerados) permanece praticamente o mesmo há 40 anos. Um grupo demográfico que tem, de fato, trabalhado mais, é o de mães e pais solteiros.

Um ponto levantado pelo sociólogo Jonathan Gershuny, fundador e co-diretor do Centro, é a de que se dizer ocupado virou uma “medalha de honra” nos nossos dias. De fato, parece haver uma “glamourização” em estar sempre ocupado e sem tempo para nada – ainda que isso não seja necessariamente verdade.

Além de pesquisas sobre o uso do tempo, os diários tem servido como fonte para outros estudos, como cuidado com as crianças, gasto de energia e obesidade. O desafio para o Centro, agora, é continuar coletando material. Uma nova forma de fazer isso está sendo testada: trata-se de um acelerômetro no pulso e uma pequena câmera no pescoço, que tira fotos a cada 3 minutos. Até agora, 150 pessoas já passaram 24 horas com os equipamentos. Abaixo, um vídeo sobre o dia de uma das participantes.


Fonte: PEARSON, Helen.The lab that knows where your time really goes

Site do centro: Centre for Time Use Research