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Gigantes no Céu, o Desvio da Luz e o Eclipse de Sobral

Figura: “Noite aglomerada”. Artista: Vanessa Guida. No Instagram @universosubmerso.art

Aglomerados de galáxias: os gigantes do céu

Você já parou para pensar no que existe além do nosso céu noturno? Numa cidade grande só conseguimos ver algumas dezenas de estrelas devido à poluição luminosa. Mas se não tivéssemos esta limitação, veríamos milhões, bilhões e sextilhões de estrelas (1 seguido de 21 zeros!). Essas estrelas — que são objetos massivos e que possuem gravidade — se agrupam e formam “ilhas de estrelas” que chamamos de galáxias, que por sua vez também se agrupam e formam os aglomerados de galáxias. Os aglomerados são os maiores objetos ligados gravitacionalmente no Universo, portanto, são os nossos gigantes do céu. Além de estrelas e galáxias, eles são compostos por um gás extremamente quente (10 a 100 milhões de graus Celsius) em forma de plasma. Tudo isso é o que podemos ver ou detectar com algum instrumento. No entanto, a maior parte da massa dos aglomerados (~80%) é composta por algo que não podemos ver ou detectar diretamente: a matéria escura. Mas então, como é possível saber da existência de matéria escura nos aglomerados? 

Pesando gigantes com as lentes gravitacionais

Existem diversas maneiras de se medir a massa, ou seja, “pesar” objetos astronômicos. Na década de 1930, o astrônomo suíço Fritz Zwicky estudando o movimento das galáxias nos aglomerados mostrou que a quantidade de massa devido à matéria visível não era suficiente para explicar a velocidade desses objetos. Daí ele criou o termo “matéria escura” para denominar essa componente dominante nas galáxias e aglomerados, que não emite luz e só pode ser detectada devido a sua ação gravitacional. Na década de 1970, a astrônoma americana Vera Rubin chegou à mesma conclusão ao estudar o movimento de estrelas e gás nas galáxias, confirmando em vários estudos subsequentes a existência da matéria escura. (Apesar da importância da descoberta, ela nunca foi cogitada a receber um prêmio Nobel … mas isso já foi papo de um outro artigo). Tanto Zwicky quanto Rubin usavam métodos que assumem aglomerados como objetos bem comportados e em equilíbrio dinâmico, o que muitas vezes, não é o caso. Uma maneira mais “limpa” (ou seja, sem tantas suposições) de se pesar aglomerados se dá pelo uso do efeito de lentes gravitacionais. Imagine você aqui na Terra observando por um telescópio. Distante, na sua linha de visão está um aglomerado, que é um objeto massivo e portanto possui um campo gravitacional bem forte. Atrás dele, numa distância bem maior, temos ainda mais galáxias. A luz dessas galáxias de fundo ao passar próximo ao aglomerado sofre um desvio devido ao seu campo gravitacional que atua como um “lente” (veja o esquema na figura abaixo). Por isso o nome “lente gravitacional”.

Figura: Esquema do efeito de lentes gravitacionais. Créditos: NASA/STScI.

Como resultado você vai ver uma imagem distorcida dessas galáxias de fundo, como na figura abaixo, onde temos a lente gravitacional conhecida como “lente sorridente”. Fazendo medidas de quanto as formas das galáxias de fundo são distorcidas é possível estimar a massa do aglomerado que serviu de lente. Essa técnica também pode ser utilizada para medir a massa de galáxias e estrelas, pois esses objetos também servem como lentes. Assim, as lentes gravitacionais ocorrem em diferentes regimes (forte, fraco e micro) que dependem do tamanho e forma do objeto que serve de lente, sua distância até nós e até as galáxias de fundo, além do alinhamento em relação à nossa linha de visão.

Figura: Aglomerado de galáxias SDSS J1038+4849, conhecido como a lente “sorridente”
(smiling lens). Créditos: NASA & ESA.

O desvio da luz e um pouco de história

O desvio da luz por um objeto massivo já havia sido especulado pelo físico inglês Isaac Newton, em 1704. Entretanto, apenas em 1801 foi publicado o primeiro artigo neste tópico, pelo físico alemão Johann von Soldner, onde ele calculou e previu que raios de luz passando próximos ao disco do Sol sofreriam um desvio de 0.84 segundo de arco. Como esse cálculo se baseava na teoria corpuscular da luz, que não estava tão em voga na época, esse artigo não ganhou muita repercussão. 

Aproximadamente um século depois, em 1911, o físico alemão Albert Einstein refez os cálculos de Soldner e chegou ao mesmo valor para o ângulo de desvio dos raios de luz. Note que, nessa época ele ainda não tinha desenvolvido sua famosa Teoria da Relatividade Geral. Além do valor para o ângulo de desvio da luz, Einstein propôs que o esse ângulo poderia ser medido durante um eclipse solar. A primeira tentativa de fazer essa medição ocorreu no eclipse de 1912, na cidade de Cristina em Minas gerais, numa expedição argentina liderada pelo astrônomo americano Carlos Dillon Perrine. Mas devido ao mal tempo, não foi possível fazer a medição. No eclipse de 1914, na Rússia, houve uma segunda tentativa de medição do ângulo de desvio, mas os integrantes desta expedição foram detidos por causa da Primeira Guerra Mundial, que começou 20 dias antes do eclipse.              

Em 1915, Einstein finalmente publicou sua teoria da Relatividade Geral, e ao aplicá-la  para calcular o ângulo de desvio da luz, ele obteve um valor que era aproximadamente o dobro de sua previsão anterior sem a Relatividade Geral e também o dobro da previsão Newtoniana, ou seja, em sua nova previsão o ângulo de desvio deveria ser de 1.75 segundo de arco. Mais uma dessas histórias que demonstram que não só de trabalho duro vive um cientista, também tem que ter uma pitadinha de sorte. Se alguma das expedições anteriores em 1912 e 1914 tivessem conseguido medir o ângulo de desvio, a primeira previsão de Einstein estaria errada, pois como veremos a seguir, a sua segunda previsão com a Relatividade é a que se mostrou correta.     

O eclipse que possibilitou a medição do ângulo de desvio da luz ocorreu 101 anos atrás, nos céus da África e do Brasil. É nesse momento que a história da Relatividade Geral de Einstein cruza com a história dos brasileiros. 

O eclipse de Sobral

Em 29 de maio de 1919, na Ilha do Príncipe na costa africana e em Sobral no Ceará, duas expedições científicas observaram um eclipse solar total para testar a previsão da Relatividade Geral de que o desvio da luz teria o dobro do valor previsto pela teoria de Newton. A expedição em Sobral foi liderada pelo astrônomo irlandês Andrew Crommelin. A ideia era fotografar (com placas fotográficas) as estrelas posicionadas próximas ao Sol durante o eclipse. Depois, em julho, eles voltariam a fotografar essas estrelas na mesma região, mas sem o Sol para atrapalhar. Finalmente, comparando as posições das estrelas com e sem o campo gravitacional do Sol, foi possível determinar que o desvio sofrido era igual ao previsto pela teoria de Einstein. Historiadores afirmam que as placas tiradas em Sobral (veja a figura abaixo) eram as de melhor qualidade, portanto, decisivas para esta comprovação, o estabelecimento de um novo campo de pesquisa (lentes gravitacionais) e orgulho geral da nação!

Figura: Imagem positiva da placa observada em Sobral. Os pequenos traços brancos marcam as posições das estrelas usadas para verificar o desvio da luz devido a presença do Sol. Créditos: Royal Society of London/F. W. Dyson, A. S. Eddington and C. Davidson.

O ângulo de desvio medido no eclipse de 1919 em Sobral foi a primeira e mais famosa prova experimental da validade da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. Essa comprovação também marcou o início de um campo de pesquisa totalmente novo baseado nos efeitos do desvio da luz por corpos celestes, e que hoje conhecemos como lentes gravitacionais. O fenômeno de lenteamento gravitacional ocorre em diferentes regimes, e não produz apenas imagens bonitas (como anéis e cruz de Einstein, ou arcos gravitacionais) mas também pode ser usado em diversos estudos de Astrofísica e Cosmologia para entender a evolução do nosso Universo. Mas isso é tópico para um próximo post!

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O futuro da biodiversidade no nosso planeta: qual caminho “normal” queremos voltar a seguir depois da quarentena?

Todo dia a gente vê um meme diferente sobre o que faremos quando a quarentena acabar (sobre a pandemia do Covid-19) e a vida voltar ao normal. Depois da crise que estamos vivendo e das discussões que ela traz, a perspectiva de querer voltar ao que vivíamos antes da pandemia, em vez de pensarmos em melhores alternativas de lidar com a realidade, me parece equivocada, já que foi aquela normalidade que nos trouxe até aqui. Hoje vou dar um exemplo dos frutos que a nossa antiga normalidade deve colher daqui a algumas décadas e porque precisamos pensar desde já em nova normalidade: a extrema perda da biodiversidade causada pela perda de habitat em todo o mundo. 

Para discutir esse tema, vou apresentar os resultados de um estudo que acabou de ser publicado na revista Biological Conservation pelos pesquisadores Daniel Gonçalves-Souza, Ricardo Dobrovolski (Universidade Federal da Bahia) e Peter H. Verburg (VU University Amsterdam, Holanda). Eles utilizaram um modelo para prever a perda da biodiversidade a partir da perda de habitat que vai acontecer daqui a 20 anos e os resultados dessa pesquisa não são nem um pouco promissores.

Não dá pra dizer que esse prognóstico é surpreendente. A perda da biodiversidade no nosso planeta está acontecendo em uma velocidade cada vez mais acelerada. O aumento da população combinado com nossos padrões de consumos extremos estimulam a perda de áreas naturais e consequentemente, a perda do habitat de inúmeros seres vivos que viveriam nessas áreas. Isso resulta na extinção de diversas espécies, além da perda de serviços ecossistêmicos fundamentais realizadas por elas para o bem-estar humano. As atividades de agropecuária são as principais responsáveis pela redução de áreas naturais e, apesar de estarmos sentindo que a pandemia levou a uma redução geral das atividades econômicas do país, o desmatamento na Amazônia só acelerou  — com 51% de aumento em relação ao mesmo momento no ano passado (se liguem na importância de deixar as florestas intactas aqui). 

Com o objetivo de ter valores mais claros acerca dessa perda de biodiversidade para guiar o desenvolvimento de melhores estratégias de conservação em todo o mundo, os pesquisadores responsáveis pelo estudo intitulado “Perda de habitat, previsibilidade da extinção e esforços de conservação das ecorregiões terrestres”  (em inglês “Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions”) construíram um modelo para quantificar a ameaça de extinção de espécies de vertebrados terrestres como resultado da perda de habitat. Esse modelo é baseado numa relação espécie/área, considerando que o aumento de áreas disponíveis, também resulta em um aumento de espécies na área em questão (e vice-versa). Os pesquisadores utilizaram os dados de mais de 600 espécies de vertebrados distribuídos em diversas ecorregiões globais para aplicá-lo.

Esse modelo foi criado em duas etapas. Como uma das formas de quantificar a perda de biodiversidade é utilizar o número das espécies em extinção, eles primeiro avaliaram o risco de extinção atual, considerando a perda de habitat até o presente momento. Após terem uma previsão, eles compararam os resultados com os valores reais da lista vermelha de espécies em extinção da União Internacional pela Conservação da Natureza (ou IUCN em inglês). Esse passo é importante porque se os dados que o modelo previu para os valores atuais são iguais aos dados reais registrados de espécies ameaçadas, nos certificamos que as previsões do modelo se adequam à realidade. O modelo previu que 2073 espécies deveriam estar ameaçadas hoje e este número está muito próximo ao número real que consta na lista da IUCN. 

A segunda etapa do modelo foi construir uma previsão para o ano de 2040, depois de 20 anos de destruição. E é aqui que nossa velha normalidade entra em jogo. Os pesquisadores utilizaram as taxas de perda de habitat até a atualidade para prever a perda da biodiversidade que esperamos daqui a 20 anos. Infelizmente, se continuarmos os mesmos hábitos, essas taxas também irão se manter iguais e, mais de quatro mil espécies podem estar ameaçadas de extinção nas próximas décadas.

Adicionado a isso, o estudo identificou as ecorregiões que estão mais ameaçadas de perder biodiversidade. Os esforços de conservação estão normalmente voltados para áreas chamadas de hotspots de biodiversidade, que, basicamente, são áreas com um grande número de espécies importantes de serem conservadas, a exemplo das endêmicas (aquelas espécies que tem uma área de vida restrita a um certo local).  O interessante é que o estudo identificou algumas ecorregiões em perigo que estão fora desses hotspots de biodiversidade, chamando atenção para a necessidade de ampliação das estratégias de conservação no nosso planeta.  

Este mapa retirado do artigo em questão mostra a relação entre o número de vertebrados endêmicos previstos para extinção devido à perda de habitat acumulada projetada até 2040 (em vermelho – tons escuros indicam mais extinção) e a porcentagem da área de ecorregião que está protegida (em azul – tons escuros indicam mais área protegida). Fonte: Biological Conservation, volume 246 – Elsevier, 2020.

É importante pontuar que os autores afirmam que este não deve ser o único modelo utilizado para fazer essas previsões. Como é um modelo geral, ele simplifica as respostas diversas que as diferentes espécies podem apresentar em relação a perda de habitat, além de necessitar de dados das espécies que não estão sempre disponíveis. Precisamos de mais informações sobre a nossa biodiversidade para fazer previsões cada vez mais seguras sobre seu futuro. 

Mas, com certeza o artigo nos dá um grande exemplo para se repensar sobre qual mundo queremos (re)construir, quando sairmos desta pandemia. O jeito que estamos lidando com a natureza, da qual inclusive fazemos parte, não tem gerado consequências favoráveis. Agora que saímos do velho normal, talvez seja o momento perfeito para se pensar em um novo normal, muito mais responsável, consciente e ativo.

Fonte:

Gonçalves-Souza D., Verburg P. H., Dobrovolski R. (2020) Habitat loss, extinction predictability and conservation efforts in the terrestrial ecoregions. Biological Conservation, Volume 246, 2020, 108579.

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Por que precisamos defender o SUS para enfrentar a pandemia COVID-19?

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Figura 1 – “Viva o SUS” Ilustração Ana Cattini. No Instagram @_cattini

 

            “Saúde é direito de todos e dever do Estado” ou “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.”. As frases incorporadas na constituição brasileira de 1988 é repetida por muitos, e é bastante lembrada quando se pretende defender o Sistema Único de Saúde brasileiro. Garantir a saúde como um direito constitucional foi um grande avanço que culminou com a criação do sistema público de saúde, o Sistema Único de Saúde – SUS – pensado durante um período de turbulência política, entre os anos 67 e 77, dentro da luta contra a ditadura militar e democratização do país. Mas o movimento que originou o SUS, chamado de Reforma Sanitária Brasileira, não acabou aí. Ele continua e precisamos mais do que nunca nos engajar nele.

            Tenho alguma experiência como pesquisadora e defensora da Saúde Coletiva e, ao longo da minha trajetória, precisei desenvolver um certo otimismo crítico, mas não irresponsável, diante do caos. Esse precisava ser um caminho necessário para ensinar e pesquisar saúde, pois além de aprofundar nos problemas e críticas à condução desse grande projeto de oferecer serviços de saúde gratuitos para a população, é nossa tarefa pensar respostas e propostas criativas para enfrentar os problemas, seja os de saúde, ou de gestão. Lembrar que cidadãos, intelectuais, pesquisadores e trabalhadores da saúde pensaram, produziram e praticaram o projeto de sistema universal e gratuito para um país de extensão continental e marcado por profundas desigualdades sociais, em um momento tão duro da história do Brasil, me ajudou nessa empreitada.

            A discussão sobre a relação entre saúde, política e desigualdades não é nova, está na base do campo que se chama Saúde Coletiva. Esse é o campo que produz o referencial teórico e prático para o SUS. Entre seus pressupostos, estão a ideia de que um paciente vive em um tempo e um lugar, e que as doenças e a saúde são produzidas e afetadas por esse contexto, que também é determinante para o desfecho das doenças. Assim foi a história da professora  Rafaela de Jesus, uma das vítimas do coronavírus, que estava gávida e morava no interior da Bahia, em uma cidade que não possui leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). No Brasil, as grandes estruturas hospitalares estão concentradas principalmente nas capitais. Rafaela de Jesus, contaminada depois de ter contato indireto com turistas que estavam na região, precisou esperar uma ambulância de uma cidade maior que estava a caminho para atendê-la, mas infelizmente não chegou a tempo de tratá-la.

            Desde o início da pandemia da COVID-19 tenho escutado muito mais o nome no SUS. Circularam na internet imagens em defesa do SUS, e até um dos recém ex-ministros da saúde – que iniciou seu mandato sem muitos projetos concretos para o sistema de saúde pública e com interesses alinhados aos do sistema privado de saúde – participou de coletivas de imprensa usando uniforme do SUS. Mas afinal, por que precisamos defender o SUS como principal aliado para o enfrentamento de uma pandemia

            Para responder melhor essa pergunta, precisamos voltar um pouco na origem do sistema. O projeto da Reforma Sanitária Brasileira era ambicioso e utópico, no sentido de vislumbrar um futuro para o país que estava muito além do que se entendia como algo possível no Brasil das décadas de 60 e 70. O que propunha era uma transformação profunda na sociedade como um todo, para além de uma reforma exclusiva do setor da saúde. O movimento oferecia um projeto de sociedade, de melhoria das condições de saúde e da qualidade de vida da população brasileira, com um conjunto de práticas culturais, políticas, científicas, teóricas e técnicas, e mudanças na relação entre saber e prática. A Reforma Sanitária Brasileira não é definida por seus teóricos como algo do passado, que acabou. Essas pesquisadoras e pesquisadores que se dedicaram a estudar esse movimento, destacam que a reforma sanitária brasileira é um processo, está ai, e como diz Lilia Schraiber (p. 17) “o campo que se prepare, pois ainda há muito por fazer em matéria de Reforma Sanitária.”[i]

Precisamos defender um Sistema Público e Universal para o Brasil como o principal aliado no enfrentamento da pandemia da COVID19 porque o ele não se resume a serviços de saúde, apesar de serem extremamente importantes nesse momento. O SUS é uma rede complexa de serviços, pesquisa, controle de doenças, presente em todo país, consolidado há mais de 30 anos. Em sua origem e base teórica e política, estão as ideias de que garantir qualidade de vida para a população só é possível em uma sociedade justa e igualitária. Nesse quadro, são primordiais os esforços conjuntos de pesquisadores, políticos, profissionais de saúde de diferentes especialidades, bem como a colaboração da população como um todo. Também deve-se levar em conta que as doenças e a saúde atingem de forma diferente mulheres, homens, as populações negra e indígena, ricos e pobres, e as tão distintas regiões do país. Por isso, a saúde pública no Brasil precisa ser pensada de forma a diminuir essas várias desigualdades. Para alcançar esse objetivo, é preciso financiamento adequado do Estado, equipamentos e incentivo à pesquisa e às universidades para não só formar profissionais da saúde pública, mas também desenvolver tecnologia própria para tornar o SUS mais efetivo.

Enfim, é preciso considerar a saúde como algo complexo, que afeta e é afetada por outros setores, como trabalho, renda, lazer e educação. A pandemia da COVID-19 tem deixado isso muito claro, de forma extremamente dolorosa. Assistimos o número de óbitos acelerar de forma desigual no país, e chagar a situações dramáticas, como em Manaus. Nesse curto período, a produção cientifica de diversas áreas do conhecimento é acelerada para responder questões concretas, que acontecem, na prática, de forma muito mais rápida que o tempo da produção intelectual. Pesquisadoras já publicaram, por exemplo, um artigo[ii] que resgata permanências históricas da nossa sociedade, para discutir os impactos da pandemia na população negra e em espaços geográficos segregados a partir de exemplos de outras doenças. As autoras apresentam o dado de dificuldade de testagem em locais como o Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, e outros problemas relacionados a estratificação racial e de classe, não só no Brasil, como em outros países como os Estados Unidos, além de propostas para enfrentar esses problemas.

            Para saber mais sobre esse assunto, acesse os sites da Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, o CEBES, do Observatório de Análise Politica em Saúde e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Abrasco – que tem promovido a Ágora Abrasco, uma serie de debates sobre a pandemia da COVID-19 no Brasil. Respondo nesse texto parcialmente a questão que foi feita no título, e convido vocês, leitoras e leitores, a contribuir com a resposta, enviando comentários e dúvidas.

Referências Bibliográficas

[i] PAIM, JS. Reforma Sanitária Brasileira: Contribuição para a compreensão e crítica. Salvador: Edufba/Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2008. 356 pp.

[ii] GOES, Emanuelle F.; RAMOS, Dandara O.; FERREIRA, Andrea J. F. Desigualdades raciais em saúde e a pandemia da Covid-19. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3,2020, e00278110. DOI: 10.1590/1981-7746-sol00278

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O que é Física Médica?

Tenho certeza que você já fez uma radiografia para determinar se estava ou não com sinusite, ou conhece alguém que já fez uma tomografia para verificar se tinha cálculo renal ou quem precisou fazer uma cintilografia após um infarto. E como saber se a imagem que está sendo gerada corresponde mesmo àquela estrutura que queremos ver? Pergunte isso a uma física médica que ela saberá te responder com bastante segurança.

A física médica atravessa nossas rotinas já há muito tempo. Dizem até que Leonardo da Vinci teria sido um dos pioneiros desta área já que usava elementos da matemática e física para encontrar soluções para as demandas da medicina da época e estudar anatomia. Apesar da dúvida em relação ao seu início, é bem estabelecido que seu fortalecimento aconteceu após a descoberta da radioatividade e seu uso em benefício da saúde.

Figura 1 – Homem Vitruviano de DaVinci. Fonte: Wikimedia Commons

A medicina contemporânea está cada vez mais dependente de imagens (sejam radiografias, tomografias, cintilografias, PET-CT etc) e quem certifica que essas imagens são coerentes com a realidade e que os pacientes não estão expostos a doses de radiação ionizante maiores que as necessárias, são os físicos médicos. Dentro de um hospital, há três áreas básicas de atuação: a radioterapia, o radiodiagnóstico e a medicina nuclear (há outras possibilidades também, mas isso é assunto para um outro texto). Grosso modo, na radioterapia, as físicas médicas planejam as doses de radiação e campos que cada paciente vai receber durante suas sessões. É um trabalho personalizado e muito minucioso. No radiodiagnóstico, estes profissionais realizam testes de controle de qualidade em equipamentos, como mamógrafos e tomógrafos, para garantir o melhor custo-benefício entre imagem e dose. Na medicina nuclear há diagnóstico e terapia, então garantimos que cada paciente receba a menor dose possível com a melhor resposta diagnóstica ou terapêutica disponível a cada técnica. Claro que as atribuições são muito mais diversas que estas aqui mencionadas (conversaremos sobre isso em um outro dia), mas essa é uma forma simples, mas acurada de te explicar nosso papel em um hospital.

Figura 2 – Imagem de um exame de PET-CT. Fonte: Wikimedia Commons

Agora, imagine um baile. Temos a pessoa que seleciona as músicas, temos os dançarinos, a pista de dança, o bar…quando tudo funciona harmonicamente para que a experiência do baile seja agradável, o trabalho envolvido para ele acontecer fica invisível. E a música é o fio que costura todos os elementos. A física médica em um serviço de saúde é assim. Um trabalho invisível, que atravessa tantos profissionais da saúde, costurando os saberes harmonicamente de forma que a costura fique invisível, porém forte e coesa.

Figura 3 – Imagem por StockSnap de PixaBay

Quando há físicos médicos qualificados trabalhando em um setor, dificilmente há repetição de exames, as doses de radiação são otimizadas, os funcionários do setor não são expostos desnecessariamente, as terapias são mais eficazes e os pacientes, que são o norte de um serviço de saúde, saem daquela experiência com a certeza que foram atendidos da melhor forma possível. Neste sentido, é muito mais complexo ser uma física médica que uma física teórica, por exemplo, uma vez que nosso campo de trabalho envolve pacientes e todas as variáveis e incertezas associadas às pessoas e a vida (que insiste em extrapolar a ciência). 

Resumindo, a física médica é uma linda profissão que une a dureza e as certezas da física com a fluidez e as variáveis da medicina. Ela se cria e se renova a cada prática como uma ciência de fronteira tendo como ferramentas a tecnologia de ponta, com a frieza de suas frequentes atualizações, e a boa e velha lida humana, que traz o calor das relações e das recompensas que não se pagam com dinheiro.

Referências:

KRON, Tomas; KRISHNAN, Prem, Leonardo DaVinci’s contributions to medical physics and biomedical engineering: celebrating the life of a ‘Polymath’, Australasian Physical & Engineering Sciences in Medicine, v. 42, n. 2, p. 403–405, 2019.

The top 5 ways medical physics has changed health care, EurekAlert!, disponível em: <http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-02/aiop-ttf022808.php&gt;, acesso em: 26 abr. 2020.

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O sangue de pessoas curadas do COVID-19 pode ser a chave para o tratamento da doença?

O COVID-19 é uma virose causada por um novo tipo de β-coronavírus, nomeado de SARS-CoV-2, que causa sintomas de síndrome gripal, como tosse, dor de cabeça e febre, mas que pode ter complicações respiratórias graves e ser fatal. O COVID-19 apresenta alta transmissibilidade, sendo a principal via o contato próximo pessoa-a-pessoa. A transmissão no Brasil já é comunitária, e passamos dos 200 mil casos confirmados e 15 mil mortes. Porém nem tudo são notícias ruins, já temos também mais de 100 mil pessoas recuperadas do COVID-19 só no nosso país.

Essas pessoas recuperadas desenvolvem anticorpos contra o vírus que auxiliam no combate da infecção. A presença de anticorpos em quantidade suficiente para neutralizar o vírus é chave no processo de controle da infecção. Na ausência de uma resposta forte e específica, o vírus continua se replicando e se espalha pelos tecidos, causando lesão e a sintomatologia, em consequência. Além disso, o sistema imune entra em um estado pró-inflamatório generalizado, conhecido como “tempestade de citocinas”, que causa danos ao próprio organismo.

Em teoria, pacientes recuperados do COVID-19 foram capazes de montar uma resposta imunológica eficiente e possuem anticorpos que podem ter aplicação na prevenção e tratamento de outras pessoas. As vacinas estimulam a resposta imune, fazendo com que o nosso corpo produza anticorpos contra os patógenos. No entanto, essa resposta não é imediata, e no caso do COVID-19 não existe ainda uma vacina contra o vírus, por isso uma alternativa é a transfusão de plasma (fração do sangue que contém as proteínas séricas) de pacientes convalescentes, assim transferindo os anticorpos dos doadores para outros pacientes e conferindo a eles uma melhor resposta imune. Essa terapia é chamada de imunização passiva, pois a imunidade já é “dada pronta” para o paciente e não produzida pelo mesmo, e já foi utilizada em outros surtos na história da imunidade, principalmente antes da descoberta dos antibióticos. Com a imunização passiva é possível acelerar, aprimorar e direcionar a resposta imune, tornando-a mais eficaz.

O uso desta forma de terapia tem precedentes históricos, como em:

–  1918 na pandemia de H1N1, a Gripe Espanhola;

– 2003 no surto de SARS-CoV-1, um tipo diferente de Coronavírus;

– 2009-2010, na nova pandemia de H1N1,

– 2012 contra MERS (síndrome respiratória do Oriente médio), causada por diferente tipo de Coronavírus;

– 2013 no surto de Ebola na África.

Os dados variam bastante, mas no caso do H1N1 os estudos mostram a redução da taxa de mortalidade entre 20 e 80% nos pacientes tratados com plasma convalescente. No surto de SARS1, vírus da mesma família que o SARS-Cov-2, o uso da terapia de imunização passiva, reduziu a mortalidade em cerca de 20%.

A terapia de imunização passiva é mais efetiva quando usada profilaticamente do que como tratamento da doença, e quando usada como terapia é mais efetiva quando administrada em seguida ao surgimento dos primeiros sintomas. Essa variação temporal de eficácia pode ser explicada porque no início da doença existem poucas cópias do vírus, e por isso é mais fácil neutralizá-lo, além disso é mais fácil de alterar a resposta inflamatória inicial do que quando a mesma já está exacerbada. A eficácia da terapia depende também da quantidade de anticorpos presente no plasma do doador, por isso os mesmos devem ser mensurados por testes específicos. No combate às infecções virais, reações imunológicas específicas e reações inespecíficas, como a imunidade mediada por células e fatores do sistema complemento, atuam mutuamente e cooperam entre si para induzir a proteção imunológica. Na transfusão de plasma convalescente, além dos anticorpos, outros fatores envolvidos nesse processo seriam transferidos, inclusive proteínas as quais o paciente crítico apresenta deficiência, como fatores de coagulação, o que pode também justificar os benefícios deste tratamento. Pensando em seu uso profilático, o uso do soro de pacientes convalescentes traria benefícios para quem tem um grande risco de adquirir a doença, como os grupos de risco, profissionais da saúde e indivíduos com contato com casos confirmados de COVID-19.

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Imagem 1. Bolsa de plasma de doador coleta em banco de sangue. Fonte: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

Os riscos do uso da terapia de imunização passiva são semelhantes ao de uma transfusão sanguínea qualquer, como a transmissão de outras doenças infecciosas, reações imunológicas e alérgicas. Contudo, os protocolos de triagem utilizados nos bancos de sangue modernos, garantem o mínimo risco desses acontecimentos, com triagem extensiva para doenças infectocontagiosas e vários testes de compatibilidade. Contudo, evidências do uso de soro convalescente em pacientes com SARS1 e MERS, e o uso em pacientes com COVID-19, sugere que a imunização passiva é segura, e que seus benefícios justificariam os riscos.

Os primeiros estudos conduzidos com o uso de plasma convalescente de doadores recuperados no tratamento de pacientes graves com COVID-19, foram realizados na China, com grupos pequenos de pacientes (4 – 5 pacientes). Apesar dos resultados positivos demonstrados (pacientes com melhora clínica e alta médica), como nos estudos de Shen e colaboradores, 2020 e Zhang e colaboradores, 2020,  são necessários estudos controlados, na forma de ensaios clínicos, com um número maior de pacientes para que haja uma evidência científica robusta e confiável. Mesmo iniciais, os bons resultados desses estudos incentivaram e permitiram que outros estudos maiores fossem conduzidos em diversos países. A China divulgou no dia 28 de março, em nota no Xinhua Net, Beijing, que 245 pacientes com COVID-19 foram tratados com plasma de doadores convalescentes, e que 91 mostraram melhora clínica significativa, e a Comissão Nacional de Saúde afirmou que mais 544 doses de plasma convalescente estavam sendo coletadas. No dia 26 de março, a entidade reguladora americana FDA (Food and Drug Administration) aprovou o uso de plasma de pacientes convalescentes para pacientes críticos do COVID-19, sendo que ensaios clínicos já estão em andamento nos Estados Unidos.

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Imagem 2. Campanha do Banco de Sangue de Stanford, Califórnia, EUA. Fonte:  https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

 

O Banco de Sangue Central da Califórnia foi o primeiro hemocentro nos Estados Unidos a produzir plasma com redução de patógenos a partir de pacientes recuperados do Coronavírus, contando com voluntários doadores de plasma, bem como voluntários profissionais da saúde interessados em receber o plasma desses doadores de forma profilática. Iniciativa semelhante foi desenvolvida pelo Banco de Sangue de Stanford, onde voluntários recuperados do COVID-19 podem doar seu plasma para uso em pacientes críticos da doença. No Brasil, protocolos para avaliação desse tratamento estão sendo desenvolvidos no Hospital Albert Einstein, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, e noInstituto Estadual de Hematologia (Hemorio), entre outros centros de pesquisa que estão estruturando ou iniciando protocolos de pesquisa semelhantes.

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Imagem 3. Separação do plasma convalescente sendo realizada no HEMORIO. Fonte: ttps://www.ofluminense.com.br/saude/1610-ses-inicia-estudos-no-hemorio-para-uso-de-plasma-de-pacientes-curados-no-tratamento-de-infectados-por-coronavirus

Conforme avaliação crítica de Arturo Casadevall e Liise-anne Pirofski, publicada no The Journal of Clinical Investigation, para a implementação do uso dessa forma de terapia, são necessárias seis condições mínimas:

(1)    Doadores, que devem ser aptos à doação sanguínea, com COVID-19 confirmado e já recuperado;

(2)    Bancos de sangue, para realização das coletas dos doadores e transfusões, bem como toda a triagem do sangue;

(3)    Testes confirmatórios para o diagnóstico do COVID-19, pelo padrão ouro que é o RT-PCR;

(4)    Laboratório de virologia para realizar os testes, e avaliação da quantidade de anticorpos neutralizantes in vitro 

(5)    Protocolos de terapia e profilaxia;

(6)    Regulamentação e padronização dos protocolos, na forma de ensaios clínicos randomizados.

 

Tendo em vista o grande impacto da pandemia do COVID-19 sobre toda a humanidade, sua alta taxa de transmissão e o número de mortos que o vírus já causou, somada a ausência de tratamentos específicos torna-se de máxima relevância a investigação, com método científico rígido, de novas alternativas de tratamento. Assim,  o estudo do plasma convalescente é uma potencial esperança de tratamento, bem como permite o maior estudo desses anticorpos, de forma que podemos pensar em preparações mais purificadas e concentradas desses imunobiológicos mais para a frente. Para isso são necessários estudos científicos multicêntricos que permitam demonstrar a efetividade ou a falta da mesma para essa terapia.

A descoberta de um novo tratamento específico para o COVID-19 tem a capacidade de alterar o rumo dessa pandemia, no entanto, é preciso muito rigor científico para conduzir estes estudos. Enquanto não temos em mão os resultados e benefícios dessas terapias alternativas é importante manter as medidas de distanciamento social, o uso de máscaras caseiras na rua, e as medidas de higienização das mãos e etiqueta respiratória.

Referências:

Casadevall A., Pirofski L. The convalescent sera option for cointaining COVID-19. J Clin Invest. 2020. doi.org/10.1172/JCI138003

Central California Blood Center: https://www.donateblood.org/convalescent-plasma/

China puts 245 COVID-19 patients on convalescent plasma therapy. News release. Xinhua. February 28, 2020. Acesso em 02/04/2020. http://www.xinhuanet.com/english/2020-02/28/c_138828177.htm.

Coronavírus – Ministério da Saúde. https://covid.saude.gov.br

Hospital Albert Einstein: https://www.einstein.br/estrutura/banco-sangue/doacao-plasma-para-covid19

Roback J.D., Guarner J. convalescent plasma to treat COVID-19 Possibilities and Challenges. JAMA, 27 MArch, 2020.

Shen C., Wang Z., Zhao F., Yang Y., Li J. et al. Treatment of 5 critically ill patients with COVID-19 with convalescent plasma. JAMA, 27 March, 2020. doi:10.1001/jama.2020.4783

Stanford blood center: https://stanfordbloodcenter.org/convalescent-plasma-from-recovered-covid-19-patients/

Tanne JH. Covid-19: FDA approves use of convalescent plasma to treat critically ill patients. BMJ 2020;368:m1256 doi: 10.1136/bmj.m1256 (Published 26 March 2020)

Zhang B, Liu S, Tan T, Huang W, Dong Y, Chen L, Chen Q, Zhang L, ZhongQ, Zhang X, Zou Y, Zhang S, Treatment with convalescent plasma for critically ill patients with SARS-CoV-2 infection, CHEST (2020), doi: https://doi.org/10.1016/j.chest.2020.03.039.

 

 

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Contar para (re)lembrar

Reflexões sobre O Crime do Cais do Valongo, de Eliana Alves Cruz

Foi pelo Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro, que grande parte dos escravizados africanos chegaram ao Brasil durante o período em que ocorria intenso tráfico de pessoas. A região do cais é um espaço de construção de narrativas sobre o passado brasileiro, sobretudo sobre a história da escravidão.

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Desembarque da Princesa Real Leopoldina (1834, de Jean Baptiste Debret)

Pensando sobre a importância desse local e sobre a história da escravidão, a escritora carioca Eliana Alves Cruz, em seu romance O Crime do Cais do Valongo, constrói uma narrativa nela ambientada, numa reconstrução histórica do início do século XIX. A autora representa, a partir da poética da ficcionalidade, como seria o cotidiano e como seria a interação das diversas camadas sociais que compunham a sociedade da época. A obra apresenta como seriam tratados os escravizados que aportaram no Brasil, representando vozes, pensamentos, medos, inseguranças, tristezas e revoltas.

Publicado em 2018, a obra acompanha a busca por desvendar a morte de Bernardo Lourenço Viana, rico comerciante branco, Barão de Mata Cavalos, encontrado assassinado na rua, com sinais de mutilação. Os acontecimentos são narrados a partir de duas perspectivas: Nuno Alcântara Moutinho e Muana Lómuè. Nuno é um mestiço, filho de um português branco e uma mãe também mestiça. Segundo o narrador: “Sou um pardo, um mulato e fui criado ali, largado, solto entre os livros e pelas ruas fazendo pequenos serviços para a família do livreiro” (CRUZ, 2018, p.35). Já Muana é uma escravizada moçambicana, que além de fornecer informações sobre a morte de seu “senhor”, o barão assassinado, conta sua própria história de vida, de mulher livre em África até ser trazida para o Brasil.

Ser escravizado representa ser visto como um objeto, como uma mercadoria. O ser humano é esvaziado de subjetividade. Para o filósofo camaronês Achille Mbembe (2018, p.27), ser escravo significa uma tripla perda: “perda de um ‘lar’, perda de direitos sobre seu corpo e perda do estatuto político. Essa tripla perda equivale a uma dominação absoluta, uma alienação de nascença e uma morte social (que é expulsão fora da humanidade)”. Dessa forma, ao escolher a voz de uma mulher escravizada como uma das perspectivas principais para contar a sua história, a autora proporciona ao leitor acompanhar toda uma trajetória de uma mulher que luta para que sua humanidade seja preservada.

Pensar a construção da história a partir da voz do silenciado é uma forma de entender que o passado não é uma constante linear e universal, mas que é composto por muitas vozes que atuam de forma divergente a partir de relações de poder. Não é possível se pensar a escravidão do Brasil, por exemplo, a partir de apenas uma linha de raciocínio e uma cronologia. Ouvir a voz do silenciado é o caminho para pensar numa concepção mais ampla do passado. Mais do que esvaziar de sentido e humanidade os corpos, há também o processo de apagamento dos conhecimentos, o epistemicídio. Para Suely Carneiro:

(….) a história do epistemicídio em relação aos afro-descendentes é a história do epistemicídio do Brasil, dado o obscurantismo em que o país foi lançado em sua origem. O projeto de dominação que se explicita de maneira extrema sobre os afrodescendentes é filho natural do projeto de dominação do Brasil, um sistema complexo de estruturação de diferentes níveis de poder e privilégios. (CARNEIRO, 2005, p.104)

capa do livro crime do cais do valongo

Contar uma história a partir da perspectiva, mesmo que ficcional, daqueles que sempre foram silenciados é importante faceta do romance O Crime do Cais do Valongo. Mais do que apresentar uma obra de ficção, o romance instiga para que os vestígios do passado do Brasil possam ser refletidos. Ao conferir protagonismo de uma escravizada na reconstrução da narrativa histórica brasileira, Eliana Alves Cruz abre um caminho para que se possa (re)lembrar do passado de opressão, entender as estruturas que permanecem no presente e que seja possível resistir e construir um futuro mais livre de opressões e silenciamentos, no qual todos possam ser livres para serem protagonistas das próprias histórias.

REFERÊNCIAS

Carneiro, A. Suely. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

CRUZ, Eliana Alves. O crime do Cais do Valongo. Rio de Janeiro: Malê, 2018.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Trad. Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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Mar profundo e o coronavírus, qual a relação?

A pandemia do coronavírus deixou o oceano muito mais quieto. Atividades como o transporte realizado por navios, a passagem de transatlânticos turísticos e a exploração de gás e óleo foram enormemente reduzidas. A ciência tem mostrado que os ruídos advindos desses usos podem causar impactos em mamíferos marinhos, como por exemplo, baleias, que se comunicam através de sons no ambiente para atividades como alimentação e reprodução. Para os cientistas, portanto, este momento de “silêncio’ no mar é muito importante para avançar no conhecimento sobre como esses animais vêm sendo afetados por pressões humanas. 

O mar não apenas sente as consequência do coronavírus, mas também poder ter importante papel em seu combate. Testes utilizados para detectar a doença, bem como no caso da AIDS e outras SARS, foram desenvolvidos a partir de enzimas extraídas de bactérias encontradas em regiões de altas temperaturas e pressões no mar profundo, em um ecossistema conhecido como fontes hidrotermais (Figura 1). Graças à resistência dessas bactérias a altas temperaturas, enzimas presentes nesses organismos são utilizadas na detecção do vírus SARS-CoV-2, responsável pela doença COVID-19, através da técnica de PCR. Essas bactérias são, portanto, um bom exemplo sobre a potencialidade do mar profundo, considerado ainda pouco explorado e compreendido, para o combate e tratamento de doenças, dentre outros benefícios possíveis que podem trazer aos seres humanos (Le et al., 2017).

As fontes hidrotermais são ambientes bastante peculiares, formados em zonas de convergência de placas tectônicas da Terra. Tratam-se de verdadeiras chaminés, que liberam um fluido quente muito rico em metais resultante do contato da água do mar com o magma da Terra. Em um ambiente aparentemente inóspito como esse, bactérias se adaptaram, utilizando os fluidos ricos em compostos químicos como combustível para produzir sua própria comida, processo conhecido como quimiossíntese. Os produtos da quimiossíntese, por sua vez, são fonte de alimento para outros organismos. Ou seja, muitas comunidades biológicas de fontes hidrotermais dependem das bactérias quimiossintéticas para sobreviver (van Dover, 2014).

Figura 1. Fonte hidrotermal expulsando fluido resultante do contato da água do mar com o magma da Terra. Imagem cortesia da NOAA Office of Ocean Exploration and Research, 2016 Deepwater Exploration of the Marianas.

Nos últimos anos, as fontes hidrotermais despertaram o interesse dos seres humanos em um campo além da pesquisa científica, a mineração submarina. As substâncias químicas presente nos fluidos expelidos pelas fontes hidrotermais e que servem como matéria prima para a produção de alimento pelas bactérias são também fonte de metais de interesse comercial para os seres humanos. Quando em contato com a água do mar mais fria, o fluido quente da chaminé precipita-se em sulfetos polimetálicos, estruturas que possuem metais de interesse comercial para a indústria, como cobre, zinco e até ouro (SPC, 2013).

Muitas fontes hidrotermais são encontradas em regiões de fundos marinhos localizados além da jurisdição nacional dos países, parte conhecida como “a Área”. Essa zona não está sob a soberania de ninguém, o que significa que nenhum país do mundo pode controlar atividades de mineração nessas áreas por meio de suas leis, por exemplo. Além disso, os recursos minerais existentes na Área são reconhecidos como patrimônio da humanidade, ou seja, pertencem a cada um de nós e às próximas gerações por vir. O controle e elaboração das regulações (“regras”) que ditam a mineração na Área ficam a cargo de um órgão vinculado à Organização das Nações Unidas conhecido como Autoridade Internacional sobre os Fundos Marinhos (International Seabed Authority, ISA, em inglês).

Atualmente, o principal trabalho da ISA é desenvolver o passo-a-passo, ou marco regulatório, para extração de minerais na área para aplicação comercial (o processo envolve outras etapas antes da mineração para extração comercial, assunto para outra publicação). No entanto, essa é ainda uma discussão muito controversa, uma vez que assim como para a mineração terrestre, espera-se que essa atividade traga uma série de impactos ao ambiente marinho e sua biodiversidade. Além disso, os cientistas não estão convencidos de que há informação suficiente sobre o funcionamento do mar profundo e sobre as consequências de potenciais impactos da mineração nesses ambientes (Koschinsky et al., 2018).

Para discutir o processo, Estados Membros se encontram presencialmente duas vezes ao ano em Kingston, na Jamaica. Em 2020, no entanto, essas discussões vêm sendo impactadas pelo coronavírus, uma vez que há grandes restrições na entrada e saída de pessoas de seus países. Devido aos diversos interesses comerciais e estratégicos envolvidos na discussão, muitos Estados Membros se opõem à alternativa de dar continuidade ao processo de forma virtual, o que deverá ocasionar um atraso nas discussões.

Em uma nova realidade em que tentamos nos adaptar às novas condições e manter nossas atividades, reflito: mesmo em cenários complexos de decisão devemos continuar o diálogo e seguir em frente? Ou ainda é mais seguro aguardar e retornar às velhas práticas quando possível? Quais poderiam ser as implicações de uma ou outra?

O oceano grita no silêncio. Cabe a nós ouvir e acolher a mensagem trazida pelo corona ou apenas calar uma vez mais sua voz com nossos motores de navios e equipamentos de extração que nos ensurdecem há tantas décadas e talvez àquelas por vir.

Referências:

Koschinsky et al. 2018. Deep-sea mining: Interdisciplinary Research on Potential Environmental, Legal, Economic, and Social Implications. Integrated Environmental Assessment and Management, v.14, n.6, p. 672-691. https://doi.org/10.1002/ieam.4071 

Le et al. 2017. Incorporating ecosystem services into environmental management of deep-seabed mining. Deep Research Part II, v.137, p.486-503. https://doi.org/10.1016/j.dsr2.2016.08.007

SPC, Secretariat of the Pacific Community. 2013. Deep Sea Minerals: Sea-Floor Massive Sulphides, a physical,biological, environmental, and technical review. Baker, E., and Beaudoin, Y. (Eds.) Vol. 1A.

van Dover, 2014. Impacts of anthropogenic disturbances at deep-sea hydrothermal vent ecosystems: A review. Marine Environmental Research, v.102, p. 59-72. https://doi.org/10.1016/j.marenvres.2014.03.008

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Astronomia para Todas e Todos (Astronomia Inclusiva)

Esse texto pode até parecer um pouco fora do contexto atual mas é justamente pra isso. Em meio a uma época tão difícil eu precisava sentir uma esperança de futuros melhores.

Diante de situações complexas o ser humano consegue muitas vezes adaptar-se, vemos agora a nossa luta diária para enfrentar novos cenário do cotidiano mas o que pra nós é apenas uma sitação passageira, para muitos é o rotineito.

Algumas iniciativas têm ajudado pessoas que possuem alguma necessidade especial a aprender ciências e em especial a astronomia. Todos nos beneficiamos quando a astronomia e outras ciências são desconstruídas e reimaginadas sob uma luz diferente para criar atividades acessíveis a todos.

A astronomia é, para muitos, o primeiro amor por um universo chamado ciência. Respostas para perguntas como “de onde viemos?” e “para onde vamos?” são encontradas neste vasto campo. Se considerarmos este caminho realmente crucial para o desenvolvimento humano, devemos então nos perguntar: esse conteúdo é acessível para a todos, independente da idade, status socieconômico, capacidade mental ou física?

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Image credit: NASA/JPL-Caltech/ESA/Harvard-Smithsonian CfA

De acordo com o World Health Organização, cerca de um bilhão de pessoas, 15% da população mundial atual, têm algum tipo de deficiência, como alcança-las?
Os recursos podem ser escaços mas o entusiamos é grande. Clubes de astronomia, sociedades e esforços institucionais, principalmente realizados por voluntários, estão entre os melhores proliferadores de ciência no mundo, produzindo e oferecendo divulgação e materiais educacionais.

Programas de estudo escolarem em todo o mundo incluem principalmente temas sobre astronomia, uma enorme resposta tendo em vista que cidadãos com deficiência são menos prováveis para iniciar ou concluir a escola formal, eles também são condenado a um nível mais alto de pobreza, e sua participação como cidadãos é restrita devido à falta de apoio apropriado, infraestrutura e barreiras adicionais .

Um dos benefícios mais generalizados de imaginar, projetar e implementar ferramentas e atividades para cidadãos com alguma forma de deficiência é a necessidade de desconstruir a complexidade conceitual inerente de um idéia ou problema astronômico em sua forma mais componentes básicos. Este exercício fornece uma ponto de partida universal que é benéfico para comunicar astronomia de forma mais eficaz e claramente.

Para a comunidade com problemas visuais mais agravados, é cortada fora as fascinantes imagens astronômicas, esforços especiais foram desenvolvidos para décadas para tornar a astronomia acessível em formas alternativas e complementares. Livros em baixo-relevo e pôsteres de fenômenos cósmicos existem há décadas, juntamente com um quantidade limitada de literatura disponível em Braille. Modelos artesanais da posição constelações na esfera celeste trouxe as estrelas para os deficientes visuais.

Mais construções sofisticadas, por exemplo, um esfera oca aquecida semelhante ao sol,com ventiladores cuidadosamente colocados em seu interior, produz uma analogia térmica tátil de resfriador regiões – conhecidas como manchas solares – em nosso estrela-mãe, permita uma exoperência sensoriais imersiva.

Tendo consciência da importancia da acessibilidade deste universo oficinas para pessoas com deficiência intelectual foram projetados em torno do uso do sentidos, especialmente toque, ou através do uso de expressões artísticas.

Poderosamente impulsionado pelo Ano Internacional da Astronomia 2009, esforços globais foram feito para criar, montar e padronizar linguagem de sinais para fenômenos cósmicos, como como buracos negros, supernovas e planetas nomes. Essa linguagem permite uma comunicação muito mais clara e eficaz de idéias. Tais esforços fazem passeios em instituições, museus e exposições mais fáceis para se comunicar, permitindo uma método de educação. O observatório McDonald no Texas, por exemplo, projetou uma cadeira de rodas telescópio acessível para cidadãos com comprometimento da mobilidade.

Existem dois passos adicionais negligenciados de extrema importância para tornar a ciência verdadeiramente acessível. Primeiro, é a necessidade de divulgar e compartilhar livremente desenvolvimentos, procedimentos e implantação experiências. Poucos periódicos, se considerarmos aqueles com abertura acesso,é acessível a população. Em segundo, os departamentos e as comunidades científicas precisam projetar e implementar políticas públicas que fornecem recursos para, desenvolvimento e acesso à ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) para todos os cidadãos. Pessoas que podem abordar e usar a ciência em sua vida diária através dessas ferramentas pode alcançar uma melhoria qualidade de vida.

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Embora os recursos sejam limitados em nosso país, existem muitos esforços para aumentar a acessibilidade, algumas universidades públicas tem direcionados grupos que trabalhem desevolvendo ciencia para aproximação deste público.

Na UFRJ criaram uma réplica da Lua, assim os estudantes e visitantes puderam imagina-la a partir do toque. Esta criação tardou um ano em ser terminada, contou com materiais de baixo custo, como miçangaas e papelão. Este trabalho desenvolvido por meio dos pesquisadores não parou por ai, para efetivar uma cultura de acessibilidade, o grupo criou um material didático específico para esses alunos, um material que auxilie no desenvolvimento intelectual e facilite sua inclusão no meio social.

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Outra dificuldade é o ensino e aprendizagem pela comunidade surda, bem como no ensino tradicional, os professores dificilmente são capacitados para lidar de maneira professionais alunos que com essa necessidade. A Astronomia em LIBRAS possibilita ao Surdo não apenas o conhecimento de diferentes disciplinas, mas sintetiza ao demonstrar à comunidade cientifica uma nova abordagem para aprendizagem, ao desenvolver uma ferramenta de interação que possibilita uma melhor compreensão da metodologia proposta em sala de aula. É desafiador e instigante o trabalho com o ensino de Astronomia na comunidade Surda, ao analisarmos o interesse apresentado pelas crianças Surdas e ouvintes sobre a importância do conhecer a vastidão do Universo. É imprescindível ao professor que ensina Astronomia ter ao alcance material didático apropriado, de forma tátil, visual e auditiva; jogos didáticos e atividades lúdicas. Alguns canais no youtube tem auxiliado na difusão dos sinais relarivos a astronomia.

https://www.youtube.com/watch?v=q5N9bKbo6iA

Quando pensamos em acessibilidade temos de pensar em impactos causados em cenários em que um deficiente ocupe espaço de produção cientifica para deficientes, cenário ideal para criação de metodos educacionais mais próximos da realidade dos que têm essa demanda. A National Science Foundation menciona que em 2012, independente do campo, cerca de 11% dos estudantes de graduação relataram uma deficiência, enquanto cerca de 7% dos estudantes de pós-graduação relataram também.

Referências

[1] De Leo-Winkler, M.A. The universal Universe or making astronomy inclusive. Nat Astron 3, 576–577 (2019). https://doi.org/10.1038/s41550-019-0837-5

[2] http://www.ibc.gov.br/noticias/980-lua-criada-pelo-observatorio-do-valongo-e-aprovada-pelos-alunos-do-ibc

[3] https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/13/astronomos-criam-projetos-para-deficientes-visuais-conhecerem-universo.htm

[4] Marilia Rios Nunes. Possibilidades e Desafios no Ensino de Astronomia pela Língua Brasileira de Sinais. Dissertação apresentada ao Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo

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Morcegos e Coronavírus Evoluindo Juntos OU Como Prevenir Novas Epidemias?

Após várias teorias de conspiração para o surgimento do SARS-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, em março deste ano um grupo de cientistas publicou um estudo com fortíssimas indicações de que o SARS-Cov-2 não teria sido criado em laboratório e sua origem seria uma mutação do coronavírus presente em algumas espécies de morcegos e/ou pangolins. As duas espécies animais são portadoras de tipos de vírus similares ao que está causando a pandemia atualmente. Uma das possíveis origens da teoria de que SARS-Cov-2 teria sido criado em um laboratório em Wuhan (China) pode ter sido pelo longo histórico de laboratórios de pesquisa dessa cidade que estudam a relação entre coronavírus e morcegos. Esse não é um assunto novo, até porque outras espécies de coronavírus já são conhecidas por causar doenças em seres humanos como o coronavírus causador da MERS ou síndrome respiratória do Oriente Médio, mas nenhum deles tinha tido um impacto tão grande como o SARS-Cov-2. Você pode conferir mais sobre isso nesse texto aqui do blog.

transmissão

Figura 1: Modo de transmissão do coronavírus para seres humanos pode ser através de uma contaminação direta do hospedeiro ou pode envolver um hospedeiro intermediário como o pangolin no caso do SARS-Cov-2. Modificado de Freepik.

Entender a relação entre duas espécies que evoluem juntas pode nos dar indícios de como prevenir ou combater possíveis novas infecções causadas por qualquer agente que tenha origem animal, como ebola (causado pelo vírus Ebola) ou esquistossomose (causada pelo verme Schistosoma mansoni) por exemplo. É essa relação de evolução conjunta, chamada coevolução, que um grupo de cientistas da França, Estados Unidos, Madagascar, Moçambique, África do Sul, Ilhas Maurício e Seychelles estudaram entre 36 espécies de morcegos e diferentes tipos de coronavírus em uma área do sudeste da África continental (Moçambique) e diversas ilhas a oeste do Oceano Índico. O objetivo dos pesquisadores e pesquisadoras foi, entre outras coisas, avaliar possíveis formas de outros tipos de coronavírus se tornarem transmissíveis a seres humanos.

mapa de coleta

Figura 2: Mapa da região onde foram coletados os morcegos analisados em Joffrin et al. (2020). Crédito: Joffrin et al. (2020).

Em primeiro lugar foi avaliada a taxa de morcegos infectados com coronavírus. No total, 8,7% dos 1.036 indivíduos estavam infectados e a maior taxa de infecção foi encontrada em Moçambique, ou seja, no continente. Outras análises indicaram que a grande maioria dos vírus coletados era específica de uma determinada família de morcegos, ou seja, cada “espécie” de vírus é capaz de infectar somente uma família de morcegos (importante ressaltar aqui que família tem sentido taxonômico). Isso já era esperado, tanto que de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus (ICTV em inglês) coronavírus são estruturados filogeneticamente em subgêneros e, em geral, cada subgênero infecta uma família de morcegos. É por isso que a denominação dos subgêneros virais é feita de acordo com a denominação da família de morcegos infectada por estes (Ex.: vírus do subgênero Rhinacovirus infectam morcegos da família Rhinolophidae por exemplo).

Um dos resultados inesperados encontrados pelos pesquisadores foi o modo de evolução viral. A hipótese era de que os vírus que infectam morcegos na área analisada (Ilhas e continente a oeste do Oceano Índico) evoluíram pela transferência de hospedeiro seguida de adaptação, como acontece com coronavírus que infectam morcegos africanos de acordo com um estudo feito por Anthony e colaboradores (2017). Isso significa que uma espécie de vírus que infecta a espécie X de morcego sofre uma mutação e passa a ser capaz de infectar a espécie Y e, após isso, se adapta ao novo hospedeiro até que seja diferente o suficiente para ser identificado como um tipo diferente de vírus. Os vírus encontrados nos morcegos da região oeste do Oceano Índico, por outro lado, evoluem, em sua maioria, por um processo chamado coevolução. Isso significa que mudanças evolutivas em morcegos geram mudanças evolutivas no vírus que infecta aquela espécie de morcego. Essa forma de evolução é comum em relações de parasita-hospedeiro ou em plantas e polinizadores. Houve um caso, entretanto, em que um grupo de cientistas encontrou o mesmo vírus infectando duas famílias de morcegos em uma área de Moçambique.

Morcego evolução

Figura 3: Filogenia fictícia que ilustra a ideia de que o coronavírus evolui junto com o seu hospedeiro natural, o morcego. Crédito: Richard Borge para Scientific American.

O artigo termina com uma análise de três outros tipos de coronavírus conhecidos por infectar humanos e morcegos (NL63 Human CoVs, 229E Human CoVs e MERS-like Cov). Ainda não se sabe exatamente como esses vírus começaram a ter capacidade de infectar humanos, mas estima-se que tenha sido através de um hospedeiro intermediário (vírus do morcego infecta outro animal e esse animal transmite a seres humanos). Para encerrar, o grupo de cientistas concluiu que, como em outras zoonoses, o surgimento, mutação e infecção de humanos por novos vírus são associadas a mudanças no ecossistema como fragmentação de habitat, práticas intensivas de agropecuária e consumo de carne de origem selvagem. Essa conclusão vem de acordo com os resultados de outro artigo publicado semana passada (4 de Maio) por um grupo de cientistas do Reino Unido que chama a atenção para como as práticas de manejo animal (pecuária intensiva, com o uso indiscriminado de antibióticos, o grande número de animais e baixa diversidade genética destes animais) são um risco enorme para o surgimento de epidemias. Uma reavaliação da nossa relação e o  impacto que causamos no meio ambiente se faz necessária o mais rápido possível ou pandemias, distanciamento social e todo o sofrimento causado por essas doenças vai se tornar o novo normal.

 Referências: 

Joffrin L, Goodman SM, Wilkinson DA, Ramasindrazana B, Lagadec E, Gomard Y, Le Minter G, Santos A, Schoeman MC, Sookhareea R, Tortosa P, Julienne S, Gudo ES, Mavingui P, Lebarbenchon C. (2020). Bat coronavirus phylogeography in the Western Indian Ocean. Scientific Reports, 10 (1) DOI: 10.1038/s41598-020-63799-7

Coronaviruses and bats have been evolving together for millions of years: Different groups of bats have their own unique strains of coronavirus.” ScienceDaily. ScienceDaily, 23 April 2020. <www.sciencedaily.com/releases/2020/04/200423082231.htm>

Mourkas E, Taylor AJ, Méric G, Bayliss SC, Pascoe B, Mageiros L, Calland JK, Hitchings MD, Ridley A, Vidal A, Forbes KJ, Strachan NJC, Parker CT, Parkhill J, Jolley KA, Cody AJ, Maiden MCJ, Kelly DJ, Sheppard SK. (2020) Agricultural intensification and the evolution of host specialism in the enteric pathogen Campylobacter jejuni. Proceedings of the National Academy of Sciences, 201917168 DOI: 10.1073/pnas.1917168117

Anthony SJ, Johnson CK, Greig DJ, Kramer S, Che X, Wells H, Hicks AL, Joly DO, Wolfe ND, Daszak P, Karesh W, Lipkin WI, Morse SS, PREDICT Consortium, Mazet J, Goldstein T (2017). Global patterns in coronavirus diversity. Virus evolution, 3(1), vex012. https://doi.org/10.1093/ve/vex012

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“Precisamos (…) lutar por um outro mundo possível”- Entrevista a Marcia Tiburi

O que eu teria gostado de realizar esta entrevista numa esplanada, ao sol, com algum friozinho, a sentir um ventinho no rosto e a beber um chá ou um café bem quente! Sem tempo contado, para poder falar com esta mulher inspiradora das ciências sociais e humanas – Marcia Tiburi – sobre vários temas da actualidade, e ficar a conhecer melhor o seu pensamento. Mas, mesmo que fosse viável encontrarmo-nos pessoalmente, nos dias que correm isso seria impossível, porque nos encontramos em confinamento, devido ao coronavírus. E é precisamente sobre este tema que nos vamos debruçar, numa conversa virtual, como ditam as boas regras do isolamento social. Marcia Tiburi dispensa grandes apresentações: de nacionalidade brasileira é doutorada em filosofia, professora universitária, escritora, artista plástica, política e tem mais de vinte obras publicadas na área das ciências sociais, que falam por si.

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Marcia Tiburi (foto cedida pela própria) 

Helena Ferreira (HF) – Como analisa este contexto distópico, que ninguém esperava, e para o qual não estávamos preparados, que estamos a viver?

Marcia Tiburi (MT) – Helena, é um momento distópico, de fato. A sensação da distopia nos surge no momento em que algo que deveria ter ficado escondido, de repente, apareceu. É o que Freud chamava de “unheimliche”, quando o que é familiar se torna estranho e o estranho se torna familiar. Estamos dentro disso. Chance para que o sistema econômico seja modificado, pois é o sistema econômico que nos levou a esse estado de coisas. O vírus pode ser forte, mas em uma sociedade baseada em outros valores que não os da mercadoria, tudo seria mais fácil. O sistema econômico atinge o sistema de saúde e todos os sistemas, de educação, de informação. Nesse sentido, não é um exagero dizer que o capitalismo funciona como um vírus. Tem o mesmo metabolismo viral. Eu tenho descrito em meus livros, de ficção e não ficção, essas situações distópicas. Creio que a literatura já antecipou as catástrofes que as ciências sociais e a filosofia demoram muito para ver.

HF – O mundo está a responder de forma adequada contra o coronavírus ou esta luta tem sido prejudicada pelas agendas políticas nacionais de alguns governos?

MT – Certamente o vírus vem a ser uma pedra no sapato de um certo capitalismo, aquele que sustenta o capitalismo rentista. O capitalismo não é um bloco fechado, ele é uma teia, tem realmente a estrutura de uma web. Não é a toa que a internet tenha surgido no seu bojo realizando aquilo que é a racionalidade da dominação enquanto racionalidade técnica. O mesmo acontece com o vírus e, nesse caso, o biológico é análogo à técnica digital que se espalha por tudo e a todos conecta. Não devemos ter contato nesse momento, senão o digital e isso sinaliza para o fato de que a nossa experiência humana está sendo ontologicamente modificada. Governantes tirânicos ou fascistas nesse momento, agem em conluio com o vírus, como é o caso de Jair Bolsonaro que, em vez de enfrentar e combater o vírus, está deixando as pessoas morrerem à mingua no Brasil enquanto faz discursos absolutamente fascistas, de ódio e descaso com o sofrimento do povo.

HF – Corre-se o risco desta pandemia ser usada para aumentar o fascismo, o nacionalismo e a xenofobia? Ou, pelo contrário, esta crise poderá aumentar a solidariedade entre as pessoas e os povos?

MT – O fascismo e o neoliberalismo são duas faces da mesma moeda. Uma é política, a outra é econômica. Em todos os momentos em que o capitalismo se viu ameaçado ele contra-atacou ferozmente e não será diferente na sua fase neoliberal. O fascismo não existiria sem o avanço do neoliberalismo. E não teria sido implantado no Brasil se não fossem interesses tipicamente econômicos das elites neoliberais. Nacionalismo e xenofobia crescem nesses meios. O caso do Brasil é interessante porque se trata de um fascismo de subserviência, sem nacionalismo, já que Bolsonaro tem uma subserviência sadomasoquista a Trump. A xenofobia no Brasil é uma questão menos comum, porque temos por lá o racismo que é imenso. O ódio é mais lançado aos habitantes internos do que aos estrangeiros, afinal lá nascemos também todos como estrangeiros e há quem ainda se ache estrangeiro e colonizador. Poderíamos falar, se tivéssemos tempo, da figura do colonizador interno. Há, é verdade, a solidariedade que surge na contramão disso tudo. A questão é saber se ela poderá fazer frente a isso tudo. Se ela não é uma arma muito delicada diante das bombas atômicas do neoliberalismo de rapina que avança sobre a terra.

HF – A pandemia colocou a nu a fragilidade do ser humano, nesta era que a Marcia considera de desinformação. As pessoas, bombardeadas com notícias a toda a hora, sentem a ameaça à sua volta, o medo. Como considera que se podem proteger disto?

MT – Essa é a pergunta mais difícil. As pessoas foram capturadas subjetivamente pelo capitalismo, e muitos pelo fascismo em um processo complexo sobre o qual pouco sabem. Na prática, eu acredito que somos formados por meios. Somos subjetivados pelos meios, ou seja, somos construídos internamente pelos meios de comunicação. Os livros nos formam de um modo, diferente do modo como somos formados pela televisão, do modo como somos formados pelo computador, pela linguagem que se pode usar nas redes sociais. Todos os meios envolvem jogos de linguagem. Nesse sentido, podemos jogar o jogo de linguagem da reflexão, da literatura, da poesia, ou podemos jogar o jogo de linguagem da violência, do fascismo. Para nos protegermos, precisamos cuidar do que pensamos e melhorar nossa relação com os meios que utilizamos. Portanto, é preciso voltar à reflexão, ao raciocínio e à compreensão da complexidade.

HF – Não poderia deixar de perguntar: Há questões de género nesta crise? Isto é, o impacto do coronavírus é diferente para homens e mulheres? O que pode ser feito para colmatar essas questões?

MT – Há, certamente. O aumento da violência doméstica é algo que se expande em todos os países do mundo sob o confinamento. Em relação a isso, podemos denunciar e fortalecer as redes de apoio e informação às mulheres vítimas nesse momento.

HF – Sendo a Marcia uma grande defensora de que a filosofia não deve ficar confinada na academia e que deve promover a reflexão, pergunto-lhe, qual o papel da filosofia, e das ciências sociais, de um modo geral, no meio desta crise? O que têm a dizer? E qual a utilidade disso?

MT – A meu ver, não é possível tratar a filosofia, ou qualquer forma de conhecimento social, como algo dissociado do mundo da vida. De fato, há um prazer imenso na pesquisa filosófica super especializada. Ler e estudar filosofia é um prazer em si mesmo. Porém, há que se levar em conta a contribuição social do saber e da pesquisa. Além disso, creio que a filosofia constrói mundos, constrói patamares a partir dos quais se desenvolvem mentalidades que atravessam instituições e o mundo da vida. Mal usada ela pode produzir aberrações paranoicas. O presidente do Brasil é aconselhado por um “guru” que se diz filósofo que promove o avanço da paranoia no Brasil. Como dizia Freud: a paranoia é um sistema filosófico que não deu certo. Por isso, todos os professores de filosofia nesse momento devem sentir-se convocados a salvar o pensamento reflexivo que é o inimigo mortal do fascismo.

HF – Por último, pergunto-lhe: depois disto, acredita que o mundo vai ser o mesmo? O que muda? Tem alguma mensagem de esperança?

MT – Eu prefiro não trabalhar com o método da crença. Prefiro trabalhar com probabilidades relacionadas a análises e com muito cuidado na hora de falar. Há pouco tempo, uma jornalista me disse que tinha medo dos meus livros, de ficção e não ficção porque eles antecipavam coisas que estavam acontecendo. Não tem nada de místico nisso. Se trata de um processo em que investigação e observação se entrelaçam. O mundo vai continuar após o trauma e deve se esforçar por elaborar o trauma. Os países que tiverem governos menos mesquinhos, ou seja, menos atrelados ao neoliberalismo tendem a se reconstruir com menos sofrimento do que aqueles nos quais o neoliberalismo é a ordem subjetiva e objetiva. Infelizmente, esse é o caso do Brasil. Por lá haverá muitos mortos ainda, como há na Europa e nos Estados Unidos. Esse é um momento de decisão para todos em que vai contar o valor que se dá à vida e à ideia de uma comunidade humana. O neoliberalismo e o fascismo não tem interesse em constituir essa comunidade. O que pretendem é salvar seus sócios, apenas isso. Precisamos, portanto, lutar por um outro mundo possível. Eu creio que é possível, mas não sob o signo do fascismo-neoliberalismo.